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11 de mar. de 2026

Um encontro entre a música e a literatura em Uberlândia...

Como lidar com as ausências que a vida nos impõe? Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior transformaram a dor em beleza e o luto em uma jornada de superação no livro Crisântemo. 

Queremos convidar você para estar conosco no lançamento oficial desta obra. Será um momento especial para conversarmos sobre como a arte e a música podem ser ferramentas poderosas de reconstrução pessoal. 

📍 Local: Sala de eventos da Biblioteca Municipal de Uberlândia (Praça Jacy de Assis, s/n – Centro)

🗓️ Data: 20 de março

Hora: 18h30 

* Anote na sua agenda!

Sua presença tornará essa noite ainda mais significativa. Apareça para um abraço e para garantir o seu exemplar autografado!

8 de mar. de 2026

Um trecho de 'Crisântemo' - Ao som de rock


Por Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior 

“Olhei para cima. O céu estava espetacular, um negrume profundo pilhado de estrelas, como só acontece longe das luzes da cidade. A Via Láctea se estendia como pinceladas de giz divino. Mas a beleza que deslumbrava também colocava tudo em perspectiva, e uma tristeza profunda bateu forte, mas por causa dele, de Lucas, que estava quebrado demais para conseguir apreciar uma noite como aquela. 

Nesse instante de paz, uma ruptura: bem longe, atrás de um monte, ao fixar minha vista em um ponto qualquer daquela escuridão, eu ouvi uma cascata de sons que fez o meu chão tremer, o grito longo e áspero do aço se dobrando sobre si mesmo e o estalo final de mil fragmentos de vidro. E então, o silêncio. Um silêncio absoluto, pesado.


 

Gelei. Meu corpo, uma estátua de pavor. Um pneu? Um animal na pista? Minha mente tentava, desesperadamente, encontrar uma explicação lógica, uma resposta que não fosse aquela. Mas era inútil. 

A cena inteira dos últimos minutos se rebobinou em minha cabeça. O sorriso triste, a voz calma, o abraço apertado demais. “A gente se tromba lá em cima, no meio das estrelas...” A risada seca. “Até a próxima, viajante estelar.” Não foi uma piada, mas sim um presságio. O toque de punho não foi um cumprimento. Foi uma despedida. 

E então, um som mais alto veio me assombrar, algo de dentro da minha cabeça. As minhas palavras... “Vai pra casa agora. Só... apaga. Desliga do mundo.” Um frio percorreu minha espinha, tão violento que minhas pernas bambearam por um instante. Aquelas palavras. Minhas. Eu as disse. Eu lhe dei a ideia? Eu que lhe dei a solução? O que eu quis dizer – um conselho para que ele descansasse – foi o que a mente de um homem no fundo do poço ouviu? Não, não foi um conselho. Foi a porra de uma instrução. 

A verdade não se encaixou como uma peça de quebra-cabeça. Ela explodiu dentro de mim. Meu amigo não tinha superado. Ele não se acalmou. Apenas cumpriu a sua palavra, e com o meu aval. Ensaiou comigo e me deixou sair do carro para terminar, sozinho, o seu show. 

Ali, parado na escuridão, sob o mesmo céu que pouco antes me parecia tão belo, senti o chão desaparecer. Eu não conseguia gritar. Não conseguia me mover. Só conseguia mirar a estrada, uma curva escura no nada, onde a noite, sob o olhar indiferente de um milhão de estrelas, havia acabado de engolir o meu melhor amigo.” 

 

In: Crisântemo. Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior. Uberlândia: Cápsula Editora, 2025. pp. 13-14.

4 de mar. de 2026

'Crisântemo', de Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior

Carlos (20 anos) é um jovem músico que vê seu mundo desmoronar em uma sucessão de tragédias. Assombrado pela perda de Lucas, seu melhor amigo e baterista da banda, Carlos mergulha em uma espiral de dor, culpa e desconfiança. Cada pilar de sua vida parece ruir: o relacionamento conturbado com a mãe atinge um ponto de ruptura, antigos amores retornam com segredos avassaladores e a própria música, sua única válvula de escape, é silenciada. 

Expulso de casa e vagando por uma cidade que parece indiferente ao seu sofrimento, Carlos se vê confrontado por verdades dolorosas sobre as pessoas que mais amava. À beira do abismo, ele precisa encontrar uma razão para continuar em meio ao caos. Crisântemo é uma jornada visceral sobre luto, abandono, traição e a busca por um novo sentido para a vida, onde a amizade e a arte se tornam os últimos refúgios contra a escuridão, e uma única canção pode ser a chave para a redenção. 

Ficha técnica
Ano de publicação: 2025
1ª edição
126 páginas
Cápsula Editora
Ficção: novela
Formato: 15 x 21 cm 


Onde adquirir o Crisântemo

 

Em breve, o lançamento oficial! 

 

Sobre os autores 

Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. Crisântemo é sua primeira obra jovem adulta.

14 de jan. de 2026

E se a crítica literária também for fabricada? Malagueta #41

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior

De vez em quando alguns textos aparecem na mídia e causam um momentâneo rebuliço no mundo literário, como se de repente alguém metesse o dedo na água calma de um copo, girasse e depois saísse de cena. Vocês podem nos chamar de conspiracionistas, mas vamos arriscar esse palpite meio fora da curva e vocês poderão nos acompanhar nessa linha de pensamento e, quem sabe, chegar à conclusão de que não é tão absurdo assim.

O mercado é um grande narcisista e, como um representante legítimo de manipulação, ele precisa de um pequeno caos controlado de vez em quando para transformar aquilo que estava sendo esquecido na prateleira em um produto cheio de frescor, ou seja, movimentar vendas, tendências etc. Isso é mais velho que andar pra frente? Sim, marxistas sabem que o capitalismo prospera e precisa do caos desde que o velho barbudo apontou isso no século XIX, mas não é que essa arma ainda funciona perfeitamente? Quer uma prova?

Ano passado tivemos uma grande febre do açúcar por causa do morango do amor, lembram? De onde surgiu? Como hypou? Ninguém sabe precisar, mas a verdade é que do mesmo jeito que surgiu também se foi, pois as “febres mercadológicas” precisam ser aparentemente caóticas para dar uma sacudida no mercado, mas controláveis, porque depois precisamos voltar à ordem das ovelhas que não pensam. É aquilo que as mulheres conhecem como “migalhas de amor”: uma migalha aqui e ali pra dar uma emoção, gerar expectativa e aprofundar ainda mais o controle da vítima. Como dissemos, o mercado é um grande narcisista.

Também ano passado saiu um texto na Folha de S. Paulo, de autoria da professora Aurora Bernardini, que gerou bastante polêmica, pois dizia que certos autores famosos de hoje não poderiam ser considerados literatura. E este ano, novamente, a Folha solta agora um texto de outra professora, Dirce Waldrick do Amarante, em que ela opina que as listas de melhores livros são, na verdade, um “consenso fabricado”. Seria isso por acaso?    

Sabe o que há em comum entre Aurora e Dirce? É que ambas estão dizendo obviedades. E não, não estamos dizendo que o que elas estão dizendo é raso ou não faça sentido ou está incorreto; pelo contrário, “obviedades” no sentido de que qualquer um que estuda literatura ou que conhece teoria e história literária sabe.

Mas por que essas informações são encaradas hoje em dia como “extraordinárias”? Exatamente porque elas são direcionadas a um público que, embora amplo, possui características em comum: são leigos, teoricamente, de modo que se escandalizam com coisas óbvias e consomem produtos literários como verdadeiros fãs, e não como leitores. Será que leem o que defendem virtualmente? Eis outra questão que pode ser desenvolvida, quem sabe numa próxima malagueta.

O que essa verdade inconveniente significa? Significa que o mercado se aproveita da ignorância teórica (de conhecimento básico) dos leitores sobre determinado assunto para gerar falsas polêmicas que mobilizam novamente essa grande roda de consumo alienado (arriscamos a dizer que quem sai ganhando com isso são exatamente as grandes editoras que estão sendo criticadas, no caso das polêmicas do mundo literário).

Vamos de exemplo... Quando Aurora Bernardini levantou a questão de que best sellers não necessariamente são literatura e que autores hoje aclamados estão fora do padrão canônico daquilo que se considerava literatura de qualidade (sem querer entrar no mérito acadêmico aqui), isso implica em mais pessoas comprando esses livros mencionados para “comprovar” ou para “afrontar” a opinião da professora e pesquisadora: o mercado sabe mexer com o ego do público, que hoje, sabe-se, tem a tendência de afrontar os especialistas. A arrogância da ignorância está na moda, venha de onde vier.

Em seu texto, Aurora citou especificamente Itamar Vieira Júnior, premiado autor brasileiro. Quantos exemplares de Torto Arado, do referido escritor, foram vendidos depois disso? Quantos fãs do autor saíram em sua defesa e movimentaram as redes? Quantos fãs defenderam o autor, e não a sua literatura? Ou defenderam suas crenças (as crenças de uma tribo), mas não sua qualidade literária?

Então quer dizer que uma crítica certa lançada ao acaso e sem contexto profundo pode, por meio da polêmica, endossar ainda mais o objeto da crítica? E isso pode ser uma estratégia mercadológica? Sim, é exatamente o que estamos dizendo.

No caso do texto da professora Dirce Waldrick do Amarante, ela elenca algumas críticas já bastante desgastadas no meio literário, sem apontar nenhuma novidade: sobre as grandes editoras, sobre a visibilidade artística e sobre aquilo que nós nomeamos como “compadrio” ou “clube do brandy” (livros e autores que só sobrevivem graças às amizades) e que isso geram listas de melhores livros tendenciosos e sem critérios literários consistentes. Nada de novo sob o sol. 

Então, qual o objetivo dessa crítica? Qual o objetivo dessa crítica dentro de um grande jornal que por vezes ajudou a construir essa mesma visão mercadológica da literatura que finge atacar? Não questionamos o objetivo da autora, que não disse nenhuma inverdade - embora tenha preterido as evoluções de algumas editoras independentes, tenha deixado de lado aspectos importantíssimos sobre o comportamento dos leitores contemporâneos e, em certo momento do texto, forçou uma defesa periférica, derrapando em alguns argumentos, especialmente na parte de “eventos presenciais serem anacrônicos e inaceitáveis” por excluírem a periferia (forçou a barra pra lacrar! E sobre isso também desconfiamos...).

Percebem onde queremos chegar? Será isso uma teoria da conspiração inventada por nós? Não sabemos, mas veja um trecho do que dissemos em uma Malagueta (#37), publicada em 2021, ocasião em que Fernanda Montenegro entrou para a Academia Brasileira de Letras:

 “... escolhas baseadas em parâmetros obscuros e de compadrio sempre foram a regra. A regra é não ter uma regra clara. O que eu vejo é uma disputa de pequenos grupos que estão todos, sem exceção, interessados em manter o compadrio como meio de medir mérito. Seja no círculo dos consagrados, seja no círculo dos não consagrados, seja no círculo dos marginalizados. Todos têm seus “amigos”, mas nenhum deles está debruçado verdadeiramente sobre o texto, sobre a palavra na folha de papel, a palavra como ela chega a seu leitor. Fala-se muito em autores, mas pouquíssimo em literatura” (FIORENTINO, Allyne. ABL: muito barulho por nada. Revista O Bule, 13 nov. 2021.)

Então, indo um pouco além do que a professora Dirce menciona, concordamos com quase tudo que ela disse, mas entendemos, também, outros pontos de vista, como as possibilidades de publicação de autores e editoras independentes, que hoje criam uma segunda via de publicações fora das grandes editoras, coletivos e grupos que se mantêm resistentes a transformar a literatura em puro produto mercadológico (é o caso da Revista O Bule e de tantas outras revistas/editoras marginais), pessoas que se mantêm resistentes à ideia de que a literatura serve como pretexto e panfletagem para causas sociais de minorias, sem se importar com a qualidade e com a construção de linguagem (é o nosso caso, é o caso de muito gente que pode estar pensando a mesma coisa agora e não tem coragem de dizer porque tem medo de ser massacrado pelo dito politicamente correto). Nada disso foi mencionado. Estranho, não é mesmo? Ou será que foi proposital? Fica aí o questionamento.

Quem hoje teria coragem de dizer que uma obra que exalta algum aspecto de minoria é ruim? E olhe que, hoje em dia, há muitas, muitas, muitas obras literárias muito ruins. Você teria? Teria coragem de ir contra tudo e todos a partir de uma análise literária de verdade? O que sabemos é que, n'O Bule, a gente vive falando disso. E por isso continuamos aqui, menos para dar conclusões palatáveis que o público espera e mais para fazer o leitor pensar!

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Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais e reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.

6 de jan. de 2026

Cinco livros metaficcionais que você precisa ler!

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior 


Você sabe o que é metaficção? 

Trata-se de uma técnica narrativa, ou escolha estilística, em que uma obra de ficção se torna autoconsciente – mas como assim? –, chamando a atenção para sua própria natureza de artefato fictício (é bom sublinhar essa expressão), questionando a relação entre realidade e ficção. 

A obra, assim, revela seus próprios mecanismos de construção, tanto em personagens que sabem que estão em uma história (Paul Auster faz muito isso!) quanto em autores que escrevem sobre o processo de escrita e o explica (vide Machado de Assis). 

A metaficção não é recente! 

Embora bastante explorado na pós-modernidade, esse recurso é muito antigo! No século XVII, El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha (Dom Quixote), por exemplo, além de ser considerado como o primeiro romance moderno, também é um dos primeiros que se utiliza da técnica metaficcional, sendo considerado extremamente inovador para a época.

Machado de Assis, no século XIX, explorou bastante os recursos dessa técnica narrativa. Mas, sobretudo no século XX, a metaficção alcançou níveis nunca antes alcançados (adoramos esses termos!) com o espanhol Unamuno, o italiano Pirandello e o argentino Borges, entre outros. Jorge Luis Borges e Luigi Pirandello são mestres em questionar as fronteiras entre realidade, autoria e ficção. Enquanto o escritor argentino utiliza a metaficção para explorar labirintos intelectuais e filosóficos, o italiano a utiliza para desmascarar a identidade humana e os mecanismos do teatro. 

Metaficção é o mesmo que autoficção? 

Nãããão. Na nossa visão, obras metaficcionais são mais inventivas, mais criativas e confundem – de verdade – ficção e realidade, colocando às vezes os autores como personagens em situações absurdas e fantásticas. É uma brincadeira literária. A autoficção está mais para um recurso de autobiografia declaradamente ficcional, já que toda obra, seja ela biográfica ou autobiográfica, também tem sua parcela de "ficção", visto que trata-se de verosimilhança que passa pelo crivo subjetivo do autor/a (mas isso é assunto para outra hora).

Vamos à lista e já avisamos (contém spoilers!)

1 - Névoa – Miguel de Unamuno 

Já no início da obra, há um prefácio escrito por um homem que, depois, descobrimos ser um dos seus personagens. Após o prefácio, o autor (Unamuno) responde ao seu personagem com um pós-prefácio. Louco, né? 

Nesta "nivola" (termo criado pelo autor), no meio da história o protagonista Augusto Pérez descobre que é um personagem de ficção. Ele decide confrontar seu criador, o próprio Unamuno, em seu escritório em Salamanca, para discutir seu destino e o fato de não querer morrer. 

A obra quebra a barreira entre autor e personagem, questionando quem tem mais “realidade” (o criador mortal ou a criatura literária eterna?) e evidencia a dicotomia confusa entre o mundo real e o mundo ficcional.


 

Borges não escrevia romances, mas seus contos (em coletâneas como Ficções e O Aleph) são exemplos puros de metaficção no século XX. Em algumas narrativas, inclusive, Borges é o próprio narrador e personagem, confundindo as diferenças entre personagem/narrador/autor.

 

  • “Pierre Menard, autor do Quixote”: Trata-se de um falso ensaio literário que narra a história de um homem que decide reescrever o Dom Quixote de Cervantes, palavra por palavra. Borges discute como o significado de um texto muda dependendo do contexto e de quem o lê, transformando o ato de ler em um ato de criação. Aqui também há a intertextualidade com a própria metaficção contida em Dom Quixote.
  • “O jardim dos caminhos que se bifurcam”: O conto é um livro-labirinto onde todas as possibilidades de uma história acontecem simultaneamente. É uma ficção que comenta sobre a estrutura de todas as ficções e sobre o tempo como um livro infinito. 
  • “As ruínas circulares”: Um homem sonha com outro homem até torná-lo real, apenas para descobrir, no final, que ele próprio é um sonho de outra pessoa. É uma metáfora para o autor que cria personagens, mas que também é “criado” pela tradição literária.

Borges, ao refletir sobre a natureza da ficção, convida o leitor a refletir sobre a própria natureza da realidade. Também explora, por meio dessa técnica/escolha, a condição humana em vários aspectos, sobretudo em questões relacionadas à passagem do tempo, de uma forma extremamente inovadora. E por falar em inovador...


3 - Seis personagens à procura de um autor – Luigi Pirandello 

Pirandello é aquele cara que revolucionou o drama moderno ao romper a ilusão do palco, criando o que chamam de metateatro. 

Essa obra é o exemplo máximo de metaficção no teatro. É uma brincadeira. É uma loucura. E é muito divertido! No meio de um ensaio de uma peça de Pirandello, seis pessoas entram no palco alegando ser personagens inacabados de uma história nunca escrita. Eles exigem que os atores reais encenem a tragédia deles. 

A obra discute a si mesma, expondo suas características e funcionamento; os personagens sabem que fazem parte de uma história e interagem diretamente com o público, lembrando-o da artificialidade da obra e “quebrando a quarta parede” (expressão da moda usada para qualquer coisa nesse sentido).


 

Publicado em 1979, é uma das obras mais emblemáticas das últimas décadas: é um labirinto sobre a arte de ler e escrever, funcionando como uma reflexão profunda sobre a natureza da literatura. 

Se um viajante numa noite de inverno coloca o leitor real no papel de personagem, dissolvendo a fronteira entre o mundo real e o ficcional. Ademais, o livro discute abertamente os mecanismos da narrativa, as expectativas de quem lê e as frustrações de quem escreve. Através do personagem Silas Flannery (um autor em crise), Calvino questiona se o autor é realmente o “dono” da obra ou apenas um canal para tradições literárias.


5 - Ensaios sobre a total libertação – Rogers Silva 

Longe de nós querer comparar Borges, Unamuno, Calvino e Pirandello com nosso amigo Rogers! Mas, para destoar dessa lista de clássicos dos clássicos, escolhemos colocar um livro recém publicado e que encaixa perfeitamente no conceito de metaficção. Duvida? 

O primeiro conto do livro, “Drummond no Orkut”, começa com o personagem João se sentando em um banco de uma praça e se esbarrando no livro Manicômio, justamente a primeira obra do autor, Rogers Silva. A partir daí, o conto mistura narrativa e ensaio, metaficção e mistério, crítica social e redenção. 

No conto “A máquina-führer”, por exemplo, uma máquina, criada por um alemão a mando de Hitler na década de 1930, permite aos dois protagonistas (o Curioso-menor e o Curioso-Maior) irem a qualquer tempo, espaço ou mente humana. O que parece uma aventura despretensiosa possui, na verdade, outro propósito: não deixar que o autor Rogers Silva seja culpado pela Segunda Guerra Mundial. Os personagens precisam correr contra o tempo, porque se essa tragédia ocorrer (não a Guerra, mas o autor ser o culpado por ela), ele se suicidará aos trinta anos. 

Há mais dois contos longos: “Ensaio sobre a libertação total” e “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”, em que o autor, Rogers Silva, é também o protagonista da história. Esta última é uma história de stalker: um fã começa a seguir o autor em todos os seus passos: o que a princípio parece uma brincadeira, transforma-se numa história de suspense e terror.


 

Gostou das indicações?

E você, leitor, quais obras metaficcionais leu e gostou? 

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.

19 de dez. de 2025

Os 20 minutos mais geniais da história do cinema

Por Sinvaldo Júnior 

Ok, pode parecer exagero (talvez seja), mas duvido que uma parte dos leitores cinéfilos não concorde comigo. Não estou aqui me referindo simplesmente a pessoas que assistem filmes ou a muitos filmes, ok? Isso não é ser cinéfilo, que é mais uma condição, uma paixão. Cinema, para esses apaixonados, não é apenas entretenimento – é uma experiência estética e cultural. Até a IA, com sua capacidade de sintetizar tudo que é alheio, sabe que cinéfilo “costuma estudar história do cinema, gêneros, diretores e estilos”, possui “olhar crítico e percebe detalhes da narrativa, fotografia, trilha sonora e atuações”. Inclusive, “muitos participam de fóruns, clubes de cinema ou escrevem críticas”. Enfim, deu pra entender, né?


 

Digressões à parte, analisemos o que considero os vinte (20) minutos mais geniais da história do cinema, e não vou compará-los com nenhuns outros vinte minutos de filmes outros, ok? O filme começa com o enquadramento de um relógio cujos segundos passam mais rápido do que o normal (o cronômetro me ajudou a confirmar a tese); depois, surgem o título e os créditos. Alguém já sabe de que filme se trata? Logo em seguida aos créditos, uma explicação, como era comum nos filmes deste diretor e daquela época, e, posteriormente, a primeira metáfora, que é um rebanho de ovelhas caminhando, juntas, cena que transiciona para um grupo de trabalhadores saindo do metrô, juntos, e caminhando para uma indústria de uma cidade grande. Aí entram (alguns correm apressados), batem ponto e se direcionam para os seus devidos lugares, sob a supervisão de outros homens. Já sabe de que filme se trata, certo? 

Trata-se de “‘Tempos modernos’ – uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a humanidade em busca de felicidade”, de Charlie Chaplin, responsável pelo roteiro, direção, música e protagonista do filme. Se tento convencer o leitor de que se trata dos vinte minutos mais geniais da história do cinema, preciso utilizar todas os recursos, certo? Então voltemos para a cena do rebanho de ovelhas brancas... Ops, se você assistir com bastante atenção (a cena dura apenas sete segundos), verá que entre as várias ovelhas brancas, surge uma (só uma) ovelha preta, no meio, caminhando entre as outras. O que será que Chaplin quis dizer com isso? O preto aí, ou mesmo a expressão “ovelha negra” (se é que em língua inglesa ela existe), está no sentido positivo, pois significa alguém que destoa, elemento dissonante que navega contra a maré (e quebrará a conformidade do sistema), que se revolta. Tudo isso fará mais sentido quando o telespectador avançar na história do filme: o trabalhador no sistema capitalista é reduzido ao estatuto de animal, destituído de individualidade e submetido à velocidade irracional do tempo industrial.

 

 

E tudo isso ocorre (o relógio com os ponteiros dos segundos passando, a prévia explicação, o título, os créditos, as imagens do rebanho de ovelhas e de trabalhadores, tanto saindo do metrô quanto chegando ao local de trabalho) com um fundo de uma orquestra de metais e cordas, que cria um clima exclusivo – rítmico – para cada plano, para cada cena. Ah, detalhe: a música do filme é de Chaplin, mas os arranjos não: é de Edward Powell e David Raksin. Há também, durante o filme, “uso de números musicais populares com permissão especial”, seja lá o que essa nota no início signifique. O desenho sonoro, inclusive, é também um recurso comunicativo, quando se percebe, à medida que a história avança, que a comunicação sonora é reservada quase exclusivamente para figuras de autoridade ou aparatos mecânicos. 

Os trabalhadores enfim em suas ocupações, o apito soa e a Grande Máquina começa a funcionar: um homem musculoso e sem camisa a liga. Corta para a sala do Presidente da empresa Electro Steel Corp. Eis que começa, de forma quase sutil, toda a sátira de que Chaplin é capaz: o presidente monta um quebra-cabeça com várias peças mas, entediado, pega um jornal para ler, cujo frontispício é a história de Tarzan. É como se o artista, aqui, quisesse dizer que só os patrões, neste sistema, têm direito ao lazer. No entanto, segundos depois, sua secretária entra trazendo um copo d’água e uma caixinha de comprimidos e deixa tudo na mesa. Ele a olha de relance, com um ar enfastiado, e toma seus comprimidos. Liga um aparelho, que se parece com um rádio, tanto no formato quanto no som que produz, e sua tela grande, onde controla seus funcionários, acende: algumas imagens, de espaços diferentes da sua fábrica, são projetadas, e ele – o diretor – monitora seus funcionários. Aperta uma campainha e seu supervisor (o homem sem camisa e musculoso) corre para atendê-lo, por meio de uma tela de circuito fechado de televisão, a partir da qual conversam. 

Veja, leitor, que se trata de um filme lançado em 1936, e nessa época estávamos longe de termos câmeras de vigilância em espaços públicos e privados controlando nossas ações. Possivelmente não se trata do primeiro filme que utilizou esse recurso (diálogo entre pessoas distantes por meio de som e imagem, algo que se tornaria comum com o advento da internet), mas devemos concordar que a arte, o artista, sobretudo o gênio, é um pouco precursor de coisas/fatos/invenções, além de antena da raça, como propôs T.S. Eliot ao tratar da figura do poeta, a saber: um receptor sensível que capta e expressa as complexidades, angústias e memórias de sua época, servindo como um canal de experiências coletivas. Chaplin era também antena da sua raça e época, a saber, do ser humano do século XX. 

O chefe então diz para o supervisor (cremos que seja o supervisor): “Seção 5, aumente a velocidade. 4-1.” – a que este obedece prontamente. É a partir daqui que toda mágica (de Chaplin) acontece, em meio a um alto-falante que começa: “Atenção, capataz da seção 5. Ver o aumento da produtividade. Atenção, seção 5.” O problema é que Carlitos estava justamente na seção 5, como operário numa linha de montagem cuja função é apertar porcas em placas metálicas que passam incessantemente por uma esteira rolante. E onde Carlitos está, a confusão é certa, mesmo quando ele não a procura. A pressão por velocidade e produtividade, os telespectadores percebem de várias formas: pela trilha sonora repetitiva, pela atuação dos outros atores (trabalhadores da fábrica), pela pressão que o “capataz” da seção 5 faz em todos eles o tempo todo. É de tirar o fôlego e é, também, de fazer rir, mesmo as pessoas do século XXI, passados quase noventa anos após a estreia do filme. 

Carlitos até tenta fazer seu serviço bem-feito, mas um começo de coceira no sovaco, seu colega de serviço, o próprio capataz que lhe chama a atenção e o pressiona, um besouro próximo a seu rosto, várias coisas o atrapalham, e ele perde o ritmo do serviço o tempo todo, culminando – para nós – nas trapalhadas que nos fazem rir. Mas, dentro da lógica crítica do filme, os braços que tentam realizar o serviço que não conseguem, explicitam um trabalho exaustivo. Assim, qualquer interrupção mínima, resulta em caos e força o trabalhador a correr, desesperado, para recuperar o tempo perdido. Mas esse tempo recuperado, só o é para o patrão, nunca para o trabalhador, que o perde e perde sua vida, trabalhando.

 

 

Como apregoa Drummond no poema “Elegia 1938”, Carlitos “trabalha sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo”, o que pode ser comprovado na decisão do presidente da empresa em aumentar, ainda mais, a velocidade das máquinas da seção 5: de 4-1 para 4-7. Mas será que podemos afirmar que Carlitos também “pratica laboriosamente os gestos universais”? Só até certo ponto: no filme “Tempos modernos”, até o momento da troca de turnos, que dura apenas alguns segundos, quando ele passa suas ferramentas para outro funcionário, se dirige ao banheiro, ali acende um cigarro, se senta no lavatório e é repreendido, na tela no interior de um espaço que deveria ser privado e íntimo, pelo seu patrão: “Pare de matar o tempo, volte ao trabalho!” Carlitos tenta convencê-lo de que estava ou precisava lavar as mãos, mas o patrão, intransigente: “Vá!” Sai do banheiro, bate o ponto e volta ao trabalho, talvez consciente de que se trabalhasse daquela forma, em breve poderia enlouquecer ou morrer, pois volta mais relapso, fazendo hora, olhando e lixando as unhas, ganhando tempo antes de pegar, novamente, suas ferramentas com as quais aperta parafusos, freneticamente. 

Corta para a sala do presidente: com a proposta de eliminar o “tempo morto” em sua empresa, ele recebe representantes de uma empresa que comercializa a Máquina Alimentadora Bellows, projetada para alimentar o trabalhador, de forma automática, rápida, eliminando a necessidade de uma pausa para o almoço e maximizando a produtividade: “Por que parar para almoçar?” – questiona a máquina em sua defesa. Eis um projeto que “prova a existência da Grande Máquina / e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras”, como sugere Drummond em “Elegia 1938”. Mas, para provar a eficácia da Máquina Alimentadora, era necessária a demonstração em um funcionário. 

A cena do teste da máquina de alimentação em Carlitos é clássica: aquilo que a princípio se mostra potencialmente lucrativo para o capitalista, ele o rejeita porque não é prática, pois a máquina, controlada por uma voz metálica, começa a funcionar de maneira errática: empurra espigas de milho contra o rosto de Carlitos em alta velocidade, derrama sopa quente em seu peito, coloca parafusos metálicos em sua boca. Ademais, o limpador de boca automático, divulgado como um toque de gentileza mecânica, passa a agredir repetidamente o rosto do personagem. Mas, em meio ao desespero de Carlitos, Chaplin nos faz rir. Como e por que Chaplin nos faz rir? 

Esta é uma questão discutida e respondida centenas, milhares de vezes em artigos, livros, documentários, e eu não vou me meter a discuti-la novamente. Mas “nos fazer rir” em meio à pobreza, à miséria, à tristeza, à exploração do trabalhador, às tantas intempéries da vida é uma das explicações da genialidade de Chaplin. Em sua época, Chaplin (e mais especificamente Carlitos) fazia os seus telespectadores rirem, porque eles – em sua maioria pobres e trabalhadores – se identificavam com tudo aquilo que era mostrado na tela. Hoje, telespectadores burgueses que somos ou pretendemos ser (às vezes sem nunca alcançar o intento), rimos porque sabemos que boa parte da população ainda assim vive, como Carlitos, mas em outras configurações, e nada podemos fazer ou fazemos. É meio que um riso cínico. 

 

Indicações: 

Tempos modernos (1936), filme de Charles Chaplin, disponível na plataforma de streaming Looke. 

The real Charlie Chaplin (2022), documentário da Prime Video (R$ 6,90 o aluguel). Trata-se de uma síntese dinâmica e recente da ascensão de Charlie Chaplin e dos principais acontecimentos de sua vida. Ótimo para quem não conhece o artista em profundidade. 

A última dança de Chaplin (2015), de Fabio Stassi. Trata-se de um romance que mistura ficção e realidade, alternando entre os últimos anos de vida de Chaplin com seus primeiros anos como artista, sobretudo depois de sua ida para os Estados Unidos. Durante seis anos, a Morte – em capa e osso – visita Chaplin para levá-lo, mas ele consegue um acordo com ela: se conseguir fazê-la rir, ganhará mais um ano de vida. 

O cinema de perto: prosa e poesia (2024), de Carlos Drummond de Andrade. Há uma seção dedicada a Chaplin e vários textos sobre os atores, atrizes, filmes do cinema mudo. Aqui conhecemos outra faceta de Drummond, um dos gênios da literatura brasileira: o de cinéfilo. Muitos textos aí publicados eram inéditos em livro até então. 

 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos (Textifique Soluções em Textos). Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. É pesquisador/admirador de Carlos Drummond de Andrade, Charles Chaplin e Campos de Carvalho. Mora em Uberlândia-MG.

1 de nov. de 2025

Dois filmes brasileiros para você (não) assistir, se for brasileiro

Por Sinvaldo Júnior 

Toda vez que assisto a um filme brasileiro ou leio um livro de autor nacional de que gosto, surge em mim uma revolta (in)explicável: por que a sociedade brasileira, com sua cultura e artes tão diversas, valoriza tão pouco sua própria produção? Que síndrome é essa que a faz consumir majoritariamente obras estrangeiras? São perguntas antigas e antiquadas - eu sei. 

Sim, e também sei que Ainda estou aqui fez uma baita sucesso e que Itamar Vieira Júnior é um best seller etc. e tal, mas esses casos, a meu ver, além de serem exceções, pouco contribuem para divulgar o cinema e a literatura brasileira em seu próprio país. Em suas entrevistas, quantos autores nacionais, famosos, antigos ou contemporâneos, o escritor Itamar Vieira Júnior ajuda a divulgar? Como formador de opinião, com certeza ele tem esse poder. Quantos escritores se tornaram conhecidos do público brasileiro na esteira do seu sucesso? Você já sabe a resposta, leitor. Nenhunzinho. Quanto ao cinema, saiba que entre os 20 filmes com maior bilheteria no Brasil em 2025, apenas um é brasileiro: Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa. 

Sou pesquisador de literatura brasileira; vou ao cinema para assistir, prioritariamente, filmes brasileiros, muitos dos quais assisti na sala vazia… Também priorizo, em minhas playlists dos streamings, filmes nacionais. Desde criança, devo confessar, sou apaixonado por cinema brasileiro, e o motivo dessa paixão - creio - foi ter assistido ao filme Pixote, a lei do mais fraco (1981) num desses canais abertos, o único acesso à TV, na década de 1990, para uma família pobre. Desde então - e até o cinema brasileiro começar a copiar os modelos hollywoodianos - eu acompanhei quase tudo que surgia de filme feito por aqui, por nós. Hoje - confesso - seleciono muitíssimo bem os filmes a que assisto, uma porque o cinema brasileiro - para o bem e para o mal - se difundiu em modelos que pouco parecem ser feitos no Brasil, e outra porque vivemos uma vida frenética que nos impedem de termos o lazer que queríamos ter. Não vou entrar nessas questões… 

Nos últimos dois dias, assisti a dois filmes nacionais disponíveis na Netflix, mas muito diferentes entre si: A frente fria que a chuva traz (2015), do famoso-desconhecido Neville d’Almeida, diretor de A dama da lotação (1978), Matou a família e foi ao cinema (1991) e Navalha na carne (1997), entre outros; e Meu sangue ferve por você (2023), direção de Paulo Machline, sobre um recorte da vida de Sidney Magal, o popular cantor que dispensa apresentação (será?).

A história de A frente fria que a chuva traz (2015) pode parecer absurda e inverossímil para quem desconhece a realidade brasileira e, mais especificamente, a realidade da cidade do Rio de Janeiro[i]: um grupo de jovens ricos aluga uma laje na favela do Vidigal e, durante um dia inteiro, interage entre si e com o dono da laje, um favelado preto (Gru), e, à noite, organiza uma festa regada a muita bebida, drogas e insinuações sexuais. Suas conversas são, em geral, superficiais, carregadas de preconceito, eivadas de termos chulos. Qualquer semelhança com a realidade, aqui, traduz a realidade. 

No entanto, uma personagem se destaca: Amsterdã, interpretada pela belíssima Bruna Linzmeyer, é uma moça pobre que se prostitui às vezes para comprar suas drogas, e frequenta um meio do qual não faz parte - aquele dos jovens burgueses - justamente para conseguir bebidas e drogas na faixa. Mas nada - nesse meio de pessoas endinheiradas - é de graça. Alguém deveria tê-la avisado. 

No início do filme, todos os personagens parecem muito superficiais e a situação, idem. Mas, à medida que a história avança, eles vão se complexificando, até culminar nas falas finais, emitidas por Amsterdã, cheias de rancor e ódio de classe - mas da classe baixa para a classe alta, o que no Brasil é muito mais justificável, se levarmos em conta sua história elitista, classicista e escravista. O rico não tem motivo nenhum para odiar os pobres, mas odeia; o pobre tem mil motivos para odiar os ricos, mas admira - essa é a história de uma sociedade que não se reconhece, pois seus indivíduos sempre se consideram acima do que de fato são. 

A frente fria que a chuva traz foi um fracasso em seu circuito comercial, e não poderia ser diferente: primeiro, não é um filme comercial; segundo, mesmo se tratando de um filme alternativo, não se apresenta como tal desde o início, misturando estética popular e autoral, trilha sonora popularesca e popular-elitista, personagens rasos e complexos, uma sala mista que confunde seu possível público-alvo; terceiro, porque não é um filme bom (o que não quer dizer que é um filme ruim). Destacam-se, nele, a atuação de alguns atores e sua fotografia, que privilegia o belo no feio. Sim, a favela é feia e não venceu. Está mais perdida do que nunca, diria.

Meu sangue ferve por você (2023), por outro lado, é um filme que desde o início mostra a que veio: quer ser popular e o é. Começa com Sidney Magal, o protagonista, em seu camarim antes de entrar no palco para realizar um show em Salvador (BA), em 1979. Trata-se (e o recado é explícito no início) de uma “fábula magalesca e qualquer semelhança com a realidade é uma coincidência cósmica, obra do destino”. Ou seja, o aviso está dado: embora inspirado em uma história real (a história de amor do cantor famoso), não acredite em tudo que vê, porque muita coisa ali foi feita para encantar o telespectador, e não para ser fiel à realidade retratada. 

A direção de arte do filme é seu ponto alto: o figurino, a maquiagem, a cenografia, os elementos visuais em geral, contribuem para nos colocar naquele universo - da música popular do final dos anos 1970; da cidade de Salvador à época - e, em consequência, para nos colocar dentro da história do filme. O que pode parecer brega para a Geração Z e Y, como a forma como o cantor se vestia (roupas extravagantes, coloridas) ou se portava (gestos ensaiados, afeminados), parece a mim - alguém na casa dos 40 que nasceu no final da Geração Millennials e, portanto, não viveu essa época - extremamente avançado/moderno/corajoso para a época. Éramos menos conservadores? Éramos mais tolerantes? Aceitávamos mais as extravagâncias das pessoas (ou somente as dos artistas)? 

São questões que o filme não levanta, mas que me suscitou enquanto eu o assistia. Na verdade, é um filme de encontro, de amor. Trata-se da história de como Sidney Magal (hoje com 75 anos) conheceu sua atual esposa, Magali. Os personagens são interessantes, engraçados e, embora extravagantes alguns (a mãe de Magali, Graça, interpretada por Emanuelle Araújo; o primo de Magali, Renan, interpretado por Sidney Santiago; o empresário de Magal, Jean Pierre, interpretado por Caco Ciocler), não parecem forçados ou caricatos. Os diálogos são naturais e combinam - eu acho - com a forma como as pessoas falavam em Salvador nas décadas de 1970/1980, e isso se dá pelas ótimas atuações dos atores, em especial das atrizes. É um filme leve, romântico - um ótimo entretenimento de 1 hora e 37 minutos. 

Toda cinebiografia é um recorte. Ou seja, toda ficção, mesmo baseada em fatos reais, é mentirosa. Ok? Não vem ao caso saber o que é ou não é verdade no filme - isso não importa. Fazer um filme hoje, no Brasil, sobre uma história passada 45 anos atrás já é, em si, digno de nota: não é nada fácil - qualquer plano aberto pode colocar tudo a perder, pois mostrar mais prédios que de fato existiam em 1979, mesmo se tratando de uma cidade grande como Salvador, pode deixar o telespectador mais cricrítico de orelha em pé. Acontece às vezes? Acontece. Mas isso não compromete o filme. Como disse, produzir um filme histórico - e no interior de uma cinebiografia/comédia romântica - não é para qualquer um. 

Para agradar a uma sociedade moralista, como a atual, independente se à esquerda ou à direita, o diretor precisou fazer alguns ajustes, um dos quais foi colocar uma atriz mais velha (Giovana Cordeiro) do que seu par romântico masculino (Filipe Bragança), o que difere da realidade retratada (Magali tinha 16 anos; Sidney Magal, 29), porque é difícil explicar para uma geração moralista e preguiçosa, que não tem (nem quer ter) conhecimentos históricos/geracionais, que à época de nossos pais/avós/bisavós, as mulheres começavam a se relacionar ou se casavam bem mais novas e, em geral, com homens mais velhos. 

Mas vamos focar nos gêneros: Meu sangue ferve por você é, em essência, uma cinebiografia, mas é uma cinebiografia de um cantor, motivo que fez o diretor fazer dele também um musical. Além disso, é um filme romântico e uma comédia. Havia muitos motivos para ser melodramático, brega ou superficial. Podia não funcionar, mas funcionou: cumpriu com todos os propósitos dos gêneros. Caso se disponha, leitor-espectador, irá se entreter e se divertir ao assisti-lo. Diferentemente de A frente fria que a chuva traz (2015), que quis ser algo que não conseguiu, Meu sangue ferve por você (2023) quis ser apenas aquilo que conseguia ser: um bom filme. 

Voltemos às questões do início do texto: por que o telespectador brasileiro, mesmo com um cinema tão diverso que funciona para todos os gostos, prefere assistir a filmes majoritariamente estrangeiros? Sim, há uma explicação mercadológica que envolve marketing, muito marketing, e uma opção por modelos de histórias que fazem sucesso há anos, décadas, séculos. Mas muitos filmes brasileiros, sobretudo das últimas duas décadas, também obedecem a esses modelos, e mesmo assim não conseguem seu público. A explicação, a meu ver, simplista, dura, mas real, é: um complexo arraigado, profundo, de sempre achar - preconceituosamente, pois não dá a chance da dúvida - de que o estrangeiro é sempre melhor do que é brasileiro. Nem Freud explica. 

 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos (Textifique Soluções em Textos). Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. É pesquisador/admirador de Carlos Drummond de Andrade, Charles Chaplin e Campos de Carvalho. Mora em Uberlândia-MG.



[i] Não depois da chacina que matou 119 pessoas praticada pelo Estado no dia 28 de outubro. Um absurdo normalizado no meio de vários absurdos normalizados que ocorrem na cidade maravilhosíssima.