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6 de jan. de 2026

Cinco livros metaficcionais que você precisa ler!

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior 


Você sabe o que é metaficção? 

Trata-se de uma técnica narrativa, ou escolha estilística, em que uma obra de ficção se torna autoconsciente – mas como assim? –, chamando a atenção para sua própria natureza de artefato fictício (é bom sublinhar essa expressão), questionando a relação entre realidade e ficção. 

A obra, assim, revela seus próprios mecanismos de construção, tanto em personagens que sabem que estão em uma história (Paul Auster faz muito isso!) quanto em autores que escrevem sobre o processo de escrita e o explica (vide Machado de Assis). 

A metaficção não é recente! 

Embora bastante explorado na pós-modernidade, esse recurso é muito antigo! No século XVII, El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha (Dom Quixote), por exemplo, além de ser considerado como o primeiro romance moderno, também é um dos primeiros que se utiliza da técnica metaficcional, sendo considerado extremamente inovador para a época.

Machado de Assis, no século XIX, explorou bastante os recursos dessa técnica narrativa. Mas, sobretudo no século XX, a metaficção alcançou níveis nunca antes alcançados (adoramos esses termos!) com o espanhol Unamuno, o italiano Pirandello e o argentino Borges, entre outros. Jorge Luis Borges e Luigi Pirandello são mestres em questionar as fronteiras entre realidade, autoria e ficção. Enquanto o escritor argentino utiliza a metaficção para explorar labirintos intelectuais e filosóficos, o italiano a utiliza para desmascarar a identidade humana e os mecanismos do teatro. 

Metaficção é o mesmo que autoficção? 

Nãããão. Na nossa visão, obras metaficcionais são mais inventivas, mais criativas e confundem – de verdade – ficção e realidade, colocando às vezes os autores como personagens em situações absurdas e fantásticas. É uma brincadeira literária. A autoficção está mais para um recurso de autobiografia declaradamente ficcional, já que toda obra, seja ela biográfica ou autobiográfica, também tem sua parcela de "ficção", visto que trata-se de verosimilhança que passa pelo crivo subjetivo do autor/a (mas isso é assunto para outra hora).

Vamos à lista e já avisamos (contém spoilers!)

1 - Névoa – Miguel de Unamuno 

Já no início da obra, há um prefácio escrito por um homem que, depois, descobrimos ser um dos seus personagens. Após o prefácio, o autor (Unamuno) responde ao seu personagem com um pós-prefácio. Louco, né? 

Nesta "nivola" (termo criado pelo autor), no meio da história o protagonista Augusto Pérez descobre que é um personagem de ficção. Ele decide confrontar seu criador, o próprio Unamuno, em seu escritório em Salamanca, para discutir seu destino e o fato de não querer morrer. 

A obra quebra a barreira entre autor e personagem, questionando quem tem mais “realidade” (o criador mortal ou a criatura literária eterna?) e evidencia a dicotomia confusa entre o mundo real e o mundo ficcional.


 

Borges não escrevia romances, mas seus contos (em coletâneas como Ficções e O Aleph) são exemplos puros de metaficção no século XX. Em algumas narrativas, inclusive, Borges é o próprio narrador e personagem, confundindo as diferenças entre personagem/narrador/autor.

 

  • “Pierre Menard, autor do Quixote”: Trata-se de um falso ensaio literário que narra a história de um homem que decide reescrever o Dom Quixote de Cervantes, palavra por palavra. Borges discute como o significado de um texto muda dependendo do contexto e de quem o lê, transformando o ato de ler em um ato de criação. Aqui também há a intertextualidade com a própria metaficção contida em Dom Quixote.
  • “O jardim dos caminhos que se bifurcam”: O conto é um livro-labirinto onde todas as possibilidades de uma história acontecem simultaneamente. É uma ficção que comenta sobre a estrutura de todas as ficções e sobre o tempo como um livro infinito. 
  • “As ruínas circulares”: Um homem sonha com outro homem até torná-lo real, apenas para descobrir, no final, que ele próprio é um sonho de outra pessoa. É uma metáfora para o autor que cria personagens, mas que também é “criado” pela tradição literária.

Borges, ao refletir sobre a natureza da ficção, convida o leitor a refletir sobre a própria natureza da realidade. Também explora, por meio dessa técnica/escolha, a condição humana em vários aspectos, sobretudo em questões relacionadas à passagem do tempo, de uma forma extremamente inovadora. E por falar em inovador...


3 - Seis personagens à procura de um autor – Luigi Pirandello 

Pirandello é aquele cara que revolucionou o drama moderno ao romper a ilusão do palco, criando o que chamam de metateatro. 

Essa obra é o exemplo máximo de metaficção no teatro. É uma brincadeira. É uma loucura. E é muito divertido! No meio de um ensaio de uma peça de Pirandello, seis pessoas entram no palco alegando ser personagens inacabados de uma história nunca escrita. Eles exigem que os atores reais encenem a tragédia deles. 

A obra discute a si mesma, expondo suas características e funcionamento; os personagens sabem que fazem parte de uma história e interagem diretamente com o público, lembrando-o da artificialidade da obra e “quebrando a quarta parede” (expressão da moda usada para qualquer coisa nesse sentido).


 

Publicado em 1979, é uma das obras mais emblemáticas das últimas décadas: é um labirinto sobre a arte de ler e escrever, funcionando como uma reflexão profunda sobre a natureza da literatura. 

Se um viajante numa noite de inverno coloca o leitor real no papel de personagem, dissolvendo a fronteira entre o mundo real e o ficcional. Ademais, o livro discute abertamente os mecanismos da narrativa, as expectativas de quem lê e as frustrações de quem escreve. Através do personagem Silas Flannery (um autor em crise), Calvino questiona se o autor é realmente o “dono” da obra ou apenas um canal para tradições literárias.


5 - Ensaios sobre a total libertação – Rogers Silva 

Longe de nós querer comparar Borges, Unamuno, Calvino e Pirandello com nosso amigo Rogers! Mas, para destoar dessa lista de clássicos dos clássicos, escolhemos colocar um livro recém publicado e que encaixa perfeitamente no conceito de metaficção. Duvida? 

O primeiro conto do livro, “Drummond no Orkut”, começa com o personagem João se sentando em um banco de uma praça e se esbarrando no livro Manicômio, justamente a primeira obra do autor, Rogers Silva. A partir daí, o conto mistura narrativa e ensaio, metaficção e mistério, crítica social e redenção. 

No conto “A máquina-führer”, por exemplo, uma máquina, criada por um alemão a mando de Hitler na década de 1930, permite aos dois protagonistas (o Curioso-menor e o Curioso-Maior) irem a qualquer tempo, espaço ou mente humana. O que parece uma aventura despretensiosa possui, na verdade, outro propósito: não deixar que o autor Rogers Silva seja culpado pela Segunda Guerra Mundial. Os personagens precisam correr contra o tempo, porque se essa tragédia ocorrer (não a Guerra, mas o autor ser o culpado por ela), ele se suicidará aos trinta anos. 

Há mais dois contos longos: “Ensaio sobre a libertação total” e “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”, em que o autor, Rogers Silva, é também o protagonista da história. Esta última é uma história de stalker: um fã começa a seguir o autor em todos os seus passos: o que a princípio parece uma brincadeira, transforma-se numa história de suspense e terror.


 

Gostou das indicações?

E você, leitor, quais obras metaficcionais leu e gostou? 

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.

26 de jul. de 2025

O beijo, amigo, é a véspera do escarro

 Por Leonardo Cardoso


Leonardo Cardoso é graduado em Educação Artística/Artes Plásticas pela Universidade Federal de Uberlândia e pós-graduado em MBA Gestão de Marketing pela faculdade ESAMC. É professor de Arte na rede municipal de ensino e produz artes que são constantemente publicadas em suas redes sociais.

6 de jul. de 2025

Que ventre produziu tão feio parto?!

 Por Leonardo Cardoso



Leonardo Cardoso é graduado em Educação Artística/Artes Plásticas pela Universidade Federal de Uberlândia e pós-graduado em MBA Gestão de Marketing pela faculdade ESAMC. É professor de Arte na rede municipal de ensino e produz artes que são constantemente publicadas em suas redes sociais.

22 de mai. de 2023

‘Necrológio’, de Victor Giudice: narrativas experimentais e novas estruturas para um país hipócrita e atrasado

 

Por Sinvaldo Júnior 

Necrológio, de Victor Giudice, é uma coletânea de contos que desafia as convenções literárias: com uma linguagem experimental e imagens impactantes, o autor explora temas como a alienação e a exploração humanas, a morte, a violência e a crueldade humana, sem poupar detalhes e, ao mesmo tempo, sem cair na trivialidade. 

A obra, em sua primeira edição (1972), começa inovando já na capa, onde inicia o primeiro conto, “O arquivo”, que continua nas primeiras folhas (folha de guarda e folha de rosto), sem paginação, até o título da obra. Só então – após esse primeiro conto curto – o livro, como tradicionalmente o conhecemos, aparece: folha de rosto, ficha técnica, dedicatória, epígrafe e índice. Por ser tão incomum, contraditoriamente, esse detalhe pode passar despercebido para alguns leitores. 

Os treze contos que compõem o livro são narrativas experimentais que exploram novos ritmos, vocabulários e estruturas. Victor Giudice brinca com a linguagem, justapondo vocábulos, sons e sinais gráficos, criando efeitos surpreendentes e poéticos. Suas histórias, repletas de humor ácido e sarcasmo, revelam as hipocrisias e as taras da gente culta e as humilhações pelas quais passa a ralé brasileira. Necrológio exige certa coragem e disposição do leitor (sobretudo do de hoje, tão sensível...), já que trata de assuntos espinhosos de maneiras bastante incomuns. Cada conto é uma experiência única, acredite. 

Em “O arquivo”, conto mais conhecido da coletânea e do autor, o protagonista é minúsculo (joão) e se mostra sempre passivo (satisfeito?, cegamente alienado?) com as reduções de salário pelas quais passa durante toda sua vida, resultado de uma dedicação exemplar como empregado (“Afinal, esforçara-se. Não tivera uma só falta ou atraso”). As constantes promoções de joão são, na verdade, despromoções (e o narrador observador evidencia esse fato através de uma carga irônica que não passa despercebida), até resultar em sua maior promoção: o direito de joão pagar para trabalhar! 

O espaço é outro elemento importante na construção da narrativa: a história se passa, maiormente, no escritório onde joão trabalha; no entanto, à medida que é “promovido”, ele vai se mudando para lugares mais distantes, até “não ter mais problemas de moradia”, pois passa a viver nos campos. joão não perde apenas seu salário, mas perde também sua dignidade, sua individualidade, sua personalidade, sua humanidade. “O arquivo” é um conto curto e potentíssimo. 

Em época de Reforma Trabalhista, sancionada em julho de 2017, e seus efeitos mais diretos (menos descanso diário, menor poder de negociação com o patrão, perda de direitos, aumento da jornada de trabalho, menores salários, etc.), a vida de joão é a vida de vários joãos espalhados pelo Brasil, ora sentados em suas motos ou em frente aos computadores em suas casas, ora sem almoçar, ora se arriscando em altas velocidades por uma empresa que não o emprega, porque ele é seu “próprio patrão”. O resultado da coisificação constante de joão é sua transformação em um objeto irrelevante: um arquivo de metal. A crítica subjacente à história de “O arquivo” é óbvia: à exploração e à alienação do trabalhador no sistema capitalista, mas feita de tal forma que toda obviedade desaparece no enredo de uma linguagem saturada de significações. 

Tudo em Necrológio é fantasticamente estranho (ou estranhamente fantástico) e, ao mesmo tempo, direto: “O único acontecimento importante na vida de Bebé foi o assassinato de Tia Sinepryza: ele o cometeu” – aqui, no início do conto “Sinephryza”, temos algumas informações cruciais para o enredo: o nome dos dois protagonistas e o fato central. Depois, o leitor se envereda pela imaginação transbordante e pelo colorido verbal do autor, que se utiliza da caricatura, do fantástico e da metamorfose para criticar uma sociedade em crise, marcada pela ditadura militar (à época), pela alienação (desde sempre no Brasil?) e pela morte (o fim – antecipado – de todo ser brasileiro). 

Não que Victor Giudice fale, explicitamente, do Brasil em Necrológio. “Oz gueijos”, por exemplo, narra a reunião de um grupo de amigos que se deliciam com queijos franceses enquanto conversam sobre assuntos variados, como arte, filosofia, política e cirurgia plástica. O conto é uma sátira à alienação e à futilidade da elite cultural, que se mostra incapaz de perceber a realidade do país e de si mesma. O autor utiliza recursos linguísticos como a repetição (“Ele, assim ele. Ela, fosse ela, vida em voltas envoltas...”) e a junção de palavras (“Marginalimagda”, “amiguinimigas”, “maridificando”, “sóporquês, etc.”), entre outros, para criar um efeito cômico e crítico. O título do conto é uma deformação da expressão “os queijos”, que remete ao sotaque francês e à pretensão dos personagens, que não possuem nome próprio (Homem Gordo, Mulher de Branco, Homossexual, Dama Obesa, Pintora Baiana, Moça Magra), justamente a fim de acentuar a sua superficialidade. 

“In perpetuum” é outro conto da obra que dialoga, tematicamente, com “O arquivo”: Debi Mediocriz, o protagonista, vive uma vida automática, indo da casa para o trabalho, do trabalho para a casa, com poucas alterações, perpetuamente, como antecipam o título e o início da história:


“          passar outra noite: tranquilamente.
É sempre assim?
Sempre.
A campainha nunca chega a tocar?
Nunca. 
Porque antes das seis, Debi Mediocriz, desdorme o maldormido, desliga o despertador e se repete na cama, respirando funduras.” 

As repetições (“...um gosto de véspera na boca. Da boca ao jornal da véspera. Da cama à cadeira da véspera, apanhando a roupa da véspera, indo ao banheiro da véspera, urinando a urina da véspera, lavando o rosto da véspera, escovando os dentes da véspera, penteando os cabelos da véspera, voltando ao quarto da véspera, guardando o pijama.”), os neologismos (“vespera-se”, “atelogos”, “acenantes”, “passantes”, etc.), mais alguns recursos não tradicionais à narrativa (como espaços maiores em início de parágrafos; frases sem ponto final e frases sem final; frases entre parênteses para reforçar uma ironia), juntos, contribuem para a construção da história que está sendo contada: a de um ser humano que, de tanto repetir as mesmas ações (“É sempre assim? Sempre.”), parece mais um zumbi. 

Debi (não sabemos se é homem ou mulher, o que não importa), além de dormir e trabalhar, compra (pendura) uma xícara de café com leite e um pão com manteiga, um maço de cigarros e uma caixa de fósforos para, fumando o primeiro cigarro do dia, ir esperar o ônibus no qual irá em pé, mãos no balaústre, espiando a revista do passageiro sentado: 

“Mas só saltou dois anos depois. No centro da cidade, andando cinco minutos num passo calmo até chegar ao banco: um edifício cinzento com portas de ouro.” 

E assim, nesse automatismo (assinar o ponto, guardar o blusão azul no armário, vestir uma camisa amarelada, acenar para os colegas, sentar-se no trabalho, tirar da gaveta um monte de fichas brancas), Debi vive, tentando achar a diferença de uma conta que nunca fecha (“Logo que passaram cinco anos, Debi Mediocriz interrompeu a conferência e se dirigiu ao chefe: __ Ainda nada. Podemos almoçar?”). É o exagero e o fantástico aqui, novamente, utilizados como recursos para criticar uma vida sem sentido, a vida das cidades grandes, a vida sufocada em um sistema de produção e consumo que consome toda nossa energia, no decorrer dos anos, e tudo que um dia eram sonhos e desejos. O único momento de beleza na vida de Debi ocorre quando “Num instante, o jornal caiu no chão, pois alguém assobiava uma canção desconhecida” – depois, continua a desdormir o maldormido e a desligar o despertador, in perpetuum. 

“Curriculum mortis” é um conto curto sobre os pensamentos e as frustrações de Gafilhão de Saburgo III. Apesar do nome pomposo, Gafilhão é um cidadão urbano, morador do Rio de Janeiro, preocupado com a dívida que possui com Anacleto Meglianti, agiota e amante de sua esposa, Paupéria. A história alterna entre seus pensamentos e vontades (de matá-los, por exemplo), apresentados entre parênteses e em minúsculas, e as ações, apresentadas de forma convencional, com diálogos, travessões, pontos finais em final de frase, etc.: 


“Paupéria corta uma fatia de pão:
__ Anacleto é agiota.
__ Um miserável.
__ Não, Gaf. É agiota. Vive disso.
(vive disso / a desgraçada defende o amante / vou preso morro e aí vão-se esfregar livremente / deixa / mantenho a calma / mais tarde dou o flagrante e liquido os dois)” 

“Pôquer”, outro conto curto, é uma história de amor e humor, de um personagem-narrador que, ao ir num domingo visitar sua amada, precisa assistir a um jogo de pôquer entre o pai, o tio, o avô e Auriflor: “Sendo assim, aceitei o convite: Auriflor era uma incongruência chovendo fetiches em meu deserto”. 

Tanto “Curriculum mortis” quanto “Pôquer”, embora não tenham a mesma verve crítica de outros contos da coletânea, merecem ser apreciados por conta da linguagem experimental e das histórias engraçadas/estranhas que proporcionam. A estranheza é compensada, em Giudice, com uma história bem escrita, com começo, meio e fim bem definidos. 

Necrológio é um exemplo de como Victor Giudice domina a arte de contar histórias poderosas e envolventes, capazes de prender o leitor do começo ao fim e deixá-los impactados por muito tempo mesmo depois de fechado o livro. Tão impressionante quanto desconhecido pelo grande público, desafia as convenções e convida a refletir sobre a vida, a morte e a complexidade da condição humana. Uma leitura intensa e uma obra vanguardista, Necrológio faz bem à literatura de um país. É um livro que merece ser conhecido, (re)lido e estudado, pois mostra o papel do escritor como artífice de sua própria época a partir da linguagem (e não da sociologia ou da política travestida de literatura), capaz de denunciar, com eficácia, os males de uma sociedade desumanizada.


Sinvaldo Júnior é professor de ensino médio, pesquisador acadêmico e revisor de textos (Textifique Soluções em Textos). Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. É admirador de Carlos Drummond de Andrade, Campos de Carvalho e José Saramago. Mora em Uberlândia-MG.

24 de mar. de 2023

Por que ‘O encontro marcado’, de Fernando Sabino, ainda faz sucesso?

Por Sinvaldo Júnior 

O encontro marcado, de Fernando Sabino, é um long-seller, o tipo de livro que alcança boas vendagens, tempos após tempos, desde o seu ano de lançamento (1956), o que se comprova com as mais de 100 edições da obra. É, portanto, um fenômeno da literatura brasileira, sucesso não só de público (os números comprovam), mas também de crítica. Aqui vamos tentar compreender esse fenômeno. 

O romance se inicia com a descrição da casa de Eduardo (protagonista supremo), relacionando os cômodos à sua imaginação: 

“A casa tinha três quartos, duas salas, banheiro, copa, cozinha, quarto de empregada, porão, varanda e quintal.

Que significava o quintal para Eduardo?” (p. 9). 

Desde aí o leitor se depara com uma obra de linguagem rápida e sem floreios, opção consciente de um autor que preza pela fluidez da história: 

“A galinha era sua, atendia pelo nome” (...) “Ela se abaixava, deixava-se pegar.” (p. 9). 

Se analisarmos esses dois trechos, perceberemos que o autor opta por evitar os elos coesivos e, em consequência, diminui o tamanho da sua frase e da ideia que passa. Ao invés de um “e” para ligar as duas ações da galinha (se abaixava e deixava-se pegar), Sabino prefere a vírgula, e esse recurso será perceptível no decorrer de todo o romance. 

Veja: “Um domingo encontrou Eduarda na mesa do almoço, pernas para o ar, assada” (p. 9). Qualquer outro autor, sobretudo iniciante, inconscientemente botaria um “Eduardo” antes de “encontrou” e um “de” antes de “pernas para o ar”, entre outros recursos (dispensáveis). Fernando Sabino não. Ele evita, ao máximo, as palavras que poderiam sobrar. Ele não peca pelo excesso. 

É essa linguagem (sem floreios, econômica) que ditará o ritmo da narrativa (fluida, ágil) de Encontro marcado. Do começo ao fim. Trata-se de um clássico romance de formação (Bildungsroman), no qual é exposto, em pormenores, o desenvolvimento físico, psicológico, moral, político e social de um personagem, da sua infância até a passagem da juventude à vida adulta. Eduardo é esse personagem. 

Embora seja o protagonista supremo (vamos chamá-lo assim), nas primeiríssimas páginas o leitor também se depara com Seu Marciano (o pai de Eduardo); Estefânia (a mãe); Adelaide (costureira); Maria (cozinheira); Eduarda (galinha); Floripes (a ama preta); dona Amélia (a professora), “a mulher mais bonita do mundo”; Milton, Miguel, Paulista, Tartaruga (colegas do Grupo); Valderês e Maria Inês (as gêmeas); Lêda (a melhor da classe); Jadir (vizinho, morava na casa dos fundos); Afonso; Letícia (a primeira namorada) – todos devidamente nomeados (inclusive um roupeiro que aparece uma única vez). 

Personagens vêm e vão, os espaços mais importantes da história são a casa e a escola (Grupo), e Eduardo continua sendo o foco central de tudo que ocorre. Há um narrador onisciente, em terceira pessoa, mas que se preocupa em acompanhar tão somente as atitudes, as falas, os desejos e dilemas de Eduardo. Poucas vezes esse narrador se distancia e foca em outro personagem, e quando isso acontece soa estranho para o leitor. 

Nas primeiras páginas, é importante salientar, a construção da personalidade de Eduardo se dá, sobretudo, a partir da visão dos pais: ele é inteligente, nervoso, mimado: “Ele corria as unhas pelo rosto, arranhava-se até sangrar” (p. 11). É aí – nesse início de rápida sucessão de acontecimentos e aparecimento de personagens – que conhecemos o protagonista, dos primeiros anos da sua infância até os quatorze anos. 

É na adolescência que ele descobre que gosta de escrever, ganha um concurso de redação e vai para o Rio de Janeiro, ficando alguns dias sozinho num hotel; é na adolescência que ele conhece Letícia; que sente um troço que ele não sabia explicar, mas que achava que era tristeza; se depara com a morte e o suicídio de um amigo/vizinho (Jadir), com quem justamente havia, na véspera, conversado sobre suicídio; é na adolescência que ele se apaixona, sua mãe se intromete em seu namoro – sobretudo após o vizinho se matar por causa de uma mulher – e Eduardo, por consequência, sofre, chora como qualquer adolescente (dramático) sofreria e choraria. 

Fernando Sabino retrata Eduardo, seu personagem, de maneira que não o apequena só por ser adolescente ou por sofrer demasiadamente, mas – ao contrário – o pinta de forma profunda, dando a entender que em certo momento ele caía em um estado de depressão (até o momento em que começa a fazer natação e, em seis meses, ser o melhor nadador de sua categoria). Tudo é tão rápido em O encontro marcado! É tanta informação, e tudo narrado de forma tão fluída, tão elíptica, que o leitor passa páginas e páginas sem perceber que leu tanto. 

A adolescência de Eduardo é uma profusão de descobertas e experiências, como toda adolescência deve(ria) ser, e Sabino recria essa fase, em poucas páginas, com uma riqueza e profundidade pouco comuns na literatura. A identificação com os personagens e as sucessivas edições talvez se expliquem, mesmo décadas depois, pelo fato de Sabino não caricaturizar uma fase da vida que, em geral, é vista de forma caricata, em especial pelos adultos. A linguagem sem floreios sustenta esse propósito. 

Mas é a juventude de Eduardo e dos seus amigos Hugo e Mauro que mais importa à trama. É a partir daí que nos deparamos com piadas e reflexões profundas, quase na mesma página, entre os diálogos dos personagens. É aí que surge Antonieta, filha de ministro, com a qual Eduardo se envolverá em uma relação morna. Sente-se deslocado nas festividades, recepções, banquetes e solenidades em que a namorada participa com frequência. Seu sogro, o ministro, lhe arruma um emprego. Ele se casa (fato que demandará apenas meia página do narrador): “estou casado, estou cansado, estou abatido, em verdade estou destroçado, andei depressa demais” (p. 144). 

É a partir daí – do que deveriam ser os resquícios de sua juventude – que nos deparamos com um personagem casado, com uma profusão de personagens, com uma profusão de relações e sugestões de relações extra-conjugais. É uma época de reencontro com os amigos Mauro e Hugo. Muitos fatos ocorrem, e conseguimos – como leitores – acompanhá-los sem maiores problemas. O encontro marcado não parece ficção, mas é, pois se assemelha tanto com a vida de qualquer pessoa, mas tudo ali é tão particular, tão pessoal, que só Eduardo (ou Sabino?) poderia vivê-la. E por parecer tanto com a vida de qualquer pessoa, por ser tão realista, os fatos surgem naturalmente, sem artificialidades, sem “plot twist” para manter o interesse do leitor, que ali fica por causa da capacidade da literatura de criar uma vida tão viva. 

Essa vida – a vida de Eduardo – vai seguindo como a vida de tantos, milhões, bilhões pelo mundo: é negligente com seu casamento, vê sua relação se desgastando com a esposa, que perde o filho em gestação. Eduardo, como milhões, como bilhões à época, ou atualmente, se vê perdido, sem propósito na vida, sem perspectiva. Depois de Antonieta, tenta se relacionar com uma, com outra, e todas elas, com o tempo, vão embora, não querem saber de Eduardo, que se mostra sempre distante, pouco interessado. 

O encontro marcado, de Fernando Sabino, é um romance que trata do Brasil, da história, do contexto sem explicitá-los, e isso – acreditem – é o mais difícil na escritura de uma narrativa ficcional realista. Mas Sabino consegue. E ao conseguir, consegue também transformar sua obra numa história universal, sem datatismos dispensáveis, pois o que resta – como restou – é a queda, a frustração, a desesperança, o medo, o sono, o desânimo, tão comuns nessa Terra: 

“Qual o seu próprio erro? Não sabia: em alguma parte de sua vida ele se deixara ficar, esquecido, abandonado, largado para trás – e agora teria de se buscar como aquela agulha do sonho, perdida no fundo do mar”. 

REFERÊNCIA

SABINO, Fernando. O encontro marcado. 63ª ed. Rio de Janeiro: Record, 1995.


Livros podem ser enviados à Revista O Bule para serem resenhados. Caso se interesse, entre em contato: coisasprobule@gmail.com

 

Sinvaldo Júnior é professor de ensino médio, pesquisador acadêmico e revisor de textos (Textifique Soluções em Textos). Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. É admirador de Carlos Drummond de Andrade, Campos de Carvalho e José Saramago. Mora em Uberlândia-MG. É também personagem de Rogers Silva.

5 de nov. de 2021

'O Ateneu', de Raul Pompéia

 

Por Glênio Cabral

Obra de Raul Pompéia com forte viés autobiográfico, O Ateneu é narrado em primeira pessoa, tendo o adolescente Sérgio como protagonista. Romance de passagem, a obra tem início com a célebre frase do pai de Sérgio, ao apresentá-lo ao imponente colégio Ateneu: “Vais encontrar o mundo, disse-me meu pai. Prepara-te para a luta”.  Ao longo da narrativa, Sérgio, recém integrado ao colégio interno Ateneu, vai narrando toda a natureza competitiva e muitas vezes selvagem que imperava no ambiente, onde a lei do mais forte prevalecia. Um dos destaques do livro é o diretor Aristarco, chefe supremo do colégio, figura autoritária e inibidora, fonte de temores e frustrações vivenciadas pelo narrador. Muito se tem falado sobre o livro 1984, de George Orwell, como leitura profética prevendo vários acontecimentos sombrios dos dias atuais. O Ateneu, por sua vez, nunca previu nada. Apenas constata o que sempre esteve em voga, a saber, a tirania institucionalizada, a qual precisa ser contraposta a todo momento, não sem luta, sofrimentos e descobertas. No fim das contas, todos vivemos um romance de passagem como O Ateneu. Em que caminhos chegaremos no final de tudo, cabe às nossas ações responderem. Até lá, fiquemos com a ponderação do pai de Sérgio: “Vais encontrar o mundo. Prepara-te para a luta”.

2 de out. de 2021

Farinhei 451

 Por Glênio Cabral

Lançado há 50 anos, o mega clássico distópico Farenheit 451, do autor Ray Radbury, nunca foi tão atual. O livro retrata uma sociedade totalmente entorpecida pelo entretenimento, a ponto de mergulhar num processo de desumanização generalizada, fazendo com que as pessoas vivessem em bolhas alienatórias de pura diversão e prazer, ignorando o verdadeiro caos ao redor. Ao mesmo tempo, nessa sociedade ler é uma atividade proibida. Afinal, a leitura incomoda, faz pensar, toca nas feridas anestesiadas pela seringa de programas televisivos de massa e afins. Coincidência? Pra piorar, os bombeiros agora são responsáveis por fiscalizar as atividades ilegais de leitura e queimar as obras aprendidas, numa espécie de inquisição contra o saber. Em tempos de negacionismos, onde cientistas são perseguidos e acadêmicos condenados à fogueira santa, Farenheit 451 lança luz nas trevas que se alastram, mostrando que a luz é sempre uma opção. Uma ótima opção.   

16 de mai. de 2021

‘A metamorfose’ e seu retrato de uma condição desumana

 Por Iasmim Assunção

Escrita em apenas 20 dias, A metamorfose, do escritor austro-húngaro Franz Kafka, se tornou uma obra impactante na literatura universal. Finalizado em novembro de 1912, foi publicada em 1915.

A personagem principal é Gregor Samsa, um caixeiro viajante (profissão desgastante devido a inúmeras viagens) que trabalhava para sustentar a família e pagar as dívidas de seu pai, aposentado pela idade. Sem uma explicação racional para essa transformação, Gregor acorda metamorfoseado em um gigantesco inseto monstruoso no início da novela.

A preocupação do protagonista, assim que acordou e ao perceber que era um grande inseto, era ter que faltar ao trabalho, já que antes nunca havia perdido um dia. Apesar de não ser valorizado, a força de trabalho de Gregor era explorada e seu patrão foi o primeiro a ir atrás dele ainda na mesma manhã, por acreditar que Gregor não estava tendo compromisso com o cargo.

Gregor, lutando para se equilibrar nas pernas finas e se acostumar ao corpo grande e à cabeça sensível, consegue sair do quarto – agindo naturalmente – para dar uma explicação ao chefe e à sua família. Todos se assustam com a situação de Gregor; a família sente repulsa e o patrão corre quando ele tenta se comunicar, mas como sua fala também é afetada pela transformação, solta apenas ruídos.

Conforme o tempo passa, Gregor se acostuma e permanece, sob os móveis, recluso no quarto. Além disso, a família não permitia o contato de Gregor com o exterior. Os pais o enxergavam apenas sob o ponto de vista de sua função (sustentar a casa), e depois da transformação do filho, o pai foi obrigado a trabalhar novamente. Greta, sua irmã, era quem levava comida, limpava o quarto de Gregor e lhe mostrava alguma simpatia. Inclusive, sugere retirar os móveis para lhe dar mais espaço no quarto, mas ele não permite pois não quer perder o resto que tinha que o tornava humano.

A relação familiar muda da indiferença para o desprezo quando Gregor sai do quarto por ter sido atraído pela irmã tocando piano na sala e acaba assustando os inquilinos da casa, que geravam um dinheiro a mais para a família. A partir daí, Gregor é visto como um parasita, um peso, além de passar a ser tratado como um animal. Os inquilinos rompem o contrato de aluguel e Greta propõe que os pais se livrem de vez de Gregor (retrato da hipocrisia da família, que antes dependia do filho). Nesse momento, Gregor já habitava um quarto sujo, mas podia andar por paredes e pelo teto. A leitura se torna agoniante nos momentos em que Gregor finalmente age como o inseto que se tornou.

Oprimido enquanto indivíduo, já que as viagens constantes o afastavam das relações sociais, a transformação de Gregor em um inseto representa sua vida insignificante, como o animal em que pisamos em cima. Com a metamorfose, Gregor passa a perceber os relacionamentos em seus arredores.

A novela reflete sobre a identidade individual, e como uma pessoa escolhe viver a vida ou é forçado, nesse caso, por necessidades financeiras. Gregor era infeliz em seu serviço e sem amigos, mas não tinha outra opção, pois precisava trabalhar para ganhar dinheiro. Enquanto se tornava um inseto, ele não se desesperou justamente porque se viu livre das obrigações sociais, mas antes mesmo disso ele não possuía qualquer personalidade.

Essa novela de poucas páginas prende o leitor, que espera esperançoso por uma reviravolta na vida torturante de Gregor. Apesar de despertar sentimentos aflitivos, é uma obra que traz uma reflexão sobre dignidade, respeito, a importância de se diferenciar como individuo e até sobre a violação de direitos humanos. É um clássico em que, cada vez que é relido, se percebem novas nuances.


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12 de abr. de 2021

'A revolução dos bichos' e seu diálogo com a realidade

Por Iasmim Assunção

A revolução dos bichos é um romance satírico escrito pelo inglês George Orwell e publicado em 1945. Orwell escreveu uma obra que dá margem a muitas interpretações e reflexões sobre a realidade.

No começo do livro, indignados por sofrerem com a opressão, os animais da Granja do Solar se reúnem para organizar uma revolução liderada por Major Porco, seguindo seus ideais (todos os animais seriam iguais e nenhum deveria se assemelhar aos humanos, pois estes eram os inimigos, já que não buscavam interesses que não os deles próprios). O Major se importava em transmitir a mensagem para que futuras gerações de animais da fazenda onde viviam continuassem lutando até a vitória. Ainda no início, o Major Porco morre e Snowball fica em seu lugar como administrador, mas nunca superior ou privilegiado pelo cargo. Snowball, também um porco, tenta se portar como era o Major, com um ar sábio e benevolente. Ele foi o responsável por criar mandamentos relacionados à ética, como: nenhum animal dormiria em camas, nenhum animal consumiria álcool e nenhum animal andaria sobre dois pés como faziam os humanos.

Associando os personagens com suas representações reais, o discurso do Major se relaciona com as propostas lançadas por Vladimir Lenin, um político da União Soviética. Nessas propostas, Lenin lança teses que se opõem à Guerra Mundial, propõe que as terras sejam divididas nas mãos dos trabalhadores, e que todo o poder estaria na mão dos sovietes. Lenin seguia o socialismo científico, termo que se refere a uma sociedade que só alcançaria melhora nas condições de vida através de uma luta de classes dos proletariados.

Na obra de George Orwell, Snowball nunca conseguiu construir uma granja igualitária porque não foi administrador por muito tempo, pois foi traído por outro porco, Napoleão, que tomou o poder. Napoleão e seu parceiro, Garganta (que representa a mídia), desejavam persuadir os animais para aceitarem a dominação. Os animais na fazenda retratam como no capitalismo quem mais trabalha é quem menos ganha, e eles ainda eram negados de liberdade de expressão. 

Assim como na União Soviética, Josef Stalin ganhou o apoio da população através de discursos enganosos e, quando chegou ao poder, mudou completamente as propostas de Lenin e não construiu um governo socialista igualitário, mas investiu na indústria e no crescimento econômico. Stalin instalou um totalitarismo na URSS e uma ditadura da burocracia. Ele caçava e matava quem questionasse seu governo.

Os personagens de Orwell são marcantes pois retratam muito bem o que vemos na sociedade até nos dias de hoje. Mimosa, por exemplo, é um pônei que adora admirar a própria imagem refletida na água e se vende por torrões de açúcar e fitas escarlates para seu topete, enquanto outros animais estão em horário de trabalho. Ela claramente pertenceria a elite na nossa realidade.

A história é cheia de ironias em que podemos perceber o fracasso na tentativa de criar um sistema que preza pelo bem-estar de todos. Orwell julga a crença de que essa tentativa foi um passo grande em direção à formação de uma república inteiramente socialista. A obra alerta pede que reflitamos sobre líderes políticos “com motivos altruístas”, que podem acabar abusando dos cidadãos e restringindo a liberdade humana. Mesmo após sessenta anos, A revolução dos bichos é uma das maiores fábulas da literatura sobre as relações de poder e como ele está nas mãos de quem possui a influência para comandar os empregados que produzirão capital para a burguesia.


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14 de nov. de 2020

‘O Grande Gatsby’ e a maléfica abastança dos loucos anos 1920


Por Iasmim Assunção

Os anos 1920 é uma década famosa por sua prosperidade e liberdade, pelo entusiasmo das pessoas com a vida noturna, pelo jazz, pela dança Charleston. As mulheres começaram a ter mais liberdade na moda, passando maquiagem, contornando os lábios para se parecerem com um arco de cupido. Elas também usavam vestidos mais curtos, mais leves, de seda. Além disso, a Chanel, uma empresa especializada em alta costura, bens de luxo e acessórios de moda se instalou nos Estados Unidos. As pessoas frequentavam os cinematógrafos, que exibiam filmes de Hollywood. É claro que essa é a parte elegante dos loucos anos 20 do século XX, mas ainda existiam assassinos em série e a Ku Klux Klan (KKK). 

Em O Grande Gatsby, temos toda a riqueza dos anos 1920 para preencher o vazio que a guerra deixou. O livro é narrado por Nick Carraway, que se muda para Nova Iorque para tentar a sorte em Wall Street. Nick passa a conviver com sua prima Daisy, que faz parte da aristocracia junto com seu marido.

Ao lado da simples casa de Nick vive o misterioso Jay Gatsby, famoso por suas festas em sua mansão. Os rumores sobre ele correm soltos. Jay é um personagem bastante intenso e complexo, mas conhece suas raízes e de onde veio. Alguns dos moradores de Nova Iorque dizem que nunca viram Gatsby, nem mesmo nas festividades em sua própria casa, por isso ele não existe. Outros dizem que Gatsby era um militar; outros, que ele era um assassino ou descendente de alemães, mas nunca a verdade foi revelada sobre Gatsby e sua fortuna.

Até que Nick recebe um convite escrito à mão por Jay o convidando para uma de suas festas, pois este estava sozinho e cercado por pessoas fúteis. Com o tempo, Nick vai conhecendo cada vez mais Jay Gatsby e deixando de acreditar nos mitos sobre ele, o que o leva a descobrir que Gatsby é apaixonado por Daisy. Assim, por meio de Nick, o reencontro entre Gatsby e Daisy gera uma série de consequências, principalmente porque Daisy é casada.

O marido dela, Tom, é um dos piores personagens, pois é preconceituoso, agressivo e arrogante, mas Daisy também não é tão boa assim. Ela é vazia e mimada, e não quis Gatsby quando ele não tinha dinheiro. Daisy também tem uma filha com o marido, e esse pode ser um dos motivos pelo qual nunca deixaria Tom, já que é uma opção segura. E fica claro ao decorrer da história: ela não vai escolher Gatsby.

O romance deixa claro as loucuras que um pode fazer por amor, por isso é um livro tão trágico. O autor, por meio do romance de Gatsby e Daisy, critica a riqueza, as festas, os interesses por causa do status de uma pessoa. Além de Daisy, Gatsby também não sabe amar. Ele conseguiu todo aquele dinheiro com um único objetivo, e é assim que tenta reconquistar sua amada com os meios errados.

É curioso que Nick, mesmo sendo o narrador, não é o protagonista. Ele é adorável, mas é apenas um observador. A história contada sobre Nick é apenas a que ele desejava trabalhar na grande cidade da maçã, porque era alguém sem nada que o elevasse na sociedade em que vive. Porém, o rico estilo de vida do amigo acaba afetando-o. Nick cria uma obsessão sobre a figura de Gatsby e precisa concluir a trama de Jay e sua prima.

O romance foi publicado por F. Scott Fitzgerald em 1925 com a intenção de criticar o “sonho americano” e o caos surgido após a Primeira Guerra Mundial. O “sonho americano” é uma expressão usada para representar o alcance do sucesso absoluto, mas apenas para os moradores do país. Isso acontece porque eram os Estados Unidos quem abasteciam o resto do mundo em tempos de guerra, pois estavam aumentando sua produção e se preocupavam com uma revolução proletária na Europa. No entanto, no ano de 1925 houve uma crise de superprodução: a economia europeia tinha se reerguido e concorria com os Estados Unidos, que tinham os estoques cheios. Assim, em 1929, essa prosperidade dos anos 1920 chegou ao fim com uma crise no sistema capitalista e um fantasma de depressão assombrava o povo americano.

Além do livro, há uma adaptação cinematográfica de O Grande Gatsby. O filme é estrelado por Leonardo DiCaprio e por Tobey Maguire. O cenário, os atores, as locações e os figurinos são simplesmente perfeitos, e a trilha sonora leva músicas atuais para os anos 1920.


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4 de nov. de 2020

A naturalidade do amor em Drummond

Por Milton Rezende

“Não posso crer que se conceba

do amor senão o gozo físico!”

(Manuel Bandeira)


A literatura é atemporal e, mesmo depois de muitos anos, o autor de Claro Enigma ainda nos propõe novos e instigantes enigmas. Como decifrá-los à sombra grandiosa do autor e de sua obra? Sento-me à máquina como quem senta ao pé de um mistério. E desta feita temos pela frente, com o livro O Amor Natural, uma esfinge erótica para decifrar ou então, na pior (?) das hipóteses, sermos devorados por essa estátua de puro sexo construída pelos versos incendiados de Drummond.

Para quem não conhece da obra do autor senão alguns poemas famosos que caíram no domínio público e se tornaram ditos populares, e aprendeu a gostar e associar estes versos à figura simpática de um velhinho tido como o melhor de todos e agora lê O Amor Natural, levará um susto e certamente ficará chocado com a temática e os termos usados pelo poeta.

Mas para quem conhece e acompanha o autor em toda a sua obra, livro a livro, poema a poema, saberá que, afinal, a surpresa não é tão grande assim (embora a “voltagem” esteja realmente bem mais elevada). O fato é que a temática erótica sempre esteve presente na obra de Drummond e, desde 1984, quando foi publicado o livro Corpo, ela vem crescendo em intensidade. Já no livro seguinte, Amar se Aprende Amando, este erotismo se apresenta de forma bem mais dominante até culminar com O Amor Natural. Note-se que os próprios títulos dos livros são sintomáticos e dizem bem dessa nova postura do autor.

E aqui cabe a pergunta mais enigmática e inquietante: por que o erotismo na obra de Drummond se manifesta principalmente nos seus últimos livros publicados, quando o autor já estava velho? Não há aí uma inversão? Geralmente se dá o contrário, ou seja, a voluptuosidade coincidindo com a impetuosidade própria da idade jovem.

A resposta a esta pergunta tem a ver com o eterno conflito Eros x Tanatos, apesar do próprio Drummond ter dito numa entrevista ao Jornal Leia, em 1985, que sua temática amorosa só agora se tornava mais visível porque “antes eu tinha uma espécie de medo, era encabulado, provinciano, coisa de pessoa muita tímida que eu sou até hoje”. Acontece que o amor enquanto experiência física (e Drummond nessa entrevista deixa claro a sua intenção de n’O Amor Natural enaltecer o lado físico do amor, desvinculando-o do lado espiritual) é sempre maior e mais forte em situações-limite.

Assim, uma baita ressaca física e/ou moral, uma situação de forte pressão emocional, a velhice (que sempre vem acompanhada da possibilidade da morte próxima), a própria ideia de que o nosso fim se aproxima (independente da idade que temos), tudo isso desencadeia um processo de busca de autotranscedência que, por sua vez, se manifesta de diferentes formas. Uma delas, de âmbito puramente físico, é o erotismo levado a extremos de tesão sexual ou de uma paixão absolutamente extremada, chegando em alguns casos ao paroxismo.

No caso específico do Drummond me parece que há uma tentativa de elucidação do amor transcendente, destilando-o através de um fino erotismo físico sem meias-palavras e sem medo das palavras. E o autor consegue, com essa sua tentativa, dar a exata medida do prazer em todas as suas variantes e variações possíveis entre dois corpos humanos que, buscando o êxtase físico, tentam na verdade romper o bloqueio do eu insulado, do eu aprisionado que só tem a si mesmo ou nem isso, destituído de qualquer espiritualidade transcendente.

A transcendência do amor é uma consequência do ato físico e não uma coisa à parte, separada espiritualmente e que requer, para se completar, uma fusão com o amor físico. Não. Através do gozo físico é que se chega (ou se pode chegar) a alguma forma de transcendência. Exceção feita, talvez, somente para os góticos em determinadas situações apaixonadas e apaixonantes.

A metafísica do amor (e do livro) consiste em se tentar, com o prazer físico, atingir alguma espécie de êxtase espiritual que nos daria, por instantes que seja, a sensação de deter a proximidade do fim ou suspender, temporariamente, a ideia da morte, a própria morte em si. Se se pode conseguir isso, somente a experiência pessoal de cada um é que pode revelar. De qualquer forma, esse tipo de experiência deve ser tentada, mesmo porque ela é, em tese, acessível a todos os corpos. Mas até que se consiga esse êxtase espiritual via orgasmo, vale a sentença do Bandeira segundo a qual o amor só pode nos dar o gozo físico, o que já não é pouco!

Publicado no livro Textos e Ensaios (Multifoco, 2012).