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12 de jun. de 2026

Com a grandeza de uma menina

 

Por Allyne Fiorentino 

__  Ai, eu acho que não quero falar, não. Eu tenho vergonha. O que eu preciso mesmo dizer? 

__ Diga o que você quiser, Bianca. Agradeça pelo ano, incentive-os. Nada demais, improvisa. 

__ Ah! Não. Olha as minhas bochechas, eu já estou toda vermelha. Meu coração acelerado, daqui a pouco as mãos estão suando. Não quero. 

__ Bem, eu vou começar falando, depois vou abrir o microfone para quem quiser falar. Vai pensando aí... Se você quiser, lá na hora, você fala. 

Disse isso já com a mão na maçaneta da porta, prestes a entrar. Eu, que também estava lá fora verificando uma série de dinâmicas que tínhamos planejado, consegui ouvir esse finalzinho de conversa enquanto entrava na sala juntamente com os dois. Quando entramos, todos estavam já sentados em círculo, com as camisetinhas “Somos Foda” bombando no peito, os projetores ligados, coffee breake servido, ouvidos atentos para o que o chefe iria dizer sobre o trabalho que fizeram durante todo o ano que passou e sobre as grandes e prósperas oportunidades que teriam no ano posterior. Sobre isso ele teria de ser criativo porque nem ele sabia o que estava por vir, mas ele nos ensinava que há sempre alguma coisa por vir, embora ela não tenha vindo nunca. 

O importante era ser resiliente, envergar sem quebrar, ser maleável, cair e levantar depressa, dar a volta no problema, voar como a águia, ser inteligente como o lobo. Sempre me perguntei por que as cobras e as hienas nunca eram usadas como exemplos de característica que um humano deveria seguir. Uma pena, já que a cobra é fria e se rasteja aos pés dos outros, e a hiena, quase brasileira, ela ri dos seus problemas, tudo isso fazíamos sempre. Eu mesma desconfiava que éramos apenas bichos bestas e acuados, mas isso não vinha ao caso naquele momento. 

E foi gráfico colorido pra cá, gráfico animado pra lá, números incríveis, que realmente parecem ser incríveis, no sentido de não críveis mesmo: é muito trabalho pra pouco funcionário! Faltou só jogarem fumaça e um estroboscópio e estaria arrumada a festa. Os slides cada vez mais ousados, com músicas de impacto e tudo – o designer estava quase formado em marketing, já que tinha que transformar um grão de areia em uma praia inteira, com direito a coco e a guarda-sol. 

Claro que tudo poderia ter sido resumido em uma hora de conversa, mas, como ele sempre nos ensinou, o mundo corporativo não é exatamente sobre “o quê”, mas sobre o “como”. É sobre que tipo de show é possível produzir com quase nada. O chefe não entendia que a filosofia dele se aplicava a qualquer coisa, ele mesmo não fazia ideia da grandeza daquilo que ele dizia. Não por ser uma técnica a ser seguida, mas como um Guy Debord, sem saber que estava descrevendo uma sociedade de espetáculo. A diferença é que Debord denunciava; e o chefe, bom, ele era coach, ele, por vezes, mentia e acreditava na sua própria mentira. É até divertido esse jogo, a gente tentar encontrar nas pessoas a “autopsicopatia”, palavra que devo ter inventado, mas seria o quanto você é capaz de se autoenganar, assim como enganaria a qualquer um. 

Mas a Bianca estava lá, fazendo a sua cara de boazinha sempre, sendo fofa e doce, como o chefe gostava. Resiliente, ele diria. Eu teria outras palavras para isso, menos bonitas, mais realistas, menos machistas, mas se eu as dissesse, não teria a grandeza de uma menina, nem de uma mulher, nem estaria em versos de música do Cidade Negra, por exemplo... Seria uma mulher sem grandeza se eu dissesse a verdade sobre o que os homens acham que é uma mulher grande: aquela que se apequena para eles. 

O chefe finalmente havia terminado e abriu o microfone para quem quisesse falar, olhou pra Bianca – ela corou. Ficou assim por alguns segundos, entre “vou ou não vou?”, “será que tenho competência pra isso?”, “será que tenho o que dizer?”. 

Nisso o chefe coach tinha razão, era preciso aproveitar as oportunidades que apareciam, porque nesses segundos em que Bianca pensava se ela era “grande” ou não, o supervisor se adiantou, pegou o microfone e começou a falar, com segurança, com a mão firme, a voz clara, sem tremer, sem gaguejar, sem titubear, sobre educação e liderança, como se sempre tivesse feito aquilo. Ele, que nem era daquela área, não entendia nada daquilo, mas era homem. E Bianca? Ela era a coordenadora e tinha muitos diplomas sobre aquilo que ele estava falando. 

É que o verso da música estava errado: pra ser homem sempre tiveram de se aproveitar da grandeza de uma mulher. 

Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia. 

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

14 de abr. de 2026

Magnificente Sky

 

Por Allyne Fiorentino 

Já reparou que as formigas não comem mais açúcar puro? Se você deixar alguns grãozinhos sobre uma superfície qualquer, poderá ver que nada acontece como antigamente. Não formarão aquele desenho bonito que temos na cabeça, aquele formato de “sol de formigas” envolta de um doce. Sabe? Isso não acontece mais. Não foram as formigas que mudaram, foi o açúcar. 

Meu cachorro teima em não comer pão de forma: ele cheira, cheira e identifica com seu olfato uma gama de químicos que pode ter ali e vai embora sem comer. Se recusa. Esperto ele. Também nunca vi formiga comer pão de forma, embora deva ser um dos pães mais consumidos no país. É sábio não comer e beber de qualquer fonte envenenada, ainda que todos o façam. Ah! Mas é um vício. É mesmo. Vício é aquilo que você faz mesmo sabendo que te faz mal. É mais do que químico, é moral e temporal, eu diria. Temporal? Sim, uma formiga comum tem apenas 2 anos de vida, ela sabe da sua finitude, então não arriscaria ceifar sua vida por bobagens. Nós temos mais tempo e isso nos ilude. Já a moral, bom, essa sabemos mesmo que somos precários, principalmente quando se trata de nós com nós mesmos.

Mas eu vou te mostrar uma coisa. Está vendo ali, perto daquelas nuvens acinzentadas, aquele magnífico pote de doces? Uau! É enorme. Sim, e ele é infinitamente abastecido, de forma que nunca acaba. Que loucura! E o que são aqueles pontinhos? Ah! Aquilo? São pessoas. Pessoas? Sim, um pequeno grupo de pessoas. Vamos chegar mais perto pra ver. Estão todas lambuzadas dessa espécie de “mel”. Olha a barriga deles! Está até grande de tanto comer esse doce maluco desse pote. O que tem nesse doce? Hum... é uma mistura de muitas coisas, não posso te dizer exatamente a receita, mas pra ficar mais palatável, nós o tingimos de dourado, mas a cor original era vermelho-sangue. 

Mas o mais magnífico é o que você vai ver lá embaixo. Tome, use esse binóculo! Embaixo? Sim, não vê que esse pote está no topo de uma escada? Ah! É verdade, eu nem tinha reparado. É uma escada longa, está bem suja, nojenta, precária, parece viscosa de tanta sujeira. Aquilo são ossos? Hum... vamos deixar esses detalhes pra depois. Olha o que tem perto do início da escada. Um trilhão de pontinhos... Não vá me dizer que são pessoas. Precisamente, são pessoas! Parece que vez ou outra elas brigam, vejam como são animalescas! É mais legal quando estão assim, é meio chato quando estão tristes e cansados. Aí não tem muita graça, alguns até se matam. 

Mas o que eles querem, afinal? O que eles querem é subir a escada. Pra quê? Pra comer daquele doce. Eles quase são famintos. Muitos não têm nada pra comer. E o restante, come o suficiente pra sobreviver. Isso não tem feito muito sentido pra mim. Por que diz isso? Aposto que você já entendeu. A escada. Isso, exatamente, você entendeu tudo! Ela é precária pelo que vi. Calculando a quantidade de pessoas lá embaixo, elas facilmente conseguem derrubá-la, é uma escada podre e frágil. Assim, o pote cairia lá embaixo e todos poderiam comer. Sim, não é magnífico? E por que eles não fazem isso? Aí é que vem a nossa maior diabolice. Eles não querem dividir o pote de doces infinito. São egoístas. Cada um pensa por si, acham que o único jeito de solucionar esse problema é subir a escada. Em vez de destruí-la, eles a protegem com todo o fervor, na esperança de um dia conseguir chegar lá em cima. Isso é diabólico mesmo! Estou impressionada. Nada disso, você ainda nem viu o maior plot twist desse jogo que inventamos! Vou pegar um binóculo de maior alcance pra você. Tome! Esse fará você vê-los lá embaixo, bem de pertinho. Oh! Meu deus do céu magnífico... Isso é terrivelmente desumano... Genial, não é? Eles não têm pernas. 

— Estamos recebendo uma bordoada de todos os lados. Se aplicarem essa tal lei Magnitisky, estamos fodidos. 

— Desculpa, sr. Marcelo, eu viajei legal aqui, estava com os pensamentos em uma história que me veio na cabeça... Sabe como é escritor, né? O que o senhor disse mesmo? 

— Que as coisas funcionam como sempre funcionaram, não tem o que fazer. Já terminei de limpar sua mesa, fia. Agora vou limpar outros escritórios. Mas depois eu volto aqui pra gente continuar proseando. Eu li agora a pouco que vão proibir as pessoas de terem iates! Esses canalhas! 

— Mas o senhor não tem um iate! 

— Mas e se um dia eu tiver, não é? 

 

Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

24 de jan. de 2026

Sussurros



Por Allyne Fiorentino 

Tenho teorias absurdas sobre ecos. Eles sussurram em meus ouvidos, reclamando que já haviam sido ditos e só estão retornando para lembrar que somos surdos, embora toda a nossa vida seja movida a hálitos. Há um milhão de vozes suspirando ao nosso redor, contando nossa história, como menestréis. Desde ordinárias coisas até eventos grandiosos e traumáticos. Você não ouve, mas se prestar atenção direitinho... 

Há muitos anos eu ouvi sobre ausentar-se pela primeira vez. Naquele dia, ela disse, e eu lembro de prestar muita atenção: ser adulto é saber lidar com a distância. Não havia motivo nenhum para que isso me consternasse naquela época — eu vivia com a minha família e meu desejo ainda se concentrava em furar a membrana do útero que, aos nos tornarmos adultos, vira prisão. 

Mas aquilo me tocou: ela, vinda de outra cidade para nos dar aulas, tinha, claro, abdicado do convívio com a sua família para seguir sua carreira. E com a frieza típica das mulheres fortes — sem emoção nos olhos, mas com pausas um pouco mais alongadas — ela falava sobre a avó e o tempo de “não convívio”. Nós abdicamos de um tempo para construir outros tempos. Ser adulto é isso: tomar as rédeas do tempo que te resta. 

A sala estava cheia. Ela falava tudo aquilo para mim, sem saber. Eu escutava atenta, também sem saber que aquilo era para mim. Eram os sussurros do tempo dela soprando o tempo que eu deveria deixar. Naquela época a voz era vaticínio. Hoje, narradora. Vejo meus pés caminhando e aqueles ecos formando a trilha sonora, repetindo, “eu já estava lá”. Não acredito que nosso destino esteja selado, mas que ele é produzido com muita antecedência. Nossa vida é sopro tão curto que muitos fecharão seus olhos sem se dar conta disso. 

Ausentar-se ou morrer, reflete Sóror Juana... O que dói mais? O que é mais sublime? Longe do que é nosso, o tempo dá sinais mais fortes: a criança que cresce mais rápido, os cabelos que se agrisalham sem você ver, as rugas que desfiguram a imagem da mãe que você guardou. No seu rosto talvez notem a solidão, mas esta você guarda às setes chaves para poupar os outros de dores que eles não devem sentir. Mas e se você não se ausentasse? E se permanecesse ali? E se fechasse a janela para não soprarem sua vida? Ventos e vozes cessariam no seu deserto e ao se despedirem diriam que os hálitos do passado não podem ser engarrafados, cativos. A única maneira de mantê-los vivos é criando memória... ausentando-se.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

5 de jan. de 2026

Círculos

Por Allyne Fiorentino



Há um abismo. E você quase cai. O coração acelera. Sempre quis saber qual a sensação de alguém que escolhe cair de vários metros do chão. Um desejo recluso no peito. Arrepender-se-á talvez? Ou será como nos sonhos? Em que você sempre acorda antes de chegar ao chão. E se não acordássemos? E se não acordássemos mais? 

Há uma porta. Do outro lado te esperam. Você não quer ir, quer adiar. Quase cai novamente. E se eu não for? Se eu me recusar a fazer o que eles querem, se eu decidir que mudarei a rota, não adianta me esperarem. Eu pretendo demorar. O coração acelera. Você já estava quase lá. Por que voltou? Eu sei o que você quer ver. Seu demônio te espera quando abrir os olhos, mas pra isso é preciso cair no abismo antes. Por que você não cai? Por que resiste tanto? 

Um salto mais brusco e você está em frente a um rio. Não era bem onde eu imaginava estar. Águas caudalosas e turvas não permitem ver o fundo. Tem alguém do outro lado. Mas as águas sobem aos céus, viram fumaça branca e granulam a vista. Quem é essa mulher? Pergunto (Pergunto a quem?): “É a mulher que você prometeu sussurrar do outro lado do rio” – ele responde (Ele quem?). O coração acelera de novo. Estamos novamente na borda do abismo. Quantas vezes eu voltarei aqui? A ideia de um inferno cíclico assombra os homens. As mulheres não, elas estão acostumadas a círculos, ciclos e, também, a infernos. 

Ando prometendo coisas que nem sei. Ando sussurrando mulheres com língua de serpente sem saber. Há coisas que só fazemos no feérico. É certamente o dia delas chegando. No último dia de outubro, nós nos sussurramos todas. Criamos corpos sobre corpos, sobre corpos, sobre corpos... Do que você está falando? De assombros. Que horas são? O coração acelera mais uma vez. Dessa vez os batimentos me acordam pra valer. Bato o braço na mesa de cabeceira. Já se passaram duas horas. Duas horas meio perdidas. Duas horas de não sono, de delírios. Eu preciso acordar cedo. 

“É a mulher que você prometeu sussurrar do outro lado do rio” – penso. Que frase vívida! Eu costumo fazer poesia enquanto durmo. Eu costumo ser Eva quando durmo.

 

* Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia.

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

22 de dez. de 2025

Infantes

Por Allyne Fiorentino 

A senhorinha tinha um vocabulário articulado, algo inesperado em uma fila de restaurante. Daqui onde estou até o buffet pude me atualizar sobre as últimas notícias mundiais. E ela prosseguiu: 

 — O Nobel da Paz, imagine você, menina! Primeiro eles fazem as guerras, vendem armas, matam muita gente e, quando decidem cessar fogo, ainda querem ganhar um prêmio! E ele ainda ligou para o ministro norueguês para pressioná-lo a lhe dar o Nobel! Uma atitude digna de um infante! 

 Eu aceno com a cabeça positivamente e lhe digo rindo: 

 — Realmente, estamos cansados de infantes liderando suas infantarias! – ela ri e seguimos para o buffet. 

Sirvo-me rapidamente e volto à mesa onde minha amiga estava me aguardando. Era uma praça de alimentação de shopping, em um horário bem movimentado e, por isso, havia um ruído persistente de conversas no ambiente. Vou me aproximando com a ideia de comentar também sobre a questão do prêmio Nobel da Paz, mas mal chego à mesa e ela começa a falar exaltada: 

 — Isso não vai ficar assim! Vou imediatamente pegar o meu celular e gravar um vídeo.  Vou postar na internet e tenho certeza que milhares de pessoas me darão razão! Isso é completamente desnecessário! 

 — O que aconteceu, amiga? 

 — Eu acabei de sofrer racismo! 

 — Mas como assim? Eu me ausentei apenas alguns minutos. Como isso pode ter acontecido aqui, no meio da praça de alimentação do shopping? 

 — Ah! Você sabe que todo lugar é lugar para sermos insultadas. Em pleno século XXI as pessoas continuam a propagar seu ódio aos fenótipos e todos os tipos de colorismos negros, deslegitimando nossa cultura, nossa história... 

 — Nossa, eu sinto muito, amiga.  Nem sei o que dizer. Mas me fale o que aconteceu e vamos tomar alguma providência. 

Sem obter resposta, segui ainda atordoada, como quando você é acordado de um sono profundo e não consegue ligar os neurônios à base de dados. Tentava entender o ocorrido em meio a tantos esbravejos e informações cruzadas que não esclareciam muita coisa, enquanto ela continuava falando e retirava de uma bolsa grande toda uma tralha, um suporte para celular, ligava uma luz de led, posicionava tudo em cima da mesa, parecia procurar um ângulo bom em que o fundo ficasse harmonioso. Eu nem sabia que poderia caber tanta coisa dentro daquela bolsa, também não sabia que ela andava assim, “armada” de aparatos para informes de última hora. 

 — Eu preciso gravar isso agora! Ninguém me impedirá de gritar aos quatro ventos como a sociedade trata a mulher negra. E eu, como uma mulher madura, conhecedora dos meus direitos, preciso falar pelas outras, aquelas que não têm voz. Vou denunciar o racismo, o colorismo, o fenotipismo, precisamos da decolonização da cultura. Quem sabe eu até processe esse shopping. Deveria chamar a polícia, mas eles pouco farão por mim, você sabe. 

Eu continuava sem entender, mas com aquele miniestúdio montado em cima da mesa, começávamos a chamar a atenção daqueles que passavam por ali. Deveriam estar pensando que éramos influencers e que iríamos gravar um vídeo provando a comida, que, aliás, estava esfriando. Discretamente olhei para os lados, meio incomodada de estar chamando tanta atenção, pois sou uma pessoa discreta e na maioria do tempo gosto de passar despercebida. Mas hoje em dia, se você tem amigo influencer, precisa ser “inimigo da vergonha”, como dizem. Todo lugar é propício para um vídeo, a qualquer momento... Tenho até medo de sair um pouco desarrumada e acabar aparecendo em algum vídeo sem querer. Todo cuidado é pouco, pois toda banalidade é passível de vírus... viralizar, no caso. 

 — Calma, amiga. Respira um pouco, beba essa água aqui. Melhorou? –  tentei acalmá-la enquanto segurava sua mão e pensava que dali partiríamos para a delegacia a fim de registrar uma ocorrência. 

 — Sim, estou melhor. Obrigada! 

 Ela me deu um sinal, indicando que ia começar a gravar o vídeo. Apertou o play e começou a falar e eu fiz silêncio para não atrapalhá-la no seu “púlpito”. Também eu não poderia fazer mais nada, fui tomada de assalto tanto quanto qualquer um. 

— “Eu não gostaria de vir até vocês apenas para falar coisas tristes, mas é preciso! Até porque vocês sabem que eu sou uma mulher negra e que estamos do lado mais fraco da corda. Eu estava aqui no shopping com a minha amiga e aconteceu uma coisa muito desagradável, eu sofri racismo em pleno shopping e já marquem aí o arroba do shopping quem puder, vamos forçá-los a dar uma resposta sobre suas políticas!” 

 Ainda ignorante do fato, mas com fome, degustava a minha comida e assistia atenta à minha amiga atrás daquela luz de led redonda para saber o que tinha acontecido, porque, afinal, ela mesma não me contou. 

 — “Eu estava aqui sentada e uma criança, de mais ou menos uns quatro anos, estava brincando e correndo pelas mesas. Uma criança branca, com pai branco. Claro! Eis que de repente ela esbarra na minha mesa e cai, desajeitada como um boneco. Ao se levantar, o menino olha na minha cara e diz: ‘Você é feia!’ E sai correndo e rindo. Eu estou em choque até agora!” 

 Nesse momento, eu paro de mastigar e deixo cair meus talheres no prato, vencida. Também eu estava em completo choque diante dessa cena, sem acreditar que eu estava presenciando da minha amiga esse relato. Olhei em volta, procurando a tal criança, o pequeno “meliante das palavras”. Um pouco mais à frente, avistei uma criança espoleta com seu pai. Certamente deveria ser aquela. Ele girava e rodopiava em volta do pai, que tentava manter a calma e a ordem. De repente ele pega o celular do bolso da bermuda do pai. O pai o repreende com voz firme e em contrapartida a criança se senta no chão e faz birra. O pai calmamente pega o celular da mão do garoto, guarda e diz: “você vai ficar sem sobremesa!” 

 Olho novamente para minha amiga e ela continua narrando sua grande história, mas eu também já estou sem paciência e tomo uma atitude: 

— Já chega, mocinha! Guarde essa tralha toda e esse celular! –  ela me olha assustada, tenta balbuciar algumas palavras, mas eu a interrompo: — Isso mesmo! Guarda essa tralha toda e vai comer sua comida, senão você vai ficar sem sobremesa! 

 — Você tá louca, amiga? Por que está me tratando como criança? 

Então eu calmamente levanto meu olhar, aproximo meu rosto do dela, arqueando meu corpo sobre a mesa, olho bem dentro dos olhos dela e digo: 

— Vai ou não vai querer a sobremesa? 

— Tá bom... – desligou o celular e começou a guardar as coisas com cara emburrada. 

* Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia. 

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

26 de nov. de 2025

Café com a deusa mãe

Por Allyne Fiorentino 

Quando eu era criança, adorava folhear os livros escolares ainda nas férias. Antes de termos de usá-los da “forma correta”, eu burlava as regras, pulava as páginas que deveriam ser lidas linearmente, capítulo a capítulo, para ter a enorme satisfação de prescrutar todo o conteúdo que eu aprenderia naquele ano. Antes de inventarem a expressão “sala de aula invertida”, existiram muitos nerds fazendo esse tipo de nerdice para aplainar o terreno para quem, um dia, lá na frente, daria um nome para isso. Mas o que eu mais gostava de ver eram as imagens dos livros. Naquela época em que não existia internet e as imagens das coisas deveriam ser impressas para que pudéssemos conhecê-las, era um verdadeiro deleite admirar as imagens dos livros de biologia, de artes, de geografia, de literatura. 

Ali, sem precisar de aula, já se aprendia muito sobre o mundo, apenas lendo as imagens e as legendas. Nunca disfarcei minha sede de conhecimento, mesmo que isso soasse como soberba, mas a parte mais importante, talvez, do orgulho do conhecimento é saber lidar com o passado. E, não, eu não estou falando de aprender com os erros do passado, tampouco sobre aquilo que deveríamos saber sobre fatos históricos... Não é nada disso! O passado te ensina que você não é especial. 

Essaé uma verdade que você não pode beber com Deus Pai, deve beber com serenidade na xícara com cicuta e talvez chamar de Café Com Pai Sócrates. O gosto é gourmet amargo-mortal, mas os melhores remédios têm gosto ruim, já dizia minha avó, já dizia a avó dela e a avó da avó... Tá vendo? É um verdadeiro esquema de pirâmide de conhecimento, que provavelmente remontaria às verdadeiras pirâmides, enquanto coisa material, pedra sobre pedra, gente que vivia e produzia conhecimento novo (?), inspirando-se sabe-se lá em que coisas anteriores. Construíram pirâmides de pedras para que nós construíssemos pirâmides metafóricas para charlatões contemporâneos. Um viva aos trabalhadores das pirâmides! 

Quando você se importa com algo aquilo se torna prioridade pra você e torna-se o centro da sua atenção!” (PAI, Café com Deus). É verdade, nisso o Deus Pai do Café está corretíssimo, mas deus pai da editora colocou essa frase bobinha, rasa, bestinha, que qualquer ser humano médio poderia dizer sem esforço, sem nem pensar muito, em um livro, fez um marketing e agora ela vale algum dinheiro. Mais do que isso, ela torna o Deus Pai do Café “especial”, porque, ora bolas, “renovar” tornou-se essencial. E nada mais velho e antigo do que se aproveitar dos desmemoriados! Já dizia a sabedoria popular que o orifício dos desmemoriados é igual aos dos bêbados, não tem dono (POPULAR, Cultura). Tomando da caneca da frivolidade, li que “dentro das definições da palavra ‘renovar’, encontramos: tornar novo, melhorar, substituir por coisa melhor (PAI, Café com Deus)”. Quanta soberba, senhor Deus Pai do Café em pensar que poderíamos ser melhores que nossos antepassados. Na hora que o avião está caindo, são os clássicos que você busca e pelos clássicos que você grita pedindo salvação. Ninguém é ateu de clássico nessa hora. 

Dizer de forma bem pior e sem talento aquilo que todo mundo já sabe ou que já foi dito anteriormente por talentosas figuras... isso é o que chamam de inovação! Mas eu chamo de “especialização”, tornar especial algo que não é. Mas, como eu já disse, e outros tantos disseram antes de mim e eu, também, só estou repetindo, você não é especial. E não adianta chorar: crise existencial também é mais velho do que andar pra frente. 

O negócio é saber com quem tomar seu café. Isso remonta à velha sabedoria mineira, um cafezim não se nega a ninguém, mas se o convidado se senta na sua mesa e diz que acabou de inventar um negócio genial chamado café, você desconfia. Café Com Carisma e Desconfiança Mineira, sempre uma boa pedida. 

Outro dia eu vi um vídeo de uma mulher que estava abismada com um bicho estranho na praia, fez esse vídeo para mostrar pro mundo que aquele “alien” estava ali naquele momento e ela precisava de ajuda para entender o que era aquilo, porque afinal de contas não dá para filmar e procurar no Google ao mesmo tempo, no mesmo celular, não é mesmo? 

Ao contrário do Deus Pai do Café, eu não usarei de forma escusa o seu orifício de desmemoriado para dizer que uma das imagens daquele livro de quinta série mostrava uma Caravela do Mar, bicho fantástico, lindo, parece mesmo um alien. Nem vou dizer que todo mundo já teve um ou mais livros didáticos em que havia uma foto de uma Caravela do Mar e a legenda explicando o que era aquilo. Não, o assunto memória e o motivo de as pessoas a perderem é deveras complicado para apenas um café. Mas, também, porque eu sou uma mineira, pessoa poética por natureza, e se fosse no meu Café, eu diria para ela que a palavra renovar vem do Latim (RE-, “outra vez”, + NOVARE, “tornar novo”), tornar novo de novo, talvez ela ali, diante daquele bicho meio “alien”, teve o “pasmo essencial que tem uma criança”, como diria Pessoa, ou a “saudade da pureza”, como diria Manoel de Barros, e eu sigo romantizando a ignorância de um povo que tem mais acesso ao conhecimento do que qualquer geração já teve, mas, pelo menos, eu não estou me aproveitando de ninguém. 

* Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia. 

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

21 de out. de 2025

Uma barata kafkiana

Por Ricardo Novais

Na gaveta de uma cômoda carcomida pelo tempo eu tiro umas coisas velhas. Um livro, uma carta amarelada, uma fotografia desbotada. O passado passeia pela validade de lembranças. Uma caixinha de música, uma caneta, um perfume. Sabe a sensação de saudade depois que se volta de alguma viagem, leitor? Assim veio a sensação de pesar saltando de dentro daquela gaveta. 

Não, amigo leitor e querida leitora, não sou um autor nostálgico. Não tenho saudade do passado, o que tenho é a necessidade de escrever... Escrevo um pequeno fragmento de vida. Escrevo. Vejo um olhar, ouço uma voz, os dedos a percorrer pelos objetos... Encontro uma barata entre as recordações. Imediatamente, percebo que o passado é uma asquerosa barata voadora. 

Salta a barata. Assusto-me. Sento à beira da cama. A barata some por algum canto. Aquela gaveta de lembranças... As lembranças são tão bonitas! Uma mulher nua; lembro-me de pessoas que foram embora há tanto tempo. Não choro. São apenas lembranças. Lembro-me da barata, levanto-me e fecho a gaveta. 

Nessa vida é necessário comparecer à lembrança com antecedência do futuro. Por isto escrevo, escrevo para não mais abrir gavetas velhas e para não levar sustos com baratas voadoras.


Ricardo Novais nasceu em São Paulo. Costuma dizer que só escreve porque escrever é coisa infinita, ainda que seja somente rótulo. Rótulos podem ser divertidos, superficiais, é verdade, mas bem divertidos. É autor do romance O Boêmio e dos livros de contos Trem noturno e Perfumes da pátria. Acredita que a vida e a morte são como um gol aos 45’ do segundo tempo; o último gole é sempre a saideira.

19 de set. de 2025

Fazenda 31 de Março

Por Ricardo Novais 

No dia 31 de março de 1964 houve um golpe infausto na alma do povo brasileiro. Começou uma tortura física e psicológica no Brasil. Sempre existiu tortura, mas o país entrou na institucionalização da barbárie, tanto a oficial como a dos centros clandestinos de tortura. 

Na capital de São Paulo, na região afastada de Parelheiros e Marsilac, havia a Fazenda 31 de Março. Até o nome do lugar é assombroso. O delegado Fleury e seus asseclas se divertiam nesse sítio como alguém que vai para uma casa de campo desestressar com os amigos; entretanto, a diversão era torturar e assassinar seres humanos como alguém que vai à zona rural caçar tangarás. 

Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones nasceu no sul do país. Nos anos 1960, foi morar e estudar no Rio de Janeiro. Casou-se com Stuart Edgar Angel Jones, filho de Zuzu Angel. Edgar foi assassinado com a boca enfiada em um cano de escapamento de um jipe militar. Nunca encontraram seu corpo. Zuzu Angel procurou o filho incansavelmente e, por causa disto, também foi assassinada pelo regime em um crime jamais resolvido. Sônia Maria, que também havia sido presa, acabou sendo absolvida pelo tribunal militar devido a portaria do imponderável. 

Sônia Maria Jones, viúva, exilou-se na França onde progrediu sua carreira intelectual. Decidida a lutar e resistir contra o regime que assolava a liberdade em sua terra natal, voltou ao Brasil onde começou a trabalhar na clandestinidade. Conheceu Antônio Carlos Bicalho Lana, que viria a se tornar seu companheiro. 

Algum tempo de relógio depois, Sônia e Antônio foram descobertos por agentes do DOI-CODI do II Exército, em Santos. Abordados no litoral paulista, levaram-nos com destino à cidade de São Paulo. O coronel Canrobert Lopes da Costa estuprou Sônia por 48 horas no DOI-CODI do Rio de Janeiro com o uso de um cassetete, o que lhe causou hemorragia interna. Debilitada, enviaram-na novamente a São Paulo, ao DOI-CODI/SP. Deceparam-lhe um de seus seios. 

Sonia Maria e seu companheiro Antônio Carlos foram encapuzados, colocados dentro de um Fusca de Fleury, amordaçados, cortando quilômetros e quilômetros entre solavancos da zona sul paulistana até a Fazenda 31 de Março, na zona rural de Parelheiros e Marsilac. 

Torturados e mortos nas dependências de diversão dos agentes do regime, levaram os corpos até o bairro de Santo Amaro e simularam um tiroteio com balas de festins sendo atiradas nos cadáveres já há muito sem vida. Ambos foram enterrados em um cemitério clandestino na zona leste da cidade como indigentes. Apenas décadas depois descobriu-se quem eram aqueles dois enterrados sem nome e sem história. Havia uma história. Era parte da história do Brasil, de uma lutadora brasileira: Sônia Maria Lopes de Moraes Angel Jones.


Ricardo Novais nasceu em São Paulo. Costuma dizer que só escreve porque escrever é coisa infinita, ainda que seja somente rótulo. Rótulos podem ser divertidos, superficiais, é verdade, mas bem divertidos. É autor do romance O Boêmio e dos livros de contos Trem noturno e Perfumes da pátria. Acredita que a vida e a morte são como um gol aos 45’ do segundo tempo; o último gole é sempre a saideira.

30 de ago. de 2025

De uma humilde cronista para um grandissíssimo cronista: Luis Fernando Verissimo

Por Allyne Fiorentino


Sempre me incomodou o fato de o sobrenome dele não ter acento. Ou tem? E ainda agora, neste momento de tristeza para a literatura nacional, ainda tenho de me curvar ao Google e perguntar: mas tem ou não tem acento em Veri(í)ssimo?

Sei que isso é irrelevante diante do fato de um grande cronista ter partido desta para melhor. Mas ele certamente me entenderia, porque o que todo cronista sabe é que a magia está nas coisas banais. Então, se tem ou não tem acento, faz diferença! Muito mais se fosse assento. Mas cá estou eu, assentada e buscando se tem acento ou não.

E não é curioso que, na escola, em todo livro didático de Língua Portuguesa ou de Redação, lá estavam eles. Pai e filho, Erico e Luis Fernando, não acentuados, mas com um notável trabalho com a linguagem humorística. Prosaica, diriam? Talvez, mas é isso mesmo. O prosaico e o divertido ainda são tão catárticos (ou mais) quanto um verso hermético de poesia no Brasil. Quer uma prova disso? Somos os campeões em memes de internet. Qualquer desgraça é passível de piada. É assim que lidamos com nossa vida brasileiríssima.

Somos inferiores? Não sei. É um gênero inferior, a comédia, diriam os gregos antigos. Não temos nada de epopeicos, os cronistas, mas, ainda assim, dizemos todas as verdades que queremos em poucos parágrafos, com estratégia, para não exceder o pouco espaço que resta no coração das pessoas! “Faça um texto curto e rápido!!!”

Também parece que lidamos com tudo de última hora. Nada mais brasileiro do que deixar tudo para o último segundo: “Você pode escrever um texto para homenagearmos o Luis Fernando Verissimo?”. “Agora? São 9 da manhã!”. “Sim, mulher, o homem bateu as botas, foi desta pra melhor...”. “Caramba! E por que não planejou antes? Bem brasileiro esse Verissimo...”

Crônica nem é meu gênero favorito, mas dizem que eu o escrevo bem. Entretanto, estamos aqui lidando com um grande cronista, um engenheiro das palavras. Será que vale a pena cronistar sobre o cronista? Que coisa mais metalinguística. Recordo-me de como ele lidava com a nossa língua, de maneira tão leve... Então, não me sinto culpada, o próprio homenageado já dissera: “Sempre fui péssimo em Português. A intimidade com a Gramática é tão dispensável que eu ganho a vida escrevendo’.

Eu não ganho a vida escrevendo, muito menos trabalho em jornal pra ficar escrevendo tão rápido, mas concordei: “Então tá! Mas já advirto, não sei se vai sair bom, mas vai ser de coração!”. E aí me vem o tal acento, o primeiro obstáculo já está no título! "Que maravilha! Eu tenho prazo apertado! Entrem em um consenso sobre o sobrenome do homem!" É vero, Veríssimo, Verissimo.

Mas esta crônica já está muito grande e vai terminar sem eu saber se tem acento ou não. “Vamos, cronista, já acabou?” “Meu deus, quanta pressão!”. O homenageado, lá do além, sussurra na minha mente: “As palavras, afinal, vivem na boca do povo. São faladíssimas. Algumas são de baixíssimo calão. Não merecem o mínimo respeito.” É verdade. Você foi genial em O gigolô das palavras. Então, eu solto minha homenagem com todo o ar do pulmão: VIVA O GRANDE GIGOLÔ!!!


Allyne Fiorentino - Natural de Minas Gerais, residente em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, mais especificamente em poesia simbolista. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @allyne.fiorentino.

22 de jul. de 2025

Gratiluz, Trump!

  

Por Allyne Fiorentino

Dizem os jovens místicos, leitores de livros de autoajuda e misticismo barato, “guardiões” do segredo que se esconde deles mesmos, que tudo aquilo que você visualiza, você é capaz de materializar na sua vida. Basta visualizar!

E não é raro encontrar muitos que colocam quadros na parede, com uma composição de recortes de revista de verdadeiras mansões, carros importados na porta da casa, piscina à mostra, um recorte de uma família dos antigos comerciais de margarina, sorrindo feliz e despreocupada. Sim, eu sei o que você está pensando se for meramente perspicaz: Mas isso não é imaginar! Exato. Eu sei, mas a explicação deles para isso é que há pessoas que são incapazes de criar uma imagem mental nítida de alguma possibilidade.

Tá aí uma coisa em que eles acertaram no alvo, mas sem imaginar a grandeza dessa conclusão a que eles chegaram. O processo parou no básico, mas se eles avançam um pouquinho se questionariam o porquê de as pessoas não conseguirem ter essa habilidade, que, segundo eles, abriria tantas portas para uma realidade melhor. Eis uma pergunta que deveria ser feita a esses jovens místicos, cheio de gratiluz, e a todos que se propõe a te dar soluções: “Por quê?”. Por que você não consegue imaginar? Por que esse processo dentro da sua cabeça é tão dificultoso pra ser processado?

O bom é que a vida é bastante irônica. Uma ironia quase newtoniana, que às vezes até desacreditamos, mas funciona. Se na escola, educadores sabem há bastante tempo que o grande problema dos alunos é não ter a capacidade de abstração desenvolvida e que isso impede que eles avancem em seus estudos – fato que quase ninguém fala porque falar sobre isso implica perguntar por que eles não conseguem abstrair e isso nos leva a questionar o nosso sistema mundial. “Ah mas tudo é culpa do Capitalismo, isso é conversa de Comunista!”. Bom, se na escola nosso exemplo de genialidade continua sendo os Gregos é porque alguma coisa neles admiramos que não conseguimos reproduzir hoje em dia. E eles não viviam um capitalismo. É só pensar. É só abstrair um pouco.

Eis que eles crescem e encontram a mesma dificuldade, só que agora de forma “mística”. E pra sanar essa dificuldade, leem muitos livros duvidosos que se propõe a “curar” essa falha mental, ou como eles chamam “bloqueios”. Número de livros que quiçá não leram na escola, por preguiça ou por má vontade, sem saber que a leitura guiada era o que traria a eles um pouco da capacidade de abstrair, ou seja, um grande ciclo vicioso meio engraçado meio triste.

E onde essa conversa vai chegar? Ela vai chegar no Trump e no seu tarifaço. Como? Acompanhe-me: TODOS os brasileiros, sem nenhuma exceção, estudaram na escola, nas aulas de História, Geografia, Sociologia enfim... a trajetória de como os EUA chegaram ao poder mundial: por meio de guerras, genocídios, colonização, violência, escravização, exploração de outros países, criação midiática de simbolismos que colonizam a mente e o imaginário das pessoas. Todos sabem disso, mas entram num grande processo de negação. A realidade é dura demais pra ser aceita. É duro imaginar uma vida fora do sistema. É inimaginável, é imaterializável, é invisualizável. É impossível.

Só que nos últimos dias em que o Brasil resolveu “peitar” os EUA, percebemos que a China está imaginando isso há muito tempo, trabalhando quietinha e silenciosamente sobre o impossível pra torná-lo possível. Não digo que os meios para se chegar a esse fim são dos melhores, mas essa conversa é sobre abstração, e, não, sobre política. É sobre imaginar. Ter a ousadia de imaginar.

Por que se você não tem a ousadia de imaginar coisas que vão além, você vai acabar montando um quadro de recortes em que seu maior desejo, o desejo do seu coração enquanto você está vivendo nesse inferno terráqueo é só uma casa, um carro, um iphone, uma piscina e uma família de comercial de margarina... Como dizem os jovens místicos, muito certeiramente, eu só posso mudar a minha realidade se eu primeiro aceitá-la como real. Mas eles não dizem: depois de aceitar, é preciso imaginar.

 Dizem os jovens místicos, leitores de livros de autoajuda e misticismo barato, “guardiões” do segredo que se esconde deles mesmos, que tudo aquilo que você visualiza, você é capaz de materializar na sua vida. Basta visualizar!

E não é raro encontrar muitos que colocam quadros na parede, com uma composição de recortes de revista de verdadeiras mansões, carros importados na porta da casa, piscina à mostra, um recorte de uma família dos antigos comerciais de margarina, sorrindo feliz e despreocupada. Sim, eu sei o que você está pensando se for meramente perspicaz: Mas isso não é imaginar! Exato. Eu sei, mas a explicação deles para isso é que há pessoas que são incapazes de criar uma imagem mental nítida de alguma possibilidade.

Tá aí uma coisa em que eles acertaram no alvo, mas sem imaginar a grandeza dessa conclusão a que eles chegaram. O processo parou no básico, mas se eles avançam um pouquinho se questionariam o porquê de as pessoas não conseguirem ter essa habilidade, que, segundo eles, abriria tantas portas para uma realidade melhor. Eis uma pergunta que deveria ser feita a esses jovens místicos, cheio de gratiluz, e a todos que se propõe a te dar soluções: “Por quê?”. Por que você não consegue imaginar? Por que esse processo dentro da sua cabeça é tão dificultoso pra ser processado?

O bom é que a vida é bastante irônica. Uma ironia quase newtoniana, que às vezes até desacreditamos, mas funciona. Se na escola, educadores sabem há bastante tempo que o grande problema dos alunos é não ter a capacidade de abstração desenvolvida e que isso impede que eles avancem em seus estudos – fato que quase ninguém fala porque falar sobre isso implica perguntar por que eles não conseguem abstrair e isso nos leva a questionar o nosso sistema mundial. “Ah mas tudo é culpa do Capitalismo, isso é conversa de Comunista!”. Bom, se na escola nosso exemplo de genialidade continua sendo os Gregos é porque alguma coisa neles admiramos que não conseguimos reproduzir hoje em dia. E eles não viviam um capitalismo. É só pensar. É só abstrair um pouco.

Eis que eles crescem e encontram a mesma dificuldade, só que agora de forma “mística”. E pra sanar essa dificuldade, leem muitos livros duvidosos que se propõe a “curar” essa falha mental, ou como eles chamam “bloqueios”. Número de livros que quiçá não leram na escola, por preguiça ou por má vontade, sem saber que a leitura guiada era o que traria a eles um pouco da capacidade de abstrair, ou seja, um grande ciclo vicioso meio engraçado meio triste.

E onde essa conversa vai chegar? Ela vai chegar no Trump e no seu tarifaço. Como? Acompanhe-me: TODOS os brasileiros, sem nenhuma exceção, estudaram na escola, nas aulas de História, Geografia, Sociologia enfim... a trajetória de como os EUA chegaram ao poder mundial: por meio de guerras, genocídios, colonização, violência, escravização, exploração de outros países, criação midiática de simbolismos que colonizam a mente e o imaginário das pessoas. Todos sabem disso, mas entram num grande processo de negação. A realidade é dura demais pra ser aceita. É duro imaginar uma vida fora do sistema. É inimaginável, é imaterializável, é invisualizável. É impossível.

Só que nos últimos dias em que o Brasil resolveu “peitar” os EUA, percebemos que a China está imaginando isso há muito tempo, trabalhando quietinha e silenciosamente sobre o impossível pra torná-lo possível. Não digo que os meios para se chegar a esse fim são dos melhores, mas essa conversa é sobre abstração, e, não, sobre política. É sobre imaginar. Ter a ousadia de imaginar.

Por que se você não tem a ousadia de imaginar coisas que vão além, você vai acabar montando um quadro de recortes em que seu maior desejo, o desejo do seu coração enquanto você está vivendo nesse inferno terráqueo é só uma casa, um carro, um iphone, uma piscina e uma família de comercial de margarina... Como dizem os jovens místicos, muito certeiramente, eu só posso mudar a minha realidade se eu primeiro aceitá-la como real. Mas eles não dizem: depois de aceitar, é preciso imaginar.

Originalmente publicada em Crônica do Dia.

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Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, mais especificamente em poesia simbolista. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.