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24 de jul. de 2026

'Sertão dos mortos' - um retrato simbólico do Nordeste

 

Por Gustavo Coelho 

Nordeste. Podemos dizer que é uma das regiões mais antigas do Brasil. Por ser o berço do início da colonização do país, é uma das regiões que mais sofreram com a exploração de suas riquezas. Devido à união de fatores históricos, estruturais e de própria natureza, nos dias atuais é considerada a região mais pobre do Brasil. Mas, apesar de todos estes pontos, pode-se dizer que é uma das regiões onde se concentra o maior índice de riquezas culturais, fruto de uma forte miscigenação entre povos indígenas, africanos e europeus. 

É neste vasto cenário que os autores (Chaffim et al.) de Sertão dos Mortos escrevem uma HQ de ficção voltada para o terror social. A história passa em um Nordeste pós-apocalíptico, onde acompanhamos o encontro de figuras regionais, como o próprio povo interiorano, cangaceiros, volantes, povos estrangeiros, indígenas, vaqueiros e uma figura que simboliza o futuro (astronauta). Com diversas referências que recontam um pouco da exploração daquela terra cansada, Sertão dos Mortos mostra uma “epopeia” de conflitos que acabam em um verdadeiro apocalipse zumbi.  

A HQ mostra uma trama bem violenta. Mas todo conteúdo da HQ, inclusive a própria violência, está conectado à questão crítico-social. Eis alguns pontos importantes analisados a partir dos extras da obra: 

A questão da violência: As HQs de horror (terror), comumente, apresentam uma trama de violência. Mas no caso do Sertão dos Mortos, esta violência dialoga com a forma pela qual o Nordeste foi explorado: as mortes, por exemplo, que ocorrem em todo a HQ, são reflexos da exploração da região e representam a exploração do povo nordestino (visto, de início, pela figura do “cabra”), o conflito/violência da volante e dos cangaceiros, a invasão dos povos estrangeiros, a luta indígena e como, muitas vezes, o progresso vem de forma impositiva e agressiva. 


   Simbolismos dos personagens: Esta HQ possui uma crítica específica em cada personagem. O(s) autor(es), nos extras, descreveu(eram) o significado de cada um deles. Em síntese, a caracterização de cada um dos personagens se deu como uma crítica de como a cultura nacional (brasileira) está sendo jogada cada vez mais de lado em detrimento da cultura estrangeira. Embora há aqueles que prezam, calados, por sua cultura, outros que fingem gostar dela, mas a negligenciam, ou até aqueles lutam por ela, mas em geral a maioria acaba oprimida ou massacrada pela cultura estrangeira.

      Referências e curiosidades: Ainda nos extras, somos apresentados a alguns dos fatores que auxiliaram na construção do enredo. O(s) autor(es) deixaram evidentes, dentro do processo criativo, que tiveram inspirações em outras obras e, que em alguns trechos, sentiram a necessidade de homenagear ícones da cultura popular brasileira. 

Opinião do leitor

Aqui expressarei minha opinião. Abordarei a questão crítica e comercial, onde, pela maioria das vezes, costumam ser opostas, não dialogando em prol do mesmo objetivo. Dividirei em dois pontos: a parte positiva da HQ e a parte negativa.


Ponto positivo

Sertão dos Mortos é uma HQ de cunho crítico apresentada de forma que tenha a ação necessária para cativar o leitor de quadrinhos. O gênero de horror (mais precisamente o terror), nos quadrinhos, sempre teve um bom público. Rodrigues (2015 apud Ramone, 2015) diz que “no Brasil, o gênero terror sempre foi um dos mais importantes dos quadrinhos, desde o final da década de 1930 (Garra Cinzenta já era uma dessas histórias, só que com elementos policiais) até meados dos anos 1990. Os brasileiros adoram uma boa história de terror, seja de lobisomem, assombração ou boitatá. Isso tem nos interessado como manifestação cultural”. 

Mas nota-se, no mercado, uma pequena mudança no cunho do horror, onde as histórias começaram a ficar mais dinâmicas, voltadas para a temática de aventura, com um toque de terror. Como exemplo, vemos quadrinhos da antiga revista Vertigo como Hellblazer, Morte, Preacher ou, até mesmo, Spawn da antiga Image. Eram quadrinhos com muitas doses de ação com uma pitada de macabro. 

A febre, entre a temática desta mesma HQ, veio com a The Walking Dead da Image. Focada no drama humano, com uma narrativa longa, ela apresentou algo que cativou o mercado gerando um hype no gênero de zumbis, priorizando o desenvolvimento psicológico dos personagens e distanciando da narrativa padrão de histórias de zumbi, colocando as relações em primeiro plano. 

Sertão dos Mortos acabou acertando a mão na temática, principalmente por escolher uma região com uma cultura tão rica para ser palco da trama. Com o objetivo de conscientizar o leitor por meio de críticas sociais e, ao mesmo tempo, buscar elementos que valorizem a cultura nacional, o processo acaba sendo natural, permitindo que todos aqueles que buscam um quadrinho de zumbi quanto aqueles que buscam pelo conteúdo nacionalista/crítico, acabem recebendo de forma satisfatória a obra. 

Mas devo alertar que o quadrinho, por mais que pareça algo comum aos outros de mesmo gênero, é diferenciado. Ele não é um quadrinho voltado para a narração básica das histórias de horror. Não apresenta mortes sem sentido ou para causar alguma espécie de impacto por ser violenta ou algo do gênero. Esta é uma HQ feita para fazer refletir. Voltada para um nicho específico. Ela faz críticas pessoais, sociais e políticas sobre a questão nacionalista de nosso país, tentando conscientizar as pessoas de que deveríamos valorizar mais a nossa cultura do que abraçar, de forma cega, o estrangeirismo e suas vertentes. É uma excelente obra para se discutir no meio acadêmico, tentando causar debate e diversas visões sobre nossa identidade cultural.

 

Ponto negativo

Curiosamente, o que exalta como ponto positivo acaba trazendo um fator negativo de grande impacto para HQ. O objetivo de toda e qualquer obra literária é a comercialização. Aliás, este é objetivo de todo e quaisquer produtos que estão no mercado. Focar em um conteúdo tão denso (a ponto de ter que apresentar um extra que demonstre todos os significados do enredo) acaba por nichar demais seu público. Todo e qualquer periódico da nona arte deve estar voltado em atingir o máximo de público na grande massa de leitores de HQs. A densidade do enredo impede, no meu ponto de vista, de atingir a real massa deste gênero, onde as ideias centrais da obra acabam por ser mais políticas, afastando o entretenimento que a maioria do público quer. 

Outro ponto é o antagonismo entre a ideia central e a construção da HQ. Podemos notar até mesmo nos extras. Onde há, claramente, um embate crítico sobre a permissibilidade brasileira frente ao tal “imperialismo cultural estrangeiro”, mas o(s) próprio(s) autor(es) utilizaram alguns filmes internacionais (13 filmes, ao todo) como referências mencionadas na HQ. O autor principal confessa, na seção de curiosidades, que o próprio título da obra foi inspirado em títulos de obras internacionais. Neste ponto vejo uma discrepância, principalmente por se tratar de uma ode ao nacionalismo. 

Outro ponto que seria importante trabalhar é quanto ao protagonismo. Por retratar tantas críticas e buscar diversos tipos de referências para o enredo, a história, por vezes, acaba não conceituando um protagonista ou um antagonista (pelo menos de forma clara, visto que claramente o protagonismo é a questão de nossa identidade nacional, produto nacional, e o antagonismo acaba sendo o estrangeiro, retratado na forma dos EUA). A ideia de protagonismo acaba se perdendo no meio de tantos personagens nascidos para representar uma ideia, ao invés de ser parte da trama. 

Por fim, o trabalho de arte é bom, assim como o enredo. Não estou aqui para criticar de forma negativa, mas sim de forma construtiva. Acredito no potencial da trama. Mas, em minha opinião, há um conceito nacionalista exacerbado, triscando em um ponto político extremista. Acho que toda crítica (ou movimento) por trás de Sertão dos Mortos é válida, contudo o foco foi voltado mais para a ideologia e não para a trama. A história tem um potencial gigantesco, onde poderia focar mais no que a massa gostaria de ler, por mais que o estrangeirismo faça parte deste “modismo”, pois no final o que conta são as vendas. 

 

Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo (Cápsula Editora, 2025) e autor de Os 13 contos (Cápsula Editora, 2026).

11 de mar. de 2026

Um encontro entre a música e a literatura em Uberlândia...

Como lidar com as ausências que a vida nos impõe? Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior transformaram a dor em beleza e o luto em uma jornada de superação no livro Crisântemo. 

Queremos convidar você para estar conosco no lançamento oficial desta obra. Será um momento especial para conversarmos sobre como a arte e a música podem ser ferramentas poderosas de reconstrução pessoal. 

📍 Local: Sala de eventos da Biblioteca Municipal de Uberlândia (Praça Jacy de Assis, s/n – Centro)

🗓️ Data: 20 de março

Hora: 18h30 

* Anote na sua agenda!

Sua presença tornará essa noite ainda mais significativa. Apareça para um abraço e para garantir o seu exemplar autografado!

8 de mar. de 2026

Um trecho de 'Crisântemo' - Ao som de rock


Por Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior 

“Olhei para cima. O céu estava espetacular, um negrume profundo pilhado de estrelas, como só acontece longe das luzes da cidade. A Via Láctea se estendia como pinceladas de giz divino. Mas a beleza que deslumbrava também colocava tudo em perspectiva, e uma tristeza profunda bateu forte, mas por causa dele, de Lucas, que estava quebrado demais para conseguir apreciar uma noite como aquela. 

Nesse instante de paz, uma ruptura: bem longe, atrás de um monte, ao fixar minha vista em um ponto qualquer daquela escuridão, eu ouvi uma cascata de sons que fez o meu chão tremer, o grito longo e áspero do aço se dobrando sobre si mesmo e o estalo final de mil fragmentos de vidro. E então, o silêncio. Um silêncio absoluto, pesado.


 

Gelei. Meu corpo, uma estátua de pavor. Um pneu? Um animal na pista? Minha mente tentava, desesperadamente, encontrar uma explicação lógica, uma resposta que não fosse aquela. Mas era inútil. 

A cena inteira dos últimos minutos se rebobinou em minha cabeça. O sorriso triste, a voz calma, o abraço apertado demais. “A gente se tromba lá em cima, no meio das estrelas...” A risada seca. “Até a próxima, viajante estelar.” Não foi uma piada, mas sim um presságio. O toque de punho não foi um cumprimento. Foi uma despedida. 

E então, um som mais alto veio me assombrar, algo de dentro da minha cabeça. As minhas palavras... “Vai pra casa agora. Só... apaga. Desliga do mundo.” Um frio percorreu minha espinha, tão violento que minhas pernas bambearam por um instante. Aquelas palavras. Minhas. Eu as disse. Eu lhe dei a ideia? Eu que lhe dei a solução? O que eu quis dizer – um conselho para que ele descansasse – foi o que a mente de um homem no fundo do poço ouviu? Não, não foi um conselho. Foi a porra de uma instrução. 

A verdade não se encaixou como uma peça de quebra-cabeça. Ela explodiu dentro de mim. Meu amigo não tinha superado. Ele não se acalmou. Apenas cumpriu a sua palavra, e com o meu aval. Ensaiou comigo e me deixou sair do carro para terminar, sozinho, o seu show. 

Ali, parado na escuridão, sob o mesmo céu que pouco antes me parecia tão belo, senti o chão desaparecer. Eu não conseguia gritar. Não conseguia me mover. Só conseguia mirar a estrada, uma curva escura no nada, onde a noite, sob o olhar indiferente de um milhão de estrelas, havia acabado de engolir o meu melhor amigo.” 

 

In: Crisântemo. Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior. Uberlândia: Cápsula Editora, 2025. pp. 13-14.

4 de mar. de 2026

'Crisântemo', de Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior

Carlos (20 anos) é um jovem músico que vê seu mundo desmoronar em uma sucessão de tragédias. Assombrado pela perda de Lucas, seu melhor amigo e baterista da banda, Carlos mergulha em uma espiral de dor, culpa e desconfiança. Cada pilar de sua vida parece ruir: o relacionamento conturbado com a mãe atinge um ponto de ruptura, antigos amores retornam com segredos avassaladores e a própria música, sua única válvula de escape, é silenciada. 

Expulso de casa e vagando por uma cidade que parece indiferente ao seu sofrimento, Carlos se vê confrontado por verdades dolorosas sobre as pessoas que mais amava. À beira do abismo, ele precisa encontrar uma razão para continuar em meio ao caos. Crisântemo é uma jornada visceral sobre luto, abandono, traição e a busca por um novo sentido para a vida, onde a amizade e a arte se tornam os últimos refúgios contra a escuridão, e uma única canção pode ser a chave para a redenção. 

Ficha técnica
Ano de publicação: 2025
1ª edição
126 páginas
Cápsula Editora
Ficção: novela
Formato: 15 x 21 cm 


Onde adquirir o Crisântemo

 

Em breve, o lançamento oficial! 

 

Sobre os autores 

Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. Crisântemo é sua primeira obra jovem adulta.

11 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 5)

Por Gustavo Coelho 

Livre. A palavra mal se fixava em sua mente, abafada pela dor latejante. Hebert se apoiou na parede, ofegante, e olhou para o corpo de seu algoz. A chave. Precisava da chave. 

Ele se arrastou até o homem. Com as mãos trêmulas, começou a revistar os bolsos do paletó. Encontrou primeiro uma outra pistola, um revólver .38 idêntico ao que o matara. Estranhou, mas continuou. No outro bolso, sentiu o contorno de uma moeda. Puxou-a. 

Era a moeda do jogo. Olhou um lado: cara. Virou-a: cara de novo. Uma moeda com duas faces iguais. A sorte, a escolha, a esperança – tudo uma farsa. O jogo nunca fora sobre chance. Mas sobre a vontade dele. 

Sem pensar muito nisso, enfiou a mão no bolso da calça do homem e sentiu o metal frio das chaves. Agarrou-as com força. Com o canto do olho, viu o pedaço de si mesmo caído no chão. Em um ato de desespero e negação, ele o recolheu com as mãos, na esperança absurda de que não fosse tarde demais. Já sentia o corpo ficar mais frio, a tontura chegando pela perda de sangue. 

Correu, ou melhor, mancou o mais rápido que pôde até a porta pela qual o sequestrador havia saído pouco antes. As mãos tremiam tanto que ele custou a encaixar a chave na fechadura. 

Girou-a. A porta se abriu. 

Aí ele se deparou com algo aterrorizante. 

Não era um corredor. Era um quarto de menina. As paredes eram pintadas de um rosa desbotado e, em uma delas, dezenas de fotos de uma jovem sorridente estavam presas em um mural. Os móveis, também cor de rosa, estavam bem-dispostos. Em cima da cama de dossel, repousava o cadáver mumificado de uma garota, a pele esticada sobre os ossos como pergaminho, a boca aberta em um grito silencioso. Acima, no teto, balançava uma corda com um laço na ponta. 

Hebert recuou aterrorizado. Olhando freneticamente ao redor em busca de outra saída, avistou uma porta do outro lado da sala. Correu até ela, mas seu coração afundou. Era uma porta de aço, uma porta sem maçaneta, apenas uma fechadura eletrônica, um leitor de impressão digital. Ele estava preso. 

Seus olhos percorreram a sala de forma frenética e finalmente se fixaram em uma pequena mesa. Talvez um cartão, algo para abrir a porta. Ele se jogou sobre ela, remexendo em papéis e objetos. Mas não encontrou um cartão. Encontrou um bilhete, dobrado e posicionado no centro da mesa, como se estivesse esperando por ele. Largou seu membro decepado na mesa e, com os dedos manchados de sangue, o abriu e leu:

 

“Pai,

 

Essa vai ser a última vez que você vai ouvir minha voz — mesmo que seja por letras no papel. Eu não sei como dizer isso de um jeito que doa menos. Talvez não exista. Então... me perdoa.

 

Eu tentei, de verdade. Tentei voltar a ser a Marina de antes. Tentei respirar como se meus pulmões ainda funcionassem direito. Mas alguma coisa em mim morreu naquela noite — e nunca mais voltou.

 

Você lembra da viagem da faculdade? Aquela em que você ficou orgulhoso por eu estar participando? Foi ali, pai. Foi ali que ele me destruiu. Hebert, um colega de turma, alguém que todo mundo admirava, aquele tipo de pessoa que sorri para todos e engana fácil. Ele se ofereceu para me levar até o quarto porque eu não estava bem. E foi lá que tudo acabou.

 

Ele me amarrou e estuprou, por diversas vezes. Eu me lembro do cheiro do quarto, da textura do lençol contra meu rosto quando tentei virar, dos segundos intermináveis com a boca trancada de medo. Depois ele só disse: “Não adianta gritar. Ninguém vai acreditar em você.”

 

E ninguém acreditou.

 

Eu denunciei. Fiz tudo que disseram ser o certo. A polícia disse que não havia provas. O exame deu inconclusivo. A faculdade se calou. Ele seguiu em frente, como se nada tivesse acontecido. E eu fiquei... aqui.

 

Você me dizia para não desistir, para ser forte. Mas, pai, você sabia que tem dias que eu nem lembrava o gosto da comida? Eu parei de sentir fome. Parei de sentir sede. Os sabores sumiram da minha boca como se fossem arrancados. Eu mastigava o vazio.

 

Sair na rua virou tortura. Quando eu sentia os olhares — e sempre haviam olhares — era como se cada um fosse uma descarga elétrica atravessando minha pele. Me deixavam paralisada. Eu tremia por dentro, querendo correr, desaparecer. Como se todos soubessem. Como se todos me culpassem.

 

Eu não conseguia mais dormir direito. E quando dormia... era pior. Eu voltava para aquele quarto, para aquele peso, para aquele som abafado da minha própria voz tentando gritar. Acordava molhada de suor, o coração batendo como se quisesse escapar do meu peito.

 

Eu passei a sentir que algo tinha sido arrancado de mim. Como se um pedaço meu tivesse ficado naquele chão. Algo essencial. Sem ele, eu não conseguia continuar. Não era só tristeza. Era ausência. Um buraco fundo onde antes havia vida.

 

Eu sei que você tentou, pai. Sei que me ama. Mas o amor, às vezes, não alcança o que está morto.

 

Hoje, depois de terminar esta carta, vou me libertar. Não porque quero machucar você, mas quero descansar. Quero que essa dor pare. Que esse peso acabe.

 

Me perdoa. Me perdoa por não conseguir mais. Por não ter sido a filha que você merecia. Mas, se um dia você sentir saudade, lembra de mim antes de tudo isso. Quando eu ainda ria de bobagens. Quando ainda tinha gosto em viver.

Com amor,

Marina.” 

As palavras da carta queimaram a mente de Hebert. Marina. Hebert. O nome dela. O nome dele. Ele ergueu os olhos do papel e encarou o cadáver na cama. Aquele rosto, desfigurado pelo tempo e pela decomposição, com a pele esticada como couro velho... por baixo de tudo, ele o conhecia. Era ela. 

O desespero o atingiu com uma força terrível. Ele precisava sair dali. Correu até o corpo mumificado de Marina e, sem cerimônia, começou a revistá-lo, procurando nos bolsos do vestido, já podre, por um cartão, qualquer coisa. Não havia nada. 

Uma ideia medonha e desesperada surgiu. A porta de aço. O leitor de digital. A chave era a mão do homem morto na outra sala. 

Ele voltou, mancando e deixando um rastro de sangue, até o corpo do sequestrador. Ajoelhou-se e pegou uma das mãos, planejando usar o cutelo para decepá-la. Mas ao virar a palma para cima, lembrou de algo aterrorizante. Não havia digitais. Estava queimada. A pele completamente destruída, uma massa de tecido carbonizado. Ele se lembrou do homem segurando a barra de ferro quente. A "prenda". Não fora um ato de loucura. Fora um passo calculado para selar sua tumba. 

Derrotado, Hebert escorregou e sentou-se no chão úmido, entre os dois corpos. E, então, as peças começaram a se encaixar, uma a uma, em um mosaico de horror. 

As duas pistolas idênticas. Uma delas, a que estava no bolso, com a única bala já no gatilho, trocada pela vazia para o início do "jogo". A roleta russa era uma farsa. 

Os choques em seu pênis era a "descarga elétrica" que Marina sentia sob os olhares de julgamento... 

A pera da angústia introduzida em seu corpo, a violação, a boca trancada de medo que ela descreveu. 

Seu dedo e órgão genital arrancados significavam o sentimento de ter tido "algo essencial arrancado" de si, como ela escreveu? 

O saco plástico em sua cabeça, roubando-lhe o ar... a sensação dela de não conseguir mais "respirar direito". 

E por fim, aquilo. Aquela sala. A porta de aço. Sua prisão eterna, onde morreria lentamente de fome e sede, exatamente como ela, que em sua depressão "parou de sentir fome, parou de sentir sede".

Ele não era vítima de um psicopata aleatório. Estava condenado. Condenado a uma vingança pessoal, arquitetada nos mínimos detalhes por um pai que amava tanto a filha a ponto de recriar o inferno dela em seu algoz. Um destino que ia além da morte, um sofrimento lento e degradante de seu corpo e de sua alma, culminando em seu fim, trancado para sempre entre a sua vítima e o seu vingador.


Fim.

 

Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.

10 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 4)

Por Gustavo Coelho 

A súbita liberdade das mãos enviou uma onda de adrenalina pelo corpo de Hebert. Em um ato de puro instinto, ignorando a dor lancinante, ele se impulsionou para a frente, tentando se levantar para avançar contra o sequestrador. 

O homem não se moveu. Apenas sacou um revólver .38 do cós da calça, a arma surgindo com uma naturalidade assustadora. O som do cão sendo armado. Um clique metálico. Hebert congelou, o corpo a meio caminho de se erguer, e o medo o forçou a se sentar de volta na cadeira. 

Foi um erro. 

Sentiu uma dor monstruosa. 

Ele havia se esquecido da "pera" fincada e expandida em seu ânus. O impacto na cadeira fez o dispositivo rasgar ainda mais seu interior. Um grito saiu de sua boca, e seu corpo se contorceu novamente de dor, uma agonia que partia de um novo e terrível lugar. 

O sequestrador, com a arma ainda em punho, observou a cena com interesse. 

— Este será o nosso último jogo — disse ele, a voz calma. — Roleta russa. Se o senhor ganhar, estará livre de sua situação atual. 

Ele balançou um pequeno molho de chaves no ar, o metal tilintando suavemente, antes de guardá-lo no bolso. Em meio ao pânico, à dor e ao desespero, Hebert viu ali a única oportunidade de sair vivo. Ele assentiu, a cabeça balançando em um gesto de aceitação patética. 

— Vamos decidir quem começa — continuou o homem, pegando a moeda do bolso outra vez. — Como o senhor escolheu cara no último jogo, e venceu, a escolha desta vez é minha. Para manter o equilíbrio. E eu escolho cara. 

Ele jogou a moeda para o alto, pegando-a no ar. Ao revelar a face, um sorriso se formou em seus lábios. 

— Veja só. Deu cara! 

Sem dar tempo para Hebert processar o que aquilo significava, ele abriu o tambor do revólver, mostrou uma única bala e a inseriu em uma das câmaras. Girou o tambor com um movimento rápido do dedo, fechando com um estalo.

 

O homem apontou o cano frio do revólver para Hebert.

 

O mundo de Hebert se reduziu àquele pequeno círculo escuro.

 

Fechou os olhos com força, encolhendo-se na cadeira, esperando o estampido final.

 

CLICK.

 

O som metálico e vazio ecoou na sala. Hebert abriu os olhos, ofegante. O sequestrador o observava, um brilho de professor em seu olhar.

 

— Veja só. O primeiro passo é o mais importante — ironizou, com a arma ainda apontada. — Ele nos dá esperança. É a prova de que há uma chance. Agora o senhor sabe que pode sair dessa.

 

Então, com um movimento calmo e fluido, ele levou a arma à sua própria têmpora.

 

CLICK.

 

O segundo som vazio foi tão alto quanto o primeiro. O homem nem sequer piscou. Hebert, por outro lado, soltou uma torrente de lágrimas de pavor e confusão.

 

— Meu Deus, para com isso... — suplicou, a voz estrangulada. — Eu te imploro, me deixa ir embora.

 

O seu captor apenas sorriu, ignorando o clamor.

 

— Lembre-se, Hebert. As escolhas, elas definem o destino de cada um. Boas e ruins. São elas que formam o caráter de uma pessoa.

 

Ele apontou, novamente, a arma contra Hebert e apertou o gatilho mais uma vez.

 

CLICK.

 

Hebert soltou um som de alívio e gratidão. O sequestrador abaixou a arma e a guardou no bolso da calça, como se o jogo tivesse terminado. Ele ofereceu uma opção ao seu "hóspede".

 

— Eu já venho seguindo seus passos há muito tempo, Hebert. O senhor não foi escolhido ao acaso. Foi escolhido a dedo. Eu sei tudo o que já fez, sei de seus planos. Sei até para onde iria amanhã.

 

Ele caminhou pela sala, as mãos para trás, como um palestrante.

 

— O senhor é praticamente um modelo para a sociedade. Um rapaz de sucesso, de família, de posses. E prego, quando se destaca, deve ser martelado.

 

Ele parou e encarou Hebert, o tom agora sério e direto:

 

— Então, aqui está o seu verdadeiro jogo. Sua verdadeira escolha. Se o senhor me revelar um crime que já cometeu, um que seja maior, mais cruel do que o meu de tê-lo trazido aqui, eu encerro tudo. Agora mesmo. E o deixo ir. 

Hebert ergueu a cabeça, o sangue e as lágrimas se misturando em seu rosto. Ele olhou nos olhos de seu captor, a última centelha de lógica em sua mente buscando uma saída, uma forma de vencer aquele jogo impossível. 

— Não tem como... — sussurrou, a voz rouca e quebrada pela dor. — Você... Você arrancou dois membros de mim... Você me torturou... Você praticamente me estuprou. Não existe crime que eu tenha cometido que possa superar isso. 

Ele esperou por uma resposta, uma punição pela insolência. Em vez disso, o sequestrador jogou a cabeça para trás e começou a gargalhar. Não foi um sorriso contido, mas uma gargalhada alta, genuína e maníaca, que encheu a sala úmida. 

— EXATAMENTE! — bradou ele, em meio ao riso. 

Com um movimento rápido, ele retirou o revólver do bolso. O sorriso ainda estava em seu rosto, um sorriso de triunfo, de quem acaba de ouvir a piada perfeita. Ele levou o cano da arma à sua própria têmpora, exatamente como fizera antes. 

— Minha vez. 

Hebert nem teve tempo de processar a frase. 

Um estampido ensurdecedor na sala pequena. O corpo obeso do homem tombou para o lado, caindo no chão encharcado, e o revólver escorregou de sua mão, parando a poucos metros de Hebert. 

Seguiu-se um silêncio absoluto, quebrado apenas pelo som da goteira distante e do bip constante do monitor, que, incansavelmente, ainda media os batimentos de seu próprio coração. 

Hebert mal acreditava em sua sorte. O silêncio, antes um presságio de mais dor, era agora a prova de que havia acabado. Ele olhou para o corpo inerte, uma massa disforme desfalecida no chão, e depois para as próprias mãos, agora livres. 

Com a dor e a dificuldade do mundo pesando sobre si, ele se inclinou para a frente. Usando as mãos para se apoiar no chão úmido, arrastou o próprio corpo junto com a cadeira, centímetro por centímetro, em direção ao cutelo que repousava perto do cadáver. Cada movimento era uma nova onda de agonia vinda de seu pé e de sua virilha. 

Ele finalmente alcançou a arma. A madeira do cabo estava escorregadia, mas ele a segurou com firmeza. Torcendo o corpo em uma posição desajeitada, começou a serrar as cordas que prendiam seus tornozelos. Os fios grossos cederam lentamente, um a um, até que o último se partiu. 

Com um enorme esforço, apoiando-se na parede, ele se levantou. As pernas tremeram, ameaçando ceder. A dor interna, por conta da "pera", era um fogo constante. Ele cambaleou até o pequeno aparelho que o sequestrador usara, procurando um botão, uma alavanca, qualquer coisa que revertesse o mecanismo. Não havia nada. Nenhum botão de reverso. 

Sem outra opção, ele ergueu o cutelo. Com golpes repetidos e desesperados, atacou a mangueira hidráulica que ligava o aparelho ao dispositivo em seu corpo. A borracha grossa resistiu, mas por fim se rompeu com um silvo baixo, liberando um óleo fino no chão. 

Ele sentiu a pressão dentro de si afrouxar. Com as mãos trêmulas e o rosto crispado em uma careta de dor antecipada, ele se curvou e, com o máximo de cuidado possível, começou a retirar o objeto de metal de seu orifício anal: uma extração lenta, agonizante, cada milímetro uma nova laceração. Mas ele persistiu, até que o dispositivo caiu no chão, manchado de sangue. Livre. Ele estava finalmente livre dos aparelhos.


Continua amanhã, dia 11/02.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.

9 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 3)

Por Gustavo Coelho 

— Vamos continuar — disse, o tom novamente controlado, quase divertido. Ele enfiou a mão no bolso do paletó e retirou duas cartas de baralho. 

Esperou que os uivos de Hebert se transformassem em um choro mais baixo e, então, se agachou na frente dele, mostrando as duas cartas. Uma era a dama de copas, a outra, um valete de paus. 

— O próximo jogo é de sorte, Hebert. O senhor deve escolher a carta certa — explicou, com um brilho nos olhos. — A única dica que lhe dou é que a carta certa depende da sua sorte. A errada... bem, a errada tem a ver com a escolha de merda que o senhor fez. 

Ele embaralhou as duas cartas nas mãos, virou-as com o desenho para baixo e as colocou no chão encharcado. 

— Escolha. A da esquerda ou a da direita? 

Hebert, com a visão turva pela dor, olhou para as duas cartas indistintas. Era uma aposta cega. 

— A... a da esquerda... — balbuciou. 

O homem pegou a carta da esquerda e a virou lentamente. Era a dama de copas. Ele não disse se a escolha fora boa ou ruim. Apenas se levantou em silêncio e caminhou de volta para a mesa no fundo da sala. Voltou de lá com um cutelo, a lâmina larga e pesada brilhando sob a luz da luminária. 

O pânico de Hebert se renovou. 

— Não... de novo não... por favor! Eu só quero ir embora! Eu faço o que você quiser! — gritou, tentando puxar os pés, mas as amarras eram firmes. 

Ao terminar a frase, o sequestrador já estava agachado novamente ao seu lado. O cutelo desceu com um golpe limpo e pesado, exatamente sobre o dedo do pé que o martelo havia esmagado. O som do metal cortando o que restava do osso foi nítido, seguido por um novo grito de agonia que superou todos os anteriores. 

Em meio ao sangue que escorria de seu pé e ao eco de seus próprios gritos, Hebert viu o sequestrador sorrir novamente. O homem se inclinou, o rosto calmo e satisfeito, e falou por cima dos gemidos de sua vítima: 

— Está vendo, Hebert? Isso é a consequência. A consequência de uma escolha errada. 

Ele então girou, mais uma vez, o botão do aparelho de choque elétrico. 

Uma nova onda de dor. A agonia do dedo amputado se fundiu com a convulsão da eletricidade, e Hebert sentiu o mundo se dissolver em um clarão branco. Seus olhos quase saltaram do rosto, e um grito que parecia vir de sua própria alma rasgou o ambiente. O corpo se contorceu de tal forma que ele mordeu a própria língua, o sangue preenchendo sua boca. Um cheiro acre de pele queimada começou a se espalhar pela sala, um testemunho da intensidade do choque. 

O sequestrador observava o monitor cardíaco, a linha verde traçando picos perigosos e erráticos. Com a mesma calma com que iniciou, ele desligou o aparelho. O corpo de Hebert amoleceu na cadeira, tremendo, ofegante. 

— Vamos fazer uma pausa — disse o homem, como se anunciasse o fim de um exercício. — Para o senhor pensar em como vai jogar da próxima vez. 

Ele abaixou sob os pés de Hebert, recolheu cuidadosamente o dedo decepado, se virou e caminhou em direção a uma porta, no canto da sala, que Hebert não havia notado antes. Ele destrancou e abriu, fechou atrás de si, sozinho ali no escuro. 

Hebert tentou respirar, a agonia ainda viva, movendo-se por todo o seu corpo. O sangue, o cheiro, o silêncio: não conseguia lidar com tudo isso... Seus olhos reviraram e, desta vez, a escuridão era boa. Ele desmaiou. 

Hebert acordou em espasmos, seu corpo inteiro lutando por algo que não viria: ar. Sua cabeça estava envolta em um saco plástico molhado e quente, selado contra seu rosto a cada inalação fracassada. O pânico imediato. Começou a se debater na cadeira. A visão escureceu nas bordas, o peito queimava. Quando estava prestes a perder a consciência, o saco foi arrancado de sua cabeça.

Ele engoliu o ar mofado da sala em uma golfada desesperada e dolorosa. Tossindo, com os olhos lacrimejando, ele viu o sequestrador parado à sua frente, segurando o saco plástico amassado. 

— Acorda, margarida — disse o homem, com um tom de escárnio. — Está na hora de se alimentar. 

— Por quê...? — sussurrou Hebert, a voz rouca. — Por que está fazendo isso? 

O sequestrador apenas deu de ombros, um gesto de indiferença que era mais cruel do que qualquer resposta. 

Hebert não havia notado, mas havia uma mesa posta em sua frente. Um prato fundo com um líquido espesso, com verduras e legumes. Uma sopa. 

— Como está impossibilitado, eu irei administrar sua alimentação. 

As coisas começaram a ficar ainda mais bizarras. Ele mexeu o conteúdo da sopa, assoprou e iniciou o procedimento como se fosse um bebê. 

— Vamos lá, Hebert. Abra a boquinha! 

Hebert sentiu que não era hora de irritá-lo com desobediência. 

Ao mastigar ele percebeu algo de diferente naquela sopa. Por mais que o aroma e o sabor não estivessem ruins, havia um pedaço de carne com osso, impossível de ser mastigado. Então, para não desagradar seu captor, ele roeu com os dentes e cuspiu o que sobrou na mesa. 

— Tá vendo, Hebert. Nem você mesmo se suporta! 

Cismado com a frase, Hebert olhou para aquele resto que cuspira. A terrível descoberta: seu dedo decepado estava entre os ingredientes da sopa. 

— VOCÊ É DOENTE? – gritou Hebert, vomitando de lado o pouco que havia engolido. 

— Deixe de ser malcriado, sr. Hebert. Acho que sei de algo que irá animá-lo. 

Então ele se virou e pegou uma barra de ferro fina que estava encostada na parede. Com um maçarico portátil, começou a aquecer o metal. A chama azul sibilou e, em instantes, o ferro começou a brilhar, passando de um cinza opaco para um laranja vivo, depois para um vermelho incandescente. O calor irradiava, e Hebert podia senti-lo em seu rosto. 

— Pronto para o próximo jogo? — perguntou o homem, aproximando a barra brilhante. O desespero tomou conta de Hebert novamente. — É simples. Cara ou coroa? 

Ele fechou a mão, escondendo a moeda. Hebert, com o pavor do ferro quente à sua frente, apostou. 

— Cara! — gritou. — Cara, por favor! 

O sequestrador parou, uma sobrancelha se erguendo atrás dos óculos. 

— Interessante... — murmurou, pensativo. — Estudos dizem que jovens mimados como o senhor costumam escolher coroa. É um símbolo de nobreza, de poder... O senhor me surpreendeu. 

Jogou a moeda para o alto com o polegar. O metal girou, cintilando sob a luz da luminária, e a pegou no ar com um tapa, colocando na parte de trás da outra mão. Lentamente, ergueu a mão para revelar o resultado. 

Veio a surpresa. 

— Deu cara! 

Uma expressão de alívio surgiu nos lábios de Hebert. Havia escapado do ferro incandescente. O sequestrador o observou, balançando a cabeça como se estivesse impressionado. 

— O senhor tem sorte. E eu sou um homem de palavra — disse ele. 

Então, para o horror absoluto de Hebert, ele se inclinou e agarrou a barra de ferro brilhante com as duas mãos. O som da carne queimando, um chiado agudo acompanhado de um cheiro forte e adocicado. O homem não gritou. Não demonstrou dor. Apenas segurou o ferro por dez longos segundos, o rosto impassível, antes de largá-lo no chão com um baque metálico. Ele ergueu as mãos para Hebert ver o resultado: a pele das palmas e dos dedos estava destruída, revelando a gordura amarelada por baixo. 

Com uma calma surpreendente, ele pegou a moeda do chão com os dedos queimados e a guardou no bolso. 

— Vamos para o próximo jogo — anunciou. 

Hebert, ainda atordoado pela cena, lembrou-se da promessa. Sua voz saiu fraca, mas insistente. 

— Você... você disse... que ia resolver um dos meus problemas. A prenda... você cumpriu. Mas e o resto? 

O sequestrador o olhou e sorriu, pedindo desculpas como se tivesse esquecido de um detalhe trivial. 

— Oh, é verdade. Peço perdão. A minha prenda me distraiu. Sabe de uma coisa? Por meu esquecimento, vou resolver dois de seus problemas, não apenas um. 

Ele caminhou até a mesa e pegou o cutelo. Hebert começou a tremer, certo de que a morte havia chegado. O homem parou à sua frente, a lâmina pesada pendendo ao lado do corpo. 

— O senhor deseja que os choques cessem? Deseja que eu o liberte daquele dispositivo? — perguntou, com genuína curiosidade. 

Com a voz trêmula, gaguejando, Hebert conseguiu dizer: 

— Sim... sim, por favor... 

— Pois bem. 

O cutelo se ergueu. O movimento foi um arco rápido e preciso. A lâmina desceu com um só golpe, cortando a carne, na base do pênis de Hebert. 

— Pronto — disse o sequestrador, observando sua obra. — A parte do seu corpo ligada ao dispositivo acabou de ser retirada. 

Por um segundo, Hebert não entendeu. Então a dor explodiu, uma agonia branca e ofuscante que superou tudo o que sentira antes. 

— MEU PAU! — gritou, a voz rasgando de pura incredulidade e horror. — VOCÊ ARRANCOU MEU PAU! 

Ainda em meio ao desespero e à angústia de Hebert, o sequestrador se moveu para trás. Com o mesmo cutelo, cortou as amarras que prendiam seus pulsos. 

— E agora, suas mãos estão livres — disse, satisfeito. — Dois problemas resolvidos. 

Ele deixou Hebert solto da cintura para cima, mas com os pés ainda atados, em uma poça crescente de seu próprio sangue.


Continua amanhã, dia 10/02.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.