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16 de jan. de 2011

Vale a pena ler de novo: Office 2010


As férias d'O BULE estão acabando e para encerrar a parte da minha retrospectiva, um conto sobre escritório. (No domingo, só para lembrar que amanhã é segunda-feira).

VALE A PENA LER DE NOVO

Por Mauro Siqueira

Brigaram feio.
Uma discussão daquelas de despertar os vizinhos do lado, mas só ela quem falou – cabeças ergueram-se das baias... No final, o teclado mero periférico: exasperava-se pelo headset. Seria um cliente? Se fosse seria demitida na hora. Seria de ordem pessoal?, uma advertência formal no horizonte. Ailiane gritava, apontava e gesticulava como se na frente do namorado de fato e de direito estivesse. Foi necessária a intervenção da sua supervisora para contê-la – ela parara a produção que nunca pode parar. Uma infinitude de potenciais clientes, cobranças, promoções, concursos, helpdeskers, suporte, consultoria, aconselhamento espiritual, “ligue agora: zero-onze,catorze-zero-meia” de serviços para oferecer interrompidos com sua estranha atitude. À supervisora da tarde, bastou tocar-lhe o ombro e Ailiane entendeu o teatro das atenções que virara (alguém no fundo filmava pelo celular), calou-se um segundo ou dois, respirou fundo, tirou os fones do ouvido, mas não sem antes enfatizar numa voz caps lock de ser “Chega, acabou. Você não existe mais pra mim: vou tirar você da minha existência” bem perto do pequeno microfone.

(alguém no fundo do escritório, timidamente, aplaudiu).
No banheiro, podia ouvir a sinfônica de blips e trims e vozerio das centrais telefônicas e seu títeres; ainda estava exausta, o rosto lavado e ainda um pouco úmido; na mão, a folha azul-bebê – fora mesmo advertida. Olhou bem para si no espelho. Era bonita, saudável e educada. A plaquinha de latão com o seu nome: Ailiane – atendente sênior II – em helvética tipo 12 –em breve poderia se candidatar a supervisoria da sua seção, "Mais quinhentos clientes, Senhor, míseros quinhentos míseros aposentados loucos por um empréstimo que não precisam!"

Encheu-se de orgulho, estufou o peito, secou o rosto, passou mais um pouco de batom e tirou o excesso no papel azul da advertência. “Chega, acabou. Você saiu da minha vida Simon”, repetiu. Foi direto para a baia THX-1138, apenas olhando em frente, seca. Retomou o trabalho automaticamente e todos pareceram não se importar com ela desde que voltara do banheiro – a impressão que dava, era que nada demais tinha acontecido, já estavam todos absortos pelo lcd-hipnose de seus monitores. Ao menos um estava desperto, o “morador” da baia LHC-010 a sua esquerda, ergueu-se lentamente e olhou para Ailiane, balbuciou alguma coisa, ela não ouviu ou não quis tomar conhecimento do gesto, manteve-se fiel ao que fazia no teclado: digitou uma proxy conhecida para burlar a restrição do seu Orkut, Facebook, Twitter, MSN e mais uma infinidade de sites. Em cada um deles foi deletando, excluindo, bloqueando o usuário Sim_82, seu namorado, o habitante da baia LHC-010, aquele a sua esquerda, ignorado sumariamente há minutos, e motivo do seu ataque o mesmo ataque que à noite já estaria upado no youtube, por algum dos amigos do trabalho - "Qual celular a teria gravado? Um iPhone, quem sabe..." E a cada janela que pulava na frente de Ailine perguntando: “Deseja mesmo excluir este usuário?”, ela sem aflição alguma, simultaneamente apertava o “Sim” da morte de Simon repetindo baixinho: “Tirei você da minha existência; “Sim”. “Tirei você da minha existência...” “Sim...”

Ailiane repetiu a frase 54 vezes (só naquele dia), ainda era segunda-feira.


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Este conto é um versão resumida e apócrifa do conto Favos de escritório & baias de colmeia pertencente ao meu segundo livro, previsto para 2011.

6 de jan. de 2011

Vale a pena ler de novo: Um olhar nada acidental de "O único final feliz para uma história de amor é um acidente"

As férias d'O BULE estão acabando e para encerrar parte da nossa retrospectiva, entregamos para você leitor a resenha de um dos livros mais comentados do segundo semestre de 2010.
Se ainda não leu, ótimo; se leu...

VALE A PENA LER DE NOVO.

Os Editores

"O único final feliz para uma história de amor é um acidente"
Autor: João Paulo Cuenca
Romance, Ed. Cia das Letras, 2010.

Por Mauro Siqueira

Não fiz o álbum da copa, as minhas modas são outras. Adquiro o mais rápido que posso os
livros da coleção “Amores Expressos” – apesar de me faltar a figurinha nº2 – e os dois últimos lançados foram comprados juntos.
Então, não é nada acidental esse pequeno texto que aqui vai. A leitura de "O único final feliz para uma história de amor é um acidente", o mais recente livro de João Paulo Cuenca. Não sabia por onde começar a escrever esse... olhar sobre o livro – um título espetacular, diga-se de passagem. Gostei do livro, ponto. E não foi pouco.
Numa tentativa de sinopse de um livro plural, tento uma abordagem também plural pelos elementos que consegui destacar e de como foram trabalhados por João Paulo Cuenca e que repito, gostei.
Gostei do livro porque ele se afasta um pouco desse neorrealismo (tanto aquele que se sustenta numa estética da violência quanto aquele opta por estética da delicadeza) tão presente na nossa literatura hoje – não que eu desgoste dessa vertente, pelo contrário. Mas o livro de João Paulo Cuenca permite um vislumbre do processo de ficcionalização do cenário proporcionada através dos olhares de seus narradores – aliás, são narradores múltiplos no livro – como se verá. As possibilidades de narrar despregado do chão, aproximando-se da imaginação mais original, do delírio e do sonho – algo que não é inédito em sua obra –, só enriquece a experiência da mesma pelo leitor. Esse caráter onírico faz com que leiamos “O único final feliz...” conjecturando o que de imaginário poderá se apresentar nas páginas seguintes, pondo em dúvida não a narração, mas as palavras do narrador. Até que ponto as palavras do narrador principal do romance (outros chamaram novela) refletem o real de um Japão quase sem exotismo, já comum e conhecido, diferente daquele que o senso comum implantou em nós e que cada dia é atualizado com os elementos (trans) culturais das últimas décadas como, computadores, celulares, mangás, animes e por aí, numa lista enorme, que tipicamente do que é cognoscível como ocidental e assimilado como “oriental” retorna-nos com re-re-lido? Gostei de “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” porque ele é um livro que fala do olhar. Do olhar capaz de perceber os mínimos detalhes de Yoshiko, detalhes estes que fazem dela a boneca mais cara do Japão; os olhares dos fregueses do Abracadabar direcionados ao corpo de dimensões euclidianas da dançarina Kazumi; tão díspares àqueles dedicados à Iulana, a estrangeira romena, garçonete e amiga de quarto de Kazumi e que nos olhares escondidos nutre uma paixão velada pela dançarina; ou os olhares de Shunsuke (que trabalha numa empresa que fabrica filmes fotográficos numa era de máquinas digitais), que vê na gaijin, a estrangeira, tudo que não encontra nas japonesas, porém, não faz questão de esconder esse interesse a ninguém – para surpresa dos olhares dos seus conterrâneos mais tradicionais. Como o seu pai, o Sr. “Lagosta” Okuda, famoso poeta japonês, dono da boneca Yoshiko, e que mantém em segredo uma espécie de agência de espionagem, chamada apenas de “periscópio”, responsável por observar a todos quem o senhor Okuda exige. O periscópio é comandado pelo Sr. Suguro Shibata, que além de vigiar e reportar tudo da vida do filho ao Sr. Okuda, também é professor na "Associação do Fugu Harmonioso de Tsukijim", onde ensina a arte do corte do baiacu (ou fugu) sem que este preserve o seu veneno letal, ou seja, uma arte de saber reconhecer na carne esbranquiçada do peixe as partes venenosas das não venenosas.

E gostei ainda mais do tratamento dado ao “olhar” por um personagem insólito que surge quase ao final da narração: Gyodai. Isso mesmo, aquela criatura mono-ocular, gosmenta, cor de chiclete, do seriado estilo tokusatsu “Esquadrão Relâmpago Changemen”, do final dos anos 80, que ao final de cada episódio era o responsável por reviver o vilão, transformando-o numa criatura gigantesca, através do raio emitido por seu único olho. E, além disso, apesar de parecer ser só mais uma referência pop jogada no livro ou revelar um exagero ao recurso, o surgimento de Gyodai é importante, pois a partir da aparição da criatura que nos damos conta que a tensão da dualidade real x imaginário dos narradores é fundida e nunca existiu. Como? Leia o livro. Não quero adiantar mais detalhes da obra – mais do que já fiz e que ainda retomo em outra postagem.
Ademais, os personagens ainda se voltam às questões do olhar, seja sob o viés fetichista das partes anatômicas, lugares, gestos, relações e afins Seja numa descrição realista, porém não enumerativa do gesto e do foco sobre o mundo que rodeia as personagens, mas poética capaz de transformar até mesmo um acidente horrível num belo quadro em câmera lenta, somente capaz pela acuidade de olhar focalizado e bem real sobre o meio circundante.
Por ora, esse é o meu primeiro olhar sobre “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”.

O autor:
João Paulo Cuenca nasceu no Rio de Janeiro, em 1978. Participou de diversas antologias no Brasil e no exterior, e é autor dos romances Corpo presente (Planeta, 2003) e O dia Mastroianni (Agir, 2007). João Paulo Cuenca tem um site oficial: www.jpcuenca.com


* Livros podem ser enviados a’O BULE para serem resenhados, cabendo aos editores d’O BULE a seleção. Tratar pelo email coisaprobule@yahoo.com.br

**Publicado originalmente em De VERMES & outros ANIMAIS rastejantes em 27/09/2010.

30 de dez. de 2010

Última Chance

Dezembro, mês de férias, rabanada e um pouquinho de vida off line. Então, para não deixarmos você na mão, caro leitor d'O BULE, separamos alguns textos já publicados aqui ou em nossos outros espaços. Se ainda não leu, ótimo; se leu...

VALE A PENA LER DE NOVO.

Os Editores

Por Mauro Siqueira

ÚLTIMA CHANCE. Daqui posso vê-la do espelho: acaricia uma das costas do próprio braço, como que tímida, estranha por estar ali... ela ainda parece decidir, fazer parecer sensato. Eu não posso demorar, não posso deixar que aquela sombra ganhe corpo, sentido. Dúvida é a sombra, algo além do categórico, algo palpável: um véu, que apesar de fino e translúcido e mínimo, uma barreira intransponível entre nós. A dúvida: o limite.

Última chance. É só o que consigo pensar: última chance... última chance... última chance... uma locomotiva anunciando a última saída, a chance que tenho de embarcar, ela já no trem sem olhar para trás; corro pela plataforma de mão estendida, tentado alcançar qualquer coisa para me agarrar a ele... a ela.

* * * * *

Corro a mão pelo seu corpo por mais uma vez...

Eu sei que amanhã ela vai achar tudo isso um erro, vai sentir nojento tudo que se dará e sentirá quase-agora – seus olhos nunca mentiram, e já até vejo: ela irá tomar um banho: um banho quente, muito quente, do jeito que não gosta. Abrindo todos os poros da pele maculada; vai se esfregar com força a esponja no corpo, querendo se limpar, limpar-se de mim, cada leve contato, cada forte lembrança (um véu). Ela vai sentir raiva. Como nunca sentiu. E qualquer coisa que eu faça, qualquer coisa que eu possa tentar fazer para que esta noite permaneça terá sido inútil diante do dia em que lhe dei as costas pelo efêmero.

Talvez.

Hoje eu vou contar com a sorte para inverter clichês.

Ela nunca me perdoou. Então esse é o nome do trem que tenho que agarrar: desespero – a última chance. Eu tenho de consertar o que eu fiz, colar cacos (ainda que cole, será o mesmo vaso?). Hoje sei que sempre foi ela. Um pouco tarde, certamente. Sinto-me oco. Dentro de mim... vago espectro pela remissão, buscando consolo nos lábios, colos alheios, sugando algo que elas não têm para oferecer... virei um estranho íncubo. (Viver faz mal). Mas com ela, corpo reconstruído, restaurado, estilhaços que era não mais. Com ela meu fingimento dura pouco: sou autêntico.

Em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui, uma saudade (uma dor dela), mas está claro no seu corpo que será só isso: nostalgia (catarse de fato dessa dor, está curada...). Não poderei dizer no seu ouvido, olhando nos olhos dela, que a amo, se não, nem essa nostalgia vou ter, e ela passará por aquela porta. Ouço o apito da locomotiva...

...última chance, última chance, última chance... uma locomotiva anunciando a última saída.

Ela não me deu escolhas a não ser de eu trocar os móveis de lugar e estar aqui (em algum lugar, ela ainda me guarda. E foi isso que a trouxe aqui), num motelzinho de 29,90 por 4 horas, fazendo amor com ela e com camisinhas que furei enquanto a olhava acariciar o braço pelo espelho, na esperança desesperada de uma gravidez indesejada.

Hoje, hoje eu vou inverter clichês.

16 de dez. de 2010

Mitologias

Por Mauro Siqueira

A ingente máquina robótica desceu dos céus bem no meio da Quinta Avenida, próximo ao Central Park. O mundo assistiu à cena com tédio. Repetição. Indiferença. E ninguém acreditou mesmo que aquilo era real. “É mais um filme de Hollywood?”, perguntou uma turista russa com sotaque afetado ao dono da barraca de cachorro-quente, iraquiano emigrado. “Grandes chances de ser… Põe cebola, mostarda?”. “Nem foto vou bater, não vale os meus megabytes e estou com pouco espaço no iPhone…”, retrucou um terno que passava com um amigo de polo. E os mais variados comentários sobre o gigante circularam por toda a cidade… nos sete minutos seguintes. Por dias, o colosso ficou estático, emitindo zunidos, sons de engrenagens, alguns pontos do seu corpo soltavam vapores e fumaça. Mas só. Era como se descansasse. Quase não mais o percebiam: já parte da paisagem; nem mais pássaros ou aviões desavisados colidiam em seu tronco de maciço cobre. Há-de se confessar que as imagens feitas pelos satélites do Doodle® eram interessantes: entre as nuvens e pássaros migratórios, terraços dos edifícios, copas das árvores, erigia-se monumental ser tantálico a tocar os estratos. A sombra criada pela criatura colossal era tão colossal a ponto de criar uma pequena e perpétua célula de noite – como dizem os aedos e os mais velhos nos seus relatos. Muitos começaram a duvidar tratar-se de filme, uma extravagante ação de marketing? Talvez; não seria novidade. O robô voltava a ter algum interesse – mas não muito…

E então, depois de um ano e treze minutos, se mexeu.

O ranger da perna esquerda, outrora dormente, ressoou por entre os prédios estilhaçando janelas ao se levantar para o primeiro passo; os braços em consonância, varrendo fiações, postes em seu caminho, os olhos brilhantes ganharam vida em múltiplas cores escaneando o ambiente: uma sinfonia de horrores… ante os primeiros sinais de vida do robô, não pareceu despertar a população para o fato associável a presença da gigante metálico: aniquilação. Caminhar sobre as pessoas, esmagando-as no seu caminho não parece ter sido o suficiente; junto dos carros diminutos, agora chutados em várias direções; raios laser disparados de suas órbitas argentas e dedos de titânio rasgavam as construções-papel-machê, que se tornaram os arranha-céus da cidade; nova iorquinos do mundo inteiro eram cauterizados a reboque. E não se ouvia um grito. E não se sentia o medo, o pavor. Nem assim a população despertou para aquela invasão, uma tragédia iniciada. “Nossa, como esses efeitos 3-D são reais…”, alguém ainda cria ser um filme, “É, talvez esse eu veja no cinema e não só na internet.”, “Acho que agora algumas fotos podem ser interessantes…”.

Dizem os jornais da época que foi um cachorro ladrando diante da gigantesca criatura que denunciou o talante de seus atos e, assim, deram-se conta da realidade. Como? Não sabemos. As primeiras reações à magnífica destruição ainda não avultava para a desdita de proporções épicas que viria dar cabo de todos. Apenas que, após o fato (e o sacrifício canino), as autoridades moveram-se e sobre a cidade: tanques, navios, aviões e toda sorte de força coercitiva foi enviada para conter os avanços do terrível maquinário.

Nova Iorque sucumbiu em três dias. Algo maior deveria ser feito.

Países inimigos tornaram-se amigos, povos com rivalidades históricas passaram por cima das embaçadas razões e juntaram forças contra o mal comum. Vigílias com todas as religiões, crenças e deidades iniciaram-se por todos os lugares e rincões do planeta, esforços de toda sorte por todas as partes: as pessoas não abandonavam a esperança. Vancouver, Montreal, Chicago, Los Angeles, Cidade do México, Havana: caíram em cinco dias.
Por unanimidade, na primeira reunião das nações em Teguciglapa, a escravidão foi reimplantada mundialmente e todos aplaudiram de pé – as fábricas não podiam interromper a produção de armas contra o grande robô; mulheres eram pagas para engravidar e darem à luz em cinco meses – havia filas para inseminação – senhoras de 60, 70 e até 90 anos sendo novamente mães, mães que nunca veriam os filhos, filhos feitos para a guerra, que em quatro meses após a bélica concepção, graças à engenharia genética, estariam com a idade de 15 anos e aptos para lutar – e só.
Caracas, Bogotá, Quito, Santiago caíram em um dia.
Buenos Aires em quinze minutos.

A Guerra Una, como ficou conhecida o conflito contra o robô (e que nunca se buscou saber as origens e motivações do colosso), só cessaria com o último homem capaz de empunhar um rifle ou uma pedra. Não foi necessário, em apenas 85 anos, nós vencemos. Após doze anos de cerco no Canal da Mancha, o robô desabou sobre o solo francês – demorou duas horas inteiras para cair por completo. Na queda obliterou a Bélgica, Luxemburgo e partes da própria França e Alemanha. O planeta comemorou por três anos inteiros e a certa altura alguém perguntou: “O que diabos estamos comemorando?”, como mais ninguém se lembrava ao certo, todos foram para casa. A primeira criança nascida após a Guerra Una não vingou; nem a segunda, ou a terceira ou a décima quinta… somente a septingentésima nona – uma menina chinesa – sobreviveu, os pais chamaram-lhe, então, “Segunda” em homenagem a primeira tentativa do casal.

Dos despojos do robô (o qual nunca se buscou saber as origens e motivações do colosso), começaram a serem disputados pelos governos remanescentes do planeta, todos queriam descobrir seu funcionamento, possíveis usos e segredos, jogando o mundo em mais 20 anos de batalhas e escaramuças. O levante das megapotências lideradas pela aliança Botswana-Zaire venceram o Brasil no embate pela hegemonia mundial. Ao cabo de poucas análises do magnífico maquinário, descobriu-se que não havia nada de espetacular em sua criação – na verdade nem derrotado fora, mas sim ficara sem energia – algumas milhares de placas solares e pilhas alcalinas tamanho AAA – daquela mesma marca do coelhinho – e que na queda, partiu-se em várias partes, e mais: fora construído numa fábrica suja na antiga Indonésia a mando do governo japonês e se o Japão ainda existisse seria destruído pelo acinte contra o mundo.

Hoje, aquelas mesmas partes disputadas pelas diversas nações, ornam parques e jardins pelo mundo afora, sem qualquer sinal da ameaça que representaram. E pouco se fala sobre esses tempos, àqueles que esquecerem a Una Guerra, recorrem a expedientes mais convencionais como velhos livros, periódicos, arquivos, fotos no Facebook e filmes de baixo orçamento feitos, na boca do lixo paulistana, com aquele efeito tão vintage de 3-D, para recomporem essa história quase esquecida e de pouco interesse comercial.

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Publicado originalmente em www.blooks.com.br

6 de dez. de 2010

Tudo nesse ritmo, de Mauro Siqueira

Dezembro, mês de férias, rabanada e um pouquinho de vida off line. Então, para não deixarmos você na mão, caro leitor d'O BULE, separamos alguns textos já publicados aqui ou em nossos outros espaços. Se ainda não leu, ótimo; se leu...

VALE A PENA LER DE NOVO.

Os Editores

Tudo nesse ritmo
Por Mauro Siqueira

...clamor docente me fazendo o favor de ter pensamentos intranquilos. A janela se avultava como uma deliciosa possibilidade de dezesseis andares. Nunca olhei para baixo – nem na vida – sem ficar zonzo, não: seduzido – esse é o termo, mas aquele clima fazia duvidar as minhas sensações do que se passava a minha volta. E se eu fosse uma barata? Ou outro animal rastejante qualquer, teria esse tipo de sensação? Se pintasse quadros, quadros que ninguém, além de mim, gostassem? Ou livros, ikebana, curling ou que guardasse carros? E daí?!
O professor por detrás dos óculos de tartaruga faz a pergunta. A turma a minha volta: manequins de camisaria de galerias em Copacabana, se olham e se negam, sonegam o que todos sabem: ataraxia. O professor também é manequim. (E se eu fosse uma barata?) Da outra sala, ouço outro esforço incolor: uma cega a gritar no deserto para uma caravana de estrábicos e astigmatas, rumo a uma tempestade. (Outra comédia a ser filmada por Hollywood.)
Ontem, assim sem querer, ela caiu no meu colo – uma barata. Cascuda e voadora. (Todas as baratas voam?) Era linda. Cinco, sete centímetros, o dorso achatado, de um castanho escuro brilhante, antenas curiosas. Andou pela minha mão. Fechei com força. Limpei o que ela se tornou na minha calça nova de marca. Ontem, assim sem querer, ela caiu no meu colo. Joana mais linda do que a última vez que nos vimos na despedida. Estava mais linda... talvez fosse a nova confiança que deixou ela tão altiva.
Ela não se assustou, eu sim.
Eu sim...
Não foram 3 minutos, mas relógios são inescrupulosamente sinceros; a percepção alterou e percebi os meus erros um a um.
(Não, não sei a razão dessa proposição, professor... irônico...)

***

E se eu fosse Platão? Não confiaria nos meus sentidos. Olho os buracos da minha calça sobre o tênis, a velha gorda do outro lado da estação do metrô lambe os dedos, também gordos, besuntados de açúcar. Era uma cena abjeta: duzentos quilos de banha e duzentos gramas de açúcar em perfeita harmonia. A cor da sua íris castanha de um castanho vermelho, brilhante, me lembrou uma barata, ainda se mantém na minha retina. Foram só 3 minutos.

***

Os dentes dele, do professor, me irritam. O silêncio dos manequins me irritam. E a janela ainda acena como possibilidade. Ela me diz que agora namora alguém-não-eu, com a cara daquele pirata afetado. E se eu fosse o Johnny Depp? O maldito do professor tem todos os dentes certos, em nível, mas e os caninos? Não tem ou são serrados. É um herbívoro, um maldito herbívoro, o professor; feito para ser feito comida dos outros...

***

A mulher gorda e abjeta de dedos sujos sumiu, eu acho; ou mudou de lugar, eu acho; do se lugar um senhor de ar gasto faz agora a sua vigília. Os buracos na minha calça são deprimentes, as meninas de colégio olham com atração. Aumento o volume da minha dispersão junto com o volume do MP3. Qual a finalidade do poeta? Deixar a sua voz tatuada na memória de nós. Tatuagens... Ela cobriu as nossas inicias com uma carpa branca e coral – coisa de japonesa. Foram só 3 minutos. Se eu fosse aquele senhor de ar gasto e cansado? Teria ela pena de mim? Ou simplesmente se desfaria de mim com a força da sua mão – e seu eu fosse uma barata? As bolsas quebram. Tóquio. Londres. Paris. Sei lá. Paixões. Amores. Sei lá, também. O meu prazer não. No banheiro foram apenas 3 minutos, podia ser mais, mas ela não quer perder tempo (e eu a esperança). E se eu fosse a bomba de Hiroshima? Saúdam as crianças telepáticas! Não cheguei a gozar (ótimo argumento!), ela quis matar o tédio, me usar, mostrar quem dá as cartas, inverter a ordem natural das coisas – me sinto de dentes nivelados, aqui –, ela não me deixou falar: foi logo me empurrando, abriu a minha calça cheia de buracos que as minhas alunas gostam, alunas como ela, que tem os olhos tão castanhos quanto os dela, quanto os da barata, já faz tanto tempo que não consigo ter certeza se é ela quem lambe os dedos besuntados de açúcar do outro lado da estação, todo esse esforço faz meu peito palpitar, devo parecer gasto, já faz tanto tempo... E 3 minutos destroem anos, anos certos de certezas, anos certos de, certos de... vida em comum. Nunca me disseram que relacionamentos era uma via de mão dupla.
Eu ainda leio Platão, Kafka... Ela tinha medo de baratas – me fez ler o livro para ela! Eu acho que aquilo é uma tatuagem, meus óculos de tartaruga estão lentos - "lentos", "tartaruga"... entenderam, ah deixa pra lá, você não me ouve mesmo com essa merda emepetrês no ouvido, né garoto? Ou apenas finge. Todos fingem. Quem dá atenção para um velho gasto como eu? Que rememora momentos que já duvida se foram deles e que (re)vê diante dos olhos, tão bem encenado num filme mnemônico por um Johnny Depp qualquer, que não ele – de dentes gastos; a velha gorda tatuada nem sempre fora velha, gorda, mas tatuada sim: um contrato lavrado em pele, sangue e tinta: sangue de ambos, pele de ambos. Agora ela tem a porra de um peixe japonês por cima do nome!; a minha tatuagem sempre visível entre as rugas do tempo no meu braço. Todas as noites, to-das as noi-tes, o nome dela finge que se esqueceu de tudo e de mim e se vira para dentro das rugas, escondendo-se do dono, fazendo doer sempre, mas por mais que a odeie agora (a tatuagem), não sei não-olhar.
Seus olhos não estão tão gastos assim, como os meus, os dedos de açúcar param de ser sugados, ela se levantou, garoto!, foi até o limite imposto pela faixa amarela da estação, por um instante vislumbro reconhecimento, e a vida vai assim: tudo nesse ritmo: no instante em que uma composição surge e se atravessa no nosso caminho...
O trem segue o seu caminho, levando-a antes de uma confrontação de fato – e que descubro que definitivamente meus dentes estão serrados e cerrados. Mais outra vez ela se foi. (A esperança é estúpida.)
Não tenho certeza se era ela.
Não tenho certeza se ela me viu.
Não tenho certeza se a sua íris ainda é castanha...
É apenas mais uma coisa para eu pensar “e se...”
Me sinto tonto com todas essas luzes e com a velocidade do trem do metrô.

15 de nov. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: 8 e ¹/² - ep.06 [parte alternativa]

Por Mauro Siqueira




Como dito anteriormente, a história de Alice&Alex é uma reconstituição e dentro disto há incongruências. Dentre as várias que já ocorreram (e que certamente ocorrerão), foram encontradas mais ou menos dez páginas avulsas que entram em choque direto com a história contada no Caderno Azul do narrador. Desconhece-se sua autoria, a caligrafia ali é outra, mas oferece pontos de vista (bem como sintaxe e estilo) distintos do narrador. Não podemos meramente descartar essa "terceira via" já que de fato a comparação com outras fontes, como jornais e revistas da época, corroboram com alguns aspectos apontados por essas dez páginas apócrifas; pontos como deste trecho da Balada Imprudente que se segue, distinta da versão do narrador e seu caderno azul. O leitor que escolha a sua preferida. Temos compromisso com o relato, não com a exatidão.

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A menina ainda andava à frente. A ideia de roubarem um carro só seria válida em algum posto de gasolina ou numa dessas lanchonetes de beira de estrada. Os poucos veículos que passaram na estrada não atenderam os polegares eretos pedintes de carona de Alice, a cada negação, o polegar dava lugar ao dedo médio em riste: era quase automático. Mesmo o corpo bonito de Alice não prestou para isso, talvez os piercings tenham assustado, mas quem se assusta com piercings hoje? Ao menos aumentaram a suspeita: estavam longe de casa, entre eles e o seu lugar, duas cidades: uma com nome Santo, outra alguma-coisapólis.

Então viram um carro passar por eles e indicar a seta. Ainda ficaram duvidando enquanto o pisca alerta brilhava nas pupilas dos dois: “Agora é a hora da retribuição.” Alex não entendeu o que Alice quis dizer com aquilo, mas assim como ela correu, sem saber como, talvez com as pernas dos náufragos salvos na última hora do salvamento, ele até deu pulos de alegria: chegariam a algum lugar, qualquer que fosse não teriam de ir andando.

Joana se apresentou primeiro, depois foi Nirvana – sim, esse era o nome da menina –, ela tinha um sorriso estranho e não tirou os olhos de cima de Alex enquanto falava – e falava muito – mesmo sendo ela quem dirigia. Ambas voltavam para casa, na capital, depois de uns meses de “um retiro artístico”. Alice antipatizou com a menina automaticamente. A estrada parecia uma infinita descida, Alice e Alex fizeram bem em insistir por uma carona, não havia nada – nada – no caminho, só estrada e uma paisagem de um verde nauseante pelo excesso. No momento chovia e a falante motorista calou-se um pouco; Alex e Joana cochilavam... Alice observava os olhos verdes da motorista do velho Chevette pelo retrovisor e vez ou outra seus olhares se encontravam.

– Algum problema? – perguntou Nirvana.
– Problema? Hmmm espero que não, você tem algum?

Tensão de causar acidentes.
As duas ficaram em silêncio e feito uma gata acuada, Alice continuou a observar Nirvana, reparando nos seus gestos atrás do volante, a maneira atenta e ao mesmo tempo relaxada de dirigir, as atitudes seguras, a quase descontração aliada a uma concentração. “Um feitiço”, assim quem leu os gestos dela, sabia do que se tratava, ela e Alex dividiam sensação parecida, uma experiência profunda e perigosa que não se podia comparar com dirigir sem ser leviana.

– Você gosta muito de dirigir. – Não era uma pergunta, mas mesmo assim Nirvana achou direito responder.
– Sim, gosto, aprendi com meu tio. Ele era taxista e sempre me levava aos domingos para a praça, e eu tinha uns doze anos, ele me colocava no colo dele e fingia que eu que dirigia, até soltar as mãos uma vez, meio como se faz com as bicicletas e daí...

Alice não ouvia, de fato ela não fez uma pergunta e não estava nem aí! O que lhe interessava era algo em Nirvana que não sabia nomear.

– ...é seu irmão? Namorado?
– Ahã?
– Alex. Ele é seu irmão... é namorado...
– E ela? É sua namorada – visivelmente contrariada com as perguntas da menina.
– Não. Ex. Hoje somos só amigas.

Alice não esperava tanta segurança na resposta. Então era isso que percebia de diferente em Nirvana? Talvez. Permaneceram em silêncio. Lá fora o dia caía e teriam de parar para descansar. Alice sugeriu que revezassem. Ouviu um não veemente. De fato era uma tensão de causar acidentes.
Alex foi o primeiro a acordar, depois Joana, o carro parado à beira de estrada – um arrepio percorreu a coluna de Alex, pensou na menina que povoou o seu sono nos últimos quilômetros e pensou no olhar de Alice para ela, abriu a porta o mais rápido: Alice!!!
Alice e Nirvana conversavam com um senhor de idade, as duas pararam e olharam para Alex surpresas:

– O que foi?
– Hmmm... nada só queria dizer que acordei...
– Já podemos seguir – interrompeu Nirvana, dando um tapinha no ombro do rapaz.

O velho senhor à beira da estrada indicou uma pousada para o, agora, quarteto passar a noite, só que eles teriam de voltar uns quilômetros – ninguém viu inconveniente nisso. Somente Alex que cochichou no ouvido de Alice: Como vamos pagar essa merda? Alice não se deu trabalho de responder.
A pousada era velha, um fato explicito pelo ruído do tempo sobre a arquitetura do lugar, uma tabuleta desbotada, o caminho para sede tomado pela hera alta, um silêncio que não se traduzia em tranquilidade, mas sim desolação; a construção – uma velha Casa Grande – feita toda ela em madeira e granito, que um dia foi bonita. Um velho senhor de idade já esperava à porta – seria o mesmo senhor da estrada? Parecia que o senhor lera a mente dos 4 viajantes e respondeu:

– Não, eu não sou o senhor da estrada, sou apenas o irmão gêmeo dele. Vamô chegando gente, que é tempo que não recebo ninguém.
– Quanto é o pernoite, moço? – perguntou Alex, ainda preocupado.
– Farei um preço especial para vocês, não se preocupem! Faz tanto tempo que não recebemos ninguém e não faz sentido eu cobrar o valor de tabela!

De repente Alex e Alice se deram conta de que a última coisa que comeram foi a sopa batizada da velha chinesa e ambos tiverem certeza que seus estômagos roncaram em uníssono naquele instante de lembrança – se alguém ouviu ou não, não se importaram.

Joana e Alice foram as primeiras a se levantarem, estavam satisfeitas; Alex e Nirvana ficaram. Ela com uma xícara de café e ele ainda envolto de guarnições, sopas e a suculenta carne assada recheada. Apesar da fome Alice comeu pouco, seus olhos passeavam de Alex para Nirvana, de Nirvana para Alex, num balé enjoativo... Joana nem ai, essa uma completa nulidade, nem parecia estar ali, parecia sempre chapada e quando Alice chegou à varanda, a menina tinha dificuldades em fazer o isqueiro acender o bagulhinho... Alice sempre estava certa – era da sua natureza. Decidiu ir para o quarto.

***
Nirvana passou em direção ao quarto, a ex-companheira que dançava descalça na chuva, não estava mais por ali, estava cansada demais para ir buscá-la sei lá onde; com as chaves na mão passou pelo quarto de Alice e Alex, pensou parar. Bater de leve. Perguntar se Alex queria dar uma volta ou conversar, gostou do rapaz assim que bateu os olhos neles, era tímido de uma maneira doce... um nerdizinho de nada... já a menina, ela não: de certa forma lhe causava arrepios, os olhos quase de gatos sobre ela, era fria, mas também não podia deixar de reparar a sua beleza, aliás, por aquela porção generosa de pernas e colo – além as tatuagens e piercings – que parara à beira da estrada para dar carona a dois estranhos. Não, Nirvana não bateu naquela porta, caminhou para seu quarto, pela manhã ainda teria um carro para levar.
Assim que abriu o quarto percebeu uma sombra em meio à escuridão. Estacou. Sua mão correu a parede em busca do interruptor... e então sentiu mãos no seu pescoço e no braço, o abraço apertado em seguida, seu coração na boca... para depois os lábios, tocados por outros lábios, um tremor percorrendo toda a sua coluna, fraquejaram as pernas, o corpo pendeu, sentindo-se já entregue: quem era aquele estranho e como conhecia suas fraquezas daquele jeito? Giravam pelo quarto agarrados, ela sendo sorvida por uma língua quase felina, viu-se jogada com força na cama, a excitação só aumentando e de repente... um nada. Um silêncio de todos os sons, os olhos de Nirvana buscando um referencial naquela escuridão, disse um “Hey!” À-toa. Nada. Preparava-se para se levantar – um delírio tudo aquilo? Sentiu então o peso de outro corpo, os beijos recomeçaram tão famélicos como antes, a blusa arrancada, o peito arfante, subindo e descendo, os beijos nos bicos duros, causando arrepios e arpejos, as mãos percorrendo o corpo, reciprocidade incipiente, o quadril buscando o encaixe, o jeito e a forma, as mãos de Nirvana buscando uma forma de soerguer-se – afinal quem a tomava daquela forma? Saber não foi uma opção, respirava fundo e pela boca, quase não saiu:

– Alex, é você?
– Não.

Reconheceu a voz um pouco rouca de Alice. Enquanto o fecho éclair de sua calça descia, Nirvana já não lembrava por onde começaram.

Alex acabou seu banho e ligou a tevê um filme italiano. Estava sem sono, a preocupação era pela manhã, quando fosse acertar a conta, não tinha nenhum dinheiro ali. E onde estaria Alice? Ela saíra cedo do jantar, parecendo irritada com alguma coisa, e ainda não voltara. Resolveu andar, não conseguiria dormir daquele jeito. Na varanda, a chuva amainara, no matagal em frente pareceu ter visto um vulto, um pedaço de pano. Sentiu a grama úmida, quando pisou na pequena trilha, não precisou chegar mais perto, reconheceu a fazenda do vestido de Joana. Seu corpo deitado sem respirar, os olhos ainda abertos, uma expressão clama, quase alegre, não viu sangue, mas no pescoço um cadarço preto e branco. Alex sabia de onde ele vinha. Deu as costas e correu...
A porta estava entreaberta, nenhuma luz, o silêncio, entrou sorrateiro, como um cachorro que comete um erro, sua visão leva pouco tempo para se acostumar, distingue primeiro Nirvana, dormindo, submissa abraçada ao quadril de Alice, que de olhos abertos encara Alex. Não trocam uma palavra.

***

A concentração dos dois era tamanha que nem mesmo o sangue nas roupas recém tomadas incomodavam, mal perceberam que de repente o terreno nivelara e que já não era possível observar a grande cidade em sua magnitude e totalidade. O Chevette andava bem, era confortável, Alex mexia no porta-luvas, encontrou algum dinheiro, balas e muitos cartões postais e fotos, uma em especial chamou a sua atenção: Joana e Nirvana com óculos Wayfarer, como os de Alice & Alex tiveram uma certa vez. Rasgou Joana da foto, fez uma bola e engoliu, Nirvana... guardou no bolso sem que Alice visse.
O dia, no auge do seu calor, Alice voava pela estrada, uma placa passou em branco, outra e outra. Conseguiu ler o nome da cidadezinha para que onde se dirigiam, talvez tenha sido a desolação do nome da cidadezinha que a fez dirigir para lá. Rodaram bem devagar pela rua principal: o coreto, a igreja, o pipoqueiro. Para sua surpresa, um cinema drive-in, no letreiro, letras garrafais anunciavam: “Festival Fellini” – Hoje: “Amarcord”, “8½” e “La nave va”.

Alex, lendo na expressão da garota, adiantou-se:

– A sua pipoca é salgada ou doce?
– Doce.


~~~

» No próximo episódio, Alice e Alex estão "A um passo da eternidade" em 8 e ¹/² - ep.07 [parte final]
» Anteriormente em A Balada Imprudente de Alice e Alex:
interlúdio

10 de nov. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: interlúdio

Por Mauro Siqueira


Caros leitores, vocês devem ter sentido falta das (des)aventuras de Alice & Alex por esses tempos. Quero dizer - e relembrar - que a fonte de suas histórias são notas de jornal, depoimentos de testemunhas, vítimas e, principalmente as notas do Caderno Azul do narrador. Todo esse conjunto de documento requer deste que vos escreve um árduo trabalho de reconstituição e recriação filológica que demanda tempo e cuidado. Assim, informo que a continuação do último capítulo apresentado aqui n'O BULE foi recuperada na sua quase totalidade. Por ora, então, ofereço àqueles que acompanham o folhetim o que já foi publicado das andanças de Alice & Alex e para você, leitor, que é novo no blog, a chance de não pegar a história pela metade... se bem que ela não tem propriamente um início... Bem, divirtam-se de novo ou pela primeira vez!
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Um folhetim pulp: À guisa de explicação (eu acho)
Antes mesmo de começar já me explico: consciente ou não, não sei ao certo os porquês de contar essa... história, mas quero crer que tenha sido por saudade da minha avó – gosto de pensar assim. Ela ficava costurando e ouvindo as estações AM das rádios. Eu chegava do colégio perto da hora do almoço, passava pela cozinha, deixava a mochila pelo caminho, tirava os kichutes sem desamarrar os cadarços e ia ao quartinho de costura dar um beijo nela; ela, na velha máquina Singer, com o pé direito no pesado pedal, os óculos bifocais, ouvindo aqueles programas policiais cheios de sonoplastia e desespero – vez ou outra soltava um “Cruz em credo!”, assim mesmo: cruz em credo, ou um “Minha Ave-Maria!”, sem levantar a cabeça da máquina de costura, o mesmo tom de voz, sem perder a concentração e o compasso, o ritmo impresso por ela. Eu ria. [Leia Mais]

Gata em teto de zinco quente - ep.01
A altura lhes dizia: não estamos baixos. Até impressiona a força do vento ali em cima, mas não que bastasse para aplacar o calor do alto daquele prédio; lá embaixo formigas de diversas espécies em trajes e andrajos, movimentando-se dentro de alguma lógica que Alice entenderia a algum tempo, agora apenas desprezava e por detrás dos óculos exultava um ar de vitória – aquela que somente uns poucos descobrem e que se confunde com liberdade: a verdade exulta. Do alto ela ria dos insetos lá debaixo; quem quer que olhasse para as outras direções veria o calor saliente dos edifícios como ondas revoltas, o mar de prédios estendendo-se até se deformarem e se esconderem no horizonte, as variadas alturas, “conceitos”, funções, formando um relevo feito concreto-metal-vidroreluzente-suor&sangue, erguido por muitos sem-nome-cara&rosto... particularmente, prédios orgânicos quase personagens vivas de um cenário... um teto de nuvens esparsas, e contrastando como o imenso horizonte (...) [Leia Mais]

A Invasão Chinesa - ep.02 [parte um]
– Rá: “Miau”, você é louca, Alice... louca! Rarará, mas foi demais, tenho que admitir: “Miau”. “Miau”!!! Meu maxilar está doendo de tanto rir.
– Podemos andar mais depressa? Estou ficando com fome...
Alice e Alex desciam as escadas do prédio, não as internas, mas aquelas outras, as de fora, contra incêndios, o corrimão quente e áspero da exposição ao sol. Há pouco menos de uma hora os dois chegaram àquele ali, naquele lugar; há pouco mais de cinquenta e cinco minutos subiram onze andares e chegariam suados e arfantes ao terraço; por pouco mais de vinte e sete se bronzearam totalmente nus e, por fim, há menos de oito agrediram e incapacitaram um homem, o zelador dali... [Leia Mais]

A Invasão Chinesa - ep.03 [parte final]
Quando Alice e Alex despertaram, certa noite, da indução alucinógena a que foram conduzidos viram-se transformados... em porra nenhuma. Aqui não há artrópodes humanizados ou relações pai-e-filho metaforizadas, nada disso!
O estado em que se encontravam, durante o estranho sono não lhes reservou nada: não sonharam, não choraram, não sentiram dor alguma. De certo, mal sabia como estavam ali; e o ali era o porta-malas de um velho Opala SS 75. Alice foi a primeira a acordar, piscou os olhos e tudo ainda continuou escuro, sua cabeça doía e os latejos pareciam ribombar nos tímpanos, a percepção do ambiente demorando a agir o desespero não tardou. E com ele os erros: chamou um “Oi” por alguém, bateu com a cabeça no tampo do porta-malas tentando levantar, esperneou. Percebeu o exíguo espaço e a completa escuridão palpável ao seu redor, sentiu tudo menor e, levando uma das mãos ao peito, um calor e um sufocamento que até então não estavam ali, agora estavam... e o pavor. [Leia Mais]

Uma das estradas de tijolos amarelos - ep.04
Todo o lugar era chamado de Mirante, Alice e Alex deixaram para trás um chinês agonizante azarado e o seu Opala destruído e seguiram o coelho branco, agora, estavam numa espécie de platô, construído à beira da estrada, um pouco após o acostamento e aonde pararam para observar o que sobrara do animal.
Com a ponta de um graveto, Alex remexia as entranhas do coelho, eviscerando o bicho órgão a órgão. Alice olhava a distância, mas não via o rapaz subitamente curioso pela anatomia dos leporídeos, que agachado junto aos restos do bicho, agora levantava com cuidado a boca do coelho, os enormes dentes saltavam a vista, Alex olhava fixamente a fenda entre os dentes e a gengiva, instintivamente o rapaz levou à mão aos seus próprios lábios... [Leia Mais]

8 e ¹/² - ep.05 [parte 01]
Naquela noite eu não dormi bem.
Causa? Não foi por medo ou insegurança. Eu era pura excitação, eu era pura energia. O que ouvi sobre o zelador do tal prédio fez com que eu voasse em cenas, imagens, visões de como tudo se dera. Pode um coração parar e você não morrer? Quando sai do meu estado de perplexidade, quase apoplexia, senti a necessidade de correr. Peguei a minha bicicleta e pedalei pelo bairro até sentir o meu coração bater e vibrar por clemência nas batatas da minha perna. Só voltei à noitinha... Minha mãe no portão com uma cara... saiu barato o sumiço, “Nada de ‘Esquadrão Classe A’ pra você hoje”, por sorte fiquei só de castigo – ela também entendia. Mas não me importei muito, afinal era um episódio reprisado mesmo. Fui para o quarto e abri o caderno azul – eu lembro vividamente daquela noite em especial – respirei fundo. “O que é isso? Dever de casa?”, perguntou a minha irmã por perguntar ao entrar no quarto e pegar o seu walkman. “É.” – e escrevi. [Leia Mais]

6 de nov. de 2010

Meu castelo


Por Mauro Siqueira


Entrou por conta da chuva.

Caiu de repente fazendo com que muitos buscassem refúgios provisórios – uma marquise, um bar, uma banca de jornal –, qualquer lugar serviria. Eu assistia tudo pela vitrine, a loja recém aberta, e ele escolheu entrar aqui, onde trabalho. Quando dei por mim, já o atendia e dizia meu nome:

– Bom dia, sou Alberto…

– Ah? Sim, Alberto… Bom dia…

Estendi a minha mão, ele tirou os óculos no mesmo instante, não sabia se secava o objeto ou apertava a minha mão. Aturdido, não me olhou direito – preferiu os óculos, parecia não ouvir bem enquanto os secava e eu comecei a lhe falar dos móveis a sua volta.

– …além dos sofás-cama, e camas de armar, também temos beliches…

– Beliches?… – ele pareceu sair de si.

– Sim, beliches! Vários modelos e temos prom–

– Lembro como ontem… – me disse com um olhar vazando a distância. Eu, educado e sem opções, parei e ouvir.

Tínhamos um parecido como esse em casa, na nova e pequena casa; não na antiga de onde nos mudamos a contra gosto de todos, vários depois de eu ter nascido e começado a crescer ali. O beliche era do meu irmão mais velho, que na casa nova passou a dividir outro – maior e melhor – com nosso irmão caçula; eu, o irmão do meio queria aquele pra mim, sempre quis: coisa de moleque. Minha mãe dizia “não”, que era perigoso, que eu era pequeno para um beliche, que era certo eu cair de lá de cima, como se dormisse num Everest… Meu tio que herdou a posição; a mim, coube a ignóbil parte de baixo… Meu tio um inconveniente, mas quando bebia sossegava e se jogava na cama e sumia do mundo, a não ser pelo ronco… e como roncava!, Lembrando sua incômoda presença e posse!, Uma ópera! E sempre meio bêbado, não raro eram os tombos. Caía com quê de vontade da alta cama… não sei como nunca quebrava nada, ou mesmo reclamava das dores das quedas – tinha que doer!, aliás permanecia dormindo, o Sr. pode imaginar?, Não acordava! Esse era o meu tio… A minha mãe preocupada com os frequentes desabares, além de acordar a casa, fazia temer pela minha segurança: vai quê… Nunca se sabe, não é mesmo? Com o tempo, resolveu que ele não dormiria mais no alto – era minha desejada chance. Repuseram a pequena escada e balaustrada para que eu subisse com segurança e para que não voasse feito meu tio. Ali em cima, quando subi pela primeira vez e sentei à beirada e olhei todos de cima, eu me senti outro. Era um lugar só meu, um mundinho, minha casa-da-árvore.

Eu amava.

Decorei o local. Colei pôsteres dos meus filmes, bandas; no teto, fotos tiradas do espaço! Supernovas, buracos negros, estrelas e planetas feitos de adesivos fluorescentes. A altura e a distância do meu beliche me tiravam da loucura de uma casa apertada e cheia. Refugiava-me dos encontros de família (e principalmente dos primos menores que queriam subir também – nunca! – que crescessem e viram-se homens como eu), ali também recebi a notícia da morte de meu pai. Local mais que apropriado: o beliche era um pequeno forte, uma torre de granito, um castelo inexpugnável feito para mim. Ali, lia; comia (por vezes escondido da minha mãe), ouvia minhas músicas – foi naquele beliche que conheci The Who e Joy Division –, onde lia horas a fio – ávido com as histórias de Poe, Machado & Cia. Sob o colchão e o estrado, repousava embalagens de chocolates e papeis sem valor que eu juntava sem saber as razões. Do fundo das gavetas de meias, mudei de endereço as mulheres nuas das revistas. Ali, naquele beliche, toquei a primeira punhetinha, interrompida pela entrada repentina da minha avó que fingiu não ver nada, mas que passou a trocar com maior frequência as roupas de cama. Naquele beliche eu transei pela primeira vez. Com a filha da vizinha. Meu tio embaixo roncando outro porre, encobrindo os nossos gemidos virgens, intercalados de instruções ainda incertas dos desejos – bendito ronco, bendita cachaça! – ainda lembro, ela dizia que estava vendo estrelas brilhando no teto – eram os meus adesivos fluorescentes…

Ali naquele meu castelo fui crescendo até ter de encolher as pernas para caber, já sem escadas e “cercadinho” – para a eterna aflição da minha mãe. Numa época dormia meio diagonalmente para dar no colchão e sem jeito e espaço para o braço, fazia-o pender para fora – um quase macaco dependurado com desleixo… Dormi naquele meu castelo até os dezoito anos, à porta da Marinha que me tirou de casa para o mundo e em outros barcos, outros beliches, mas nenhum igual àquele… Bem, a chuva acabou. Não vou tomar o seu tempo, meu jovem, nem atrapalhar as suas vendas. Obrigado por me ouvir esses minutinhos.

E ele saiu como veio: com a chuva. Não me lembro se me despedi; em casa, fazia o jantar quando minha esposa chegou e gritou “Boa noite” e seguiu para dentro, enquanto eu na cozinha cortava umas batatas, ouvi o espanto:

– ALBERTO?!?!?!… O que esse beliche esta fazendo no lugar da nossa cama, Alberto?!?!

– A parte de cima vai ser minha… – falei baixinho com cuidado para não errar o tamanho das batatas.

Publicado originalmente em: http://bit.ly/cTlqxM

25 de out. de 2010

Um olhar nada acidental de "O único final feliz para uma história de amor é um acidente"


Por Mauro Siqueira
  
Não fiz o álbum da copa, as minhas modas são outras. Adquiro o mais rápido que posso os livros da coleção “Amores Expressos” – apesar de me faltar a figurinha nº2 – e os dois últimos lançados foram comprados juntos.

Então, não é nada acidental esse pequeno texto que aqui vai. A leitura de "O único final feliz para uma história de amor é um acidente", o mais recente livro de João Paulo Cuenca. Não sabia por onde começar a escrever esse... olhar sobre o livro – um título espetacular, diga-se de passagem. Gostei do livro, ponto. E não foi pouco.

Numa tentativa de sinopse de um livro plural, tento uma abordagem também plural pelos elementos que consegui destacar e de como foram trabalhados por João Paulo Cuenca e que repito, gostei.

Gostei do livro porque ele se afasta um pouco desse neorrealismo (tanto aquele que se sustenta numa estética da violência quanto aquele opta por estética da delicadeza) tão presente na nossa literatura hoje – não que eu desgoste dessa vertente, pelo contrário. Mas o livro de João Paulo Cuenca permite um vislumbre do processo de ficcionalização do cenário proporcionada através dos olhares de seus narradores – aliás, são narradores múltiplos no livro – como se verá. As possibilidades de narrar despregado do chão, aproximando-se da imaginação mais original, do delírio e do sonho – algo que não é inédito em sua obra –, só enriquece a experiência da mesma pelo leitor. Esse caráter onírico faz com que leiamos “O único final feliz...” conjecturando o que de imaginário poderá se apresentar nas páginas seguintes, pondo em dúvida não a narração, mas as palavras do narrador. Até que ponto as palavras do narrador principal do romance (outros chamaram novela) refletem o real de um Japão quase sem exotismo, já comum e conhecido, diferente daquele que o senso comum implantou em nós e que cada dia é atualizado com os elementos (trans) culturais das últimas décadas como, computadores, celulares, mangás, animes e por aí, numa lista enorme, que tipicamente do que é cognoscível como ocidental e assimilado como “oriental” retorna-nos com re-re-lido? Gostei de “O único final feliz para uma história de amor é um acidente” porque ele é um livro que fala do olhar. Do olhar capaz de perceber os mínimos detalhes de Yoshiko, detalhes estes que fazem dela a boneca mais cara do Japão; os olhares dos fregueses do Abracadabar direcionados ao corpo de dimensões euclidianas da dançarina Kazumi; tão díspares àqueles dedicados à Iulana, a estrangeira romena, garçonete e amiga de quarto de Kazumi e que nos olhares escondidos nutre uma paixão velada pela dançarina; ou os olhares de Shunsuke (que trabalha numa empresa que fabrica filmes fotográficos numa era de máquinas digitais), que vê na gaijin, a estrangeira, tudo que não encontra nas japonesas, porém, não faz questão de esconder esse interesse a ninguém – para surpresa dos olhares dos seus conterrâneos mais tradicionais. Como o seu pai, o Sr. “Lagosta” Okuda, famoso poeta japonês, dono da boneca Yoshiko, e que mantém em segredo uma espécie de agência de espionagem, chamada apenas de “periscópio”, responsável por observar a todos quem o senhor Okuda exige. O periscópio é comandado pelo Sr. Suguro Shibata, que além de vigiar e reportar tudo da vida do filho ao Sr. Okuda, também é professor na "Associação do Fugu Harmonioso de Tsukijim", onde ensina a arte do corte do baiacu (ou fugu) sem que este preserve o seu veneno letal, ou seja, uma arte de saber reconhecer na carne esbranquiçada do peixe as partes venenosas das não venenosas.

E gostei ainda mais do tratamento dado ao “olhar” por um personagem insólito que surge quase ao final da narração: Gyodai. Isso mesmo, aquela criatura mono-ocular, gosmenta, cor de chiclete, do seriado estilo tokusatsu “Esquadrão Relâmpago Changemen”, do final dos anos 80, que ao final de cada episódio era o responsável por reviver o vilão, transformando-o numa criatura gigantesca, através do raio emitido por seu único olho. E, além disso, apesar de parecer ser só mais uma referência pop jogada no livro ou revelar um exagero ao recurso, o surgimento de Gyodai é importante, pois a partir da aparição da criatura que nos damos conta que a tensão da dualidade real x imaginário dos narradores é fundida e nunca existiu. Como? Leia o livro. Não quero adiantar mais detalhes da obra – mais do que já fiz e que ainda retomo em outra postagem.

Ademais, os personagens ainda se voltam às questões do olhar, seja sob o viés fetichista das partes anatômicas, lugares, gestos, relações e afins Seja numa descrição realista, porém não enumerativa do gesto e do foco sobre o mundo que rodeia as personagens, mas poética capaz de transformar até mesmo um acidente horrível num belo quadro em câmera lenta, somente capaz pela acuidade de olhar focalizado e bem real sobre o meio circundante.

Por ora, esse é o meu primeiro olhar sobre “O único final feliz para uma história de amor é um acidente”.

Publicado originalmente em De VERMES & outros ANIMAIS rastejantes em 27/09/2010.

6 de out. de 2010

A Porta

Por Mauro Siqueira


A desolação da distância que nos separa acaba comigo… por debaixo da porta, acumulam-se contas e cartas. Neste quarto estou tão só como eu estaria se fora dele estivesse. Você foi um descanso que o mundo me deu. Agora, só me resta redescobrir escrevendo. Há tempos eles estão, também, querendo passar por aquela porta e me dobrar em dois, três… sei lá. Aquela porta pintada, branca, que você pintou, lembra? Não, é claro que não lembra – já não te deixam mais lembrar – faz tanto tempo. Mas tanto tempo assim? Quanto é necessário para esquecer. Quanto tempo… está descascando. Emperrada. Sem função. Eu, eu tive de entrar pela janela dessa vez, mas também será a última. Eu tinha que te rever! O nosso quarto, nossa cama, nosso lugar. Vazio. Frio. Morto. A poeira cola na sola do meu pé descalço enquanto passeio por aqui… parece muito maior agora, apesar de completamente tomado por coisas e coisas que não são minhas, não são nossas. Não, você não se lembraria; agora é até solitário. Nos cantos das paredes, as aranhas me observam – sou um tanto grande para ser a presa, mas também não sou quem caça, acho que elas ainda assim querem tentar. Nas sombras, demônios se esgueiram – sinto o hálito podre! Em algum lugar aqui dentro a pia ainda ressoa-se em gotas… Eu não sei por que voltei aqui, não sei. Só sei que sempre é pra cá que fujo. Mesmo sendo dolorido de entrar, sentir primeiro com os pés descalços, parece que tudo se destrói a minha passagem; tudo me machuca, vindo de baixo e subindo até a minha cabeça. Sei o quê eles procuram, e logo vão passar pela porta pintada branca. Não, não vai ser difícil entrar, muitas janelas estão podres, muitos vidros quebrados, palavras pichadas, vermelho, em todos os cômodos – vândalos –, só livraram a cara do nosso quarto, não o macularam ao menos… começa a escurecer e com a noite o frio. Não há nada aqui pra mim, por que vim? De repente um calor. Me desfaço da camisa branca de nove-e-noventa que dão para todos nós e a calça de moletom cinza-sujo que ainda guardava o suor e o cheiro de mijo de outra pessoa e que agora leva o meu; embolo tudo nas mãos, procuro por uma cesta de lixo. Não temos mais. Taco dentro da pia. Fazer fogo não é tão difícil como eu pensei. Vejo tudo queimar, e nas sombras que se agarram nas paredes me vejo nu, como há muito tempo eu não via. Deliberadamente começo a chorar. Por que estou aqui? Me pergunto enquanto, entre berros e espasmos, me contorço no chão imundo da sala; por que não me matei ainda? Ao menos eu teria calma… paz… silêncio. E não teria que lembrar de você. É, o auto-exílio é um possibilidade. Reviro tudo; tudo que um dia reconheci como meu e seu, mas que agora não passam de fantasmas e maus-agouros, do pouco que não pilharam… não encontro nada. Uma faca. Uma gilete. Tesoura. Caco de vidro, espelho, azulejo. Nada para dar cabo de mim. Talvez não seja a hora. Não ainda, mas guardei o projeto no meu bolso. Projeto. Pro – je – to. Quantos não fizemos? Ao menos você fez. De uma missão em comum. De uma vida em comum. De filhos em comum. Eu apenas sacudia a cabeça positivamente. Querendo demonstrar toda alegria que você sentia. Tolos. Somos todos. Tudo é fumaça e espelhos, passe de mágica mambembe! Ficamos maravilhados por pouco tempo, o tempo da própria duração do efeito, depois você esquece e despreza, como tudo; segue em frente, até o próximo espetáculo do circo, até o próximo circo que está de passagem pela cidade, e tudo se repete, e você acredita, num acordo tácito entre mágico e espectador. (eu sou o coelho ou a cartola? E você o que é?) Fumaça e espelhos… Começo sentir falta dos meus remédios, do circo que é me manter fora da vista do mundo, de me manterem “são” enquanto aguardo o Grande Dia… me matar é tolice, é só eu ter paciência, Eles já estão fazendo isso por mim. Onde e quando estou afinal? A cada dia, será mesmo essa a grandeza que devo considerar?, ou será a cada hora? Não sei. É difícil delinear, manter limites. Apenas sei que é numa prisão que vivo… a fuga possível é pela porta, branca, pintada e lá que eles querem entrar, aonde se acumulam contas e cartas por debaixo dela. Me sinto nu. Me sinto nu porque estou nu. Aqui sou apenas eu. Fugido. Em busca de alguém quem já não está mais aqui. E a culpa é só minha, não é? Logo vão descobrir, vão dar falta do meu cheiro de mixo e da camisa de nove-e-noventa – chinelos eu não quis trazer – e virão atrás de mim e vão descobrir o segredo que Eles tanto querem – e que por isso me mantêm aqui. Não sei porque resisto… seria tão mais fácil abrir mão de tudo… Sinto falta dos remédios. Os remédios que eles me dão. Os remédios que me fazem dócil, quase uma samambaia! Remédios para me fazer esquecer. Para me fazer lembrar. Para me deixar são. São como eles são (qualquer hora, alguém vêm e me rega). Eu sei o quê Eles querem de mim. Como uma ovelha à imolação (o olhar fixo no vazio, vendo além; a respiração rápida, repleta de aceitação, consciente da inevitabilidade de reação). Eles querem me dobrar: em dois, três, sei lá. Essas fivelas, tiras de couro cru, laços e lacres, roupas apertadas não me segurarão – no meu quarto de porta pintada, branca, vou queimá-los como sempre faço – essas paredes… dizem que são assim para não me machucar, mas como se elas se interpõem entre nós?  Eu quero o que está do outro lado da porta, lá tenho espaço, lá tenho tudo de volta, lá sou perdoado, lá estou nu – sincero. Só com ela. Não posso deixá-los passar também. Não há espaço para eles – já bastam as aranhas, demônios e fantasmas que permiti. Lá é o que me resta de sanidade. Não esta… fabricada e repleta de nomes latinos, nomes fantasia, tarjas vermelhas e pretas, copyrights e marcas timbradas, em drágeas, pílulas e cápsulas... “paus e pedras machucam meus ossos”, mas essas merdas só me fazem ruir... Sei que nunca estou sozinho, sempre há alguém comigo. No café, no almoço, na janta; quando empurram minha cadeira de rodas até a uma nesga de sol, de sombra de brisa, de acordo com a conveniência; quando me carregam no colo e me dão banho, quando me forçam as necessidades, nunca estou só, no meu sono artificial, no meu delírio, nunca estou só, quando subitamente desperto do meu inferno e transformo o mundo a minha volta num outro inferno, nunca estou só; quando me entopem de drogas e me trancam num leito branco, asséptico e inodoro eu nunca estou só.  Só me resta escrever. Ao menos é o que acredito que faço, quando fujo para cá, de detrás da porta, branca, pintada; não há nada além das paredes. Como eu escrevo? Escrevo com a memória, antes de tudo ter acontecido. Escrevo com o que sobrou da minha consciência, escrevo com o pouco de sanidade que não entornou de mim. E não silencio a dor da dúvida Deles (e minha): matei ou não matei?

E assim como eu nunca terão a resposta.
(Tão presos atrás de uma porta como eu.)

16 de set. de 2010

Manual do isqueiro zen

Por Mauro Siqueira


Começou simples, eu estava no ônibus quase fazendo o mesmo que a jovem na minha frente fazia: cochilando num estado de abandono com a cabeça encostada na janela. Era meio-dia e o trânsito sempre ruim nas horas de almoço trazia a lentidão necessária para uma siesta. Alguém levantou perto de mim, e acho que foi isso que não me fez dormir. Nem vi o rosto da pessoa, apenas senti o vulto pelo canto do meu olho passar, olhei naturalmente para o lado, para o banco já vazio, nele um isqueiro prateado. Não tive a reação de chamar pelo seu dono ou dona, num automatismo e a sensação de estar sendo vigiado, olhei para os lados – ninguém dando a mínima, o trocador de cabeça dormindo com a cabeça baixa... eu ainda fiquei olhando o isqueiro mexer e dançar no assento fundo e cinza do banco do ônibus, vibrando por conta da movimentação, antes de me mudar de lugar e pegá-lo na mão.



Era um isqueiro pesado, aço escovado, tinha um desenho num dos lados – parecia uma miniatura de alguma coisa budista, não sei, era essa a impressão que me passava; um monge meditando e de sua cabeça saia luzes vermelhas e amarelas em várias direções, formando a moldura do desenho, era diferente. Debaixo o nome da marca: zippo. Quanto será que valeria? Era uma marca famosa... Fiquei brincando com o isqueiro e seu peso, abrindo a tampa e fechando, abrindo e fechando, clic!..., clic!..., clic!..., clic! Me dei conta de que naquela altura da vida eu nunca fumara um cigarro, era até curioso, cresci numa época em que fumar era culturalmente aceito. As estrelas de Hollywood fumavam, meus pais fumavam, minha professora do primário provavelmente fumava... “Ei, amigo: tem um cigarro?” – demorei a perceber que era comigo, por ser nova aquela frase para mim. “Não, não... tenho não.” Era menina que cochilava – devia ter acordado como os clics-clics. Ela ficou sem entender então porque de eu ter um isqueiro, eu só consegui dizer a única coisa que faria razão naquele momento: “E que eu coleciono...” Ela deu um muxoxo e se virou mais uma vez para a janela e o vidro e meio que instantaneamente voltou a dormir. Não gosto que me deem muxoxos! Desde que era professor e pai, ai de quem o fizesse: era suspensão ou castigo! “O que você fez?”, perguntei já pegando a maluca pelo braço, “O QUE VOCÊ FEZ?!”, disse gritando para que ela acordasse de uma vez, ela estava atônita; todos os poucos no ônibus estavam. Fodam-se. Eu queria que ela se desculpasse que pedisse perdão pelo gesto mal-educado e inadmissível. “Vamos, diga, peça desculpas!”, “Mas o que eu fiz?! Eu só te perdi um cigarro cara, tá louco! Socorro! Motoristaa!”. O trocador, como ela, parecem que só acordam no susto. Mas não deixei ele sair do alto da sua cadeirinha: levei a mão a cintura no clássico gesto “tenho uma arma, seu babaca!”. É lógico, não tinha arma alguma, apenas o estojo dos meus óculos escuros, mas hoje o pavor social coletivo é tão grave que todos jurariam que eu carregava uma pistola. O pânico só fez aumentar – e daí? O controle era meu.

Estávamos numa pista movimentada e engarrafada, o ônibus parado só piorou o quadro... mas eu me sentia o mais sozinho dos homens. Queria dizer que não entendi os porquês de fazer o que fazia, mas no fundo do meu ser: EU SABIA. Eu estava farto. Simplesmente cansado de atuar num palco que não era meu, um texto artificial que não fora escrito por mim ou só para mim. Desde da manhã à noite eu interpretava. Não entendia quais as sucessões de (acertos) (erros) cometidos por mim me levaram até ali... Tudo muito batido, não? Quantas vezes (fezes) vocês já não esbarram (espalharam) por ai como essa? Variações sobre o mesmo tema. Mais do mesmo... Eu sei, também penso assim e estranhamente ali, num ônibus posto em pânico por mim, pessoas assustadas que certamente era tão atores e atrizes quanto eu, pensavam em uníssono que “Se eu sair dessa mudarei a minha vida.” Essa era a chama que eu vi incendiar em cada íris daquele coletivo. E eu que provoquei aquilo... clic. O isqueiro acendeu e eu ascendi de alguma forma, aconteceu de forma simples: olhando para o pequeno ícone no isqueiro Zippo, essa era a marca escrita no fundo dele, tive a vaga ideia de me reconhecer no gordinho sentado e os raios saídos da sua cabeça eram tão reais... Um estranho isqueiro zen, me dizendo o que fazer como num manual muito particular e esperando só um perdido como eu para entender sua mensagem e então, como num clarão, veio a minha ideia aquele protesto feito por um monge tibetando nos anos 60, uma das capas mais famosas da Life e a capa do primeiro CD do Rage Against The Machine. Zack de La Rocha tinha razão: “Anger is a gift”.



“Quem esta na chuva é para se molhar não é?”, pensei comigo; e para falar a verdade eu já não estava mais aí para nada, aquele isqueiro como raios saídos do monge me deu uma direção e um sentido, um caminho solitário para mim. Eu não tinha muito mais tempo, gritei para que todos descessem, inclusive a cochilona. Eles pareceram não acreditar e demoraram a reagir e quase que num balé de nado sincronizado, aquelas pessoas, até instantes atrás letárgicas, ganharam 'anima' e feito insetos tentavam sair por onde era possível. Foi bom ficar sozinho. Eu e meu isqueiro de marca, com raios vermelhos e amarelos saindo da cabeça do monge zen. Fiz como o desenho e me sentei em posição de meditação. Clic!... clic!... era mântrico aquele som do isqueiro e agora eu entendia o desenho... clic, ooom.., clic, ooommm, clic, oommm... clic. Não era uma chama azulada como dos isqueiros comuns, o meu era de marca. (Acho que tinha até cheiro...). Com ele ainda queimando o devolvi ao banco em que o encontrei, a chama rapidamente beijou o lugar e num piscar de olhos lambeu os bancos da frente em fogo; detrás, as borrachas e tiras da janela pingavam o plástico retorcido. Eu fui para o fundo do ônibus, esperando a minha vez de ser lambido também, no chão que já ia quente, me sentei feito o monge de cabeça de raios e em vez do ommm eu repeti um novo mantra: clic.

6 de set. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: 8 e ¹/² - ep.05 [parte 01]

Por Mauro Siqueira

“Alfredo, va fan cullo!”
Totó – Cinema Paradiso



Naquela noite eu não dormi bem.
Causa? Não foi por medo ou insegurança. Eu era pura excitação, eu era pura energia. O que ouvi sobre o zelador do tal prédio fez com que eu voasse em cenas, imagens, visões de como tudo se dera. Pode um coração parar e você não morrer? Quando sai do meu estado de perplexidade, quase apoplexia, senti a necessidade de correr. Peguei a minha bicicleta e pedalei pelo bairro até sentir o meu coração bater e vibrar por clemência nas batatas da minha perna. Só voltei à noitinha... Minha mãe no portão com uma cara... saiu barato o sumiço, “Nada de ‘Esquadrão Classe A’ pra você hoje”, por sorte fiquei só de castigo – ela também entendia. Mas não me importei muito, afinal era um episódio reprisado mesmo. Fui para o quarto e abri o caderno azul – eu lembro vividamente daquela noite em especial – respirei fundo. “O que é isso? Dever de casa?”, perguntou a minha irmã por perguntar ao entrar no quarto e pegar o seu walkman. “É.” – e escrevi.

Ao menos tentei. Eu perdi a conta de quantas folhas foram arremessadas fora, nunca desperdicei tantas delas; mudei de caneta; usei lápis. Lapiseira. Hidrocor. Nada! Troquei de lugar, mudei objetos de posição, ouvi música, tentei jeitos de começar, comi, bebi água. Nada! Certo de que não conseguiria escrever o que imaginava querer – eu não sabia representar, transpor os acontecidos em palavras: eram falhas, gastas, mancas; inúteis. Elas despencavam da caneta para o papel e só sujavam as linhas, mas era algo que eu precisava (tentar) fazer, tirar de mim. Foi um martírio. Não sei quando dormi, a desistência involuntária, só me dei conta na madrugada quando despertei, meu pescoço doía, estava com sede. Indo até a cozinha, vi a luz azulada da tevê, meu tio roncava. No Corujão um filme italiano.[1]

***

– Então, bobalhão, tem certeza que o caminho é esse?
– Claro que sim!
– Como? Se estávamos presos num porta-malas...
– Alice, Alice, Alice... sabe aquele caminhão que matou o coelho? Você leu a lateral dele?
– Que caminhão?
– hmm... esquece, então. Só saiba que além de mal motorista ele tem na sua carga isso.
– Fubá?
– É!! E ele tá soltando desde sei lá onde, olha... E tá fazendo um caminho pra gente, uma caminho que nos paralelepípedos parecem tijolos amarelos, como você falou!
– Não falei bem isso, Alex...
– Mas falou...
– Alex: foda-se.

Alice e Alex caminhavam há horas, pareciam que nunca iam chegar. Apesar de todo cansaço e da má aparência não demonstravam um ao outro as sua preocupações, ao menos Alex, pois a irritação de Alice era evidente e isto, um sinal de contrariedade. Do alto do tal bairro Alto, ou o Mirante, via-se a cidade inteira, mas qual cidade? Eles tinham dúvidas se os caminhos do opalão os levaram para fora dos limites do município. Estavam quase convencidos de que estavam num cidade vizinha. Margeando a estrada, a metrópole. Quase um organismo, Alice definia assim, podia sentir dali a sua vida e força – definitivamente, o interior não é o seu lugar –, ela queria estar ali imediatamente. No céu daquela cidade uma camada amarelada a cobria e a linha do horizonte, distraída pela sua sujeira, escondia dos dois peregrinos sua suposta beleza. Alex queria conversar, Alice não. A menina andava à frente. Os poucos veículos que passaram na estrada não atenderam os polegares eretos pedintes de carona, nem mesmo o corpo bonito de Alice prestou para isso, talvez as tatuagens tenham assustado, mas quem se assusta com tatuagens hoje? Ao menos confirmaram a suspeita: não estavam nem perto de casa, entre eles e o seu lugar, duas cidades: uma com nome índio, outra como nome da santa. Assim que tivessem chance roubariam um carro, Alice dirigia muito bem (segundo ela mesma). O cansaço insuportável, até mesmo Alex, que vinha mantendo um bom humor quase monástico não falava mais nada.

– Chega, Alice: nós vamos morrer! Eu não aguento mais andar...
– Então voe, idiota... É a melhor ideia que eu posso ter.
– Vamos parar, vamos pegar carona...
– Ninguém quer para a gente! Olhe para nós? O nosso estado. Você pararia?
– Eu?... Pararia sim.
– Pra puta que pariu que pararia! Mas você tem razão, chega de andar.
– Vamos mesmo voar, então?
– Melhor: nós vamos roubar um carro...

A desconcentração dos dois era tamanha – que nem mesmo o sangue nas roupas recém tomadas emprestas incomodavam –, mal perceberam que de repente o terreno nivelara e que já não era possível observar a grande cidade em sua magnitude e totalidade. O dia, no auge do seu calor. Talvez tenha sido a desolação da cidadezinha com o que se propunha aquele estabelecimento que a fez dirigir para lá. No letreiro do cinema drive-in, letras garrafais anunciavam: “Festival Fellini” – Hoje: “Amarcord”, “8½” e “La nave va”.

Alex, lendo na expressão da garota, adiantou-se:

– A sua é salgada ou doce?
– Doce.

Já acordando, vendo sobre a mesa o caderno azul fechado com a minha caneta feito marca-páginas em que parei; as rasuras, os rabiscos marcando em Bic-azul a minha derrota. “Foi seu pai que te levou pra cama. Te achou no tapete da sala. Seu tio vai ouvir umas também, dormiu com a tevê ligada... de novo! A conta, pela hora da morte e ele desperdiçando luz...” “Mais cinco minutinhos...” “Não, levanta logo... Ah, seu pai também gravou o seriado pra você... ao menos ele disse que dessa vez ele conseguiu.”, minha mãe falou numa incredulidade.
Segundas-feiras sempre são estranhas, mas aquela em especial parecia conter em si muitas segundas-feiras que viria a ter. Com doses a mais de frustração... nem sentira o Domingo passar e a segunda surgia com um peso que eu, com catorze anos não suportava, Deus! Minha mãe continuava a falar, eu pouco a pouco acordando, pensando no que não consegui reter no papel sobre os acontecidos e que filme doido foi aquele? Que peitos eram aqueles? Enormes! E aquele pavão? Qual o sentido daquele pavão?! Afinal, quantos filmes eu vi ontem? Eu já estava perdido com dez minutos de despertar.
No caminho da escola, a banca de jornais, só pensava nas histórias de delinquência que ganhava cada vez mais corpo nos noticiários pendurados, a tal da Claudia Vargas vinha irritando a polícia, demonstrando ser bem mais sucedida que eles nas pistas deixadas. Depois do zelador canibalizado, ela seguiu uma “dica anônima”. A danada achou um velho opala próximo dos limites fronteiriços de Santa Letícia, quase a duas cidades daqui. Para surpresa de todos, um homem fora encontrado dentro de um velho Opala... agora não lembro se vivo ou morto, apenas que era um grande contrabandista chinês. Seguindo o caminho de volta, talvez o pior. Cláudia Vargas e a sua equipe – sim ela ganhara uma equipe – encontraram um casal de amigas, gravemente feridas. Uma foi incapaz de dizer qualquer coisa – teve a língua arrancada. A outra, nos dedos restantes das mãos, e estranhando a voz metálica que saía dela mesma, por um tubo na traqueia disse: “Foram dois. Uma garota com tatuagens e um garoto de lábio leporino”.
(Num cinema muito longe dali e muito antes dessas informações cobrirem os jornais, Alice e Alex assistiam a um enorme rinoceronte ser transportado num bote salva-vidas).


[1] Essa é a história do que não foi história das Notas do Caderno Azul.


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