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5 de out. de 2026

‘Tango feroz’ e as mentiras que contamos a nós mesmos

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

A recente publicação pela Editora Patuá do romance Tango Feroz, obra de estreia na literatura do escritor argentino Fabián Echegaray, apresenta de saída uma situação limite, embora muito comum atualmente:

 

E então ela me bloqueou. Não só me bloqueou no WhatsApp, como também no Instagram. Eu, impossibilitado de me comunicar; ela, inacessível. Eu, cancelado; ela, canceladora. Eu, interrompido; ela com a palavra final.

 Este o final melancólico da relação amorosa entre Puán e Lisa, iniciada em um site de namoros, e que durou alguns meses de turbilhão sensual. Fim do relacionamento físico e início de um processo mental obsessivo de autoengano alimentado pela rememoração dos acontecimentos que culminaram neste desfecho. Eis a espinha dorsal da narrativa de Echegaray. Entretanto, não se pense que essa engrenagem tenha como razão única o inconformismo pelo término ou o desejo premente de reatar com Lisa. O que verdadeiramente move aquele coração rechaçado era provar a si mesmo que o vivido não foi somente mais uma paixão de ocasião sem envolvimentos mais profundos. Segundo ele, houve mais, houve muito mais. E toca a procurar indícios e pistas do amor. Eis o paradoxo brutal: sexo ou amor? 

O autor, que possui sólida experiência profissional no campo da opinião pública e comportamento social e político, é um verdadeiro estudioso do comportamento humano. Urde sua narrativa com muita sensibilidade e observação crítica ao trazer o teatro das relações humanas para um cenário que atualmente forja comportamentos, incita desejos, acelera desmesuradamente sonhos de posse: a Internet. Outro ponto alto do livro é a história de vida de Lisa, como veremos, que pode também ser compreendida no campo do simbólico, como o percurso que o gênero feminino vem trilhando desde o século XX até aqui. 

Muito bem; amor repelido é amor multiplicado. Vejamos como funcionava na cabecinha autoiludida de Puán a obsessão por Lisa:

 

A saudade que eu sentia, assim como a enxurrada de outros sentimentos nostálgicos e reverenciais que eu nutria por ela, davam-me prazer e me transportavam para um diálogo tão místico quanto irreal com Lisa, no qual as nossas afeições se espelhavam até o infinito (p.16).

 Ocorre, todavia, que havia algo de muito errado quanto à reciprocidade afetiva.

 

A entronização do direito de não se comprometer coexistia curiosamente com alguma expressão isolada de ciúme possessivo por parte dela, como nas ocasiões que me cobrava para sair dos aplicativos de namoro. Por outro lado, ela exaltava um tipo de liberdade individual descompromissada, mais parecida com egoísmo mesmo, para soberanamente – e sem questionamentos – definir a qualquer momento a natureza ad hoc, flexível da nossa interação e da relação que ela comportava (p.13).

O tango, conhecido gênero musical argentino marcado por forte dramaticidade, melancolia, paixão e nostalgia, foi dançado ardorosamente pelo casal durante o tempo que durou a relação. A expressão “romântico-libidinal” que lemos em alguma parte do texto, sintetiza o clima que perpassa aquela relação doentia extremamente voltada para as tórridas relações sexuais relatadas na obra e que não impediram, afinal, os desentendimentos, as cobranças e as agressões verbais que culminaram na separação irremediável.

Mas, afinal, vejamos em brevíssimas palavras quem é essa mulher tão fascinante. Nascida em Araxá, interior de Minas Gerais, sempre foi rejeitada com violências e mal tratos pela própria mãe que a chamava de putinha, porque na adolescência era cobiçada pela rapaziada do clube onde praticava natação. Casaram-na aos 19 com um primo segundo bem de vida. Anos depois veio a separação. Conhece então um psicólogo “paz-e-amor” famoso, que aparentava promessas de vida excitante, pomposa – e quem sabe? Encontrar afinal o amor verdadeiro. Nada; outro fiasco, o que encontrou foram atitudes completamente irresponsáveis da tal celebridade. Drogas e internações do sujeito a torto e a direito. Desta relação resultou uma filha. Com mais essa separação passou a ser professora de inglês e estudante de Economia e acabou conhecendo um velho português riquíssimo e avarento que a humilhava e a filha de todas as maneiras. Novo desquite. Mãe e filha sozinhas no mundo, sem dinheiro ou emprego. Volta a se dedicar com afinco aos estudos, e termina passando em concurso da Receita Federal. No interior do Mato Grosso conhece um tal professor de história. Este aproveitador do salário de funcionária pública federal. Quinze anos de convivência e novo divórcio litigioso. Aí o percurso vivencial de Lisa. A mulher de meia-idade que Puán encontrou no site de namoro da Internet. De menina matuta do interior de Minas onde nasceu, à mulher financeiramente independente e dona de seu nariz. Entretanto, algo dentro dela irremediavelmente estilhaçara qualquer crença no amor. Restara-lhe o vivo entendimento de que necessitava de sexo como qualquer outra função física, completamente desvinculada do amor. Quantos de nós seguimos tal inclinação hoje e estamos deixando de lado a construção de verdadeiros vínculos emocionais, de afetos sinceros e de perspectivas de futuro em nossas relações? É a pergunta que não quer calar.

Todavia, aqui e ali, Puán demonstra lampejos de lucidez. Após uma conversa com o amigo Feldman, encontramos um deles.


Teria eu ficado obcecado por ela apenas para encobrir outra obsessão mais difícil de resolver ou lidar? O autoengano pode chegar a isso? Pode a fixação ser um truque não apenas de sensações ou de resultados, mas de objetivos, de quem em definitivo somos ou terminamos sendo? E na hora me vem à cabeça a imagem não de algum sofredor platônico ou de um amante rejeitado, mas das pessoas apaixonadas por avatares digitais. O que precisa ocorrer no mecanismo de percepção dessas pessoas para chegarem à semelhante distorção da realidade? A resposta está na própria pessoa, em algum desajuste ou falha individual, ou no clima de época que alimenta ou legitima o império da autoilusão, naturalizando impressões subjetivas como sendo superiores à realidade? (p.28).

Outro ponto alto da narrativa amplia a questão da autoilusão ao relacioná-la aos nossos dias. Vale a pena conferir: “A origem da autoilusão enganadora é... é... é o sistema!”, exclamou Feldman. E acrescentou:


Por acaso não estão as novas gerações acostumadas a pensar que é só desejar algo com intensidade que isso já garante seu direito ao desfrute, à conquista? Não se tornou natural supor que identificar uma situação ou um estado desejado seja suficiente para atribuir às pessoas a prerrogativa de acesso a essas aspirações – e até mesmo a de curtição delas? Não foram educados Millenials, Gen Z e até gerações anteriores no princípio de que seus sentimentos são a métrica mais relevante e − em última instância − mais válida para definir a realidade, mais do que os próprios fatos e as limitações impostas pela própria realidade? Não se generalizou a ideia de que não existem absolutos e que − em definitivo − tudo é relativo? (p. 30).

A epígrafe que abre o romance do senhor Fabián Echegaray é um alerta de consciência da autoria de Friedrich Nietzche: “A principal mentira é a que contamos a nós mesmos.” No que tange propriamente ao amor, a leitura do romance Tango Feroz não nega sua existência. Entretanto, faz eco, e mesmo amplia as contradições da alma humana, para direções insuspeitadas, sugerindo a verdade daquela outra advertência feita por Machado de Assis: “Sonharás uns amores de romance, quase impossíveis. Digo-lhe que faz mal, que é melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.”

 

Livro: “Tango feroz”
Romance de Fabián Echegaray
Editora Patuá – São Paulo / SP
2026
172 p.
ISBN 978-65-281-0547-2

 

Links para compra e pronto envio: Editora Patuá & @fabianechegaray_lit

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

26 de ago. de 2026

'Nesse corpo de água doce' nada é doce

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Colofão é uma nota ou inscrição final na última página de um livro. Geralmente traz dados técnicos e de produção da obra, ou pode ser também espécie de resumo ou síntese, que serve para dar contexto ou mostrar a inspiração do autor. Em Nesse corpo de água doce (Editora Patuá, poemas), livro de estreia na literatura da escritora e professora mineira Priscila Faria, o leitor lerá na última página da obra: “Este livro foi escrito no decorrer de muitas águas – minhas ou de tantas outras mulheres. Inundou e lavou muita coisa aqui. Que possa seguir frutífero nos corpos todos que o receberem.”

O leitor, então, que se deleitou ou ficou com o travo amargo na garganta pelo que o sofrimento humano pode nos causar, após a leitura das 111 páginas precedentes, sente uma verdadeira catarse existencial provocada pelos poemas que leu antes de virar a última página. Aí temos "de trás pra frente" na ordem inversa da normal (do fim para o começo), o que melhor se pode sentir da poesia da autora. Eis os frutos que este livro produziu, regadas que foram suas árvores/poemas com as águas da dor e do sofrimento humano transfiguradas em profundas forças de conscientização e transformação, que tiveram o poder de quebrar velhas certezas, revelar limites reais e forçar o ser a buscar novos caminhos de consciência e liberdade. 

Em texto de orelhas, a escritora Maria Fernanda Elias Maglio afirma com muito acerto: 

“Nas poesias de Nesse corpo de água doce, livro de estreia de Priscila Faria, estão as mulheres e suas profusões de água: rio, leite, chuva, sangue, cachoeira, lágrima, líquido amniótico. Todas elas embarcadas em um naufrágio cansado, progressivo, contínuo. Uma morte lenta e insistente: sim, estamos vivas – gestando e parindo – mas podemos morrer, eles podem nos matar. Com efeito, estamos diante de um mosaico composto de poemas: imagéticos, reflexivos, profundos ‘que atravessam a experiência de ser mulher, a resiliência e a violência de gênero por meio de fortes imagens ligadas à água’”. 

Os textos reunidos contam toda uma história de vida essencialmente difícil para o gênero feminino, difícil por condições impostas que prevaleciam e ainda prevalecem nas relações de poder e domínio dos homens sobre as mulheres – a tal sociedade patriarcal. O que nos recorda as definições comuns impostas pela sociedade patriarcal como as de que mulheres são frágeis ou que nasceram para cuidar dos filhos e da casa, enfatizando a estigmatização da feminilidade e corroborando não apenas as condições sociais, mas também, e de várias maneiras, constituindo uma problemática enraizada culturalmente. 

Observe-se algumas estrofes do poema constante da página 13:

 

nasceu numa cidade do interior / a mãe e o pai / de outros interiores mais interiores ainda / foram parar nessa cidade em que nasceu / e não teria feito diferença alguma se não fosse essa / nasceu mulher / nem mais nem menos que nenhuma outra / a mãe que também nasceu mulher / a criou como foi criada / o pai que nasceu homem / a criou como a mãe foi criada / criadas, ela e a mãe / assim como quase toda pessoa / que chega nesse mundo com uma vagina” ... “nasceu e logo recebeu o título / de difícil / nasceu rasgando tudo / nasceu sem querer nascer / nasceu sem querer servir / nasceu sabendo o quanto ia morrer”...  “e morreu muitas vezes / chorava e se escondia com uma frequência / que ninguém entendia / criada como toda pessoa com vagina / não podia reclamar não podia gritar / toda vez que tentava era lembrada do que era / difícil / então se continha / cresceu calada. 

A menina nascida no sul de Minas, no município de Varginha, viveu o que as mulheres sempre vivem, sobretudo em sociedades ainda com forte ranço colonial onde a religião atua como poderoso mecanismo de controle social a padronizar valores “morais”.

 

a catequista dizia todas as quintas / a família é sagrada / na missa aos domingos também / então acreditava / até o padre tinha uma / na escola ninguém queria ser filho / de uma SE-PA-RA-DA / em casa a mãe suportava tudo / pela sagrada família / então ela também / se calava (p. 20). 

Também não escapou de assédios em um tempo no qual nem se dera conta ainda de que existia sexo. 

 

Todo dia a menina atravessa duas ruas para buscar pão moleton enorme, calças e chinelo para atravessar e trazer / o pão e a incompreensão / de por que aqueles homens ainda falam / aquelas coisas / de por que o pão tem que ser / tão amargo (p. 25). 

E acaba chegando a tristes conclusões do que é ser mulher numa sociedade estruturada pelo patriarcado. Um mero objeto.

 

a falha de ser mulher nesse mundo / de homens / e de ser traumatizada nesse mundo / por homens / a gente que resolva / entre nós // mulher dá / muito trabalho. (p. 24). 

Até que o impensável aconteceu. A menina foi crescendo e entendeu de pensar, estudou e continuou  pensando, sofreu e continuou  pensando,  sofrendo, pensou mais ainda, até que sortilégios da vida transformaram seu coração numa “lona de circo/fincada na tempestade” e ela afinal se assume como:

 

o bicho que fui / equilibrista do silêncio / agradava monstros / o bicho que sou / renasceu ontem / dessa vez chegou berrando (p. 16). 

Os poemas de Nesse corpo de água doce são desabafos libertadores em sua estrutura formal. Não possuem títulos, e seus versos curtos e cortantes apresentam amplas inquirições existenciais que transbordam de um metabolismo psicológico a assumir caráter coletivo.  Via de regra, impregnam o leitor de insuspeitadas epifanias, ou seja, momentos de clareza repentina ou insights profundos, de súbita revelação ou iluminação interior que ocorre quando uma verdade profunda sobre si, sobre o mundo, ou sobre a própria arte, surge a partir de uma constatação ainda não pensada. Isto pode trazer uma sensação de desestabilização, mas muda a visão que a poeta tem do fazer literário. Instantes carregados de significados simbólicos, emocionais e sexuais que convidam o leitor a refletir sobre temas universais de maneira mais profunda. 

No poema abaixo a palavra é repensada como ponte viva entre pensamento e sentimento. Aquilo que dá forma ao mundo, revela a alma, constrói as culturas. Mais do que um sinal na fala ou na escrita, a palavra guarda a essência da experiência humana e o emprego significativo dos recursos linguísticos. Só através de um trabalho artesanal com o vocábulo (desprendendo as amarras fonéticas, sintáticas e semânticas do português formal) é possível apreender a palavra potencializada:

 

eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos / que veja a beleza desfocada / quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia / que abrace a menina, penetre a mulher / quero a palavra perfurante / na garganta / a palavra que treme e vibra e contrai / a palavra da água da morte do medo do fim / eu quero a palavra engasgada / sem fôlego, sem batimentos, sem culpa / quero a palavra mapa, procura e dedos / a palavra sem ida e sem volta / que se contradiga / a palavra descrente da verdade do agora / eu quero uma palavra que é tudo / e que não sabe de nada / quero a palavra que reinvente a vida / materialidade fina e transcendente / do meu gozo, num único verbete / uma fogueira, um altar, a porta / do céu ou do inferno / eu quero a palavra muda / a palavra que desnude a poesia / eu quero o milagre do verso / porque meu sexo não sabe ser escrito (p. 103). 

Há na obra também poemas que produzem verdadeira catarse no leitor, promovendo reflexões de intensas impressões sobre o estado atual do mundo que positivamente ativa emoções acumuladas, permitindo sua liberação através da identificação, da empatia e da elaboração simbólica, que a todos atinge, sobremodo ao ser feminino, e que produz novas compreensões sobre si e os outros. A catarse fornece iluminações e aprendizados sobre nós mesmos, é a purificação ou a liberação intensa de emoções, sobretudo a de tristeza, que o leitor sente ao ler o que vamos fazendo de nosso mundo social. Aquilo que em nosso tempo está reprimido ou acumulado, seja em termos psicológicos, emocionais e/ou de superação de medos e traumas.

 

tempo em que as seguranças não existem / que as palavras se perdem em rolos infinitos / tempo em que as grandes salas só discursam / sobre moedas deuses pastos lucros / tantos pseudo-intelectuais influenciadores digitais // tempo de bruscas e inesperadas rupturas / tempo da não-verdade, da falta de respostas / tempo de cada um cuidar de si / uma vez por semana por uma hora / tempo da total autonomia, da liberdade / tempo da humana-mercadoria / da nossa imensa fragilidade // tempo em que crianças pesam mais que o mundo / tempo em que uma barriga exige tempo demais / tempo em que mães só são sagradas nos andores / e que filhos mortos não comovem mais // tempo em que não se pode mais dormir / porque às três da madrugada homens pisam em nossos sonhos // em vão lutamos, milênios de espera / mas os dias seguem dias de reis (p. 57). 

Interessante observar, neste poema ainda, que o fio condutor tecido costura uma tessitura até o cruzamento final do profano com sagrado. Com a supremacia do divino, que acontece no verso do instante final iluminado, de revelação representado pela menção a “dias de reis” que como sabemos, representa a manifestação de Jesus Cristo como o Salvador da humanidade, pela fé em uma luz divina que orienta a humanidade, e o esforço sincero daqueles que buscam a verdade. 

Assim os sofrimentos da vida são transfigurados pela autora em vivências (dela mesma e de tantas outras mulheres anônimas), que por sua vez geraram consequências de profunda maturidade existencial e que, afinal, colidem em versos com a sensibilidade do leitor. De forma pungente, profundamente comovente. O que se pode dizer da morte de um filho? Quando se perde um filho ainda bebê, não existe palavra. Todavia, Priscila dá o seu testemunho sobre o parto, a perda e o luto, dentro de uma perspectiva da mulher que se reergue, se fortalece e recomeça. Observe-se na última estrofe a metáfora da chuva que serve para algo que lava, que banha, faz passar e, até mesmo, purifica. Metáfora esta que também serve para o tempo, o qual amaina tudo, abranda o pranto e faz tudo passar, mas deixa em nós a essência do amor. Aquilo que verdadeiramente importa.

 

Que consigas sentir no menor gesto toda a imensidão do que sinto / e percebas o quanto me salvaste / pois mesmo nos meus dias de maior desespero / era o teu corpo dentro do meu que me lembrava de / voltar à vida / e ainda que me consumissem todos os dias / a angústia e o medo da despedida / era imaginar esse nosso encontro que toda força / dentro de mim brotava

 

Tu foste a minha maior ferida e a minha maior esperança / nada mais neste mundo me deu tal sorte / de descobrir o poder da natureza em mim / em suas profundas catástrofes e em seus sutis recomeços / em toda fúria, em cada perdão, em todo milagre / da criação / nós fomos deus um do outro

 

Perdoa-me pelo meu cansaço, pelo sangue acelerado / e pela covardia tantas vezes em mim habitada / recebas a humanidade do meu amor / embrulhada em minha fraqueza / e tenhas a certeza da verdade que és para mim / verdade que só a dor desse nosso nascimento pode dar

 

Quando os dias voltarem a ser dias e a chuva voltar a ser só chuva / tu serás o eterno arco-íris da minha memória (p. 67). 

Priscila Faria declarou em entrevista recente à Revista Mana: “Depois, quando fui reunir esses textos, percebi o quanto estavam dispersos. Foi um processo de organização difícil, quase caótico, mas também parte do que esse livro é” (...) “Quando finalmente fiz esse mergulho, foi muito intenso. Um processo quase catártico, de revisitar tudo isso e dar forma ao livro. E foi curioso perceber o quanto eu tinha escrito. Acho que ainda daria facilmente mais dois ou três livros.” 

Muito bem. Aguardamos com vivo interesse novas produções dessa autora que fere a tecla poética certa e necessária neste nosso mundo ainda em dificultoso percurso de emancipação do humano. Cabe aqui, e finalmente, o nosso mais caloroso aplauso.

 

Nesse corpo de água doce
Priscila Faria
Editora Patuá – São Paulo / SP
2026
112p.
ISBN 978-65-281-0380-5

 

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Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

24 de jul. de 2026

'Sertão dos mortos' - um retrato simbólico do Nordeste

 

Por Gustavo Coelho 

Nordeste. Podemos dizer que é uma das regiões mais antigas do Brasil. Por ser o berço do início da colonização do país, é uma das regiões que mais sofreram com a exploração de suas riquezas. Devido à união de fatores históricos, estruturais e de própria natureza, nos dias atuais é considerada a região mais pobre do Brasil. Mas, apesar de todos estes pontos, pode-se dizer que é uma das regiões onde se concentra o maior índice de riquezas culturais, fruto de uma forte miscigenação entre povos indígenas, africanos e europeus. 

É neste vasto cenário que os autores (Chaffim et al.) de Sertão dos Mortos escrevem uma HQ de ficção voltada para o terror social. A história passa em um Nordeste pós-apocalíptico, onde acompanhamos o encontro de figuras regionais, como o próprio povo interiorano, cangaceiros, volantes, povos estrangeiros, indígenas, vaqueiros e uma figura que simboliza o futuro (astronauta). Com diversas referências que recontam um pouco da exploração daquela terra cansada, Sertão dos Mortos mostra uma “epopeia” de conflitos que acabam em um verdadeiro apocalipse zumbi.  

A HQ mostra uma trama bem violenta. Mas todo conteúdo da HQ, inclusive a própria violência, está conectado à questão crítico-social. Eis alguns pontos importantes analisados a partir dos extras da obra: 

A questão da violência: As HQs de horror (terror), comumente, apresentam uma trama de violência. Mas no caso do Sertão dos Mortos, esta violência dialoga com a forma pela qual o Nordeste foi explorado: as mortes, por exemplo, que ocorrem em todo a HQ, são reflexos da exploração da região e representam a exploração do povo nordestino (visto, de início, pela figura do “cabra”), o conflito/violência da volante e dos cangaceiros, a invasão dos povos estrangeiros, a luta indígena e como, muitas vezes, o progresso vem de forma impositiva e agressiva. 


   Simbolismos dos personagens: Esta HQ possui uma crítica específica em cada personagem. O(s) autor(es), nos extras, descreveu(eram) o significado de cada um deles. Em síntese, a caracterização de cada um dos personagens se deu como uma crítica de como a cultura nacional (brasileira) está sendo jogada cada vez mais de lado em detrimento da cultura estrangeira. Embora há aqueles que prezam, calados, por sua cultura, outros que fingem gostar dela, mas a negligenciam, ou até aqueles lutam por ela, mas em geral a maioria acaba oprimida ou massacrada pela cultura estrangeira.

      Referências e curiosidades: Ainda nos extras, somos apresentados a alguns dos fatores que auxiliaram na construção do enredo. O(s) autor(es) deixaram evidentes, dentro do processo criativo, que tiveram inspirações em outras obras e, que em alguns trechos, sentiram a necessidade de homenagear ícones da cultura popular brasileira. 

Opinião do leitor

Aqui expressarei minha opinião. Abordarei a questão crítica e comercial, onde, pela maioria das vezes, costumam ser opostas, não dialogando em prol do mesmo objetivo. Dividirei em dois pontos: a parte positiva da HQ e a parte negativa.


Ponto positivo

Sertão dos Mortos é uma HQ de cunho crítico apresentada de forma que tenha a ação necessária para cativar o leitor de quadrinhos. O gênero de horror (mais precisamente o terror), nos quadrinhos, sempre teve um bom público. Rodrigues (2015 apud Ramone, 2015) diz que “no Brasil, o gênero terror sempre foi um dos mais importantes dos quadrinhos, desde o final da década de 1930 (Garra Cinzenta já era uma dessas histórias, só que com elementos policiais) até meados dos anos 1990. Os brasileiros adoram uma boa história de terror, seja de lobisomem, assombração ou boitatá. Isso tem nos interessado como manifestação cultural”. 

Mas nota-se, no mercado, uma pequena mudança no cunho do horror, onde as histórias começaram a ficar mais dinâmicas, voltadas para a temática de aventura, com um toque de terror. Como exemplo, vemos quadrinhos da antiga revista Vertigo como Hellblazer, Morte, Preacher ou, até mesmo, Spawn da antiga Image. Eram quadrinhos com muitas doses de ação com uma pitada de macabro. 

A febre, entre a temática desta mesma HQ, veio com a The Walking Dead da Image. Focada no drama humano, com uma narrativa longa, ela apresentou algo que cativou o mercado gerando um hype no gênero de zumbis, priorizando o desenvolvimento psicológico dos personagens e distanciando da narrativa padrão de histórias de zumbi, colocando as relações em primeiro plano. 

Sertão dos Mortos acabou acertando a mão na temática, principalmente por escolher uma região com uma cultura tão rica para ser palco da trama. Com o objetivo de conscientizar o leitor por meio de críticas sociais e, ao mesmo tempo, buscar elementos que valorizem a cultura nacional, o processo acaba sendo natural, permitindo que todos aqueles que buscam um quadrinho de zumbi quanto aqueles que buscam pelo conteúdo nacionalista/crítico, acabem recebendo de forma satisfatória a obra. 

Mas devo alertar que o quadrinho, por mais que pareça algo comum aos outros de mesmo gênero, é diferenciado. Ele não é um quadrinho voltado para a narração básica das histórias de horror. Não apresenta mortes sem sentido ou para causar alguma espécie de impacto por ser violenta ou algo do gênero. Esta é uma HQ feita para fazer refletir. Voltada para um nicho específico. Ela faz críticas pessoais, sociais e políticas sobre a questão nacionalista de nosso país, tentando conscientizar as pessoas de que deveríamos valorizar mais a nossa cultura do que abraçar, de forma cega, o estrangeirismo e suas vertentes. É uma excelente obra para se discutir no meio acadêmico, tentando causar debate e diversas visões sobre nossa identidade cultural.

 

Ponto negativo

Curiosamente, o que exalta como ponto positivo acaba trazendo um fator negativo de grande impacto para HQ. O objetivo de toda e qualquer obra literária é a comercialização. Aliás, este é objetivo de todo e quaisquer produtos que estão no mercado. Focar em um conteúdo tão denso (a ponto de ter que apresentar um extra que demonstre todos os significados do enredo) acaba por nichar demais seu público. Todo e qualquer periódico da nona arte deve estar voltado em atingir o máximo de público na grande massa de leitores de HQs. A densidade do enredo impede, no meu ponto de vista, de atingir a real massa deste gênero, onde as ideias centrais da obra acabam por ser mais políticas, afastando o entretenimento que a maioria do público quer. 

Outro ponto é o antagonismo entre a ideia central e a construção da HQ. Podemos notar até mesmo nos extras. Onde há, claramente, um embate crítico sobre a permissibilidade brasileira frente ao tal “imperialismo cultural estrangeiro”, mas o(s) próprio(s) autor(es) utilizaram alguns filmes internacionais (13 filmes, ao todo) como referências mencionadas na HQ. O autor principal confessa, na seção de curiosidades, que o próprio título da obra foi inspirado em títulos de obras internacionais. Neste ponto vejo uma discrepância, principalmente por se tratar de uma ode ao nacionalismo. 

Outro ponto que seria importante trabalhar é quanto ao protagonismo. Por retratar tantas críticas e buscar diversos tipos de referências para o enredo, a história, por vezes, acaba não conceituando um protagonista ou um antagonista (pelo menos de forma clara, visto que claramente o protagonismo é a questão de nossa identidade nacional, produto nacional, e o antagonismo acaba sendo o estrangeiro, retratado na forma dos EUA). A ideia de protagonismo acaba se perdendo no meio de tantos personagens nascidos para representar uma ideia, ao invés de ser parte da trama. 

Por fim, o trabalho de arte é bom, assim como o enredo. Não estou aqui para criticar de forma negativa, mas sim de forma construtiva. Acredito no potencial da trama. Mas, em minha opinião, há um conceito nacionalista exacerbado, triscando em um ponto político extremista. Acho que toda crítica (ou movimento) por trás de Sertão dos Mortos é válida, contudo o foco foi voltado mais para a ideologia e não para a trama. A história tem um potencial gigantesco, onde poderia focar mais no que a massa gostaria de ler, por mais que o estrangeirismo faça parte deste “modismo”, pois no final o que conta são as vendas. 

 

Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo (Cápsula Editora, 2025) e autor de Os 13 contos (Cápsula Editora, 2026).

10 de jun. de 2026

‘Vidas sem nome’ [e em poucas palavras]

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

No apagar das luzes do ano de 2025, deparo-me com o volume de contos curtos (e alguns curtíssimos), Vidas sem nome, do escritor e editor Wilson Gorj. Lida a última página da obra, e pensando em retrospectiva mais alargada para os últimos anos, em que várias obras semelhantes vieram a público, lembro do bruxo do Cosme Velho. Machado de Assis escreveu em 1881, em um capítulo de Memórias póstumas de Brás Cubas: “porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...” Referia-se ele a um romance, é verdade, mas com muita propriedade quanto à postura de ‘leitores’ que têm pressa em envelhecer. Quanto aos contos, o mesmo Machado escreve na advertência de Várias histórias, referindo-se à extensão do gênero: “O tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias, é naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos". 

A coletânea que Wilson Gorj publica mais de 140 anos depois de Machado, depois de tanta, mas tanta mudança, atende ao leitor apressado e não decepciona no quesito qualidade. A começar pelos dois primeiros contos que abrem a obra, e que atestam ao que o livro veio afinal. Em “O sofá”, temos vívidos retratos do sentido de transitoriedade que nos atravessa e, mesmo assim, e paradoxalmente, perdura em nós com força descomunal o desejo de registrarmos nossa passagem no planeta. Já em “O circo”, lemos belíssimo testemunho de que, mesmo em face da dor que nos alcança no transcurso da vida, ainda assim, sabendo olhar, veremos que, “mesmo ali, no meio do fracasso”, por mais triste que seja, ainda há beleza na vida, “há amor, há afeto”. 

Gorj revela-se exímio intérprete de pequenos mundos de individualidades, varridos por situações aflitivas que podem alcançar a nós viventes. Suas anônimas criaturas que transitam nas 58 breves narrativas de que o livro se compõe, alimentam, de texto para texto, convivências de lastro filosófico-espiritualista, como acontece em “Invisível”, “Futuro” e “Caminho da perdição”. Há textos que mostram como o medo que nos assola, sobretudo nas grandes cidades, acaba por armar ciladas sem retorno para nós mesmos, como acontece em “A vítima”. 

Já em outras ficções, observamos pegadas da crença assaltada pela descrença, ou o otimismo minado pelo pessimismo uma e outra a revistar memórias nem sempre felizes. Outros personagens deflagram manifestações de humor que acabam por sentenciar o aparente fim de tudo. Em certos contos pensamos em um alívio a renovar o ser por meio do encontro de um grande amor, como sugerem contos como “Encontro marcado” ou “Pancadas na porta”, este último, por sinal, um tremendo equívoco entre amor e sexualidade que, afinal, adquire conotações de desespero e contrações de dor. Um conto de tragicidade onde o narrador corre literalmente para o precipício da tragédia. O tempo passa. Constatamos que hoje os cenários são outros, é verdade, os dramas humanos mais incisivos e cruéis, talvez, mas há certas coisas que não mudam... 

Em Gorj, por vezes a narrativa ficcional de reduzidos limites, também aparece com teor espectral como acontece em “A rosa” e “O encontro”. Quanto à forma, temos textos ora de narração objetiva e perversa como “Língua afiada” e, não raro, visitas ao realismo mágico, ou ao fantástico, como lemos em “O ninho”, “O mergulho” e “Um pequeno detalhe”. 

Em “Os louros da fama” (trata-se de um texto de 4 páginas) há algo de antológico no sentido de traduzir o choque entre as vaidades e o desencontro com a realidade vivida hoje por escritores no Brasil. Lembramos que o autor é editor chefe da Editora Litteralux, antiga Penalux, para a qual escrevi, em parceria, 146 resenhas em vários gêneros. É leitor experiente, portanto, e conhecedor do que se escreve atualmente no país. Conhece bem a realidade brasileira nessa seara. De fato, um texto muito perspicaz, que reproduz com fidelidade essa nossa estreita vidinha literária que oscila, para além das capacidades individuais, num pêndulo que se alterna entre o instrumento inquisitorial de pura e simples sabotagem de tantos talentos e o endeusamento duvidoso de mediocridades literárias. Quem vive da literatura e para a literatura nesse país, sabe muito bem do que estamos falando. 

Os contos elencados no volume, em sua maioria, não chegam a completar duas páginas, entretanto, quando ultrapassam essa limitação, e alcançam 3 ou 4 páginas, o leitor é brindado com uma inventiva mais livre e maior concatenação de sentidos porque melhor se apresenta o insight, aquele mergulho existencial que caracteriza o gênero. Aí os textos se aprimoram na medida em que o autor-narrador aprimora revelações, ilumina mais os instantes críticos que induzem o leitor em suas linhas e entrelinhas ao pulsar, ao fermentar e ao germinar das grandes vivências da experiência humana. Isto é, afinal, a nosso ver, o que verdadeiramente importa ao bom contista. 

Entre a introdução e o desfecho que une as duas pontas do leque, de tal forma que a impressão inicial se revigora nas palavras do desfecho, entra o talento do ficcionista. Nesse ponto o leitor toma contato não exatamente com o que os personagens estão a dizer ou fazer, mas o que estão a pensar, transformando toda a estrutura da história curta em uma mensagem muito tênue e delicada. Eis a unidade básica de modulação e desenvolvimento do conto. Aí o campo fértil para as ambiguidades, ambivalências, impressões fortalecidas em emoções muitas vezes apenas dedilhadas. 

Vivemos tempos de imediatismos e superficialidades, de relações instáveis e líquidas. Tais circunstâncias acabaram por impregnar o gênero conto de um tal enxugamento verbal, que em muitos casos transformam o gênero em meros aforismos, ou anedotas de três ou quatro linhas. Entretanto, não se pode fugir de uma constatação que nos parece óbvia. O exercício de textos de estrutura física muito reduzida exige do autor um vocabulário rico, um conhecimento vasto das possibilidades da língua, de seus recursos expressivos, das figuras de linguagem etc. Fora daí, corre-se o risco de produzir textos vagos, difusos, sem enredo, às vezes em tom de crônica, baseados em estados de espírito e/ou iluminações impressionistas, esvaziados de sentido, rasos de significado. A criação de atmosferas ficcionais continua válida, e hoje mais do que nunca. Precisamos da palavra sentida, pensada,  burilada à exaustão, que é afinal o que possui o dom de despertar em nós, não somente o significante da língua, mas também aqueles outros efeitos conotativos (figurados), explorando a função poética (estética), despertando  sonoridades da língua, que se abre a outras interpretações, permitindo expressões que despertem diferentes significados e sentimentos no leitor, e por quê não ?, exprimindo sentidos de subjetividades ao provocar o "eu lírico" autoral, que se revela em emoções, visões de mundo e sentimentos profundos, tornando afinal a linguagem um objeto de arte em si. 

Cito como exemplo do que escrevi acima, outro conto excepcional, “Pedalando pelas ruas da memória”, do qual transcrevemos, à guisa de conclusão, o trecho abaixo. E julguem os leitores a qualidade de uma prosa capaz de emocionar profundamente o leitor. Uma simples conversa de um avô com seu jovem neto durante um passeio de bicicleta que os dois empreendem nas ruas do bairro onde moram:

 

Ufa... Olhe, não foi à toa que parei aqui. Nesta calçada, há muito tempo, havia uma árvore. Um ipê. Quando mocinha, sua avó sempre me esperava encostada nele, debaixo de sua copa frondosa. A gente namorava escondido, sabe? Ela dizia para os pais que ia ao cinema com uma amiga e, enquanto a cúmplice ia na frente, sua avó me esperava aqui neste ipê. Depois do filme, a gente voltava pra cá e aproveitava para namorar outro tanto. Em agosto, nossas roupas ficavam cheias de pétalas amarelas. O ipê não era só um ponto de encontro, era outro cúmplice. Imagina só como foi duro passar por esta rua um dia e não encontrar mais a árvore tão querida, que trazia no tronco as nossas iniciais. Cortaram o ipê só porque não combinava com a fachada desse prédio moderno. ‘Cada geração constrói seu cenário sobre os escombros das gerações anteriores’. Profundo, não? Li isso em algum livro, não me pergunte qual. É por isso que nós, vovôs e vovós, às vezes nos sentimos assim, como atores de uma peça que há muito se acabou; meio descartados, excluídos do palco do mundo. Sei que estou exagerando, falando difícil. É que às vezes me esqueço que você tem apenas dez anos.”... “Monta de novo. É isso aí garoto. Pronto, agora vamos, seus pais já devem estar preocupados. Enquanto pedalo, vou te contar um segredo. Ultimamente tenho sonhado muito com a gente. Nós dois, eu e sua avó, de novo jovens. No sonho de ontem, ela estava outra vez me aguardando em nosso ponto de encontro. Parecia tão real, ela ali, exatamente como nos bons tempos: linda, risonha, esperando por mim debaixo do ipê florido. Esperando em vão, porque nesses sonhos eu nunca consigo chegar perto dela. Acordo antes. Acordo com uma saudade enorme, e passo o dia todo nessa expectativa de voltar a dormir e sonhar com ela de novo. Quem sabe, a gente finalmente se encontre numa noite dessas.

 

Eis aí. Às vezes precisamos de palavras, muitas delas... E ponhamos um ponto final a esta resenha que já vai longa... 

 

Livro: “Vidas sem nome”
Contos de Wilson Gorj
Editora Litteralux
2025
154 p.
ISBN 978-65-5322-058-4

 

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Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

18 de mar. de 2026

‘Crisântemo’ e a roda viva da existência

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

O exercício da crítica literária, muitas vezes, perde-se em juízos puramente subjetivos. No entanto, ao analisar Crisântemo, obra de Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior, meu foco se desloca para o que realmente importa ao leitor: a construção do enredo, o ponto de vista narrativo e a eficácia da linguagem em traduzir o humano. 

Os escritores, ambos residentes em Uberlândia, Minas Gerais, resolveram unir seus talentos e deram vida a uma narrativa que, pela estrutura interna de ação mais sintética, linear e rápida, aproxima-a do gênero novela, aquele ponto intermediário entre o conto e o romance: 125 páginas, 26 capítulos curtos que trazem títulos de músicas de conhecidas bandas e cantores: The Tears, Legião Urbana, John Lennon, Frejat, Rolling Stones, Biquini Cavadão, entre tantas outras.

Tal recurso é um dos diferenciais mais marcantes de Crisântemo, ou seja, sua simbiose com a música. A narrativa é, assim, atrelada a uma trilha sonora que serve de guia emocional para as cenas. Contudo, esse expediente é também um ponto de debate. Com uma playlist composta majoritariamente por canções em inglês, a obra impõe um desafio extra ao leitor brasileiro. Embora exista um QR Code para facilitar o acesso às músicas, a barreira linguística pode, em certos momentos, interromper a fluidez da leitura para aqueles que buscam entender a conexão profunda entre a letra e o arco do personagem. 

Os autores sugerem, no enredo proposto, que as palavras impressas no papel despertem ouvidos menos sensíveis à importância da música na experiência humana. Sim. A música, essa eloquente linguagem do espírito humano que se externaliza por meio da matéria prima impalpável a que conhecemos como “som”. Sons agrupados ritmicamente, sabemos todos, possuem a capacidade de se comunicar com todos os aspectos do ser humano: o animal, o emocional, o intelectual e o espiritual. É arte capaz de, repentinamente, fazer com que nos desviemos de preocupações rotineiras e mergulhemos em imaginários que evocam pessoas amadas, sofrimentos, decepções, cenas do passado ou mesmo projetando scripts emocionais adequados a tal ou qual melodia que nos chega aos ouvidos. E assim é tecida a ficção propriamente dita que orbita em torno de um grupo de cinco jovens na casa de seus vinte e poucos anos, integrantes da banda Sagarana. 

A obra abre com uma sequência que pode ser definida como "alucinante". Através da corrida desesperada de Lucas, a narrativa estabelece, logo de cara, uma fidelidade visceral ao sentir juvenil. É o retrato do amor em sua forma mais crua e, por vezes, dolorosa — a famosa "dor de cotovelo" que, embora comum, é tratada aqui com uma urgência que prende o leitor. O texto consegue capturar com precisão as mazelas que um "fora" deixa na alma de quem ainda não alcançou a maturidade emocional. O capítulo que abre a narrativa surpreende o leitor pela situação limite exposta que causaria perplexidade a cultores do mais pesado heavy metal com suas sonoridades massivas e encorpadas, em timbres saturados e distorcidos de amplificadores, cordas graves de guitarra e atmosferas sombrias. 

Dois dos integrantes da Sagarana estão em um automóvel em altíssima velocidade. Lucas, o baterista da banda, dirige. Carlos tenta dissuadi-lo de continuar naquela velocidade absurda, naquele desespero causado (pasmem!) pelo rompimento com a namorada de inícios da adolescência que o desestrutura completamente. O diálogo que os dois travam é urgente, tenso, desesperador. Carlos antevê o desastre iminente. Suplica que Lucas pare o carro e argumenta tudo que consegue... Afinal, depois de muita argumentação, o carro para no acostamento. Carlos desce, mas o outro segue rumo a um suicídio que de fato se dá. 

No centro da trama está Carlos, um protagonista atropelado pela “roda furiosa da vida”. A urdidura da problemática existencial é bem construída, colocando o personagem em uma sequência de acontecimentos que parecem não dar trégua. É nesse ponto que a obra se torna densa: o leitor acompanha um jovem adulto mergulhado em um turbilhão de problemas tão urgentes que a própria reflexão parece ser um luxo ao qual ele não tem acesso. Para além da tristeza da morte do amigo, Carlos (o protagonista narrador) sente-se culpado por não ter impedido o acontecido. E inesperadamente surge outra sombra terrível ligada a Lucas. A maledicência de alguns insinua que o desespero de Lucas não se devia apenas ao término com a namorada, mas também a certo envolvimento com a namorada de Carlos, que se descobre na sequência estar grávida. De quem? A pergunta que não cala e contribui para somar luto com traição, resultando em ódio. 

Há certas vidas que parecem fadadas ao sofrimento. Assim é a de Carlos. A banda se dissolve. A ex-namorada Larissa afirma que o filho que espera é dele. Há, ainda, a desconfiança entre eles quanto à paternidade. Desesperado, Carlos parte para outro relacionamento e o que encontra pela frente é uma doidivanas dada a aventuras com quem quer e bem entende. Carlos não arruma emprego. Vive com a mãe depois que o pai caiu no mundo para nunca mais. A relação com a mãe entra pela via de desentendimentos, mágoas, palavras agressivas, e afinal acaba expulso de casa sem ter para onde ir... Até que mais um momento de extrema dor, desnorteio e funda perplexidade o atropela e o leva para a beira do abismo existencial:

 

“Lá fora, comecei a caminhar sem rumo, com os fatos se repetindo em minha mente. O suicídio. A morte. As brigas. O abandono. A traição. A expulsão. A morte. O suicídio. O ciclo se fechava. Comecei a entender: talvez a resposta fosse essa.

 

Parei na calçada, a uns dois quarteirões do prédio, a decisão se solidificando a cada segundo. Eu enfim compreendia. Não seria esse o único caminho para o fim do caos? O som de pneus cantando no asfalto me arrancou do transe. Um carro freou bruscamente ao meu lado.” 

Uma mão amiga lhe acena. Ponto crucial. Será ele capaz de descobrir que dentro de si mora uma versão mais forte e capaz de seguir em frente, ou afundará no oceano de traumas que marcaram tão dolorosamente sua existência para então, e afinal, descobrir outros horizontes, imprimir novos ritmos, novos acordes, outras melodias em sua vida? Vale a pena conferir o desfecho dessa sinfonia existencial. 

Se por um lado a "roda viva" de problemas mantém o ritmo acelerado, por outro, sente-se falta de uma exploração mais profunda dos traços psicológicos de Carlos em relação à sua arte. O ingrediente que daria ainda mais sabor à composição seria entender o verdadeiro sentimento que o protagonista nutre pela música — para além do caos externo, quem é o Carlos artista quando o silêncio finalmente impera? 

Crisântemo é uma narrativa bem construída, que não tem medo de expor as feridas abertas da juventude e as dificuldades da vida adulta. É um convite a olhar para as nossas próprias cicatrizes, embalado por acordes que, se nem sempre compreendidos de imediato, ressoam a urgência de quem precisa sobreviver ao peso do mundo.


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Krishnamurti Góes dos Anjos
é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.