Por Gustavo Coelho
Livre. A palavra mal se fixava em sua mente, abafada pela dor latejante. Hebert se apoiou na parede, ofegante, e olhou para o corpo de seu algoz. A chave. Precisava da chave.
Ele se arrastou até o homem. Com as mãos trêmulas, começou a revistar os bolsos do paletó. Encontrou primeiro uma outra pistola, um revólver .38 idêntico ao que o matara. Estranhou, mas continuou. No outro bolso, sentiu o contorno de uma moeda. Puxou-a.
Era a moeda do jogo. Olhou um lado: cara. Virou-a: cara de novo. Uma moeda com duas faces iguais. A sorte, a escolha, a esperança – tudo uma farsa. O jogo nunca fora sobre chance. Mas sobre a vontade dele.
Sem pensar muito nisso, enfiou a mão no bolso da calça do homem e sentiu o metal frio das chaves. Agarrou-as com força. Com o canto do olho, viu o pedaço de si mesmo caído no chão. Em um ato de desespero e negação, ele o recolheu com as mãos, na esperança absurda de que não fosse tarde demais. Já sentia o corpo ficar mais frio, a tontura chegando pela perda de sangue.
Correu, ou melhor, mancou o mais rápido que pôde até a porta pela qual o sequestrador havia saído pouco antes. As mãos tremiam tanto que ele custou a encaixar a chave na fechadura.
Girou-a. A porta se abriu.
Aí ele se deparou com algo aterrorizante.
Não era um corredor. Era um quarto de menina. As paredes eram pintadas de um rosa desbotado e, em uma delas, dezenas de fotos de uma jovem sorridente estavam presas em um mural. Os móveis, também cor de rosa, estavam bem-dispostos. Em cima da cama de dossel, repousava o cadáver mumificado de uma garota, a pele esticada sobre os ossos como pergaminho, a boca aberta em um grito silencioso. Acima, no teto, balançava uma corda com um laço na ponta.
Hebert recuou aterrorizado. Olhando freneticamente ao redor em busca de outra saída, avistou uma porta do outro lado da sala. Correu até ela, mas seu coração afundou. Era uma porta de aço, uma porta sem maçaneta, apenas uma fechadura eletrônica, um leitor de impressão digital. Ele estava preso.
Seus olhos percorreram a sala de forma frenética e finalmente se fixaram em uma pequena mesa. Talvez um cartão, algo para abrir a porta. Ele se jogou sobre ela, remexendo em papéis e objetos. Mas não encontrou um cartão. Encontrou um bilhete, dobrado e posicionado no centro da mesa, como se estivesse esperando por ele. Largou seu membro decepado na mesa e, com os dedos manchados de sangue, o abriu e leu:
“Pai,
Essa
vai ser a última vez que você vai ouvir minha voz — mesmo que seja por letras
no papel. Eu não sei como dizer isso de um jeito que doa menos. Talvez não
exista. Então... me perdoa.
Eu
tentei, de verdade. Tentei voltar a ser a Marina de antes. Tentei respirar como
se meus pulmões ainda funcionassem direito. Mas alguma coisa em mim morreu
naquela noite — e nunca mais voltou.
Você
lembra da viagem da faculdade? Aquela em que você ficou orgulhoso por eu estar
participando? Foi ali, pai. Foi ali que ele me destruiu. Hebert, um colega de
turma, alguém que todo mundo admirava, aquele tipo de pessoa que sorri para
todos e engana fácil. Ele se ofereceu para me levar até o quarto porque eu não
estava bem. E foi lá que tudo acabou.
Ele
me amarrou e estuprou, por diversas vezes. Eu me lembro do cheiro do quarto, da
textura do lençol contra meu rosto quando tentei virar, dos segundos
intermináveis com a boca trancada de medo. Depois ele só disse: “Não adianta
gritar. Ninguém vai acreditar em você.”
E
ninguém acreditou.
Eu
denunciei. Fiz tudo que disseram ser o certo. A polícia disse que não havia
provas. O exame deu inconclusivo. A faculdade se calou. Ele seguiu em frente,
como se nada tivesse acontecido. E eu fiquei... aqui.
Você
me dizia para não desistir, para ser forte. Mas, pai, você sabia que tem dias
que eu nem lembrava o gosto da comida? Eu parei de sentir fome. Parei de sentir
sede. Os sabores sumiram da minha boca como se fossem arrancados. Eu mastigava
o vazio.
Sair
na rua virou tortura. Quando eu sentia os olhares — e sempre haviam olhares —
era como se cada um fosse uma descarga elétrica atravessando minha pele. Me
deixavam paralisada. Eu tremia por dentro, querendo correr, desaparecer. Como
se todos soubessem. Como se todos me culpassem.
Eu
não conseguia mais dormir direito. E quando dormia... era pior. Eu voltava para
aquele quarto, para aquele peso, para aquele som abafado da minha própria voz
tentando gritar. Acordava molhada de suor, o coração batendo como se quisesse
escapar do meu peito.
Eu
passei a sentir que algo tinha sido arrancado de mim. Como se um pedaço meu
tivesse ficado naquele chão. Algo essencial. Sem ele, eu não conseguia
continuar. Não era só tristeza. Era ausência. Um buraco fundo onde antes havia
vida.
Eu
sei que você tentou, pai. Sei que me ama. Mas o amor, às vezes, não alcança o
que está morto.
Hoje,
depois de terminar esta carta, vou me libertar. Não porque quero machucar você,
mas quero descansar. Quero que essa dor pare. Que esse peso acabe.
Me
perdoa. Me perdoa por não conseguir mais. Por não ter sido a filha que você
merecia. Mas, se um dia você sentir saudade, lembra de mim antes de tudo isso.
Quando eu ainda ria de bobagens. Quando ainda tinha gosto em viver.
Com
amor,
Marina.”
As palavras da carta queimaram a mente de Hebert. Marina. Hebert. O nome dela. O nome dele. Ele ergueu os olhos do papel e encarou o cadáver na cama. Aquele rosto, desfigurado pelo tempo e pela decomposição, com a pele esticada como couro velho... por baixo de tudo, ele o conhecia. Era ela.
O desespero o atingiu com uma força terrível. Ele precisava sair dali. Correu até o corpo mumificado de Marina e, sem cerimônia, começou a revistá-lo, procurando nos bolsos do vestido, já podre, por um cartão, qualquer coisa. Não havia nada.
Uma ideia medonha e desesperada surgiu. A porta de aço. O leitor de digital. A chave era a mão do homem morto na outra sala.
Ele voltou, mancando e deixando um rastro de sangue, até o corpo do sequestrador. Ajoelhou-se e pegou uma das mãos, planejando usar o cutelo para decepá-la. Mas ao virar a palma para cima, lembrou de algo aterrorizante. Não havia digitais. Estava queimada. A pele completamente destruída, uma massa de tecido carbonizado. Ele se lembrou do homem segurando a barra de ferro quente. A "prenda". Não fora um ato de loucura. Fora um passo calculado para selar sua tumba.
Derrotado, Hebert escorregou e sentou-se no chão úmido, entre os dois corpos. E, então, as peças começaram a se encaixar, uma a uma, em um mosaico de horror.
As duas pistolas idênticas. Uma delas, a que estava no bolso, com a única bala já no gatilho, trocada pela vazia para o início do "jogo". A roleta russa era uma farsa.
Os choques em seu pênis era a "descarga elétrica" que Marina sentia sob os olhares de julgamento...
A pera da angústia introduzida em seu corpo, a violação, a boca trancada de medo que ela descreveu.
Seu dedo e órgão genital arrancados significavam o sentimento de ter tido "algo essencial arrancado" de si, como ela escreveu?
O saco plástico em sua cabeça, roubando-lhe o ar... a sensação dela de não conseguir mais "respirar direito".
E por fim, aquilo. Aquela sala. A porta de aço. Sua prisão eterna, onde morreria lentamente de fome e sede, exatamente como ela, que em sua depressão "parou de sentir fome, parou de sentir sede".
Ele não era vítima de um psicopata aleatório. Estava condenado. Condenado a uma vingança pessoal, arquitetada nos mínimos detalhes por um pai que amava tanto a filha a ponto de recriar o inferno dela em seu algoz. Um destino que ia além da morte, um sofrimento lento e degradante de seu corpo e de sua alma, culminando em seu fim, trancado para sempre entre a sua vítima e o seu vingador.
Fim.
Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.
