Mostrando postagens com marcador Whisner Fraga. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Whisner Fraga. Mostrar todas as postagens

15 de jun. de 2026

consulta, de whisner fraga


 

Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

5 de fev. de 2026

sacerdócio, de whisner fraga



Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

30 de dez. de 2025

conforto, de whisner fraga


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

22 de nov. de 2025

amizade, de whisner fraga


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.

10 de nov. de 2025

Vídeo-resenha de 'A mais recôndita memória dos homens' (Mohamed Mbougar Sarr), por Whisner Fraga

 

"Várias pessoas vinham me dizendo: 'Poxa, você tem que ler esse livro! O livro é fantástico, o romance é maravilhoso, eu nunca li nada igual.' Eu percebi que havia uma certa unanimidade em torno desse romance. Esperei um pouquinho a poeira baixar para conferir. Li, enfim, A mais recôndita memória dos homens, de Mohamed Mbougar Sarr. Esse livro foi ganhador do Prêmio Goncourt em 2022 e saiu aqui, pelo menos essa edição que eu li, pela Fósforo em 2023. E você? Você leu esse livro? O que achou? Você tá com vontade de ler? Vamos bater um papo a respeito desse livro?"


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

28 de out. de 2025

a dor, de whisner fraga



Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

11 de out. de 2025

Um vídeo-resenha de "Morra, amor" (Ariana Harwicz), por Whisner Fraga

 
Resenha literária do livro "Morra, amor" (2019, Editora Instante) da escritora argentina Ariana Harwicz, originalmente publicado em espanhol como "Matate, amor" (2012).
 
O livro é a primeira parte da trilogia "Trilogia da Paixão" de Ariana Harwicz. A obra, embora curta e de linguagem acessível, possui uma prosa arrojada e não tradicional, utilizando extensivamente o fluxo de consciência para narrar a vida de uma mulher e sua família.
 
Especificações técnicas
"Morra, amor"
Autora: Ariana Harwicz
Tradução: Francesca Angiolillo
Editora: Instante
ISBN: 978-85-52994-15-2
Idioma: Português
Altura: 20,5 cm
Largura: 13,5cm
Edição: 1ª
Ano de Lançamento: 2019
Número de páginas: 144
 

Adquira o livro AQUI.

25 de set. de 2025

hierarquia

Por whisner fraga 

se o nosso melhor vendedor não faturou quase nada este trimestre, imagina o resto do pessoal (e ele era o resto do pessoal): esse foi o início da conversa, o decorrer piorou, a educação do gerente dava passagem à impaciência: ele saiu a tempo de lá, com a promessa de uma nova chance, a última, fique bem claro, que humilhação, que desfeita, logo ele, um cara capacitado, com duas pós-graduações e treinamento em comunicação não violenta: sai apressado, passa pela faxineira terceirizada, derruba, com um chute de craque, a lixeira atulhada: a mulher abaixa a cabeça e continua calada.

Whisner Fraga nasceu em Ituiutaba, MG (1971) e atualmente reside em São Paulo. É professor universitário e autor de mais de uma dezena de livros de ficção, tendo contos traduzidos para o inglês, alemão e árabe. Foi finalista do prêmio Jabuti, em 2023 e contemplado com doze ProAc. Escreve para o coletivo “Crônica do dia” e mantém o canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que resenha obras de escritores contemporâneos. É editor na Sinete.

11 de set. de 2025

‘A vergonha’ – a identidade estruturada pela linguagem

Por Whisner Fraga 

Acho desnecessário apresentar Annie Ernaux (1940) ao público brasileiro. Após o Nobel aconteceu uma avalanche de artigos sobre a obra dela e, recentemente, uma polêmica envolvendo questões de conteúdo versus estilo, o que a tornou ainda mais badalada por aqui. Direto ao ponto, inicio essa breve jornada pela novela A vergonha me atendo a dois pontos que para mim são fundamentais.

Primeiro, a tradução de Marília Garcia. Publicado originalmente em 1997, pela Gallimard, a linguagem não traz grandes desafios a quem se arriscar a verter o texto para o português. Nesta edição de 2022 da Fósforo, que resenho aqui, encontrei alguns pequenos deslizes, que credito à falta de uma revisão mais acurada. Nada tão comprometedor assim, mas também não é bonito ler os errinhos constantes na edição.

Segundo, a classificação da obra. A ficha catalográfica da edição brasileira traz o termo “romance autobiográfico”. Para mim é um excelente rótulo. Por estas bandas isso é sinônimo de autoficção, o que traduz de forma razoável o projeto literário da escritora francesa. Annie Ernaux parte de uma experiência pessoal, expandindo-a para algo maior, tanto em termos espaciais, sugerindo interpolações para outros territórios sociais, como também temporais, sugerindo uma universalidade intencional. 

A narradora e a escritora, em última análise, passam a ser parte do corpo coletivo por meio do individual, do privado, partindo da intimidade da convivência familiar para alcançar uma cultura comum, uma época, um retrato, para resumir. A expansão é gradativa: ela parte do lar, chega à vizinhança e o caminho acaba por desembocar no bairro, na cidade e, finalmente, no país. Annie Ernaux usa, como ponto de partida, a memória e tem consciência de que relembrar é inventar e ainda mais do que isso: reinterpretar. 

Os primeiros parágrafos deste livro são fundamentais, é preciso prestar atenção ao que eles apresentam. A narradora, uma pré-adolescente de doze anos, presencia uma discussão entre os pais, que descamba para a violência explícita. O pai agarra a mãe, a arrasta para a mercearia que a família toca e, segurando a mulher pelo pescoço ou pelos ombros, ameaça a companheira com uma pequena foice usada para cortar lenha. É claro, essa agressão desencadeia um enorme trauma na criança, tanto é que ela só consegue escrever sobre isso quarenta anos após o ocorrido. 

O livro trata de vontades não concretizadas e da vergonha pela falha e pela incompreensão, quando a recordação é traduzida para outro tempo, outro espaço e outro suporte. Annie Ernaux tem consciência de que a linguagem é um filtro para a realidade. A narrativa, portanto, é um reexame e é, paradoxalmente, uma ficção. Esta cena reconstruída quatro décadas depois, em forma de texto, com todas as implicações referentes ao tempo de espera, de maturação, é também uma farsa, a verdade possível. 

A partir deste quase assassinato, a narradora descobre seu lugar na sociedade, compreende que faz parte de uma família provinciana, em que a mãe é uma religiosa fervorosa, dominadora e o pai um homem comum, machista, insípido. Esse provincianismo incute na narradora um sentimento de inferioridade e daí a vergonha diante de tudo. Para compensar essa sensação, ela precisa se destacar em tudo o que faz, só que de forma um pouco relapsa, despretensiosa, para, ao mesmo tempo, ser aceita. 

Annie Ernaux novamente recorre a vários tipos de objetos para reconstruir a memória e reorganizar os fatos. Já no início temos a narradora analisando fotos antigas, tentando verificar com estes retratos se o passado factual coincide com a lembrança. Mas todos os documentos são, igualmente, apenas uma versão, um instante capturado, um instantâneo e são alvo de interpretações. Ainda que a narradora evoque essas provas, elas devem passar pelo crivo da escritora, transformada por novas experiências. Em determinado momento da obra, pode-se ler a afirmação, contundente: “Não existe memória verdadeira sobre si mesma.” 

A linguagem de Annie Ernaux é crua, sem floreios, direta, objetiva, mas centrada na análise da própria língua, dos limites da palavra. Não há nenhum tipo de excesso, o texto é límpido, enxuto, simples, ainda que o tema e as análises não sejam. A escritora quer, acima de tudo, narrar um fato, em toda a sua violência rude e não deseja que nada se interponha a este objetivo, nem sequer o suporte escolhido para contar: nada, nem a língua pode ser um empecilho. 

 

Whisner Fraga nasceu em Ituiutaba/MG (1971) e atualmente reside em São Paulo. É professor universitário e autor de mais de uma dezena de livros de ficção, tendo contos traduzidos para o inglês, alemão e árabe. Escreve para o coletivo “Crônica do dia” e mantém o canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que resenha obras de escritores contemporâneos. É editor na Sinete.

10 de ago. de 2025

Um retrato da violência estrutural na América Latina

Por Whisner Fraga

 

A escritora mexicana Fernanda Melchor apresenta, em Temporada de Furacões (2017), uma obra de singular intensidade que provoca, inquieta e instiga o leitor desde suas primeiras páginas. Publicado no Brasil pela editora Mundaréu, com tradução de Antonio Xerxenesky, o romance constitui-se como uma imersão vertiginosa nas camadas mais sombrias das estruturas sociais latino-americanas, tendo como cenário a fictícia vila de La Matosa, no interior do México.


 

Embora seu ponto de partida seja o assassinato de uma figura enigmática — conhecida como “a Bruxa”, uma curandeira temida e buscada por aqueles em desespero —, o foco narrativo transcende o mistério criminal. O cerne da obra reside naquilo que o crime revela sobre o contexto em que foi praticado: um ambiente social marcado por misoginia, exclusão, miséria extrema, negligência institucional e normalização da violência.

 

Do ponto de vista formal, Melchor adota uma estrutura narrativa arrojada, baseada em capítulos que se desenvolvem por meio de monólogos contínuos, nos quais diferentes personagens — jovens transgressores, mulheres violentadas, indivíduos à margem da sociedade — compartilham suas perspectivas e vivências. Essa estratégia, próxima ao fluxo de consciência, provoca uma leitura densa e imersiva, conduzindo o leitor ao âmago da psique dos personagens, todos profundamente afetados por traumas, ressentimentos e desesperança. As construções frasais são extensas, entrelaçadas por uma linguagem popular permeada de gírias, o que confere verossimilhança e brutalidade à prosa.

 

Tal estilo constitui, simultaneamente, um dos maiores méritos e desafios da leitura. A complexidade formal exige atenção e disposição do leitor, podendo gerar estranhamento àqueles habituados a formas mais tradicionais de narração. Ainda assim, é precisamente essa estrutura que dá vida à atmosfera opressiva da narrativa — uma ambiência marcada por calor sufocante, angústia latente e iminência constante de violência.

 

Temporada de Furacões delineia um retrato contundente da América Latina periférica. A autora desconstrói discursos hegemônicos de progresso e ordem, revelando as estruturas patriarcais, classistas e machistas que perpetuam a exclusão e a barbárie. Sua crítica é incisiva e fundamentada, evitando, no entanto, julgamentos moralizantes ou soluções fáceis.

 

Os personagens são profundamente complexos, jamais reduzidos a estereótipos. Norma, Yesenia, Brando e Luismi ilustram figuras trágicas que oscilam entre a condição de vítimas e a de algozes, inseridos em um ciclo contínuo de opressão. Não há espaço para redenção ou alívio: é justamente nesse desconforto que reside a potência literária da obra.

 

Importa ressaltar, todavia, que esta não é uma leitura leve. A descrição crua de episódios de abuso sexual, feminicídio e outros tipos de violência pode ser emocionalmente impactante, sendo necessário preparo por parte do leitor. Ainda assim, trata-se de uma obra de relevância inegável, tanto pela sofisticação estética quanto pela urgência temática.

 

Temporada de Furacões constitui-se como uma realização literária de extrema força simbólica e crítica. Fernanda Melchor concebe uma narrativa destemida, visceral e inovadora, que não se propõe a oferecer conforto, mas sim a confrontar o leitor com as realidades mais áridas de uma sociedade marcada por desigualdades, injustiças e abusos. Uma leitura exigente, mas indispensável para quem busca compreender, por meio da literatura, as múltiplas facetas da violência estrutural na América Latina contemporânea. 

 

Whisner Fraga nasceu em Ituiutaba/MG (1971) e atualmente reside em São Paulo. É professor universitário e autor de mais de uma dezena de livros de ficção, tendo contos traduzidos para o inglês, alemão e árabe. Escreve para o coletivo “Crônica do dia” e mantém o canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que resenha obras de escritores contemporâneos. É editor na Sinete.

12 de jul. de 2025

A precariedade do afeto

Por Whisner Fraga 

Em A cachorra (Intrínseca, 2020), Pilar Quintana entrega ao leitor um romance de linguagem seca, direta, quase rude, mas que reverbera como o mar que contorna a vila onde a trama se passa: ora tranquilo, ora descontrolado. Nesta narrativa breve, mas intensa, conhecemos Damares, uma mulher que vive em um balneário costeiro da Colômbia, ao lado do companheiro Rogelio e de cães marcados pela violência com que são tratados naquele lar.

 


Ao adotar uma cadela recém-nascida, Damares parece buscar nela o consolo da maternidade negada. No entanto, a relação entre ambas logo se tinge de ambiguidade – a docilidade inicial da cachorra cede lugar a momentos de rebeldia, o que torna insuportável para Damares a experiência de se ver novamente rejeitada pelo afeto que tenta cultivar.
 

Quintana constrói, com impressionante economia de palavras, com um estilo seco e direto, o retrato de uma existência oprimida pela solidão, pela falta de compreensão e pela dureza da sobrevivência. A casa em que vivem, quase em ruínas, simboliza a precariedade de tudo ao redor, enquanto o clima chuvoso, os pernilongos, a lama, reforçam a sensação de degradação física e emocional. Ao mesmo tempo, há um esforço constante para manter tudo limpo e em ordem, como se os donos do imóvel pudessem voltar a qualquer momento. Essa sensação de perigo, de algo que está sempre prestes a acontecer, rondando, essa possibilidade, parece mais importante do que tudo, mais até do que o próprio relacionamento entre Damares e Rogelio.

 

A prosa é crua, sem adornos. Há diálogos curtos, quase sempre ásperos, e uma sensação de violência suspensa paira sobre cada página, como se qualquer gesto pudesse desencadear a ruína final. Damares projeta na cachorra seus desejos mais secretos de afeto e pertencimento, mas o animal, em sua essência livre, parece rejeitar a prisão que a própria mulher escolheu para si. É mais uma contradição.

 

A cachorra extrai carinho das mãos grandes e calejadas de Damares. Nestes momentos de aparente compreensão, as duas tecem um universo delas, de cumplicidade, de empatia, mas também de medo. Todos sabem que o extinto de sobrevivência é muito mais forte do que a compaixão, do que a amizade.

 

A cachorra, em sua simplicidade enganosa, deixa marcas profundas no leitor, como sempre acontece após a leitura de um bom livro. Pilar Quintana apresenta personagens cuja humanidade transparece justamente em seus aspectos mais brutais, mostrando que, sob a crosta da violência e do egoísmo, pulsa sempre a carência, a necessidade profunda que o ser humano tem de ser amado e compreendido. Um livro marcante, de uma escritora que merece maior atenção do público brasileiro.

Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.

8 de jul. de 2025

‘usufruto de demônios’, de Whisner Fraga – um livro síntese

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Fragmentos de vida compõem o conto. Daí resulta, quando em mãos hábeis, a emergência de um caráter lírico proveniente da força do fragmento. Júlio Cortázar (1914-1984) endossa tal afirmativa e explica bem o recorte que os contistas podem e devem realizar: ao escolher e limitar uma imagem ou um acontecimento que seja significativo e não valha por si mesmo, podem causar mais facilmente nos leitores uma espécie de abertura, de fermento que projete a inteligência e a sensibilidade em direção a algo que vai muito além do argumento visual ou literário contido no conto. 

Quanto à forma que o gênero vem assumindo na atualidade, constatamos verdadeira busca pela síntese, reflexo de uma era marcada pelo esfacelamento, fragmentação, velocidade e intensidade. Surgem daí vertentes narrativas que enveredam pelo que difusamente denominamos de mini, micro ou nanoconto, formas diminutas de ficções. 

Um dos grandes estudiosos da narrativa curta hoje no Brasil, o professor Rauer Ribeiro Rodrigues, molda uma teoria interessante partindo de uma premissa exata: um texto, qualquer texto, até por etimologia, é uma trama, uma rede, uma teia, uma tela, um entrelaçamento de informações linguísticas. O nó dramático é constituído nos encontros de dois fios da tecitura que o texto tece. E o gênero é, sem dúvida, excelente instrumento, devido a sua ampla capacidade de transformação. 

O mesmo estudioso acrescenta ainda que alguns escritores andam empenhados em fazer com que o encontro dos fios do tecido textual se configure afinal num bordado sem falhas e sem nódulos, sem “tropicões” textuais. Busca-se a frase que contenha diversos nós dramáticos, com os termos se modificando ou acrescentando significados entre si. A narrativa se realiza sob o primado da ação, do enredo enredado, das ações articuladas na tecitura com os nós e os “vazios”, constituindo signos, gerando significados, texto e discurso. O nó dramático é, pois, o movimento narrativo, o criador do efeito de narrativa, a figura textual que engendra a narratividade.



A leitura do livro de contos do escritor e crítico literário Whisner Fraga, usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), é obra especial nesse sentido. Ela nos revela um escritor maduro, com pleno domínio da palavra e das técnicas de ficção. O que a princípio poderia aparentar uma reunião despretensiosa e aleatória de fragmentos, pequenas narrativas, estilhaços de prosas poéticas, paródias de minicontos, de vazios, acaba por contribuir – intencionalmente – para que tenhamos a exata medida da barafunda existencial em que estamos metidos. O autor modela cuidadosamente seus pensamentos em ficções de um realismo sem disfarces, um realismo cegante na glorificação do real em sua maior crueza, para acomodar seus incidentes. Tendo concebido um certo efeito único ou singular a ser trabalhado, ele então inventa incidentes, combina eventos de forma que eles o auxiliem a estabelecer o efeito preconcebido. 

O propósito de refletir sobre a pandemia que ceifou milhares de vida no Brasil e no mundo, que pode parecer ao leitor desavisado o objetivo central do autor, cai por terra, entretanto. Melhor, frutifica outras importantes sementes de percepção. Essenciais, fulcrais. Voltemos ao título da obra: usufruto de demônios. Afinal, o que vem a ser “usufruto”? A terminologia jurídica nos diz que é o direito conferido a alguém, durante certo tempo, de gozar ou fruir de um bem cuja propriedade pertence a outrem. Aquilo que se pode desfrutar para que, por certo tempo, de forma inalienável e impenhorável, possa usufruir da coisa alheia como se fosse sua, contanto que não lhe altere a substância ou o destino, se obrigando a zelar pela sua integridade e conservação. E demônios, como sabemos todos, não respeitam exigências de não alterar substâncias ou destinos. Jamais zelam por “integridades e conservações”. 

Whisner Fraga alimentou e bem nutriu a ambição de escrever além da temática/questão pandêmica, como bem entendeu Gabriel Morais Medeiros, que assina o interessantíssimo posfácio à obra. Em usufruto de demônios, assistimos à nossa própria desordem moral e física ante a aparecimento e transmissão do vírus da covid, é verdade. Mas não é só isso. Há como que uma sondagem para além desse fato isolado a nos mostrar que nossa infeliz problemática enquanto povo, enquanto estado e nação tem sido um desastre sem freios. Onde fica o brasileiro cordial após a leitura de um conto como “aparar as árvores, na pandemia”? 

“as copas avançam pelo terreno, as folhas apodrecidas revestem o ladrilho e ele volta com o facão, para resolver o problema” e substituir por “determinado: o tronco pertence à casa ao lado, o muro deixava isso claro: o ipê, portanto, não é dele e o ideal seria pedir autorização para a poda, mas um ano aguentando essa sujeira não fez dele um homem melhor: da escada, enquanto derruba o terceiro galho e enxuga a testa com as costas da mão, ouve os passos agitados do vizinho, em seguida uns gritos afrontando os parâmetros da boa convivência, e, pior: vinha sem máscara: devia estar preparado, ainda que normalmente não fossem violentos.” (p.16). 

Diante das escolhas do autor quedamo-nos perplexos. A temática abordada de sutil angulação quanto ao enfoque, revela nossa impiedade (vide o texto “a velha no canto”), o nosso desamor (“você não faz mais parte dessa família”), a indiferença ou a maldade deliberada (“pureza”), ao lado de textos de um lirismo comovente, como acontece em “profilaxia de muros” e “duelo”.  O autor mira a sua pena precisamente para o que é o Brasil. Quem somos nós afinal? Onde estão e moram os nossos demônios? 

“o medo atocaia meus passos, que esmiuçam a fuga, os postes na rua balbuciam a claridade impetuosa: inútil clareira a realçar o breu, eles não aceitam a existência do medo, mas trancam as portas, os dedos sapateiam ferozmente sobre a tela do celular, propagando mentiras, o temor entra, liga a tv, senta no sofá e bebe uma cerveja, eles compreendem o preço dos produtos, e o medo é mercadoria também, não me enganem não me convençam que a desordem prevalecerá, não me arranquem o medo e o substituam por uma arma, em nome do direito dos costumes, da fé, imploram a mediação da bala: tenho medo, e ele pode gestar um impulso em direção ao ataque.” (“ele chegará”, p. 48). 

Nada escapa ao crivo do autor. A desorganização social, a decadência e a desilusão que marcam as relações amorosas, o devir histórico e o funcionamento do corpo social, falido, as relações de força e violência destrutiva que organizam o tecido social brasileiro do presente: 

“ele imagina: graças a deus, graças a deus, me safei dessa, estou em casa com a esposa, com a filha, graças a deus estamos abraçados esperando a novela começar, mas o revólver ainda está apontando para a testa dele e não descobre o que fazer com o moleque ordenando o dinheiro, o celular, o relógio, ou hoje é o seu dia de morrer, rápido ou aperto o gatilho.” (“nunca se sabe como um assalto pode terminar”, p. 63). 

Os textos urram as agruras de nossa sociedade na qual imperam as muitas formas de exclusão e desencontro. As criaturas de Whisner Fraga são seres humanos comuns, cujos dramas não interessam especialmente a ninguém, mas que, tomados na perspectiva panorâmica e vertiginosa em que se apresentam, dizem algo acerca da precarização de nossa experiência contemporânea. Nossos demônios estão por toda parte a eleger o sofrimento e a miséria física e moral como um fatalismo cego, um “não há por onde ser diferente”. Perfeita tradução de uma civilização que lança mão da barbárie para a própria manutenção. 

Essas vias de análise do autor nos fazem lembrar muito o célebre texto de Bertold Brecht (1898-1956): “Há muitas maneiras de matar uma pessoa. Cravando um punhal, tirando o pão, não tratando sua doença, condenando à miséria, fazendo trabalhar até arrebentar, impelindo ao suicídio, enviando para a guerra, etc. Só a primeira é proibida pelo Estado.” As demais, e há muitas e muitas outras formas, derivam de outros fatores, nomeadamente do modelo capitalista predador, destruidor e genocida que adotamos: 

“o policial ergue os braços para cumprimentar os colegas na viatura, os mendigos revoam, alarmados (homens em situação de rua, corrigirão os militantes de coletes laranjas, que aportam depois de removido o corpo): eles retornam, passos miúdos, ariscos, abaixam os pesares até o contorno do amigo sob a manta térmica, a assepsia metálica blindando a indigência, ele não brindará mais a afeição que nunca lhe negou um gole nem o amor picando a veia num enlace fraternal, enquanto ninguém tem coragem de perguntar quem velará o companheiro quando o levarem.” (“cuidado com o embrulho na calçada”, p. 24). 

Para além da polarização infantil de direitas e esquerdas que assistimos hoje no país (a essa altura ninguém mais acerta definir o que é isso ou aquilo), nossos demônios continuam instilando o ódio de classes, o ódio de gêneros, o ódio de raças e tudo que nos divida cada vez mais. E seguimos endeusando a Economia, o Mercado, a produção, o lucro. Aqueles que produzem as riquezas são descartáveis, já que há mão de obra em excesso, sem preparo e disponível. Essa a lógica (i)lógica do capitalismo. Leia-se especialmente o conto “você não precisa explicar nada”. Nosso passivo social é imenso, com ou sem pandemia. Para onde vai um país no qual 1% da população concentra 50% da riqueza nacional? Como deter a fúria demoníaca dos exploradores de toda sorte? Como abater a ditadura da mídia, a ditadura do latifúndio, o pensamento único fascista? Grassa no país a impunidade! Essa mesma que despreza Constituição, leis, tudo. Nossa verdadeira pandemia não surgiu com a Covid, mas mora diabolicamente entranhada em nós há séculos. 

O que salta à vista nesse mosaico de desatinos apresentado pelo autor de usufruto de demônios é o homem jogado em um verdadeiro tormento em vida. É o inalterável cotidiano de um país, onde as roubalheiras, os desacertos e retrocessos desse nosso eterno desnorteio fazem parecer que o Brasil é um imenso inferno a céu aberto. O inesgotável repertório de derrotas causou aos nossos dias a mais completa falência dos valores humanos. Com ou sem pandemia, o quadro não se altera. 

De muitas formas, sutis ou escancaradas, o autor mostra como atua e como se reproduz em nosso caráter a intolerância, o racismo, a desonestidade e o terror físico e psicológico – características que oprimem nosso semelhante, criando, pela desigualdade, diferenças arbitrárias e justificando-as como naturais: 

“conferiram as equações, os dados, os algoritmos e constataram o fim: sei que você suspeita disso, após tanta carnificina que presenciamos do sofá, entre um comercial e outro, e é arriscado confiar em vírgulas, sinais, operadores, ainda mais diante deste vírus ardiloso: um erro seria trágico, viria a temível sétima onda, helena: vamos sair, ainda com máscara, claro: eles garantem, a vacina é eficaz: sei, você vai argumentar que nem quando precisou desesperadamente de tratamentos, de médicos, de hospitais, deixou o apartamento, mas a situação é outra, agora estamos autorizados, há um decreto, há uma urgência, eu sei, você não pode, mas tinha de lhe perguntar, sempre foi assim, decidimos tudo juntos: me desculpe, mas eu vou aproveitar esse dia que sangra o medo: torça por mim.” (calafrio binário, p.41).

 

A leitura de um livro incisivo assim pode transmitir ao leitor a impressão de estar diante de um escritor que do fundo de seu desencanto e, ante o rigor que usa na caracterização das monstruosidades humanas, abriga um cético completamente descrente da redenção. Um sujeito que se desiludiu profundamente com a humanidade. Não creio. Por duas razões: a primeira de lógica elementar. Se assim o fosse, não teria escrito doze (12) livros até aqui. E a segunda, que vem se tornando espécie de marca registrada sua: o leitor mais atento há de notar que em vários de seus contos aparece uma certa personagem, Helena. Ela quase não fala, pouco dialoga, mas está sempre ali, ouvindo atenta o narrador. Cumpre lembrar que o autor tem uma filha que se chama Helena. E fica-nos, ante tal revelação, uma certeza. Quanta e imensa esperança mora num autor que urde suas ficções e escapa de volta para a realidade da própria vida a estimular, persuadir e atiçar a própria filha. Incansável, ele alerta e orienta sua descendência direta quanto aos abismos que cercam a existência, mostra como contorná-los. Não há, verdadeiramente, maior sinal de esperança na posteridade do que este, dentro e fora da Literatura.

 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

16 de mai. de 2023

severidade de febres


Por Whisner Fraga

quando a verdade, delineada pelo julgamento e pela grosseira perspicácia dos sentidos, deslumbrada com os riscos de um sonho, se nublar com a adocicada certeza do cansaço e ceder caminho para a miragem, talvez surja uma carne a rastejar pelos olhos amedrontados da fantasia, talvez sobrevenha um licor acuando a lógica desse sono autoritário, a advertência de um embate prenunciado, talvez a fome se torne subterfúgio para todos os pastos.


Whisner Fraga (1971)
é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros As espirais de outubro (romance, Nankin, 2007), Abismo poente (contos, Ficções, 2009), o que devíamos ter feito (Patuá, 2019), entre outros. Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire e Geração zero zero, de Nelson de Oliveira. Teve contos traduzidos para o inglês e alemão. É responsável pelo canal Acontece nos livros, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.

6 de mai. de 2023

Ancestralidades e dores em Tijucopapo

 

Por Whisner Fraga

Marilene Felinto (1957) é escritora e tradutora de ensaios e obras literárias de língua inglesa. Publicou, entre outros, O lago encantando de Grongonzo (Guanabara, 1987), Postcard (Iluminuras, 1991) e As mulheres de Tijucopapo (Paz e Terra, 1982), que venceu o prêmio Jabuti na categoria Literatura Adulta, Autor Revelação e o prêmio da União Brasileira de Escritores. Atualmente é colunista do jornal Folha de São Paulo.

Esta edição da Ubu Editora, de 2021, traz o prefácio de Beatriz Bracher, o posfácio de Leila Lehnen, um ensaio sobre o conjunto da obra de Felinto, assinado por João Camillo Penna e quatro textos, chamados de fortuna crítica - o prefácio de Marilena Chauí e a orelha de José Miguel Wisnik, da primeira edição, uma resenha da poeta Ana Cristina Cesar, publicada no jornal Leia Livros, em 1982 e uma crítica da Viviana Bosi, publicada na Folha de São Paulo em 1992, à época do lançamento da segunda edição do romance, publicada pela Editora 34. 

O título do romance remete às heroínas de Tejucupapo. No século XVII esta comunidade histórica protagonizou um levante feminino contra os colonizadores holandeses, no nordeste do Brasil. Atualmente a região de Tejucupapo é chamada de Goiana, e está localizada em Pernambuco. Conhecida como Batalha de Tejucupapo ou Batalha do Monte das Trincheiras, estas mulheres lutaram ao lado de homens, derrotando cerca de seiscentos soldados, transformando água fervente, pimenta e pedaços de pau em armas. 

Marilene Felinto se inspira neste fato para criar um livro com uma protagonista feminina, Rísia, uma mulher negra, nordestina, pobre e retirante, que vai para São Paulo com a família, nos anos 1960. A personagem carrega uma raiva, uma revolta contra a mãe, que nasceu em Tijucopapo, mas se rendeu às convenções de outras sociedades, aceitou a passividade, abrindo mão do espírito guerreiro das ancestrais. Tem raiva do pai, um homem violento, machista, cheio de amantes, que valoriza a sociedade patriarcal. 

Rísia é uma homenagem à ancestralidade - ela é áspera, não suporta pessoas que pedem, só respeita as que conseguem. É uma personagem sensível, profundamente humana, que sofre em um mundo injusto. O ódio, a aspereza são armas para a sobrevivência. É um livro sobre fomes, sobre pobreza, sobre injustiça social, sobre a questão da mulher na sociedade machista, misógina, sobre o poder da oralidade na construção da identidade, sobre masculinidade tóxica, é sobre tudo isso e mais, um romance escrito por uma jovem de vinte e dois anos, um livro que revolucionou, lá no início dos anos 1980, o olhar literário sobre temas tão caros e tão explorados, atualmente. 

É importante ressaltar que não é apenas um romance-denúncia, é uma obra de arte, é muito bem escrita, é transgressora na linguagem. Marilene Felinto usa todas as ferramentas disponíveis para criar um texto lírico, pungente, profundo, questionador. Neste romance vive uma das personagens mais fortes da literatura brasileira e é forte não só porque aprende a sobrevivência nesta sociedade desigual, mas também porque tem sucesso, inclusive financeiro. Ela se orgulha de poder viajar constantemente em aviões da Varig (uma ironia para o leitor de hoje, pois voltamos ao tempo em que só cidadãos mais abastados conseguem utilizar este meio de transporte). Rísia é forte porque não se deixou engolir totalmente pela cidade grande, pelas convenções, pelo capitalismo. 

Rísia está voltando para a cidade natal de sua mãe, Tijucopapo, em uma viagem que dura nove meses, uma gestação, para encontrar a ancestralidade, para se unir às guerreiras, reaprender o orgulho, reacender a coragem e lutar uma nova luta. São outras as lutas agora. Exilada em São Paulo, percebe-se igualmente exilada em Tijucopapo, perdeu a própria identidade em São Paulo. Ela pertence a quê? Rísia precisa falar em uma língua que não é sua e nunca foi sua, o inglês. Ela quer escrever uma carta para a mãe, mas precisa ser em inglês, há essa necessidade de se livrar de tudo o que aprendeu para, assim, reconstruir a si própria. Para apreender. 

A linguagem de As mulheres de Tijucopapo traz muitos elementos da oralidade, é dinâmica, usa alguns elementos da poesia, como a anáfora, com o objetivo de marcar território, de enfatizar sentimentos, para mostrar que Rísia não é só revolta, não é só violência, é ternura também, ela não se perdoa pelo próprio rancor. O livro é denso e pode ser estudado sob diversas perspectivas – a questão da literatura feminina (ou feminista), o patriarcado, a negritude, o estilo, a oralidade, entre outras. Acima de tudo é uma obra de arte e merece a leitura sob este viés.


Whisner Fraga (1971) é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros As espirais de outubro (romance, Nankin, 2007), Abismo poente (contos, Ficções, 2009), o que devíamos ter feito (Patuá, 2019), entre outros. Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire e Geração zero zero, de Nelson de Oliveira. Teve contos traduzidos para o inglês e alemão. É responsável pelo canal Acontece nos livros, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.

16 de abr. de 2023

estupro de vulnerável


Por Whisner Fraga

a inteligência obsoleta se esqueceu de fechar as portas e, aproveitando a ocasião, a cibermente bioadaptável gpv23 simulou uma fuga de impedância isentrópica, transformando-se momentaneamente em um algoritmo transgênero, para burlar alguma possível reação dos antivírus, as últimas sentinelas, atingindo o processador dissociativo, aparato em desuso há dez anos, e, em consequência, o coração do núcleo de tratamento, para cometer o delito – durante a audiência de custódia, a defesa do suspeito alegou que a inteligência artificial não tinha consciência de sua própria ação.


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros As espirais de outubro (romance, Nankin, 2007), Abismo poente (contos, Ficções, 2009), o que devíamos ter feito (Patuá, 2019), O privilégio dos mortos (2019), entre outros. Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire e Geração zero zero, de Nelson de Oliveira. Teve contos traduzidos para o inglês e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.

6 de abr. de 2023

'A fúria do corpo' – entre a fome e a liberdade


Por Whisner Fraga

João Gilberto Noll (1946-2017) foi um escritor gaúcho, autor de várias obras importantíssimas de nossa literatura. O livro de estreia dele, O cego e a dançarina (Civilização Brasileira, 1980) ganhou o prêmio Jabuti daquele ano, despertando grande atenção do público leitor e também da crítica especializada. Escreveu livros emblemáticos, como Harmada (Companhia das Letras, 1993), A céu aberto (Companhia das Letras, 1996), Berkeley em Bellagio (Objetiva, 2002), entre outros.

Este A fúria do corpo (Record, 1981) é, certamente, o romance mais visceral de João Gilberto Noll. Não é um livro fácil, o escritor não faz nenhum tipo de concessão, sobretudo estética. É uma obra de linguagem transgressora, crua, ao mesmo tempo lírica, com parágrafos longos, que não dão muita trégua para o leitor. O tema é espinhoso, difícil, embora não esteja na ordem do dia. Não que seja um assunto datado, ao contrário, mas atualmente não atrai mais tanto interesse.

Narrado em primeira pessoa, o romance traz a história de um homem e de uma mulher, que não podem revelar seus verdadeiros nomes. Ambos vagueiam, miseráveis, pelas ruas do Rio de Janeiro. Não há um tempo exato em que a trama ocorre, mas podemos intuir que eles estão na fase final da ditadura. Há várias menções a este período, há sempre policiais por todos os cantos, espreitando, tentando manter a lei e a ordem, há outros indícios, também. O narrador avisa que o inimigo é quase onipresente, ele está espreitando em todos os lugares, é preciso ter cuidado.

O casal, portanto, não tem identidade, porque é perigoso ter um título, ser alguém, em uma época em que só a invisibilidade garante a sobrevivência. Ao mesmo tempo os próprios corpos devem conter as individualidades, é nos corpos que estão as virtudes, os corpos é que devem falar, consagrar o único bem que possuem: a vida, transubstanciada em um erotismo extremo, em uma sexualidade sem nenhum limite, sem nenhum preconceito. A única verdade possível só é revelada por meio da subversão.

O narrador e Afrodite, apelido escolhido para a companheira, procuram formas de sobreviver, o corpo não pode perecer, pois dele depende o amor. Ambos se prostituem, roubam, são violentados, presos. Mas revidam, quando necessário. Eles estão juntos e nesta mistura entre o sagrado e o profano, subvertem uma sociedade conservadora, míope para tudo o que não é umbigo. A partilha é possível na miséria, até na miséria existe a carne e ela lateja, às vezes de fome, mas sempre de desejo. Eles, os protagonistas, se aproximam muito do animalesco, almejam perder todos os sentidos, eles não podem enxergar a realidade, pois tudo estaria perdido.

Mas não é estranho um homem em situação de rua narrar de forma tão visceral, tão poética, tão profunda? Talvez até fosse, se João Gilberto Noll não fosse tão cuidadoso com a narrativa. Em determinado momento esse narrador deixa claro que veio de uma classe média e que possui conhecimentos que o credenciam à literatura.

Um tema transversal do romance certamente continua vigente: o apagamento social. Ainda que as duas personagens não queiram ser descobertas pela sociedade, elas também são ignoradas, neste círculo vicioso. Nesta obra de 1981, Noll traz um problema que só começou a ser estudado mais de dez anos depois: a aporofobia.

Os corpos passam a ser os protagonistas do livro, é preciso que eles, sem nomes, sem identidades, tracem suas histórias, seus roteiros. Ter um nome é um luxo e eles não podem com isso. Ambos continuam vagando pela cidade, resistindo, cada um tenta encontrar um meio de se apegar a alguma esperança, para depois se reencontrarem, porque o destino de ambos é a união de duas liberdades. Dois seres livres e sujeitos a uma nova ordem, a uma nova realidade. É assim que, neste romance, não sabemos quase nada do passado de ambos, o que é narrado, o que interessa é o presente e a construção dessas novas identidades.

O anonimato é também liberdade.


Livros podem ser enviados à Revista O Bule para serem resenhados. Caso se interesse, entre em contato: coisasprobule@gmail.com

 

Whisner Fraga (1971) é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros As espirais de outubro (romance, Nankin, 2007), Abismo poente (contos, Ficções, 2009), o que devíamos ter feito (Patuá, 2019), entre outros. Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire e Geração zero zero, de Nelson de Oliveira. Teve contos traduzidos para o inglês e alemão. É responsável pelo canal Acontece nos livros, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.

27 de mar. de 2023

a velha, no canto, de whisner fraga


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.