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11 de dez. de 2012

Machado de Assis por Eduardo Luz

Por Nilto Maciel


É Machado de Assis, há algum tempo, o nome mais estudado (deve ser também o mais lido) da literatura brasileira. E deverá carregar este epíteto por muitas décadas ainda. Poderá até ser ultrapassado por Clarice Lispector, Guimarães Rosa, Jorge Amado, Graciliano Ramos e outros mais antigos ou mais novos, que isto é de difícil entendimento. E, para dar mais robustez ao instituto dos estudiosos da joalheria machadiana, chega às livrarias (ou às bibliotecas públicas e privadas) O Quebra-Nozes de Machado de Assis: Crítica e Nacionalismo (Fortaleza: Edições UFC, 2012), de Eduardo Luz. O volume traz palavras de apresentação de Alfredo Bosi (vejam quanto prestígio o do jovem professor e escritor carioca radicado no Ceará): “impressionou-me a qualidade da sua escrita, sempre límpida, enxuta e bem articulada. Além do mérito da correção e propriedade da linguagem, o que salta à vista é o desafio inerente ao seu projeto intelectual: enfrentar o tema do nacionalismo mais uma vez explorado pela crítica machadiana”.

Como está informado no impresso, este compêndio é, “com alguns retoques e acréscimos, a edição revista do seu trabalho universitário” (tese de doutorado), defendida em outubro de 2011, perante a Banca Examinadora composta pelos professores Alfredo Bosi, Marli Teixeira Furtado, João Roberto Faria e Roberto Acizelo de Sousa, no Programa de Pós-Graduação em Letras da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, tendo com orientador José Luís Jobim.

O livro se divide em três partes: “A noz intacta”, “O classicismo moderno” e “A pátria cultural”. Na longa introdução, Eduardo Luz lamenta o quase silêncio dos machadianos, durante o ano de 2008 (centenário da morte de Machado), em relação à crítica exercida pelo Bruxo, “confirmando o descuido com que tem sido tratado esse campo da obra machadiana por sucessivas gerações de críticos e teóricos”. Esse quase silêncio foi que levou o pesquisador a mais se interessar pelo envolvimento do criador de Capitu com o exame do outro. Ou, mais precisamente, pelo nacionalismo em seus juízos. Para tanto, se debruçou sobre três “obras-motivadoras”: Machado de Assis, escritor nacional, de Mário Casassanta (1939); Machado de Assis e a política, de Brito Broca (1957); e Machado de Assis, de Astrogildo Pereira (1959). A partir delas elaborou a “linha específica” da tese. A chamada “linha genérica” se baseia em outras três publicações: Nações e nacionalismo desde 1780: programa, mito e realidade, de Eric J. Hobsbawm; Comunidades imaginadas, de Benedict Anderson; e Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi, de José Murilo de Carvalho.

A primeira parte (“A noz intacta”) da pesquisa de Eduardo Luz apresenta Machado de Assis em sete capítulos ou segmentos. Antes deles, porém, o ensaísta passeia, em 17 páginas, pelo pensamento crítico do poeta de Ocidentais. A começar pelo ensaio “O passado, o presente e o futuro da literatura”, no qual se “confirma a adesão do jovem Machado de Assis à ambiência do nacionalismo romântico”. São páginas (as do professor) recheadas de citações de Machado, Joaquim Norberto e outros estudiosos de ontem e de hoje, todas caprichosamente interpretadas.

A parte “O classicismo moderno” se inicia assim: “Em 1873, publica-se o festejado ‘Notícia da atual literatura brasileira – Instinto de nacionalidade’, de Machado de Assis. Tomamos esse ensaio como um divisor de águas, a partir do qual a crítica machadiana superará em definitivo o primeiro nacionalismo, xenófobo e excludente”. No capítulo inicial, o romancista de Dom Casmurro é examinado em um texto (redigido em forma epistolar), no qual se vale da morte do poeta Fagundes Varela para analisar os rumos da literatura brasileira. É nessa parte que Eduardo Luz menciona os famosos escritos de Machado a respeito de Eça de Queirós. E assim argumenta: “Eça e Machado tiveram percepções distintas sobre os poderes do realismo (entenda-se naturalismo) literário. Se o primeiro o tomava como um projeto ideológico, capaz de regenerar os costumes de uma burguesia em crise, o segundo o recusaria como teoria e como processo” (...).

Antes da “conclusão”, o manual de Eduardo Luz se encerra com “A pátria cultural” (terceira parte), na qual investiga a última fase literária de Machado: a do abandono da “crítica literária regular” e consequente dedicação aos “seus grandes romances” (Memórias póstumas de Brás Cubas aparece nas páginas da Revista Brasileira, em 1880). O professor carioca-cearense faz uma ‘revelação’ curiosa: “Como gênero, porém, o romance parece não lhe ter sido plenamente satisfatório para a análise da experiência sociocultural brasileira do período. Essa hipótese sustenta-se por sua retomada de um gênero menos cifrado, a crônica, no interior do qual se punha mais à vontade, tanto para interagir com seu entorno como para pensar os lugares da nacionalidade”.

Na “conclusão” de O Quebra-Nozes de Machado de Assis, o ensaísta apresenta trecho da crônica machadiana de onde extraiu o título do compêndio aqui resenhado: “Foi o que me aconteceu (na juventude). Trazia comigo na mala e nas algibeiras uma porção dessas ideias definitivas, e vivi assim, até o dia em que, ou por irreverência do espírito, ou por não ter mais nada que fazer, peguei de um quebra-nozes e comecei a ver o que havia dentro delas”.

Na primeira aba do volume, o professor Roberto Acizelo de Souza sai em defesa de Eduardo Luz e seu inventário quanto a uma possível acusação de fazer “chover no molhado”, tendo em vista a “aura de consagração que envolve a figura de Machado de Assis”. Pois O quebra-nozes de Machado de Assis “se propôs justamente explorar certa dimensão do universo machadiano até o momento pouco analisada. Elegeu assim como centro de interesse a reflexão empreendida pelo autor, no curso de sua extensa obra, sobre três aspectos da produção cultural do País: o teatro, a literatura e as identidades coletivas de extração popular”.

O estudo do professor-doutor Eduardo Luz (também ótimo ficcionista) será de interesse de machadianos de todo o mundo e também de não-machadianos (desde que conhecedores de, pelo menos, parte do conjunto literário desse grande filho do Brasil, criado no Morro do Livramento, no Rio de Janeiro, no século XIX (1839), filho de operário mulato e açoriana vinda para cá ainda menina, e que se tornou um dos pilares da inteligência brasileira).

Fortaleza, 6 de dezembro de 2012.

2 de set. de 2012

As manhãs de Astrolábio


Por Nilto Maciel

Despertava Astrolábio de Órleans e Bragança da Silva quando os primeiros raios do Sol batiam na vidraça do quarto. Pulava da cama, espreguiçava-se e corria ao banheiro. Livrava-se das impurezas, banhava-se demoradamente, barbeava-se com esmero, vestia bermuda apertada e corria, saltitante, pela casa, no rumo do jardim. Olhava para as orquídeas, como se mirasse vulvas abertas, extasiava-se e ia buscar as tesouras de podar. Ao passar pela sala, saltitava feito bailarino. Punha um disco na radiola e dançava abraçado a si mesmo. Ou brincava de amarelinha nos quadriláteros do piso da sala. No jardim, seis olhinhos azuis o vigiavam entre folhas e flores. Atento à rotina, dava conselhos a Chico, Orlando e Carlos. Não miassem, para não assustar as orquídeas. E eles quase nunca miavam e, quando o faziam, ninguém os ouvia. Não caçassem lagartixas em correrias doidas entre as plantas. E eles nunca corriam, quase sempre deitados, sonolentos. Deixassem as borboletas em paz. E os persas mal olhavam para elas.

Duas horas depois, Maria se anunciava para as labutas do dia. Abria o portão, dava bom-dia, queixava-se dos ônibus lotados, dos homens safados, das filas nos terminais, do preço das passagens. Astrolábio fazia ouvidos de mercador, olhos e mãos dedicados às flores. Lá-lá-ri-lá-lá. Podava daqui e dali, até ser chamado para o café. Largava o serviço pelo meio, deitava a tesoura no chão e zarpava no rumo da cozinha. Sentava-se à mesa, mordiscava pão e lambuzava de manteiga os lábios de floridos. E também se queixava, mas das formigas, dos insetos. Maria, esquecida dos homens safados, falava de doces e delícias.

Muito mais tarde, Gertrudes acordava para dar ordens a Maria. Varresse bem a casa, lavasse as cuecas de Astrolábio, catasse o feijão, tirasse as pelancas da carne. Tomado o café, se vestia como uma sirigaita, se pintava toda, lábios vermelhos, rosto de mocinha. Fechava o portão,

guardava na bolsa a chave e saía para a rua, serelepe como sempre. Ia visitar uma irmã, pagar conta de luz, comprar xampu. Regressava na hora do almoço, afogueada, cansada, doida por um banho demorado. E Astrolábio ainda a podar as plantas, conversar com os gatos e insultar os insetos. Galhardo, vamos cantar: Certa manhã destas manhãs cheias de luz, por entre as rosas do jardim eu vi passar gentil borboleta de asas azuis... Chico Viola e Orlando Silva se mostravam descontentes e se retiravam para outras sombras.

Entre uma poda e outra, corria ao barzinho na sala e enchia um copinho de conhaque. Punha na radiola um disco de Noel e cantarolava: Seu garçom, faça o favor de me trazer depressa uma boa média. Tornava ao jardim, com jeito de boêmio.

Noutro dia, beijava o rosto de Dalva de Oliveira e, com voz de moça, cantava: Atiraste uma pedra no peito de quem só te fez tanto bem.

Depois do terceiro conhaque, sentia no rosto a barba crescida e na cara toda a infelicidade do mundo, como se fosse Vicente Celestino. Voltava ao bar e aos discos e inundava a casa e a vizinhava de gritos: Já fui feliz e recebido com nobreza até. Nadava em ouro e tinha alcova de cetim.

No fim de certa manhã, Gertrudes retornou da rua, acalorada e falante. Pacotes e sacolas repletas de bugigangas. Contemplou os gatinhos, que se mexeram. Onde está ele? Os bichinhos nada responderam. Talvez o homem estivesse na sala. No balcão do barzinho o copo vazio. Na cozinha Maria se esfalfava diante das panelas. Por onde andava o jardineiro? Não sabia. Vasculhou a casa toda. E nada de Astrolábio. Restava pedir socorro aos filhos. Correu ao telefone e convocou Noel, Dalva e Vicente. O pai havia sumido desde a manhã. Saiu de casa? Não, ele nunca sai de casa. Só comigo, vocês sabem.

Demoraram a chegar, mas, ao se virem no jardim, se apavoraram. Apenas as orquídeas intactas e belas e as demais flores em pleno viço. Os gatos descansavam à sombra das roseiras. Correram à sala. Na radiola, um disco de Gardel. No bar, o copinho sujo. Voltaram ao jardim. Entre as plantas, uma figura estranha, nunca vista por eles, coberta de folhas e espetada por mil espinhos. Estátua de meio metro, imagem e semelhança de Astrolábio, como se dançasse um balé, sorriso largo, olhar de quem tudo viu e viveu.

 * Este é o décimo conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

25 de jul. de 2012

As sombras de Nirvano

Por Nilto Maciel

Nunca prestei atenção à sombra de meu corpo. Devo ser um homem normal. Quando menino, à noite, brincava de fazer sombras na parede, com as mãos, à luz da lâmpada. Imitava pássaros e cabeças de animais. Como qualquer pessoa, logo deixei de lado esse passatempo e só voltei a ele quando meus filhos nasceram. Vamos brincar com sombras. Como é, pai? Aproximava-me da parede e iniciava a brincadeira. Faz um papagaio. Eles riam.

Dia desses mandei revelar umas fotos e, antes de mostrá-las a Luciana e aos meninos, me pus a examiná-las. Cara de pai feliz, roupa de palhaço. Brincadeira em casa, para alegrar as crianças. Numa das fotos, no entanto, havia uma sombra estranha. Apurei a vista: ao meu lado, no chão, se estendia um vulto esquisito, a lembrar um cachorro. Quatro patas, focinho proeminente. Só faltava latir. Achei aquilo espantoso e escondi a foto. De onde surgira o animal? Não recordo de ter visto nenhum cão ao meu lado no momento da fotografia. Nem poderia recordar, pois não crio cachorro. Como, então, apareciam aqueles contornos caninos aos meus pés? E a minha sombra, a do meu corpo humano, onde se achava? Não mostrei a foto a Luciana nem a nossos filhos. A ninguém. Tive vontade de rasgá-la. Com medo de ser acusado disso e daquilo. Poderiam me chamar de bruxo ou sei lá do quê.

Um dia, estando só em casa, fui ao jardim e fitei a vista no Sol. Eram quatro horas da tarde. A mancha de meu corpo se estendia pela grama e se confundia com as roseiras. E vi um desenho terrível, como o de um rinoceronte extasiado. Teríamos no jardim alguma estátua? As formas de uma roseira poderiam dar a ideia de um animal?

Quando ia ao centro da cidade, metia-me na multidão, para disfarçar as reproduções das linhas de meu corpo em movimento. Olhava para o lado ou para frente, cheio de curiosidade. Se, porventura, alguém ao meu lado ou às minhas costas visse aquelas figuras torpes, aquelas aberrações, aquelas criaturas desconexas, talvez não prestasse atenção a elas. Mas, se algum curioso percebesse no chão um desenho extravagante, o que seria de mim? Poderia me seguir, fotografar as manchas de meu corpo no chão. Certamente eu estaria perdido, se o sujeito levasse as fotos ao serviço secreto ou à cúria.

Em casa, acesas as lâmpadas, evitava andar diante de minha mulher e das crianças. No chão ou na parede surgiriam figuras geométricas absurdas. Cansei de ver mesinhas com cabeças de porco. Luciana talvez não reparasse nisso, olhos grudados na televisão. Bruninha, sentada no meu colo, sonolenta ou saltitante, não se importaria com os sapos, os gaviões e as raposas que se aninhavam aos meus pés ou às minhas costas. Uma noite me assustou: paizinho, você tem medo de corvo? E se meteu em meus olhos. Eu não poderia mentir para ela. Nunca menti. Se a ave for muito grande e ameaçadora (e fiz imitação de um corvo medonho, a voar e grasnar), sentirei muito medo e me esconderei atrás de uma árvore. E se não houver árvore por perto? Correrei para o quarto e me enfiarei debaixo da cama. Ela parece ter entendido tudo, pois se agarrou a mim e disse: não tenha medo, o corvo vai já desaparecer. E sumiu mesmo. No chão havia apenas a sombra de uma menina agarrada ao pescoço do pai.

Em outra ocasião, cheguei à sala e vi aos meus pés um sapo. Tratei de me sentar logo no sofá, ao lado de Luciana. Pois a danadinha da Bruna se ergueu (brincava com bonecas a um canto da sala) e se pôs a pular como um batráquio, perninhas encolhidas, mãos no chão. E gritava: olha, papai, olha, mamãe, eu sei imitar uma perereca. Dei um grito de pavor e minha mulher quase perdeu os sentidos. Nirvano, você está doido? Veja esse monstro (a reportagem mostrava um homem sem camisa, algemado, cercado de policiais, acusado da morte de um velhinho). Matem-no, matem-no! Eu gritava, possesso. Bruninha continuava a pular e a me irritar.

Passei a conduzir objetos, para ocultar minha suposta aparência de bicho. Primeiro comprei um chapéu de abas largas. Ao chegar à casa, Luciana tomou um susto. Nirvano, onde você arranjou isso? Comprei numa chapelaria. Para quê? Para me livrar do sol.

A reprodução de meus contornos se tornou mais tosca ainda. Depois comprei um sobretudo, que carregava no braço ou no pescoço. Com esse calor todo, essa roupa pesada não lhe fará bem. Propus irmos morar numa cidade onde todo dia chovesse. Luciana se irritou mais uma vez. Jamais iria morar numa cidade onde o sol não brilhasse todo dia. Adorava calor, praia. Não deixaria Fortaleza nem por Paris.

De chapéu, sobretudo enroscado ao pescoço, calças largas, bengala ou guarda-chuva, eu andava pelas ruas a ver orangotangos, gorilas, girafas, os mais selvagens bichos. Algumas pessoas riam baixinho. Outras paravam, quando por mim passavam. Certa vez também parei na calçada. Um rapazinho gaiato me encarou com ares de deboche. Ele se tinha postado a cinco ou seis metros de mim. Franzi a testa, empertiguei-me e fiz menção de persegui-lo, bengala em punho. Ele correu, apavorado.

Tenho estado ranzinza em casa. Exijo escuridão completa no cômodo onde eu estiver. Nada de lâmpadas acesas. Ando com os olhos a arder. Além disso, para que gastar tanto? Luciana se irrita. Vá ao oftalmologista. Adora claridade. As crianças não aceitam brincar no escuro. Então corram para seus quartos. Lá podem brincar à vontade.

Ultimamente os animais têm dado lugar a seres imaginários, mitológicos. Minhas sombras não são mais imitações de cavalos, leões ou águias. Dia desses passaram por mim uma senhora e uma criança. Ouvi a vozinha dizer: mãe, no chão tem um anjinho. Mirei os meus pés: era verdade, um anjo torto andava ao meu lado.

 * Este é o nono conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

2 de jul. de 2012

O albergue

Por Nilto Maciel

Há muito tempo cheguei ao albergue. É assim que chamam este lugar. Para mim é uma fazenda. Vejo bois no pasto, peões andam para lá e para cá, capatazes armados fumam cigarro de palha, cobrem o rosto com enormes chapéus caídos, cospem com estardalhaço. O movimento das pessoas é intenso, dia e noite. Ouve-se música ao longe. Multidões gritam, aplaudem. Não sei se são shows ao vivo ou meras transmissões por rádio. Não ouso tirar a dúvida. A música não me agrada. Outras vezes me parece não se tratar de fazenda e sim de prisão, manicômio ou casa de recuperação. Não cometi crime nenhum, não sou doido, nunca usei drogas. Então, por que estou aqui? Mais uma pergunta feita a mim mesmo. Ora, os outros também não me fazem perguntas desse tipo. 

Se não me engano, há uma placa enorme na entrada, a indicar que estamos num albergue. Ou terei sonhado isto? E se não for albergue, mas fazenda ou prisão, minha vida e a dos outros mudará? Nunca perguntei onde estamos e ninguém nunca me fez perguntas desse teor. Mais estranho ainda é não saber em que tempo estamos. Dia desses vi Jesus a carregar uma cruz. Soldados davam-lhe chicotadas. Mulheres choravam e nada podiam fazer. Estaremos no ano 33? Não, isso é teatro – explicou-me Pedro. Não ouves o rádio, Rodarran?

Todo dia o emissário do rei chega. (Já ouvi falarem em rei, tenho certeza disso, e também em rainha. Não sei se se trata da mesma pessoa.) O alto comissário (assim também o chamam) desce da carruagem (como explicar isto, se estamos no tempo do rádio?), dá ordens ao cocheiro e aos ajudantes e, apressado, botas rústicas e sujas de lama ou poeira, roupa de couro, escura, barba grossa, dirige-se ao diretor (também chamado de gerente) e se encaminha para as celas (que chamam de quartos, apartamentos, casas). Volta horas depois, calmo, mas ainda apressado, a gritar “vamos, vamos, antes que anoiteça”. Dirige-se aos curiosos, para que se afastem, e ao interno que o segue.

As explicações para essas visitas do mensageiro do chefe (há também esses termos) são as mais disparatadas. Todo mundo fala pouco ou quase nada, aos sussurros, e somente quando tem certeza de que não está ao lado de um delator. São poucas as pessoas com quem converso. Pedro é uma delas. Mesmo com ele, tenho o máximo cuidado. E quase sempre espero pela iniciativa dele. Ontem levaram José. Para onde? Para uma viagem longa, a um reino muito distante. Nem sabe se voltará. Tem parentes lá? Não soube me dizer.          

Lembro bem de outros viajantes de quem nunca mais ouvi falar. Ieda partiu há mais de ano. Disseram ter ido visitar o reino, isto é, a sede do reino, também chamada de coroa. Não se sabe por quê. Na verdade, ela nunca me disse ter vontade de visitar a capital. Mas ninguém mais fala dela. Pedro me parecia confiável, embora saiba demais. Chego a acreditar em traição. Parece-me andar me rondando. Já o vi, noite dessas, atrás da vidraça de meu quarto. Tomei um susto e ele sumiu na escuridão. No outro dia perguntei se estivera a me espionar. Espantou-se e negou. Por que iria me observar? Mas tenho quase certeza de que é protegido. Pois nunca o chamaram a viajar. Já o encontrei aqui. Há muitos anos vive no albergue, informou um rapaz, dias depois. Por coincidência, passado um mês desse rápido diálogo, o jovem viajou, para sempre.

Quase todo dia me contam novidades. Ou as descubro. Gosto de especular a vida alheia. Hoje perguntei por aquele homem raquítico (não sei o nome dele) que fuma e bebe sem parar, e passa as noites a ouvir Pixinguinha. Como nunca mais o vi, queria saber se o tinham levado à presença do maioral. Dias antes o coitado se salvou por pouco. O alto comissário se aproximou de nós e perguntou se conhecíamos um “poeta” (usou esta palavra, de forma enfática) apaixonado por Pixinguinha. Salvou-o um sujeito com cara de bobo: Oh! Como está o nosso Pixinguinha? Toca tão bem! Distraído, o mensageiro mudou de assunto e perguntou pela moça bonita que gostava do cangaço. Não a conhecíamos. O homem então embarafustou pelos corredores, a carregar uma porção de fichas.
Tenho poucos amigos, como Jorge e Cândido. Andam sempre com Pedro. Mas não desconfio deles. Isto é, não os vejo como delatores. Jorge gosta de contar piadas, até com os nossos colegas que viajam e nunca voltam. Às vezes conversa com o emissário da coroa, faz brincadeiras, imita o sujeito, que ri e se retira de mansinho. Ontem perguntou por José. Vai bem. Está até escrevendo um livro. Perguntou também por Ieda. Esta é amiga do rei.

Todo dia chegam levas e levas de moradores: gaúchos, cearenses, italianos, japoneses. Não se misturam logo aos mais antigos. Vêm desconfiados. Falam pouco, evitam conversa comprida. Cândido tentou se aproximar de uns gaúchos. Rechaçaram-no. E até o acusaram de traição, pois no dia seguinte um deles foi conduzido, educadamente, à sege vinda do reino. Por que vais viajar, tchê, se mal chegamos? Ele ria, chimarrão na boca. Eu volto logo.

Dos que partem para o centro do reino temos vagas notícias, nos primeiros tempos. Aos poucos, porém, todos se vão esquecendo deles. De vez em quando alguém se lembra de fulano, no meio de um jogo de cartas. Os outros fazem ouvidos de mercador.

Nossa maior diversão continua sendo baralho, dominó e, às vezes, xadrez. Passamos horas e horas nisso. Olhamos para os bois no pasto, vemos os peões azafamados, no horizonte nuvens escuras anunciam chuvas fortes, depois escurece e cada um volta ao seu lar.

Como se chamado por uma voz inaudível a nós, Pedro costuma se retirar do jogo, sem explicação. Talvez vá fazer anotações. Jorge, muitas vezes, esquece de jogar a carta ou mexer a peça no tabuleiro, como se estivesse em outro mundo. Retira do bolso uma caneta (desconfio de que não seja caneta), afasta-se, às pressas, esconde-se atrás de uma árvore ou de uma pilastra e fala baixinho. Volta à mesa, rindo, e se despede dos parceiros. Precisa visitar alguém.

Quase sempre fico só, a baralhar as cartas ou arrumar o tabuleiro, porque também Cândido some feito sombra. Não sei mais se deva confiar neles. São muito esquisitos. Não poucas vezes flagrei Jorge e Pedro em confabulações misteriosas, em falas baixas. Quando me veem, aumentam o volume das vozes, riem e me abraçam efusivamente, como se pela última vez.


 * Este é o oitavo conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

25 de mai. de 2012

Dez libras esterlinas

Por Nilto Maciel

Enterraram minha alma na Rua de Matacavalos e na praia da Glória, cercanias de meus sonhos, arredores da infância. Meu corpo descerão à cova funda em algum cantão, para lá de meus olhares. Com ele desaparecerão os idílios de menina, os olhos de ressaca, desvãos de ser. Entregaram-me às frias suíças do senhor abandono, eu sonhadora de ruas infinitas, alamedas de ipês, jardins de nunca mais. Tudo por dez libras esterlinas. Ou porque Ezequiel, o ausente, o renegado, tem os olhos voltados para si mesmo, como Escobar. Ou o mesmo modo de voltar a cabeça e os mesmos gestos das mãos e pés de Escobar.

Aqui nestas paisagens antes vistas somente em livros, revejo o quintal de Matacavalos, o muro em que desenhei meu nome e o de Bentinho, aquela paixão, aquele amor brotado do chão, de nossos pés inquietos, de nossos olhos que viam até o invisível. E por onde andas, meu filho? Por que queres tanto o desconhecido, o insondável, o inatingível, o fim de mundo? Por que não voltamos às praias de nossa cidade? Em teus olhos vejo tempestades que, longe, se aproximam. Vejo fagulhas no horizonte. E lavas de lágrimas nos meus campos.

Tudo vão em mim. Os sonhos de ser mãe, de viver um amor eterno, de ser conduzida em carruagens de ouro – nenhum deles se concretizou. Porque Ezequiel é incompleto para mim. Nasceu, existe, mas é como se tivesse nascido depois de tudo ou existisse além de mim.

Juntei moeda após moeda e as guardei como quem guarda segredos. Sobras do que me dava Bentinho para despesas mensais. Escondi-as com cuidado e medo, como quem oculta pedaços de solidão debaixo do travesseiro. Moedas que nunca se transformaram em riqueza, em ouro, em potes de ouro. Pois elas rolaram num repente, como se vivas fossem, rodaram no rumo do mar, do abismo. Giraram diante de nossos olhos e nada pudemos fazer, nem eu, nem Bento. Rolaram e atrás delas fomos. Primeiro Escobar, em braçadas de náufrago. Entanto, as moedas desciam ao fundo, pelo peso delas, pelo fulgor do sol, pelo calor dos dias. Corremos também eu e Bento, separados, desunidos, como se fosse possível reavê-las, impedir o seu sumiço, em sua inexorável descida ao fundo de nós mesmos. Descaímos para o abismo, atrás daquelas libras esterlinas, e nele afundamos. E tudo se deu aos poucos. Minha queda teve início no dia em que confidenciei a Escobar a vontade de juntar dinheiro e transformá-lo em ouro. Não, minha queda vem de muito antes. Vem do tempo do seminário. Bentinho me falava do novo amigo Escobar. Realçava suas qualidades, como a de saber calcular depressa e bem. Os anos passavam e mais Bento se afeiçoava a Escobar. Quando este se fez negociante de café, Bentinho passou dias e dias a prever riquezas para o amigo. Quando se conheceram, pareceu-me encantado. Falou-me dos olhos, das mãos, dos pés, da fala do outro. Não senti ciúmes, porque estes ele os tinha em profusão. Mais do que apólices no cofre. Além disso, não bastassem os ciúmes, José Dias vivia a lhe encher o espírito de maledicências de mim.

Para que queres ouro, Capitu? Eu me calei. Eu queria muito ouro, como o dos tesouros antigos. Ouro em barras, em joias. Mas como fazer isto sem que Bentinho desconfiasse? Numa das nossas visitas a Escobar e Sanchinha, em Andaraí, aproveitei uma distração de Bento e me refugiei no jardim. Escobar me seguiu. Postei-me atrás de uma árvore. Ele se aproximou, a passo lento, e parou às minhas costas. Senti a sua presença. Não seria a de Bentinho. O cheiro de um e de outro não se confundia. Virei-me. Ele enfiou os olhos nos meus, sorriu. O que eu escondia? Em um instante, disse-lhe tudo. E onde estão as libras, cunhadinha? Ele assim me chamava quase sempre. De Capitu não queria me chamar. Por quê? Marquei encontro em minha casa. Fosse numa hora em que meu marido estivesse ausente. Eu não imaginava outra coisa, senão ouro.

Tive um sonho enigmático há poucos dias. Éramos crianças e brincávamos os três: eu, Bentinho e Escobar. Mas como isto se deu, se não conheci o finado ainda menino? Talvez fosse Ezequiel. Andávamos por um quintal vasto e tenebroso. Havia árvores aqui e ali. Muros não se viam. Eu propunha: vocês ficam aqui e eu irei me esconder. Quem me achar primeiro ganhará um beijo. E dez libras esterlinas. De onde você tirará essas libras? Ora, bobinhos, cada um de vocês me dará cinco libras de faz-de-conta. E corria entre as árvores. Os passarinhos voavam pelos galhos, cantavam, pousavam numa e noutra árvore. Eu parava, não me deixava ver, ouvia passos e novamente corria. Mais adiante me ocultava atrás de uma pedra. E ouvia passos vindos do lado oposto àquele por onde andavam os meninos. Quem estaria ali, além de nós? Súbito via diante de mim enorme serpente: Queres provar o fruto do amor? Ou o da riqueza? Que queres mais, menina? Assustada, eu corria de volta e me deparava com Escobar, que me abraçava e beijava. E atrás dele os olhos de Bentinho me chamavam de pérfida. Empalidecida, eu recuava. Bento, irado, empurrava o outro para as águas do lago. Escobar caía n’água, afogava-se, debatia-se, afundava. Eu gritava: vamos socorrê-lo, ele está se afogando. Bento parecia possesso. Não, não irei salvá-lo. No entanto, Escobar emergia e caminhava até nós. Eu não disse que ele se salvaria? Veja os músculos dele. E apertava o braço de Escobar.

Sonhos como este se repetem com frequência. Estou sempre acusada, acuada, perseguida, humilhada. Fora dos sonhos, vivo de solidão e saudade. Principalmente de Matacavalos e da praia da Glória. O primeiro beijo, o calor que me envolveu durante dias e dias, a sensação de estar a me queimar, como se minha alma se abrasasse.

No último sonho, o de hoje, Bentinho se sentava à beira da cama. Eu agonizava. Ele me confortava: vou te curar. Mas terás de engolir estas dez libras. Escobar se aproximava: o que estás fazendo? Verás. Ao ingerir a primeira, Ezequiel, o filho de vocês, desaparecerá, como se não tivesse nascido. Não será sequer lembrança. Não terá passado de desígnio. Mas tu a matarás com isso. Não, eu não a matarei. Extinguirei, sim, a minha dor. A segunda pílula libertará Capitu do exílio, como se a Suíça não houvesse, como se o vapor que a trouxe até aqui nunca tivesse atracado em porto brasileiro. Devorada a terceira libra, estarás em Catumbi. Não continues, Bentinho, isto é loucura. Loucura é te ver aqui. Vai, assenta-te na tua sege de luxúria, vai passear com as tuas bailarinas, enfeitar de ouro o pescoço delas. Vai, meu comborço. Pois ao deglutir Capitu a quarta libra, tu te matarás no mar. Darás braçadas e mais braçadas, como se buscasses o inacessível, e, cansado, sucumbirás e serás conduzido sem vida à areia. Na quinta dose, estarás no seminário e falarás a mim tuas iniquidades. Consumida a sexta, viveremos, Capitu e eu, dias e noites sem fim e sem princípio. Na sétima falarei de estrelas para Capitu, que olhará para mim como se eu fosse o céu. Ao ingerir a oitava libra, estarei rapaz, serei bonito e Capitu me adorará. Chegada a nona, deixarei o seminário e, livre, buscarei Capitu. Ao introduzir na boca a décima poção, estaremos em Matacavalos, seremos crianças, tu não existirás para nós, eu a beijarei, farei suas tranças, estarei em seus olhos, tragado por eles – mar em que desde sempre estive afogado e para sempre estarei. E seremos como deveríamos ser: eternos.

 * Este é o sétimo conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

28 de abr. de 2012

Em busca do sol


Por Nilto Maciel

Moravam no vigésimo andar. Noronha, quando voltava do trabalho, à noite, tomava banho e, durante o jantar, conversava com a mulher e os filhos. Logo os meninos voltavam a brincar e Irene se derramava no sofá diante da televisão. O homem sorrateiramente se encafuava num quarto, para ler e escrever. Havia quase vinte anos escrevia e reescrevia a mesma história: “Quando a carroça parou à frente de nossa casa, minha tristeza aumentou. Os homens carregavam os móveis. O burro comia capim. Mamãe dava ordens. Cuidado com o pote! Deixava para trás amiguinhos, a calçada, a rua, a própria casa, o quintal. Os poucos móveis logo encheram a carroça. O maior deles talvez fosse a mesa de refeições. O fogão de alvenaria, construído no chão, não poderia ser levado”.

Finda a novela, Irene agarrava um caderno e se punha a fazer contas e mais contas. Só se descuidava dos números quando Zenóbio a procurava, aos prantos. Ele está me fazendo medo. Quem? Só pode ser o Ari. Resolvida a pendenga, voltava ao caderno. Como juntar muito dinheiro para comprar três apartamentos, um para cada filho? Fazia cálculos astronômicos, riscava, rabiscava.

Havia quase vinte anos Noronha estudava línguas. Tencionava dar à sua história outras feições. Traduzia para o francês o trecho: “Ao final da tarde, após a saída da carroça, fechadas porta e janela, seguimos nós, mamãe e os meninos, a pé, rumo à nova casa. Uma tristeza sem fim. Quando veríamos de novo os amiguinhos, a casa, a rua? Ora, poucos minutos de caminhada separavam uma casa da outra. Para mim, no entanto, era como se estivesse deixando meu país e me retirando para muito longe, me exilando”. Finda a tradução, reescrevia o original: “Sol posto, a carroça pesada, o burro trôpego...”.

Durante meses estudou grego. Como não conseguisse aprender nada, trocou o grego pelo romeno. Desiludido, voltou ao inglês. Economista, trabalhava no Banco Central. Gastava os dias a ver normas, tabelas, gráficos, números, manuais. De noite desejava esquecer tudo aquilo e se dedicava à sua reminiscência infantil. Estudou sânscrito, latim, alemão. Disso, porém, ninguém sabia. Como não sabiam de sua história. Não a mostrava a ninguém. Nem mesmo a Irene. Se a ela perguntavam as amigas: Que fazem vocês à noite? Ela respondia vagamente: Assisto às novelas, enquanto Noronha lê. Não vão a cinema, shopping, restaurante, teatro?

Noronha gostava também de aeromodelismo. Passatempo de fim de semana. Mal o sábado começava, saía de casa para soltar aviõzinhos muito coloridos e barulhentos. Lembravam-lhe as pipas da infância. Quando passou a sentir preguiça ou desânimo, convidou os filhos para irem ao campo. Aristarco pareceu o mais interessado. Queria pilotar um daqueles aviões. Noronha riu. O menino projetava voos para além das estrelas. Fugir da cidade. Zenóbio não gostou nada dos aviões. Apetecia-lhe voltar para casa e brincar com os anõezinhos de plástico. Se o pai pudesse ficar com o irmão, melhor ainda. Assim, não seria importunado por Ari e suas conversas esquisitas.

Nos fins de semana e de noite Irene andava para lá e para cá, sempre a ralhar com os filhos, quando cansava dos cálculos para a compra dos apartamentos. Também trabalhava no Banco Central. Noronha lhe arranjara uma bela função: ler relatórios. Bastava ler. Nada de comentários, explicações. Ninguém cobrava resultados. Lesse ou não lesse, garantia-se o salário no fim do mês. Mais uns cobres para a poupança. Mais uns tijolos para os três apartamentos. Arredia, quase nada falava às colegas. A não ser dos filhos. Vocês casaram tarde, não foi? Com quase quarenta anos. E como são os meninos? Uns capetas. A amiga ria. Toda criança é assim mesmo. Irene se queixava mais ainda da menina Flora. Não larga o pai. Parece que o quer para marido. A colega olhava assustada para ela. Essa mulher deve ser louca. Zenóbio, o outro menino, também um diabo, porque não parava de implicar com Aristarco. Consumia o tempo todo a enredar: Ele está me dizendo que os seres estão atrás da cortina. Estou com medo. A menina, sem calcinha, vez por outra corria e se jogava nos braços do pai. Ele a acolhia, abraçava-a e percebia a falta da peça íntima. Tocava em seu sexo e perguntava por que ela não vestia a calcinha. Ela ria e mais se agarrava a ele. A mulher se aproximava e fitava o marido: Por que você vive agarrado a ela? Parece que é tarado? Ele se defendia: A bichinha vem para mim, querendo carinho. A menina ria e voltava ao quarto, aos brinquedos, às bonecas de pano por ela mesma feitas. Todas semelhantes à mãe. E espetava agulhas na bunda das bonecas.  E ria, de prazer sádico. Muitas e muitas calcinhas da menina a mulher encontrou nas gavetas da mesa de estudos do marido. Noronha, para que você quer as calcinhas de Flora? Ele se assustava. Eu não sei como vieram parar aqui. Deve ter sido Florinha. A mulher voltava aos cálculos. Desejava saber de quantos anos de trabalho precisava para poupar o dinheiro da compra dos imóveis.

Aristarco vivia pelos cantos a falar com seres invisíveis. Dizia para o irmão: Eles estão escondidos por aí e vão aparecer a qualquer hora. Eles quem? Não posso dizer. Eles não gostam de mexericos. Via seres pequeninos pelo apartamento. Eles vão aparecer e nos atacar. São malvados. Zenóbio empalidecia, tremia todo e corria para a sala, em busca de salvação. A mãe se zangava. Parasse com aquela conversa idiota. Não a interrompesse mais.

Um dia, Aristarco se escondeu detrás do sofá e ouviu uma conversa dos pais: Precisamos levar Arizinho ao psicólogo. Melhor levá-lo ao psiquiatra. Zenóbio me contou tudo. Ele vive falando de uns seres invisíveis, escondidos na casa, prontos a nos atacar. Talvez seja doido, e nós de nada sabemos. Precisa de tratamento. Poderemos até interná-lo. Coitado! O menino se apavorou e correu para o quarto, a conversar com os amiguinhos ocultos. Na sala a conversa prosseguia: Ele pode tentar o suicídio. Pular? Sim, pular do vigésimo andar. De noite acorda e sai pela casa. É sonambulismo, meu bem. 

No outro dia, o casal contratou um homem para pôr grades nas janelas. Ninguém prestava atenção ao trabalhador. Os meninos brincavam, Irene fazia cálculos na sala, Noronha lia, relia e reescrevia sua reminiscência: “Dias depois, minha irmã Dalva veio passar férias. E com ela chegaram umas cadeiras de palha grandes”.

Ao ver as grades, Aristarco se espantou. Precisava fugir o quanto antes. E se pôs a arquitetar o plano de fuga. Levava horas e horas dentro de armários, trancado no banheiro, a confabular com os amigos imaginários. E um dia, numa tarde antes de o Sol se pôr, diminuiu-se o mais que pode, tornou-se do tamanho dos inquilinos invisíveis, colou ao corpo umas asas de papelão e voou pela janela, apesar das grades. O pai o viu sair, se aterrorizou e gritou: Volta, Arizinho, volta. E gritava pela mulher e pelos outros filhos. Ele fugiu, ele voou. Venham ver. Está a caminho do Sol. E lá no céu o menino voava, pequenino, quase nada, a sumir no rumo da grande estrela. Flora deu um salto e se lançou nos braços de Noronha. Pai, compra mais uma caixa de agulhas. Zenóbio correu para o quarto, contente por estar só e poder jogar com os anõezinhos de plástico. Ainda bem que ele foi embora. Irene deu adeus ao filho, até não vê-lo mais, e correu para o caderno de contas. Não precisava mais de tanto dinheiro. Dois apartamentos bastavam. O homem, conformado com a perda do filho, voltou ao quarto e abriu o caderno: “Minha irmã trouxe também uma mocinha chamada Mariinha. Pequenina, bonita, sapeca. Para mim uma boneca viva e muito maior do que eu”. Pela janela o menino passou, a voar, rindo sem parar.

 * Este é o sexto conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

25 de mar. de 2012

Quando outro passarinho passar

Por Nilto Maciel 

Januário passava o dia a sonhar com passarinhos e sardinhas. Cochilava e sonhava com os mais variados tipos de bicho. Como queria comê-los, devorá-los! Vivia no sexto andar, com todas as regalias do mundo. Mas queria ser deputado ou senador. Viver numa mansão do Lago Sul. Perto do lago, dos peixes, embora odiasse água. Apesar de viver a sonhar, não podia se queixar da vida. Comia do bom e do melhor. Traziam-lhe comida de primeira. Davam-lhe água pura, leite. Dormia bem. Nem se lembrava mais do tempo em que só pensava em matar e esfolar ratos. Sentia-se perfeitamente domesticado, civilizado. Até assistia às novelas da televisão. Mas logo se aborrecia com aquele falatório sem pé nem cabeça. E cochilava ou se retirava da sala. Não se lembrava nem do tempo em que vivia numa jaula ou gaiola. Terá acontecido isso mesmo? Às vezes imaginava fatos e muito depois descobria ser tudo fruto da imaginação. Ou andava pelas ruas, morto de fome? Chutavam-no? Não, não se lembrava disso. Na verdade, nem sabia o que era um rato. Ouvia falarem, vez por outra, desse tipo de bicho. Mas não se preocupava com aquilo. Conversa de homens e mulheres. Não lhe dizia respeito aquilo.

No apartamento viviam ainda dona Mariana, que cuidava dele como se cuidasse de deus; seu Osmundo, que o tratava como a um rei; o grande Astúrio, 16 anos, que olhava para ele com carinho, mas logo se irritava, estirava-se no sofá com tênis sujo; e Mafalda, 15 anos, que de vez em quando lhe fazia afagos. Gostava deles. Não o tempo todo. Pois aqui e ali surgiam breves dissabores. Como quando doutor Osmundo (era assim que tratava o dono da casa a empregada) tomava uns conhaques, passava a dançar na sala, ao ritmo de sambas antigos, ria sem parar e se atrevia a dar-lhe piparotes nas orelhas. Não, não gostava daquilo. E corria para o mais fundo do ambiente, um quarto onde se amontoavam sacos e latas de mantimentos. Só saía de lá muito depois, quando tudo sossegava na casa, o doutor arriava no sofá ou na cama. Dona Mariana não tomava conhaque nem gostava de samba. Por isso não o aborrecia quase nunca. Ela, sim, se aborrecia quando o marido voltava tarde da noite. Ia e vinha pela casa, a falar, a chorar. Transitava pela casa e nem me via, como se passasse por uma pedra. Aquilo me deixava triste. Outro que me contrariava vez por outra era o menino. Assustava-me quando abria a porta do quarto e aquele som de mil decibéis invadia a casa toda. Parecia um louco, a berrar (dizia que cantava) umas palavras sem sentido. A menina imitava a mãe: caladinha, quase sempre. Isso me enfadava também. Perdia horas diante do computador, a rir baixinho. Por que não passava a mãozinha na minha cabeça? Eu adorava esse tipo de carinho.

A empregada, dona Eunica, o tratava bem, mas vivia brigando com ele e ouvindo música do rádio. Uns forrós muito chinfrins. Por nada ralhava com ele. Sai daí, bicho dorminhoco. Ele olhava para as árvores e os passarinhos, pela janela de vidro, sempre fechada. Via os passarinhos voando lá fora, no alto, perto das árvores e do céu, e queria pegá-los. Como, se a vidraça estava sempre fechada? Um dia pegaria aqueles passarinhos. Nem que fosse num voo espetacular, celeste. Nesses pensamentos, pegava no sono. E sonhava no paraíso. Sombras e mais sombras de árvores enormes. Peixes pequenos nadavam na beira do lago. As águas dançavam lentamente. Não havia cachorros por perto. Nem latidos se ouviam. O céu parecia um campo de plumas azuis e brancas. Ninguém o incomodava. Não o chamavam de preguiçoso ou dorminhoco. Não o agarravam pelas patas. Homens, mulheres e crianças havia, mas nenhum deles o ameaçava. Passavam ao largo, olhavam, sumiam. Acordava com uma pulga atrás da orelha. Aquilo não podia ser verdade. Aquilo não existia, nem ali nem muito longe. Melhor sonhar acordado, sonhar possibilidades. Como ser deputado ou senador, para nada fazer, ganhar muito dinheiro, andar para lá e para cá, falar, falar e ser respeitado. Ou morar no Lago Sul, perto do lago. Depois rir do sonho impossível e ficar quieto, perfeitamente satisfeito com a vida.

Januário não se aborrecia quase nunca. Certa feita, porém, apareceu um sujeito em visita ao doutor. De início, de longe, até simpatizei com ele. Pensei em dar-lhe um susto, por brincadeira. Aproximei-me dele, devagar. Pois não é que o idiota olhou para mim e sapecou a pergunta: Qual o nome dela? Ora, me chamar de ela! Dona Mariana saiu logo em minha defesa: Ele já é um senhor, tem até barbas brancas. Respeite o meu Januário. Eu me enfunei todo, passeei pela sala, dei meia-volta e corri para o meu quarto, irritadíssimo.

Uma tarde, quando todos dormiam ou liam ou estudavam ou lavavam louça ou não se encontravam em casa, a empregada deixou a vidraça aberta, um passarinho riscou o céu feito uma flecha, outro passou no rumo das nuvens, e ele, Januário, se preparou para pegar o próximo aventureiro. O instinto falava mais alto. A civilidade ia por água abaixo. Os hábitos ancestrais de caçar renasciam. A sanha de matar ressurgia nele. Domesticado coisa nenhuma! E saltou através da janela, em busca do pássaro.

 * Este é o quinto  conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

25 de fev. de 2012

Luz vermelha que se azula

Por Nilto Maciel 

Quase todo dia Dirceu saía de casa à tarde e só voltava à noitinha. Sentava-se num banco da Praça do Ferreira para sentir no rosto o tempo em que aqueles ventos lhe pintavam a alma de ventura. E via, extasiado, o rebolar-se das ancas das moças faceiras. “Para que tanta perna, meu Deus, pergunta meu coração”. Em casa, Marília sentava-se no sofá para ver a novela da tarde na televisão. Nos intervalos, chamava Isaura e dava ordens: fosse ver cartas e cobranças na caixinha de correio; passasse pano molhado no chão; preparasse o jantar. Dirceu perambulava pelas ruas do centro, a ver navios ancorados nos olhos das meninas. Conhecia todas as comerciárias, que cumprimentava sorrindo, e lhes dava beliscões nos braços roliços. Vez por outra comprava cuecas, lenços, vidrinhos de perfume. Isaura se esfalfava de tanto ir e vir. Dona Marília se inquietava no sofá e corria para o escritório do marido. Vai, menina, deixa de ser lerda. Abria gavetas, como se abrisse pernas; folheava livros, como se desvendasse vaginas. Nunca, porém, soube onde se escondia o caderno secreto de Dirceu. Seria um diário? Naquela idade escrevendo diário? Só se estivesse ficando doido. Ao voltar, ele primeiro vistoriava o escritório. E gritava: Isaura, você andou mexendo nas minhas coisas? A moça se apequenava mais ainda. Encolhia-se toda, como se quisesse desaparecer. Vá embora. Fechava a porta, abria a gaveta, retirava o caderno de capa azul, lia uns trechos. “Eu tinha apenas 25 anos de idade e toda a irresponsabilidade do mundo. Por toda parte só se ouviam louvores ao Brasil e à seleção de futebol. O tri-campeonato se aproximava”. Fazia tudo ao contrário, aborrecido: guardava o caderno, fechava a gaveta, abria a porta. Marília compulsava álbuns de fotografias. Olhe os meninos, Dirceu, como eram lindos! É, mas hoje são homens e mulheres feitos e criam seus filhos. Deixe de lembranças bestas. E se afundava no sofá, cansado. Não ia tomar banho? Ia, quando sentisse vontade. Isaura passava por eles a caminho do jardim. Não passaria dele, do portão. E nele não se perderia, entre as poucas roseiras. Nunca saía de casa sem autorização ou mando. Veja se os passarinhos sujaram tudo de novo.          
                                                                                              ***
O que Dirceu anotava no caderno ninguém sabia, porque a cada frase nova de sua história se seguiam outras de alguma prosa estranha: “Evelina nunca mais a vi nem verei. No pátio do colégio os padres corriam em gritaria. Meninos se agitavam ao redor de bolas”. O caderno voltava ao fundo da gaveta e Dirceu se punha a manusear um dicionário. “Embriagado, saí pelas ruas sem rumo. Queria aventuras de carnaval. Servia qualquer mulher nova”. Apertava a cabeça, como se fosse chorar. Iam para anos aquelas anotações, aquele tormento. Almoçava, ligava a televisão. O presidente da República se preparava para conhecer Moscou. Marília coçava a cabeça, olhava de soslaio para o marido. Vai sair hoje? Ele se fazia de desentendido: parece que viaja amanhã. Isaura passava diante deles, pano pendurado na mão. No exato momento em que a repórter bonita falava. Vê se desaparece da sala, menina.
                                                                                                            *** 
Dirceu saía da Praça do Ferreira pela Rua Guilherme Rocha no rumo da Praça José de Alencar. Topava com ambulantes, livrava-se de transeuntes e bêbados, postava-se diante do teatro. Ainda assistiria a uma peça de fama com Marília. Bastava criar coragem. Sai do meio, velho. Meninos pediam moedas. Meninas coçavam cabeças cheias de piolhos. Dirceu deixava a praça e alcançava a calçada da Rua Liberato Barroso. Ia de novo para a Praça do Ferreira. Em casa, Marília caçava borboletas no jardim. Vem cá, Isaura, vem ver que maravilha. O sol da tarde queimava os cabelos claros da sertaneja. Fica aqui, cuida das plantinhas, que eu preciso ver uns álbuns. Abria a porta do escritório, trancava-se e se punha a folhear dicionários. Num papel lia: “Os pássaros bicaram minha saudade. Por acaso encontrei a filha de Ester na rua. Vestia minissaia colorida, de carnaval, não usava sutiã e se abraçou a mim. Nos matos andam perdidos estranhos homens de palha. Você é a Evelina, aquela menininha magra e feia? Como cresceu! Espantalhos de outros tempos. Ela cambaleava. Andou bebendo? Só um pouquinho? E está indo para onde? Para qualquer lugar. Eu vou para o clube. Então vamos juntos”. Ora, ali estava o pecado. Quis retirar o papel de dentro do livro. Ou Dirceu estaria preparando uma armadilha? Fechou o livro grande, tentou abrir a gaveta. Por que aquela coisa fechada a sete chaves?
                                                                                                  ***
De volta para casa, Dirceu passava pela padaria e comprava pães quentes. Isaura se afogueava diante da panela. Marília se dedicava às fotos e fofocas de uma revista, esparramada no sofá. Você sabe daquela sua prima de nome Ester? Ele nem olhou para ela. Chamou a doméstica para receber os pães. Para que desenterrar defunto? Ah! ela morreu? Faz tempo. Tinha uma filha chamada Evelina? Ele se perturbou e caminhou rápido para o banheiro. O que queria dizer Marília? Trancou-se e urinou pouco. Aquela conversa o deixava nervoso. Como não falar mais naquilo? Precisava inventar logo uma história maravilhosa. Um assalto no centro. Saiu a puxar o zíper da calça. Você não sabe o que vi agora, Marília. Pois quase morri de susto. Dois assaltantes passaram por mim correndo. Pôs-se a apimentar a história. Olhos arregalados, Marília examinava aquele homem mentiroso. Agarraram o homem por trás. Isaura apareceu: iam jantar pão com sopa?
                                                                                                    ***
Dizia para Marília que escrevia um romance. Ora, você nunca foi disso. Passou a vida toda lendo códigos. Sem ter o que fazer, pensei em escrever uma história. Estou inventando tudo. Nada vai ser real. Saía depois do almoço e só voltava à noitinha. Passava horas a perambular pelas praças e ruas. Fui à Gentilândia. Fazia tempos que por lá não aparecia. Está tudo ou quase tudo como antes. As mesmas casas, as mesmas árvores. Talvez as mesmas pessoas. Isaura se apresentava calada: falta algum tempero? Acabou-se o sol. Riam. O sol não, talvez o sal, menina maluca.
                                                                                                    ***
Alta noite, Dirceu acordava, abria a geladeira, bebia água e corria para o escritório. “O que aconteceu não lembro mais. Bebemos muito e dançamos”. Marília dormia ou fingia dormir. Do dicionário aberto saltavam palavras de todos os tamanhos. “Os pequenos seios dela roçavam em meu peito”. Talvez fosse melhor escrever “alisavam meu peito”. Olhava pelo buraco da fechadura. Talvez Marília o espionasse. “Eu pensava em minha prima Ester. E Evelina só tinha 15 anos. Quase uma menina. Não podia, não devia me envolver com ela. Mas nos envolvemos”. A caneta suava a mão. Um grito na rua lembrava os perigos soltos na cidade. “A noite avançava, todos estavam bêbados, ninguém via nada. Aleguei vontade de descansar e saí no rumo de umas árvores”. Mais seca a boca. Mas, se fosse à sala de jantar, Marília acordaria. “Casais se abraçavam, se beijavam, se despiam. Sentei-me no chão, junto a um muro. Não havia luz por perto. E ali tudo se consumou”. Como tirar aquilo da memória? Havia anos aquele remoer contínuo de pequenos gestos. “Chegada a manhã, ela dormia no chão. Acordei-a. Precisávamos ir embora”. Precisava rasgar aquilo, queimar aquele caderno, aquela confissão medonha. “E nunca mais a vi. Soube de sua morte um ano depois. Escorraçada de casa pelo pai, refugiou-se na casa de uma amiga mais velha, sustentada por um homem casado. E lá tentou praticar aborto. No entanto, o bebê nasceu. Ela, coitada, não suportou o suplício, a hemorragia”. A sede crescia. Vontade de engolir a noite, a Lua, a chuva que viesse. “Fui embora pra bem longe. Ninguém nunca soube do nosso encontro carnavalesco, acredito. Porque ninguém jamais me falou disso. Nem Ester, nem os filhos dela, nem meus pais. Agora, passados tantos anos, quero saber de minha filha. Mas como e para quê? E se ela for essa menina que me chama de Seu Dirceu? Se for essa Isaura que cuida do nosso jardim, prepara nossa sopa, lava minhas cuecas?” Os olhos de Dirceu se fecham. Sente dores na nuca, no peito, na alma. E se tudo aquilo fosse mentira? Se estivesse apenas imaginando tragédias? Ainda viu uma luz vermelha que se azulava e se amarelecia e se esverdeava. E não teve tempo de queimar o caderno. Nem de pedir perdão a si mesmo.

 * Este é o quarto  conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

25 de jan. de 2012

Bom-dia, meus anjinhos!

Por Nilto Maciel 

Padre Coutinho passava tempos a observar a abóbada da igreja, as figuras, os desenhos. Admirava os anjos gordinhos, as nuvens, o céu imaginado pelo pintor. Cansava o pescoço de tanto olhar para o alto. Gostava também de ir e vir pelos corredores, andar até as portas de frente do templo, espiar a rua, voltar-se e caminhar até o altar. Quando aparecia algum fiel, escapulia sorrateiro, como se o temesse, como se não quisesse contato nenhum com ele, ou como se estivesse em pecado. Alcançava o pátio que levava aos fundos, aos seus aposentos ou dos padres idosos. Gostava de cuidar deles. Sua missão havia algum tempo, embora não fosse enfermeiro. Cuidava especialmente de padre Diógenes.

Antes de dormir, depois das rezas, depois de tudo, deitado, luz apagada, silêncio, uma tosse aqui, um chiado ali, ia e vinha por outros corredores, via e revia outras abóbadas. A igreja da cidadezinha, as ruas de pedras lisas, os meninos, a mãe. Meu filho, você vai ser padre. Levou-o à presença do vigário. Precisava fazer a primeira comunhão. Coutinho passou a frequentar a igreja todo dia. E aprendeu tudo com padre Diógenes: missa, latim, orações. Bem como outras primícias da vida. O pároco o sentava nas pernas. Não dissesse nada a ninguém. Deus não gostava de menino mal-educado. A mãe se entusiasmava cada vez mais com a possibilidade de ver o garoto vestido de batina. Estive com padre Diógenes. Gosta muito de você. É um santo. O pai andava longe, noutra cidade, talvez casado com outra. Chegada a hora da reclusão, o menino chorou.

Passados os anos, padre Diógenes, envelhecido, perdeu de repente a fala e quase todos os movimentos. Mandaram-no para uma casa de repouso religiosa. Padre Coutinho se encarregou se cuidar dele e de outros idosos. O antigo sacerdote, combalido, triste, de olhar perdido, nem lembrava aquele das missas, do latim, das orações, dos carinhos. Na hora das refeições, sentava o ancião na cadeira de rodas e os conduzia a um quarto. Trazia a sopa quente e a mostrava a Diógenes. Trancava a porta e sorria. O outro o observava sério e nada dizia. Em seus olhos havia espanto. O jovem erguia a batina e baixava a cueca. Onanizava-se até conseguir despejar no prato algumas gotas. Aproximava-se mais do doente, que resmungava pedaços de palavras incompreensíveis. Agora tome a sopinha, meu anjinho decaído. O ancião balançava a cabeça para lá e para cá, a rezingar monossílabos, chorar baixinho. Ou toma a sopa toda ou fica com fome até amanhã. Levava-lhe à boca a colher cheia de sopa. Abra bem a boca e engula tudo, sem resmungo. No meio da refeição, deitava o ancião de bruços na cama, retirava-lhe a roupa e lambuzava sopa nas nádegas. Depois eu o banho, padre Diógenes. À noite, acordava-o para tomar cápsulas. O velhinho se retorcia na cama, como se dissesse não. Fechava a boca sem dentes. O outro lhe mostrava um chicote. Ou tomava o remédio ou apanhava. Baixava de novo a cueca e repetia os gestos da noitinha. Besuntava-lhe a cara com o creme. Beba, engula. Se não quiser, não vai dormir tão cedo. Morto de sono, o antigo pároco abria a boca e recebia o líquido, como se tomasse vinho ou comesse hóstia. De manhã, Coutinho voltava a contemplar os anjinhos no teto da igreja. Benzia-se, ajoelhava-se diante do altar e corria sorrateiro para o quarto dos anciãos. Bom-dia, meus anjinhos!

* Este é o terceiro conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

25 de dez. de 2011

O presidente em Berlim

Por Nilto Maciel

Ambrósio se impacientava na poltrona. Ia à janela, olhava a rua, os carros. O vizinho já teria chegado? Nem lhe sabia o nome. Irene, você sabe o nome do morador aí do lado esquerdo? A mulher destampava a panela, se aborrecia, largava a tampa sobre o fogão. Para que saber o nome dele? Ambrósio voltava à sala, sentava-se, trocava a novela pelo noticiário. O presidente viaja hoje para Berlim. Certamente o gorducho já tomara banho e jantara. Deu um salto e abriu a porta. Para onde você vai, homem? Conversar um pouco com o pançudo. Acionou a campainha. Ouviu o som áspero, um ai e arrastar de chinelos. Quem é? Seu vizinho. A porta se abriu e uma cara de cansaço se mostrou sobre um peito cabeludo e uma pança volumosa. Boa-noite, seu... Bonifácio estendeu a mão. Vamos entrar. Não, não precisa. Apresentaram-se, apertaram-se as mãos de novo, sorriram. Passado um minuto, conversavam, sentados um de frente para o outro. Bonifácio, nem sei como começar. Uma mulher apareceu à porta da cozinha. Vem, Sula. É o Ambrósio, nosso vizinho. A mão da mulher parecia fria ou molhada. O homem se disse todo ouvidos. O visitante esfregava as mãos, ora virava o rosto para a rua, ora para o peito do outro. O presidente viaja hoje para Berlim. Pois é, ele passa o tempo todo a viajar. A mulher pediu licença para se retirar. Precisava arrumar a cozinha. Ambrósio baixou o tom da voz: só queria saber se sabia do sujeitinho. Bonifácio arregalou os olhos. De que sujeitinho? A visita franziu a testa. O morador do quarto andar metido a galã? Não, não é homem. Nem sei como chamá-lo. Talvez seja um bicho. Não, não devia ser bicho. Bonifácio juntou as pernas, como se temesse um ataque à sua virilidade. Há dias vejo, no meu apartamento, um... Na verdade, não o vejo com nitidez. Só de relance, no escuro. O outro se afastou mais ainda do visitador, embora não houvesse mais espaço no sofá. Só podia estar sonhando. Ou conversava com um maluco? Vim saber se ele se escondeu aqui, porquanto há dois dias não o vejo. Bonifácio ofereceu água, café, suco, uma cachacinha. E sorriu. Aceitava, sim, água. Ultimamente sentia muita sede. O homem se ergueu e caminhou lentamente no rumo da cozinha. Olhou de soslaio para o outro, que examinava a bunda dele. Abriu a geladeira, retirou uma garrafa com água, encheu dois copos, sorveu com gula o líquido, engasgou-se, tossiu. Já estou indo, vizinho. Pode me chamar de Bró. Regressou à sala e entregou ao outro o copo. O presidente viaja hoje para Berlim. Pois é, o homem vive nos ares. Ambrósio bebia em goles lentos a água gelada. O outro pediu licença para se retirar por um minuto. E saiu pelo corredor. O visitante cravou com ímpeto os olhos nas nádegas gordas do anfitrião, que buscou socorro no quarto, onde a mulher repousava. Ele é doido, Sula. Não sei como nos livraremos dele. Doido? Você não está exagerando, Boni? Precisamos chamar a polícia imediatamente. Vou para a sala, tentar convencê-lo a se retirar. Enquanto isso, você liga para a polícia, os bombeiros, seja lá quem for. A visita observava a rua, pescoço ligeiramente torto. Não sei se já lhe disse, seu Ambrósio, está ficando tarde, precisamos acordar cedo. O senhor trabalha onde? O visitante não deu ouvidos ao outro. Então diga a verdade: o sujeitinho apareceu por aqui ou não?  Basta me responder. Bonifácio esfregou as mãos no rosto. Não, aqui não esteve ninguém nos últimos dias. Mas não se trata de alguém, eu já lhe disse. Talvez não passe de uma sombra. Pode ser visagem, visão, fantasma. Não acredito nisso. Pode ser um ser extraterreno. Não creio, embora tudo seja possível. Pois como pode um ser aparecer e desaparecer de repente, sem deixar vestígios? Bonifácio coçou a orelha. Como já disse, nunca o vi de perto, de frente, cara a cara. Ele se apresenta por um segundo e some no mesmo instante. Talvez não passe de meio metro. Na verdade, disso não tenho certeza, porque só o vejo no escuro ou no semiescuro. Nunca quando a luz está acesa. Está sempre pelos cantos, se escondendo, se esgueirando. Foge à socapa. Só falta me deixar zuruó. Corro para lá e para cá, fico tonto. Se assim continuar, logo estarei na berlinda. Bonifácio por pouco não perdeu a respiração. Não precisa ficar nervoso ou com medo. Ele não ataca, não é violento. Nem sequer fala. Deve ser mudo. Na verdade, não é um ser vivo como nós, porquanto não se alimenta, não urina, não defeca. Nunca vi um só resquício de comida, fezes ou urina pela casa. A não ser que faça tudo isso em outro apartamento, nas ruas, nos buracos onde deve se refugiar. Certamente não anda por aí, porque, se o fizesse, já teriam noticiado. Todo dia vejo e escuto os noticiários. Nada de seres estranhos na cidade. Só falam da viagem do presidente à Alemanha. Que diabo ele vai fazer lá, você sabe? Não, não tenho a mínima ideia. Ouviu-se a voz de Sula, no quarto. Não posso falar alto. Não estou ouvindo nada, senhora. Fale mais alto. Quem está doido? Bonifácio aumentou o volume da voz. A Alemanha é um grande país, não é, seu Ambrósio? Eu já lhe pedi para me chamar de Bró. Está bem, está bem. Mas precisamos ir dormir. O visitante fez ouvidos de mercador. Ele parece não ter sono também. Se o faz, é onde se oculta, porque vasculho a casa toda antes de ir para a cama e nada de encontrar o diabinho. Você disse diabinho? É maneira de falar. Ele não deve ser mau, pois, se o fosse, já me teria matado. E se mexeu no sofá. Boni, quero ir ao banheiro. O homem encarou, com espanto, o outro. Então vá ao banheiro de sua casa. Não vai dar tempo. Se bebo água, sinto vontade incontrolável de urinar. E se levantou com rapidez. Onde fica o banheiro, homem? Os dois saíram no rumo do interior do apartamento. É aí. O visitante entrou e fechou a porta. Bonifácio correu ao quarto, apavorado: Chame logo essa polícia lerda, Sula, antes que ele me deixe doido. O outro abriu a porta e ouviu as vozes ásperas do casal. Estão brigando? Não, nada disso. Apenas comunicava a sua retirada. Ainda não, porque acabo de ver o bichinho. Ele escapuliu pela janelinha do banheiro. Ora, ele se escondeu aqui, o danado. E com o seu consentimento. Bonifácio se irritou. Fosse já embora, se não quisesse apanhar. Ora, ora, ora. Apanhar de você, com essa barriga gorda, essa pança? E abraçou o outro, a rir. Reatemos a nossa conversa gostosa, amigo velho. E saiu em direção à sala. Como eu lhe dizia: ele é inofensivo. Você sabe disso, pois agora frequenta a sua casa também. Ou você ainda não percebeu? Bonifácio parecia transtornado, olhos arregalados, boca a espumar, coração desenfreado. E agora, como vou me livrar deste maluco? Se a polícia não chegar logo, nem sei o que fazer. Pelo visto, este doido vai querer passar o resto da noite a falar maluquices. E Sula no quarto, sem conseguir se explicar para a polícia! Meu Deus do céu! Eu o vi pela primeira vez numa noite do mês passado. Fui ao banheiro (sempre vou ao banheiro, pelo menos umas dez vezes por dia) e, ao me aproximar da porta, vi aquela figura parada no meio do quartinho ao lado, aquele ao final do corredor, contíguo ao segundo quarto. Súbito a figurinha se moveu e se enfiou no escuro, como se fugisse de mim. Parece ter se assustado comigo. Nem fui urinar. Passei ao quartinho e corri atrás dele, quase a me mijar, atravessei a outra porta, saí na área de serviço, entrei na cozinha, voltei à sala, corri pelo corredor e me enfiei no banheiro. Não tive medo, mas curiosidade. E nada falei para Irene. Quem é Irene? Ela é muito nervosa, cheia de superstições. Aliás, não sabe ainda de nada. Nem sabe por que estou aqui. Você não vai ligar a televisão? Precisamos saber se o presidente já está em Berlim. 

* Este é o segundo conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel.

25 de nov. de 2011

'Luz vermelha que se azula', de Nilto Maciel - Primeira parte [1]

Contos ACOLHIDOS, LEMBRADOS E ENGENDRADOS

Este conjunto de contos está dividido em três partes, como se fossem três livros. Brincadeira de quem vive no ócio. Porque um volume de contos ou de poemas é apenas, quase sempre, uma reunião de contos ou poemas. A sequência dada a eles não tem importância. Pode-se ler de trás para frente ou como se queira. Tenho um objetivo didático, no entanto. Como o de dizer ao leitor que neste tomo há três ou quatro tipos de narrativa.

A primeira parte é constituída dos chamados “contos acolhidos”, ditados pelo inconsciente. Contos de inspiração. Saídos de algum álbum secreto de fotografia. Não seriam meus, mas da humanidade: o inconsciente coletivo. Só tive o trabalho de tirar a poeira do caderno, folheá-lo e copiar (em palavras, transformar imagens em palavras) algumas de suas folhas.

A segunda parte resultou de encontro com meu passado, minha infância. Seriam contos de memória, mais ou menos. Vieram também de velhos álbuns de fotografia. Mas não secretos e desconhecidos. São minhas fotos antigas. Semelhantes às de tantas outras pessoas: a calça curta, o sapato novo, o bigode do pai, os olhos da mãe, as árvores da praça.

A terceira é composta de “contos da História”, engendrados com o objetivo de pisar na cara dos heróis/bandidos, de humanizar os homens célebres e de inventar personagens que se aproximam dos mitos.

A maioria das minhas composições literárias surge por acaso, de inopino ou inspiração, o que deve acontecer com quase todos os criadores. Não as busco. Vêm num piscar de olhos. Não as cato nas ruas. Apresentam-se a mim como folhas mortas, papéis velhos, cacos de vidro, esterco. Acolho algumas. Lapido-as, lavo-as e faço delas literatura. Outras, porém, não existem nem como ideia ou, se existem, estão bem enterradas ou perdidas nas páginas de velhos alfarrábios. É o caso de algumas aqui reunidas. Fui procurá-las nas enciclopédias, nos dicionários, nas biografias, nos compêndios de História. Escrevi-as com o objetivo de apresentar alguns personagens históricos não como seres superiores, extraordinários, mas tão-somente como seres humanos. Sejam aqueles tidos como negativos (Nero, Hitler), sejam os seus opostos (Jesus Cristo, Darwin, Freud, Hitchcock, Gandhi). Ou ainda aqueles que ora são bandidos, ora heróis ou santos (Anchieta, Lampião, Padre Cícero). Todos protagonistas de breves enredos (episódios imaginários). Na sua pequenez de humanos. Na sua fragilidade de seres de um metro e pouco de altura num universo de bilhões de estrelas. Na sua dimensão humana.

Além de narrativas com protagonistas famosos, reais, elaborei também composições com personagens imaginários (embora os reais também sejam fictícios), ao lado de seres reais em papel secundário. Uma brincadeira com a História, portanto. Pelo projeto, tais obras formariam um livro homogêneo. Entretanto, o destino me fez parti-lo ao meio. Parte dele juntei a outras peças para participar de um concurso, de que resultou a coleção Pescoço de girafa na poeira (Bolsa Brasília de Produção Literária, 1998), publicada no ano seguinte. Essas ficções, até então inéditas, intitulam-se “Um sonho cartesiano”; “A ideia de matar Pilatos”; “A divisão do mundo”; “Desastre sobre o labirinto de Creta”; “As infinitas pernas de Wellington”; “Um coveiro monstruoso”; “A fome de Malthus”; “Bicho amarrado para morrer”; “Bicho asqueroso”; “Conselho de Luís XVIII”; “Espumas e estrelas”; “Belo céu, vero céu”; “Por culpa de Anouilh”; “Lampião à italiana”; “Pintando o sete na Bélgica”; “Rato sonâmbulo”; “Vers sans rimes”; “Concórdia na órbita da Terra”; “Falsificadores e canibais”; e “Uma página de Robbe-Grillet”.

O projeto inicial se constituía das narrativas acima relacionadas e mais as seguintes, incluídas neste volume: “Apenas um episódio”; “Um camarada brasileiro”; “O verdadeiro e único Ingenieros”; “Caro rosto”; “Entre dançarinos”; “O gato preto de Darwin”; “A invisibilidade das pulgas”; “A inexistência do escudo de ouro”; “O canto de Nero”; “Irmãos”; “Maldita galinha sagrada”; “O embusteiro”; “O insidioso inseto vermelho”; “Sapos nojentos”; “O guardião da China”; “A voz do urso faminto”; “A arma divina”; “Louvado seja Alá”; “As mulheres e o fogo”; “Delírios de um jovem judeu”; “Voto de castidade”; “A reduzida cópia de Samael”; e “Urbi et orbi” (este escrito em 2005).

Portanto, estão aqui reunidas obras escritas antes de 1998 (os chamados contos de personagens históricos) e peças elaboradas depois da publicação de A leste da morte, ou seja, desde o início de 2006.

PRIMEIRA PARTE

OS OUTROS [1]
Por Nilto Maciel


Quando Severino me apareceu pela primeira vez, nem me assustei, porque o vi de relance e queria voltar logo à sala, cioso de rever a chegada do primeiro homem à Lua. Há tempos me imagino astronauta, a saltitar no solo seco do satélite. Chovia muito, a luz dos postes bruxuleava na rua, os pneus dos carros jogavam água nas calçadas. Fui ao banheiro correndo, apenas para cuspir na pia e bochechar. Assim, nem acendi a luz. Além disso, a claridade da sala me permitia ver bem a pia e o espelho. Enquanto esfregava as mãos e cuspia, olhei para o retângulo de vidro e vi o bigode em branco e preto, leve traço de preocupação ao redor da boca e nos olhos. Muito parecido comigo, é verdade. Porém, apresentava uns traços de outro. Voltei à sala e não mais pensei nele, pelo menos durante uma hora.

Naquela noite e nos dias seguintes não falei disso a ninguém, muito menos a Sibila. O nome do desconhecido surgiu por acaso. Precisava de um nome. Qualquer um. E o primeiro (ou talvez o mais apropriado àquele rosto) a ancorar em meu porto – como barco perdido – se anunciou com letras redondas: Severino.

Para evitar discussões domésticas, passei a trancar a porta do banheiro, quando ia me ver. Sibila me vigiava e fazia perguntas: Por que tanto você se olha, Rafael? Está ficando vaidoso, depois de velho? Com a porta fechada, poderia passar alguns minutos a observar Severino, analisá-lo e até conversar, sem ser interrompido por Sibila. Mas não adiantou nada a minha precaução: ela continuou a me importunar. Está virando Narciso?

O segundo a aparecer se chama Mariano. Também usa bigode, como eu, mas em seu olhar há uma profundidade abissal. Não podia mais esconder de Sibila a novidade. Ela me chamou de doido. Parasse de beber. Aquilo era alucinação. Arrependi-me de lhe ter contado tudo. Ela não acreditou em mim.

Severino se mostrou mais algumas vezes, mesmo depois de Mariano e outros. Depois sumiu para sempre. Ou até agora. Da segunda vez, também na moldura do espelho do banheiro, demonstrou vontade de me revelar um segredo. Não posso assegurar ter ouvido sua voz. Seria mentira. O bigode parecia mais branco do que preto, porém as rugas mais se acentuavam. Figurou-se um homem sofrido, desiludido. Falei-lhe (juro ter falado, e isso mais irritou Sibila, que riu, gargalhou e prometeu me levar à força a um hospital para doentes mentais) de meus problemas pessoais, domésticos e de relacionamento com Sibila.

Bernardo surgiu numa noite de muito calor. Passei alguns minutos a conversar com ele. Ainda não realizara a maioria dos sonhos, porém não desistia deles. Pensava em viajar à Europa, passar uns tempos longe daqui. Plano para um futuro próximo, coisa de um a dois anos. Precisava juntar mais dinheiro, parar de gastar com futilidades.

Muito me estranha em tudo isso é as pessoas só me aparecerem no espelho do banheiro. No do quarto não se apresentou ninguém. Para tirar dúvidas, comprei um espelhinho de bolso. Talvez eles quisessem se expor a qualquer momento, em qualquer lugar. Vez por outra, eu metia a mão no bolso, procurava saber se não estavam a me espionar os curiosos, fazia careta, mostrava os dentes, a querer enganá-los. Como se estivesse preocupado com limpeza. Certa feita, uma colega de trabalho cochichava aos ouvidos de outra. Riam. Tive ímpetos de lançar sobre elas o espelho ou o grampeador.

Nos últimos tempos, minha vida tem sido um martírio. Os antigos amigos se afastaram. As mulheres se aproximam, vão ao meu apartamento, dormem comigo (Sibila desistiu de mim), mas logo se afastam, ao me virem diante do espelho do banheiro, em conversas prolongadas comigo mesmo.

Ontem tudo piorou de vez: antes de me deitar, quebrei o espelho, espatifei-o todo. Fui dormir. Os cacos ainda estão no chão. Só assim poderei me livrar desses desconhecidos que me atormentam dia e noite. Mas uma força estranha me puxa para o chão, me força a juntar os fragmentos do espelho. Eles, Severino, Mariano, Bernardo e outros, parecem pedir socorro, como se quisessem voltar à vida, ao convívio comigo. Porém, não tenho força para remover do piso do banheiro os restos deles. Talvez me falte vontade.

[1] Este é o primeiro conto da primeira parte do livro Luz vermelha que se azula, de Nilto Maciel. Próximo texto do autor, dia 25/12/2011 (sim, no Natal). Não perca! Não se arrependerá por aguardar!