Mostrando postagens com marcador Vale a pena ler de novo. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Vale a pena ler de novo. Mostrar todas as postagens

16 de jan. de 2012

O homem mais feliz do mundo

Por Ricardo Novais

Sabe quem é o homem mais feliz do mundo, leitor? Aquele homem, bem-sucedido, alinhado, refinado, cabelo aparado, cara rapada, bem apessoado, sorriso fácil à mostra, que calado não fica mal? Aquele que hasteia bandeira grande, ostensiva, que tem uma multidão de dependentes, desgraçados, amarelos, velhos e crianças? O homem à beira da eterna glória, que tem o testemunho da fama, que enrosca-se e desata-se, confundindo-se e, depois de algum tempo, encontrando-se? Sabe quem é ele? Aquele homem, senhor leitor, que mesmo com o tédio consumindo-lhe as entranhas e corroendo-lhe a pele consegue quebrar a  própria monotonia existencial, desavisado do pobre-diabo que, tão à vista, degusta suculento churrasco-grego com cachaça numa praça pública sintomática, indiferente também ao crente desocupado, tão exaltado, a perseguir bela jovem passante e aventureira do metrô que, concentrada e preocupada com o atraso alquebrado, vai algum seu compromisso marcado pela rotina?

Não sabes quem é este homem tão feliz e ao mesmo tempo tão resignado que transborda toda luz proveniente de cômoda debilidade? Aquele ente humano de ideias tão livres e que ainda assim sofre de censura moral?

É o mesmo homem melancólico ao jantar, combalido e amarelo ao almoço, magro de ideias de dia, talentoso de julgamentos à noite, que come pouco e suspira muito. É aquele mesmo desgraçado que deixa frases pela metade, elevando os olhos ao céu, com pouca luz de aurora e outra tanta artificial; que guarda tesouro de ouro de tolo, glamour em gaveta rasa para que salte aos olhos de algum visitante, fortuna em estante espelhada que a duplique e esconda algum sofrimento passado ou presente de lágrimas ou saudade; é o mesmo homem que carrega o próprio cadáver às costas, com vida boa e que, mesmo bem-sucedida, é irrealizada, incompleta daquilo que se poderia ter sido, mas não se foi; que se pode ser, mas não é; que se quer ser, mas não será; é tão-somente o resto de tudo que fica estacionado nos primeiros estágios – esperando por algo que ainda está por fazer, quando der e se der. Vida boa; sim! Vida boa e muito ordinária... Talvez até medíocre.

Já adivinhou? Já sabe quem é este homem, homem verdadeiramente, sobretudo, humano? Ora, como não? Mas se este homem és tu, leitor.

* Publicado originalmente no livro Perfumes da Pátria, S. Paulo, 2011, Bookess.

13 de jan. de 2012

Morte, erotismo e imoralidade na Literatura

Por Marcia Barbieri
O mundo não precisa de uma Literatura bem comportada. A boa Literatura não pode ter falsos pudores, nem se preocupar com aparências. Ela deve ser representada por um jardim labiríntico, fálico e de seres fictícios bem dotados. Viva Humbert Humbert e sua Lolita.

Quando o assunto é Arte, é preciso a mão em punho. Arrancar o feto com rancor e não acariciá-lo. Não peçam que o artista seja politicamente correto, que omita a palavra obscena que escorre fervorosa da boca ou suprima um personagem devasso. A Literatura é uma puta batendo punheta. Como mulher, socialmente condicionada eu disfarço o decote, porém como escritora eu trago os seios em exposição.

O homem pode julgar ingenuamente o mundo apenas pelo que enxerga do buraco da fechadura. Já o escritor precisa olhar o buraco e reinventar o universo e suas cópulas, disfarçar a morte em cada prazer infecundo. O gozo é branco, erótico e trágico, traz em si a promessa de finitude: “A sua vida é uma repetição ininterrupta de gestos inaugurados por outros".[1] Essa citação do Mircea Eliade me faz lembrar o quanto somos voláteis, plágios, pouco originais, impulsionados pela angústia da perpétua influência primitiva.

O sexo na Literatura também é uma afronta a Deus, uma tentativa de reconstrução de Sodoma e Gomorra. Recordemos da obra de Sade Os 120 dias de Sodoma. O homem não esconde sua maior virtude: a cópia. Não conseguimos nos desvincular do divino. O autor se finge de Deus e através dessa teatralidade se reconhece.

O ato sexual é antropofágico, vampiresco, deseja devorar as características do outro, aniquilá-lo, na intenção de ganhar uma sobrevida. A pedofilia em Gabriel Garcia Márquez, por exemplo, não pode ser vista como imoral, antes é um sintoma de desespero que a proximidade da morte causa. Ela é encarada como um livramento, uma distração. O sexo é uma tentativa de volta às origens. O homem através do pênis volta ao útero materno. E nada representa com maior verdade a figura da mãe do que uma jovem virgem.

O livro A casa das belas adormecidas de Yasunari Kawabata também traz o gosto nostálgico da velhice, do sexo como resgate de algo já inerte, a redenção através da carne de uma jovem:

“Dobrou os braços e cruzou os dedos na frente do busto. Seus dedos então tocaram o peito do velho Eguchi. As palmas das mãos não estavam juntas, mas a forma era de oração. Parecia uma prece suave. Com as palmas das mãos, o velho envolveu as da menina, que tinha os dedos cruzados. Enquanto isso, pareceu-lhe que ele mesmo começou a sentir que orava e fechou os olhos. Seu gesto não era senão a tristeza de um velho em contato com as mãos de uma jovem adormecida.”

Assim como afirma Octavio Paz em Labirinto da solidão que a mulher é exposta através da vagina, também a Literatura ao abrir as pernas se vê contaminada pelo mundo real. Os personagens querem ser homens e nada mais humano do que a cópula e a morte. Eles se apropriam do ato sexual não para chocar, como sugerem alguns ignorantes, o intuito é se tornar homem e não apenas representá-lo, é a vontade visceral de ser. Expulsos do mundo das ideias, se apresentam como verdade, concreto, vomitam a árvore do bem e do mal. Análogo ao homem que se quer divino: “(...) é que o mundo que nos rodeia, civilizado pelo homem, só é válido pelo protótipo divino que lhe serviu de modelo.”[2]

Dessa forma podemos dizer que o modelo exemplar do ser fictício é o homem gerando vida e toda nostalgia que cabe nesse estado orgástico: “tudo que não possui um modelo exemplar é desprovido de sentido, isto é, não possui realidade.”[3]

Segundo Henry Miller, descrever o homem e sua sexualidade era um dever da Literatura Moderna, afinal, poucas coisas são permitidas a ele.

Outra obra que mostra o quanto é próxima a ligação do sexo com a morte é Decameron. As orgias narradas não são gratuitas, obscenas, apenas revelam o medo evidente da morte precoce e uma forma de castigar Deus. Para que servem tantos pudores se fomos castigados com a peste?

Só posso chegar à conclusão que a Literatura é um ato mastubatório, uma preparação para a terceira margem do rio. Definitivamente, a Arte satiriza Deus.


[1] Mircea Eliade em O mito do eterno retorno
[2] idem 1
[3] idem 1

12 de jan. de 2012

Névoa


                                            Aos portões da eternidade, de Vicent van Gogh
Por Geraldo lima

Já ouve os ruídos de sempre, logo que o sol atravessa as vidraças e as cortinas e avança sobre o breu dos quartos. Não ouve com a mesma nitidez de antes, mas pode distinguir ainda o ronco dos motores dos ônibus entupidos de gente sonolenta, sem ânimo; passos que ressoam na calçada rumo ao trabalho, supõe; um passarinho que canta todas as manhãs na copa da mangueira, um sabiá, tem quase certeza (meu Deus, o que faz um sabiá aqui, longe, longe do seu mundo?!); uma tosse, uma garganta que se livra do catarro logo cedo na casa vizinha.

Todo dia é assim, e há anos ele assiste a esse espetáculo, passivo, quase alheio. Houve um tempo, porém, em que era parte pulsante dele, um dos seus protagonistas. Agora, muito pouco lhe resta ainda para extrair da vida. Sabe que não tarda a noite eterna, avessa à luz, por isso procura sempre se adiantar ao movimento incessante do dia: é o primeiro a se levantar, abrir a porta e respirar o arzinho frio da manhã que se inaugura. — Pai, não passa daí, viu? Nada de ir pra rua — já ouviu mais de uma vez a filha recomendando, proibindo, delimitando seu território.

Antigamente, era ele quem ia à padaria comprar o pão e o leite. Quando todos acordavam, o café já estava pronto e a mesa posta. Hoje, é essa inutilidade que levanta e nada mais pode fazer. Que não pode nem atravessar a fronteira que separa a casa da rua. O mundo tornou-se perigoso, vasto, indecifrável: uma armadilha para os velhos e as crianças. O mundo-monstro. O além-mar, o além-portão. O que a mente, gasta, já não pode compreender. O que os olhos, minimizados, já não podem abarcar.

Da sala dá pra ouvir o burburinho de agora e o de muito tempo atrás, com outros sons, obviamente, outros destinos. Esse barulho de roda sobre o asfalto ainda molhado de sereno é da carroça de Minervino, não tem dúvida. Passou a vida toda ouvindo isso, como pode não ter certeza? A voz de dona Efigênia conversando com o leiteiro, ah, o leite que ele vende não é que nem aquela água rala que a gente compra na padaria. Não, não, é leite da fazenda mesmo, saído há pouquinho do úbere da vaca. Vai comprar é desse leite, queira sua filha ou não.

Ah, demorou tanto a decidir se comprava ou não o leite que o homem já foi embora. Nem sombra também de dona Efigênia. Aliás, a rua lhe parece agora muito diferente. Que terá acontecido? Mundaréu de carro indo e vindo. Tem mais barulho aqui fora do que ele consegue ouvir lá de dentro. Também a audição anda meio fraca ultimamente. — Pai, cadê o aparelho pro ouvido, hein? Como o senhor vai ouvir alguma coisa se não usa? Parece criança. Usar até que ele usa, mas não o tanto que devia. Põe e logo retira: o trem lhe dá gastura, é um incômodo insuportável. Prefere ouvir tudo minguado mesmo, retalhos de conversas, palavras mutiladas, sem adorno, sem sentido. Agora, o silêncio é uma ilha onde ele, náufrago do tempo, sente-se seguro e em paz.

Bem que ele queria atravessar a rua, ir até a padaria em frente, mas essa névoa que cobre tudo não deixa. De uns tempos pra cá, as manhãs têm sido assim: vestidas com essa névoa rala, mas persistente. Pra piorar, sua vista anda muito fraca, quase não o deixando reconhecer as pessoas nem as coisas do dia-a-dia. Juntando-se a isso o fato de a sua memória estar falhando frequentemente, tem-se o quadro clínico completo da sua decadência. Uma merda! É até motivo de riso. Tratam-no agora como se fosse criança. — Pai, o senhor já almoçou, já se esqueceu? — Ah, é mesmo, concorda, enquanto é açoitado pelo riso dos netos.

Isso não acontecia quando Joana ainda estava entre eles. Agora, que está velho e só, todos podem fazer o que bem quiser com ele.

O rapazinho que o ajudou a atravessar a rua tinha bem as feições do filho de dona Ilda, mas pareceu não o reconhecer. Estranho, na padaria ninguém o reconheceu também. Mas custava eles terem vendido o pão e o leite pra ele pagar depois? Um tempo atrás, não era assim: podia entrar ali sem um tostão no bolso e sair com um saco cheio de pão, que o dono confiava. Ah, também ele tinha que esquecer onde morava logo agora? Pai de quem? Não, não se lembrava. Que aflição! Que desespero silencioso e trágico.

Tudo, tudo parece fazer parte de outro mundo agora. Tem coisa que está aqui e que não estava há pouco tempo atrás. Esse prédio aí, isso não existia. Essas casas apagadas pela névoa lhe parecem familiares, mas muitas lhe dão a impressão de terem nascido, agora, de uma fôrma que ele desconhece totalmente. Mesmo assim vai se arriscar a ir um pouco mais adiante, até a esquina. Antes de seguir, olha para trás e é como se alguém tivesse passado uma borracha na paisagem, apagando o mundo de onde ele havia emergido: tudo o que lá está, acabou de brotar do nada.

Poderia entrar em pânico, mas já está bastante velho para se desesperar à toa assim. Para quem já passou por situações muito mais complicadas do que essa e tirou de letra, isso é nada. O que tem que fazer é ir em frente. Tem quase certeza de que a casa do seu compadre Gérson fica só um pouco mais adiante. Vai aproveitar então esse passeio pra lhe fazer uma visitinha, assim mesmo, sem avisar. Um dedo de prosa com ele, logo de manhã, vai lhe fazer bem, pois tem vivido muito só, sem o calor das conversas com os velhos amigos.

O diabo é que ninguém parece conhecer mais os outros nessa cidade. — Não, não mora ninguém aqui com esse nome, não. O senhor tem certeza que é esse o nome? Ora, por acaso ele está gagá ou louco? Dá vontade de dizer umas coisas, mas é melhor deixar pra lá. Essa gente não merece nem o seu desprezo. Não faz muito tempo, e todo mundo se conhecia. Fulano era filho de sicrano, neto de beltrano, e pronto. Entrava na casa de qualquer um a hora que fosse. Agora, mal abrem a porta. Parece que tá todo mundo se borrando de medo.

Resolve mudar de plano e virar à esquerda, descendo a rua. Vai só um pouco mais adiante e depois decide o que fazer. Sabe que tem que voltar pra algum lugar, só não se lembra bem pra onde. É bem capaz que esse lugar também nem exista mais. Há tempos, talvez, ele esteja andando assim pela rua, sem rumo certo, barata tonta em meio à multidão. As ideias estão meio confusas, mas não é nada com que se deva preocupar demais. O negócio é ir tocando a vida. Quem já viveu tanto não vai se assombrar com pouca coisa.

A cidade agora está toda de pé, numa agitação danada. Isso até que o distrai e o anima. Quem sabe encontra um conhecido e acaba entrando num bar pra tomar uma pinga, como nos velhos tempos. Sente uma vontade doida de gritar, de apertar a mão dos passantes, de dizer bom-dia, como antigamente. Onde está aquele calor de antes? O que houve com aquele mundo? Não é possível reconhecer mais nada, nem ser reconhecido.

A névoa. Ah, a névoa!

Apesar desse quadro desanimador, sente uma sensação gostosa de liberdade, como se já não lhe importasse mais a ideia de um lugar fixo para onde devesse voltar. Embora esteja cansado, sente-se uma criança disposta a brincar o dia inteiro. Tem energia de sobra. Não fosse essa névoa que o segue por onde ele vai, como uma maldição ou o prenúncio da noite que não clareia nunca, poderia ir até o fim do mundo sem temer cair no abismo.

As pernas, só para contrariar o restante do corpo, fraquejam e ele é obrigado a sentar num dos bancos da praça. Não vai demorar ali, pois ainda tem muito chão pra andar. A cidade cresceu absurdamente e ele deve levar o dia todo indo de uma ponta a outra. Mas isso não tem importância: ele é livre e vai para onde bem quiser.

Sem que tivesse percebido, a névoa tornou-se densa, e, por mais que ele abra os olhos, já não consegue ver mais nada.

Há um princípio de pânico que ele tenta administrar com sabedoria e calma. Não resta dúvida de que agora é preciso ouvir com atenção redobrada. Os olhos, ele constata, já não funcionam mais. Tem a impressão de que outras partes do seu corpo começam a deixar de funcionar, mas prefere não pensar nisso agora. Tudo o que precisa fazer é ouvir com atenção.

Então ele ouve a voz que brota do interior da névoa. Uma voz com a qual ele conviveu durante muitos anos. Ela soa nítida, musical, inconfundível: é como se ele ouvisse Joana falando ali, bem perto dele, tão perto que dá a impressão de que a voz amada escapa de dentro da sua cabeça e não do interior da névoa. Mas ele refuta essa impressão que só o faria parecer um louco. É de lá, do interior da névoa espessa, que ela vem, a voz da esposa morta há anos. É lá que Joana está perdida e implora pela sua ajuda. Joana chama, e ele, sem vacilar, vai ao seu encontro.

* Do livro, ainda inédito, A saga do nada.

6 de jan. de 2012

Abigail-Liagiba*

Por Marcia Barbieri

Abigail escorrega as mãos afetuosamente sobre a barriga dos bichos. Escolhe, entre eles, as baratas brancas. Empurra com a língua e suga. É possível escutar o barulho, como se vitrais sagrados partissem dentro do céu da sua boca.

Abigail nasceu em época remota. Na Grécia Antiga era chamada de oráculo. Seus olhos enxergavam em um raio de duzentos mil anos. Nas aldeias primitivas invocava espíritos, sacrificava crianças e virgens, pisava na fogueira, era um poderoso Xamã. Na Europa, princesa bastarda, matou com o espartilho todos os seus pretendentes, era comparada com a “Louca de Espanha”. Depois de trinta reencarnações voltou a sua cidade, lá era apenas Maria Louca. Só. Levava nos braços, dois pêndulos de aço, uma criança morta que esqueceram de enterrar. Os homens, às vezes, não escondem seus mortos. Eles são velados à vida inteira, feito uma unha encravada. Embalava, entoava cantigas de roda pra boneca com olhos de gente triste e miúda.

O marido, arquiteto de pensamento, cansado do fascínio da loucura, se apaixonou por uma doméstica nada exótica, que fazia rabada como ninguém. Socorro pegou o homem pelo rabo, literalmente.

Ao se descobrir traída e trocada tentou esfaquear o parceiro, deu cabo do cachorro da vizinha. O ato lhe rendeu a vigésima internação. Ela não se importava, afinal, o exílio era coisa de gente grã-fina. Além disso, o corredor de trinta metros e cem portas era um conto não-escrito de Cortázar. Todos os loucos são adeptos fervorosos do realismo fantástico.

Abigail, a Louca de Espanha ou mulher tarja preta, xamânica, corria nua entre os internos, era apalpada, acariciada, estapeada, eleita a musa do sanatório. Trazia no corpo as marcas da depravação. Em cada internação tatuava os amigos de hospício, aqueles que lhe satisfaziam a carne. A vida é um ato masturbatório, pensava enquanto era enrabada. “Aqui jaz minha sanidade”. Memórias remotas do subsolo, castigo sem crime, idiotas babando no meu clitóris. Os dementes costumam ser ótimos leitores, mesmo quando confundem um pouco as obras, os autores, verdade, ficção. Dadaístas também não me parecem normais. Tudo é colocado num saco e chacoalhado. O saco escrotal de Deus. O universo também aconteceu assim, num desses empurrões cósmicos.

A demência de Abigail, no entanto, era tamanha e não cabia na extensão da sua pele ou na geografia dos buracos. Coitada! Gritava, soluçava, descabelava por causa das fraturas do mundo. Não sabia que o mundo queria mais é que ela se fodesse na casa do caralho.

As internações começaram cedo, antes dos dezoito. Quando adolescente tentou enforcar o irmão mais velho, o pobre diabo tinha um olho de vidro e ainda não sabia enxergar a maldade. Ela enroscou a mão no seu pescoço, puxou a gravata com força, mas acabou se distraindo com o nó surpreendente dos dedos. Por incrível que possa parecer esse fato, Abigail jamais havia percebido que a insanidade começava nas suas extremidades. Essa noite chorou compulsivamente, arrancou as unhas com o alicate, passou gilete no braço esquerdo, no pulso não, era contra o suicídio, mordeu os lábios que ficaram grandes como duas mangas maduras. Foi a primeira das suas tantas noites de insônia. Luas vermelhas orbitavam na sua cabeça. Como alguém poderia dormir nesse lamaçal tremendo?

Sossega leão duas vezes ao dia acalmava seus nervos. Rangia os dentes grandes e amarelos. Um vergão crônico abria uma fenda da veia em direção à palma da mão. Não tendo com o que se preocupar, improvisou um calendário no abdômen. Enquanto o tempo não passava, assistia as guerras interplanetárias ao redor do seu umbigo, sentia saudade do cordão do qual despencou. Os loucos também são anatomicamente centrados.

Estrias escuras feitas com palito de sorvete abstraiam suas noites grávidas. Ela tinha a impressão que as madrugadas traziam outras madrugadas no bucho. Se tivesse uma faca experimentaria um corte longitudinal. Não era permitido objeto com ponta. Abria e fechava os olhos e o escuro continuava devorando os outros loucos. Goya. Alucinada, passava a língua seca no canto da boca infestada de aftas. Recordou dos filhotes de ratos que afogou um a um dentro da bacia de alumínio. Olhava os panos brancos quase inocentes quarando no varal.

Enjoada da mesmice do exílio elaborou algumas pautas e marcou uma reunião extraordinária com seus companheiros de partido. Incitou uma rebelião. Rasgaram as roupas, jogaram os remédios, as ampolas, as agulhas, destruíram as flores, incendiaram os colchões, não botaram fogo no próprio corpo, estavam preocupados demais com questões alheias. A revolta fracassou, como das outras vezes, os sonhadores foram mutilados, ao menos sobrou a inconsciência da derrota, afinal, eram apenas loucos. Como castigo não jantaram e foram amarrados no estrato da cama.

Uma semana depois, ainda com Joana d’Arc na alma, tentou fugir, escalou um muro de três metros, o qual dava acesso ao Jardim do Éden, antes de provar o figo da discórdia, ela foi expulsa. Caiu, trincou duas costelas, fraturou a coluna. Agora Abigail era Frida Kahlo. Dissimulou uma gangrena, decepou o próprio pé, caso contrário, não haveria verossimilhança. No diário os mesmos dizeres da artista: Piés para qué los queros si tengo alas pa’volar. Datado de mil novecentos e cinquenta e três.

Descontente com o rumo da sua vida, amarrou um lençol encardido no pescoço e ensaiou seus vôos imaginários pelos vastos corredores, escorregou no escarro denso de alguns maníacos, dançou um tango com dois enfermeiros de plantão, fumou bitucas de cigarro, tropeçou em muitas macas, sobreviveu. Mexicana insana.

Descobri que o hospital já foi um cemitério de guerra. Retiro o ralo do banheiro e procuro pelos fetos que abortei. Enrosco as falanges. Encontro somente o som de cascos trotando no líquido placentário. Aquoso, translúcido.

Abigail espelho inverso eu-ela encalacrada. Útero infecundo ao avesso. O nascimento ancestral da morte. Abigail-ela-eu mitificando a própria voz. Louca de Espanha. Mulher. Humana. Personagem.

Aqui, na rua detrás do sanatório, homens de laranja, tão análogos à pintura expressionista, recapeiam o asfalto, no cruzamento girassóis seguem cegos semáforos.
Abigail Liagiba eu-ela múltipla personalidade. Faca sem corte. Escorpiônica. Cavalos fingidos relinchando na canela da morte. Boneca russa. Eu.

*Conto publicado no livro Abigail, coletânea de contos organizada por Nelson de Oliveira e Claudio Brites.

27 de jan. de 2011

Três breves (Reprise)

Por Geraldo Lima

Dança (ou Almodóvar)

Ambos movendo-se no círculo de fogo, devorados pelo desejo. Dois estranhos, quase. Ravel inundando a sala, os corpos. Um minuto antes, pensara em fugir; mas, agora, presa ao ímã do olhar, deixava-se arrastar até o olho do furacão. Parecia tão manso, outra espécie de homem; súbito, porém, crispou os lábios, e a mão cortou o ar, dilacerando o encanto.

Memória

Pensou nas duas crianças presas em casa, na cadelinha unhando a porta para entrar (odeia ficar no quintal à noite), no gás vazando, asfixiando o ambiente, e no tempo que levaria para conseguir esquecer tudo isso.

Oh, não!

Agora só estamos nós dois aqui, o homem disse com voz de lâmina cortante. A porta fechou-se com estrondo, e o tempo parou de pulsar.

Esses são os três últimos microcontos do livro Breu, que se tornou parte do livro Tesselário, cuja publicação deve ocorrer ainda este ano pela Editora Multifoco.

12 de jan. de 2011

Um microconto, do livro inédito Tesselário (Reprise)

Por Geraldo Lima
-
XXXII. JOÕES.
-
Parecia-lhe impossível a execução do plano: como poderia um simples personagem agir fora dos limites impostos pelo autor? Como saltar da ficção para a realidade? E não fora fácil tomar aquela decisão. Entre a amolação da faquinha e aquele momento, travara-se uma batalha infernal entre a parte boa e a podre da sua consciência. Um maioral dentro dele. Por fim, ei-lo ali. O escritor, pasmo:
-
— Epa, João. Que fazes aqui?!
-
Merecido espanto. Então se dava ao prazer de expô-lo nas mais diversas tragédias, estripando a mulher, estuprando mulheres, estragando os filhos, estocando o amante da cadela... Brandiu a faquinha, quase já roçando a cara do escritor.
-
— Que merda é essa, João? Sou teu criador. Sou Deus!
-
Orra, ainda por cima um herege. Bem merecido.
-
Chovia em Curitiba, gotas vermelhas pingavam das vestes.

10 de jan. de 2011

Quimera

Por Claudio Parreira

EU VENDIA HIPOPÓTAMOS na feira quando vi a mulher pela primeira vez: linda, os cabelos louros esvoaçando do sovaco, dois metros e meio de pura tentação.

Filhote, o meu cachorro filosófico, foi logo dando palpite:

— Não entra nessa que é roubada. Pelo brilho do olho esquerdo, essa aí tem pra mais de quarenta filhos.

Aceitei o conselho do Filhote com os ouvidos mas o coração não quis saber: corri pra cima da mulher. Para impressioná-la, passei antes na biblioteca. Peguei meia dúzia de clássicos, que sempre dão melhor resultado.

Quando ela me viu com os livros brotando feito flores das mãos, se abriu toda sorrisos.

— Li todos eles pra você, meu amor — eu disse, os olhos faiscando sacanagem. — Que tal?

O sorriso ganhou uma súbita expressão séria. Filhote, filosófico, arrematou:

— Eta porra!

— Não pense que me entrego por essa mera literaturazinha — ela falou. — Pra me ganhar o buraco é mais embaixo!

Disse isso e se virou, resoluta. Uma mulher que despreza os clássicos é maluca. Ou merece respeito e atenção. Por isso observei-lhe o rabo: três pontas descascadas.

— É normal — sentenciou Filhote.

— Graças a Deus — falei. — Vamos beber a isso!

Filhote não gostou muito da idéia.

— Mas é só gasolina, filho! — eu justifiquei.

Ele abaixou as orelhas, enfiou o rabo entre as pernas e perguntou:

— Você promete que é uma só? Uminha só?

Saímos do posto de gasolina às quatro e meia da manhã, os arrotos potentíssimos lançando chamas a centenas de metros.

Eu vendia, como já disse, pterodátilos no supermercado quando vi a mulher pela segunda vez: linda, os cabelos avermelhados esvoaçando das ventas, quase três metros de vertigem.

Filhote, os bigodes ainda chamuscados pelas labaredas da noitada anterior, resolveu bancar a minha consciência:

— Larga mão, sô! Isso aí não é mulher, é o diabo que veio pra te aporrinhar. Como ela mesma disse, o buraco é mais embaixo. Vai encarar?

Mulheres difíceis é que valem a pena, pensei, principalmente quando precisamos usar uma escada para lhes alcançar o pescoço fino para um beijo fugaz. Assim era ela, com seus quarenta filhos ou não. E assim estava eu: torto, os quatro pneus e o torso arriados, a garganta seca implorando por mais gasolina.

— Nem pensar! — protestou Filhote. — Ela não vale tamanha humilhação.

Fiquei olhando o cachorro, penalizado: nem mesmo toda a filosofia do mundo o fizera mais sensível. Decerto mantinha um bloco de mármore no lugar do coração. E sua boca jamais provara a voltagem de um genuíno beijo de amor. Seus olhos eram incapazes de enxergar a paixão: em quem eu via céu ele só encontrava tempestade.

— Ora, pois, meu querido Filhote — eu disse. — Enfia a tua filosofia no rabo que eu quero mesmo é pandegar!

— Depois não diga que eu não avisei...

A prudência, ah!, a prudência. Por isso é que o Filhote não passa de um cão filosófico solitário: prudência demais. Corresse um pouco mais de risco e viveria melhor. Mais feliz, pelo menos, que esse negócio de filosofia pura corrói o fígado e os miolos. É a cachaça da alma, um ácido do espírito.

E ácido por ácido eu prefiro o LSD que o bafo dela exala. Ela é uma mulher envolvente, sim, e não digo isso pelo fato da moça ter quatro braços. Nem me abraçar ainda ela abraçou, porque o buraco, segundo suas próprias palavras, é mais embaixo. Mas eu sei que o momento do abraço vai ser sublime, o momento do beijo. É nisso que se baseia toda a minha vida hoje: nos momentos futuros que terei ao seu lado. Os carneiros que trafico na igreja garantem a minha subsistência mas o meu prazer vem de outras fontes. E agora cismei que a fonte primeira de todos os meus delírios gozosos é ela, que é linda, os cabelos amarelos cheirando a capim, três metros e meio de loucura.

Os automóveis e crocodilos mostravam reverência e uma ponta de inveja à minha passagem: lá vai um apaixonado, eu pensava que eles pensavam. E decerto pensavam mesmo, porque tudo em mim cheirava como o jasmim da paixão: desde os cascos até o olhar, que iluminava de cor as sombrias ruas em linha reta da vida comum.

Sob os óculos que a minha condição de futuro amante me colocara sobre os olhos eu via agora um mundo todo novo: os edifícios circulares, as avenidas ascendendo em direção ao céu, as curvas azuis do vento. Mesmo as pessoas, que sempre me olhavam com reserva e desconfiança, ensaiavam sorrisos e acenos, exibiam um discreto menear de cabeça, o desconcertante sussurrar de palavras de apoio e incentivo que eu jamais ouvira antes. Houvesse no mundo mais apaixonados como eu e a vida seria bem melhor.
Para que tudo isso se concretizasse, porém, faltava o principal: encontrá-la. O buraco mais embaixo, ou em cima, foda-se, isso era fácil. O Grande Arquivo Universal da Conquista Amorosa está aí há milênios e só não o consulta quem não quer.

Navegando na mesma freqüência dos meus pensamentos, um senhor baixo, cego, cuja boca era um acidente medonho na geografia do rosto, se apresentou com a solução dos meus problemas:

— A mulher que você procura, cinco ou seis metros de beleza incomum, os pelos cubistas, sei muito bem onde ela está.

Nunca vendi porra nenhuma na vida, como já disse. Por isso mesmo é que sei que na minha profissão o que mais se vê é picaretagem, gente desqualificada que abusa dos bons sentimentos dos incautos para conseguir vantagens pessoais. A mim impressionou muito o fato do homem surgir do vento e descrever quase à perfeição a minha amada. Para saber se o sujeito falava mesmo a verdade, perguntei ainda:

— O que ela guarda às costas?

— Um par de asas translúcidas — falou ele prontamente.

Bati com a mão aberta à testa, uma pancada tão forte que por instantes a cidade mergulhou em trevas. Ninguém no mundo a não ser eu (e Filhote, minha testemunha particular) poderia descrevê-la tão bem! Quando as nuvens escuras se afastaram dos meus olhos eu fiz a pergunta óbvia. Os olhos vazios do homem derramaram a resposta, límpida e sonora:

— Na biblioteca. Vai encontrá-la na biblioteca.

Claro. Por que eu não tinha pensado nisso antes?

Na escadaria da biblioteca encontrei Filhote escondido atrás de uma hiena, a pata direita estendida sobre um chapéu que pedia esmolas.

— Porque filosofia alimenta o espírito mas não enche a barriga de ninguém — justificou enquanto eu entrava no meu sonho, o coração já aos trancos por antecipação.

Intuí o seu endereço logo de cara: terceiro corredor, esquerda, prateleira de mitologia. Entre o Minotauro e o Dragão, coberta de poeira, lá estava ela, a Quimera. A minha Quimera.

Embora estivesse diante de tudo o que eu sempre quis, me senti decepcionado. Era ela, sim, mas faltava-lhe algo. Faltava-lhe tudo. Faltava-lhe a materialidade. As carnes, os peitos. Algo concreto no qual eu pudesse descansar o meu esqueleto. Faltava-lhe a bunda, caramba, que desde sempre tem sido o porto seguro para os machos da minha espécie e de outras mais.

A mulher que eu tinha diante dos olhos era só uma figura impressa, de cores desbotadas, uma ilha cercada de palavras por todos os lados. Pra me ganhar o buraco é mais embaixo, ela dissera, e agora eu sabia o quanto. Aliás, dissera mesmo? Em algum momento cheguei de fato a vê-la? Linda, mulher mesmo ou pura alucinação?

Seres mitológicos não são dignos de crédito, eu sempre soube. Mas é o abismo entre o saber e o acreditar que os torna tão reais.

— O senhor não pode permanecer neste recinto.

Virei lentamente o torso, mantendo as patas fincadas com firmeza no chão.

— Por que não? — perguntei, um segundo antes de constatar que quem me falava de maneira tão autoritária era o sujeito de boca murcha.

— Seres imaginários não são admitidos nesta biblioteca — ele respondeu, os olhinhos sem brilho exibindo uma satisfação nem um pouco secreta.

— Faça então o que deve — eu disse, o meu rabo balançando com um descompromisso admirável.

Saímos os dois de volta à rua, deixando para trás a minha Quimera e os sonhos tantos que me ocuparam e justificaram de maneira gloriosa a minha existência.

— Mulheres — eu disse —, jamais serão inteiramente nossas. Sempre isso: aparecem, acendem a chama da loucura e, quando mais as queremos, desaparecem no ar feito borboletas. Ou se metem entre as páginas dum livro que nunca poderemos ler.

— Umas ingratas — filosofou acertadamente Filhote, que se juntara a nós.

Quem nos via indo de encontro ao cinzento véu da noite(1) só conseguia perceber o mistério. Um homem cego de boca murcha, um cão filosófico e um centauro esvaziado de quimeras como eu dão mesmo o que pensar.

(1) O Barroco é que gostava de construções assim. Ou não.

9 de jan. de 2011

As entrevistas d'O BULE - Vale a pena ler de novo

Em 2010, O BULE realizou várias entrevistas, que ficaram conhecidas pelas sua extensão e por perguntas... impertinentes. Quase encerrando a nossa retrospectiva, compilamos aqui os links de todas elas para que vocês (re)leiam uma, duas ou todas!

Os Colunistas d'O BULE entrevistam...

Nelson de Oliveira

"Eu não acredito realmente que a literatura seja a arte do inútil. Mas conheço inúmeros indivíduos que acreditam. Pessoas práticas e atarefadas, boas em contabilidade e marketing, para quem tempo perdido é dinheiro perdido. (...)

"Sou contra a compartimentalização (também me foi difícil escrever essa palavra) dos diversos períodos de nossa literatura. É ainda comum estabelecer-se a geração de 30, a geração de 45, a geração de 60, mas em relação à poesia, com exceção da geração de 30, que deu alguns dos nossos maiores romancistas, a moderna, a pós-moderna. (...)

Não acho que a violência nos meus livros é assim tão escancarada. Eu diria rasgada. Pois a violência que se apresenta nos meus textos está do lado de dentro, ou seja, na alma e no entendimento dos personagens. Só rasgando a pele é que ela pode se desnudar. (...)

Não, não ganhei muito dinheiro. Ganhei dinheiro, mas não muito. Nada que pudesse me levar a abandonar meu salário de professor. Sou organizador, portanto o que recebo como royalties é uma parcela ínfima do que recebe um autor. (...)

Em relação à imbricação entre música e literatura, me parece que ela se faz notar, em meu trabalho, por meio de certa contagem interna de tempo, algo que, possivelmente, somente eu percebo, e só a mim, enquanto escritor, vai interessar. Quando redijo uma frase, por exemplo, naturalmente lhe confiro um ritmo, um andamento específico. (...)

Sou místico, sabe? Acredito em Borges. E aí eu sou obrigado a usar a tese dele, aquela que diz que existem autores (você esqueceu de Machado de Assis) que influenciam seus predecessores e, a partir daí, poderíamos inverter essa questão. Ou seja: o que existe nesses autores de Marcelo Mirisola? (...)


Agora é com você, leitor. Neste domingo, que tal uma entrevista?

Os Editores

6 de jan. de 2011

Vale a pena ler de novo: Um olhar nada acidental de "O único final feliz para uma história de amor é um acidente"

As férias d'O BULE estão acabando e para encerrar parte da nossa retrospectiva, entregamos para você leitor a resenha de um dos livros mais comentados do segundo semestre de 2010.
Se ainda não leu, ótimo; se leu...

VALE A PENA LER DE NOVO.

Os Editores

"O único final feliz para uma história de amor é um acidente"
Autor: João Paulo Cuenca
Romance, Ed. Cia das Letras, 2010.

Por Mauro Siqueira

Não fiz o álbum da copa, as minhas modas são outras. Adquiro o mais rápido que posso os
livros da coleção “Amores Expressos” – apesar de me faltar a figurinha nº2 – e os dois últimos lançados foram comprados juntos.
Então, não é nada acidental esse pequeno texto que aqui vai. A leitura de "O único final feliz para uma história de amor é um acidente", o mais recente livro de João Paulo Cuenca. Não sabia por onde começar a escrever esse... olhar sobre o livro – um título espetacular, diga-se de passagem. Gostei do livro, ponto. E não foi pouco.
Numa tentativa de sinopse de um livro plural, tento uma abordagem também plural pelos elementos que consegui destacar e de como foram trabalhados por João Paulo Cuenca e que repito, gostei.
Gostei do livro porque ele se afasta um pouco desse neorrealismo (tanto aquele que se sustenta numa estética da violência quanto aquele opta por estética da delicadeza) tão presente na nossa literatura hoje – não que eu desgoste dessa vertente, pelo contrário. Mas o livro de João Paulo Cuenca permite um vislumbre do processo de ficcionalização do cenário proporcionada através dos olhares de seus narradores – aliás, são narradores múltiplos no livro – como se verá. As possibilidades de narrar despregado do chão, aproximando-se da imaginação mais original, do delírio e do sonho – algo que não é inédito em sua obra –, só enriquece a experiência da mesma pelo leitor. Esse caráter onírico faz com que leiamos “O único final feliz...” conjecturando o que de imaginário poderá se apresentar nas páginas seguintes, pondo em dúvida não a narração, mas as palavras do narrador. Até que ponto as palavras do narrador principal do romance (outros chamaram novela) refletem o real de um Japão quase sem exotismo, já comum e conhecido, diferente daquele que o senso comum implantou em nós e que cada dia é atualizado com os elementos (trans) culturais das últimas décadas como, computadores, celulares, mangás, animes e por aí, numa lista enorme, que tipicamente do que é cognoscível como ocidental e assimilado como “oriental” retorna-nos com re-re-lido? Gostei de “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” porque ele é um livro que fala do olhar. Do olhar capaz de perceber os mínimos detalhes de Yoshiko, detalhes estes que fazem dela a boneca mais cara do Japão; os olhares dos fregueses do Abracadabar direcionados ao corpo de dimensões euclidianas da dançarina Kazumi; tão díspares àqueles dedicados à Iulana, a estrangeira romena, garçonete e amiga de quarto de Kazumi e que nos olhares escondidos nutre uma paixão velada pela dançarina; ou os olhares de Shunsuke (que trabalha numa empresa que fabrica filmes fotográficos numa era de máquinas digitais), que vê na gaijin, a estrangeira, tudo que não encontra nas japonesas, porém, não faz questão de esconder esse interesse a ninguém – para surpresa dos olhares dos seus conterrâneos mais tradicionais. Como o seu pai, o Sr. “Lagosta” Okuda, famoso poeta japonês, dono da boneca Yoshiko, e que mantém em segredo uma espécie de agência de espionagem, chamada apenas de “periscópio”, responsável por observar a todos quem o senhor Okuda exige. O periscópio é comandado pelo Sr. Suguro Shibata, que além de vigiar e reportar tudo da vida do filho ao Sr. Okuda, também é professor na "Associação do Fugu Harmonioso de Tsukijim", onde ensina a arte do corte do baiacu (ou fugu) sem que este preserve o seu veneno letal, ou seja, uma arte de saber reconhecer na carne esbranquiçada do peixe as partes venenosas das não venenosas.

E gostei ainda mais do tratamento dado ao “olhar” por um personagem insólito que surge quase ao final da narração: Gyodai. Isso mesmo, aquela criatura mono-ocular, gosmenta, cor de chiclete, do seriado estilo tokusatsu “Esquadrão Relâmpago Changemen”, do final dos anos 80, que ao final de cada episódio era o responsável por reviver o vilão, transformando-o numa criatura gigantesca, através do raio emitido por seu único olho. E, além disso, apesar de parecer ser só mais uma referência pop jogada no livro ou revelar um exagero ao recurso, o surgimento de Gyodai é importante, pois a partir da aparição da criatura que nos damos conta que a tensão da dualidade real x imaginário dos narradores é fundida e nunca existiu. Como? Leia o livro. Não quero adiantar mais detalhes da obra – mais do que já fiz e que ainda retomo em outra postagem.
Ademais, os personagens ainda se voltam às questões do olhar, seja sob o viés fetichista das partes anatômicas, lugares, gestos, relações e afins Seja numa descrição realista, porém não enumerativa do gesto e do foco sobre o mundo que rodeia as personagens, mas poética capaz de transformar até mesmo um acidente horrível num belo quadro em câmera lenta, somente capaz pela acuidade de olhar focalizado e bem real sobre o meio circundante.
Por ora, esse é o meu primeiro olhar sobre “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”.

O autor:
João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior, e é autor dos romances Corpo presente (Planeta, 2003) e O dia Mastroianni (Agir, 2007). João Paulo Cuenca tem um site oficial: www.jpcuenca.com


* Livros podem ser enviados a’O BULE para serem resenhados, cabendo aos editores d’O BULE a seleção. Tratar pelo email coisaprobule@yahoo.com.br

**Publicado originalmente em De VERMES & outros ANIMAIS rastejantes em 27/09/2010.

5 de jan. de 2011

Laura

Por Claudio Parreira

Não importa, eu vou. Escalando as costas da tarde, que se precipita feito uma flecha em direção ao depois.
Porque assim tem sido desde sempre: logo cedo a questão me abraçou: você escolhe entre voltar, permanecer ou seguir. Não aprendi a voltar; permanecer é doloroso. Seguir, portanto. É o que tenho feito.
Cada segundo traz nos bolsos o mistério. A aspereza do oxigênio. O suor em chamas. O nome dela é Laura.
Foi num sonho. Laura era um susto. Não pude ver o seu rosto, o seu corpo. Névoa de sono. Mas sim, os sentidos todos apontando pra ela, a mulher.
Quando acordei toda a cama era um oceano. Peixes transparentes no ar. Na boca um gosto amargo de estrelas. Laura era fiapo de sonho, impalpável, mas já existia em mim.
Daí todos os meus dissabores.
- Laura, foi quando eu suava labaredas. No sonho, ela estava no sonho. Viu ela por aí?
Riam de mim. Esse o mal das pessoas: ninguém acredita nos sonhos alheios.
Minha única certeza era uma só. Nunca no meu passado, no meu presente de maneira confusa. Só depois, talvez. Laura só no futuro.
Por isso escalo os calendários com a determinação de um condenado. Não me cabe permanecer aqui. O desespero é hoje, nunca ontem. O sofrimento é agora.
Longa a estrada. Os gatos no caminho. Uma conversa esclarecedora.
- Não sei como ela é – dizem os gatos –, mas tenho amigos que moram lá, no depois. Falam de Laura, Lauras. Depois é cheio de Lauras.
Suspeito, portanto, de que estou no caminho certo. Um homem que acredita na palavra dos gatos. Talvez por escrever.
As primeiras letras também foram difíceis. Difícil subir ao caderno, acomodar-se às dobras das sílabas, domar consoantes. Porque no princípio toda palavra é vertigem. Como as mulheres. Desconhecido azul.
O rigor. Porque as palavras fogem à falta de rigor. Precisam de um braço para contê-las. De maneira que o meu aprendizado com as mulheres começou com as palavras.
Mas eis que agora me vejo aqui sem nenhuma delas. Há tempos não escrevo uma mulher. Laura é sabedora da minha condição. Por isso veio no sonho. Vapor-mulher, a direção que faltava aos meus pés.
Quanto mais avanço menos gatos eu vejo. Os poucos que ainda restam temem falar. Depois é um território nebuloso, eu sinto. Só os gatos mais corajosos chegam lá. Só os homens mais corajosos se dispõem a chegar lá. Depois. Laura não está. Laura é lá.
Econômica a minha paisagem. Uma estrada, só, uma tempestade de girassóis do lado direito, do esquerdo os cardumes: peixes azuis amarelos pretos, tantos peixes – e não dão a mínima para os gatos.
- Não como os peixes sonhados pelos homens – diz um gato amarelo. – Não tenho essa capacidade.
Sonhos particulares. Cai por terra a minha teoria de que os sonhos pertenciam a todos. Não pertencem aos gatos, pelo menos.
- Os nossos são de outra natureza – dizem os gatos verdes. – Basta um sonho de gato para o seu mundo sair do eixo.
O meu mundo saiu do eixo desde que sonhei com Laura. Seria o meu, então, um sonho de gato?
- Só um gato sonha sonhos de gato – dizem os gatos azuis. – Eis aí uma questão a ser considerada.
Vejo Laura pela primeira vez, finalmente. Está ao alcance da minha mão. E ela não é mais névoa, nem sonho.
- Mas você não pode me tocar – ela diz, o sorriso tranqüilo no rosto.
Estendo meu braço e o que encontro na extremidade é uma pata de gato. Meu braço é um gato. Eu sou o gato.
- É por isso? – protesto. – Não sou um gato, não era até há pouco. Estou gato, e isso é diferente!
Laura sorri. Todo o meu trabalho foi inútil. A minha caminhada. Malditos gatos! E agora de nada me adiantam as palavras, são vento.
- Tanto faz pra mim se você está gato ou elefante – ela diz, a voz serena. – Você nunca vai me alcançar.
A tempestade de girassóis. Os cardumes. Laura é o caos.
- Agora – diz Laura, os lábios sorrindo sílaba por sílaba. – Você é agora. Percebe?
Nenhum gato mais. Somos apenas eu e ela.
- Eu sou agora.
- E eu, depois – ela diz.
- Por mais longe que eu vá, serei sempre agora.
- Depois é a minha maldição.
O universo tem essas cápsulas que separam as coisas, as pessoas. Não posso alcançar o ontem.
Laura é névoa mais uma vez. Sempre será. Mas não aprendi a voltar; permanecer é doloroso. Sigo, portanto.

30 de dez. de 2010

Última Chance

Dezembro, mês de férias, rabanada e um pouquinho de vida off line. Então, para não deixarmos você na mão, caro leitor d'O BULE, separamos alguns textos já publicados aqui ou em nossos outros espaços. Se ainda não leu, ótimo; se leu...

VALE A PENA LER DE NOVO.

Os Editores

Por Mauro Siqueira

ÚLTIMA CHANCE. Daqui posso vê-la do espelho: acaricia uma das costas do próprio braço, como que tímida, estranha por estar ali... ela ainda parece decidir, fazer parecer sensato. Eu não posso demorar, não posso deixar que aquela sombra ganhe corpo, sentido. Dúvida é a sombra, algo além do categórico, algo palpável: um véu, que apesar de fino e translúcido e mínimo, uma barreira intransponível entre nós. A dúvida: o limite.

Última chance. É só o que consigo pensar: última chance... última chance... última chance... uma locomotiva anunciando a última saída, a chance que tenho de embarcar, ela já no trem sem olhar para trás; corro pela plataforma de mão estendida, tentado alcançar qualquer coisa para me agarrar a ele... a ela.

* * * * *

Corro a mão pelo seu corpo por mais uma vez...

Eu sei que amanhã ela vai achar tudo isso um erro, vai sentir nojento tudo que se dará e sentirá quase-agora – seus olhos nunca mentiram, e já até vejo: ela irá tomar um banho: um banho quente, muito quente, do jeito que não gosta. Abrindo todos os poros da pele maculada; vai se esfregar com força a esponja no corpo, querendo se limpar, limpar-se de mim, cada leve contato, cada forte lembrança (um véu). Ela vai sentir raiva. Como nunca sentiu. E qualquer coisa que eu faça, qualquer coisa que eu possa tentar fazer para que esta noite permaneça terá sido inútil diante do dia em que lhe dei as costas pelo efêmero.

Talvez.

Hoje eu vou contar com a sorte para inverter clichês.

Ela nunca me perdoou. Então esse é o nome do trem que tenho que agarrar: desespero – a última chance. Eu tenho de consertar o que eu fiz, colar cacos (ainda que cole, será o mesmo vaso?). Hoje sei que sempre foi ela. Um pouco tarde, certamente. Sinto-me oco. Dentro de mim... vago espectro pela remissão, buscando consolo nos lábios, colos alheios, sugando algo que elas não têm para oferecer... virei um estranho íncubo. (Viver faz mal). Mas com ela, corpo reconstruído, restaurado, estilhaços que era não mais. Com ela meu fingimento dura pouco: sou autêntico.

Em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui, uma saudade (uma dor dela), mas está claro no seu corpo que será só isso: nostalgia (catarse de fato dessa dor, está curada...). Não poderei dizer no seu ouvido, olhando nos olhos dela, que a amo, se não, nem essa nostalgia vou ter, e ela passará por aquela porta. Ouço o apito da locomotiva...

...última chance, última chance, última chance... uma locomotiva anunciando a última saída.

Ela não me deu escolhas a não ser de eu trocar os móveis de lugar e estar aqui (em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui), num motelzinho de 29,90 por 4 horas, fazendo amor com ela e com camisinhas que furei enquanto a olhava acariciar o braço pelo espelho, na esperança desesperada de uma gravidez indesejada.

Hoje, hoje eu vou inverter clichês.