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19 de dez. de 2025

Os 20 minutos mais geniais da história do cinema

Por Sinvaldo Júnior 

Ok, pode parecer exagero (talvez seja), mas duvido que uma parte dos leitores cinéfilos não concorde comigo. Não estou aqui me referindo simplesmente a pessoas que assistem filmes ou a muitos filmes, ok? Isso não é ser cinéfilo, que é mais uma condição, uma paixão. Cinema, para esses apaixonados, não é apenas entretenimento – é uma experiência estética e cultural. Até a IA, com sua capacidade de sintetizar tudo que é alheio, sabe que cinéfilo “costuma estudar história do cinema, gêneros, diretores e estilos”, possui “olhar crítico e percebe detalhes da narrativa, fotografia, trilha sonora e atuações”. Inclusive, “muitos participam de fóruns, clubes de cinema ou escrevem críticas”. Enfim, deu pra entender, né?


 

Digressões à parte, analisemos o que considero os vinte (20) minutos mais geniais da história do cinema, e não vou compará-los com nenhuns outros vinte minutos de filmes outros, ok? O filme começa com o enquadramento de um relógio cujos segundos passam mais rápido do que o normal (o cronômetro me ajudou a confirmar a tese); depois, surgem o título e os créditos. Alguém já sabe de que filme se trata? Logo em seguida aos créditos, uma explicação, como era comum nos filmes deste diretor e daquela época, e, posteriormente, a primeira metáfora, que é um rebanho de ovelhas caminhando, juntas, cena que transiciona para um grupo de trabalhadores saindo do metrô, juntos, e caminhando para uma indústria de uma cidade grande. Aí entram (alguns correm apressados), batem ponto e se direcionam para os seus devidos lugares, sob a supervisão de outros homens. Já sabe de que filme se trata, certo? 

Trata-se de “‘Tempos modernos’ – uma história sobre a indústria, a iniciativa privada e a humanidade em busca de felicidade”, de Charlie Chaplin, responsável pelo roteiro, direção, música e protagonista do filme. Se tento convencer o leitor de que se trata dos vinte minutos mais geniais da história do cinema, preciso utilizar todas os recursos, certo? Então voltemos para a cena do rebanho de ovelhas brancas... Ops, se você assistir com bastante atenção (a cena dura apenas sete segundos), verá que entre as várias ovelhas brancas, surge uma (só uma) ovelha preta, no meio, caminhando entre as outras. O que será que Chaplin quis dizer com isso? O preto aí, ou mesmo a expressão “ovelha negra” (se é que em língua inglesa ela existe), está no sentido positivo, pois significa alguém que destoa, elemento dissonante que navega contra a maré (e quebrará a conformidade do sistema), que se revolta. Tudo isso fará mais sentido quando o telespectador avançar na história do filme: o trabalhador no sistema capitalista é reduzido ao estatuto de animal, destituído de individualidade e submetido à velocidade irracional do tempo industrial.

 

 

E tudo isso ocorre (o relógio com os ponteiros dos segundos passando, a prévia explicação, o título, os créditos, as imagens do rebanho de ovelhas e de trabalhadores, tanto saindo do metrô quanto chegando ao local de trabalho) com um fundo de uma orquestra de metais e cordas, que cria um clima exclusivo – rítmico – para cada plano, para cada cena. Ah, detalhe: a música do filme é de Chaplin, mas os arranjos não: é de Edward Powell e David Raksin. Há também, durante o filme, “uso de números musicais populares com permissão especial”, seja lá o que essa nota no início signifique. O desenho sonoro, inclusive, é também um recurso comunicativo, quando se percebe, à medida que a história avança, que a comunicação sonora é reservada quase exclusivamente para figuras de autoridade ou aparatos mecânicos. 

Os trabalhadores enfim em suas ocupações, o apito soa e a Grande Máquina começa a funcionar: um homem musculoso e sem camisa a liga. Corta para a sala do Presidente da empresa Electro Steel Corp. Eis que começa, de forma quase sutil, toda a sátira de que Chaplin é capaz: o presidente monta um quebra-cabeça com várias peças mas, entediado, pega um jornal para ler, cujo frontispício é a história de Tarzan. É como se o artista, aqui, quisesse dizer que só os patrões, neste sistema, têm direito ao lazer. No entanto, segundos depois, sua secretária entra trazendo um copo d’água e uma caixinha de comprimidos e deixa tudo na mesa. Ele a olha de relance, com um ar enfastiado, e toma seus comprimidos. Liga um aparelho, que se parece com um rádio, tanto no formato quanto no som que produz, e sua tela grande, onde controla seus funcionários, acende: algumas imagens, de espaços diferentes da sua fábrica, são projetadas, e ele – o diretor – monitora seus funcionários. Aperta uma campainha e seu supervisor (o homem sem camisa e musculoso) corre para atendê-lo, por meio de uma tela de circuito fechado de televisão, a partir da qual conversam. 

Veja, leitor, que se trata de um filme lançado em 1936, e nessa época estávamos longe de termos câmeras de vigilância em espaços públicos e privados controlando nossas ações. Possivelmente não se trata do primeiro filme que utilizou esse recurso (diálogo entre pessoas distantes por meio de som e imagem, algo que se tornaria comum com o advento da internet), mas devemos concordar que a arte, o artista, sobretudo o gênio, é um pouco precursor de coisas/fatos/invenções, além de antena da raça, como propôs T.S. Eliot ao tratar da figura do poeta, a saber: um receptor sensível que capta e expressa as complexidades, angústias e memórias de sua época, servindo como um canal de experiências coletivas. Chaplin era também antena da sua raça e época, a saber, do ser humano do século XX. 

O chefe então diz para o supervisor (cremos que seja o supervisor): “Seção 5, aumente a velocidade. 4-1.” – a que este obedece prontamente. É a partir daqui que toda mágica (de Chaplin) acontece, em meio a um alto-falante que começa: “Atenção, capataz da seção 5. Ver o aumento da produtividade. Atenção, seção 5.” O problema é que Carlitos estava justamente na seção 5, como operário numa linha de montagem cuja função é apertar porcas em placas metálicas que passam incessantemente por uma esteira rolante. E onde Carlitos está, a confusão é certa, mesmo quando ele não a procura. A pressão por velocidade e produtividade, os telespectadores percebem de várias formas: pela trilha sonora repetitiva, pela atuação dos outros atores (trabalhadores da fábrica), pela pressão que o “capataz” da seção 5 faz em todos eles o tempo todo. É de tirar o fôlego e é, também, de fazer rir, mesmo as pessoas do século XXI, passados quase noventa anos após a estreia do filme. 

Carlitos até tenta fazer seu serviço bem-feito, mas um começo de coceira no sovaco, seu colega de serviço, o próprio capataz que lhe chama a atenção e o pressiona, um besouro próximo a seu rosto, várias coisas o atrapalham, e ele perde o ritmo do serviço o tempo todo, culminando – para nós – nas trapalhadas que nos fazem rir. Mas, dentro da lógica crítica do filme, os braços que tentam realizar o serviço que não conseguem, explicitam um trabalho exaustivo. Assim, qualquer interrupção mínima, resulta em caos e força o trabalhador a correr, desesperado, para recuperar o tempo perdido. Mas esse tempo recuperado, só o é para o patrão, nunca para o trabalhador, que o perde e perde sua vida, trabalhando.

 

 

Como apregoa Drummond no poema “Elegia 1938”, Carlitos “trabalha sem alegria para um mundo caduco, onde as formas e as ações não encerram nenhum exemplo”, o que pode ser comprovado na decisão do presidente da empresa em aumentar, ainda mais, a velocidade das máquinas da seção 5: de 4-1 para 4-7. Mas será que podemos afirmar que Carlitos também “pratica laboriosamente os gestos universais”? Só até certo ponto: no filme “Tempos modernos”, até o momento da troca de turnos, que dura apenas alguns segundos, quando ele passa suas ferramentas para outro funcionário, se dirige ao banheiro, ali acende um cigarro, se senta no lavatório e é repreendido, na tela no interior de um espaço que deveria ser privado e íntimo, pelo seu patrão: “Pare de matar o tempo, volte ao trabalho!” Carlitos tenta convencê-lo de que estava ou precisava lavar as mãos, mas o patrão, intransigente: “Vá!” Sai do banheiro, bate o ponto e volta ao trabalho, talvez consciente de que se trabalhasse daquela forma, em breve poderia enlouquecer ou morrer, pois volta mais relapso, fazendo hora, olhando e lixando as unhas, ganhando tempo antes de pegar, novamente, suas ferramentas com as quais aperta parafusos, freneticamente. 

Corta para a sala do presidente: com a proposta de eliminar o “tempo morto” em sua empresa, ele recebe representantes de uma empresa que comercializa a Máquina Alimentadora Bellows, projetada para alimentar o trabalhador, de forma automática, rápida, eliminando a necessidade de uma pausa para o almoço e maximizando a produtividade: “Por que parar para almoçar?” – questiona a máquina em sua defesa. Eis um projeto que “prova a existência da Grande Máquina / e te repõe, pequenino, em face de indecifráveis palmeiras”, como sugere Drummond em “Elegia 1938”. Mas, para provar a eficácia da Máquina Alimentadora, era necessária a demonstração em um funcionário. 

A cena do teste da máquina de alimentação em Carlitos é clássica: aquilo que a princípio se mostra potencialmente lucrativo para o capitalista, ele o rejeita porque não é prática, pois a máquina, controlada por uma voz metálica, começa a funcionar de maneira errática: empurra espigas de milho contra o rosto de Carlitos em alta velocidade, derrama sopa quente em seu peito, coloca parafusos metálicos em sua boca. Ademais, o limpador de boca automático, divulgado como um toque de gentileza mecânica, passa a agredir repetidamente o rosto do personagem. Mas, em meio ao desespero de Carlitos, Chaplin nos faz rir. Como e por que Chaplin nos faz rir? 

Esta é uma questão discutida e respondida centenas, milhares de vezes em artigos, livros, documentários, e eu não vou me meter a discuti-la novamente. Mas “nos fazer rir” em meio à pobreza, à miséria, à tristeza, à exploração do trabalhador, às tantas intempéries da vida é uma das explicações da genialidade de Chaplin. Em sua época, Chaplin (e mais especificamente Carlitos) fazia os seus telespectadores rirem, porque eles – em sua maioria pobres e trabalhadores – se identificavam com tudo aquilo que era mostrado na tela. Hoje, telespectadores burgueses que somos ou pretendemos ser (às vezes sem nunca alcançar o intento), rimos porque sabemos que boa parte da população ainda assim vive, como Carlitos, mas em outras configurações, e nada podemos fazer ou fazemos. É meio que um riso cínico. 

 

Indicações: 

Tempos modernos (1936), filme de Charles Chaplin, disponível na plataforma de streaming Looke. 

The real Charlie Chaplin (2022), documentário da Prime Video (R$ 6,90 o aluguel). Trata-se de uma síntese dinâmica e recente da ascensão de Charlie Chaplin e dos principais acontecimentos de sua vida. Ótimo para quem não conhece o artista em profundidade. 

A última dança de Chaplin (2015), de Fabio Stassi. Trata-se de um romance que mistura ficção e realidade, alternando entre os últimos anos de vida de Chaplin com seus primeiros anos como artista, sobretudo depois de sua ida para os Estados Unidos. Durante seis anos, a Morte – em capa e osso – visita Chaplin para levá-lo, mas ele consegue um acordo com ela: se conseguir fazê-la rir, ganhará mais um ano de vida. 

O cinema de perto: prosa e poesia (2024), de Carlos Drummond de Andrade. Há uma seção dedicada a Chaplin e vários textos sobre os atores, atrizes, filmes do cinema mudo. Aqui conhecemos outra faceta de Drummond, um dos gênios da literatura brasileira: o de cinéfilo. Muitos textos aí publicados eram inéditos em livro até então. 

 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos (Textifique Soluções em Textos). Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. É pesquisador/admirador de Carlos Drummond de Andrade, Charles Chaplin e Campos de Carvalho. Mora em Uberlândia-MG.

1 de nov. de 2025

Dois filmes brasileiros para você (não) assistir, se for brasileiro

Por Sinvaldo Júnior 

Toda vez que assisto a um filme brasileiro ou leio um livro de autor nacional de que gosto, surge em mim uma revolta (in)explicável: por que a sociedade brasileira, com sua cultura e artes tão diversas, valoriza tão pouco sua própria produção? Que síndrome é essa que a faz consumir majoritariamente obras estrangeiras? São perguntas antigas e antiquadas - eu sei. 

Sim, e também sei que Ainda estou aqui fez uma baita sucesso e que Itamar Vieira Júnior é um best seller etc. e tal, mas esses casos, a meu ver, além de serem exceções, pouco contribuem para divulgar o cinema e a literatura brasileira em seu próprio país. Em suas entrevistas, quantos autores nacionais, famosos, antigos ou contemporâneos, o escritor Itamar Vieira Júnior ajuda a divulgar? Como formador de opinião, com certeza ele tem esse poder. Quantos escritores se tornaram conhecidos do público brasileiro na esteira do seu sucesso? Você já sabe a resposta, leitor. Nenhunzinho. Quanto ao cinema, saiba que entre os 20 filmes com maior bilheteria no Brasil em 2025, apenas um é brasileiro: Chico Bento e a Goiabeira Maraviósa. 

Sou pesquisador de literatura brasileira; vou ao cinema para assistir, prioritariamente, filmes brasileiros, muitos dos quais assisti na sala vazia… Também priorizo, em minhas playlists dos streamings, filmes nacionais. Desde criança, devo confessar, sou apaixonado por cinema brasileiro, e o motivo dessa paixão - creio - foi ter assistido ao filme Pixote, a lei do mais fraco (1981) num desses canais abertos, o único acesso à TV, na década de 1990, para uma família pobre. Desde então - e até o cinema brasileiro começar a copiar os modelos hollywoodianos - eu acompanhei quase tudo que surgia de filme feito por aqui, por nós. Hoje - confesso - seleciono muitíssimo bem os filmes a que assisto, uma porque o cinema brasileiro - para o bem e para o mal - se difundiu em modelos que pouco parecem ser feitos no Brasil, e outra porque vivemos uma vida frenética que nos impedem de termos o lazer que queríamos ter. Não vou entrar nessas questões… 

Nos últimos dois dias, assisti a dois filmes nacionais disponíveis na Netflix, mas muito diferentes entre si: A frente fria que a chuva traz (2015), do famoso-desconhecido Neville d’Almeida, diretor de A dama da lotação (1978), Matou a família e foi ao cinema (1991) e Navalha na carne (1997), entre outros; e Meu sangue ferve por você (2023), direção de Paulo Machline, sobre um recorte da vida de Sidney Magal, o popular cantor que dispensa apresentação (será?).

A história de A frente fria que a chuva traz (2015) pode parecer absurda e inverossímil para quem desconhece a realidade brasileira e, mais especificamente, a realidade da cidade do Rio de Janeiro[i]: um grupo de jovens ricos aluga uma laje na favela do Vidigal e, durante um dia inteiro, interage entre si e com o dono da laje, um favelado preto (Gru), e, à noite, organiza uma festa regada a muita bebida, drogas e insinuações sexuais. Suas conversas são, em geral, superficiais, carregadas de preconceito, eivadas de termos chulos. Qualquer semelhança com a realidade, aqui, traduz a realidade. 

No entanto, uma personagem se destaca: Amsterdã, interpretada pela belíssima Bruna Linzmeyer, é uma moça pobre que se prostitui às vezes para comprar suas drogas, e frequenta um meio do qual não faz parte - aquele dos jovens burgueses - justamente para conseguir bebidas e drogas na faixa. Mas nada - nesse meio de pessoas endinheiradas - é de graça. Alguém deveria tê-la avisado. 

No início do filme, todos os personagens parecem muito superficiais e a situação, idem. Mas, à medida que a história avança, eles vão se complexificando, até culminar nas falas finais, emitidas por Amsterdã, cheias de rancor e ódio de classe - mas da classe baixa para a classe alta, o que no Brasil é muito mais justificável, se levarmos em conta sua história elitista, classicista e escravista. O rico não tem motivo nenhum para odiar os pobres, mas odeia; o pobre tem mil motivos para odiar os ricos, mas admira - essa é a história de uma sociedade que não se reconhece, pois seus indivíduos sempre se consideram acima do que de fato são. 

A frente fria que a chuva traz foi um fracasso em seu circuito comercial, e não poderia ser diferente: primeiro, não é um filme comercial; segundo, mesmo se tratando de um filme alternativo, não se apresenta como tal desde o início, misturando estética popular e autoral, trilha sonora popularesca e popular-elitista, personagens rasos e complexos, uma sala mista que confunde seu possível público-alvo; terceiro, porque não é um filme bom (o que não quer dizer que é um filme ruim). Destacam-se, nele, a atuação de alguns atores e sua fotografia, que privilegia o belo no feio. Sim, a favela é feia e não venceu. Está mais perdida do que nunca, diria.

Meu sangue ferve por você (2023), por outro lado, é um filme que desde o início mostra a que veio: quer ser popular e o é. Começa com Sidney Magal, o protagonista, em seu camarim antes de entrar no palco para realizar um show em Salvador (BA), em 1979. Trata-se (e o recado é explícito no início) de uma “fábula magalesca e qualquer semelhança com a realidade é uma coincidência cósmica, obra do destino”. Ou seja, o aviso está dado: embora inspirado em uma história real (a história de amor do cantor famoso), não acredite em tudo que vê, porque muita coisa ali foi feita para encantar o telespectador, e não para ser fiel à realidade retratada. 

A direção de arte do filme é seu ponto alto: o figurino, a maquiagem, a cenografia, os elementos visuais em geral, contribuem para nos colocar naquele universo - da música popular do final dos anos 1970; da cidade de Salvador à época - e, em consequência, para nos colocar dentro da história do filme. O que pode parecer brega para a Geração Z e Y, como a forma como o cantor se vestia (roupas extravagantes, coloridas) ou se portava (gestos ensaiados, afeminados), parece a mim - alguém na casa dos 40 que nasceu no final da Geração Millennials e, portanto, não viveu essa época - extremamente avançado/moderno/corajoso para a época. Éramos menos conservadores? Éramos mais tolerantes? Aceitávamos mais as extravagâncias das pessoas (ou somente as dos artistas)? 

São questões que o filme não levanta, mas que me suscitou enquanto eu o assistia. Na verdade, é um filme de encontro, de amor. Trata-se da história de como Sidney Magal (hoje com 75 anos) conheceu sua atual esposa, Magali. Os personagens são interessantes, engraçados e, embora extravagantes alguns (a mãe de Magali, Graça, interpretada por Emanuelle Araújo; o primo de Magali, Renan, interpretado por Sidney Santiago; o empresário de Magal, Jean Pierre, interpretado por Caco Ciocler), não parecem forçados ou caricatos. Os diálogos são naturais e combinam - eu acho - com a forma como as pessoas falavam em Salvador nas décadas de 1970/1980, e isso se dá pelas ótimas atuações dos atores, em especial das atrizes. É um filme leve, romântico - um ótimo entretenimento de 1 hora e 37 minutos. 

Toda cinebiografia é um recorte. Ou seja, toda ficção, mesmo baseada em fatos reais, é mentirosa. Ok? Não vem ao caso saber o que é ou não é verdade no filme - isso não importa. Fazer um filme hoje, no Brasil, sobre uma história passada 45 anos atrás já é, em si, digno de nota: não é nada fácil - qualquer plano aberto pode colocar tudo a perder, pois mostrar mais prédios que de fato existiam em 1979, mesmo se tratando de uma cidade grande como Salvador, pode deixar o telespectador mais cricrítico de orelha em pé. Acontece às vezes? Acontece. Mas isso não compromete o filme. Como disse, produzir um filme histórico - e no interior de uma cinebiografia/comédia romântica - não é para qualquer um. 

Para agradar a uma sociedade moralista, como a atual, independente se à esquerda ou à direita, o diretor precisou fazer alguns ajustes, um dos quais foi colocar uma atriz mais velha (Giovana Cordeiro) do que seu par romântico masculino (Filipe Bragança), o que difere da realidade retratada (Magali tinha 16 anos; Sidney Magal, 29), porque é difícil explicar para uma geração moralista e preguiçosa, que não tem (nem quer ter) conhecimentos históricos/geracionais, que à época de nossos pais/avós/bisavós, as mulheres começavam a se relacionar ou se casavam bem mais novas e, em geral, com homens mais velhos. 

Mas vamos focar nos gêneros: Meu sangue ferve por você é, em essência, uma cinebiografia, mas é uma cinebiografia de um cantor, motivo que fez o diretor fazer dele também um musical. Além disso, é um filme romântico e uma comédia. Havia muitos motivos para ser melodramático, brega ou superficial. Podia não funcionar, mas funcionou: cumpriu com todos os propósitos dos gêneros. Caso se disponha, leitor-espectador, irá se entreter e se divertir ao assisti-lo. Diferentemente de A frente fria que a chuva traz (2015), que quis ser algo que não conseguiu, Meu sangue ferve por você (2023) quis ser apenas aquilo que conseguia ser: um bom filme. 

Voltemos às questões do início do texto: por que o telespectador brasileiro, mesmo com um cinema tão diverso que funciona para todos os gostos, prefere assistir a filmes majoritariamente estrangeiros? Sim, há uma explicação mercadológica que envolve marketing, muito marketing, e uma opção por modelos de histórias que fazem sucesso há anos, décadas, séculos. Mas muitos filmes brasileiros, sobretudo das últimas duas décadas, também obedecem a esses modelos, e mesmo assim não conseguem seu público. A explicação, a meu ver, simplista, dura, mas real, é: um complexo arraigado, profundo, de sempre achar - preconceituosamente, pois não dá a chance da dúvida - de que o estrangeiro é sempre melhor do que é brasileiro. Nem Freud explica. 

 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos (Textifique Soluções em Textos). Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. É pesquisador/admirador de Carlos Drummond de Andrade, Charles Chaplin e Campos de Carvalho. Mora em Uberlândia-MG.



[i] Não depois da chacina que matou 119 pessoas praticada pelo Estado no dia 28 de outubro. Um absurdo normalizado no meio de vários absurdos normalizados que ocorrem na cidade maravilhosíssima.

3 de out. de 2025

Argentina, 1985: 37 anos depois


 Por Cynthia Costa

A Argentina passou por uma dura ditadura entre 1976 e 1983. O julgamento dos mandantes de torturas e desaparecimentos de civis ao longo daqueles sete fatídicos anos é retratado no filme Argentina, 1985, do diretor portenho Santiago Mitre, estrelado pelo ator-chave do cinema argentino, Ricardo Darín.

Embora o longa, de quase duas horas e meia, não seja original do ponto de vista estrutural, já que segue à risca a cartilha dos bons dramas de tribunal estadunidenses, seu ritmo é dinâmico e os diálogos, cativantes. Nessa adaptação de fatos reais, Strassera (Darín) e Ocampo (Peter Lanzani) levam ao banco dos réus alguns dos responsáveis pelos abusos cometidos ao longo do governo civil-militar, dentre os quais o próprio ditador Jorge Rafael Videla. 

Nós, espectadores, acabamos envolvidos na luta dos promotores, mas sem nos sentirmos induzidos ao choro e à revolta, o que consiste em um trunfo do filme. Não apelar ao sentimentalismo é difícil em se tratando de uma narrativa sobre a ditadura argentina, que teve tudo de pior que se possa imaginar, com exceção da vitória na Copa de 1978 (um afago nacionalista em meio à crise econômica e à perseguição aos “subversivos”).

A experiência proposta por Mitre, baseada no roteiro de Mariano Llinás com colaboração de Martín Mauregui, consegue ser imersiva sem ser piegas graças ao tom sóbrio adotado pelas vítimas de crimes contra a humanidade em seus longos depoimentos no tribunal e à acidez exercitada por Strassera, promotor principal. Favorecem o clima do filme os toques de humor e a edição ligeira, o que o torna menos lúgubre do que poderia ser – já que a história carrega o peso dos possíveis 30 mil desaparecidos do último período ditatorial argentino, muitos deles lamentados pelas mães e avós da Praça de Maio. À moda do que fizeram Todos os homens do presidente (1976), de Alan J. Pakula, e Spotlight: segredos revelados (2015), de Tom McCarthy, Argentina, 1985 aborda um tópico delicado com seriedade e, ao mesmo tempo, entusiasmo.


Ano: 2022
País: Argentina
Direção: Santiago Mitre
Distribuição: Amazon Prime Video

A ambientação é um deleite à parte, com figurinos, cenários e tomadas aéreas nos transportando a Buenos Aires de 37 anos atrás. O uso de fotos da época e vídeos do julgamento real colaboram para a verossimilhança, o que há de garantir ao filme lugar cativo nas aulas de história contemporânea das escolas argentinas.

É claro que, como em toda tentativa de relatar a realidade, Argentina, 1985 não tem como cobrir todo um momento histórico complexo, nem tem como explicitar o que é verídico e o que foi adaptado/aproximado/inventado em benefício da narrativa. Não sabemos, por exemplo, se a mãe de Ocampo realmente frequentava a mesma igreja que Videla. Nem até que ponto foram as ameaças aos dois promotores durante sua cruzada.

De toda forma, como uma espécie de apelo à memória coletiva, o filme de Mitre fala aos brasileiros, que em 1985 também passavam por uma fase de transformação sociopolítica. Hoje, acabamos de testemunhar a conquista argentina no futebol com mais senso de irmandade do que se esperaria tempos atrás. Bom momento para mergulhar no cinema argentino, que tem muito a oferecer (não arrisco dizer se mais ou menos do que o futebol...).

Uma produção da Amazon, o filme pode ser visto no Prime Video brasileiro.


Cynthia Beatrice Costa é tradutora e professora do curso de Tradução da Universidade Federal de Uberlândia (UFU), com pesquisa na área de tradução literária e adaptação cinematográfica. Nascida em Osasco (SP), formou-se em Jornalismo pela Cásper Líbero e trabalhou por mais de uma década como repórter de revistas e editora de livros, enquanto foi se especializando ao longo das pós-graduações. Leitora voraz e cinéfila de carteirinha. Livro e filme preferidos: Dom Casmurro e Janela Indiscreta.

12 de ago. de 2025

As folhas se perdem – resenha do filme “Meu pai”

Por Gustavo Coelho 

 

Diretor: Florian Zeller

Roteiro: Florian Zeller e Christopher Hampton

Elenco: Anthony Hopkins, Olivia Colman, Olivia Williams, Mark Gatiss, Imogen Poots e Rufus Sewell

Lançamento: 2020 


Poucos filmes ousam ir além de contar uma história. "Meu Pai" (The Father), dirigido por Florian Zeller, é uma dessas raras e preciosas obras: nos faz sentir o filme na nossa própria pele. Mais do que um drama sobre a velhice e a doença, trata-se de um thriller psicológico que nos aprisiona no labirinto de uma mente que se desfaz, transformando a experiência passiva de assistir a um filme em um exercício visceral e inesquecível de empatia forçada.


Sinopse (sem spoilers)

 

A trama, em sua superfície, parece simples. Acompanhamos Anthony (Anthony Hopkins), um homem idoso, orgulhoso e teimoso que mora em Londres e rechaça todas as cuidadoras que sua filha, Anne (Olivia Colman), tenta contratar. A situação se agrava quando Anne lhe dá a notícia de que está de mudança para Paris, deixando Anthony diante do desamparo iminente.


O que torna o filme genial é como a história se desenrola. A narrativa abandona a linearidade e adota a perspectiva confusa e fragmentada de Anthony. Nós, como público, somos trancados dentro de sua mente. O seu apartamento, nosso único cenário, muda sutilmente de uma cena para outra; móveis mudam de lugar, rostos de pessoas se alteram, e conversas se repetem com variações perturbadoras, nos deixando tão desorientados quanto o protagonista. Tentamos desesperadamente montar o quebra-cabeça, apenas para descobrir que as peças não se encaixam, pois a realidade de Anthony não obedece mais às regras do tempo e do espaço.

 

Eu acho que estou perdendo minhas folhas.” – Anthony

 

 A importância de "Meu Pai" transcende o cinema. Ele serve como um espelho doloroso para uma realidade que milhões de famílias vivenciam diariamente. Em um mundo que envelhece, lidar com pais e avós que sofrem de demência é um cotidiano para muitos. O filme é uma ferramenta poderosa para a compreensão, pois ele inverte a perspectiva: em vez de focarmos apenas na dor e frustração do cuidador, somos forçados a entender a lógica por trás do comportamento do enfermo.

O filme nos mostra que a teimosia, a desconfiança e a agressividade de Anthony não são maldade, mas sim reações de medo e confusão de um homem que sente o chão desaparecer sob seus pés. Para qualquer um que já teve que cuidar de um parente nessa condição, a paciência e o amor de Anne, misturados à sua exaustão e tristeza, são um retrato fiel e comovente. O filme nos conecta com o medo universal de perdermos nossas faculdades mentais, nossa identidade e, por fim, nos tornarmos um fardo para aqueles que amamos.

A profundidade do filme não é consequência apenas de seu tema, mas também de sua execução impecável, que desperta fortes sentimentos no espectador por três motivos principais:

 

1.     A cinematografia subjetiva: A genialidade de Zeller foi usar a própria linguagem do cinema (edição, design de produção, roteiro) para simular a demência. Não estamos vendo um filme sobre um homem confuso; nós estamos confusos com ele. O apartamento que se transforma sutilmente é o nosso labirinto. As trocas de atores para o mesmo papel nos fazem duvidar de nossa própria percepção. Essa armadilha narrativa nos impede de ser observadores passivos e nos tornamos participantes da angústia de Anthony.

 

2.     A performance monumental de Anthony Hopkins: O ator entrega o que é, talvez, a maior atuação de sua carreira. Ele não interpreta um doente, mas um homem completo em processo de desintegração. Em um piscar de olhos, ele transita do charme intimidador à raiva infantil, da lucidez cortante ao pânico aterrorizado. Vemos lampejos do homem brilhante que ele foi, o que torna a sua decadência ainda mais trágica.

 

3.     O desmonte da identidade: O filme desconstrói metodicamente tudo o que define uma pessoa: seu lar, suas memórias, seus relacionamentos e sua noção de tempo. A cena final em que Anthony, reduzido a uma vulnerabilidade infantil, chora nos braços de uma enfermeira chamando pela mãe, é o ápice dessa demolição. É a representação crua da perda do "eu". 

"Meu Pai" é uma obra-prima sobre a fragilidade da mente humana. A frase final de Anthony, "Sinto que estou perdendo todas as minhas folhas", é uma das metáforas mais belas e dolorosas do cinema para a perda da memória e da identidade. As memórias são as folhas que compõem a árvore de quem somos; sem elas, resta apenas o tronco nu, exposto e vulnerável.

O filme é uma experiência difícil, por vezes claustrofóbica, mas essencial. Ele nos força a confrontar o envelhecimento e a doença não como problemas distantes, mas como uma condição humana fundamental. Acima de tudo, é um chamado à compaixão, um lembrete de que, por trás de um olhar perdido e de uma mente confusa, ainda existe uma pessoa inteira, com uma história rica, mesmo que ela mesma não consiga mais acessá-la.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.

8 de ago. de 2025

E se não pudermos ver o que elas veem?

 

"Estátuas sobre Túmulos" é um curta-metragem de ficção do gênero drama, com aproximadamente 14 minutos de duração. Inspirado na pandemia de Covid-19 – um momento crucial para a humanidade –, o filme não se propõe a exibir as imagens repetidamente mostradas durante aquele período, mas tratá-la sob um ponto de vista original: em cima dos seus túmulos, uma do lado da outra, duas estátuas de cemitério veem e comentam, perplexas, o resultado de toda tragédia: a morte. O telespectador, assim, relembra e/ou imagina os eventos a partir da perspectiva das estátuas que, através do diálogo que travam durante cinco dias seguidos, narram tudo em detalhe. 

Após um século, as duas estátuas notam o crescente movimento no cemitério e iniciam uma conversa. Antes, os enterros eram esporádicos; agora, a cada dia, deparam-se com múltiplos sepultamentos, alguns à noite, sob a luz do luar e de lanternas. Estaria o mundo em guerra? Mas onde o barulho das bombas? Estariam os mortos deformados? Por que caixões plastificados? São muitas as questões que elas, como observadoras atentas de cada detalhe, tentam responder. 

“Estátuas sobre túmulos”, um curta-metragem de ficção inspirado em um momento crucial para a humanidade, é uma visão crítica e crua sobre a vida humana e a humanidade. A arte, entre outras funções, serve para nos impedir de esquecer o que não pode ser esquecido: a naturalização da barbárie e a importância da vida. Um novo dia, nesse mundo, vale mesmo a pena?


Equipe 

Rogers Silva [roteiro, direção e produção executiva]

Iara Helena Magalhães [direção de arte e assistente de direção]

Thaneressa Lima [montagem]

Lucas Mendonça Cecchino [direção de fotografia]

Cassio Ribeiro Silva [direção de som]

Rubia Bernasci [direção de elenco]

Vitor Fernandes [Estátua-homem]

Anna Júlia EJ [Estátua-mulher]


Saiba onde assisti-lo.

17 de mai. de 2023

10 dicas de 'true crime'

 Por Cynthia Beatrice Costa

Fãs das narrativas de crimes reais têm hoje uma imensidão de fontes envolventes. Aqui estão algumas das melhores.

De onde vem essa paixonite mórbida por ver/ouvir histórias de crimes reais? Já não chegam os noticiários violentos de todos os dias?

Um estudo de 2010 realizado na Universidade de Illinois por Amanda M. Vicary e R. Chris Fraley apontou algumas possíveis respostas para essas perguntas. Assassinatos sempre fizeram parte da trajetória humana, e o fascínio que provocam também. Mulheres tendem a se interessar mais por crimes reais porque se veem mais facilmente como vítimas (embora sejam homens, segundo estatísticas, as vítimas mais frequentes). A mídia, é claro, também desempenha um papel relevante, pois reporta com afinco crimes inusitados e chocantes.

Segundo psicólogos, o gosto pelas narrativas sanguinárias ou misteriosas ainda está relacionado à nossa sede por clareza moral. É reconfortante saber quem é a vítima e nutrir compaixão por ela. Ou, o que (convenhamos) é um tanto sádico, consolar-se com o fato de que, ao contrário da vítima, você nunca se encontraria em tal situação.

Em última análise, o prazer despertado por essas histórias não difere muito daquele que sentimos diante de narrativas como um todo. Somos humanos, gostamos de contar e compartilhar causos. Sendo assim, se você é um(a) legítimo(a) true crime lover, pegue leve consigo. E aproveite as dicas.

1) Documentário: Pacto brutal: o assassinato de Daniella Perez (HBO Max)

Há três décadas, o crime parou o país: uma nova estrela em ascensão, filha da autora da novela em que atuava, foi morta por um colega de elenco. Rica em entrevistas e imagens, a produção da HBO mergulha no passado e costura detalhes da atrocidade. Não busca neutralidade, adotando claramente o ponto de vista da família e dos amigos da vítima.

2) Livro: Columbine (Editora Darkside)

O jornalista Dave Cullen analisa minuciosamente o massacre escolar de Columbine, que aconteceu no Colorado em 1999 e nunca mais saiu do imaginário coletivo.


3) Documentário: Cenas de um homicídio: uma família vizinha (Netflix)

O massacre das mulheres (mãe e duas filhas pequenas) da família Watts causou e causa comoção mundo afora desde sua ocorrência, em 2018. Há quem faça análises profundas da mente do assassino, há quem culpe as vítimas, há quem procure razões. O documentário de Jenny Popplewell, de 2020, beneficia-se do fato de a família ter filmado e postado praticamente todo seu dia a dia em redes sociais.

4) Podcast: Interrompida: o caso Araceli (Spotify, Apple)

Este é o trabalho de conclusão do curso de jornalismo de Viviane Maciel, que cobre o terrível assassinato da menina Araceli Cabrera Sánchez Crespo em quatro episódios. O crime ocorrido em Vitória em 1973 nunca foi de fato resolvido, ainda que muitos acreditem saber quem são os culpados e por que eles foram protegidos pela polícia e pela Justiça.

5) Podcast: A mulher da casa abandonada (Spotify, Apple, Deezer)

Este ficou célebre até demais. Na série produzida pela Folha de S.Paulo, o apresentador Chico Felitti investiga o passado de Margarida Bonetti, procurada pelo FBI e moradora de um casarão em Higienópolis, em São Paulo, que virou ponto de encontro de curiosos após o sucesso do podcast.

6) Documentário, podcast e livro: O caso Evandro (Globoplay e Apple)

Em meio a uma onda de crianças desaparecidas no Paraná, o menino Evandro sumiu em Guaratuba, no litoral daquele estado, em 1992. Tanto o podcast e o livro de Ivan Mizanzuk quanto o documentário dirigido por Michel Chevrand e Aly Muritiba enumeram erros graves e até crimes ocorridos na investigação do desaparecimento – atribuído a um ritual satânico.

7) Postagens curtas: Aline Valentin (TikTok e Instagram)

Ser um bom contador de histórias é primordial para quem quer se estabelecer no ambiente do true crime. Aline Valentin, que também se dedica ao sobrenatural e se descreve como “apaixonada por coisas bizarras/de terror”, foi agraciada com essa habilidade. Destaque para a sua cobertura da recente chacina do DF.

8) Podcast: Praia dos Ossos (Spotify)

Com foco no machismo e nos erros que atravessaram o julgamento, a cuidadosa produção da Rádio Novelo retoma o assassinato da socialite Ângela Diniz pelo então namorado Doca Street, ocorrido em Búzios em 1976.

9) Podcast: Café, crime e chocolate (Spotify, Apple, Orelo, Google e Amazon)

Narrada por Tatiana Daignault, brasileira que mora nos Estados Unidos, a série já tem mais de uma centena de episódios. O ponto forte é que Tatiana, com acesso a conteúdo em inglês, parece se esmerar na pesquisa de cada crime e os relata de forma organizada, levantando hipóteses e listando teorias.



10) Livro: A sangue frio, de Truman Capote (Editora Companhia das Letras)

Para fechar, o clássico sobre o extermínio da família Clutter, ocorrido no Kansas em 1959. Com foco nos assassinos, Richard Hickock e Perry Smith, o “romance de não ficção” (como foi divulgado) de 1966 elevou Capote à fama e ainda é considerado um feito em matéria de jornalismo literário. Hoje a pretensa objetividade de Capote é largamente questionada, mas isso não fere a proeza do livro como história muito bem contada.

 

Bônus para quem sabe inglês

Livro: The Billionaire Murders: The Mysterious Deaths of Barry and Honey Sherman (Editora Viking)

O bizarro assassinato do casal Sherman no Canadá possui uma lista de suspeitos de dar inveja a Agatha Christie. Da polícia à família, passando por um sem-número de inimigos dos bilionários, todos parecem ter envolvimento. O autor Kevin Donovan empreendeu uma investigação independente e detalhada do crime.

Podcast: Avery After Dark (TikTok, Spotify, Apple)

Avery Ross, a apresentadora, é uma atriz estadunidense com um gosto especial por histórias de mistério, inclusive envolvendo o sobrenatural. Carismática, ela não só tem talento para narrativas, como também uma voz cadenciada e calmante. 


Cynthia Beatrice Costa é tradutora e professora do curso de Tradução da Universidade Federal de Uberlândia, com pesquisa na área de tradução literária e adaptação cinematográfica. Nascida em Osasco (SP), formou-se em Jornalismo pela Cásper Líbero e trabalhou por mais de uma década como repórter de revistas e editora de livros, enquanto foi se especializando ao longo das pós-graduações. Sempre foi leitora voraz e cinéfila de carteirinha. Livro preferido: Dom Casmurro. Filme preferido: Janela Indiscreta.

23 de abr. de 2023

‘O exorcista’ faz 50 anos


Por Cynthia Beatrice Costa

Com suas alusões à sexualidade feminina, à crise da fé e à desigualdade social, o clássico do terror vai bem além dos sustos corriqueiros 

Há meio século, o público arrepiou-se pela primeira vez diante das estrepolias demoníacas de Regan, a garotinha possuída do filme O exorcista (1973), de William Friedkin. Até aquele momento, o cinema nunca vira nada igual. Hoje, o filme continua excelente — extremamente bem construído e interpretado. Como são raros os terrores com tamanha astúcia e profundidade, merece atenção renovada.

O exorcista é uma adaptação do livro homônimo de 1971 de William Peter Blatty, que também escreveu o roteiro para o filme e o produziu. E, como tal, ocupa posição privilegiada entre os casos em que críticos concordam em peso que a versão cinematográfica supera a literária. (Quem gosta do filme, porém, deve ler o livro, que contém detalhes sobre as trajetórias de várias personagens.) A música de abertura de Mike Oldfield e a fotografia de Owen Roizman certamente colaboram para o feito.

Em sua estreia, o longa-metragem de Friedkin causou comoção. Espectadores sensíveis saíram intempestivamente das salas de cinema. Anos mais tarde, a fita VHS teve sua venda proibida no Reino Unido por uma década (de 1988 a 1998). É difícil imaginar tamanho furor, pois os efeitos mecânicos e a própria fama de certas cenas impedem que o público atual se choque tanto. Porém, a falta de sustos ou mesmo de medo não prejudica a experiência. É interessante ver e rever O exorcista por outros motivos.  

O primeiro deles é a interpretação magistral de Ellen Burstyn, que confere fidedignidade e elegância à sua personagem, a atriz Chris MacNeil, mãe de Regan (papel imortalizado por Linda Blair). Sua tentativa de ajudar a filha em surto serve de fio condutor à primeira metade da narrativa. Acompanhamos, passo a passo, sua queda em completo desespero materno. A questão da maternidade em filmes de terror — já comentada antes nesta coluna — tem em O exorcista um de seus pilares: a filha pré-adolescente que a mãe, abismada diante da rápida transformação, já não reconhece. Mães assustadas com a própria prole são abundantes nas histórias de dar medo; é como o reverso da medalha dos comerciais de margarina. A materialização do pavor real de dar à luz um ser estranho, sobre o qual não se tem controle.

Temos na dinâmica familiar uma das vias frutíferas de reflexão provocada por O exorcista. O pai de Regan, de quem a mãe procura não falar mal diante da filha, é ausente. A menina de 12 anos também vive boa parte do tempo longe da mãe, pois esta é uma estrela de cinema ocupada e badalada. Em um momento de solidão, ela inicia uma conversa com um certo Capitão Howdy por intermédio de um tabuleiro ouija. Está aí o fato desencadeador da possessão, ou, podemos inferir, do espaço dado a predadores na vida de crianças solitárias. Quando Regan relata a nova amizade à sua mãe, já é tarde. Os sintomas de sua terrível transformação começam a aparecer.

As demonstrações ousadas de Regan não deixam dúvida quanto à perda – ainda que temporária – de sua inocência infantil. Ela cospe obscenidades e se masturba com um crucifixo. Como uma menina outrora doce promove, de uma hora para outra, tal espetáculo? A sexualidade feminina está aflorada e descontrolada, para o horror das testemunhas.

A princípio, parece às outras personagens que Regan está passando por uma espécie de puberdade hard-core. Mas, em um crescendo bem calculado, o filme vai nos induzindo de maneira lógica e até científica a descartar a possibilidade de histeria juvenil. Regan é examinada por juntas médicas, passa por exames dolorosos, e nada. Nada que explique seu comportamento errático, os palavrões que agora fala, os gestos sexuais, o ódio que se exterioriza com frequência cada vez maior. Não se trata de uma crise de pré-adolescência, garantem-nos os especialistas, nem dos primeiros sinais de psicose. A eliminação de explicações “pé no chão” é operada de tal forma que mesmo o espectador mais cético aceita a alternativa restante: Regan está possuída e precisa ser exorcizada.

A figura do exorcista só se materializa na vida da menina uma hora após o início do filme. Nem por isso deixa de ser a peça-chave. A garotinha é apenas o veículo para o embate entre o exorcista e o demônio, que são velhos conhecidos. Quem vem exorcizar Regan é o experiente Padre Merrin (interpretado pelo magnífico Max von Sydow, que jogara xadrez com a Morte em ‘O sétimo selo’). O demônio quer vê-lo de novo, e ele sabe disso.

Para o demônio, é também a oportunidade para testar a sanidade de outro padre, o psiquiatra Damien Karras, que enfrenta uma crise de fé e a princípio hesita quanto à possessão de Regan. Ele ajuda Merrin no exorcismo. Não demora para que o demônio demonstre intimidade para com ele, e a batalha passa a ser pessoal.

Karras carrega a culpa de não ter cuidado o suficiente de sua mãe, uma imigrante grega pobre. Um prato cheio para o demônio. Este é outro ponto em que O exorcista vai bem além de dar sustos: escancara demônios humanos metafóricos – pobreza, culpa, solidão, medo – na forma de um demônio literal. Karras não gostaria de se lembrar da feiura, do isolamento, da precariedade da situação de sua mãe (e de tantos outros como ela), mas o demônio o obriga a isso. Como lembra D. Simmons em seu estudo sobre o terror nos anos 1970 e 80, O exorcista explora a desigualdade social em sua implicação para o bem-estar espiritual da sociedade. A fama e a riqueza de sua mãe não garantem segurança a Regan; ao mesmo tempo, o abandono da mãe pobre sufoca Karras. Logo no início, um morador do metrô pede dinheiro ao padre, afirmando ser católico. Karras ignora. O desalinho nas relações permite a instalação do Mal.

Assim, a um só tempo, O exorcista funciona como história de possessão demoníaca e de descoberta da sexualidade feminina, de ausência paterna, de fé e falta de fé, de vocação, de compaixão. Da maternidade da mulher bem-sucedida profissionalmente à diferença entre pobres e ricos na sociedade contemporânea. O demônio obsessor, no fim das contas, é o que menos assusta.

O exorcismo continua a ser um motif importante no cinema de terror — agora mesmo há um “filhote” em cartaz, O exorcista do papa — mas é seguro dizer que ninguém mais o fez como Friedkin. É instigante retornar ao filme de 1973 e prestar atenção às diferentes camadas, refletindo sobre um terror que espera inteligência do espectador.

Parabéns a O exorcista pelas cinco décadas de lugar cativo em nosso imaginário.

O filme está em cartaz no Prime Video e pode ser alugado em diversas plataformas.

 

Cynthia Beatrice Costa é tradutora e professora do curso de Tradução da Universidade Federal de Uberlândia, com pesquisa na área de tradução literária e adaptação cinematográfica. Nascida em Osasco (SP), formou-se em Jornalismo pela Cásper Líbero e trabalhou por mais de uma década como repórter de revistas e editora de livros, enquanto foi se especializando ao longo das pós-graduações. Sempre foi leitora voraz e cinéfila de carteirinha. Livro preferido: Dom Casmurro. Filme preferido: Janela Indiscreta.