Dedicado aos colegas
escritores brasileiros que, apesar dos pesares, fazem a literatura brasileira
contemporânea.
Por Krishnamurti Góes dos
Anjos
Apresso o
passo para não encontrar a delicatéssen Sabores de vida lotada. É quase
a hora em que os pães saem do forno quentinhos e então se forma uma longa fila
para pesagem e pagamento. Em vão. Escolho os sabores habituais e entro na
famigerada fila. De onde me coube esperar, lanço um olhar desconsolado para o
pequeno salão que há na entrada da padaria – nome que tinham as delicatéssen
num passado recente –, e observo algumas mesinhas de madeira onde se sentam
aqueles que resolvem tomar seus cafés acompanhados das iguarias que ali também
são servidas.
Vagueio o olhar de um lado a outro, até que me detenho
em uma mesa onde está sentado, de frente para a fila, um senhor idoso. Apuro o
olhar sobre aquele homem de cabelos completamente grisalhos, óculos de grau,
bem barbeado, e meu coração acelera no exato momento em que nossos olhos se
encontram. Conheço-o. Sei que é um sujeito de olhar treinado na observação da
vida que o cerca. Percebeu o meu olhar fixo, todavia não deu sinais de
reconhecimento. Ficamos nesta observação mútua, segundos suficientes para que
ele, cordial como é, faça um leve gesto de cumprimento, um “boa noite”
silencioso a julgar pela expressão facial. Desvia o olhar para outra direção.
Começo a suar frio, terá me reconhecido? Creio que não... Também desvio o olhar
por instantes para, logo em seguida, furtivamente, voltar a examiná-lo.
Parece-me um tanto abatido, o rosto transparece certa palidez. Ah, a idade
impõe inexoravelmente o seu preço... Que esperar? A última vez que nos
encontramos foi há quase quinze anos... natural que não tivesse me reconhecido,
o tempo lhe alterou um pouco as feições, mudou as minhas também. Envelhecemos.
A mocinha do caixa fala numa voz apressada:
__ Próximo!
A fila anda e eu me pergunto se o dinheiro que
trago no bolso é suficiente para pagar o “pão do corpo”, enquanto o espírito
devaneia imerso em memórias...
* * *
Rio de Janeiro. Corre o ano de 1953. Um jovem de
vinte e cinco anos esgueira-se entre prateleiras de livros em uma livraria,
certo de ali encontrar um escritor de quem era fã, e a quem reputava como a
divindade da prosa de ficção. Viajara milhares de quilômetros para isto: conhecer
aquele autor que ele lera, com quem se encantara, que decorara até certos
trechos de suas obras. Buscava simplesmente ter a oportunidade de trocar umas
palavras com seu ídolo, balbuciar sua admiração. Sabia que o autor era
frequentador assíduo do local onde sentava-se, vez por outra, para leitura de
novas obras. Debalde. O homem não estava ali. A resposta que obtivera de um
funcionário foi das mais decepcionantes que um admirador pode obter. Doente.
Muito doente. À beira da morte...
__ Próximo! – volta a instar em meio ao
burburinho de vozes, a mocinha do caixa. A fila anda, aproximo-me mais daquele
senhor. Volto a observá-lo e vejo que está tomado de um ar absorto, parece ter
o pensamento longe, alheio aos alaridos do mundo. Sinto-me ansioso, ao mesmo
tempo em que desejo falar-lhe, apertar-lhe a mão, tenho vagos receios. E se
fizer de conta que ele não está ali? Já não o cumprimentei mesmo que de longe?
A maldita timidez me toma...
* * *
Janeiro do ano 2000. Embarco em um ônibus na
rodoviária resolvido a encarar uma viagem de quinhentos quilômetros noite
adentro. Levo nas mãos somente um envelope com os originais de um livro que
acabara de escrever e que tencionava expor a certo escritor experiente. Saber
de suas impressões de leitura, ainda que fossem negativas. Um amigo comum
garantira promover nosso encontro. “Se irá ler, dizer algo? Bom, aí já não
garanto”, disse-me. “Nosso amigo é um sujeito cortês, generoso. Recebe-o, isso
posso assegurar”. Encarei os quinhentos
quilômetros na poltrona desconfortável do ônibus.
* * *
__ Próximo! Próximo! Próximooo! E a fila emperra
porque uma madame, dessas que acham que o mundo gira ao seu redor, implica com
a atendente, não se afasta do caixa, e a menina, por sua vez, anseia em atender
novo cliente e livrar-se da inconveniente. Atenções se voltam para a cena. O
senhor idoso também sai de sua introspecção, observa e balança a cabeça,
esboçando um discreto sorriso nos lábios.
O mesmo sorriso com que há quinze anos me recebera.
Na ocasião, depois de ouvir um breve histórico
sobre a minha incipiente literatura feito por nosso amigo comum, sorriu e
perguntou admirado:
__ Quer dizer então que você viajou toda essa
distância para vir ter comigo?
Balancei a cabeça afirmativamente e gaguejando
despejei em cima do homem que sim, que só pedia que desse uma lida nos
originais, que me dissesse algo, qualquer coisa, não tinha pressa, eu esperaria
o tempo que fosse preciso... e continuaria gaguejando não fosse o socorro de
nosso amigo que, ao me ver naquele vexame, meteu no meio dessa enxurrada verbal
um outro assunto ligado à literatura. A conversa virou para outra direção,
puseram-se os dois a prosear. Calei-me aliviado. Havíamos sentado a uma mesa
pequena, à beira de uma piscina na residência do escritor. Por baixo da mesa
minha perna direita balançava nervosamente. Vontade de ir-me embora dali.
Decorreram inesgotáveis dez, quinze minutos de planos para feiras literárias,
lançamentos de livros, autores e obras, de modo que o escritor, durante aquele
tempo, se dirigiu diretamente a mim apenas duas vezes. A primeira quando, no
contexto da conversa que entretinha, lembrou o dito de Aníbal Machado: “Se todo
teu corpo não participa do que escreves, guarda o papel e deixa para amanhã”. A
segunda, para voltar a perguntar:
__ Viajastes toda a noite então, meu rapaz. Não
está cansado? É verdade. Que coisa… - e calou-se pensativo alisando com a mão o
envelope que estava sobre a mesa, enquanto ouvia o que nosso amigo ia
dizendo...
* * *
O próximo da fila sou eu. A moça pesa o pão e
diz-me o valor. Pago-o e dirijo-me à saída. O escritor percebe a minha
aproximação, sorri. Assalta-me a dúvida cruel. Paro ou não paro? Parei e
cumprimentei-o:
__ Olá, tudo bem?
Embora se mostrasse um tanto quanto desconfiado
e meio arredio, respondeu amigavelmente:
__ Boa noite. Como vai?
__ Bem. Vejo que esperas algo. Há preferência na
fila para as pessoas... – procuro uma palavra amena.
__ Para idosos? Sim, eu sei, mas é que aguardo
minha esposa. Viemos tomar um mingau de tapioca que aqui servem. Delicioso. Ali
está ela já quase a pagar a conta...
__ Sim, então não demora... – retruquei obtendo
a certeza de que ele não me reconhecera. – E a literatura? Como anda?
Seu rosto iluminou-se. Olhou-me fazendo visível esforço para situar-se quanto à
identidade de seu interlocutor.
__ Ah... a literatura... sempre muito difícil,
uma luta tremenda – sorriu –, mas você sabe; a gente faz literatura para não
ficar maluco, para não pirar.
__ É verdade – animei-me com a recepção, e
perguntei: - O senhor sabe quem sou eu?
Franziu a testa e mirou-me o rosto com
curiosidade, para afinal responder:
__ Não... desculpe-me, sou péssimo fisionomista...
Disse-lhe meu nome. Sua fisionomia alegrou-se.
__ Ah, sim, por que não falou logo? Sim, você
esteve comigo e aquele nosso amigo... Mas já faz muito tempo, não? Sim. Como
não? Recordo-me, enfrentou um estirão de estrada… Sim, que cabeça a minha,
desculpe. Mas me diga, tens escrito?
__ Sim. – e contei-lhe em breves palavras o que
andava maquinando em matéria literária.
__ Que bom, notícias alvissareiras. Ah! Afinal,
aí vem vindo a janta! Não quer sentar-se conosco?
__ Não, tenho que ir, desejo-lhes bom apetite.
Prazer em revê-lo.
__ Pela mesma forma. Bem, até mais – disse ao
tempo em que me estendeu a sua mão direita.
__ Até mais, mestre – respondi premindo-lhe de
leve a mão, e me afastei.
Fui andando sem olhar para trás, fui andando com
um nó na garganta, porque a linguagem do pressentimento soprara-me que não nos
veríamos mais...
Tanto que queria dizer-lhe, contar que lera nesses quinze anos, boa parte de
sua obra publicada, tanto a comentar sobre situações e personagens que ele
criara... aquele encontro avivou-me sulcos na memória. Realidade e ficção se
misturaram... Teria ele, naquele nosso primeiro encontro, se recordado da
viagem frustrada que fizera tantos anos antes? A minha expedição fora mais
feliz, rendeu um incentivo sob a forma de prefácio que ele escreveu... Continuei
andando por ruas mal iluminadas dirigindo-lhe mentalmente o sussurro de uma
palavra magra porque insuficiente. Gratidão.
Gratidão e admiração maior ainda, pois aquele jovem de vinte e cinco anos que
um dia ele fora, atirou-se às águas revoltas da literatura, mesmo sem o
incentivo que não me negara. Por décadas a fio, guiou-se pelo instinto do
criador literário. Cresceu de corpo, individualmente, por dentro, na
consciência. Tornou-se uma referência na literatura.
O tempo, o grande senhor dos destinos! Quanto ele nos ensina nas camadas de
vivências que vai gravando sobre nossos espíritos? Naquele ano 2000, eu não
sabia que em 1953, o escritor, objeto da minha admiração, empreendera viagem
semelhante para encontrar um outro escritor a quem por sua vez apreciava.
Naquela noite, caminhando pelas ruas, de volta para casa, estive meditando
sobre esse tênue mistério de escritores que se buscam, que se visitam não
somente por meio de suas obras, mas pessoalmente quando assim é possível. No
curso circular do mundo, o homem continua trilhando seu caminho na vida e na
literatura. Como uma ampulheta que se escoa, se desvira e se escoa, e uma vez
mais, e tantas outras vezes ainda, seguimos por gerações e gerações até que
encontremos um saboroso tempo no qual aprendamos a ler o mundo e uns aos outros
na inteira conexão de todas as coisas. Quando esta hora vier, emergirá como
realidade, finalmente, o mais poderoso pensamento que nos tem feito caminhar. O
pensamento da eternidade.
* * *
Poucas semanas depois daquele encontro com o
velho escritor, em uma manhã de sol forte, chega-me o triste comunicado de sua
morte. Consterno-me, reflito um momento, e fecho o notebook que me trouxe a
notícia. Lanço mão de papel e lapiseira e começo a escrever um conto. Ponho-lhe
o título: “Certo título... Em uma fila”.