30 de dez. de 2010

Última Chance

Dezembro, mês de férias, rabanada e um pouquinho de vida off line. Então, para não deixarmos você na mão, caro leitor d'O BULE, separamos alguns textos já publicados aqui ou em nossos outros espaços. Se ainda não leu, ótimo; se leu...

VALE A PENA LER DE NOVO.

Os Editores

Por Mauro Siqueira

ÚLTIMA CHANCE. Daqui posso vê-la do espelho: acaricia uma das costas do próprio braço, como que tímida, estranha por estar ali... ela ainda parece decidir, fazer parecer sensato. Eu não posso demorar, não posso deixar que aquela sombra ganhe corpo, sentido. Dúvida é a sombra, algo além do categórico, algo palpável: um véu, que apesar de fino e translúcido e mínimo, uma barreira intransponível entre nós. A dúvida: o limite.

Última chance. É só o que consigo pensar: última chance... última chance... última chance... uma locomotiva anunciando a última saída, a chance que tenho de embarcar, ela já no trem sem olhar para trás; corro pela plataforma de mão estendida, tentado alcançar qualquer coisa para me agarrar a ele... a ela.

* * * * *

Corro a mão pelo seu corpo por mais uma vez...

Eu sei que amanhã ela vai achar tudo isso um erro, vai sentir nojento tudo que se dará e sentirá quase-agora – seus olhos nunca mentiram, e já até vejo: ela irá tomar um banho: um banho quente, muito quente, do jeito que não gosta. Abrindo todos os poros da pele maculada; vai se esfregar com força a esponja no corpo, querendo se limpar, limpar-se de mim, cada leve contato, cada forte lembrança (um véu). Ela vai sentir raiva. Como nunca sentiu. E qualquer coisa que eu faça, qualquer coisa que eu possa tentar fazer para que esta noite permaneça terá sido inútil diante do dia em que lhe dei as costas pelo efêmero.

Talvez.

Hoje eu vou contar com a sorte para inverter clichês.

Ela nunca me perdoou. Então esse é o nome do trem que tenho que agarrar: desespero – a última chance. Eu tenho de consertar o que eu fiz, colar cacos (ainda que cole, será o mesmo vaso?). Hoje sei que sempre foi ela. Um pouco tarde, certamente. Sinto-me oco. Dentro de mim... vago espectro pela remissão, buscando consolo nos lábios, colos alheios, sugando algo que elas não têm para oferecer... virei um estranho íncubo. (Viver faz mal). Mas com ela, corpo reconstruído, restaurado, estilhaços que era não mais. Com ela meu fingimento dura pouco: sou autêntico.

Em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui, uma saudade (uma dor dela), mas está claro no seu corpo que será só isso: nostalgia (catarse de fato dessa dor, está curada...). Não poderei dizer no seu ouvido, olhando nos olhos dela, que a amo, se não, nem essa nostalgia vou ter, e ela passará por aquela porta. Ouço o apito da locomotiva...

...última chance, última chance, última chance... uma locomotiva anunciando a última saída.

Ela não me deu escolhas a não ser de eu trocar os móveis de lugar e estar aqui (em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui), num motelzinho de 29,90 por 4 horas, fazendo amor com ela e com camisinhas que furei enquanto a olhava acariciar o braço pelo espelho, na esperança desesperada de uma gravidez indesejada.

Hoje, hoje eu vou inverter clichês.