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11 de ago. de 2012

A equação do universo (Reprise)

Por Rodrigo Novaes de Almeida

-“Eis a verdade e o sentido da vida, do universo e de tudo! Não somos nós que tentamos sair da roda de reencarnações, ou, como outros imaginam, conquistar uma vida eterna pós-morte. Este universo feito de energia e matéria, ele sim é a tentativa magna de se libertar da fonte espectral – uma busca através da matéria para deter a entropia e imortalizar o espírito do mundo e nossas almas, para que não retornem à fonte, cárcere primeiro e último de tudo e de todos. Mas o problema foi, todo esse tempo e eras, termos invertido esta atroz verdade... até agora.” (Josué Francisco Fernandes)

-E se eu contasse para você, leitor, que descobri a equação do nosso universo? Talvez seja melhor começar essa história do início. Aconteceu assim...

-Cerca de treze bilhões de anos atrás – não, não é essa a história. Vou começar de novo. Ontem, após uma maratona de trabalhos (como todo mundo sabe, eu vim de Tralfamadore para a Terra com Vonnegut fazer pesquisa de campo, e como todo tralfamadoriano que se preze, ao conhecer as belezas naturais das vênus calipígias terrenas, principalmente brasileiras, optei pelo exílio, não obstante, permaneço na folha de pessoal do Laboratório Trans-Tralfamadoriano para Pesquisas Suprassemióticas do Setor Lácteo, cuja sede fica na sala vinte e três do nono andar da Universidade Tralfamadoriana; como todo mundo também sabe, de lá ainda vieram John Locke, o filósofo, que terminou a vida como ator num seriado televisivo de grande sucesso, e Angelina Jolie, um vírus de computador tralfamadoriano chamado Cibermute, implantado na Terra para fins ultra-secretos, então, se eu contar essa parte, terei que matar você, caro leitor). Vou começar de novo novamente. Ontem, após uma maratona de trabalhos (eu pesquisava metaversos matriciais feitos exclusivamente para maiores de dezoito anos, e como Josué Francisco Fernandes participa da minha mente, ele se viu no direito de escrever sobre o assunto; acontece que o Josué é humano e eu tralfamadoriano, então nossa convivência, às vezes, se torna bastante difícil, a não ser que estejamos com nossos amigos imaginários no botequim bebendo umas geladas e vendo as formas calipígias locais passarem). E de novo novamente outra vez começo. Ontem, após uma maratona de trabalhos, fomos, Josué e eu, encontrar um desses nossos amigos imaginários, Heráclito – porque não é por ser imaginário que não terá um nome, veja o exemplo do nosso próprio universo, ele é tão imaginário quanto tudo o que há nele, inclusive eu e você, e, infelizmente, a Angelina Jolie, embora corra certo boato de que Scarlett, a Johansson, exista de verdade, pelo menos é o que professam os talassadianos, uma gente contemporânea dos cretenses e dos fenícios que sabe viver, mesmo tanto tempo depois de não existirem mais –; e foi justamente o Heráclito, após se esbaldar num desses inferninhos do submundo transcendente de Copacabana, o paraíso imaginário possível desse nosso universo imaginário, pelo menos por essa banda solar, porque existem aqueles que juram haver uma outra Copacabana lá pelos confins de Andrômeda, o que confirmaremos mais adiante no espaço-tempo, quando o espaço-tempo entre as duas galáxias ficar tão próximo que elas se chocarão, e desse ovo mexido surgirá Borboleta, a galáxia dançarina do grupo local; e foi justamente o Heráclito, então, após a esbórnia, quem provocou a história que estou tentando, insistentemente, contar aqui, ou o seu transbordamento, fazendo com que eu voltasse às origens (do universo, é claro). Explico melhor o sucedido. Heráclito trouxe a mescalina que Huxley tinha escondido na quitinete dele antes de ir dessa para uma outra, nem melhor nem pior, apenas uma outra, como acreditam os sensatos que dizem ser o tédio o único paradigma essencial da vida (e, conseqüentemente, da morte também), ou a própria essência da vida (e aí já não se sabe se também da morte), como preferem os ponderados – a diferença entre essas duas correntes é tanta que já provocou uma guerra interestelar, cujos efeitos sentimos na pele aqui na Terra, embora, por sorte, não tenha sido na nossa pele propriamente dita, porque os homens ainda não existiam, mas na dos dinossauros, que sucumbiram e morreram, evidentemente de tédio, em meio a todo turbilhão dialético produzido pelos dois lados dissidentes; – ah, sim, Huxley, para quem não sabe, era humano, e morreu humano, apesar de suas tentativas de se tornar tralfamadoriano através do cultivo do peiote. Então Heráclito me deu a mescalina do Huxley e disse que eu devia usá-la para libertar o Josué da nossa mente, porque o Josué já não agüentava mais esse negócio chato que se chama trabalho, ainda mais um trabalho tendo como patrão alguém que estava na sala número vinte e três do nono andar de uma universidade no outro lado do universo, quase lá na borda onde a todo instante e a todo o momento (isso simultaneamente) se passa o filme holográfico de tudo o que acontece no universo, um filme aparentemente sem fim e bastante, bastante tedioso (o fato de o patrão estar longe não era ruim, não, de modo algum, dizia Josué, o problema era, esse sim, o fato de a sala ser a de número vinte e três, isso o incomodava sobremaneira). Como dentadura dada é sorriso fácil, usei a mescalina. Tanto Josué quanto eu tivemos, cada qual, nossas experiências místicas, ele como humano, e eu como tralfamadoriano. Ele como humano retornou ao espaço-tempo no qual era um xamã chamado Calígula, que, por desventuras familiares, se tornou imperador e promoter de orgias e derramamento de sangue, não necessariamente uma coisa numa hora e num lugar e outra coisa noutra hora e noutro lugar, já que a sua genialidade consistiu em juntar as duas coisas na mesma hora e no mesmo lugar, o que desagradou a muitos senadores e aristocratas, esses sim, sempre uma coisa e outra, na ordem natural do manda quem pode e obedece quem tem juízo, sabedoria que se desgastou tanto com o passar dos séculos que virou clichê, e como todo clichê passou a ser dito ao deus-dará por pessoas – humanas, claro – que não tem lá muita capacidade de processar o que dizem e, aí, bem, e aí dizem as coisas mais profundas e sábias como se estivessem mascando chiclete bubbaloo. Então o sangue do Calígula, o nosso pobre Josué, foi derramado numa cerimônia orgiástica sem precedentes. Já no meu caso, continuei dentro da nossa mente esperando por Josué, porque não há mescalina no mundo, pelo menos nesse mundo aqui, que faça um tralfamadoriano sair de si ou entrar em si – e isso também depende da corrente que tem o ponto de vista ou, como concordam sensatos e ponderados, pelo menos uma vez na vida, que tem o poder. Minha experiência mística, como bom tralfamadoriano, foi uma não-experiência mística, foi não-coisa alguma. Enfim, Josué voltou horas depois bastante perturbado (e uma perturbação dessas, é preciso esclarecer, tem efeito semelhante ao estado de embriaguês percebido em marujos tailandeses em qualquer redondeza de cais de porto do planeta, não necessariamente do planeta Terra); aí tivemos um problema, mais especificamente um problema locomotor. Caímos, batemos com a cabeça e apagamos. Quando acordei ela estava lá: a equação do nosso universo. E é ela que eu vou revelar agora ao leitor que chegou até aqui nesse vórtice também chamado, carinhosamente, bagaça, ao mundo e a todo o universo (Chupa essa, Einstein!):
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Não, o universo não é um chocolate M&M, para a infelicidade de uns e de todas as mulheres. Eis a leitura correta da equação do nosso universo:
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Onde u = universo, m = mente e m∞ = mente elevada ao infinito

Ou seja: o universo é a mente (de cada um) vezes a mente (que existiu, existe e existirá) elevada ao infinito
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Ironicamente (ou não), o resultado da equação é 1 (Um). As implicações filosóficas desse resultado nos remetem à intuição de unidade que define o universo como um mero programa computacional (um emulador, para ser mais exato), que vem rodando como peão maluco, o que nos leva ao parágrafo-epígrafe do nosso texto, escrito por Josué semanas antes de termos caído, batido com a cabeça e apagado, para depois (eu) acordar com a equação. De uma forma estranha, porém bem explicada pela física quântica (outra graça tralfamadoriana importada pelos humanos), a causa – um galo vermelho na testa pós-mescalina – veio algum tempo depois do efeito – a epifania do Josué sobre o sentido da vida, do universo e de tudo. Comigo não ocorreu o mesmo, tendo a equação aparecido para mim depois que acordei do trauma, mas isso é porque eu sou de Tralfamadore e, como todo mundo sabe, somos irresistivelmente simpáticos (não que isso tenha alguma coisa a ver, mas já que quase coisa nenhuma tem alguma coisa a ver no emulador de cognome Peão Maluco, há de bastar). Espero, portanto, e finalmente, que agora (são os meus mais sinceros sentimentos) toda a minha sabedoria traga para você, caro leitor, certa paz de espírito, e que a revelação feita aqui sirva, pelo menos, para quebrar um pouco essa nossa rotina de tédio.
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PS.: O Josué está aqui teimando comigo que o resultado da equação é 0 (Zero) e não 1 (Um), ou que pode ser tanto 0 (Zero) quanto 1 (Um), dependendo do ponto de vista ou de quem tiver poder para fazer tal afirmação, ou até independentemente do ponto de vista ou de quem tiver poder para fazer tal afirmação, porque, retornando à física quântica, é mais sensato mesmo e até ponderado que o resultado seja ao mesmo tempo (e, claro, no mesmo espaço) 0 (Zero) e 1 (Um), o que não deixaria de ser só mais uma piada do emulador Peão Maluco que chamamos de nosso universo. O que provavelmente é.
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CRÔNICA DO LIVRO A CONSTRUÇÃO DA PAISAGEM

11 de jul. de 2012

Crônicas a quatro mãos: 'A construção da paisagem'


A construção da paisagem (Sapere Editora, 2012) divide-se em duas partes, denominadas, respectivamente, de “Crônicas de Christiane Angelotti” e “Crônicas de Rodrigo Novaes de Almeida”. Cada parte é composta por quatorze crônicas, indicando o desejo do casal de encontrar a simetria e o equilíbrio. Ambas as partes abrem-se com uma crônica de mesmo título: “A construção da paisagem”. Isso poderá dar ao leitor, num primeiro momento, a falsa impressão de estar lendo uma obra composta, digamos, “a quatro mãos”. Mas, tão logo comece a ler a crônica de Rodrigo Novaes de Almeida, após ter lido a de Christiane Angelotti, o leitor perceberá que se trata de textos de feições bem diferentes. A temática é a mesma – a construção da paisagem ­–, mas o modo como cada um a apresenta aos leitores é bem diferente: na visão de Christiane, essa paisagem está envolta num clima de mistério, quase de sonho, onde a personagem vaga aos tropeções. Já Rodrigo dá ao tema um tratamento mais filosófico, mais reflexivo, abarcando, sem abrir mão do lirismo, tanto a visão da paisagem exterior quanto da interior. Podemos sentir, quase tocar, através da sua narrativa, os cheiros e as cores que compõem essa paisagem exterior. Christiane Angelotti é dona de uma escrita centrada na emotividade, no resgate da memória, e fica evidente que sua intenção é prender o leitor pela emoção. Já Rodrigo Novaes de Almeida, em boa parte das suas crônicas, explora o humor como meio de atrair o leitor e mantê-lo cativo pelo riso. É capaz da reflexão mais profunda, mais séria, mas o humor é sua característica mais constante. Com estratégias diferentes, mas eficazes, os autores transportam o leitor para dentro da paisagem que ambos constroem. (Apresentação de Geraldo Lima)

Christiane Angelotti é escritora, editora do site ABC Kids e colunista da revista Emília.

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e jornalista. Cofundador do coletivo literário O Bule e colunista do site Página Cultural.

8 de mai. de 2012

Ela morre no final (do livro 'A construção da paisagem')

Por Rodrigo Novaes de Almeida
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Ela morre no final. Você está maluco? Como é que você começa a história contando o final? A pessoa ali do outro lado não quer saber o final da história logo na primeira linha. Que falta de consideração! Acabar assim com a diversão dos outros... Diversão? Então ler a nossa história é um mero passatempo? E por que não seria? Ou você tem a cara-de-pau de dizer para a pessoa ali do outro lado que ler a nossa história é um caminho de transcendência de algum tipo, uma espécie de busca por verdades ou revelações existenciais, ou blá blá blá, blá bargh, acho que vou vomitar... Vai nada. E não acho nada também. Vamos continuar a contar a história. Continuar? Você já estragou. Não estraguei não. A pessoa ali do outro lado não sabe como ela morreu, não sabe por que ela morreu, não sabe quando ela morreu, não sabe onde ela morreu... Só sabe que ela morreu. Então escreva uma nota jornalística, um obituário, sei lá, porque não é assim que se começa uma novela. Novela? Ah, você está mesmo de palhaçada. A gente nem ia escrever uma novela. No máximo um conto, uma crônica, ou seja lá que tipo híbrido se escreve hoje em dia. Você vai ou não continuar? Tudo bem, eu continuo. Certo. Ela era muito, mas muito gostosa. Que maravilha! E ainda reclama de mim. Esta é a sua descrição abre aspas literária fecha aspas para os atributos físicos da personagem? Sim. Penso que é melhor deixar para a pessoa ali do outro lado os detalhes, faz bem para exercitar a imaginação. Bem o escambau. Devemos descrever os pormenores, sempre. Basta dizer que ela é bem parecida com a Rosario Dawson. Ah não, não! Se é para fazer deste jeito, que ela seja parecida com a Eva Green. Eu prefiro a Rosario. E eu a Eva. Mas elas são bem diferentes, assim confunde a pessoa ali do outro lado. Pelo menos as duas são gostosas pra cacete, como você queria. É verdade. Vamos adiar então esses detalhes sobre os atributos físicos dela. E o que você sugere? Vamos contar como e quando ela morreu. Ela morreu no finalzinho da tarde, na Voluntários da Pátria, em Botafogo, no Rio de Janeiro, ao sair de uma igreja. Levou um tiro, uma bala perdida. A polícia e os traficantes brincavam de faroeste caboclo, como de costume. Até aí nada demais, bem comezinho. Aliás, você é um péssimo narrador, nem sabe contar uma história, êta resuminho chinfrim! E ainda se esqueceu de dizer que ela estava vestida de noiva, que saía da igreja chorando tanto que mal podia enxergar um palmo diante do nariz, que talvez até morresse atropelada se não tivesse levado aquele tiro. Atropelada? Por quem? Pelo quê? Um trânsito desgraçado, tudo parado, os motoristas deitados debaixo dos carros para não serem alvejados no meio daquele tiroteio todo. Tem razão. Pobre coitada. Largada no altar pelo noivo e morta três minutos depois. Hum... Talvez a pessoa ali do outro lado não acredite na gente. Por quê? Porque só agora me dei conta de que já dissemos que ela era gostosa, muito gostosa. Quem vai acreditar que o noivo a largou? Ué, mas ser gostosa é o único motivo para estar com uma mulher? E não é? Claro que não! Mas é um bom motivo, um motivo bem forte, diga-se de passagem. Eu sabia que esse negócio de dois narradores para contar uma única história não daria certo. Assim a gente não vai terminar nunca. E eu que queria contar sobre toda a sua vida, desde a infância até o último suspiro no asfalto naquele finzinho de tarde. Último suspiro? Nem deu tempo para um último suspiro. O tiro foi na cabeça. Está vendo? Não dá. Que autor idiota tem uma idéia idiota de ter dois narradores numa mesma história, sendo um deles também idiota... Você está insinuando que eu sou idiota? Bem, não estou falando de mim. Tem mais alguém aqui? Tem, a pessoa ali do outro lado, e que já deve estar com ódio da gente. Pelo menos somos narradores sem nome, vai sobrar xingamento para o autor. Ele já está acostumado. Vive naquele mundinho de fantasia dele. Que mandem ele... Você sabe. É, sei. E a história? O que a gente faz com ela? Continuamos? Não sei, perdi o fio da narrativa. Que fio? A gente destruiu qualquer possibilidade narrativa aqui. Sim, destruímos a narrativa, para falar a verdade. A pessoa ali do outro lado talvez queira saber por que o noivo largou a gostosa no altar. Pelo menos podemos dizer por que, não? Talvez. Mas tenho um plano. Qual? Não vamos dizer. Não? Não. Por quê? É simples. Destruímos a narrativa, certo? Certo. Não temos nome, certo? Certo. Então. Não satisfazendo a curiosidade da pessoa ali do outro lado, desviaremos a atenção para o autor. Ele será o culpado pelo fracasso da narrativa. Belo plano. Bem perverso. É, eu sei. Mas temos um outro problema. Qual? Como terminaremos isto aqui? Com um ponto final. Ou reticências. Reticências não, o autor poderia se vingar fazendo com que a gente voltasse num outro texto, uma continuação, e já vimos que a gente não consegue trabalhar em parceria. Mas então é só escrever ponto final e pronto? E pronto não, só ponto final. Não estou gostando... O que você sugere? Vamos deixar com o autor. Como? A gente espera. Uma hora ele terá que parar, terá que sair, ir ao banheiro, atender um telefonema, comer, dormir, o que for. Ele é resistente, pode demorar... É verdade, mas a gente pode enrolar. Como? Hum... Deixa eu ver... Já sei. Fala! A gente pode, pelo menos, tentar decidir se ela se parecia com a Rosario ou com a Eva. Já não importa mais. Ei, escuta! Que foi? Parece que o telefone está tocando. Bendito seja o Nosso Senhor! Que isso? Não vai me dizer que é religioso? Era só o que me faltava, um narrador religioso... Não sou não. Sou agnóstico. Estou pouco me lixando. Mas nessas horas a gente apela. Ele não foi atender. Mas vai. Como você sabe? Eu sei porque vou lembrá-lo de que pode ser aquela mulher que ele está querendo, você sabe... Ah, sim. Claro. Gostosa pra cacete. Bem gostosa. Ela me lembra aquela atriz... Rosario? Não, seu besta! Nem Eva. Aquela. Esqueci o nome. Acho que se chama Scarlett. Sim, ela mesma. Scarlett Johansson. Podíamos ter escolhido el

Do livro  A construção da paisagem (Ed. Sapere, 2012)
Lançamento dia 10 de maio, no Rio de Janeiro


1 de mai. de 2012

Lançamento do livro 'A construção da paisagem'


A construção da paisagem (Sapere Editora, 2012) divide-se em duas partes, denominadas, respectivamente, de “Crônicas de Christiane Angelotti” e “Crônicas de Rodrigo Novaes de Almeida”. Cada parte é composta por quatorze crônicas, indicando o desejo do casal de encontrar a simetria e o equilíbrio. Ambas as partes abrem-se com uma crônica de mesmo título: “A construção da paisagem”. Isso poderá dar ao leitor, num primeiro momento, a falsa impressão de estar lendo uma obra composta, digamos, “a quatro mãos”. Mas, tão logo comece a ler a crônica de Rodrigo Novaes de Almeida, após ter lido a de Christiane Angelotti, o leitor perceberá que se trata de textos de feições bem diferentes. A temática é a mesma – a construção da paisagem ­–, mas o modo como cada um a apresenta aos leitores é bem diferente: na visão de Christiane, essa paisagem está envolta num clima de mistério, quase de sonho, onde a personagem vaga aos tropeções. Já Rodrigo dá ao tema um tratamento mais filosófico, mais reflexivo, abarcando, sem abrir mão do lirismo, tanto a visão da paisagem exterior quanto da interior. Podemos sentir, quase tocar, através da sua narrativa, os cheiros e as cores que compõem essa paisagem exterior. Christiane Angelotti é dona de uma escrita centrada na emotividade, no resgate da memória, e fica evidente que sua intenção é prender o leitor pela emoção. Já Rodrigo Novaes de Almeida, em boa parte das suas crônicas, explora o humor como meio de atrair o leitor e mantê-lo cativo pelo riso. É capaz da reflexão mais profunda, mais séria, mas o humor é sua característica mais constante. Com estratégias diferentes, mas eficazes, os autores transportam o leitor para dentro da paisagem que ambos constroem. (Apresentação de Geraldo Lima)

Christiane Angelotti é escritora, editora do site ABC Kids e colunista da revista Emília.

Rodrigo Novaes de Almeida é escritor e jornalista. Cofundador do coletivo literário O Bule e colunista do site PáginaCultural.

O lançamento é no dia 10 de maio,
no Rio de Janeiro, às 19h30.
Espaço Oito e Meio, Travessa dos Tamoios 32 C, Flamengo.

11 de set. de 2011

Supernova

Por Rodrigo Novaes de Almeida

Josué sentiu, naquela segunda-feira, um mal-estar crônico. Tentou definir melhor, localizar os sintomas, e teve dificuldades. O peito doía, a cabeça pesava, imaginou-se febril, embora a temperatura do corpo fosse normal, a mente trabalhasse sem grande esforço e o ar entrasse e saísse dos seus pulmões como nas demais segundas da sua vida.

Pensou estar diante de um princípio de infarto, mas na sua idade este teria sido fulminante. Mesmo assim, fez os exames de praxe. Descartado o infarto, perguntou-se sobre o motivo daquele sentimento. Já não era um mal-estar crônico amorfo, era angústia. Lembrou-se do encontro que tivera, dias antes, com uma mulher por quem fora apaixonado. Era a primeira vez que a encontrava acompanhada do novo namorado. Pensou que poderia ser a angústia algum resquício de sentimentos mais conturbados travados em feroz batalha campal em obscuros estádios do seu inconsciente. Mas descobriu-se então feliz por ter visto a felicidade naquela mulher por quem um dia fora apaixonado. É oportuno dizer que o nosso personagem chegou a tão peremptória constatação após analisar, inclusive, os fatores subliminares daquele novo relacionamento. O tal namorado novo era muito parecido com o pai dela, daí a promessa de longevidade e sucesso que o casal poderia ter, Electra que não nos escute. Pesa o fato de o nosso personagem não ser mais apaixonado por ela, caso contrário seria difícil para nós acreditar em tamanha nobreza e serenidade ao dizer-se feliz diante de uma felicidade como essa.

Deixemos, contudo, Electra e o novo casal para trás e voltemos ao angustiado Josué. Nem infarto, nem dor-de-cotovelo, portanto. Josué estava cara-a-cara com a esfinge, encarando-a e ao seu enigma. E a esfinge não facilitava nem um pouco e divertia-se com o jogo.

Cansado, Josué resolveu sair dali e repousar seus pensamentos em outra esfera, mais propícia a devaneios e esquecimentos. As imagens saltavam. Às vezes cruzadas, outras vezes sobrepostas. Umas vinham translúcidas, outras obtusas. Todas, porém, carregadas eletricamente, epifenômenos de uma materialidade perversa. E, de repente, não mais do que de repente, o mundo parou, o verbo se desfez em farsas e zombarias, o silêncio curvou-se sob efeito de alguma nova lei matemática e os átomos se cristalizaram na imagem de um jovem sorriso feminino. Eureca. A esfinge regressou para o seu sono de milênios e Josué, bem… Josué pôde dar outro nome para a sua angústia.

As máquinas do mundo voltaram a trabalhar e o nosso personagem recorreu à memória para traçar o percurso vencido até aquele momento de revelação. Lembrou-se das conversas que tivera com a dona daquele sorriso. Lembrou-se de cada sorriso dado por ela espontaneamente como oferendas aos deuses para tornar os dias menos exatos. Lembrou-se de como se sentia. Lembrou-se ofegante, embora não lhe faltasse o ar. Lembrou-se tonto e febril, enquanto ela falava de príncipes e carruagens e cavalos brancos e anacrônicos. Lembrou-se de muito mais. Lembrou-se que ele era onze anos mais velho que ela, que não era um príncipe e que pensara certa vez em dizer para ela que estava mais para revolucionário, como Che, só que sem barba porque barba coça bastante e ele jamais conseguiu deixar uma por muito tempo, que, como Dom Quixote a lutar contra moinhos de vento, ele escutava as suas palavras mas só tinha espaço para o encantamento, que o aparelho nos dentes que ela usava dava um charme todo especial na hora da oferenda aos deuses, que a forma como ela brincava com as pontas dos cabelos o distraía em narrativas misturadas com cânfora e que, finalmente, dois dias sem vê-la significavam dois dias sem ter que sentir aquela dor no peito, aquele peso na cabeça, aquela febre de estar novamente apaixonado.

Agora, Josué precisa morrer.


Conto publicado no livro Rapsódias – Primeiras histórias breves, Ed. Multifoco, 2009)

29 de jun. de 2011

O dossiê Casement



O mais recente romance do Nobel de Literatura Mario Vargas Llosa tem dividido opiniões de críticos e leitores. Lançado poucas semanas depois do anúncio do prêmio, em 2010, todos os olhares se voltaram para O sonho do celta. O livro, dividido em três partes – e um epílogo –, conta a história do irlandês Roger Casement, que após servir à Inglaterra na África e na Amazônia na passagem do séc. XIX para o séc. XX, participa da luta da independência da Irlanda. É preso e acusado de traição pela Inglaterra em 1911. Vargas Llosa fez uma vasta pesquisa sobre esse personagem e visitou o Congo, a Amazônia e a Irlanda (os três capítulos em que o livro é dividido tratam de cada um desses lugares e têm esses nomes). A história parte, então, de um Casement encarcerado e esperando perdão pelo crime de traição ao governo inglês para voltar, através de suas reminiscências, àqueles lugares e anos que o trouxeram a estar ali naquela situação extrema. A mudança de convicções quanto à colonização européia na África, ao presenciar os horrores no Congo belga, a denúncia desses horrores na Europa e a defesa dos direitos humanos, a ida à Amazônia para investigar e relatar abusos sobre a população indígena, e, finalmente, a tomada de consciência de que a sua Irlanda também estava sob os grilhões dos ingleses e precisava se libertar. Daí temos uma ideia da complexidade e da riqueza desse personagem, que, pelos lugares em que esteve e na época em que esteve, poderia resultar em um romance histórico cheio de aventura e, claro, infortúnio. Mas, aí pesa a escolha do autor – algo que cabe somente a ele –, o romance é, em sua forma, um relato histórico (mesmo que em muitos momentos tenha ocorrido invenção, como revelou o próprio Vargas Llosa) e não propriamente uma narrativa histórica. E dessa escolha do autor surgiram críticas quanto à qualidade do romance. Entrementes, devemos admitir, sendo sua a opção, conforme ele mesmo revelou, em ter feito em O sonho do celta “um tipo de escrita que se assemelha às crônicas históricas, aos informes e aos diários pessoais (...) usando um simulacro desses gêneros” para aproximar o livro “do tempo em que o romance transcorre” [em entrevista ao jornal O Globo, 14.05], o resultado não merece (nem cabe) ser considerado pobre em estilo, como já foi dito, porque não podemos olhar para aquilo que uma obra é em busca daquilo que ela não é. Não estamos diante de um romance de aventura, e nem estamos diante, agora, das obras anteriores de Vargas Llosa. O autor, inclusive, revela que o que ele fez em O sonho do celta ele não fizera em seus romances anteriores. Como “simulacro de gêneros” – crônica, informe, relato histórico – o livro é bem sucedido. Uma espécie de dossiê Casement romanceado, resultado de uma pesquisa profunda e esmero do escritor, que, tendo feito sua escolha, nos apresenta um personagem que merece o nosso conhecimento, e, para que não se interprete que temos aqui um Vargas Llosa irreconhecível, ele nos coloca em questão os abusos cometidos pelo poder, nos revela suas engrenagens, denuncia seu caráter de desumanização e, por fim, nos adverte que esse passado terrível ainda é, de muitas maneiras, o nosso presente, seja no Congo ou na Amazônia atuais, como também em muitos outros lugares do mundo.

15 de mai. de 2011

Arte e mundo hoje em ‘Pintura como ato de fronteira’

Por Rodrigo Novaes de Almeida

O livro de Hugo Houayek, artista visual e mestre em linguagens visuais pela UFRJ, mais do que apenas pensar a pintura no mundo contemporâneo e dialogar com a tradição das artes visuais, traz consigo uma interdisciplinaridade que interessará também àqueles que não necessariamente produzem essas formas de arte, mas que, no nosso caso aqui, pensam e produzem literatura. Ao colocar a questão da pintura como ato de fronteira (título da obra), o autor não se preocupa simplesmente com o seu objeto de análise, contribuindo ao mesmo tempo para o questionamento de outras formas de arte. E o material usado para isso é também a literatura. É ela usada, bem usada, em todo o livro para expor as ideias de seu autor.

“O sarcófago circunscreve a imagem da cama em que o personagem kafkiano Gregor Samsa acorda metamorfoseado depois de sonhar, envolto pela perda de si mesmo, e na cama em que o personagem machadiano Brás Cubas jaz e se lembra da vida que teve. Nesse sentido, a cama comporta-se como um caixão, a última morada do corpo; que, por sua vez, suscita o monstro de mil olhos que não para de nos encarar. No momento em que a finitude se apresenta diante de nós, a campa encara quem a olha e convida o sujeito a entrar (...)

Caída no mundo, a pintura assume a mesma finitude do corpo, passando a ser cadáver. O corpo, que percebemos como um monstro de mil olhos que circunda a arte e nos atravessa por todos os lados, nasce, assim como a pintura, do delinear daquele que parte, que já não está presente. E essa imagem do campo pictórico, circunscrita pelo corpo e sua finitude – a morte –, permeia a produção literária de Edgar Allan Poe, a crítica de Didi-Huberman e a produção artística de Lygia Pape.”

Em outra passagem, diz o autor que “o confronto, sendo conseqüência da guerra, traduz a singularidade da morte iminente. Delineia-se a possibilidade de a pintura adotar o rigor mortis como tática e vestir a roupa de cadáver, ocultar-se em mutáveis esconderijos para enfrentar sua própria morte e poder retornar.”

A leitura de Pintura como ato de fronteira flui e nos enriquece, na medida em que traz à tona o passado para mapear o nosso presente e nos armar para o futuro. Temos assim Poe, Machado, Joyce, Borges e Kafka ao lado de Deleuze, Bloom e Guattari, como também Pollock, Giotto e Lygia Pape, entre outros, para nos ajudar a produzir diferentes e inesperados sentidos, não se limitando apenas a leitores interessados em pensar as artes visuais – essa fronteira é vencida –, mas leitores interessados em pensar a arte em todas as suas formas e manifestações, e em seu confronto com o mundo, a sua queda até se tornar – também – mundo; como escreveu Bloom, o (nosso) “protesto da mente criativa contra a tirania do tempo.”

O livro é parte da coleção ‘Pensamento em arte’ da editora Apicuri, que, através de publicações de textos de artistas e teóricos, busca de forma interdisciplinar e heterogênea trazer aos leitores material para novos debates e reflexões da arte hoje.

26 de abr. de 2011

Ela morre no final

Por Rodrigo Novaes de Almeida
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Ela morre no final. Você está maluco? Como é que você começa a história contando o final? A pessoa ali do outro lado não quer saber o final da história logo na primeira linha. Que falta de consideração! Acabar assim com a diversão dos outros... Diversão? Então ler a nossa história é um mero passatempo? E por que não seria? Ou você tem a cara-de-pau de dizer para a pessoa ali do outro lado que ler a nossa história é um caminho de transcendência de algum tipo, uma espécie de busca por verdades ou revelações existenciais, ou blá blá blá, blá bargh, acho que vou vomitar... Vai nada. E não acho nada também. Vamos continuar a contar a história. Continuar? Você já estragou. Não estraguei não. A pessoa ali do outro lado não sabe como ela morreu, não sabe por que ela morreu, não sabe quando ela morreu, não sabe onde ela morreu... Só sabe que ela morreu. Então escreva uma nota jornalística, um obituário, sei lá, porque não é assim que se começa uma novela. Novela? Ah, você está mesmo de palhaçada. A gente nem ia escrever uma novela. No máximo um conto, uma crônica, ou seja lá que tipo híbrido se escreve hoje em dia. Você vai ou não continuar? Tudo bem, eu continuo. Certo. Ela era muito, mas muito gostosa. Que maravilha! E ainda reclama de mim. Esta é a sua descrição abre aspas literária fecha aspas para os atributos físicos da personagem? Sim. Penso que é melhor deixar para a pessoa ali do outro lado os detalhes, faz bem para exercitar a imaginação. Bem o escambau. Devemos descrever os pormenores, sempre. Basta dizer que ela é bem parecida com a Rosario Dawson. Ah não, não! Se é para fazer deste jeito, que ela seja parecida com a Eva Green. Eu prefiro a Rosario. E eu a Eva. Mas elas são bem diferentes, assim confunde a pessoa ali do outro lado. Pelo menos as duas são gostosas pra cacete, como você queria. É verdade. Vamos adiar então esses detalhes sobre os atributos físicos dela. E o que você sugere? Vamos contar como e quando ela morreu. Ela morreu no finalzinho da tarde, na Voluntários da Pátria, em Botafogo, no Rio de Janeiro, ao sair de uma igreja. Levou um tiro, uma bala perdida. A polícia e os traficantes brincavam de faroeste caboclo, como de costume. Até aí nada demais, bem comezinho. Aliás, você é um péssimo narrador, nem sabe contar uma história, êta resuminho chinfrim! E ainda se esqueceu de dizer que ela estava vestida de noiva, que saía da igreja chorando tanto que mal podia enxergar um palmo diante do nariz, que talvez até morresse atropelada se não tivesse levado aquele tiro. Atropelada? Por quem? Pelo quê? Um trânsito desgraçado, tudo parado, os motoristas deitados debaixo dos carros para não serem alvejados no meio daquele tiroteio todo. Tem razão. Pobre coitada. Largada no altar pelo noivo e morta três minutos depois. Hum... Talvez a pessoa ali do outro lado não acredite na gente. Por quê? Porque só agora me dei conta de que já dissemos que ela era gostosa, muito gostosa. Quem vai acreditar que o noivo a largou? Ué, mas ser gostosa é o único motivo para estar com uma mulher? E não é? Claro que não! Mas é um bom motivo, um motivo bem forte, diga-se de passagem. Eu sabia que esse negócio de dois narradores para contar uma única história não daria certo. Assim a gente não vai terminar nunca. E eu que queria contar sobre toda a sua vida, desde a infância até o último suspiro no asfalto naquele finzinho de tarde. Último suspiro? Nem deu tempo para um último suspiro. O tiro foi na cabeça. Está vendo? Não dá. Que autor idiota tem uma idéia idiota de ter dois narradores numa mesma história, sendo um deles também idiota... Você está insinuando que eu sou idiota? Bem, não estou falando de mim. Tem mais alguém aqui? Tem, a pessoa ali do outro lado, e que já deve estar com ódio da gente. Pelo menos somos narradores sem nome, vai sobrar xingamento para o autor. Ele já está acostumado. Vive naquele mundinho de fantasia dele. Que mandem ele... Você sabe. É, sei. E a história? O que a gente faz com ela? Continuamos? Não sei, perdi o fio da narrativa. Que fio? A gente destruiu qualquer possibilidade narrativa aqui. Sim, destruímos a narrativa, para falar a verdade. A pessoa ali do outro lado talvez queira saber por que o noivo largou a gostosa no altar. Pelo menos podemos dizer por que, não? Talvez. Mas tenho um plano. Qual? Não vamos dizer. Não? Não. Por quê? É simples. Destruímos a narrativa, certo? Certo. Não temos nome, certo? Certo. Então. Não satisfazendo a curiosidade da pessoa ali do outro lado, desviaremos a atenção para o autor. Ele será o culpado pelo fracasso da narrativa. Belo plano. Bem perverso. É, eu sei. Mas temos um outro problema. Qual? Como terminaremos isto aqui? Com um ponto final. Ou reticências. Reticências não, o autor poderia se vingar fazendo com que a gente voltasse num outro texto, uma continuação, e já vimos que a gente não consegue trabalhar em parceria. Mas então é só escrever ponto final e pronto? E pronto não, só ponto final. Não estou gostando... O que você sugere? Vamos deixar com o autor. Como? A gente espera. Uma hora ele terá que parar, terá que sair, ir ao banheiro, atender um telefonema, comer, dormir, o que for. Ele é resistente, pode demorar... É verdade, mas a gente pode enrolar. Como? Hum... Deixa eu ver... Já sei. Fala! A gente pode, pelo menos, tentar decidir se ela se parecia com a Rosario ou com a Eva. Já não importa mais. Ei, escuta! Que foi? Parece que o telefone está tocando. Bendito seja o Nosso Senhor! Que isso? Não vai me dizer que é religioso? Era só o que me faltava, um narrador religioso... Não sou não. Sou agnóstico. Estou pouco me lixando. Mas nessas horas a gente apela. Ele não foi atender. Mas vai. Como você sabe? Eu sei porque vou lembrá-lo de que pode ser aquela mulher que ele está querendo, você sabe... Ah, sim. Claro. Gostosa pra cacete. Bem gostosa. Ela me lembra aquela atriz... Rosario? Não, seu besta! Nem Eva. Aquela. Esqueci o nome. Acho que se chama Scarlett. Sim, ela mesma. Scarlett Johansson. Podíamos ter escolhido el

Do livro Rapsódias – Primeiras histórias breves (Ed. Multifoco, 2009)

11 de dez. de 2010

A equação do Universo (Reprise)

Por Rodrigo Novaes de Almeida
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“Eis a verdade e o sentido da vida, do universo e de tudo! Não somos nós que tentamos sair da roda de reencarnações, ou, como outros imaginam, conquistar uma vida eterna pós-morte. Este universo feito de energia e matéria, ele sim é a tentativa magna de se libertar da fonte espectral – uma busca através da matéria para deter a entropia e imortalizar o espírito do mundo e nossas almas, para que não retornem à fonte, cárcere primeiro e último de tudo e de todos. Mas o problema foi, todo esse tempo e eras, termos invertido esta atroz verdade... até agora.” (Josué Francisco Fernandes)
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E se eu contasse para você, leitor, que descobri a equação do nosso universo? Talvez seja melhor começar essa história do início. Aconteceu assim...
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Cerca de treze bilhões de anos atrás – não, não é essa a história. Vou começar de novo. Ontem, após uma maratona de trabalhos (como todo mundo sabe, eu vim de Tralfamadore para a Terra com Vonnegut fazer pesquisa de campo, e como todo tralfamadoriano que se preze, ao conhecer as belezas naturais das vênus calipígias terrenas, principalmente brasileiras, optei pelo exílio, não obstante, permaneço na folha de pessoal do Laboratório Trans-Tralfamadoriano para Pesquisas Suprassemióticas do Setor Lácteo, cuja sede fica na sala vinte e três do nono andar da Universidade Tralfamadoriana; como todo mundo também sabe, de lá ainda vieram John Locke, o filósofo, que terminou a vida como ator num seriado televisivo de grande sucesso, e Angelina Jolie, um vírus de computador tralfamadoriano chamado Cibermute, implantado na Terra para fins ultra-secretos, então, se eu contar essa parte, terei que matar você, caro leitor). Vou começar de novo novamente. Ontem, após uma maratona de trabalhos (eu pesquisava metaversos matriciais feitos exclusivamente para maiores de dezoito anos, e como Josué Francisco Fernandes participa da minha mente, ele se viu no direito de escrever sobre o assunto [link]; acontece que o Josué é humano e eu tralfamadoriano, então nossa convivência, às vezes, se torna bastante difícil, a não ser que estejamos com nossos amigos imaginários no botequim bebendo umas geladas e vendo as formas calipígias locais passarem). E de novo novamente outra vez começo. Ontem, após uma maratona de trabalhos, fomos, Josué e eu, encontrar um desses nossos amigos imaginários, Heráclito – porque não é por ser imaginário que não terá um nome, veja o exemplo do nosso próprio universo, ele é tão imaginário quanto tudo o que há nele, inclusive eu e você, e, infelizmente, a Angelina Jolie, embora corra certo boato de que Scarlett, a Johansson, exista de verdade, pelo menos é o que professam os talassadianos [link], uma gente contemporânea dos cretenses e dos fenícios que sabe viver, mesmo tanto tempo depois de não existirem mais –; e foi justamente o Heráclito, após se esbaldar num desses inferninhos do submundo transcendente de Copacabana, o paraíso imaginário possível desse nosso universo imaginário, pelo menos por essa banda solar, porque existem aqueles que juram haver uma outra Copacabana lá pelos confins de Andrômeda, o que confirmaremos mais adiante no espaço-tempo, quando o espaço-tempo entre as duas galáxias ficar tão próximo que elas se chocarão, e desse ovo mexido surgirá Borboleta [link], a galáxia dançarina do grupo local; e foi justamente o Heráclito, então, após a esbórnia, quem provocou a história que estou tentando, insistentemente, contar aqui, ou o seu transbordamento, fazendo com que eu voltasse às origens (do universo, é claro). Explico melhor o sucedido. Heráclito trouxe a mescalina que Huxley tinha escondido na quitinete dele antes de ir dessa para uma outra, nem melhor nem pior, apenas uma outra, como acreditam os sensatos que dizem ser o tédio o único paradigma essencial da vida (e, conseqüentemente, da morte também), ou a própria essência da vida (e aí já não se sabe se também da morte), como preferem os ponderados – a diferença entre essas duas correntes é tanta que já provocou uma guerra interestelar, cujos efeitos sentimos na pele aqui na Terra, embora, por sorte, não tenha sido na nossa pele propriamente dita, porque os homens ainda não existiam, mas na dos dinossauros, que sucumbiram e morreram, evidentemente de tédio, em meio a todo turbilhão dialético produzido pelos dois lados dissidentes; – ah, sim, Huxley, para quem não sabe, era humano, e morreu humano, apesar de suas tentativas de se tornar tralfamadoriano através do cultivo do peiote. Então Heráclito me deu a mescalina do Huxley e disse que eu devia usá-la para libertar o Josué da nossa mente, porque o Josué já não agüentava mais esse negócio chato que se chama trabalho, ainda mais um trabalho tendo como patrão alguém que estava na sala número vinte e três do nono andar de uma universidade no outro lado do universo, quase lá na borda onde a todo instante e a todo o momento (isso simultaneamente) se passa o filme holográfico de tudo o que acontece no universo [link], um filme aparentemente sem fim e bastante, bastante tedioso (o fato de o patrão estar longe não era ruim, não, de modo algum, dizia Josué, o problema era, esse sim, o fato de a sala ser a de número vinte e três, isso o incomodava sobremaneira). Como dentadura dada é sorriso fácil, usei a mescalina. Tanto Josué quanto eu tivemos, cada qual, nossas experiências místicas, ele como humano, e eu como tralfamadoriano. Ele como humano retornou ao espaço-tempo no qual era um xamã chamado Calígula, que, por desventuras familiares, se tornou imperador e promoter de orgias e derramamento de sangue, não necessariamente uma coisa numa hora e num lugar e outra coisa noutra hora e noutro lugar, já que a sua genialidade consistiu em juntar as duas coisas na mesma hora e no mesmo lugar, o que desagradou a muitos senadores e aristocratas, esses sim, sempre uma coisa e outra, na ordem natural do manda quem pode e obedece quem tem juízo, sabedoria que se desgastou tanto com o passar dos séculos que virou clichê, e como todo clichê passou a ser dito ao deus-dará por pessoas – humanas, claro – que não tem lá muita capacidade de processar o que dizem e, aí, bem, e aí dizem as coisas mais profundas e sábias como se estivessem mascando chiclete bubbaloo. Então o sangue do Calígula, o nosso pobre Josué, foi derramado numa cerimônia orgiástica sem precedentes. Já no meu caso, continuei dentro da nossa mente esperando por Josué, porque não há mescalina no mundo, pelo menos nesse mundo aqui, que faça um tralfamadoriano sair de si ou entrar em si – e isso também depende da corrente que tem o ponto de vista ou, como concordam sensatos e ponderados, pelo menos uma vez na vida, que tem o poder. Minha experiência mística, como bom tralfamadoriano, foi uma não-experiência mística, foi não-coisa alguma. Enfim, Josué voltou horas depois bastante perturbado (e uma perturbação dessas, é preciso esclarecer, tem efeito semelhante ao estado de embriaguês percebido em marujos tailandeses em qualquer redondeza de cais de porto do planeta, não necessariamente do planeta Terra); aí tivemos um problema, mais especificamente um problema locomotor. Caímos, batemos com a cabeça e apagamos. Quando acordei ela estava lá: a equação do nosso universo. E é ela que eu vou revelar agora ao leitor que chegou até aqui nesse vórtice também chamado, carinhosamente, bagaça, ao mundo e a todo o universo (Chupa essa, Einstein!):
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Não, o universo não é um chocolate M&M, para a infelicidade de uns e de todas as mulheres. Eis a leitura correta da equação do nosso universo:
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Onde u = universo, m = mente e m∞ = mente elevada ao infinito

Ou seja: o universo é a mente (de cada um) vezes a mente (que existiu, existe e existirá) elevada ao infinito
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Ironicamente (ou não), o resultado da equação é 1 (Um). As implicações filosóficas desse resultado nos remetem à intuição de unidade que define o universo como um mero programa computacional (um emulador, para ser mais exato), que vem rodando como peão maluco, o que nos leva ao parágrafo-epígrafe do nosso texto, escrito por Josué semanas antes de termos caído, batido com a cabeça e apagado, para depois (eu) acordar com a equação. De uma forma estranha, porém bem explicada pela física quântica (outra graça tralfamadoriana importada pelos humanos), a causa – um galo vermelho na testa pós-mescalina – veio algum tempo depois do efeito – a epifania do Josué sobre o sentido da vida, do universo e de tudo. Comigo não ocorreu o mesmo, tendo a equação aparecido para mim depois que acordei do trauma, mas isso é porque eu sou de Tralfamadore e, como todo mundo sabe, somos irresistivelmente simpáticos (não que isso tenha alguma coisa a ver, mas já que quase coisa nenhuma tem alguma coisa a ver no emulador de cognome Peão Maluco, há de bastar). Espero, portanto, e finalmente, que agora (são os meus mais sinceros sentimentos) toda a minha sabedoria traga para você, caro leitor, certa paz de espírito, e que a revelação feita aqui sirva, pelo menos, para quebrar um pouco essa nossa rotina de tédio.
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PS.: O Josué está aqui teimando comigo que o resultado da equação é 0 (Zero) e não 1 (Um), ou que pode ser tanto 0 (Zero) quanto 1 (Um), dependendo do ponto de vista ou de quem tiver poder para fazer tal afirmação, ou até independentemente do ponto de vista ou de quem tiver poder para fazer tal afirmação, porque, retornando à física quântica, é mais sensato mesmo e até ponderado que o resultado seja ao mesmo tempo (e, claro, no mesmo espaço) 0 (Zero) e 1 (Um), o que não deixaria de ser só mais uma piada do emulador Peão Maluco que chamamos de nosso universo. O que provavelmente é.
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11 de nov. de 2010

MojoBooks: The Trinity Session – Cowboy Junkies

A MOJO é uma editora 100% digital.
Sua proposta é simples: Se música fosse literatura, que história contaria?
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A saga de Lucifere
por Rodrigo Novaes de Almeida
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PARTE I
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Tornou-se Lívia no primeiro dia. Olho d’água dentro de grota. Farejar incessante. O diabo das coisas. Suas asas. Aquele olhar repousado em mim. Eram dela. Ela dentro de mim. Eu dentro do olho d’água de dentro de grota. O seu olhar repousado. Eram dela as asas desde o primeiro dia, desde o primeiro dia de Lívia quando Lívia tornou-se o diabo das coisas, o diabo carnal das coisas. Porque fora o próprio Satã quem definira o certo e o errado das coisas. Repousado ali, o próprio Satã, naquele diabo carnal das coisas, agora prisioneiro de Lívia, desde que Lívia tornou-se Lívia no primeiro dia.
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Uma vez, em Babel, eu escavava meus ídolos e conspirava contra a baixa e sórdida obra magna da criação. Contudo, eram os homens incapazes de serem transformados. Não puderam voar. Construímos a torre, mas nem os sábios puderam convencê-los de que a torre também deveria ser elevada dentro dos homens, de que também o vôo se daria dentro e não unicamente fora. Então tomamos as suas mulheres e fizemos filhos nelas. Veio a guerra. E a Terra fora a nossa casa durante tantas eras e a conhecíamos tão bem que não foi difícil expulsarmos os mensageiros d’Aquele para além do véu negro celeste. O bombardeio em Dresden, ciclos de séculos no porvir, parecerá pouco. Multiplicava-se o efeito de milhares de bombas atômicas, assim eram os nossos escombros. Nossas armas, as Fúrias. Éramos deuses naquele interfluxo na aurora dos homens. Devotávamos nossas preces a deuses ainda mais antigos e poderosos. Quanto mais percorrermos o caminho à origem, mais e mais poderosos serão os deuses, até a singularidade titânica, centelha primordial de todas as coisas, do diabo carnal das coisas investido em tudo de concebível em todos esses escoamentos de mundos, a derradeira piada.
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- Que tal? Divertiu-se?
- Bebi todo o sangue que pude tomar como meu. Ainda tenho o gosto dele na boca. Estamos nos acostumando depressa. A carne investe seus poderes sem trégua. Só um deus perverso seria capaz de criá-la. Miséria. Será a nossa ruína, Miguel.
- Pára com isso! Você começou a guerra. Você começou tudo, esqueceu? Violou as mulheres dos homens. Tentará o filho do homem um dia. Salvará a humanidade inteira quando Aquele se cansar de toda a perversidade. Pára já com isso! Não esqueça o seu nome santo. Você é Lucifere.
- Porra, Miguel! Ela nascerá um dia também. Eu já farejo a sua presença. Ela me aprisionará e...
- Sabemos de tudo, e daí? Devemos nos divertir até lá. A matança hoje foi boa. Pratiquei atos dignos dos velhos deuses. Corrompi uma menina de oito anos...
- Basta, Miguel! Não quero saber. Não quero saber coisa alguma. Estou cansado. Você é um filho da puta miserável. É mais pervertido do que Aquele. Agora eu vou deitar este corpo em algum lugar. Manda os bastardos reconstruírem a torre, nem que levem mais cinco mil anos, quero a torre reconstruída.
- Sim, senhor! Bom descanso. E não pense em Lívia.
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LEIA A CONTINUAÇÃO DESTA HISTÓRIA FAZENDO O DOWNLOAD DO MOJO
The Trinity Session – Cowboy Junkies, A saga de Lucifere, por Rodrigo Novaes de Almeida

17 de out. de 2010

Leitura de guerra, obrigatória

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A crônica abaixo foi escrita em 2007 e publicada, na época, no site Armazém Literário. Nela, escrevo sobre o livro Elite da tropa. Aproveitamos o recente lançamento do filme Tropa de elite 2 para republicá-la aqui n’O BULE. -
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Elite da tropa Editora Objetiva, 2006 Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel
- Por Rodrigo Novaes de Almeida - Copacabana, Rio de Janeiro. Três horas da madrugada de uma quinta-feira. A guerra persiste há quatro noites. As balas das submetralhadoras rasgam o céu. Granadas explodem nos becos e entradas da comunidade. Ninguém entra, ninguém sai do morro. A favela encontra-se sitiada. Cá embaixo, a polícia. Lá em cima, território do tráfico, duas facções travam batalhas por cada bocada. Daqui do asfalto, bostejos de indiferença, alguma coisa mudou. Ninguém dorme às três horas da madrugada de uma quinta-feira. Penso em García Lorca e seu Às cinco horas da tarde. Penso que finalmente eram três horas da madrugada cá embaixo e lá em cima, em todos os relógios de uma quinta-feira. Amanhece e estamos todos acordados. Os tiros parecem cessar e os primeiros trabalhadores saem de suas casas. As primeiras conversas. As últimas versões. De tudo o que ouvi, de bocas aposentadas, bocas domésticas, bocas porteiras, bocas desocupadas, bocas-rotas, tantas-bocas, uma versão me intrigou; foi a que dizia não ter havido invasão alguma de outra facção criminosa. Os próprios donos-do-território teriam criado uma falsa batalha para desviar a atenção da polícia e da secretaria de segurança que vinham arrancando uma brutal sangria em outra favela da cidade comandada pela mesma facção. Era tudo farsa. Sofisticada farsa com balas de tirar-avida. Este episódio serve-me como preâmbulo para falar de um livro obrigatório no aquiagora da gente. Elite da tropa, de Luiz Eduardo Soares, André Batista e Rodrigo Pimentel (Editora Objetiva, 2006). Dividido em duas partes, na primeira há contos curtos que relatam histórias do BOPE, Batalhão de Operações Policiais Especiais da Polícia Militar do Estado do Rio de Janeiro. A segunda parte é uma novela de tirar o fôlego do leitor. A escolha de contar estas histórias como se fossem ficção foi uma grande sacada dos autores. É evidente que eles pensaram na possibilidade de sofrerem retaliações, e queriam se proteger, mas o efeito de usar a ficção para expor a realidade mais dura dos nossos dias é potencializado e atinge com mais eficiência o leitor do que uma simples denúncia de caráter investigativo e informativo, como vemos, já cansados de ver, como se fossem notícias extra-cotidianas, em todos os jornais cotidianos do nosso país. Neste ponto os autores surpreendem e deixam para trás aqueles que teriam, pelo ofício, a tarefa de trazer para a sociedade uma obra desse vulto: os jornalistas e repórteres investigativos. A forma da escrita tem caráter atualíssimo. As histórias são curtas, instantâneos da realidade, retratos contemporâneos de recortes sociais urbanos. O arrebatamento com a leitura vertiginosa dos textos invoca o leitor, que não largará o livro até chegar à última página. Terminada a leitura, o sentimento é de ter levado um tapa na cara. Um tapa na cara indispensável. É crítico observar e entender o relacionamento da polícia e do governo (políticos) com o crime organizado. O funcionamento de cada uma das três máquinas corporativas que transformaram os cidadãos em seus reféns e vítimas. Ainda não sabemos em quantas andam as batalhas dos últimos dias nessa nossa Copacabana a/celerada. Cessaram os tiros e as explosões e voltamos a ter, ainda que provisoriamente, noites de sono, embora todos os relógios devam marcar desde então a mesma hora, cá embaixo e lá em cima. Fica, todavia, a sugestão da leitura. Elite da tropa, um livro obrigatório.

17 de set. de 2010

E a sua leitura trouxe aquele sentimento de acabamento

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Por Rodrigo Novaes de Almeida - “O tempo é o sistema fictício que tem por única finalidade impedir que tudo aconteça de uma vez.”, página 372. - São os anos noventa do século passado. Leonardo é um homem comum. Professor universitário, faz bico como redator substituto num jornal carioca e tem um caso ou outro com mulheres que entram e saem da sua vida sem que ele pareça se importar muito. Leonardo é um entre as dezenas de personagens que flanam por A dança dos desejos, opus 13, de Esdras do Nascimento. À parte o relevo balzaquiano de incontáveis figuras – Balzac é também um personagem do livro, um cão –, a cidade do Rio toma corpo como quase-persona do romance. Uma localidade que resultará em universalidade, pela sofisticação dos artifícios narrativos elaborados pelo autor. Corpo, localidade, universalidade e artifício são elementos para se pensar as muitas camadas da obra. - Não seria apenas um dado curioso a presença de uma seleção de notícias da época entrecortando a narrativa ficcional. Do estranhamento inicial, devido à diferença de linguagem, percebemos que o artifício se adapta à história, de tal forma que o desfecho do livro abre mão da ficção para apresentar mais uma dessas notícias. Se no começo, ao ler as primeiras notas jornalísticas, com o seu lead, em sua forma clássica, apresentando os fatos de acordo com o que seria mais importante informar, ignorando a cronologia dos acontecimentos, a artificialidade ainda tem força, aos poucos essa força vai se perdendo, a artificialidade do arranjo de notas verídicas e de narrativas ficcionais vai se diluindo, como se umas passassem às outras as suas características delimitadoras, terminando na troca de polaridade – a história ficcional não tem um fim, posto que é “vida que continua”, ao passo que uma última notícia determina a ruptura da história, ou a provisória, e artificial, ruptura dessa “dança dos desejos”. - Corpos que flanam, amam, ou, como diz um trecho, “não amam ninguém”, coexistem com mentes que pensam – talvez de um jeito mais parecido com o nosso do que gostaríamos de admitir –, vozes que falam, na maior parte das vezes simplesmente para exercer a propriedade da fala, em ações cotidianas muito mais reativas ou, em alguns outros momentos, meramente acidentais. Existe, no autor, uma preocupação de refletir a padronização de comportamentos, ou, quem sabe, até mesmo uma padronização existencial, nesses e desses dias de avalanche de informações, consumo desenfreado e instabilidade referencial. Entra aí uma deliciosa sacada do livro: além de uma seleção de notícias entrecortando a história, estão presentes também relatos sobre Confúcio, Esparta e Kant. Os relatos sobre Esparta são os mais interessantes, porque dialogam diretamente com uma outra cidade, o Rio de Janeiro, que, como já disse, é uma espécie de personagem no livro. Temos, então, a cultura da forma física, da beleza, da boa alimentação, dos corpos saudáveis e, principalmente, sarados desfilando seminus nas praias, a obsessão por academias, não as academias platônicas ou liceus aristotélicos, mas as academias de ginástica. Esparta. Rio. - A dança dos desejos, opus 13 tem a substancialidade dos clássicos, e a sua leitura traz aquele sentimento de acabamento, de que não se precisa dizer mais, já está tudo ali. A sofisticação da narrativa, com os personagens falando, pensando e (re-)agindo congruentemente, ao passo que nós, leitores, os acompanhamos, deslizando através dessas múltiplas falas e pensamentos e ações/reações, identificados neles... Sim, é uma dança, Nietzsche tinha certa razão. Opus 13. E sem estender mais as minhas digressões, tenho por fim a pretensão de dizer que A dança é uma leitura indispensável. Expressão catártica do nosso tempo, aquele mesmo tempo que tanto precisa (é a nossa crença) de nós e de nossas construções narrativas, sejam elas ficcionais ou não (embora suspeite de que toda construção seja, de fato, ficcional), para ser definido ou ter, mesmo sob velamento, alguma significação. - Abre aspas - – Por que Copacabana, Vivaldo? – perguntou Roberto de Aquino. – Não acha que tem gente demais morando lá? Aquilo parece um formigueiro. – Nem sei dizer por quê, Roberto. Copacabana me atrai, tudo lá me parece mais autêntico, mais verdadeiro. Tem milionário, tem gente fodida, tem puta, camelô, pivete, turista, gosto dos bares com as cadeiras nas calçadas, aquele povo bebendo, fazendo negócios, namorando, comendo, traficando drogas, discutindo comissão em investimentos, essa merda toda, com o sol nas fuças e um tesão incrível na alma. - O autor - Esdras do Nascimento nasceu em 8 de fevereiro de 1934, em Teresina, Piauí. Viveu em Fortaleza, Natal, Crato, Porto Alegre, Santa Maria e Brasília. Passou dez anos no exterior: Amsterdã, Londres, Nova York. Atualmente, mora no Rio de Janeiro, onde dirige uma oficina de criação literária. - Doutor em Letras, pela UFRJ, com Variante Gotemburgo, em 1977. Pela primeira vez no Brasil, talvez no mundo, uma universidade aceitava um romance como tese de doutorado. Com Lição da noite recebeu o prêmio de melhor romance de 1998 pela Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA). - * Livros podem ser enviados a’O BULE para serem resenhados, cabendo aos editores d’O BULE a seleção. Tratar pelo email coisaprobule@yahoo.com.br

22 de jul. de 2010

A equação do universo

Por Rodrigo Novaes de Almeida
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“Eis a verdade e o sentido da vida, do universo e de tudo! Não somos nós que tentamos sair da roda de reencarnações, ou, como outros imaginam, conquistar uma vida eterna pós-morte. Este universo feito de energia e matéria, ele sim é a tentativa magna de se libertar da fonte espectral – uma busca através da matéria para deter a entropia e imortalizar o espírito do mundo e nossas almas, para que não retornem à fonte, cárcere primeiro e último de tudo e de todos. Mas o problema foi, todo esse tempo e eras, termos invertido esta atroz verdade... até agora.” (Josué Francisco Fernandes)
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E se eu contasse para você, leitor, que descobri a equação do nosso universo? Talvez seja melhor começar essa história do início. Aconteceu assim...
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Cerca de treze bilhões de anos atrás – não, não é essa a história. Vou começar de novo. Ontem, após uma maratona de trabalhos (como todo mundo sabe, eu vim de Tralfamadore para a Terra com Vonnegut fazer pesquisa de campo, e como todo tralfamadoriano que se preze, ao conhecer as belezas naturais das vênus calipígias terrenas, principalmente brasileiras, optei pelo exílio, não obstante, permaneço na folha de pessoal do Laboratório Trans-Tralfamadoriano para Pesquisas Suprassemióticas do Setor Lácteo, cuja sede fica na sala vinte e três do nono andar da Universidade Tralfamadoriana; como todo mundo também sabe, de lá ainda vieram John Locke, o filósofo, que terminou a vida como ator num seriado televisivo de grande sucesso, e Angelina Jolie, um vírus de computador tralfamadoriano chamado Cibermute, implantado na Terra para fins ultra-secretos, então, se eu contar essa parte, terei que matar você, caro leitor). Vou começar de novo novamente. Ontem, após uma maratona de trabalhos (eu pesquisava metaversos matriciais feitos exclusivamente para maiores de dezoito anos, e como Josué Francisco Fernandes participa da minha mente, ele se viu no direito de escrever sobre o assunto [link]; acontece que o Josué é humano e eu tralfamadoriano, então nossa convivência, às vezes, se torna bastante difícil, a não ser que estejamos com nossos amigos imaginários no botequim bebendo umas geladas e vendo as formas calipígias locais passarem). E de novo novamente outra vez começo. Ontem, após uma maratona de trabalhos, fomos, Josué e eu, encontrar um desses nossos amigos imaginários, Heráclito – porque não é por ser imaginário que não terá um nome, veja o exemplo do nosso próprio universo, ele é tão imaginário quanto tudo o que há nele, inclusive eu e você, e, infelizmente, a Angelina Jolie, embora corra certo boato de que Scarlett, a Johansson, exista de verdade, pelo menos é o que professam os talassadianos [link], uma gente contemporânea dos cretenses e dos fenícios que sabe viver, mesmo tanto tempo depois de não existirem mais –; e foi justamente o Heráclito, após se esbaldar num desses inferninhos do submundo transcendente de Copacabana, o paraíso imaginário possível desse nosso universo imaginário, pelo menos por essa banda solar, porque existem aqueles que juram haver uma outra Copacabana lá pelos confins de Andrômeda, o que confirmaremos mais adiante no espaço-tempo, quando o espaço-tempo entre as duas galáxias ficar tão próximo que elas se chocarão, e desse ovo mexido surgirá Borboleta [link], a galáxia dançarina do grupo local; e foi justamente o Heráclito, então, após a esbórnia, quem provocou a história que estou tentando, insistentemente, contar aqui, ou o seu transbordamento, fazendo com que eu voltasse às origens (do universo, é claro). Explico melhor o sucedido. Heráclito trouxe a mescalina que Huxley tinha escondido na quitinete dele antes de ir dessa para uma outra, nem melhor nem pior, apenas uma outra, como acreditam os sensatos que dizem ser o tédio o único paradigma essencial da vida (e, conseqüentemente, da morte também), ou a própria essência da vida (e aí já não se sabe se também da morte), como preferem os ponderados – a diferença entre essas duas correntes é tanta que já provocou uma guerra interestelar, cujos efeitos sentimos na pele aqui na Terra, embora, por sorte, não tenha sido na nossa pele propriamente dita, porque os homens ainda não existiam, mas na dos dinossauros, que sucumbiram e morreram, evidentemente de tédio, em meio a todo turbilhão dialético produzido pelos dois lados dissidentes; – ah, sim, Huxley, para quem não sabe, era humano, e morreu humano, apesar de suas tentativas de se tornar tralfamadoriano através do cultivo do peiote. Então Heráclito me deu a mescalina do Huxley e disse que eu devia usá-la para libertar o Josué da nossa mente, porque o Josué já não agüentava mais esse negócio chato que se chama trabalho, ainda mais um trabalho tendo como patrão alguém que estava na sala número vinte e três do nono andar de uma universidade no outro lado do universo, quase lá na borda onde a todo instante e a todo o momento (isso simultaneamente) se passa o filme holográfico de tudo o que acontece no universo [link], um filme aparentemente sem fim e bastante, bastante tedioso (o fato de o patrão estar longe não era ruim, não, de modo algum, dizia Josué, o problema era, esse sim, o fato de a sala ser a de número vinte e três, isso o incomodava sobremaneira). Como dentadura dada é sorriso fácil, usei a mescalina. Tanto Josué quanto eu tivemos, cada qual, nossas experiências místicas, ele como humano, e eu como tralfamadoriano. Ele como humano retornou ao espaço-tempo no qual era um xamã chamado Calígula, que, por desventuras familiares, se tornou imperador e promoter de orgias e derramamento de sangue, não necessariamente uma coisa numa hora e num lugar e outra coisa noutra hora e noutro lugar, já que a sua genialidade consistiu em juntar as duas coisas na mesma hora e no mesmo lugar, o que desagradou a muitos senadores e aristocratas, esses sim, sempre uma coisa e outra, na ordem natural do manda quem pode e obedece quem tem juízo, sabedoria que se desgastou tanto com o passar dos séculos que virou clichê, e como todo clichê passou a ser dito ao deus-dará por pessoas – humanas, claro – que não tem lá muita capacidade de processar o que dizem e, aí, bem, e aí dizem as coisas mais profundas e sábias como se estivessem mascando chiclete bubbaloo. Então o sangue do Calígula, o nosso pobre Josué, foi derramado numa cerimônia orgiástica sem precedentes. Já no meu caso, continuei dentro da nossa mente esperando por Josué, porque não há mescalina no mundo, pelo menos nesse mundo aqui, que faça um tralfamadoriano sair de si ou entrar em si – e isso também depende da corrente que tem o ponto de vista ou, como concordam sensatos e ponderados, pelo menos uma vez na vida, que tem o poder. Minha experiência mística, como bom tralfamadoriano, foi uma não-experiência mística, foi não-coisa alguma. Enfim, Josué voltou horas depois bastante perturbado (e uma perturbação dessas, é preciso esclarecer, tem efeito semelhante ao estado de embriaguês percebido em marujos tailandeses em qualquer redondeza de cais de porto do planeta, não necessariamente do planeta Terra); aí tivemos um problema, mais especificamente um problema locomotor. Caímos, batemos com a cabeça e apagamos. Quando acordei ela estava lá: a equação do nosso universo. E é ela que eu vou revelar agora ao leitor que chegou até aqui nesse vórtice também chamado, carinhosamente, bagaça, ao mundo e a todo o universo (Chupa essa, Einstein!):
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Não, o universo não é um chocolate M&M, para a infelicidade de uns e de todas as mulheres. Eis a leitura correta da equação do nosso universo:
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Onde u = universo, m = mente e m∞ = mente elevada ao infinito

Ou seja: o universo é a mente (de cada um) vezes a mente (que existiu, existe e existirá) elevada ao infinito
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Ironicamente (ou não), o resultado da equação é 1 (Um). As implicações filosóficas desse resultado nos remetem à intuição de unidade que define o universo como um mero programa computacional (um emulador, para ser mais exato), que vem rodando como peão maluco, o que nos leva ao parágrafo-epígrafe do nosso texto, escrito por Josué semanas antes de termos caído, batido com a cabeça e apagado, para depois (eu) acordar com a equação. De uma forma estranha, porém bem explicada pela física quântica (outra graça tralfamadoriana importada pelos humanos), a causa – um galo vermelho na testa pós-mescalina – veio algum tempo depois do efeito – a epifania do Josué sobre o sentido da vida, do universo e de tudo. Comigo não ocorreu o mesmo, tendo a equação aparecido para mim depois que acordei do trauma, mas isso é porque eu sou de Tralfamadore e, como todo mundo sabe, somos irresistivelmente simpáticos (não que isso tenha alguma coisa a ver, mas já que quase coisa nenhuma tem alguma coisa a ver no emulador de cognome Peão Maluco, há de bastar). Espero, portanto, e finalmente, que agora (são os meus mais sinceros sentimentos) toda a minha sabedoria traga para você, caro leitor, certa paz de espírito, e que a revelação feita aqui sirva, pelo menos, para quebrar um pouco essa nossa rotina de tédio.
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PS.: O Josué está aqui teimando comigo que o resultado da equação é 0 (Zero) e não 1 (Um), ou que pode ser tanto 0 (Zero) quanto 1 (Um), dependendo do ponto de vista ou de quem tiver poder para fazer tal afirmação, ou até independentemente do ponto de vista ou de quem tiver poder para fazer tal afirmação, porque, retornando à física quântica, é mais sensato mesmo e até ponderado que o resultado seja ao mesmo tempo (e, claro, no mesmo espaço) 0 (Zero) e 1 (Um), o que não deixaria de ser só mais uma piada do emulador Peão Maluco que chamamos de nosso universo. O que provavelmente é.
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24 de jan. de 2010

Chapéu de mágico

Por Rodrigo Novaes de Almeida

Na verdade nunca fui mágico. Sabia meia dúzia de truques e uma vez um macaco de circo me ensinou a hipnotizar pedras e tigres.

Sim, é verdade que eu trabalhei no circo, já fui mulher barbada sem nunca ter sido mulher, já me vesti de urso, já derrubei touros capados, mas nunca fui mágico. Acontece que eu estava foragido. Tinha coronel, polícia e Lampião no meu rasto e fui me esconder naquela pobre cidadezinha nos fundos de pra-lá-dos-montes. Eu usava um chapéu de mágico, roubado, e o povinho me confundiu de sujeito ordinário. Me receberam bem pra danar. Fizeram banquete e tudo. Mataram cabra. E me deram a última donzela virgem daquelas bandas. Juracema. Eu aproveitei. Lambi os beiços. E como gostei da menina, não contei pro povo que de donzela ela já passava longe.

No dia seguinte, veio a conta. Como fui tolo, pensei. Metido em outra enrascada. Os pra-lá-dos-montinenses estavam cansados de tanta seca naquelas terras. E cansados também estavam da chuvarada que quando vinha não vinha só, mas vinha enchente. Era tarde pra dizer que eu não era mágico e me lembrei do macaco do circo. Eu já tinha hipnotizado pedra, já tinha hipnotizado tigre, não seria difícil hipnotizar aquela gente. Acabou seca, acabou enchente. Quer dizer, o povo todo não viu mais seca nem enchente. Alguns morreram comendo terra e outros morreram afogados na última estação. E quando o efeito do transe passou eu me chispei daquele lugar e trouxe comigo a donzela que não era donzela.

Hoje, velho, me recordo daqueles dias, e da fatalidade de ter conhecido Juracema, que fugiu de mim na cidade seguinte com o mágico de um circo que por lá acampava.

Do livro Rapsódias – Primeiras histórias breves (Ed. Multifoco, 2009)