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14 de jan. de 2026

E se a crítica literária também for fabricada? Malagueta #41

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior

De vez em quando alguns textos aparecem na mídia e causam um momentâneo rebuliço no mundo literário, como se de repente alguém metesse o dedo na água calma de um copo, girasse e depois saísse de cena. Vocês podem nos chamar de conspiracionistas, mas vamos arriscar esse palpite meio fora da curva e vocês poderão nos acompanhar nessa linha de pensamento e, quem sabe, chegar à conclusão de que não é tão absurdo assim.

O mercado é um grande narcisista e, como um representante legítimo de manipulação, ele precisa de um pequeno caos controlado de vez em quando para transformar aquilo que estava sendo esquecido na prateleira em um produto cheio de frescor, ou seja, movimentar vendas, tendências etc. Isso é mais velho que andar pra frente? Sim, marxistas sabem que o capitalismo prospera e precisa do caos desde que o velho barbudo apontou isso no século XIX, mas não é que essa arma ainda funciona perfeitamente? Quer uma prova?

Ano passado tivemos uma grande febre do açúcar por causa do morango do amor, lembram? De onde surgiu? Como hypou? Ninguém sabe precisar, mas a verdade é que do mesmo jeito que surgiu também se foi, pois as “febres mercadológicas” precisam ser aparentemente caóticas para dar uma sacudida no mercado, mas controláveis, porque depois precisamos voltar à ordem das ovelhas que não pensam. É aquilo que as mulheres conhecem como “migalhas de amor”: uma migalha aqui e ali pra dar uma emoção, gerar expectativa e aprofundar ainda mais o controle da vítima. Como dissemos, o mercado é um grande narcisista.

Também ano passado saiu um texto na Folha de S. Paulo, de autoria da professora Aurora Bernardini, que gerou bastante polêmica, pois dizia que certos autores famosos de hoje não poderiam ser considerados literatura. E este ano, novamente, a Folha solta agora um texto de outra professora, Dirce Waldrick do Amarante, em que ela opina que as listas de melhores livros são, na verdade, um “consenso fabricado”. Seria isso por acaso?    

Sabe o que há em comum entre Aurora e Dirce? É que ambas estão dizendo obviedades. E não, não estamos dizendo que o que elas estão dizendo é raso ou não faça sentido ou está incorreto; pelo contrário, “obviedades” no sentido de que qualquer um que estuda literatura ou que conhece teoria e história literária sabe.

Mas por que essas informações são encaradas hoje em dia como “extraordinárias”? Exatamente porque elas são direcionadas a um público que, embora amplo, possui características em comum: são leigos, teoricamente, de modo que se escandalizam com coisas óbvias e consomem produtos literários como verdadeiros fãs, e não como leitores. Será que leem o que defendem virtualmente? Eis outra questão que pode ser desenvolvida, quem sabe numa próxima malagueta.

O que essa verdade inconveniente significa? Significa que o mercado se aproveita da ignorância teórica (de conhecimento básico) dos leitores sobre determinado assunto para gerar falsas polêmicas que mobilizam novamente essa grande roda de consumo alienado (arriscamos a dizer que quem sai ganhando com isso são exatamente as grandes editoras que estão sendo criticadas, no caso das polêmicas do mundo literário).

Vamos de exemplo... Quando Aurora Bernardini levantou a questão de que best sellers não necessariamente são literatura e que autores hoje aclamados estão fora do padrão canônico daquilo que se considerava literatura de qualidade (sem querer entrar no mérito acadêmico aqui), isso implica em mais pessoas comprando esses livros mencionados para “comprovar” ou para “afrontar” a opinião da professora e pesquisadora: o mercado sabe mexer com o ego do público, que hoje, sabe-se, tem a tendência de afrontar os especialistas. A arrogância da ignorância está na moda, venha de onde vier.

Em seu texto, Aurora citou especificamente Itamar Vieira Júnior, premiado autor brasileiro. Quantos exemplares de Torto Arado, do referido escritor, foram vendidos depois disso? Quantos fãs do autor saíram em sua defesa e movimentaram as redes? Quantos fãs defenderam o autor, e não a sua literatura? Ou defenderam suas crenças (as crenças de uma tribo), mas não sua qualidade literária?

Então quer dizer que uma crítica certa lançada ao acaso e sem contexto profundo pode, por meio da polêmica, endossar ainda mais o objeto da crítica? E isso pode ser uma estratégia mercadológica? Sim, é exatamente o que estamos dizendo.

No caso do texto da professora Dirce Waldrick do Amarante, ela elenca algumas críticas já bastante desgastadas no meio literário, sem apontar nenhuma novidade: sobre as grandes editoras, sobre a visibilidade artística e sobre aquilo que nós nomeamos como “compadrio” ou “clube do brandy” (livros e autores que só sobrevivem graças às amizades) e que isso geram listas de melhores livros tendenciosos e sem critérios literários consistentes. Nada de novo sob o sol. 

Então, qual o objetivo dessa crítica? Qual o objetivo dessa crítica dentro de um grande jornal que por vezes ajudou a construir essa mesma visão mercadológica da literatura que finge atacar? Não questionamos o objetivo da autora, que não disse nenhuma inverdade - embora tenha preterido as evoluções de algumas editoras independentes, tenha deixado de lado aspectos importantíssimos sobre o comportamento dos leitores contemporâneos e, em certo momento do texto, forçou uma defesa periférica, derrapando em alguns argumentos, especialmente na parte de “eventos presenciais serem anacrônicos e inaceitáveis” por excluírem a periferia (forçou a barra pra lacrar! E sobre isso também desconfiamos...).

Percebem onde queremos chegar? Será isso uma teoria da conspiração inventada por nós? Não sabemos, mas veja um trecho do que dissemos em uma Malagueta (#37), publicada em 2021, ocasião em que Fernanda Montenegro entrou para a Academia Brasileira de Letras:

 “... escolhas baseadas em parâmetros obscuros e de compadrio sempre foram a regra. A regra é não ter uma regra clara. O que eu vejo é uma disputa de pequenos grupos que estão todos, sem exceção, interessados em manter o compadrio como meio de medir mérito. Seja no círculo dos consagrados, seja no círculo dos não consagrados, seja no círculo dos marginalizados. Todos têm seus “amigos”, mas nenhum deles está debruçado verdadeiramente sobre o texto, sobre a palavra na folha de papel, a palavra como ela chega a seu leitor. Fala-se muito em autores, mas pouquíssimo em literatura” (FIORENTINO, Allyne. ABL: muito barulho por nada. Revista O Bule, 13 nov. 2021.)

Então, indo um pouco além do que a professora Dirce menciona, concordamos com quase tudo que ela disse, mas entendemos, também, outros pontos de vista, como as possibilidades de publicação de autores e editoras independentes, que hoje criam uma segunda via de publicações fora das grandes editoras, coletivos e grupos que se mantêm resistentes a transformar a literatura em puro produto mercadológico (é o caso da Revista O Bule e de tantas outras revistas/editoras marginais), pessoas que se mantêm resistentes à ideia de que a literatura serve como pretexto e panfletagem para causas sociais de minorias, sem se importar com a qualidade e com a construção de linguagem (é o nosso caso, é o caso de muito gente que pode estar pensando a mesma coisa agora e não tem coragem de dizer porque tem medo de ser massacrado pelo dito politicamente correto). Nada disso foi mencionado. Estranho, não é mesmo? Ou será que foi proposital? Fica aí o questionamento.

Quem hoje teria coragem de dizer que uma obra que exalta algum aspecto de minoria é ruim? E olhe que, hoje em dia, há muitas, muitas, muitas obras literárias muito ruins. Você teria? Teria coragem de ir contra tudo e todos a partir de uma análise literária de verdade? O que sabemos é que, n'O Bule, a gente vive falando disso. E por isso continuamos aqui, menos para dar conclusões palatáveis que o público espera e mais para fazer o leitor pensar!

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Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais e reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.

10 de out. de 2025

Um timaço argentino: Maradona, Borges e Cortázar #valeapenalerdenovo

Por Daniel Lopes Guaccaluz

Maradona era canhoto (e que canhoto!), mas Pelé, nas pernas, era ambidestro. Maradona era um tremendo driblador, Pelé também. Aqui empatamos. Pelé era um exímio cabeceador, Maradona até quando fez gol de cabeça, fez gol de mão, La mano de dios, segundo ele. Por enquanto, o placar está em três a um, certo? 

Em se tratando da qualidade do passe, acredito que ambos empatam novamente, o que deixa o placar em quatro a dois. Vitória de Pelé e do nosso futebol. Mesmo assim, Maradona ainda tem um diferencial, talvez um golzinho a mais a favor dele: o argentino ganhou uma Copa, sozinho, em 1986, coisa que Pelé não chegou a fazer. Garrincha talvez tenha conseguido tal feito em 1962, mas Garrincha é outra história.

No futebol não dá pra eles, entretanto não é necessariamente de futebol e nem desse tipo de time que quero tratar aqui. O objetivo deste artigo, ou resenha, ou sei lá o quê, é levantar a bola para o timaço da literatura argentina do século XX.

São tantos nomes que é até difícil se ater a qualquer um deles em especial. Fica difícil qualquer tipo de escolha, ou eleição, num time que tem jogadores, digo, escritores, do porte de Roberto Arlt, Adolfo Bioy Casares, Ernesto Sabato, Julio Cortázar e Jorge Luis Borges.

Portanto, não me vou delongar além da paciência do leitor, nem vou além da minha própria paciência. Só quero levantar a bola, quem quiser, que corra atrás dos livros dos caras e da crítica especializada. Deixarei aqui, portanto, minhas impressões sobre dois deles: Borges e Cortázar.

  

 JORGE LUIS BORGES – Pierre Menard, o escritor do Quixote 

Comecemos por Borges, que é um escritor de textos curtos, mas amplos de significado. Pequenas pérolas, eu diria, e qualquer um pode dizer, ainda que seja piegas a comparação entre textos e pérolas. Atenhamo-nos, pois, a uma destas pérolas, melhor, destes contos, o completo: Pierre Menard, El escriptor del Quijote.

Resumidamente, o texto conta a história de um escritor que acaba de morrer, cuja maior obra é ter conseguido reescrever dois capítulos do Dom Quixote. Visto assim, parece simples, mas esta narrativa dá muito pano para a manga. Percebam que Pierre, não copia o texto do Cervantes, ele tenta tocar, outra vez, o mesmo mistério, alguns séculos depois. É um trabalho quase impossível e é totalmente quixotesco... inútil, afinal de contas o livro já existia. Mas aí entramos em contato também com Platão e seu mundo das ideias.

Talvez o Quixote perfeito, se é que pode haver um melhor, esteja lá, repousando em algum lugar, em estado de dicionário, basta alguém que saiba tocar para alcançá-lo. Tal discussão é extremamente pertinente num tempo em que a inspiração vem sendo, constantemente, massacrada e o trabalho do artista vem sendo comparado com qualquer outro trabalho, que não exija coisa alguma, além do esforço.

Sou de posição contrária, acredito que o artista é um predestinado, quase que um xamã

Sei que a Arte também é feita de um trabalho árduo e racional. O problema é que a maioria das pessoas, hoje, acredita que só o trabalho árduo e racional construa a Arte, e não é isso. A Arte é feita de uma mistura de racional e irracional. De consciente e inconsciente. De Apolo e Dionísio. Portanto, meu caro cabotino, nem tanto ao mar, nem tanto à terra. Beleza, chega de Borges.


  JULIO CORTÁZAR – As babas do diabo 

Com isto, passemos a Cortázar. Mais precisamente para um direto de direita chamado Las babas del diablo. Certa vez Julio Cortázar, ele mesmo, assim como eu, um grande admirador de boxe, disse que, enquanto o romance era uma luta ganha por pontos, o conto devia ser como uma luta ganha por nocaute. Sejamos, pois, nocauteados por Las babas del diablo.

Toda vez que tenciono relê-lo, vou preparando o terreno alguns dias antes. Começo ouvindo sons tenebrosos do Black Sabbath e sigo deixando minha alma perambular pelos terrenos de água parada dos Doors. Sempre que possível, corro, como outro passo de um mesmo ritual, atrás do Blow up do Antonioni, filme que, a meu ver e no ver de muita gente, tem muito em comum com o conto. Só depois de tudo isso, encaro a narrativa. Está ansioso? Calma, leitor, que a luta já vai começar. Soltem os escorpiões.

Las babas del diablo começa e termina como uma aula de literatura. A princípio, o narrador trata da impossibilidade de se narrar algo. Questiona a dificuldade de escolher entre uma narrativa em primeira, segunda, ou terceira pessoa, tanto do singular, quanto do plural.

  “Si se pudiera decir: yo vieron subir la luna, o: nos me duele el fondo de los ojos, y sobre todo así: tu la mujer rubia eran las nubes que siguen corriendo delante de mis tus sus nuestros vuestros rostros. Qué diablos.” 

Por fim, o narrador acaba optando por uma mescla entre primeira e terceira pessoa. Resolvida a questão do narrador, passemos à mistura produzida entre tempo e espaço na narrativa.

Prestem atenção no período: “Uno baja cinco pisos y ya está em el domingo”. O cara desce de seu apartamento até o térreo e já está em outro dia! É ou não é terrível, e belo?

A maneira como o enredo é construído, é outro aspecto impressionante do conto. Roberto Michel, um tradutor e fotógrafo, num dia qualquer, tirou foto de um casal numa praça erma de Paris. A mulher que compõe o casal é mais velha que o rapaz, ele deve ter no máximo quinze anos. Todavia, há também alguém mais na cena, um homem, cuja face está coberta de um pó estranho que lhe esconde as feições. Este ser misterioso também aguarda o desenlace da história, dentro de um carro negro. 

Não conto mais nada... vale a pena ir atrás.

A professora Heloísa da Costa Milton, da UNESP de Assis, certa vez me disse que é imperdoável o uso de alguns adjetivos num texto crítico. Bem... não sou crítico: Cortázar é FODA!

Outro lance, que não poderíamos deixar à margem, é a maneira como a trama é construída: aos poucos, como se o narrador estivesse estudando o leitor, da mesma forma que um boxeador estuda o adversário, dentro do quadrilátero. Parece-me que Roberto Michel vai gingando com as pernas da palavra, soltando apenas alguns golpes curtos. Sem pressa, o texto vai minando a defesa do leitor e, no final, vem a pancada e o nocaute.

Por enquanto é só. Todos os idiomas repousam nas bibliotecas. E o dicionário é o livro definitivo de qualquer língua. Até mais!

  

Daniel Lopes Guaccaluz é escritor, jardineiro e professor. Gosta de arte, planta, bicho e gente. Seus autores preferidos são Jack Kerouac, Louis Ferdinand Céline, Dostoiévski e Guimarães Rosa. Não ignora o lado sombrio do mundo, mas ainda crê na força da amizade, da gentileza e do amor. Pai de Sofia e João Gabriel. Publicou os livros Pianista BoxeadorFrutaA delicadeza dos hipopótamosNo céu com diamantes e Ménage à trois. Foi um dos organizadores da coletânea de contos Do outro lado da notícia. Eterno aprendiz.

6 de ago. de 2025

Eventos literários e dinheiro público: as mesmas figurinhas carimbadas – Malagueta #40

Por Sinvaldo Júnior e Allyne Fiorentino 

 

E se fizéssemos um experimento “ousado”, digamos assim, e fôssemos ao máximo possível de eventos literários em um ano (bienais, festas, feiras)? Você, versado e conhecedor de literatura (afinal, o que é literatura?), teria estômago para isso? Pois é... Nós também não tivemos. Restringimos a dois, e foi mais do que suficiente. Estamos cansados e precisamos falar sobre essa coisa que se mascara de literatura, mas que está mais para aventuras do cidadão “descontruíde” em terras de lobos.

 

Iniciando pela programação dos grandes eventos literários, a gente tem de decidir se vai encarar as mesmas figurinhas carimbadas, os mesmos escritores, os mesmos assuntos, os mesmos discursos maçantes e massacrantes, produzidos para uma classe média intelectual (será?) e progressista, totalmente alienada da realidade.

 

Sem falar na categoria “escritor(a)” (escritore?) que passou a designar toda e qualquer pessoa ligada a algum segmento da cultura ainda que jamais tenha escrito, agora todos são escritores! Desde os que não conhecem literatura aos que nunca escreveram uma linha de literatura, mas surgem como as atrações principais de um evento literário. Se convidassem o ChatGPT como escritor nato, com certeza seria mais plausível. Em geral, tudo gira em torno do culto à personalidade, à pessoa, à imagem que NADA tem a ver com literatura. Trata-se de eventos com um público que, em hipótese alguma, pode ser contrariado em suas crenças (pretensamente boas para o outro).


 

Um dos maiores eventos brasileiros de literatura, neste ano, tinha como mote a igualdade de raça e gênero, apresentando como justificativa (como propaganda) as figuras da Djamila Ribeiro e Bruna Lombardi. A primeira, ainda que filósofa, negra e mulher, nunca escreveu uma linha de literatura (aquilo que entendemos como arte literária) e nem estamos fazendo, ainda, juízo de valor acerca daquilo que ela escreve, mas pura e simplesmente dizendo que isso não é arte literária; a segunda, não precisamos analisar muito: privilegiadíssima em todos os sentidos, tanto por ser uma figura midiática, oriunda de outros ramos (modelo, atriz, apresentadora), quanto por ser uma mulher branca, lindíssima, oriunda de classe social alta. Nem de longe podemos traçar o cheiro (o rastro, a sombra...) do seu envolvimento com literatura...

 

Certo, o mercado está usando a lógica do mercado, usando figuras famosas para atrair público. Mas que público? (Não esqueçamos que o mercado editorial brasileiro, nas últimas duas décadas, diminuiu 44%). Em tempos idos, o público desse tipo de evento era, em geral, conhecido por seu senso crítico, mas se hoje nem nós - que estamos muito mais para amantes de boa literatura do que para críticos - conseguimos sequer frequentar uma feira sem ter vontade de ir embora rapidamente, imaginem, então, os grandes pesquisadores, os grandes críticos, os grandes escritores...  Mas nosso ponto não é puxar saco da academia, que também (já) criticamos, mas questionar se você realmente acredita que esse tipo de ação causa alguma transformação na sociedade brasileira. É uma pergunta sincera, porque estamos sacrificando talentos que talvez estejam escondidos em prol de uma onda de literatura PANFLETÁRIA. Sim, literatura que serve a um propósito específico e, em geral, sem qualidade. Tudo aquilo que negamos enquanto arte.

 

Será que seguir a nova onda do mercado, sem contrariá-lo minimamente, é profícuo? Um mercado, claro está, que se apropria de tudo quanto é pauta para transformá-lo em produto. Em produto sem muita utilidade. Em um produto que existe, simplesmente, para estimular o consumo e, logo depois, ser descartado. O cidadão (digo, o cliente) serve apenas para consumir o que o mercado quer que ele consuma. Quer uma prova? Quantos livros você conhece que criticam a forma como a nossa sociedade anda tratando a “igualdade” e o “gênero”, um livro que vá de encontro àquilo que os editores esperam vender como politicamente correto, sem se adequar a nenhuma das caixinhas dos sub-representados?  

 

E eis que chegamos a um tópico que a direita adora criticar (quem não tem um tio ou tia que fala sobre a Lei Rouanet como roubo de dinheiro, não é mesmo?). A questão é que sempre vamos defender o uso de dinheiro público para promoção de cultura, claro, pois é isso que mantém a arte viva e as pessoas mais humanas e inteligentes. Entretanto, como bons críticos que somos, jamais defenderíamos algo apenas por ser de esquerda ou apenas por negar o polo oposto.

 

O que se nota é que boa parte dos eventos literários é financiado ou recebe dinheiro público, fruto de impostos de toda a população. Dinheiro que serve para promover meia dúzia de escritores (figurinhas carimbadas) de grandes editoras, com condições suficientes para promover, sem dinheiro público, seus próprios autores e obras. São falsas vítimas da sociedade que estão conquistando privilégios reais. Parece leviano e até acusatório, mas é preciso sair dessa onda "paz e amor" que aceita tudo sem questionar.

 

A conversa é polêmica e exige muito mais tempo e espaço, mas esta é só a primeira da série #Malagueta sobre esse assunto espinhoso. Nós volta(re)mos porque preferimos discussões acaloradas a discussão alguma... Preferimos pensar por nós mesmos do que esperar que o mercado pense por nós. Preferimos trazer à luz nossos incômodos e testar se eles são, em algum momento, também o incômodo de tanto outros... Malagueta arde, mas faz bem ao coração. Não deixe de acompanhar os próximos textos e autores que contribuirão para essa conversa que apenas iniciamos.

10 de abr. de 2023

A literatura brasileira está fadada ao fracasso? - Malagueta #39


Por Rogers Silva
 

A literatura brasileira, embora tematicamente profunda e esteticamente rica, parece estar sempre sendo renegada. Parece? Não só parece. Vejamos a lista dos vinte e cinco (25) livros mais vendidos da Amazon em 2022. Há nela apenas um representante da literatura brasileira: Torto arado, de Itamar Vieira Jr. Com exceção de mais uma obra brasileira (Do mil ao milhão. Sem cortar o cafezinho, de Thiago Nigro), do tipo autoajuda que não ajuda mas também não atrapalha, todos os outros da lista são estrangeiros. 

A literatura estrangeira possui enorme popularidade no Brasil. A brasileira, não muito. Muito pouca, na verdade. Por que será? Há muitas razões pelas quais a nossa literatura tem sido relegada a segundo/terceiro/último plano, e não daremos conta de todas elas, óbvio. Mas vamos tentar refletir sobre algumas, certo? Certo. 

Em primeiro lugar, muitas pessoas acreditam que a literatura brasileira não é tão bem escrita quanto a literatura estrangeira. Os leitores médios (em especial os pré-adolescentes, adolescentes, jovens, jovens adultos) costumam crer nessa mentira cabeluda. É mais ou menos o que ocorria quando minha geração era criança/adolescente/jovem: acreditávamos que nos EUA se fazia o melhor cinema do mundo sem, ao menos, conhecermos o cinema de qualquer outro local do planeta. Ou seja, uma boa parte dos leitores brasileiros (que, sabemos, são poucos) não dá nenhuma (ou pouca) chance para a literatura brasileira por conta de pré-conceitos, em geral, equivocados. 

Em segundo lugar, muitas pessoas argumentam que a literatura brasileira é muito regionalista e, por incrível que pareça, não se conecta com o público brasileiro. Acredito que é preciso ser regional para ser universal, como dizem muitos críticos e escritores. Alguns precisam olhar no fundo de si e dos seus para conseguir enxergar aquilo que o ser humano possui de mais universal e, em consequência, consigam falar com o maior número possível de pessoas. Em casos extremos, como no caso “Guimarães Rosa”, compreendê-lo é de fato difícil, não só por conta das temáticas abordadas, mas sobretudo pela linguagem criada/utilizada. Guimarães é um famoso desconhecido no seu próprio país. 

A forma como a literatura brasileira, em geral, lida com questões universais passa bastante por questões regionais. Poucos autores/obras essencialmente urbanos(as) conseguem ser tão universais quanto os ditos regionais, como Guimarães Rosa, Graciliano Ramos, João Cabral de Melo Neto, Carlos Drummond de Andrade (um misto de regional e urbano), Erico Verissimo, etc. O fato de parte dos leitores não conseguirem se conectar com a obra regional/universal da literatura brasileira diz muito mais sobre a população brasileira, que tem dificuldade de se enxergar, do que necessariamente sobre os escritores. Inclusive, essa questão é tese de muitos sociólogos brasileiros. 

Em terceiro lugar, muitas pessoas argumentam que a literatura brasileira não é tão inovadora quanto a literatura estrangeira. Ledo engano. Ao contrário, boa parte da literatura brasileira sofre da Síndrome do Experimentalismo (o cinema sofre dessa mesma Síndrome), e muitos escritores acreditam piamente que para ser excelente ou genial precisa ser, necessariamente, experimental. Em outros países, ao contrário, muitos escritores (e cineastas) só escrevem seguindo modelos, padrões, jornadas de heróis, etc., o que facilita na identificação e comercialização das suas obras. Há um padrão, e poucos fogem desse padrão. Sabe aquela sensação de já ter lido aquela história em outro lugar? Será algo bem recorrente se um leitor começar a acompanhar as ficções estadunidenses best-sellers, por exemplo. Se acompanhar as obras literárias ficcionais brasileiras, é pouco provável que o leitor tenha essa sensação. 

Além disso, a falta de investimento e apoio à literatura brasileira (pelos próprios escritores, pelo Estado, pelos leitores, pela sociedade em geral) é um fator importante para o seu desprestígio em relação à literatura estrangeira. Os escritores brasileiros muitas vezes lutam para conseguir publicar seus livros e ganhar o mínimo de reconhecimento (uns 100 leitores, por exemplo). Enquanto isso, os escritores estrangeiros são frequentemente promovidos e apoiados por editoras e por seus governos. Chegam aqui com uma estrutura de marketing e comunicação que pouquíssimos escritores brasileiros possuem. Pouquíssimos mesmo. Em uma corrida de 30 quilômetros, um escritor iniciante brasileiro sai da linha da largada e alguns escritores estrangeiros saem no quilômetro 29º. Qual a chance de um escritor brasileiro ganhar essa competição? 

Um escritor brasileiro pode ter escrito uma obra excelente, genial, interessantíssima, etc., mas a chance de ter uma divulgação e distribuição competentes é quase nula. Ou seja, a chance de muitas pessoas terem acesso à sua sinopse é pequeníssima, imagina à obra impressa! Em geral, o próprio autor é o divulgador e distribuidor do seu livro. Sua capacidade de projetá-lo é mil vezes menor do que a de um autor estrangeiro renomado que fez sucesso no seu país de origem, cuja obra é publicada/distribuída por uma grande editora brasileira. É uma concorrência desleal. 

Soma-se a isso os escritores que, ainda na segunda década do século XXI, vivem numa redoma (aquela construída há séculos e destruída há décadas). Acreditam que sua única função no mundo é escrever e a função dos outros, seus serviçais, é divulgar sua genialidade. É bastante comum encontrar essa peça no meio literário. Ele/ela envia um texto para uma revista e fica, de tempos em tempos, inquirindo os editores (quase sempre escritores que trabalham sem ganhar um centavo) se já leram seu texto, se vão publicá-lo, quando vão publicá-lo, enfim. Ele é chato. Ele quer porque quer que todos descubram e aceitem sua genialidade, mesmo que ilusória. Muitas dessas peças só divulgam sua própria literatura, não prestigiam seus pares, acham que estão acima de tudo e todos e juram – santa ingenuidade! – que vão fazer sucesso. Em geral, só leem os clássicos, são blasés e escrevem uma literaturazinha ultrapassada. 

A literatura brasileira tem muito a oferecer e merece mais reconhecimento e valorização. É uma literatura diversa em suas formas e temáticas. Precisamos – a começar pelos próprios escritores – apoiar nossos escritores e investir (leitura, tempo) mais em nossa literatura. Precisamos divulgá-la sem dó e vergonha. Precisamos criar campanhas de leitura com foco na literatura brasileira (contemporânea). Precisamos encher os eventos e lançamentos, nem que seja com escritores que leem escritores. Precisamos criar redes (de leitura, de divulgação, de distribuição mútua). Também precisamos mudar nossa mentalidade em relação à literatura brasileira e aprender a nos reconhecer nela. Devemos parar de menosprezar nossa própria cultura e aprender a celebrá-la. Devemos nos orgulhar de nossos escritores e obras literárias e reconhecer seu valor e importância para nossa sociedade. Um povo que tem vergonha da própria identidade é um povo que tenta, a todo momento, dar um pé na própria bunda.


Dicas subjacentes a outros escritores: 

  • Seja bom, mas não precisa ser experimental o tempo todo. Leia os clássicos, mas leia os contemporâneos também.
  • Seja acessível. Não seja arrogante. Não se considere o novo gênio da última semana. Nada mais irritante do que escritor blasé.
  • Não tenha medo de divulgar sua própria literatura, se acredita de fato nela. No entanto, nada custa divulgar autores/amigos em cuja literatura você também acredita. Não seja egocêntrico.
  • Hoje, além de escritor, é necessário que você: tenha conhecimentos de publicidade e propaganda, internet, mercado editorial, redes sociais etc.; seja vendedor do próprio livro; seja distribuidor do próprio livro; promova eventos artístico-literários. Não tenha medo de usufruir de ferramentas de outras áreas. Ou seja, não acredite que o texto literário basta. É uma dura realidade, mas não basta.

Rogers Silva é escritor. Profissionalmente, trabalha com leitura crítica e revisão de textos. Mineiro, nasceu e mora em Uberlândia. Publicou diversos contos em sites, revistas, jornais e coletâneas. É cofundador da Revista O Bule. Autor do livro Manicômio (narrativas ficcionais), dos e-books Sobre seres que bradam luz (2021), Ensaios sobre a total libertação (2022) e Quando tudo era ruína, amor (2022), é também papai da Clarissa. Tuíta em @rogerssilva.

26 de nov. de 2021

Isto não é uma resenha: ‘A mulher submersa’, de Mar Becker - Malagueta #38

Por Allyne Fiorentino 

Estive com receio de escrever sobre o livro de Mar Becker desde que o li. Não por melindres de a conhecer e nem pela possibilidade de colocarem em xeque minha imparcialidade, mas porque qualquer palavra dita poderia esfacelar em pó essa experiência de leitura que tive. Pelo mesmo motivo, não li nenhuma resenha, nem crítica, nem mesmo o prefácio do livro. E sinto mesmo dizer que não serei imparcial, tão pouco farei uma resenha, acho que essas linhas serão uma percepção apenas, porque meus sentidos me traem ou, melhor dizendo, são verdadeiros até as entranhas, porque esses poemas eu os “pensei sem pensamentos”, como diria Caeiro, e é como eu diria para todos que irão ler essa obra: estejam nus. Literal ou metaforicamente nus para essa experiência.

Ler A mulher submersa é uma experiência sensorial acima de tudo, diria quase corpórea... como se meus dedos passeassem pelas páginas de seu corpo, pelas palavras de seus pelos, pelas frases de seus seios, pelas gotas de suor que guardam seus segredos submersos, contados baixinho, aos sussurros, como as mulheres têm feito todos esses anos. Esse sentimento dissonante certamente foi experimentado por inúmeras leitoras, tornando esse livro um códice secreto feminino: só as mulheres podem entendê-lo com o corpo. Não é à toa que os números de venda desse livro superam expectativas para o gênero poesia. Embora a escrita de Mar Becker seja extremamente refinada, com profundidade e interconexões cultíssimas, sua palavra alcança muitas pessoas porque para além do que está escrito, há aquilo inominável, tecido de maneira certeira e invisível. 

Ao adentrarmos esse santuário criado pela poeta, automaticamente somos envolvidas por um manto, pois é um lugar (se é que podemos chamar assim) em que todas as mulheres são sacralizadas, são abraçadas. Não é somente nos versos longos e nas belas construções alinhavadas à perfeição, mas nos silêncios entre versos é que encontramos essa essência inominável das coisas que estão por serem ditas, mas nunca são, dando essa sensação do apagamento, das nubilosas vozes que estão fora da linguagem.  

Remete-nos a um tempo em que nós, mulheres, “e o mar ainda éramos um mesmo projeto” (p. 63), origem da vida da Terra e dos Homens, um fim em si mesmas. Evocando Safo, Virginia Woolf, Ana Cristina César e Alfonsina Storni mas não de uma maneira melancólica e dramática da morte, mas demonstrando, talvez, o regresso à origem, às vozes das quais somos feitas e que, constantemente, nos chamam, nos cobram, nos relembram de coisas de tempos imemoriáveis. 

Digo seu nome virginia minha boca ilumina-se/ minha voz canta teu corpo de mulher submersa” (p. 40) – Virginia Woolf, que ouvia vozes, atirou-se num rio com o bolso cheio de pedras. “Safo enrolada da cabeça aos pés aos fios do seu próprio cabelo escuro, como se vestisse um manto / de tão morta, safo – tão luminosa” (p. 38) – em uma das versões da história de Safo, ela se joga de um penhasco à beira-mar por sofrer de amor por homem, mas como é sabido, a homossexualidade dela foi talvez seu maior sofrimento. “Em um milênio todos os mares estarão rebentando num único mar/aos pés de ana cristina cesar/na praia de Copacabana” (p. 41) – Ana Cristina Cesar, em depressão, joga-se da sacada de um apartamento em Copacabana.  Foi numa manhã de outubro que alfonfina srtorni escreveu o poema me voy a dormir, antes de caminhar até a praia e morrer no mar” (p. 18) – Alfonsina Storni, ao descobrir um câncer de mama e passando por inúmeras dificuldades financeiras e emocionais lança-se ao mar. Todas são mulheres escritoras que enfrentavam grandes empecilhos para continuarem a escrever, sejam empecilhos financeiros, emocionais ou sociais. Agora, todas submersas, continuam existindo nas vozes de seus escritos, mas também nos corpos de todas as mulheres (ainda) não submersas.  

Passei a acreditar que somos todas mulheres submersas e nos comunicamos por cantos aquáticos, um infrassom de baleias e sereias. É possível, estando perto o bastante, “o ouvido colado numa concha/para ouvir o mar”, ouvir “o silêncio chamando por ti” (p.19), os cantos de mulheres submersas evocando os cantos adormecidos em nós, refletindo, qual espelho d’água, porque sob as águas nos diluímos e emergimos como muitas. 

Sendo líquidas, estamos em todos os lugares, em todas as imagens poéticas que encontramos nos poemas de Becker: no mar, no vapor, na respiração, na chuva, no dilúvio, no lago, no sêmen, na cerração. Na lascívia doce com que ela tece sua mulher submersa, a imagem feminina mescla-se aos objetos da casa, mimetizando-se perfeitamente às cortinas, às vidraças, aos tecidos. A sensação de uma verdadeira sombra atravessando os ambientes que ela descreve de maneira bem indireta, como se tudo fosse uma coisa só. 

A presença fantasmagórica dessas mulheres, das vivas e das mortas, também é ressaltada pela figura da avó Maria Manoela no trecho: “enquanto durmo, minha avó maria manoela regressa” (p.73), porque como ela mesma explica em versos anteriores “toda família tem mortos que precisam ser vingados” (p.72). Toda família carrega, de fato, os fantasmas de mulheres que sofreram, que sacrificaram seu corpo e sua mente, que foram agredidas, apagadas intelectualmente, que foram até mesmo assassinadas... 

Essa marca de machismo dentro das famílias, que acontece submerso nas histórias de família nunca contadas, que são guardadas em segredo absoluto é também outro traço que nos une como mulheres: temos todas fantasmas femininos para conviver, temos mulheres ancestrais que talvez se sacrificaram para que pudéssemos existir hoje. Nossos passados têm similaridades e, por isso, nossos presentes também se identificam, mesmo sem termos essa consciência. 

E como é bonito o trabalho dos versos ao demonstrar como uma mulher emerge de outra: a mãe que emerge da avó morta nos versos “mulher vinda da ausência de outra, da ausência da história de outra. Mulher vinda de uma não-mulher/ de um não-corpo/de uma não-voz” (p.78), essa mulher que nasce sob a violência e que talvez carregue essa marca no olhar, no corpo, uma marca física de uma dor secular.  E, em certo momento, o eu-lírico deixa claro que essa presença mítica da avó que foi calada permanecia mais viva do que nunca: “ter sempre em mente que havia entre nós uma mulher/ que foi morta/ uma mulher que foi calada” (p.83). 

Pausa para um desabafo – E entrando na seara do machismo, devo confessar aqui bem baixinho para que ninguém possa ouvir, que eu mesma presenciei (e entrei em uma briga!), por causa de seu livro, Mar Becker, por ver o veneno do machismo tentando diminui-lo nas mesas de bar, nas rodinhas de homens que doídos de inveja não conseguiram tocar os outros com seus poemas. Mas você, em sua estreia, chegou ao Top 5 finalistas do Jabuti, venceu o prêmio Minuano e vendeu mais do que eles sonham vender. Você, Mar, sem compadrios, sem tentativas de estrelismo, sem muitas conversas e aparições, submersa, sussurrando, você chegou lá aonde esses homens que tentam te diminuir (sem sucesso) não chegaram, nem sequer passaram perto. E sabe por quê? Por que em nós, mulheres feridas, “mesmo o sussurro tem a força de um grito” (p. 19). – Fim do desabafo.  

Se o segredo da vida e da morte pode ser escrito em uma esmeralda, “o ideal de um livro é que seja escrito numa asa” (p. 44), na asa de uma borboleta ou de libélula, ser leve, que possa voar e ser livre, mas ao mesmo tempo também ser belo e frágil. Para escrever com profundidade é relativamente fácil, basta anos de estudos ou uma alma iletrada, mas profunda, entretanto para que a profundidade se torne leve é preciso estar no limiar de dois mundos, na beira do abismo prestes a se jogar na água. 

“À parte do reino”, última seção de A mulher submersa é uma série de poemas que fecham brilhantemente esse livro. O que nas páginas anteriores vem sendo mostrado delicadamente rebenta em uma explosão de conexões, como se precisássemos de uma derradeira prova de que todas somos uma e vice-versa. E por isso, embora impossível, eu gostaria de presentear cada mulher do mundo com esse livro e recomendo que o leiam, que o sintam. Se forem mulheres das Letras, como eu, tentem ler inocentemente primeiro, sem pensar em séculos de teoria e crítica literária pesando sobre nossas asas. Abracem a Recepção, que talvez seja o encontro com o texto mais urgente hoje. 

Encerro, portanto, com um poema completo:

 

senhor meu deus, tu não me ouves

não ouves a mim, que sou mulher

a elas, que são mulheres

a nós

 

ainda assim continuaremos pedindo por ti

noventa e poucos anos, e estaremos de joelhos à beira da cama

antes de dormir

 

sei que será em vão

tu não descerás

não entrarás nos nossos quartos

 

a verdade é que tens medo de nós, nossas mãos ao alto num pai-nosso

os dedos tortos, deformado pela artrose

pelo frio

 

tens medo do abajur aceso

dos gestos se erguendo e compondo na parede um teatro de sombras

 

tens medo, senhor meu deus

do animal faminto que somos à espreita

 

as mãos escuras no fundo branco

como as garras de uma ave de rapina.


Allyne Fiorentino é mineira e mora em São Paulo. Mestra em Estudos Literários pela Unesp, especialista em Design Instrucional e graduada em Letras Português/Espanhol pela UFTM. Atuou na área de pesquisa Teoria e Crítica da Poesia, sobre Simbolismo brasileiro e hispano-americano, estudando os autores Cruz e Sousa e Rubén Dario. Mais recentemente atua na área de novas tecnologias aplicadas à Educação a Distância e autoria de material didático. É apaixonada por Literatura Feminina e pelas questões sócio-históricas femininas.



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13 de nov. de 2021

ABL: muito barulho por nada? - Malagueta #37

Por Allyne Fiorentino

Estamos em uma época de nervos à flor da pele. Finda, ao menos parcialmente, uma pandemia que revelou mais do ser humano do que gostaríamos de saber. Ainda estamos atordoados em relação ao que fazer com o grande elefante branco na sala: sobrevivi a um evento peculiar da História da Humanidade, sob um (des)governo peculiar, e o que isso faz de mim? 

Houve uma época em que poderíamos nos ancorar na Arte para nos auxiliar a trilhar um caminho duro de incertezas humanamente recorrentes (talvez até patéticas, mas sem resolução), porque a Arte, na minha opinião, é um estado de profunda clareza em relação ao presente, uma racionalidade extremamente apurada do ser/estar na sua época, e é por isso que as grandes obras são atemporais, pois não há como ultrapassar a barreira para o futuro sem estar de pés firmes no presente, sorvendo-o até o último gole. 

Dito isso, eu espero que tenham compreendido o que eu quis dizer: passamos por essa pandemia sozinhos; pela ressignificação da pandemia, sozinhos. Órfãos de Arte. E de boa arte, seja lá o que isso signifique para cada um que estiver lendo.     

A apatia dos escritores, que não tiveram o timing de reagir aos grandes acontecimentos, só foi rompida quando houve a eleição da atriz Fernanda Montenegro para a Academia Brasileira de Letras. A mesma Academia que raramente se pronuncia sobre algum assunto. Você, leitor, sabe nomear as pessoas da ABL que escolhem os novos membros? E você sabe como essas pessoas chegaram à ABL? Eu imagino que as respostas serão negativas, e não sem razão! Muitas coisas no nosso país são feitas de forma obscura, sem muitos parâmetros... De repente, algo vira moda e passa a ser verdade absoluta. Tudo obscuro.  

O que realmente nos importa saber é que, desde a sua fundação, a Academia Brasileira de Letras foi problemática, assim como todas as coisas formadas por pequenos grupos que se acham no direito de traçar parâmetros para um coletivo, sem se preocupar com os reveses e implicações dos seus atos. Presididas por Machado de Assis (mas deixemos claro, a iniciativa não foi dele!) as reuniões para criação da ABL contavam com um grupo de pessoas ligadas pela escrita, mas mais do que isso, eram amigos. Não que os grupos de amigos não possam criar coisas boas, mas o nepotismo, ou como gosto de chamar nesse caso, o “compadrio” no Brasil é algo estrutural e nos causa grandes sofrimentos ainda hoje. Na época, muitos escritores foram indicados e concluiu-se, posteriormente, sob o jugo do tempo, que era mais compadrio do que mérito, visto que hoje essas obras não são consideradas relevantes. 

A relação mérito – reconhecimento, além de naturalmente subjetiva por si só, não tinha parâmetros minimamente traçados, sabia-se apenas que era uma Academia para cultuar a língua e a literatura brasileira. E é isso que estamos fazendo até hoje, em todas as nossas relações sociais brasileiras, sejam elas culturais, políticas, trabalhistas: vivendo sem mínimos parâmetros traçados.

Além disso, poucos sabem, ou sequer mencionam, ou sequer se interessam em saber, que algumas mulheres escritoras participavam dessas reuniões para a criação da ABL, forneciam seu arcabouço intelectual e que foram apagadas dessa história e da história da literatura, como a escritora carioca Júlia Lopes de Almeida e talvez outras que ainda hoje não sabemos nomear devido a esse apagamento proposital. 

E não seria prudente, hoje, nos perguntarmos: mas não deveriam ser essas as pessoas inovadoras da época? Não deveriam ter enfrentado os padrões franceses, que queriam desesperadamente seguir, e permitir que as mulheres tivessem uma cadeira na Academia que elas mesmas ajudaram a criar? Pois é, mas eram homens da sua época e, reitero: quebrar a barreira do presente exige profunda consciência dele e talvez isso lhes faltasse um pouco.   

Mesmo em nossos dias, não se pode esperar dos homens da nossa época que ajam de forma diferente a não ser guiados por uma moda politicamente correta que os empurram e praticamente os obriga a enfrentarem o machismo estrutural, na maioria das vezes sem sucesso, pois é plastificado, falso. Observem como o alarde e as críticas em relação a Fernanda Montenegro foram infinitamente maiores do que o alarde sobre Gilberto Gil. E eles provavelmente dirão: mas o cantor realmente faz “letras”, enquanto a atriz, não. Poderíamos mesmo acreditar nessas justificativas, mas sabemos, todas nós, que o chicote social pesa três vezes mais no lombo de qualquer mulher.  

Se esperavam que a minha abordagem defendesse ou não a escolha dos recém laureados, sinto decepcioná-los, mas esse não é o cerne da questão. Nem me parece inteligente discutir isso em relação a uma instituição que não foi fundada para esse propósito. Também sinto decepcionar quem ingenuamente acredita que isso é uma inovação, não é. É a manutenção do status quo. 

Não pode ser considerada exceção a escolha de Fernanda Montenegro e Gilberto Gil para compor a ABL, pois escolhas baseadas em parâmetros obscuros e de compadrio sempre foram a regra. A regra é não ter uma regra clara. O que eu vejo é uma disputa de pequenos grupos que estão todos, sem exceção, interessados em manter o compadrio como meio de medir mérito. Seja no círculo dos consagrados, seja no círculo dos não consagrados, seja no círculo dos marginalizados. Todos têm seus “amigos”, mas nenhum deles está debruçado verdadeiramente sobre o texto, sobre a palavra na folha de papel, a palavra como ela chega a seu leitor. Fala-se muito em autores, mas pouquíssimo em literatura. 

Assim como algumas instituições extremamente conservadoras tentam surfar na onda do politicamente correto e nas modas que vão surgindo, encaixando certas figuras e certos discursos para garantir uma revitalização comedida que agrade ao público (que por sua vez também surfa nessa moda de maneira alienada), mas que mantém as bases intactas, assim eu também vejo esse episódio. Vivemos em uma época em que as editoras perguntam aos aspirantes a autores que querem pulicar seus livros quantos seguidores eles têm no Instagram para verificarem se vale a pena publicá-los, ou se eles tratam de algum assunto de minoria que possa angariar público. Nada disso tem a ver com literatura. Percebem? 

As imbricações desse assunto são muitas e não quero me alongar, mas quero deixar a reflexão de que independentemente de concursos e academias, as coisas continuam se desenvolvendo e criam suas próprias regras e vão se alastrando, sejam elas boas ou ruins. Enquanto a gente tenta fazer a manutenção de um velho hábito, há muitos novos hábitos surgindo e sem nenhuma reflexão. Logo, eles serão também a regra e muitos terão perdido, novamente, o timing de agir diretamente sobre eles, sobre assuntos que realmente são importantes.


       

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26 de set. de 2020

'Mignonnes' (Lindinhas): quando ser mulher? - Malagueta #36




Por Allyne Fiorentino

Os adultos se lhe afiguram deuses: têm o poder de lhe conferir o ser. Sente a magia do olhar que a metamorfoseia ora em delicioso anjinho, ora em monstro (Simone de BEAUVOIR, O segundo sexo II, p.11).

Em que momento deixamos de ser meninas e passamos a ser mulheres? Com a primeira menstruação? Quando saímos de casa? Quando resolvemos iniciar a nossa vida sexual? Quando temos o primeiro filho? Vê-se que nenhum desses parâmetros é real, pois ocorrem para cada mulher em idades diferentes e alguns deles podem nunca ocorrer.

É provável, portanto, que aquilo que norteará a nossa reflexão, ao fim e ao cabo, não será o tempo cronológico em que passamos a ser mulheres, mas, sim, o que significa ser mulher na sociedade hoje. Há algo que nos une como mulheres, cis e trans, em todas as idades, em todas os países, em todas as culturas: o abuso.

No filme Mignonnes (2020), Maïmouna Doucouré estreia como diretora promovendo a reflexão de um daqueles assuntos que não gostamos de abordar devido às contradições que engendram. Apesar da temática polêmica, a maneira delicada com que o assunto é tratado e a ingenuidade das personagens principais garantem momentos divertidos ao filme. Nada fica pesado ou dramático demais.   

A trama gira em torno de Amy, garota senegalesa cuja família muda-se pra um bairro pobre de Paris. Já nas primeiras cenas, quando ela encontra outra garota de sua idade, Angelica, dançando na lavanderia, percebemos que o choque cultural será uma das premissas do roteiro. Essa diferença entre culturas nos ajudará a refletir o tema pelo viés da comparação do que é ser mulher na cultura tradicional senegalesa e o que é ser mulher em países com forte influência da cultura pop virtual.

A protagonista passa por um momento conturbado do amadurecimento sexual enquanto vive, também, um momento conturbado em casa. Na idade de 11 anos, Amy passa pela transição da infância para a adolescência, essa etapa da vida de uma menina em que ainda existe uma ingenuidade tipicamente infantil, mas há o desejo de ser uma moça, uma mulher. Isso fica claro quando ela encontra um grupo de meninas na escola que estão em busca de um prêmio em um concurso de dança, as Mignonnes. As atitudes e as roupas usadas por elas (curtas e justas), bem como a dança impactam e encantam Amy, que parece desabrochar para fora do mundo infantil e perceber que talvez já pudesse ser uma moça.

Paralelamente a isso, a família, que segue a religião muçulmana, está se mobilizando em torno de um evento que irá mudar as perspectivas do padrão familiar. O pai irá se casar com a segunda esposa e se unirá ao restante da família em Paris. Essa prática de poligamia, embora comum, nem sempre agrada as mulheres muçulmanas, mesmo que elas estejam inseridas nessas tradições, porque, assim como quaisquer outras mulheres do mundo, também sentem ciúme, desvalorização, inveja, sentimento de abandono...

 A invisibilidade da figura paterna

A mãe, apesar de estar desolada com o segundo casamento do marido, tenta se mostrar forte e resignada à sua condição perante os filhos, é somente por um acaso (estar se escondendo debaixo da cama da mãe e ouvir a conversa ao telefone) que Amy descobre que, afinal, sua mãe está muito triste com essa situação, o que a faz também ter raiva do pai.

Em nenhum momento o pai aparece no filme, o que nos remete a essa ausência da figura paterna na vida dos filhos de quase todas as sociedades do mundo, principalmente aquelas bastante conservadoras: o patriarca provedor deixa a cargo da mãe a educação dos filhos e os cuidados da casa enquanto ele segue apenas como uma figura secundária. Essa “sugestão de existência” ocorre em dois momentos do filme: na cena em que o pai deseja falar com Amy e ela, com raiva, joga o telefone pela janela; e a cena em que, já estando em casa, o pai e a noiva, Amy vê os chinelos dele na entrada do quarto. Mesmo nesse momento o pai não é revelado, assim como a noiva, que aparece toda coberta de branco, como um fantasma, como já havia sido narrado pela tia sobre os casamentos senegaleses. Amy se assusta com a noiva/fantasma ou com a personificação da tradição?


Contradições, paradoxos e afins

As contradições e paradoxos são essenciais na construção da lógica do filme. O já mencionado desejo das meninas em se tornarem moças deixa as cenas divertidas, pois mescla a vontade de crescer em paralelo à ingenuidade que possuem. Por exemplo, na cena em que elas estão em um chat na internet com um rapaz mais velho e uma delas abre a webcam sem querer, revelando o rosto de Angelica, e o rapaz se assusta dizendo: “é apenas uma menina”. Isso a deixa irritada. Ser chamada de “menina” é uma ofensa, é um xingamento para elas que desejam tanto crescer. Em outra cena, elas estão no banheiro da escola e veem vídeos na internet e discutem como seria uma relação sexual. Os comentários imaturos e inexperientes conferem humor à cena, mas também atestam a pureza que a roteirista teve o cuidado em representar. 

As coreografias que o grupo Mignonnes ensaiavam poderiam até ser consideradas sensuais para garotas de 11 anos, entretanto o interesse de Amy em começar a dançar junto ao grupo faz com que ela veja vídeos na internet de cantoras dançando de maneira considerada extremamente sexualizada. É pela influência desses vídeo que Amy tem a ideia de sexualizar ainda mais a coreografia ensaiada para o concurso. Colocando-nos no lugar de tantas crianças, adolescentes e, inclusive, adultos, poderíamos imaginar o que se passa na cabeça dessas pessoas consumindo qualquer tipo de conteúdo livre na internet: se é livre e público, por que seria errado?

 Nas cenas dos ensaios, não nos é revelada a coreografia completa delas, mas ao vermos meninas com corpos franzinos e ainda não desenvolvidos tentando rebolar e remexer as nádegas, fica-nos também a impressão do quão ridícula é essa maneira com que encaramos a sensualidade hoje. O primeiro impulso é sempre pensar: “Essa dança é extremamente sexualizada para meninas dessa idade”. Podemos ir além: por que ao vermos crianças fazendo isso achamos inadequado, mas por que não achamos piegas (ou em bom português moderno, ridículo) uma mulher adulta fazendo isso? Será que isso é o que realmente achamos sensual ou é apenas uma prática imposta em algum momento e que as mulheres seguem reproduzindo como sendo um padrão de sensualidade.

A “ridicularização do sexy” nos mostra que até mesmo essas atitudes completamente pessoais podem ser manipuladas pela sociedade, que nos dita o que deve ser sexy e como uma mulher deve explorar a sua sensualidade: seja nos remelexos do corpo, seja na depilação do corpo, seja nas cirurgias plásticas para manter os seios sempre tenros, a barriga sempre chapada, as curvas normalmente inalcançáveis etc. Tudo isso foi rotulado como sexy. E eu pergunto: nós nos achamos sexy fazendo essas coisas? Será mesmo que remexer o corpo é um ato sensual ou é apenas um corpo remexendo? Uma dança e nada mais...

Nesse aspecto, a percepção de cada um será o juiz, pois a sensualidade, na maioria das vezes, está nos olhos de quem vê. É por isso que ao ver meninas dançando, homens adultos têm a escolha de enxergarem-nas apenas como meninas tentando imitar atitudes de mulheres adultas ou como mulheres que suscitam algum desejo sexual. Novamente, são os olhos dos homens que matam a ingenuidade contida nas meninas, é nos olhos deles que está a impureza, e, não, nas atitudes delas.

Isso tudo nos remete à cultura do estupro. A culpa recai nas roupas e nas atitudes das mulheres, e, não, no crime cometido pelo homem. A cena em que um colega de classe dá um tapa no bumbum de Amy alegando que se ela queria mostrar seu corpo, também poderia ser tocada por ele. Ora, sabemos que esses conceitos são passados de geração para geração, perpetuando a cultura que normaliza esse tratamento para com as mulheres.  

No palco do concurso, ao verem a coreografia “sensual” que as Mignonnes apresentam, os adultos da plateia vaiam, julgam e recriminam as garotas. O paradoxo da situação está criado: os adultos vaiam porque acham que a coreografia das meninas é muito sensual para a idade delas, ou seja, elas não são consideradas maduras o suficiente para ter essas atitudes. Entretanto, sendo elas apenas meninas de 11 anos, é justo que adultos as vaiem sem nenhuma consideração pela imaturidade dos seus atos? Ora, se justamente apontam a imaturidade por um lado, por outro esperam que tenham o discernimento e a responsabilidade para entender as vaias. Se elas são novas demais pra dançarem assim, por que não são novas demais para serem vaiadas sem piedade? Você vaiaria uma criança em um palco?

 A simbologia das roupas e da menarca

A tia de Amy, uma senegalesa idosa, uma matriarca que tenta preservar e ensinar aos mais novos as tradições do país, é uma figura muito importante, pois é o elo desse passado conservador e o mundo em que Amy vive agora. Ela é a voz de todos os antepassados que viveram e preservaram as tradições. E como rejeitar a sabedoria de uma senhora idosa e simpática? Eis aí mais uma contradição que não gostamos de mencionar: até que ponto devemos respeitar a tradição?

 Em uma das cenas, a tia diz a ela: “Hoje eu vou te ensinar a ser mulher: vamos fazer a comida para o casamento do seu pai”. Ser mulher para a tia é isso: cozinhar para os convidados de um casamento de um pai que está ferindo a mãe e provocando raiva na filha. A tradição, muitas vezes, nos ensina a aceitar a opressão, a resignar-se com aquilo que denominam “destino”. 

Para a cerimônia, Amy ganha um vestido tradicional senegalês. Esse vestido carrega uma simbologia especial, pois ele contrasta diretamente com as roupas curtas e sensuais das colegas de Amy.

Quando as flores do vestido sangram, Amy tem a sua primeira menstruação. Após a menarca, a mãe profere a sentença: “Você, agora, é uma mulher”. Mas o que é ser mulher, afinal? E ainda: o que é ser mulher aos 11 anos de idade? Com um corpo de criança e a imaturidade mental e emocional, querem que eu pense que já sou uma mulher? Pois se já sou uma mulher, porque a coreografia considerada “sensual” pareceu inadequada aos olhos de tantos pais que estavam na plateia do concurso? Se sou uma mulher, não posso mais ter atitudes imaturas? Não posso mais brincar? O que esperam que eu seja? O que eu sou, afinal? 

Esses paradoxos que reproduzimos sem pensar são frutos de uma sociedade que quer manter algumas de suas tradições, mas que não sabe como agir diante de aspectos tradicionais que remetem a abusos contra mulheres e crianças.

Essa mesma sociedade cobra de suas crianças, cada vez mais cedo, responsabilidades de adultos, mas ao mesmo tempo esperam que elas mantenham a moral e a ingenuidade de crianças... Roubam a infância das crianças de várias maneiras. A infância das meninas é roubada quando são transformadas em mães de seus irmãos mais novos ou responsáveis por todos os afazeres domésticos de uma casa, quando lhes proíbem o estudo, quando são expostas a uma sexualização precoce, quando são vendidas para se casarem, quando são violadas. O que nos une como mulheres no mundo todo são esses abusos que todas nós já sofremos.

No fim do filme, desobrigada pela mãe de comparecer ao casamento do pai e depois de ter sido vaiada no concurso de dança, Amy simbolicamente deixa a roupa tradicional e a roupa do concurso de dança sobre a cama e sai de jeans e camiseta para brincar de pular corda na rua com outras crianças. Simbolicamente, Amy não é nem aquela mulher que a tradição senegalesa espera que ela seja, nem a mulher que a cultura pop espera que ela seja: ela é apenas uma criança. Deixem-na ser apenas uma criança.