16 de jan. de 2012
O homem mais feliz do mundo
13 de jan. de 2012
Morte, erotismo e imoralidade na Literatura
12 de jan. de 2012
Névoa
6 de jan. de 2012
Abigail-Liagiba*
27 de jan. de 2011
Três breves (Reprise)
12 de jan. de 2011
Um microconto, do livro inédito Tesselário (Reprise)
XXXII. JOÕES.
Parecia-lhe impossível a execução do plano: como poderia um simples personagem agir fora dos limites impostos pelo autor? Como saltar da ficção para a realidade? E não fora fácil tomar aquela decisão. Entre a amolação da faquinha e aquele momento, travara-se uma batalha infernal entre a parte boa e a podre da sua consciência. Um maioral dentro dele. Por fim, ei-lo ali. O escritor, pasmo:
— Epa, João. Que fazes aqui?!
Merecido espanto. Então se dava ao prazer de expô-lo nas mais diversas tragédias, estripando a mulher, estuprando mulheres, estragando os filhos, estocando o amante da cadela... Brandiu a faquinha, quase já roçando a cara do escritor.
— Que merda é essa, João? Sou teu criador. Sou Deus!
Orra, ainda por cima um herege. Bem merecido.
Chovia em Curitiba, gotas vermelhas pingavam das vestes.
10 de jan. de 2011
Quimera
Filhote, o meu cachorro filosófico, foi logo dando palpite:
— Não entra nessa que é roubada. Pelo brilho do olho esquerdo, essa aí tem pra mais de quarenta filhos.
Aceitei o conselho do Filhote com os ouvidos mas o coração não quis saber: corri pra cima da mulher. Para impressioná-la, passei antes na biblioteca. Peguei meia dúzia de clássicos, que sempre dão melhor resultado.
Quando ela me viu com os livros brotando feito flores das mãos, se abriu toda sorrisos.
— Li todos eles pra você, meu amor — eu disse, os olhos faiscando sacanagem. — Que tal?
O sorriso ganhou uma súbita expressão séria. Filhote, filosófico, arrematou:
— Eta porra!
— Não pense que me entrego por essa mera literaturazinha — ela falou. — Pra me ganhar o buraco é mais embaixo!
Disse isso e se virou, resoluta. Uma mulher que despreza os clássicos é maluca. Ou merece respeito e atenção. Por isso observei-lhe o rabo: três pontas descascadas.
— É normal — sentenciou Filhote.
— Graças a Deus — falei. — Vamos beber a isso!
Filhote não gostou muito da idéia.
— Mas é só gasolina, filho! — eu justifiquei.
Ele abaixou as orelhas, enfiou o rabo entre as pernas e perguntou:
— Você promete que é uma só? Uminha só?
Saímos do posto de gasolina às quatro e meia da manhã, os arrotos potentíssimos lançando chamas a centenas de metros.
Eu vendia, como já disse, pterodátilos no supermercado quando vi a mulher pela segunda vez: linda, os cabelos avermelhados esvoaçando das ventas, quase três metros de vertigem.
Filhote, os bigodes ainda chamuscados pelas labaredas da noitada anterior, resolveu bancar a minha consciência:
— Larga mão, sô! Isso aí não é mulher, é o diabo que veio pra te aporrinhar. Como ela mesma disse, o buraco é mais embaixo. Vai encarar?
Mulheres difíceis é que valem a pena, pensei, principalmente quando precisamos usar uma escada para lhes alcançar o pescoço fino para um beijo fugaz. Assim era ela, com seus quarenta filhos ou não. E assim estava eu: torto, os quatro pneus e o torso arriados, a garganta seca implorando por mais gasolina.
— Nem pensar! — protestou Filhote. — Ela não vale tamanha humilhação.
Fiquei olhando o cachorro, penalizado: nem mesmo toda a filosofia do mundo o fizera mais sensível. Decerto mantinha um bloco de mármore no lugar do coração. E sua boca jamais provara a voltagem de um genuíno beijo de amor. Seus olhos eram incapazes de enxergar a paixão: em quem eu via céu ele só encontrava tempestade.
— Ora, pois, meu querido Filhote — eu disse. — Enfia a tua filosofia no rabo que eu quero mesmo é pandegar!
— Depois não diga que eu não avisei...
A prudência, ah!, a prudência. Por isso é que o Filhote não passa de um cão filosófico solitário: prudência demais. Corresse um pouco mais de risco e viveria melhor. Mais feliz, pelo menos, que esse negócio de filosofia pura corrói o fígado e os miolos. É a cachaça da alma, um ácido do espírito.
E ácido por ácido eu prefiro o LSD que o bafo dela exala. Ela é uma mulher envolvente, sim, e não digo isso pelo fato da moça ter quatro braços. Nem me abraçar ainda ela abraçou, porque o buraco, segundo suas próprias palavras, é mais embaixo. Mas eu sei que o momento do abraço vai ser sublime, o momento do beijo. É nisso que se baseia toda a minha vida hoje: nos momentos futuros que terei ao seu lado. Os carneiros que trafico na igreja garantem a minha subsistência mas o meu prazer vem de outras fontes. E agora cismei que a fonte primeira de todos os meus delírios gozosos é ela, que é linda, os cabelos amarelos cheirando a capim, três metros e meio de loucura.
Os automóveis e crocodilos mostravam reverência e uma ponta de inveja à minha passagem: lá vai um apaixonado, eu pensava que eles pensavam. E decerto pensavam mesmo, porque tudo em mim cheirava como o jasmim da paixão: desde os cascos até o olhar, que iluminava de cor as sombrias ruas em linha reta da vida comum.
Sob os óculos que a minha condição de futuro amante me colocara sobre os olhos eu via agora um mundo todo novo: os edifícios circulares, as avenidas ascendendo em direção ao céu, as curvas azuis do vento. Mesmo as pessoas, que sempre me olhavam com reserva e desconfiança, ensaiavam sorrisos e acenos, exibiam um discreto menear de cabeça, o desconcertante sussurrar de palavras de apoio e incentivo que eu jamais ouvira antes. Houvesse no mundo mais apaixonados como eu e a vida seria bem melhor.
Para que tudo isso se concretizasse, porém, faltava o principal: encontrá-la. O buraco mais embaixo, ou em cima, foda-se, isso era fácil. O Grande Arquivo Universal da Conquista Amorosa está aí há milênios e só não o consulta quem não quer.
Navegando na mesma freqüência dos meus pensamentos, um senhor baixo, cego, cuja boca era um acidente medonho na geografia do rosto, se apresentou com a solução dos meus problemas:
— A mulher que você procura, cinco ou seis metros de beleza incomum, os pelos cubistas, sei muito bem onde ela está.
Nunca vendi porra nenhuma na vida, como já disse. Por isso mesmo é que sei que na minha profissão o que mais se vê é picaretagem, gente desqualificada que abusa dos bons sentimentos dos incautos para conseguir vantagens pessoais. A mim impressionou muito o fato do homem surgir do vento e descrever quase à perfeição a minha amada. Para saber se o sujeito falava mesmo a verdade, perguntei ainda:
— O que ela guarda às costas?
— Um par de asas translúcidas — falou ele prontamente.
Bati com a mão aberta à testa, uma pancada tão forte que por instantes a cidade mergulhou em trevas. Ninguém no mundo a não ser eu (e Filhote, minha testemunha particular) poderia descrevê-la tão bem! Quando as nuvens escuras se afastaram dos meus olhos eu fiz a pergunta óbvia. Os olhos vazios do homem derramaram a resposta, límpida e sonora:
— Na biblioteca. Vai encontrá-la na biblioteca.
Claro. Por que eu não tinha pensado nisso antes?
Na escadaria da biblioteca encontrei Filhote escondido atrás de uma hiena, a pata direita estendida sobre um chapéu que pedia esmolas.
— Porque filosofia alimenta o espírito mas não enche a barriga de ninguém — justificou enquanto eu entrava no meu sonho, o coração já aos trancos por antecipação.
Intuí o seu endereço logo de cara: terceiro corredor, esquerda, prateleira de mitologia. Entre o Minotauro e o Dragão, coberta de poeira, lá estava ela, a Quimera. A minha Quimera.
Embora estivesse diante de tudo o que eu sempre quis, me senti decepcionado. Era ela, sim, mas faltava-lhe algo. Faltava-lhe tudo. Faltava-lhe a materialidade. As carnes, os peitos. Algo concreto no qual eu pudesse descansar o meu esqueleto. Faltava-lhe a bunda, caramba, que desde sempre tem sido o porto seguro para os machos da minha espécie e de outras mais.
A mulher que eu tinha diante dos olhos era só uma figura impressa, de cores desbotadas, uma ilha cercada de palavras por todos os lados. Pra me ganhar o buraco é mais embaixo, ela dissera, e agora eu sabia o quanto. Aliás, dissera mesmo? Em algum momento cheguei de fato a vê-la? Linda, mulher mesmo ou pura alucinação?
Seres mitológicos não são dignos de crédito, eu sempre soube. Mas é o abismo entre o saber e o acreditar que os torna tão reais.
— O senhor não pode permanecer neste recinto.
Virei lentamente o torso, mantendo as patas fincadas com firmeza no chão.
— Por que não? — perguntei, um segundo antes de constatar que quem me falava de maneira tão autoritária era o sujeito de boca murcha.
— Seres imaginários não são admitidos nesta biblioteca — ele respondeu, os olhinhos sem brilho exibindo uma satisfação nem um pouco secreta.
— Faça então o que deve — eu disse, o meu rabo balançando com um descompromisso admirável.
Saímos os dois de volta à rua, deixando para trás a minha Quimera e os sonhos tantos que me ocuparam e justificaram de maneira gloriosa a minha existência.
— Mulheres — eu disse —, jamais serão inteiramente nossas. Sempre isso: aparecem, acendem a chama da loucura e, quando mais as queremos, desaparecem no ar feito borboletas. Ou se metem entre as páginas dum livro que nunca poderemos ler.
— Umas ingratas — filosofou acertadamente Filhote, que se juntara a nós.
Quem nos via indo de encontro ao cinzento véu da noite(1) só conseguia perceber o mistério. Um homem cego de boca murcha, um cão filosófico e um centauro esvaziado de quimeras como eu dão mesmo o que pensar.
(1) O Barroco é que gostava de construções assim. Ou não.
9 de jan. de 2011
As entrevistas d'O BULE - Vale a pena ler de novo
Os Colunistas d'O BULE entrevistam...
Nelson de Oliveira
"Eu não acredito realmente que a literatura seja a arte do inútil. Mas conheço inúmeros indivíduos que acreditam. Pessoas práticas e atarefadas, boas em contabilidade e marketing, para quem tempo perdido é dinheiro perdido. (...)
"Sou contra a compartimentalização (também me foi difícil escrever essa palavra) dos diversos períodos de nossa literatura. É ainda comum estabelecer-se a geração de 30, a geração de 45, a geração de 60, mas em relação à poesia, com exceção da geração de 30, que deu alguns dos nossos maiores romancistas, a moderna, a pós-moderna. (...)
Não acho que a violência nos meus livros é assim tão escancarada. Eu diria rasgada. Pois a violência que se apresenta nos meus textos está do lado de dentro, ou seja, na alma e no entendimento dos personagens. Só rasgando a pele é que ela pode se desnudar. (...)
Não, não ganhei muito dinheiro. Ganhei dinheiro, mas não muito. Nada que pudesse me levar a abandonar meu salário de professor. Sou organizador, portanto o que recebo como royalties é uma parcela ínfima do que recebe um autor. (...)
Em relação à imbricação entre música e literatura, me parece que ela se faz notar, em meu trabalho, por meio de certa contagem interna de tempo, algo que, possivelmente, somente eu percebo, e só a mim, enquanto escritor, vai interessar. Quando redijo uma frase, por exemplo, naturalmente lhe confiro um ritmo, um andamento específico. (...)
Sou místico, sabe? Acredito em Borges. E aí eu sou obrigado a usar a tese dele, aquela que diz que existem autores (você esqueceu de Machado de Assis) que influenciam seus predecessores e, a partir daí, poderíamos inverter essa questão. Ou seja: o que existe nesses autores de Marcelo Mirisola? (...)
Agora é com você, leitor. Neste domingo, que tal uma entrevista?
Os Editores
6 de jan. de 2011
Vale a pena ler de novo: Um olhar nada acidental de "O único final feliz para uma história de amor é um acidente"
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"O único final feliz para uma história de amor é um acidente" Autor: João Paulo Cuenca Romance, Ed. Cia das Letras, 2010. |
Por Mauro Siqueira
Não fiz o álbum da copa, as minhas modas são outras. Adquiro o mais rápido que posso os
livros da coleção “Amores Expressos” – apesar de me faltar a figurinha nº2 – e os dois últimos lançados foram comprados juntos.
Então, não é nada acidental esse pequeno texto que aqui vai. A leitura de "O único final feliz para uma história de amor é um acidente", o mais recente livro de João Paulo Cuenca. Não sabia por onde começar a escrever esse... olhar sobre o livro – um título espetacular, diga-se de passagem. Gostei do livro, ponto. E não foi pouco.
Numa tentativa de sinopse de um livro plural, tento uma abordagem também plural pelos elementos que consegui destacar e de como foram trabalhados por João Paulo Cuenca e que repito, gostei.
Gostei do livro porque ele se afasta um pouco desse neorrealismo (tanto aquele que se sustenta numa estética da violência quanto aquele opta por estética da delicadeza) tão presente na nossa literatura hoje – não que eu desgoste dessa vertente, pelo contrário. Mas o livro de João Paulo Cuenca permite um vislumbre do processo de ficcionalização do cenário proporcionada através dos olhares de seus narradores – aliás, são narradores múltiplos no livro – como se verá. As possibilidades de narrar despregado do chão, aproximando-se da imaginação mais original, do delírio e do sonho – algo que não é inédito em sua obra –, só enriquece a experiência da mesma pelo leitor. Esse caráter onírico faz com que leiamos “O único final feliz...” conjecturando o que de imaginário poderá se apresentar nas páginas seguintes, pondo em dúvida não a narração, mas as palavras do narrador. Até que ponto as palavras do narrador principal do romance (outros chamaram novela) refletem o real de um Japão quase sem exotismo, já comum e conhecido, diferente daquele que o senso comum implantou em nós e que cada dia é atualizado com os elementos (trans) culturais das últimas décadas como, computadores, celulares, mangás, animes e por aí, numa lista enorme, que tipicamente do que é cognoscível como ocidental e assimilado como “oriental” retorna-nos com re-re-lido? Gostei de “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” porque ele é um livro que fala do olhar. Do olhar capaz de perceber os mínimos detalhes de Yoshiko, detalhes estes que fazem dela a boneca mais cara do Japão; os olhares dos fregueses do Abracadabar direcionados ao corpo de dimensões euclidianas da dançarina Kazumi; tão díspares àqueles dedicados à Iulana, a estrangeira romena, garçonete e amiga de quarto de Kazumi e que nos olhares escondidos nutre uma paixão velada pela dançarina; ou os olhares de Shunsuke (que trabalha numa empresa que fabrica filmes fotográficos numa era de máquinas digitais), que vê na gaijin, a estrangeira, tudo que não encontra nas japonesas, porém, não faz questão de esconder esse interesse a ninguém – para surpresa dos olhares dos seus conterrâneos mais tradicionais. Como o seu pai, o Sr. “Lagosta” Okuda, famoso poeta japonês, dono da boneca Yoshiko, e que mantém em segredo uma espécie de agência de espionagem, chamada apenas de “periscópio”, responsável por observar a todos quem o senhor Okuda exige. O periscópio é comandado pelo Sr. Suguro Shibata, que além de vigiar e reportar tudo da vida do filho ao Sr. Okuda, também é professor na "Associação do Fugu Harmonioso de Tsukijim", onde ensina a arte do corte do baiacu (ou fugu) sem que este preserve o seu veneno letal, ou seja, uma arte de saber reconhecer na carne esbranquiçada do peixe as partes venenosas das não venenosas.
E gostei ainda mais do tratamento dado ao “olhar” por um personagem insólito que surge quase ao final da narração: Gyodai. Isso mesmo, aquela criatura mono-ocular, gosmenta, cor de chiclete, do seriado estilo tokusatsu “Esquadrão Relâmpago Changemen”, do final dos anos 80, que ao final de cada episódio era o responsável por reviver o vilão, transformando-o numa criatura gigantesca, através do raio emitido por seu único olho. E, além disso, apesar de parecer ser só mais uma referência pop jogada no livro ou revelar um exagero ao recurso, o surgimento de Gyodai é importante, pois a partir da aparição da criatura que nos damos conta que a tensão da dualidade real x imaginário dos narradores é fundida e nunca existiu. Como? Leia o livro. Não quero adiantar mais detalhes da obra – mais do que já fiz e que ainda retomo em outra postagem.
Ademais, os personagens ainda se voltam às questões do olhar, seja sob o viés fetichista das partes anatômicas, lugares, gestos, relações e afins Seja numa descrição realista, porém não enumerativa do gesto e do foco sobre o mundo que rodeia as personagens, mas poética capaz de transformar até mesmo um acidente horrível num belo quadro em câmera lenta, somente capaz pela acuidade de olhar focalizado e bem real sobre o meio circundante.
Por ora, esse é o meu primeiro olhar sobre “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”.
O autor:
João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior, e é autor dos romances Corpo presente (Planeta, 2003) e O dia Mastroianni (Agir, 2007). João Paulo Cuenca tem um site oficial: www.jpcuenca.com
* Livros podem ser enviados a’O BULE para serem resenhados, cabendo aos editores d’O BULE a seleção. Tratar pelo email coisaprobule@yahoo.com.br
**Publicado originalmente em De VERMES & outros ANIMAIS rastejantes em 27/09/2010.
5 de jan. de 2011
Laura
Não importa, eu vou. Escalando as costas da tarde, que se precipita feito uma flecha em direção ao depois.
Porque assim tem sido desde sempre: logo cedo a questão me abraçou: você escolhe entre voltar, permanecer ou seguir. Não aprendi a voltar; permanecer é doloroso. Seguir, portanto. É o que tenho feito.
Cada segundo traz nos bolsos o mistério. A aspereza do oxigênio. O suor em chamas. O nome dela é Laura.
Foi num sonho. Laura era um susto. Não pude ver o seu rosto, o seu corpo. Névoa de sono. Mas sim, os sentidos todos apontando pra ela, a mulher.
Quando acordei toda a cama era um oceano. Peixes transparentes no ar. Na boca um gosto amargo de estrelas. Laura era fiapo de sonho, impalpável, mas já existia em mim.
Daí todos os meus dissabores.
- Laura, foi quando eu suava labaredas. No sonho, ela estava no sonho. Viu ela por aí?
Riam de mim. Esse o mal das pessoas: ninguém acredita nos sonhos alheios.
Minha única certeza era uma só. Nunca no meu passado, no meu presente de maneira confusa. Só depois, talvez. Laura só no futuro.
Por isso escalo os calendários com a determinação de um condenado. Não me cabe permanecer aqui. O desespero é hoje, nunca ontem. O sofrimento é agora.
Longa a estrada. Os gatos no caminho. Uma conversa esclarecedora.
- Não sei como ela é – dizem os gatos –, mas tenho amigos que moram lá, no depois. Falam de Laura, Lauras. Depois é cheio de Lauras.
Suspeito, portanto, de que estou no caminho certo. Um homem que acredita na palavra dos gatos. Talvez por escrever.
As primeiras letras também foram difíceis. Difícil subir ao caderno, acomodar-se às dobras das sílabas, domar consoantes. Porque no princípio toda palavra é vertigem. Como as mulheres. Desconhecido azul.
O rigor. Porque as palavras fogem à falta de rigor. Precisam de um braço para contê-las. De maneira que o meu aprendizado com as mulheres começou com as palavras.
Mas eis que agora me vejo aqui sem nenhuma delas. Há tempos não escrevo uma mulher. Laura é sabedora da minha condição. Por isso veio no sonho. Vapor-mulher, a direção que faltava aos meus pés.
Quanto mais avanço menos gatos eu vejo. Os poucos que ainda restam temem falar. Depois é um território nebuloso, eu sinto. Só os gatos mais corajosos chegam lá. Só os homens mais corajosos se dispõem a chegar lá. Depois. Laura não está. Laura é lá.
Econômica a minha paisagem. Uma estrada, só, uma tempestade de girassóis do lado direito, do esquerdo os cardumes: peixes azuis amarelos pretos, tantos peixes – e não dão a mínima para os gatos.
- Não como os peixes sonhados pelos homens – diz um gato amarelo. – Não tenho essa capacidade.
Sonhos particulares. Cai por terra a minha teoria de que os sonhos pertenciam a todos. Não pertencem aos gatos, pelo menos.
- Os nossos são de outra natureza – dizem os gatos verdes. – Basta um sonho de gato para o seu mundo sair do eixo.
O meu mundo saiu do eixo desde que sonhei com Laura. Seria o meu, então, um sonho de gato?
- Só um gato sonha sonhos de gato – dizem os gatos azuis. – Eis aí uma questão a ser considerada.
Vejo Laura pela primeira vez, finalmente. Está ao alcance da minha mão. E ela não é mais névoa, nem sonho.
- Mas você não pode me tocar – ela diz, o sorriso tranqüilo no rosto.
Estendo meu braço e o que encontro na extremidade é uma pata de gato. Meu braço é um gato. Eu sou o gato.
- É por isso? – protesto. – Não sou um gato, não era até há pouco. Estou gato, e isso é diferente!
Laura sorri. Todo o meu trabalho foi inútil. A minha caminhada. Malditos gatos! E agora de nada me adiantam as palavras, são vento.
- Tanto faz pra mim se você está gato ou elefante – ela diz, a voz serena. – Você nunca vai me alcançar.
A tempestade de girassóis. Os cardumes. Laura é o caos.
- Agora – diz Laura, os lábios sorrindo sílaba por sílaba. – Você é agora. Percebe?
Nenhum gato mais. Somos apenas eu e ela.
- Eu sou agora.
- E eu, depois – ela diz.
- Por mais longe que eu vá, serei sempre agora.
- Depois é a minha maldição.
O universo tem essas cápsulas que separam as coisas, as pessoas. Não posso alcançar o ontem.
Laura é névoa mais uma vez. Sempre será. Mas não aprendi a voltar; permanecer é doloroso. Sigo, portanto.
30 de dez. de 2010
Última Chance
VALE A PENA LER DE NOVO.
Por Mauro Siqueira
Última chance. É só o que consigo pensar: última chance... última chance... última chance... uma locomotiva anunciando a última saída, a chance que tenho de embarcar, ela já no trem sem olhar para trás; corro pela plataforma de mão estendida, tentado alcançar qualquer coisa para me agarrar a ele... a ela.
Eu sei que amanhã ela vai achar tudo isso um erro, vai sentir nojento tudo que se dará e sentirá quase-agora – seus olhos nunca mentiram, e já até vejo: ela irá tomar um banho: um banho quente, muito quente, do jeito que não gosta. Abrindo todos os poros da pele maculada; vai se esfregar com força a esponja no corpo, querendo se limpar, limpar-se de mim, cada leve contato, cada forte lembrança (um véu). Ela vai sentir raiva. Como nunca sentiu. E qualquer coisa que eu faça, qualquer coisa que eu possa tentar fazer para que esta noite permaneça terá sido inútil diante do dia em que lhe dei as costas pelo efêmero.
Talvez.
Hoje eu vou contar com a sorte para inverter clichês.
Ela nunca me perdoou. Então esse é o nome do trem que tenho que agarrar: desespero – a última chance. Eu tenho de consertar o que eu fiz, colar cacos (ainda que cole, será o mesmo vaso?). Hoje sei que sempre foi ela. Um pouco tarde, certamente. Sinto-me oco. Dentro de mim... vago espectro pela remissão, buscando consolo nos lábios, colos alheios, sugando algo que elas não têm para oferecer... virei um estranho íncubo. (Viver faz mal). Mas com ela, corpo reconstruído, restaurado, estilhaços que era não mais. Com ela meu fingimento dura pouco: sou autêntico.
Em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui, uma saudade (uma dor dela), mas está claro no seu corpo que será só isso: nostalgia (catarse de fato dessa dor, está curada...). Não poderei dizer no seu ouvido, olhando nos olhos dela, que a amo, se não, nem essa nostalgia vou ter, e ela passará por aquela porta. Ouço o apito da locomotiva...
...última chance, última chance, última chance... uma locomotiva anunciando a última saída.
Ela não me deu escolhas a não ser de eu trocar os móveis de lugar e estar aqui (em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui), num motelzinho de 29,90 por 4 horas, fazendo amor com ela e com camisinhas que furei enquanto a olhava acariciar o braço pelo espelho, na esperança desesperada de uma gravidez indesejada.
Hoje, hoje eu vou inverter clichês.