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31 de out. de 2025

Trânsito


Por André Siqueira
 
O meu trânsito tem a linguagem
de painéis bem untados a medo,
onde rudos ventos são visagem
e momento-miragem que aceito.
 
A luz pode ser de grande agravo
ou de anafis nas coxas-alarde.
Mergulho de vida no mais caro
ou morte seca e simples a braille.
 
A certeza: pura contingência
na cova acima do nosso cérebro
sagitífero e vê diligência
cuspidora de rodas no metro.
 
Semáforos pingam melodias
coçadas pelo som sextavado
— arranco de incertezas são gritas
como anil que escoa açor pneumático.
 
E se retarda melhor o tédio
dos olhos sarnentos sem um plano,
sem um aurífero repeteco.
Sobra a cal onírica do crânio.

 

André Siqueira nasceu em Jacareí, interior de São Paulo. Escreve desde os 15 anos e possui poemas publicados nas revistas Ruído Manifesto, Acrobata, Mallarmargens, Arara, Gueto, entre outras. Colaborou na revista de literatura e arte de Mato Grosso, a Pixé.  Livros publicados: As Manhãs Fechadas (editora Gataria, 2020), Atravanco na Casa (editora Verlidelas, 2022) e O Sol Perfurado (editora Litteralux, 2024).

6 de set. de 2025

Certo dia...

Dedicado aos colegas escritores brasileiros que, apesar dos pesares, fazem a literatura brasileira contemporânea. 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Apresso o passo para não encontrar a delicatéssen Sabores de vida lotada. É quase a hora em que os pães saem do forno quentinhos e então se forma uma longa fila para pesagem e pagamento. Em vão. Escolho os sabores habituais e entro na famigerada fila. De onde me coube esperar, lanço um olhar desconsolado para o pequeno salão que há na entrada da padaria – nome que tinham as delicatéssen num passado recente –, e observo algumas mesinhas de madeira onde se sentam aqueles que resolvem tomar seus cafés acompanhados das iguarias que ali também são servidas.

Vagueio o olhar de um lado a outro, até que me detenho em uma mesa onde está sentado, de frente para a fila, um senhor idoso. Apuro o olhar sobre aquele homem de cabelos completamente grisalhos, óculos de grau, bem barbeado, e meu coração acelera no exato momento em que nossos olhos se encontram. Conheço-o. Sei que é um sujeito de olhar treinado na observação da vida que o cerca. Percebeu o meu olhar fixo, todavia não deu sinais de reconhecimento. Ficamos nesta observação mútua, segundos suficientes para que ele, cordial como é, faça um leve gesto de cumprimento, um “boa noite” silencioso a julgar pela expressão facial. Desvia o olhar para outra direção. Começo a suar frio, terá me reconhecido? Creio que não... Também desvio o olhar por instantes para, logo em seguida, furtivamente, voltar a examiná-lo. Parece-me um tanto abatido, o rosto transparece certa palidez. Ah, a idade impõe inexoravelmente o seu preço... Que esperar? A última vez que nos encontramos foi há quase quinze anos... natural que não tivesse me reconhecido, o tempo lhe alterou um pouco as feições, mudou as minhas também. Envelhecemos. 

A mocinha do caixa fala numa voz apressada: 

__ Próximo! 

A fila anda e eu me pergunto se o dinheiro que trago no bolso é suficiente para pagar o “pão do corpo”, enquanto o espírito devaneia imerso em memórias... 

* * * 

Rio de Janeiro. Corre o ano de 1953. Um jovem de vinte e cinco anos esgueira-se entre prateleiras de livros em uma livraria, certo de ali encontrar um escritor de quem era fã, e a quem reputava como a divindade da prosa de ficção. Viajara milhares de quilômetros para isto: conhecer aquele autor que ele lera, com quem se encantara, que decorara até certos trechos de suas obras. Buscava simplesmente ter a oportunidade de trocar umas palavras com seu ídolo, balbuciar sua admiração. Sabia que o autor era frequentador assíduo do local onde sentava-se, vez por outra, para leitura de novas obras. Debalde. O homem não estava ali. A resposta que obtivera de um funcionário foi das mais decepcionantes que um admirador pode obter. Doente. Muito doente. À beira da morte... 

__ Próximo! – volta a instar em meio ao burburinho de vozes, a mocinha do caixa. A fila anda, aproximo-me mais daquele senhor. Volto a observá-lo e vejo que está tomado de um ar absorto, parece ter o pensamento longe, alheio aos alaridos do mundo. Sinto-me ansioso, ao mesmo tempo em que desejo falar-lhe, apertar-lhe a mão, tenho vagos receios. E se fizer de conta que ele não está ali? Já não o cumprimentei mesmo que de longe? A maldita timidez me toma... 

* * * 

Janeiro do ano 2000. Embarco em um ônibus na rodoviária resolvido a encarar uma viagem de quinhentos quilômetros noite adentro. Levo nas mãos somente um envelope com os originais de um livro que acabara de escrever e que tencionava expor a certo escritor experiente. Saber de suas impressões de leitura, ainda que fossem negativas. Um amigo comum garantira promover nosso encontro. “Se irá ler, dizer algo? Bom, aí já não garanto”, disse-me. “Nosso amigo é um sujeito cortês, generoso. Recebe-o, isso posso assegurar”.  Encarei os quinhentos quilômetros na poltrona desconfortável do ônibus. 

* * * 

__ Próximo! Próximo! Próximooo! E a fila emperra porque uma madame, dessas que acham que o mundo gira ao seu redor, implica com a atendente, não se afasta do caixa, e a menina, por sua vez, anseia em atender novo cliente e livrar-se da inconveniente. Atenções se voltam para a cena. O senhor idoso também sai de sua introspecção, observa e balança a cabeça, esboçando um discreto sorriso nos lábios.  O mesmo sorriso com que há quinze anos me recebera. 

Na ocasião, depois de ouvir um breve histórico sobre a minha incipiente literatura feito por nosso amigo comum, sorriu e perguntou admirado: 

__ Quer dizer então que você viajou toda essa distância para vir ter comigo? 

Balancei a cabeça afirmativamente e gaguejando despejei em cima do homem que sim, que só pedia que desse uma lida nos originais, que me dissesse algo, qualquer coisa, não tinha pressa, eu esperaria o tempo que fosse preciso... e continuaria gaguejando não fosse o socorro de nosso amigo que, ao me ver naquele vexame, meteu no meio dessa enxurrada verbal um outro assunto ligado à literatura. A conversa virou para outra direção, puseram-se os dois a prosear. Calei-me aliviado. Havíamos sentado a uma mesa pequena, à beira de uma piscina na residência do escritor. Por baixo da mesa minha perna direita balançava nervosamente. Vontade de ir-me embora dali. Decorreram inesgotáveis dez, quinze minutos de planos para feiras literárias, lançamentos de livros, autores e obras, de modo que o escritor, durante aquele tempo, se dirigiu diretamente a mim apenas duas vezes. A primeira quando, no contexto da conversa que entretinha, lembrou o dito de Aníbal Machado: “Se todo teu corpo não participa do que escreves, guarda o papel e deixa para amanhã”. A segunda, para voltar a perguntar: 

__ Viajastes toda a noite então, meu rapaz. Não está cansado? É verdade. Que coisa… - e calou-se pensativo alisando com a mão o envelope que estava sobre a mesa, enquanto ouvia o que nosso amigo ia dizendo... 

* * * 

O próximo da fila sou eu. A moça pesa o pão e diz-me o valor. Pago-o e dirijo-me à saída. O escritor percebe a minha aproximação, sorri. Assalta-me a dúvida cruel. Paro ou não paro? Parei e cumprimentei-o: 

__ Olá, tudo bem? 

Embora se mostrasse um tanto quanto desconfiado e meio arredio, respondeu amigavelmente: 

__ Boa noite. Como vai? 

__ Bem. Vejo que esperas algo. Há preferência na fila para as pessoas...  –  procuro uma palavra amena. 

__ Para idosos? Sim, eu sei, mas é que aguardo minha esposa. Viemos tomar um mingau de tapioca que aqui servem. Delicioso. Ali está ela já quase a pagar a conta... 

__ Sim, então não demora... – retruquei obtendo a certeza de que ele não me reconhecera. – E a literatura? Como anda?

Seu rosto iluminou-se. Olhou-me fazendo visível esforço para situar-se quanto à identidade de seu interlocutor. 

__ Ah... a literatura... sempre muito difícil, uma luta tremenda – sorriu –, mas você sabe; a gente faz literatura para não ficar maluco, para não pirar. 

__ É verdade – animei-me com a recepção, e perguntei: - O senhor sabe quem sou eu? 

Franziu a testa e mirou-me o rosto com curiosidade, para afinal responder:

__ Não... desculpe-me, sou péssimo fisionomista... 

Disse-lhe meu nome. Sua fisionomia alegrou-se. 

__ Ah, sim, por que não falou logo? Sim, você esteve comigo e aquele nosso amigo... Mas já faz muito tempo, não? Sim. Como não? Recordo-me, enfrentou um estirão de estrada… Sim, que cabeça a minha, desculpe. Mas me diga, tens escrito? 

__ Sim. – e contei-lhe em breves palavras o que andava maquinando em matéria literária. 

__ Que bom, notícias alvissareiras. Ah! Afinal, aí vem vindo a janta! Não quer sentar-se conosco? 

__ Não, tenho que ir, desejo-lhes bom apetite. Prazer em revê-lo. 

__ Pela mesma forma. Bem, até mais – disse ao tempo em que me estendeu a sua mão direita. 

__ Até mais, mestre – respondi premindo-lhe de leve a mão, e me afastei. 

Fui andando sem olhar para trás, fui andando com um nó na garganta, porque a linguagem do pressentimento soprara-me que não nos veríamos mais...

Tanto que queria dizer-lhe, contar que lera nesses quinze anos, boa parte de sua obra publicada, tanto a comentar sobre situações e personagens que ele criara... aquele encontro avivou-me sulcos na memória. Realidade e ficção se misturaram... Teria ele, naquele nosso primeiro encontro, se recordado da viagem frustrada que fizera tantos anos antes? A minha expedição fora mais feliz, rendeu um incentivo sob a forma de prefácio que ele escreveu... Continuei andando por ruas mal iluminadas dirigindo-lhe mentalmente o sussurro de uma palavra magra porque insuficiente. Gratidão.

Gratidão e admiração maior ainda, pois aquele jovem de vinte e cinco anos que um dia ele fora, atirou-se às águas revoltas da literatura, mesmo sem o incentivo que não me negara. Por décadas a fio, guiou-se pelo instinto do criador literário. Cresceu de corpo, individualmente, por dentro, na consciência. Tornou-se uma referência na literatura.

O tempo, o grande senhor dos destinos! Quanto ele nos ensina nas camadas de vivências que vai gravando sobre nossos espíritos? Naquele ano 2000, eu não sabia que em 1953, o escritor, objeto da minha admiração, empreendera viagem semelhante para encontrar um outro escritor a quem por sua vez apreciava. Naquela noite, caminhando pelas ruas, de volta para casa, estive meditando sobre esse tênue mistério de escritores que se buscam, que se visitam não somente por meio de suas obras, mas pessoalmente quando assim é possível. No curso circular do mundo, o homem continua trilhando seu caminho na vida e na literatura. Como uma ampulheta que se escoa, se desvira e se escoa, e uma vez mais, e tantas outras vezes ainda, seguimos por gerações e gerações até que encontremos um saboroso tempo no qual aprendamos a ler o mundo e uns aos outros na inteira conexão de todas as coisas. Quando esta hora vier, emergirá como realidade, finalmente, o mais poderoso pensamento que nos tem feito caminhar. O pensamento da eternidade. 

* * * 

Lívia Teodoro

Poucas semanas depois daquele encontro com o velho escritor, em uma manhã de sol forte, chega-me o triste comunicado de sua morte. Consterno-me, reflito um momento, e fecho o notebook que me trouxe a notícia. Lanço mão de papel e lapiseira e começo a escrever um conto. Ponho-lhe o título: “Certo título... Em uma fila”.

14 de jul. de 2025

Duplicidade

Por Milton Rezende 
 
Quando nasci
nascia comigo
o oposto de mim.
Assim tenho dois nomes
que simbolicamente constituem
dois inimigos entre si.
 
Para caracterizar dois pólos
não é preciso enumerar os opostos
e nem as subdivisões ocorridas
através de concessões bilaterais
para se chegar a um entendimento.
 
O certo é que esse antagonismo
cristalizou-se no relacionamento,
aniquilando todas as tentativas
de integração entre as partes.
 
O diabo do outro sempre me negou
contradisse-me em público
desmentiu minhas verdades
impediu-me as atitudes
e por fim desmanchou meu casamento.
 
Aí então fiquei louco
e fui recolhido num hospício
onde me perdi eu mesmo num labirinto
de mentiras e desvairismo,
até que me matei.
 
E não é que o outro foi ao enterro,
carregou meu caixão e se riu de mim?
Mas depois ele também morreu
e ainda hoje estamos em conflito aberto.
 
Coisa que, se não traz as vantagens
do perdão pela unidade aparente,
pelo menos impede nosso julgamento
e nos livra do fogo interno/eterno
concedido aos que se pretendem coerentes.
 
Do livro O Acaso das Manhãs

 
Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

7 de jul. de 2025

Dias de semanas de delírio


Por Milton Rezende 
 
Segunda-feira eu subo as escadas correndo
de saudade e levo um pacotinho de biscoito
água e sal para ela, e as chaves da sala de
informática, então acho graça do meu desatino
e da desnecessidade absoluta de tudo aquilo.
 
terça-feira eu desço as escadas correndo
de atrasado e carrego um livro de história
antiga para dar de presente e um envelope
pardo de papel para esconder a surpresa do
sobrenome, e ela não faz nenhum comentário.
 
quarta-feira eu subo as escadas correndo
de ansiedade e levo uma novidade imobiliária
que ainda não saiu do papel para ela realizar
por antecipação o sonho da casa própria, mas
é tudo tão pouco e tão vago como um beijo raro.
 
quinta-feira eu desço as escadas correndo
com um crachá e um convite para almoçar
e então entramos no ônibus lado a lado e a
vida parece ser tão mais fácil que quase fica
suspensa no meio dos olhares e dos talheres.
 
sexta-feira eu subo as escadas correndo
ainda sem ter um pretexto forte o suficiente
para tentar prolongar o convívio nos finais
de semana, nas férias, viagens, feriados e nas
licenças médicas que interrompem a sequência.
 
sábado a realidade do sonho sem significado
domingo a certeza de estar no caminho errado
férias e ela viajando com filhos e compromissos
feriado e eu deitado contemplando retratos
ausências no trabalho e eu só pensando em fugir
 
sem olhar as cicatrizes nas pálpebras dos olhos lacrimejantes.
 

Do livro O Jardim Simultâneo


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

12 de jun. de 2023

microconto 337


Por Renata Sieiro Fernandes
 

a mulher, 
no ocaso da vida, 
falava sobre a invisibilidade 
que a sociedade lhe impunha. 
ela mesma 
já quase não notava seu corpo, 
mas no dia 
que começou a escrever, 
a colocar no papel 
o que existia nela, 
pouco a pouco, 
passou a enxergar suas mãos. 
dali 
a que todo o seu corpo 
viesse à luz 
foi um toque de mágica. 


Renata Sieiro Fernandes é microcontista. Publicou A donzela guerreira e outros microcontos, vol. 1, com financiamento do PROAC-SP, em 2019 e o volume 2 de forma independente. Publicou microcontos na antologia Parem as máquinas, pelo selo OffFlip (2020), na Revista Trama (2021), nas coletâneas Negociata na penumbra (Ipê editora, 2021), Fotoescritos do confinamento (Editora Desalinho, 2021) e Coletânea do Prêmio Off Flip de Literatura 2021 – Conto (2021). Participa com microcontos da Coletânea Sobre Nossas Avós: memória, resistência e ancestralidade (2022) e da Coletânea do Prêmio Off Flip de Literatura 2022 tendo recebido Menção Honrosa.

9 de jun. de 2023

'Enquanto a chuva não passa' e 'Eutanásia'


Por Milton Rezende
 

Enquanto a chuva não passa

Os dias acalmaram o sonho,
como se para isso não bastasse
a ausência de teus olhos.
Mas na noite um verso simples
brotava do silêncio para dar
uma esperança menos triste
ao cotidiano.
Ao longe eu visualizava uma imagem
pensativa que acreditava estar
preenchendo o hálito da noite
e a chuva no telhado com teu
sorriso mágico. Mas a distância
não me permitia tais conclusões.
Seria necessária a palavra e a
tua presença para restabelecer a paz
e aquela sensação confiante que
tínhamos quando crianças.
Coordenar as coisas e arrumar
a casa num ambiente tranquilo
para receber a realidade,
dissipar os sonhos
e adormecer em teu gesto. 

Do livro A Sentinela em Fuga e Outras Ausências 

Eutanásia 

Sob uma chuva de outubro
o germe penetrou
no solo árido de mim,
onde as emoções se resguardavam.

Mas o sol e o raciocínio
dos meses subsequentes
atrofiaram o germe ávido
que havia trazido o amor. 

E foram tantos os desencontros
do clima naquele ano
que a meteorologia afetiva
justifica-se culpando a ambos. 

Agora, numa sala de espera
contígua à do esquecimento,
resta-nos como única saída
a eutanásia cúmplice
do que restou do sonho. 

Do livro O Acaso das Manhãs 

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, atualmente reside em Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quatorze livros publicados. Tem um site e um blog.

27 de mai. de 2023

Poemas de constatação


Por Gustavo Faquineti Batistella Paz 

 

Cinéma Vérité

verter a verdade
é papel molhado
num copo de conhaque
o álcool borbulha
as nuances do fato
principalmente quando
este é capturado
pela grande piada
do plano detalhe 

Júbilo/Jogo

um grito inocente
é sempre mais útil
que o apelo culposo 

a lente é desastre
operado por uma criança
com tesoura e cola
maculando as unhas
ainda por cortar 

2007 Nostalgia

ainda é dia
mas a cena
se esmorece
                        O que eu fiz?

 

Gustavo Faquineti Batistella Paz é graduado em Letras Português-Inglês pela Universidade Estadual de Maringá (UEM), é professor de língua inglesa e portuguesa do Brasil, além de poeta, tradutor e redator SEO. Publicou a plaquete Apreciação de Jarman ou Fuck Me Blind, de forma online e independente, e contribuiu com poemas para revistas literárias como Aboio, Ruído Manifesto, A.galinha, Fruta Bruta e Sucuru.

12 de mai. de 2023

Ainda não


Por Marina Pereira Dantas

Em mais um raiar do sol, mais uma mesa posta, um café passado e o burburinho de toda manhã. Marido saído do banho faz o aroma de lavanda brigar com o do café, enquanto o barulho da louça duela com o som do despertador do quarto das crianças. Até o momento em que a cozinha é preenchida com a desordem de vozes, pedidos e chamados de mãe e amor. Nesse espaço, vou servindo uma xícara, colocando um cuscuz no prato, cheirando um quengo e tendo meu corpo escalado por algum serzinho parido por mim. Estes momentos me fazem sentir viva, com sentido e completamente preenchida.

E de ter certeza de que sou amada.

Logo depois vem o vazio. Eu: completamente oca e solitária.

Isso me traz um tremor das entranhas, um gelo como nenhum outro sentimento. Recorro ao celular, ao fogão, ao ferro; após esquentar demais, pulo para a pia, cato a vassoura e sigo para o banheiro. É o momento da chegada de todos. Volta o movimento de mesa, escalada, mãe aqui, amor acolá e eu me esparramo pelos cômodos, por cada necessidade alheia e me sinto novamente bem, inteira, preenchida. Lembro dos dizeres da minha avó: mente vazia é oficina do diabo.

Então, logo após cada um seguir com seus afazeres, ligo a TV e me ponho ao celular até o retorno de todos e o derramamento de mim. Ver aquela algazarra, aqueles rostos, perguntas e chamamentos reitera a certeza do quanto sou amada, querida, completa e sigo fielmente os caminhos de Cristo.

A família é a base de tudo. É para ela e por ela que existo. Minha fé, minha santinha... Tenho que lembrar de trocar as flores do altar, comprar velas e um terço novo. Falando nisso, hoje sai o resultado do Enem de João. Fico feliz por meu filho seguir seu caminho e ao mesmo tempo temo pelo vazio dessa casa. Meu marido vive trabalhando, passo o dia só, e o que me entretém são as horas de aperto. Ainda assim, ver meu filho formado, um doutor, é algo de muito orgulho para uma mãe.

Seria bom para ele sair dessa cidade. Mesmo assim meu coração fica miúdo e vai bater dentro dessa casa tão grande, sozinho. Tem meu marido, é fato, sendo que é aquela coisa: de casa para o trabalho, do trabalho para casa; em casa é na TV, cerveja e celular. Não estou reclamando, sabe? Até porque tem gente em situação pior e eu vivo por minha família. Mas um passeio não faz mal a ninguém, anima o espírito. O padre mesmo, ele sempre bebe o sangue de Cristo. Um goró aqui outro acolá, é bom, faz bem pra alma. Pena que meu marido ficou velho e abusado, sai com os amigos e é isso. Eu fico aqui, locada como móvel. Não reclamo não, é meu dever, minha escolha, minha família, eu apenas quero parar esses tremores pelo corpo.

É bom esse quentinho, faz eu me sentir viva, sabe? Eu me empenho tanto por eles e agora vou ser deixada? Ficar só eu e o velho. Gosto não, gosto do agito. Ah! Quando eu era nova, não tinha isso, batia alguns forrós, fui candidata em concursos de beleza, organizei grupo de jovens e sempre tinha algo para fazer.      

Tudo que tenho vai embora. Tanta dedicação e agora ficarei aqui, presa. Faço e fiz tudo por ele e agora simplesmente vai embora, me deixar com esse bode velho. Por outro lado, ao menos é para virar doutor, alguém importante. Só conseguiu porque eu cuidava de tudo. A vitória seria minha também, mas a distância é o que prejudica.

De toda forma, ele ainda não passou.

Marina Pereira Dantas é advogada e contista nas horas vagas. Questiona tudo o que respira ou o motivo de não fazê-lo. Gostaria de saber um pouco sobre tudo e ter um mínimo de muitas experiências possíveis e cabíveis em uma existência, para assim poder ocupar sua breve vida de poeira estelar sobre a Terra, com algo grandioso, ainda que saiba a impossibilidade desse ato, porque o bom mesmo está na pequenez de cada dia, encontro, conto e distância. Alguém que busca unir uma mesmice a algo extraordinário em um mesmo segundo, para num outro, largar tudo.

 

 

11 de mai. de 2023

A bonequinha que não sou

 


Por Ana Raja

Quando estamos em uma cidade a passeio, nossos olhos captam as imagens detalhadamente. Estamos conectados com o momento, suscetíveis aos cheiros, às cores, aos sons, aos toques e tudo nos atravessa de uma maneira diferente.

Explorar os lugares usando o transporte público é muito bacana, saímos do percurso turístico e temos a chance de conhecer a alma da cidade. Assim procuro me locomover em minhas viagens, e para ser sincera, só vejo vantagens. 

As descobertas de ruas fora da rota, restaurantes surpresas em esquinas esquecidas, uma cafeteria florida, uma loja com preços incríveis, muros pintados por moradores do bairro, realmente são ingredientes a mais.

Minha última viagem a São Paulo me fez refletir sobre o conteúdo de um informativo do metrô, veiculado dentro dos trens. Por meio de um circuito interno de vídeo, os passageiros assistem da cotação do dólar às imagens de pessoas desaparecidas.

Vou ajudá-los a visualizar o meu incômodo.

Bem caricato, para um informativo de segurança e boa convivência — talvez com o intuito de ser “engraçadinho” —, escolheram desenhos de bonecos animados e os contextualizaram em cenas comuns ao cenário das estações do metrô. O objetivo era alertar para o uso correto das escadas rolantes. 

Vamos à cena:

Um “bonequinho” desce as escadas, as mãos no corrimão, indicando a maneira de fazê-lo. Corta para a “bonequinha” se dirigindo à escada. A figura dele é simples, somente o desenho do personagem, sem adereços. Já a dela: maquiada, de salto alto, vestido curto. Com um pacote nas mãos, distraída – na verdade, meio tonta –, seu andar “rebolativo” marca a cadência da sua aproximação. Assim que coloca os pés, mais ou menos no terceiro degrau, ela se desequilibra e sai rolando escada abaixo, atingindo o “bonequinho” no final da escada, provocando um acidente.

Prestava atenção em tudo que era exibido naquela tela: resultado dos jogos do campeonato, empresas que tiram o nome dos endividados do SPC, dicas de cultura, saúde e por aí vai. 

Sobre o informativo dos bonecos, se a ideia era chamar a atenção para a segurança, a falha fica por conta da caracterização da figura feminina. A pluralidade de pessoas que frequentam o metrô é imensa. Não seria melhor pensar em pessoas? Não me identifico com aquela “bonequinha”. Eu preciso me ver inserida nas situações em que as cenas são apresentadas, e para isso é desnecessário a caracterização do gênero. Por favor, não vamos voltar ao tempo em que os homens, nos seus escritos, definiam as mulheres; e às mulheres era permitido escrever somente receitas. 

Outro dia, li em um livro que as coisas quando nos incomodam podem ser um incômodo coletivo e por isso devemos escrever sobre elas. Feito.

 

Ana Raja nasceu em Maringá (PR) e hoje vive em Brasília. Formada em jornalismo, e sempre envolvida com a literatura, tornou-se uma estudiosa da escrita, dedicando-se ao seu aprimoramento. Atualmente, vem  trabalhando no seu primeiro romance e, paralelamente, escrevendo contos e crônicas que externam as suas inquietações por meio das palavras.

 

5 de mai. de 2023

Sonata de Simone

 


Por Krishnamurti Góes dos Anjos

“Os sonhos mais lindos sonhei, de quimeras mil um castelo ergui”... Fera ferida... “bem que se quis, depois de tudo ainda ser feliz”... No bar, tablado de mesas e cadeiras. Uma cerveja. Solidão incrustada faz-lhe companhia a cada segundo. Alguém chumbadamente acompanhada, o observa numa deselegância discreta de olhar. Dois copos solidários na mesa de lá. Na outra copo suado solitário. Olhares tangenciando-se novamente. Ninguém atende, ninguém chama, deixá-la em paz é o melhor. Esquece, voltando a olhar só mais uma vez... mas tá com um cara caraio! Imagina e desatina descrente da correspondente. Uma aventureira. Intenções vandálicas aventadas. Também não sabe se é. Geraldo Azevedo na caixa de som insiste que o olhar brilha qual estrela matutina... Isto parece o quê meu Deus? Esta mulher tá a fim de me sacanear é? Ou a gente quer se encontrar? Se ao menos pudesse ouvir o coração... O coração – na letra da música -, é triste como um camelo, frágil que nem brinquedo. Olhares insistem no triângulo amoroso etílico. 3 copos depois, entremeados de olhares, oceanicamente e calculadamente, ela levanta-se e vai até ele. Um amofinamento, desejo de correr, não parar, não pensar. Colado na cadeira. Você tem uma caneta? Lápis. Serve. Anota algo em um guardanapo. Como se chama? Simone. Escritor? Desesperadamente eu sei... transo teatro. Pára de escrever. O olhar dela estuda-o, ele devora-a. A música aliciando... “você me tem fácil de mais”... trocam palavras e ela vai tecendo outra música. Ele tentando uma Letra. Pernas lindas. Um pedaço de qualquer lugar, cheiro feminino, cheiro  de mulher. Se você vier comigo... já vai? Cedo! Fugaz. Já não posso estou com um amigo. Te prometo a lua, se for lua cheia. E se for minguante? À míngua? Sim. Será sua. Mesmo? Verdade. Me ligue. Tchau. Um beijo com cheiro de botão de laranjeira excita o desejo do encontro da sede com a laranja. Se esvai deixando-o emprenhado de promessas de olhar e o guardanapo com os números do telefone.

Mais tarde, a frieza da voz metálica computadorizada da companhia telefônica informa laconicamente. Número inexistente. 

Número i-ne-xis-ten-te...e...não...tem...ma...is..na...da...negro...amor.

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor de Il Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Gato de Telhado, À flor da pele (contos), Embriagado Intelecto e Outros Contos e Doze Contos & Meio Poema. Possui textos publicados em revistas no Brasil, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do Rebanho (romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE). Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea veiculadas em diversos jornais, revistas e sites literários.

25 de abr. de 2023

Truques


Por André Ferrer

Em vários textos, ao longo da sua obra, Ernest Hemingway cita a arte da pintura. Nenhum desses momentos, entretanto, é mais eloquente a respeito das suas reais intenções ao mencionar a pintura do que em um trecho do conto Escrever. Aliás, uma das suas histórias menos conhecidas.

Em Paris é uma festa, Hemingway fala de alguns dos vários pintores que conheceu e, com a propriedade de quem viveu na Cidade Luz dos anos de 1920, relaciona as soluções encontradas por aqueles artistas à sua própria arte, a escrita. Trata-se de um livro de memórias. Nele, o autor relata os anos em que vivera na França e era apenas um repórter norte-americano que aspirava, um dia, tornar-se escritor. Paris é uma festa foi escrito na década de 1950 e só foi publicado após a morte do autor.

Se neste livro Hemingway gasta várias linhas com a tentativa de demonstrar o quanto um escritor pode aprender com a pintura, no conto Escrever ele atinge o objetivo com maestria. Sabe-se, claramente, que o autor valorizava a personalidade como o único caminho para a inovação. Em nenhum outro texto, no entanto, a experiência pessoal é tida em tão alto grau de importância em relação ao ofício da escrita.

Por exemplo, já no meio da pescaria (sim, o conto é sobre pescaria), fica-se conhecendo os pensamentos do protagonista, Nick Adams.

Este, mediante um discurso indireto livre, afirma que James Joyce sabia como Cézanne pintaria aquela extensão de rio. E o pescador escritor lamenta: “Meu Deus, se ele estivesse aqui para pintar. Eles morreram e isto foi mesmo o diabo. Trabalharam durante a vida inteira e ficaram velhos e morreram.”

“Nick, vendo como Cézanne faria a extensão do rio e o pântano, levantou-se e entrou na corrente. A água estava fria e verdadeira.” Exato: uma sensação, a temperatura, que é um argumento de autoridade capaz de sustentar uma proposição verdadeira. Ora, mais Hemingway do que isso não existe.

Papa gostava tanto de pintura (ou da relação entre pintura e escrita), que Thomas Hudson – é claro, mais um dos seus alter egos – não é escritor, mas pintor. Hudson é o protagonista do romance As ilhas da corrente, também uma edição póstuma.

No conto Escrever, que integra o volume The Nick Adams stories (As aventuras de Nick Adams), lê-se ainda: ele (Nick Adams ou, de novo, o próprio Hemingway) “queria escrever como Cézanne pintava.”

“Cézanne começara usando todos os truques. Em seguida, destruiu a coisa toda e construiu a coisa verdadeira.”

Com algum conhecimento de História, detectam-se pistas daquela grande ruptura nas artes, a emergência das vanguardas, enquanto a Belle Époque agonizava. Aquém disso, Hemingway aponta para aquela que constitui a maior obrigação de todo bom artista: o esforço de imprimir a sua personalidade na obra. Sob a pena de ser medíocre, o artista deve substituir velhos truques por novos truques. Seus próprios truques.


André Ferrer é escritor de contos e crônicas, farmacêutico e bioquímico. Deu aulas de Química em universidade e participou com seus textos nas antologias de contos A morte do outro lado da luneta e Grenzenlos, e da antologia Retire aqui a sua história, com colaboradores do coletivo Crônica do Dia.

21 de abr. de 2023

Autorretrato III e IV


Por Milton Rezende
 

AUTORRETRATO III

Eu não sou apenas
este rosto envelhecendo
sou também
aquele corpo ainda magro
mas com os pulmões já curados
e um pouco menos descrente.
Eu não sou apenas
aquelas velhas cicatrizes
numa epiderme manchada
sou também
(ainda e sempre)
as circunstâncias
daquele passado.
Eu não sou apenas
aquele sorriso juvenil
disfarçado em lentes
de óculos para miopia
minha gente
sou também
a alegria mais escondida
e um grau bem diminuído
da acuidade visual, e quanto
às cáries que vocês tinham
eu não sei,
mas as minhas
eu obturei.
Eu não sou apenas
este sexo masculino
sou também
aquele menino que imaginou
culminâncias de carinho
e acabou meio sozinho
entre hiatos e ausências
tendo que recorrer às vezes
ao antigo método.
Eu não sou apenas
aquilo que comi e que bebi
ao longo desse muito tempo
sou também
os excessos, a parte excretada
e as consequências atuais
dos hábitos continuados.
Eu não sou apenas
aquele amontoado de órgãos
sou também
as cirurgias que tive de fazer
em alguns deles
isoladamente.
Eu não sou apenas
aquelas palavras e atos
e gestos da juventude
sou também
(e depois de tudo)
as circunstâncias
advindas.
Eu não sou apenas
as caminhadas e as pausas
que fazemos para avaliar
sou também
os descaminhos, os equívocos
e o mesmo percurso no escuro
(nisso eu não mudei nada).
Eu não sou apenas
funcionário público
seus merdas
sou também poeta.

Do livro Uma Escada que Deságua no Silêncio

 

AUTORRETRATO IV

Eu sou aquele
que teve que recolher
o corpo da multidão sorridente
para não ser pisoteado por suas botas.
Eu sou aquele
que teve que lamber
as próprias feridas
para poder seguir em frente.
Eu sou aquele
que teve que enfrentar
o convívio cotidiano com a morte
por não ser adaptável às normas.
Eu sou aquele
que teve que se libertar
da imaginação literária
para poder sobreviver.
Eu sou aquele
que teve que aturar
um sorriso sardônico
no ambiente de trabalho.
Eu sou aquele
que se escondeu do palco
bem na hora da apresentação
por não saber representar.
Eu sou aquele
que viveu pelo caminho
com a consciência embotada
em consequência das pancadas.
Eu sou aquele
que digeriu todos os sapos
na falta de melhor cardápio.
Eu sou aquele
fantasma embolorado do armário
que mesmo revestido das melhores intenções
ainda assim foi recusado.

Do livro O Jardim Simultâneo

 

Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 23 de setembro de 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, atualmente reside em Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quatorze livros publicados. Tem um site e um blog.