Deixei
bem claro que eu cumpria como ninguém meu papel, e o meu papel não era dar
amor, era trepar, amor era coisa comprada, custava caro, era mercadoria
importada e não conhecia quem vendesse por aquelas bandas. Abaixei suas calças
e fiz uma chupeta bem feita. Ele espirrou o jato quente na minha garganta. Fiquei
com aquele líquido pastoso um tempo na traquéia, ele demorou um pouco a descer,
fiquei intrigada, nunca tinha sentido algo tão denso, que se nega a desmanchar.
Confessou que era poeta <então entendi tudo> e por isso trazia a carne putrefata
e o mau cheiro, esperava que eu não me importasse, ele já tinha usado todo tipo
de perfume e nenhum era capaz de disfarçar a carniça. O cheiro também o
incomodava e crescia com os anos, há alguns em nem sequer conseguia sentia nada,
agora quase não consigo dormir com esse odor terrível, tenho insônias
tenebrosas. Os poetas trocam de pele como trocam de roupas, o dia todo eu me
decomponho, está vendo¿ Tem pele descolando por toda parte, poeta é uma espécie
de leproso incurável. Não me importava, já tinha visto de tudo. Depois
continuou como louco acariciando minha pele, apalpando meus peitos, lambendo
minha buceta, enfiando o dedo nas minhas entranhas, seus dedos pareciam uma
pinça feita de desespero, enfiava, chegava a suar a testa com o esforço, como
se tivesse a intenção de arrancar o que eu trazia escondido por dentro, de
lançar minhas trompas aos cachorros. Não tenha medo querida, estou empolgado
porque você é a primeira mulher pura que como. Não pude resistir e soltei outra
gargalhada, dessa vez ainda mais alta, esperei e escutei de volta seu eco, ele
estava de sacanagem comigo, só podia ser. Uma mulher pura, eu¿ Você só pode
estar de brincadeira¿ Você é poeta ou comediante¿ Bem, não sei se há grande
diferença entre os dois... Vou te explicar o que chamo de pureza. Cansei de
foder quem me fode a cara. Tenho levado porrada à toa. A vida inteira tenho
comido apenas as mulheres de alma elevada. Mulheres que declamam Paul Celan,
discutem sobre dialética e sabe o nome de todos os músculos que produzem o
riso. E o que isso me trouxe¿ Nada, absolutamente nada. Percebi que a maioria
das mulheres intelectuais não passam de um boi que acabou de ter as vísceras
retiradas no matadouro. Todas bichos empalhados. Fazer amor com o ser amado traz
à superfície os escorpiões que se escondem nos buracos. Não queria ter dormido
com seres que eu amava, preferível a isso seria dormir aconchegado com meu pior
inimigo, esperando uma faca me atravessar. Só quem te ama pode te levar ao
inferno, pode te fazer andar por lá, pode te fazer encarar o diabo. Não posso
chegar ao gozo com tantas amarguras percorrendo meu pau, minha memória, meu pau
tem memória e eu tenho memória de elefante, sabe¿. Com você é diferente, seu
corpo, seu sexo me é virgem, sua carne é macia, não traz nódulos de outros
tempos, não tem ranhuras nem cicatrizes. Eu posso adormecer no seu colo e não
cair em abismos, em
precipícios. Eu posso oferecer meu pau a sua boca e saber que
ele não será decepado, posso oferecer todos os meus membros e saber que nenhum
será amputado. Enfio minha língua no meio de suas pernas e sei que o líquido
que escorre não será ácido a ponto de me corroer. Sabe, houve um dia em que eu
era esquecimento, mas aos poucos fui perdendo o interesse pelas coisas que me
faziam humano, observava as guelras suspensas da noite, a pele morta dos
répteis... disfarçava meu anseio e passava a mão pelo meu crânio e ela afundava
devido a fissura provocada pela trepanação do tempo, apalpava meu ventre e
sentia a cada dia que o tamanho do meu intestino diminuía consideravelmente e
depois de alguns anos eu não era nada além de um peixe estripado bem na época
da desova, um ser vazio, esquecido à margem lodosa do rio. Senti um pouco de
raiva daquela falação toda, ela me incomodava, uma ejaculação cerebral inútil,
além disso, me fazia lembrar do filho da puta daquele filósofo, não via muita
diferença entre os poetas e os filósofos, os dois não mantinham o pau em pé
quando o cérebro funcionava, os dois misturavam tesão com citações
bibliográficas, tentavam impressionar com a exatidão frouxa das palavras.
Nenhum dos dois entendia que as palavras eram mortas e a língua no sexo valia
mais que um bando de léxico sem sentido.
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6 de jan. de 2013
6 de dez. de 2012
A puta - X
A culpa deve ter sido da minha mãe com suas feitiçarias. É melhor continuar à beira da cama. Entre os dentes do cão a fresta é branca. As madrugadas mais bonitas são aquelas invadidas pelos tiros de canhão, é mais bonito que fogo de artifício. Ninguém ouviu falar dessa guerra, assim mesmo ela deve estar pintada em algum quadro. Até menino morto é bonito na mão de artista. Muitos homens perderam seus filhos, suas esposas, suas orelhas. A minha orelha continua intacta. Escuto o dia todo abelhas zunindo do meu lado esquerdo. Isso não é agradável. Uma colmeia no crânio. Um enxu. Um candomblé. Formigas picando meu cérebro. Ontem sonhei tava nevando na minha cabeça. Além disso, a acústica do vazio não é muito boa, mas posso afirmar com certeza que eram lâminas. Cegas, talvez por isso depois veio o falatório, os gritos, as fibras sendo covardemente rompidas. Um pano podre. A demora do ato foi tanta, uma interminável luta corporal, que é mesmo possível se tratar de uma faca de serra. Não me assusta a morte, o ritual me assusta. Torcer o pescoço de uma galinha é mais cruel do que atirar no pai. Não tinha imaginado tal loucura, no entanto, agora que citou, sim é possível, explicaria muita coisa. Não conheço a vítima, como posso saber se tem inimigos? Não conheço nenhum homem que não tenha ao menos meia dúzia de inimigos. Você conhece? Não acredito que seja útil analisar o terreno. Essa região não deixa impressões digitais e depois o que adiantaria a digital de um bandido desconhecido, sem eira nem beira. Um natimorto para o mundo. Aqui está cheio de gente assim, que não existe para o sistema. ¿Quantos zeros à esquerda a matemática pode comportar¿ Agora eu sou a única nos arredores. De forma alguma, isso não me faz suspeita, me faz vítima. Quando cheguei com os olhos tapados e as mãos atadas logo percebi que aqui as flores não murchavam, assim como não nasciam. Um cemitério loteado. Eu esfolava a vida em potencial das sementes. As flores não murchavam, também não nasciam. Eu esfregava os dedos e esfolava a vida em potencial das sementes. A terra era fofa, quase movediça, embora não houvesse rios ou córregos por perto. Os pés gordos afundavam com facilidade. Uma terra de ninguém. Era uma estrada quase asfaltada, os homens não tiveram coragem suficiente para despejar o piche por aquelas bandas. O chão era tão preto nos dias sem lua, que eu realmente acreditava que a civilização comia e cagava ali por perto. O farelo e o cheiro de porcos não saia das minhas narinas e meus dedos se perdiam em seus rabos enrolados. Os curto-circuitos não chegaram. Os postes não chegaram. A vida foi ficando rarefeita. Eu era uma puta na esquina escancarada do mundo. O fundo do lixo. Todos os gatos eram pardos e não miavam, reviravam as latas em busca de restos, mas os restos já tinham sido devorados pelos homens. Algumas vezes fiz companhia a eles. Porque também sei sobreviver do que não serve a mais ninguém. Cansada do sucesso me esbaldava na desgraça. E se eu ainda estava aqui é porque queria ver os miolos de perto. A morte sem a tragédia e sem as representações não provoca o choro. Os homens gregos invocando mulheres, com suas máscaras fajutas ainda me fazem rir. As notícias são vagas e trazem a fragilidade dos discursos humanos. Estalava o chiclete na boca e enfiava os dois dedos nos buracos dos dentes. Minha-boca-minha cova. Isso me acalmava, às vezes rangia os dentes. Era uma das minhas distrações preferidas. O que acabou me custando muito, minhas mandíbulas estalam e desencaixam no meio dos beijos e dos boquetes. Fiz disso um diferencial, uma idiossincrasia como dizia o filósofo, cobrava mais caro por isso, o que de certa forma era ridículo já que o ouro não valia mais nada. As minhas refeições são verdadeiras sinfonias. Minha saia deixa à mostra duas coxas que já foram grossas e firmes. Hoje são como duas próteses mal feitas. O importante é o oco vermelho - carne viva - molusco morto sem pouso a devorar a gosma branca. Corvo copulando com defunto. O branco reproduzindo a indelicadeza. Em todas as mãos carrego as cicatrizas da brutalidade. É mais fácil respirar do que sobreviver. Virgilio chegou numa noite dessas em que a lua e o desejo são minguantes. Nessas noites em que há mais baratas que estrelas. Percebi que seu dorso trazia um sol vermelho e embora cansado nunca se punha... Não pronunciei nenhuma palavra porque podia ler em sua cara que estava farto dos discursos fáceis. E pra mim era muito mais fácil calar, assim os insetos não podiam copular na minha língua. Ordenou que eu arrancasse a roupa porque queria um amor sem nódulos, sem nervuras. Não queria me tocar e sentir ossos expostos pelo meu corpo. Certamente ele me confundia ou era um tresloucado. Já nasci com a cloaca purulenta. Não pude segurar a gargalhada, que ecoou pelos quatro cantos do cubículo, como uma puta poderia saber fazer amor¿ Logo eu que media os homens pelo tamanho do pau. Como uma mulher qualquer pode saber fazer amor conhecendo as fraquezas e as perversidades do macho¿ Há uma lua podre na face de todo macho e é possível entrever sua escuridão. O amor é só uma ideia tola para distrair a mente limitada e oca do homem, não conheci quem tenha vivido o amor, apenas alguns dementes que confundem amor com sofrimento compartilhado.
6 de nov. de 2012
A puta - IX
Não
compreendo seus ditos, mas acho bonito gente falando floreado. Dando nó no
trapo da língua. O linguajar fica parecendo escultura lá da mão do Carlinhos. Viu
o anjinho que ele fez? Só faltou voar. Política não entendo. Vou atrás dele
como em romaria, desgastando o resto dos ossos. Romaria não é protesto, é
tumulto bonito de se vê. Não tenho filho vivo, a minha mulher morreu de tédio e
monólogo, não quero o mesmo destino, embora ainda sonhe em ir pra junto dela. A
morte sem uma companhia deve ser muito chata, eu não gostaria de falar comigo
eternamente, visitar os lugares em que vivi e não poder ser visto, olhar
plantação de longe e não poder matar as pragas, ver meus companheiros e não
poder tomar uma cachaça. Tristeza não é feita pra gente, é coisa de cachorro
sarnento. Carrapato quando entra na carne apodrece tudo. Cachorro amanhece com
a tripa preta enroscada. Filhote nasce com cordão enrolado no pescoço. Eu vou pulando
enquanto o couro não salta do esqueleto. Uma hora a folia acaba. Deus arranca
nossa fantasia. Quero morte mansa, que venha criança, na ponta dos pés, feito
gato beirando a cama. Quando eu abrir o olho, já amanheceu de noite. Sem
estrela. Breu, saco de pão vazio. Galopes sem vigílias. O que farei de manhã
quando não houver mais para quem contar meus sonhos. Nightmare. Égua da
madrugada. A lembrança do infanticídio me atormenta, pare com isso, tem
desespero que é feito carniça, é preciso enterrar para que nenhum cão encontre.
A saudade quase me matou, não quero ela de novo perto de mim, ela parece foto
3X4 na carteira, não me dê corda, isso é assunto pra outra hora. Um dia, quando
eu estiver próximo da partida, talvez te conte como tudo aconteceu, antes disso
não, ferida que é muito cutucada cria pus, junta mosca, tem corte que necessita
de uma boa sutura. Não insista ou eu acabo perdendo as estribeiras. Foi isso, foi
assim com Gaguinho e aconteceu com a maioria, seguiu sem motivo. As pessoas
esperam algo que as convença, um pouco ao menos. Sem convicção para que toda
essa pintura alucinada, esses pássaros sem pouso? Essa tela povoada de branco? Pobre
não pode ver homem vestido de santo. A vila foi perdendo os pés. A distância
fez o vento apagar o caminho de volta. A canseira gangrenou os passos pra trás,
continuaram seguindo. Tanta parentela do diabo perdida poraí. Eu continuei
aqui. Sem identidade, raiz frouxa, tubérculo humano. O mundo é redondo, não é
o que dizem? Não gasto sola pra depois voltar com o rabo entre as pernas.
Murcho, fruto pendido do pé. Goiaba branca bichada fica preta. Resisti, sou
mulher de muita carcaça. Não me perco nos versos, nas linhas vagas, nas
redondilhas, na margem de folha amassada. Minha palavra é linha reta. Não me
perco nas pernas varicosas de Deus. Homem que fala bonito rimado esconde
maldade na alma. Tenho pra mim que os anjos são mudos, não têm língua, não
sofrem desse mal. Só os mortos foram ficando tagarelas, marcando trilha.
Semente semeada que não dá em
nada. Os pregadores foram deixando rasgos nas roupas
esquecidas. Se acalme, não adianta pressa, aqui não segue sua lógica, continue
sentado na sua cadeira de couro que boi morto não muge. Essa terra tem suas
regras, suas leis, sua cronologia, seu espaço, seu espelho. Homem que não se
retrata aqui se torna solitário, não dá nó em gravata. Aqui
caracol é quadrado e objeto de culto. Já viu moleque matando lesma com sal? É
tão perverso ver o tempo encurtando no corpo do bicho. Você é real? Até duvido
da sua existência-almofadinha-, ela é muito diversa desse buraco. Você olhou as
carcaças que se amontoam lá fora¿ Por que só eu posso enxergar¿ Não queria ter
nascido com tantos olhos vigilantes.
6 de out. de 2012
A puta - VIII
6 de set. de 2012
A puta - VII
Por Marcia Barbieri
Às
vezes, me sento na estrada, fico perseguindo o sol, como se minha vida
dependesse urgentemente desse ato boçal, abro as pernas e sinto o vento e a
areia me assediando, ali mesmo solto um mijo ocre, quente, depois no lugar
daquele minúsculo lago artificial, cutuco a terra e como as raízes novas, é
como degustar o sabor das suas origens, é como descobrir o gosto que terão seus
descendentes, é como destrinchar seres primitivos pelo umbigo, é como desterrar
carcaças ancestrais. Toco nos chifres ocos dos antílopes e os imagino rasgando
o útero leitoso do universo numa cópula bruta e universal. Comendo terra me
acostumo com a cova. A insipidez do nada. Quando morrer meus ossos descansarão em paz. Morto de verdade
não faz peso na terra. Seus ossos viram poeira pó de mico feitiço em tacho de
bruxa. Perguntei ao Gaguinho porque ele seguia aquele homem louco, barbudo e
com fucinho largo, de muitos amigos, cheirando o traseiro de todo homem. Sei
não, não sou de fazer muita pergunta. Repara não, sou calado, lábio selado,
casco de cavalo na língua. Falasse mais a vida tinha encurtado as pernas. Imagine
só uma vida de pernas curtas, tão engraçado. A vida inteira passei trabalhando
e seguindo homem bronco. Escarrador de palavra no chão. Gente que soca discurso
com pilão, come cabeça de porco, língua de boi. Verbo rasgado, curto. Pouca
polidez na carranca. Criando e adubando desafetos só por medo de desaguar. Fingindo
que choro é erva daninha. Homem desaguando é maricas. Tapeio minha cara e ela é
dura feito cara de burro arredio. Dura feito escultura de madeira, mas madeira
quando infesta de cupim fica fofa, desmancha com um sopro, a minha danou a
desmanchar. Perdi o cabresto tarde, por muito tempo andei olhando o mundo sem
viés. Acho bonito homem que olha o mundo de canto de olhos, de través e assim
mesmo enxerga e assim mesmo relata história comprida, põe palavra na boca de
gente muda, não conheço personagem de contador que também não seja um pouco
contador ou mentiroso. Gente de faz de conta tem mais língua e saliva que homem
de carne e osso. Corre mundo, vagueia debaixo da lua. Tem menos dente, mais
ouro na boca. Mais brio nas carcaças. E tem também mais coragem, monta touro
bravo, atira em malandro, desobedece matador, despista da bala. E eu catando
praga da plantação de arroz pra ter o que comer. Amarrando tomate pra não
tombar - é triste ver planta morta porque não aguentou o peso do próprio fruto,
é como uma mulher que morre parindo filho - abrindo vala pra água escorrer, fugindo
do guizo da cascavel, tomando pinga pra curar as palavras que foram apodrecendo
lá dentro do estomago. Pinga cura tudo, até gripe brava. Às vezes penso que sou
só ventríloquo. Palavra bonita... Conselheiro me explicou o que era e achei que
sou um pouco isso. Um ventríloquo... oco por natureza. Por muito tempo só
aprendi a ser telegrama, a fazer epitáfio, porque era meu papel, anunciava a morte
dos parentes pra outros parentes, telefone nunca existiu aqui. Não queria ser assim,
queria saber dar consolo. Na minha boca palavra tem peso de pai furioso,
varinha de marmelo abrindo vergões vergonha da pele. Só sabia mesmo era dar
notícia ruim de jeito calmo, por isso me chamavam. A calma era por causa da
gagueira, a ruindade demorava a escorregar pela garganta. Os olhos enchiam
d’água. Começava a falar da diferença dos pastos e da grama verde, do silêncio
e do nó forte que só morto sabe fazer, dos mortos que viram santos, fazem
milagres, das almas penadas que vagam felizes poraí. Quando me avistavam ao
longe, acendiam velas, preparavam o leito, o banho, a roupa fúnebre, a bebida
pra tomar o defunto. Tristes das famílias que não podem preparar e enterrar
seus mortos. Palavra saia fraca, parecia dedo mindinho, restinho de leite em
teta de vaca anêmica. E olha que dentro da minha cabeça os sentimentos eram
muitos, acho que todos eles viraram coágulos, feridas de joelho. Agora tenho
que segurar as unhas pra não rasgar com muita força a casquinha e deixar o
negócio sangrar. Acho que é herança de pai. Eu abraçava ele e o seu peito era
como de um gorila. Olhava pro seu rosto e ficava tão fácil entender a tal da
evolução. Comecei a duvidar de Deus, não por rebeldia, mais por constatação. Aquela
que diz que não foi Adão e Eva, mas fomos levantando e virando homem. Meu pai
não tinha terminado, estava no meio do caminho e deram alma de homem pra ele. Seu
rosto era igualzinho de um macaco. Suas mãos grandes pareciam cascas de árvore
centenária. Tentei ser menos animal que ele. Mesmo assim, conto em um dedo
quantas vezes falei pra Aninha do meu bem querer. Me arrependo tanto tanto! E
ela tão mais alta do que eu, difícil de alcançar, difícil de chegar até meus
ouvidos os seus grunhidos. Por um tempo achei que talvez fosse surda, por isso
falava tão mal. Não era isso, era desespero, era angústia porque mulher nunca
tinha vez. Era café com leite. Um dia, brava, Aninha gritou que queria bem ser
puta, deveria ter nascido já puta, porque puta falava, gemia. Puta pensava, era
boa na aritmética, fazia conta pra não ser roubada, cortava à faca homem
folgado. Mulher era que nem cachorro, só não tinha rabo por falta de destreza
de Deus, tinha que viver lambendo a bunda dos homens. Eu ia dizer que não era
assim, ela se virou, começou a mexer o doce no tacho grande e eu me esqueci de
discordar. Meu espírito era de pouco argumento. Ela também falava tão pouco,
sempre bordando no pano o mesmo morango. E nunca terminava. Chegava a me dar
enjoo tanta fartura. Queria plantar morangos, mas o tempo era ruim e os
morangos mofavam e morangos mofados traziam má sorte. Nos seus panos os
morangos eram vivos e carnudos e não morriam. Eram feito plantação bem cuidada,
plantio de rico. Um dia, por engano, tentei morder, arrancar a polpa. Aninha
gritou, disse que eu estava ficando louco, querendo comer ilusão. E que por
certo era a cachaça que tinha comido meu juízo. Coitada, não sabia que a
fantasia é que faz a gente mais feliz. Faz a gente grande, vistoso, carne
secando ao sol. Todos os homens que não acreditavam estão mortos agora e nem o
odor de sua carne chega até nossas narinas. É preciso um pouco de mentira pra
resistir. Todo suicida é um religioso esperando o perdão de Deus. E Deus está
ocupado com outras coisas, como catar piolho de cabelo de criança. Minha cabeça
queria mas minha cabeça dura não conhecia frase feita. Como sou feliz agora que
conheço todas as frases de pára-choque de caminhão. Minha mãezinha falava que
queria casar com caminhoneiro porque ele ia contar sobre as outras verdades que
ela não conhecia, ia trazer lembrança de cidade santa, ia trazer água do mar em
garrafa de tubaína. Se tivesse casado
com caminhoneiro todos os dias iria esperar na porta um novo homem, porque
quando o homem sai de sua terra e conhece terra estrangeira, ele já é outro. E
ela ajudaria ele a pintar as frases e apagar e escrever outra. Mãezinha não
conheceu marido, mas se deitou com muito caminhoneiro. Ela dizia que se a gente
não pode realizar um sonho inteiro, tem que se contentar com meio sonho. Também
se deitou com um pescador. Ele colocou o apelido dela no barco, mas o barco
logo naufragou. Ela nunca criou raízes, no entanto, ela não se entregou, não
soluçou, ela entendia de cartografia e sabia que gente parada num lugar só cria
micoses e as micoses distraiam sua solidão.
6 de ago. de 2012
A puta - VI
Por Marcia Barbieri
Antonio
Conselheiro arrastou muita gente pro seu bando. Não era bonito, mas trazia mel
na língua. Aqui é escuro, um mundo em cubículo, um cativeiro, ninho de cascavel
chocalho do diabo. As pedras são úmidas, nos encaram sem medo, restos de pele
humana servem de ornamento em suas gretas, seus grilos, a fenda é o clitóris da
rocha. Tateio por dentro da fenda e procuro o ponto G. Algumas mulheres trazem
argolas no pescoço, eu perfuro com platina meus pequenos lábios. Avô, mãe, pai,
primo, irmão, dormimos todos juntos. Não conhecemos o conceito de incesto, ele
se aniquilou junto com a civilização antiga. À noite sobe um cheiro de carniça,
de fêmur humano, de víscera podre. Posso afirmar que não há grandes diferenças
entre homens, símios e urubus, estamos todos à caça do próximo jantar. Dormíamos
todos dentro dessa caverna escura. Um clã. Um globo em miniatura. Parecia
que ele queria despovoar o mundo. Nômade vagabundo. ¿Ou seria um chifrudo
inconformado¿. A traição mais dolorida da história, é o que falam as más
línguas, sua mulher foi embora com um sargento. Depois disso virou
revolucionário, ficou vagando pelo mundo em busca de conforto. O coitado não
sabia que a felicidade é um dado viciado. Virou inimigo do Estado. No entanto,
na nossa terra ninguém sabia nada sobre as agruras da sociedade, éramos um
bocado de gente sem governo. O governo era só uma miragem, nossa terra era
abandonada à própria sorte e nós gostávamos disso, a destruição nos deu
autonomia. Nascemos todos cangaceiros. Sem crime e sem cadeia. Tiramos o bucho
de muito homem, de homem safado que não merecia viver. Deixávamos a tripa secar
no sol, empretecer, como se curte couro de touro, as formigas vinham e faziam
seu serviço, todas cúmplices dos nossos assassinatos. Então tínhamos certeza, éramos
inocentes. Éramos juízes e nossa sentença jamais era contestada. Nenhum homem
bom teve a pele riscada ou o corpo atravessado por bala. A morte vinha pros
escolhidos de Deus ou do Diabo. Inácio também abandonou o povoado. Inácio não
falava, só aprendeu a varrer o terreiro, ficar grunhindo e esfregando uma mão
na outra como se fosse fazer uma grande mágica, no entanto, suas mãos eram
estéreis assim como seu cérebro de mariposa. A burrice é o pior dos martírios. Aqui
os homens costumavam afrouxar as pregas com dez ou onze anos. Suas mãos jamais
devem ter presenciado o gozo, não servia nem pra punheteiro. Nunca procurou uma
puta pra se aliviar, nunca tinha se deitado com uma mulher nem comido o cu de
nenhum homem. Aqui os homens costumavam afrouxar as pregas com dez ou onze
anos. O idiota dizia que ia se guardar para a sua esposa. Ele não queria ter a
carne suja quando encontrasse a moça certa. E não existe mancha mais escura do
que nódoa de amor. Ficou noivo de uma sirigaita do outro lado do povoado. O que
vem do lado de lá provoca encanto, guarda segredo em punho fechado. Mal sabia
ele que alguns mistérios trazem escorpiões no bolso. Talvez os ingênuos não
sofram. O casamento estava marcado. Quando o juiz chegou pra fazer o casamento
a moça estava mais gorda que uma porca em véspera de matança. Estava prenha.
Jurou que era do espírito santo. Inácio agradeceu e louvou a Deus por tamanha
graça. Depois do primeiro filho, vieram mais quatro, todos do espírito santo e
Inácio sempre louvando por ser o escolhido. Depois disso começou a bater
punheta, já que não podia macular uma mulher santa. Ofereci ajuda abrindo
minhas pernas, ele nem sequer olhou de esguelha. Várias vezes tentei descobrir
porque ele vivia se escondendo nas barras daquele homem, inútil, ele tinha medo
de mim. Dizia que eu era uma bruxa louca sem chapéu, que tinha fugido do
hospício e que transformei um povoado santo num prostíbulo. Fiquei feliz com o
título, mesmo sabendo que as putas nasceram antes de Deus e eu não era
responsável por nada. Além disso, jamais conheci uma casa de loucos, mas
imagino que não seja muito diferente dessas encruzilhadas, desses escarros escuros
misturados na poeira amarela dos dias.
6 de jul. de 2012
A puta - V
Por Marcia Barbieri
Antes
da guerra, era tudo resolvido em clínicas caras para os ricos ou clandestinas
para os pobres. No entanto, hoje voltamos ao misticismo, hoje minha mãe é uma
das pessoas mais importantes do bando. Ela faz papel de parteira e médica,
expulsa os demônios dos corpos. Inventa remédios com as ervas daninhas. A
doença também traz o germe da cura. As pessoas que sobraram da guerra não eram
as mais cultas, por isso a dificuldade em conseguirmos retomar toda a ciência
que foi perdida. Mas sabíamos de uma coisa importante, as coisas nascem,
crescem e morrem. Nossa antiga civilização entrou em declínio e se extinguiu,
tivemos que recomeçar do zero. Logo percebi que para as putas não tinha mudado
muita coisa. Nosso trabalho continuava o mesmo, com a diferença que agora não
tínhamos mais nenhuma proteção contra as doenças do sexo. No entanto, passei
muito tempo sendo comida sem sentir nenhum desconforto. Apenas a herpes
recorrente, mas eu já trazia ela na boca antes do extermínio. Perdi a audição
de um dos ouvidos depois da guerra. O tiro percorreu quilômetros e depois se
aquietou, me esperando em
emboscada. A bala passou sorrateira, atravessou meu crânio e
está perdida no meio ziguezagueante do meu cérebro. Escuto dedos mortos sobre a
madeira porosa, ainda decifro código morse. Ninguém usa isso, eu sei. Não serve
pra nada, quem se importa com as inutilidades que carrego? O supérfluo engana o
sofrimento. As manchas brancas espalhadas no seio do nada. Procuro um objeto
inominável. Ele deve estar escondido nos buracos mais ínfimos. Ele deve
suspeitar que estou à espreita. Ele se esconde nas estrias do útero. Passo a
mão no meio das coxas – procuro um objeto inominável - subo até a virilha, em
volta do prazer os pelos voltaram a crescer, grossos, pretos, sujos,
emaranhados. Alguns homens têm tara por vaginas
peludas. Tenho deixado a minha por conta do tempo. O tamanho dos pelos me
servem de calendário. As mães e as putas sabem de tudo, são onipresentes como o
diabo. Conhecem cada centímetro imundo do homem e ele não as surpreende. Todas
as suas unhas encravadas, os olhos de peixe na sola do pé vigiando os seus passos
mais sórdidos. Eles abrem seus corações e estes fedem como esgoto a céu aberto.
Teria pena de meu inimigo se ele tivesse que partilhar a mesa com um homem.
Tenho pena das esposas que se consideram melhores do que as putas. Tenho pena
do homem que se considera melhor do que o bicho. Nunca cobrei barato pra chupar
um pau. E já fui chupada sem pagar nada. Hoje sou uma das putas mais ricas
desse vilarejo. Sempre cobrei a preço de ouro. Buceta dourada, sou conhecida
assim pelas redondezas e pelo cacoete nas partes baixas. Posso te mostrar
depois. Lá naquele cantinho. Sou discreta, seus superiores não saberão. É só eu
abrir as pernas. Se quiser subo a saia aqui mesmo. A saia foi a melhor invenção
da humanidade. Quer que eu me toque pra você? Você verá, vai se sentir até
pequeno. Já engoli muito homem valente com isso aqui. Você gosta de mulher? Tem
bigode de quem gosta. Se quiser pode me pegar por trás. Já dormi com muito
viado. Ninguém está contente com sua terra, todos querem ser protagonistas, no
entanto, não passam de coadjuvantes. Quantas vezes eu mesma me engasguei com
torrões de terra estrangeira, tive viagens alucinantes com cogumelos de outros
pastos. Também já dormi com muitos geógrafos, eles percorrem cada canto do
corpo calculando escalas. Eu os ajudava com as réguas e os metros, calculava os
tremores que não ocorriam, furtava água dos açudes. Não estou me desviando do
assunto, é que todo discurso é vago e sem fronteira, geografia sinuosa. Nunca
descobri resposta quando fiz pergunta, as coisas foram se colocando no lugar
depois, como um tremor acomodando placas tectônicas, com o vagar que as coisas
costumam ter, com o esquecimento bonito e brutal que vem com os temporais. Com
a podridão das sementes que morrem alagadas depois das chuvas intensas.
6 de jun. de 2012
A puta - IV
Por Marcia Barbieri
A
vastidão é triste vista de longe – buraco-ruína de dente. Cachorro morto de
asfalto. ?Quantos cachorros agonizantes já chutou na porta de casa? Esparrame o
pranto no umbral. O poeta inventou o riso para se redimir dos seus suicídios. Esquecer
os cadáveres frescos que traz no dorso. O sol parte todos os dias atrás das
suas costas. ?Quantos poentes podem suportar suas vértebras? Atrás de mim
sempre é ontem. Morri trezentas vezes e trezentas vezes me levantei. Quebraram
todas as minhas pernas de pau. Rasparam minha carne, sugaram todo meu tutano. Arrancaram
meus molares com alicate. Me recomponho feito lagartixa branca de parede. Lagarto
amarelo antes da criação. Fóssil fajuto dos meus ancestrais. Deus é só uma abstração, um coro grego
sussurrou no meu ouvido são. Poucas coisas permaneceram intactas depois do
nascimento, depois que o embrião cresceu retorceu, cuspiu no útero. Tragicômica
as chacinas de criança. A guerra é um método menos perverso de controle de
natalidade, afirmam. Matam mães e pais em potencial. Sem foda
não há cria. Irmãos comeram irmãos e se inventou o incesto. Irmãos deceparam as
cabeças de irmãos e se inventou o homicídio. Quebraram os dentes e se inventou
o riso. Em sociedades primitivas a guerra é menos necessária. Pratica-se o
infanticídio. Crianças são jogadas do colo materno ou esquecidas sem alimentos.
Aqui também tudo está voltando ao tempo
mítico. Perdemos tudo. A população se reduziu a quase nada. Os poucos que
ficaram resolveram se dispersar, quando menos gente por quilômetro quadrado,
mais fácil sobreviver, os alimentos demoram mais a terminar. Ainda assim eu
resolvi ficar com o que sobrou da minha família, ou seja, minha mãe e tentar
reconstruir a vida. Não temos mais casas confortáveis, tecnologia ou comida.
Voltamos a condição de meros coletores e caçadores. E ainda assim a caça é
escassa. A terra ficou infértil por causa dos produtos químicos das bombas. Todo
o conhecimento adquirido se reduziu a cinzas e os avanços médicos, bem,
acabaram morrendo com os últimos doutores. Temos apenas um médico, ele foi um
dos sobreviventes, mas por ironia do destino, ele pertencia a uma família nobre,
seu diploma foi comprado, seus pais faziam questão que ele fosse um doutor,
porém, ele jamais se interessou por medicina. Ele tinha tudo que queria, não
precisava trabalhar e por isso ficava o dia todo lendo livros eróticos. Era
doutor só na placa. Também sou uma das poucas sobreviventes e por um motivo
inexplicável estou viva a mais de cem anos, embora não aparente mais que
quarenta. Minha mãe voltou a ter o prestígio de antes. Nos tempos modernos
ninguém mais dava a mínima para uma curandeira ou uma xamã. Na parede de barro
se estende dois metros de garrafas com ervas dentro, são plantas e raízes de
todas as cores e tamanhos. Minha mãe conseguiu recuperar uma raiz de mandrágora
no meio da ruína, graças a ela agora podemos usufruir do poder desse
alucinógeno e como todos sobreviveriam ao passado sem entorpecer¿ Era necessário
uma distração para nossos sofrimentos. Eu gostava de olhar a mandrágora se
desenvolvendo dentro do pote, seus membros se esparramando na transparência da
água, parecia um líquido amniótico, qualquer coisa poderia nascer dali, um
monstro horrendo, um demente ou uma criança inocente, no entanto, nunca
acreditei na inocência, nada bom poderia nascer de forma tão explícita, mostrar
os órgãos se constituindo de forma tão obscena. Era como ver um feto crescendo
dentro de uma garrafa de vidro. Mãe gostava de contar a história de um menino
calado, um menino gordo, esverdeado e mudo, ninguém sabia ao certo a origem dele,
mas todos desconfiavam, alguns dizem terem visto como ele apareceu. Afirmavam
que ele era uma mandrágora, mas que foi se desenvolvendo tanto e tanto que
acabou por encarnar e criar alma.
5 de mai. de 2012
A puta - III
Por Marcia Barbieri
Traças
adormecem entre as frestas. Elas estão assim há trinta anos, como um olho cego
na cara de um suicida. As suas feridas continuam alastrando o oco do seu corpo,
o vácuo da sua alma. As fuligens dos objetos inanimados grudam nas suas
órbitas. Ninguém irá ajudá-lo, as coisas mudaram. Você continua ingênuo,
procurando respostas num mundo antigo, que se desfez fácil como uma malha mal
tecida. Não temos mais médicos para aplicar injeções milagrosas. Os
antibióticos não estão mais ao nosso alcance. Teremos que voltar nossas mãos
para o alto e clamar por alguma divindade, qualquer uma serve, um céu, um sol.
Mas se preferir posso pedir que minha mãe te benza, ela é curandeira, basta ela
tomar um chá e entra em transe, se comunica com o sagrado. Eu sei que é pouco
para um filósofo, mas para quem acredita piamente no Ser, não acho tão
descabido crer em rezas e ramos santos. Quantos tomos de livros precisou ler
para não crer em nada¿ Você é um cético de proveta, não é genuíno. Não foi a
vida que te fez descrente, foram suas conversas de rodapé, notas no fim da
página. Qual dos seus filósofos te salvou da ruína ou da gonorréia? Mesmo
doente você continuou soberbo, continuou utilizando dialetos incompreensíveis,
não queria se misturar a grande massa de ignorantes. Você costumava dizer que a
mulher trazia o sêmen da desgraça, por isso se manteve casto por muitos anos.
Você estava certo, a buceta é um buraco infectado. Você também trazia o leite
infectado no seu pau, ele estava em carne viva, vertia uma pus esverdeada e fétida,
e o que as mentes evoluídas fizeram por você? Nenhum deles quis te fazer a
punção, com medo de se contaminar. Você também sentiu medo, pediu que eu
passasse minhas mãos nas suas costas. Um bicho mimado. Eu recusei, você tinha a
pele escamosa e seca, como a de um peixe que vive fora de seu habitat. Pensei
nos axolotes que nunca conheci, na sua semelhança mórbida com os homens. Você
demorou a aprender que os verbos estão distantes da ação. O corpo é a casa dos
fortes, a alma é para quem tem tempo sobrando. A sua glande ainda traz
cicatrizes de outros úteros, outras línguas, outras tragédias. Não assisto mais
aos seus espetáculos. Você não encarava sóbrio a tristeza, me pedia para fazer
a infusão com alguma planta alucinógena (as mandrágoras que cresciam ao lado do
cemitério dos não nascidos), depois deitava sozinho no escuro e batia cinco
punhetas seguidas, como se o prazer fosse capaz de compensar a dor. O prazer e
a dor são frutos do mesmo escarro. Eu sabia que era inútil, no entanto, não via
motivo para alertá-lo. Ninguém me avisou, tem coisas que somos obrigados a
enxergar sozinhos. Não adianta a ducha para se limpar, a sua carne-músculo traz
rachaduras, uma parede mal erguida, frágil nas estruturas mais primitivas.
Acaricio com o dorso da língua suas fendas embrionárias, você se originou
assim, homem bífido. Filho de uma placenta descolada. Não precisa me explicar,
me poupe dos seus discursos vazios, você não tem mais platéia, todos os seus
discípulos estão mortos, vagueiam na brancura fosca do nada. Você não vale um
centavo e eu poderia esfaqueá-lo sem remorsos. Esfaqueá-lo como se faz com as
marionetes depois das encenações. Poderia cortar todas as cordas e assistir ao seu despencar. Prefiro me tocar
enquanto trago um cigarro cubano, eles me acalmam. Fico imaginando como é o
sexo dos homens cubanos, será que tem o cheiro forte como o dos cigarros¿ Penso
no dedilhar dos músicos. Passo as mãos na parte interna das minhas coxas, vejo
que elas começam a ficar flácidas, em compensação meus pelos pubianos ainda
estão pretos, não vislumbro nenhum fio descolorido, ainda verto água, enquanto
a água verter estou viva. Choro pelo cacto que um dia nascerá na minha vulva,
então ela será terra seca, granulada. Olho pelo buraco por onde a chave deveria
atravessar. Vejo homens solitários contando as dobras do intestino. Contam até
dez e dão um nó e contam novamente até esgotar todas as possibilidades
matemáticas. Solidão - progressão geométrica.
6 de abr. de 2012
A puta - II
Por Márcia Barbieri
Me
masturbo, brinco com o clitóris e na clareira branca enxergo a vagina inchada
de Deus, linda reluzente no meio das pernas. Não me olhe com os cantos fingidos
dos olhos - uma rocha se eleva na sua fronte - foi você que escolheu essa
liquidez, essa viagem em torno do duodeno do universo, eu sou sólida, matéria
bruta, simplificação. A tua não-forma não me serve pra nada. Ser escorregadio
não é qualidade, é fuga, é covardia. Gosto de homens fracos, porque é como se
eu possuísse os seus membros e pudesse a qualquer hora amputá-los. Prefiro
viver retirando as vértebras com o alicate para caber nesse cubículo que é o
mundo a me sujeitar, me embrenhar na sua pele de lagarto ressuscitado. Não
posso pagar para que me contemple. O mar existe e não precisa de você, encare
isso com sensatez. Súplicas se igualam a línguas roxas de cães mortos. Quando
estou acocorada sobre seu medo penso na força das mandíbulas dos crocodilos. Me
perdoe se aqui seus livros servem apenas para acender fogueiras e suas teorias
não passam de alucinações de uma mente doentia. Estendo meu braço para que você
faça as suas inoculações, enquanto me perco num riso convulsivo. Tua moeda não
pode ser contabilizada. Teu sacrifício é tempestade de meteoros em noites de
seca. Você se distrai contando os nódulos da sua carne, acredita que os cistos
nascem nos espíritos bem dotados, superiores. Faço um corte na coxa e enfio
seus dedos, quero que veja que a realidade é suja, obscena. Você reluta, no
entanto, acaba gostando do cheiro do sangue, lambe disfarçadamente o dedo
médio. O amor já traz no embrião-nascimento a fissura do desmoronamento. Povoados
inteiros foram exterminados, bem ou mal sobrevivemos à catástrofe. Retiramos
com cuidado os estilhaços. E você fica aí contemplando as ruínas para
descrevê-las. Diz que o mundo recomeçará pela narrativa da destruição. Depois
da chuva, vem o sol e depois do sol as formigas grandes brotam da terra,
prontas pra morrer. Reviramos durante várias noites e assustamos a nós mesmos.
Retiramos as máscaras, mas as carrancas continuam lá. A farsa continua lá, a
argila deformando a cara. O esboço ri da pretensão da obra acabada. Quando
crianças nossa maldade era dissimulada pela ignorância. Agora querem respostas,
apenas os loucos e os artistas esboçam hipóteses. A arte é uma forma segura de
preservar a vida, de torná-la menos irrisória, menos miserável, um tanto
cômica. A vida seria insuportável se não pudesse ser narrada. Driblada entre
uma vírgula e outra. Uma fogueira conta uma história e continua. O fogo se
extingue e continua. Quem conta um conto se desfaz em devaneios. Era uma
vez. No princípio, o Todo Poderoso criou os céus e a terra. A terra estava
informe e vazia. Os vermes ainda não corrompiam a carne porosa de Deus. Agora
depois do apocalipse a terra volta ao vácuo, à insipidez. Olho pela fresta da
janela de madeira podre, montes de sal vão se perdendo aos poucos. Me alimento
dessa perda, desse desgaste natural.α
De longe é bonito ver a brancura, chegamos mais perto e o vento sopra salgado
em nossas bocas, resseca-racha a pele. Minha herpes estourou pela sexta vez
esse ano. Imunidade baixa, é o que dizem. Os morféticos não desistem de me
perseguir. Um parafuso enferrujado atravessa a tarde. A existência vai se
estreitando se cabendo em
si. Perde o sentido. Sim, não me importo, vou começar de novo
para que me entenda melhor. Foi isso mesmo que escutou. Não é devaneio. Um
homem grande e forte arrastava alguma coisa, devia ser um corpo ou uma carcaça
(de animal?). Ele mancava. Não dava pra saber se o sangue era da sua perna
deficiente ou do corpo que arrastava com um pouco de dificuldade. O negócio é
que nevava, a noite estava tão branca que tive a sensação que a cocaína cobria
o mundo (embora agora, depois da guerra, era raro conseguir tal droga) e isso
era bom. Respirei fundo. Eu sei, eu sei, aqui não costuma nevar, mas naquela
madrugada... O certo é que não sei direito como adormeci nem o que sonhei,
parecia que eu tinha levado uma bordoada na nuca e quando acordei, embora o sol
não estivesse forte, afinal, era outono, a neve já tinha derretido, nem o homem
nem a carcaça estavam mais lá. Parece difícil de acreditar, no entanto, foi
isso que aconteceu. Pode escrever aí. (Continuo) Aprendi a jogar tarôt para me
distrair, fingir adivinhar o que é tão óbvio. A vida começa a recobrar o
sentido, estendo a toalha branca sobre a mesa, coloco as cartas - o enforcado,
ela se ressuscita estrangulada nos vãos obscenos da laringe e da epiglote.
Engolida a palo seco. A garganta é o esboço da buceta. E tenho joanetes na
buceta. Todos os dias nos enfiam um pau duro no rabo. E tiram antes que se
chegue ao gozo. Conto na rachadura dos
dias todos os meus coitos interrompidos. A ressaca rasga-rompe as manhãs.
Anunciação. Mais uma vez gritam, mais uma vez o eco responde Anunciação. Gosto
dos brejos e dos rios temporários, que de vez em quando são deserto, promessa,
espera de chuva, morada de caranguejo, criança caminhando no fundo. Crescemos e
boiamos na superfície, matéria aerada, zunido de besouro, furúnculo na
perfeição de Deus. Os olhos dos caranguejos me assustam, são móveis, olhos
humanos, acusadores. Não que a culpa me seja um dom. Não herdei essa culpa que
faz do homem um ser caridoso. Advogo para os monstros. Faço vivissecções em
cães raivosos. Não acredito em réus primários. Não existe a quem recorrer-
todos juízes da própria carne. Os cavalos escutam apenas os seus trotes cada um
que cuide do seu casco. O meu é único, pouso de moscas. Alívio de larva. O que
imaginou? Alguém pedindo licença e retirando seus escombros? Alguém lambendo tua
mortalha? Vigiando seus passos? Aqui os olhos são duas covas no meio da cara.
Aqui todos os mortos são enterrados nus. Os músculos são descolados dos ossos,
rompidos feito elástico podre. As roupas são dadas aos jovens e as jóias
roubadas pelos mais espertos. Nada se leva da vida. Que fique bem claro. Não se
engana o diabo. Caminhe sem tirar os pés da lama. Confie em mim, você não
afundará, sua alma tem o peso dos desacordados. Grite à vontade, o som não se
propaga no vácuo. A única coisa que pode fazer é contar as feridas, os
arranhões para esquecer as tripas expostas, lamber o esperma que escorre do seu
abdômen, se alimentar de você mesmo. As pústulas ainda se espalham rapidamente
pelo seu corpo, em breve você partirá. Acordo e mantenho as janelas cerradas.
α quando
criança me admirava da onipotência da erosão, do seu poder de mudar as formas das coisas grandes, ainda hoje ela me
assusta
6 de mar. de 2012
A puta - I
Por Marcia Barbieri
α[Prelúdio]. Sim. Foi isso. Não me lembro exatamente da posição dos
corpos. Direita, esquerda, sempre fui uma pessoa confusa. Depois a tempestade e
a água vindo e a enxurrada despencando nas zonas abissais do tempo. A outra
orelha do silêncio. A boca escancarada de Deus. Salivei recordando a finitude
da minha carne, a curva perigosa da anca, os meus buracos desviando a atenção
dos homens, as estrias indicando o caminho, os pelos encravados gerando abscessos.
Sinal de sorte, alguns tolos diziam. Cisão, li essa palavra em alguma narrativa
e nunca mais esqueci. Cindida, era assim que eu era desde o começo, quando a
baba povoava o queixo, quando ainda não tinha a noção de que as coisas se
dividiam em períodos e a minha coluna vertebral ainda se prolongava em um rabo.
Às vezes, ainda sinto dores no rabo, como se meu cóccix não tivesse fim, um
apêndice do mundo. Colo o ouvido na parede. Um barulho de faca afiando a pedra. .O aço amortecendo o sonho da rocha coalhando o chão decantando a vida. Vidros
moídos com as mãos inábeis de um louco. Loucos detestam espelhos. Duplos. O
dedo era um só (penso na solidão das masturbações) e eram múltiplas as
impressões digitais. Homens refratários. Olho minha face de relance. Uma
formiga me distrai. Não tenho coragem de me encarar demoradamente. As acnes abandonaram
minha pele. Nada mais recorda a juventude. Aqui a moldura laranja se desprende
do espelho. Tento desencaixar, não consigo, minhas mãos tremem. Escuto o
amolador de facas arrastando seu carrinho. Um dos únicos sobreviventes. Um
resto de cocaína se espreme entre meu rosto e a moldura. Coloco um pouco na
ponta da língua para verificar se é da boa. O cheiro é o início da perdição. O
odor é branco, quase cega. Olho de frente, olho de perfil, de esguelha, meu
rosto se dilata, se contrai numa espécie de pompoarismo. A boca expulsando o
embrião adormecido. Lá fora o mesmo buraco. O chão ocupando espaço. Planta
rasteira fingindo arbusto. Os ossos se amontoando num canto. As moscas gordas
boiando no ar pesado. O nascimento esquizofrênico do sol. Meus joelhos doem.
Não aguento mais ficar agachada para me enquadrar. A vida inteira acocorada
para se desviar do poente. Raios e diâmetros medindo a ausência. A distância é
mais fluída do que podíamos imaginar. Meu corpo sofre a erosão dos ventos. Os
vivos imitam os rituais dos mortos. Um punhal corta o lume fosco da noite.
Risca o mundo ao meio. Xilogravura bem talhada. Anoitece apesar de mim. Amanhece
apesar de Deus. Grafiti nos muros brancos que separam a Vila do resto da
humanidade. O humano cheira a ferro corroído. Desova de peixes. Mãe depois do
parto. Cachorro molhado. Ontem o pescador ficou por quatro horas olhando as
águas baterem nas rochas. O gosto das sementes que acabaram com as lavouras
ainda está flutuando na minha saliva. Examino o mundo e mordo a língua. O meu
cuspe é espesso, caustico, tem gosto de ódio antigo. A ruindade me tornou
múltipla, carne vasta, raiz forte espalhada entre os túmulos de gente estranha.
Meus membros são estrangeiros e distantes dos meus dedos. Não tenho pena dos
homens que lamentam a sorte. A fraqueza me enoja. Não dou conselhos a suicidas.
Ainda assim rezo por eles. Planto folhas de arruda atrás da orelha. Nenhuma
mostra inclinação pra nascer. Me calo. O silêncio assombroso do leite derramando
e espalhando a nata grossa. Camuflando a brasa. Engordurando a madrugada. Embranquecendo
a vista esburacando a mucosa nos desfazendo revirando o intestino assoprando no
seu ânus de merda. As duchas intestinais não resolvem mais o problema, é tua
alma que está contaminada. Tua medula óssea verte mágoas e você não pode
suportá-las. Você nem sequer sabe a diferença entre um risco e um corte
profundo. Você esqueceu sua língua entre minhas pernas e agora é um homem
mudo. Estrangulado pelo silêncio. A
mudez corrompe mais do que a multidão. Seu ventre abaulado disputa espaço entre
as serpentes. ¿Pra que continuar inventando mentiras se já sei de tudo¿ E o
carrasco discorre horas e horas sobre humanismo enquanto você lambe meu cu
feito um cachorro desesperado. Você sabe que tudo deu errado, você não está
mais no controle. Nunca gostei de dormir com filósofos. Entre uma foda e outra
metafísica furada. Pede desculpas pelo prazer que não me deu. Sou bicho, é só
isso que quero ser, não tente me tornar menos animalesca. Não tente explicar um
prazer furtado para uma cadela. A língua daquele filósofo filho da puta não é
capaz de me proporcionar orgasmos. Ao contrário, sua língua densa me entristece
me empurra pra fora do mundo e me rotula de mulher pública. Minha vagina um
buraco negro, uma anti-matéria, um nada ancestral. Não nascer é melhor do que
viver no uivo. Horas e horas de cálculos de latitudes e longitudes, nomes de
constelações, estrelas em formas de animais terrenos, hidra cão urso escorpião,
uma astronomia de abismos. Como esquadrinhar minha buceta sem sublimar-desaparecer?
α avistei
homens chupando com desespero (ou seria fome?) as falanges de um primata,
estavam em roda, uma fogueira esquentava o olho vesgo da madrugada.
21 de fev. de 2012
Nova série n'O BULE: A puta
Por Marcia Barbieri
Caros leitores d’O BULE,
Caros leitores d’O BULE,
A puta é um romance inédito e em processo de produção, ele será publicado em formato de folhetim no dia 6 de cada mês. Embora ele não seja dividido por capítulos, utilizarei a capitulação apenas para fins de organização durante a publicação no site.
Repasso a opinião de alguns não-leitores sobre a narrativa A puta:
Leitor número 1: O nome é excitante, imagino que a narrativa seja bem picante!
Leitor número 2: Se eu fosse você eu venderia no Sex Shop.
Leitor número 3: Você não tem vergonha de escrever romances desse tipo? Eu morreria de vergonha... Eu sei que é só literatura, sei que não é autobiográfico, não é autobiográfico, é?
Então, espero vocês no dia 6 de março!!!
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