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15 de jun. de 2026

consulta, de whisner fraga


 

Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

5 de fev. de 2026

sacerdócio, de whisner fraga



Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

30 de dez. de 2025

conforto, de whisner fraga


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

22 de nov. de 2025

amizade, de whisner fraga


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.

28 de out. de 2025

a dor, de whisner fraga



Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

25 de set. de 2025

hierarquia

Por whisner fraga 

se o nosso melhor vendedor não faturou quase nada este trimestre, imagina o resto do pessoal (e ele era o resto do pessoal): esse foi o início da conversa, o decorrer piorou, a educação do gerente dava passagem à impaciência: ele saiu a tempo de lá, com a promessa de uma nova chance, a última, fique bem claro, que humilhação, que desfeita, logo ele, um cara capacitado, com duas pós-graduações e treinamento em comunicação não violenta: sai apressado, passa pela faxineira terceirizada, derruba, com um chute de craque, a lixeira atulhada: a mulher abaixa a cabeça e continua calada.

Whisner Fraga nasceu em Ituiutaba, MG (1971) e atualmente reside em São Paulo. É professor universitário e autor de mais de uma dezena de livros de ficção, tendo contos traduzidos para o inglês, alemão e árabe. Foi finalista do prêmio Jabuti, em 2023 e contemplado com doze ProAc. Escreve para o coletivo “Crônica do dia” e mantém o canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que resenha obras de escritores contemporâneos. É editor na Sinete.

12 de jun. de 2023

microconto 337


Por Renata Sieiro Fernandes
 

a mulher, 
no ocaso da vida, 
falava sobre a invisibilidade 
que a sociedade lhe impunha. 
ela mesma 
já quase não notava seu corpo, 
mas no dia 
que começou a escrever, 
a colocar no papel 
o que existia nela, 
pouco a pouco, 
passou a enxergar suas mãos. 
dali 
a que todo o seu corpo 
viesse à luz 
foi um toque de mágica. 


Renata Sieiro Fernandes é microcontista. Publicou A donzela guerreira e outros microcontos, vol. 1, com financiamento do PROAC-SP, em 2019 e o volume 2 de forma independente. Publicou microcontos na antologia Parem as máquinas, pelo selo OffFlip (2020), na Revista Trama (2021), nas coletâneas Negociata na penumbra (Ipê editora, 2021), Fotoescritos do confinamento (Editora Desalinho, 2021) e Coletânea do Prêmio Off Flip de Literatura 2021 – Conto (2021). Participa com microcontos da Coletânea Sobre Nossas Avós: memória, resistência e ancestralidade (2022) e da Coletânea do Prêmio Off Flip de Literatura 2022 tendo recebido Menção Honrosa.

16 de mai. de 2023

severidade de febres


Por Whisner Fraga

quando a verdade, delineada pelo julgamento e pela grosseira perspicácia dos sentidos, deslumbrada com os riscos de um sonho, se nublar com a adocicada certeza do cansaço e ceder caminho para a miragem, talvez surja uma carne a rastejar pelos olhos amedrontados da fantasia, talvez sobrevenha um licor acuando a lógica desse sono autoritário, a advertência de um embate prenunciado, talvez a fome se torne subterfúgio para todos os pastos.


Whisner Fraga (1971)
é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros As espirais de outubro (romance, Nankin, 2007), Abismo poente (contos, Ficções, 2009), o que devíamos ter feito (Patuá, 2019), entre outros. Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire e Geração zero zero, de Nelson de Oliveira. Teve contos traduzidos para o inglês e alemão. É responsável pelo canal Acontece nos livros, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.

16 de abr. de 2023

estupro de vulnerável


Por Whisner Fraga

a inteligência obsoleta se esqueceu de fechar as portas e, aproveitando a ocasião, a cibermente bioadaptável gpv23 simulou uma fuga de impedância isentrópica, transformando-se momentaneamente em um algoritmo transgênero, para burlar alguma possível reação dos antivírus, as últimas sentinelas, atingindo o processador dissociativo, aparato em desuso há dez anos, e, em consequência, o coração do núcleo de tratamento, para cometer o delito – durante a audiência de custódia, a defesa do suspeito alegou que a inteligência artificial não tinha consciência de sua própria ação.


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros As espirais de outubro (romance, Nankin, 2007), Abismo poente (contos, Ficções, 2009), o que devíamos ter feito (Patuá, 2019), O privilégio dos mortos (2019), entre outros. Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire e Geração zero zero, de Nelson de Oliveira. Teve contos traduzidos para o inglês e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.

12 de abr. de 2023

À procura


Por Cristiana Moura

Ando esvaziada de mundo. É tanta a correria cotidiana que estudos e afazeres têm me roubado a poesia.

Não é coisa de assalto. Não há ameaça visível. Nem há susto ou medo. É coisa de furto que leva de leve a carteira de dentro da bolsa. Aí a gente só dá falta bem depois e não sabe direito nem onde nem como aconteceu.

O cotidiano roubou-me a poesia!

— Respira fundo, dilata os poros e sente — há de encontrá-la.

Vou coar um café para tomar na varanda enquanto procuro as palavras que ando perdendo por aí.

 

Cristiana Moura é cronista, psicóloga, artista plástica, arteterapeuta, também contribuiu com as crônicas do Jornal de Caruaru (PE). Para ela, vida e arte têm fronteiras sutis, tênues, sensíveis, e, muitas vezes, invisíveis. A vida lhe é urgente, transparente, fluida. As paredes da casa e a pele do seu corpo se confundem. Por vezes, dança para saber que está viva. Nesta confusão-fusão-movimento, escreve. Escreve, por necessidade, as entrelinhas sensíveis do cotidiano. Escreve para coletivo Crônica do Dia e participa da antologia Retire aqui a sua história.

27 de mar. de 2023

a velha, no canto, de whisner fraga


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

16 de mar. de 2023

a tentação consagrada


Por Whisner Fraga

ele se detém, sonda as lesões no cartaz, dobras escavam as cores das folhas, uma foto amanhada na vitrine, driblando o desejo desfocado, um rockstar com uma guitarra, o holofote despejando uma claridade maleável, etérea, como se ele fosse o líder de algo vicioso e, talvez por isso mesmo, cobiçado: o protagonista, o compositor, o ídolo e, abaixo dos pés, ou melhor, debaixo das botas, a frase emoldurada: não desista dos seus sonhos, e ele pescou nas memórias recentes os poucos encontros virtuais com os netos, as raras idas ao supermercado, a tevê balbuciante no início da noite, os cochilos no sofá, nem o porteiro interfonava sobre alguma encomenda, mas agora pode entrar na loja e bisbilhotar os equipamentos, arriscar qualquer nota, sondar os preços, a possibilidade de aulas intensivas, tanto tempo à disposição, ainda que o corpo lhe negue a obediência, ainda que a cabeça empaque em pequenos desafios, ainda que a coluna lhe cobre tantas décadas de maus-tratos, ainda assim é possível, ainda assim há o sonho, há o brilho catártico das cordas flutuando no encanto, à espera dos dedos que lhe mostrem o ritmo, o tom, a música: ele encara a propaganda uma última vez e retoma o caminho para casa.

 

Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros As espirais de outubro (romance, Nankin, 2007), Abismo poente (contos, Ficções, 2009), o que devíamos ter feito (Patuá, 2019), O privilégio dos mortos (2019), entre outros. Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire e Geração zero zero, de Nelson de Oliveira. Teve contos traduzidos para o inglês e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

15 de dez. de 2022

a guarda

por whisner fraga

o homem olha à frente e enxerga a separação, ou pior, todas as consequências do divórcio, depois pergunta sobre a escola, e não é porque paga o colégio, não está cobrando nada, é só para puxar assunto mesmo, o menino ajeita a expressão, enquanto prepara a resposta adequada, uma frase que não magoe, que não exponha todas as diferenças entre eles, toda a monstruosa discrepância entre os pais, a garçonete com a bandeja descarrega o banana split e já não se fala mais nisso, o menino empunha o talher, golpeia o sorvete, fecha os olhos e engole o frio tenro da cautela, o doce viaja pela impaciência intravenosa até uma delicadeza acanhada, um entranhar-se nas angústias do embaraço, o menino mói uma ternura em liquidação, a colher ricocheteia na vasilha, uma neve pastosa se forma diante do flagelo, o pai reassume: e beto?, um silêncio suga para si todo o estardalhaço daquela curiosidade, e o beto?, o menino hasteia a cabeça, prestes a suspirar, e o beto?, (o que vais fazer, faça logo), sábado era dia dos dois, os finais de semana entre a outra casa e os passeios e, às vezes, vão ao clube, mas não sabem nadar e ficam olhando o movimento, em silêncio, ninguém deseja arruinar a trégua, o homem arrasta a cadeira, avança os dedos abertos e consegue alinhar o topete do filho: o que quer fazer agora?, o filho compreende o que deve fazer, a boca toma a forma do vocábulo e a palavra está pronta para existir, mas desiste, até que ouve, uma quarta vez: e beto?, mas não tem certeza se responde, talvez ele queira apenas uma pista sobre o ex-marido: se está feliz, se fica deprimido em casa, se tem saudade, se fala nele, se, se, o menino revira a fruta semienterrada na pasta agora insossa, quase leva a mistura ao paladar, mesmo com nojo, mas se recompõe, mira o balcão à frente, gagueja: o pai está bem.


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros As espirais de outubro (romance, Nankin, 2007), Abismo poente (contos, Ficções, 2009), o que devíamos ter feito (Patuá, 2019), O privilégio dos mortos (2019), entre outros. Participou das antologias Os cem menores contos brasileiros do século, organizada por Marcelino Freire e Geração zero zero, de Nelson de Oliveira. Teve contos traduzidos para o inglês e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira.

28 de nov. de 2021

Três micronarrativas de Adrianna Alberti

Meia-noite

Havia essa história na família, tirava risos da maioria, mas dela em particular, sempre um arrepio de medo. Naquele dia houve uma limpeza, daquelas que arreia a energia de todo mundo ao redor e faz necessário banhos, velas e pelo menos dez dias de sossego. Tinha que acabar no cemitério, como esse tipo de coisa exige. Lá, na hora H, a mulher se acovardou. O clima era denso, talvez pelo som silencioso que percorria as tumbas, mas ela xingou, virou de costas e disse que ia esperar no carro. Disse, mas não chegou a dar três passos, seu moço a tombou, gargalhando no portão de ferro, tremendo o corpo inteiro. Pois, que catou o que precisava e num salto digno pulou o muro, caindo com graça do outro lado. Foi-se ouvindo a risada até as velas acenderem no cruzeiro.


O aviso ignorado

Era noite quando o rapaz voltava para casa, vinha da escola. E não é que ele fosse inocente, mas sua cara era arredondada o suficiente para ser entendido como gente que não tinha crescido ainda. Ele conhecia os avisos, em tese. As luzes que piscavam, ou a risada suave no fundo da mente, às vezes era um cheiro ruim de cachaça, outras, uma sombra rasteira de canto do olho. Naquela noite ele, cagado de medo, entendeu errado. Lá longe, na esquina tinha um homem agachado no muro sujo, a fisionomia nada visível na intermitência da lâmpada fraca. Ao invés de voltar, ele seguiu, rápido. Nem sete minutos depois, uma dupla chinfrim, magricela e de bicicleta o parou, foi-se o celular que nem pago tinha sido. A gargalhada ecoou. Mas já era tarde para entender o aviso.


À imagem dela

Aquele bar era sempre cheio, mas naquela noite de quarta-feira e fria, só tinha meia dúzia de gato pingado, só uns velhos todos barriga e careca e álcool, e os dois. O bêbado veio em sua direção, sorrindo tímido, pedindo licença. Você parece uma daquelas deusas, sabe? Desculpa falar isso assim, mas seu cabelo todo vermelho, sabe? Toda primavera. Ela agradeceu sem graça, enfiando as mexas castanhas escuras atrás das orelhas, mas o amigo ao lado parecia encantado. Quando o homem saiu, o sorriso dela surgiu. É engraçado, porque não fui eu quem ele viu. O amigo a olhava em dúvida, sem questionar, ela era uma garota estranha. Naquela noite, quando a observava ir embora, ele jurou que ali tinha uma mulher com vestido vermelho ao vento, cabelos rebeldes soltos e uma gargalhada ecoando na rua vazia.

15 de nov. de 2021

Cores, tambores e cantigas

Por Adrianna Alberti

Sobre ir

Primeiro há uma dispersão momentânea de consciência, é perder um pouco o foco; depois, a onda de calor, às vezes é no meio do peito, em outras, nas pernas. Eu posso tentar segurar, mas, aos poucos, meu esforço vai desvanecer. A tontura e a fraqueza são opcionais, mas tenho ambas e a minha atinge as pernas, quase sempre, o joelho que treme e dobra. Meu fim é o arrepio, que parece percorrer da sola do pé e escala pela coluna até eu fechar meus olhos. Tudo estremece. Então, já não sou eu. Ainda resido na casca, mas não controlo mais a mente. Queria apagar completamente, mas não, fica o estranho do resquício de memória de ações que não são minhas.


Vermelhos e azuis

Na lógica de sua mente infantil, a mãe, que a pariu, vinha na frente da mulher de cabelo loiro tingido, embora elas nunca ficassem assim quando a menina ia se sentar com as crianças. Em uma multidão de pessoas vestidas de branco, ela as queria juntas, para observá-las dançar e cantar e sorrir. Tinha uma certa beleza ver a mãe curvar um pouco o corpo, sacudir os ombros e uma voz forte e suave ecoar nas paredes pintadas do barracão. Odoyá! A outra, no entanto, a assustava e despertava sua curiosidade da mesma medida, o corpo parecia entrar em um frenesi, cabelos aos ventos e passos ligeiros, o grito vinha estridente, para se fazer conhecida presença. Eparrey!

De Reis e Rainhas

Ela cresceu cercada de cores, tambores e cantigas. Porém, o que a fazia sorrir agradável de sua infância eram as histórias de ninar, nada de princesas presas em castelos altos ou príncipes em cavalos brancos. Seu sono vinha embalado na voz da mãe que contava sobre a história de amor da Rainha Guerreira com o Rei que a expulsou; do Caçador que matava com uma flecha; do General que forjava suas armas; da Rainha que cuspia fogo e não aceitava ordem de ninguém; da Senhora da Vida e da Morte que tinha um jardim secreto de espíritos. Seus sonhos vinham em cores vibrantes e histórias terríveis, daqueles que ela recebia um abraço caloroso de quando em quando, que os via dançar de pés descalços e que aprendeu a cuidar.

31 de out. de 2021

Bilhete para Alice e outras micronarrativas

Por Adrianna Alberti 

A história que os toques contam

Aos 20, meus dedos enrolavam em outros bonitos e firmes, com movimentos tímidos e cheios de expectativa, como se o toque de digitais fosse o suficiente para realizar mil planos e sonhar outros mil mais. Aos 25, meus dedos se contorciam em nervosismo excitante, tocando linhas rígidas, silenciando sussurros roubados, descobrindo novos caminhos, cavando tanto conhecimento de si, mas percorrendo desejos que nasceram fadados ao fracasso. Aos 30, meus dedos esfregavam minha pele, borrando uma maquiagem precária, em crise, pois os olhos cheios de lágrimas não suportavam observar a própria imagem refletida. Agora, depois de tantos, meus dedos se friccionam secos, tamborilando mesas frias, buscando manter o controle do pensamento, a ordem, a atenção, tentando amarrar a sanidade em um fio de cabelo. 


Bilhete para Alice

Tentei repetir sua fórmula, Alice, eu busquei adormecer entre as flores do jardim, sob o sol ameno de uma tarde vagabunda qualquer. Mas, no meu caso, não havia jardim, nem flores, só o sol forte de um final de agosto. Tentei seguir o coelho branco, Alice, para me enredar em histórias multicoloridas e desconexas, para correr labirintos e fugir das Copas. Mas, surpreendentemente, meus olhos permaneceram focados, as flores nunca cantaram, a lagarta nunca se transformou em borboleta. É desesperador, quero aquele mundo divertido, cheio de ladainhas fáceis e sombras em movimento. Então me diga, Alice, o que faço para entrar naquele buraco sem fim, viver entre as árvores atrás do gato sorridente, para lá da curva do chapeleiro, escondida em uma xícara de chá. 

Insônia

O corpo exige acordar antes do sol, sempre sem sol. Não importa se fechou os olhos finalmente às nove da noite ou às quatro horas da manhã, os olhos abrem sempre antes de clarear. No entanto, os pés só tocam o chão quando é tarde demais para o ônibus, embora, em alguns dias, só depois do meio-dia. Às vezes, os gatos se penduram na porta, exigindo atenção, arranhando a madeira e reclamando alto para os vizinhos ouvirem. No mesmo quarto dormem as plantas venenosas, ao lado da camada de poeira e os objetos esquecidos pelo tempo. Ela tenta, arrastando os pés para juntar toda a bagunça, a cada três meses ou mais, há um tipo de milagre e ela limpa, fica feliz. Ela tenta, mas cala, sem palavras para quebrar a rotina.

26 de out. de 2021

Micronarrativas para um dia amarelo

Por Cristina Ancona Lopez

Enigma

Sempre escorregava.

Nos pingos de água, nos pisos lisos e no gelo da neve mas, principalmente, nas palavras.

Passava por elas deslizando; 

Escapavam-lhe inexplicavelmente. 

De algumas conseguia apanhar a primeira ou última sílaba porém deixava escapar as do meio. Então, guardava apenas os pedaços e, de posse desses, passava a procurar, incansavelmente, suas partes.

Um dia deu-se conta de que tinha uma sílaba nas mãos. Apenas uma.

Sem saber de onde teria vindo procurou encontrar-lhe o sentido.

Escutou-a, mas nada dizia;

encostou-se nela, não havia aconchego; 

passou-a em seu corpo, sem sensações. 

Então soltou-a no ar.

Voou como se tivesse asas. 

Rodopiou, flutuou e fez desenhos contra o céu. 

Depois, caiu-lhe novamente nas mãos.

Até hoje procura, em vão, uma forma de decifrá-la.

  

Amarelas

Hoje lembrei-me das borboletas amarelas. Aquelas, que costumavam revoar na minha e na tua janela e batiam levemente as asas nos vidros.

Você se lembra de que roçavam nossa face quando abríamos as vidraças para que o vento nos revoasse os cabelos, nos fechasse os olhos e nos fizesse sorrir?

Havia as que entravam dentro de casa tornando a sala cheia da luz que o amarelo traz...

Como queríamos que ficassem ali! Estáticos para que não se assustassem, olhávamos silenciosos os seus movimentos.

Houve aquela que pousou na sua cama ali ficando por um dia e uma noite em que, para que não se fosse, dormimos no chão.

Assim que amanheceu o dia eu a vi voar pela janela aberta. Não, jamais prenderíamos uma das nossas borboletas.

Por isso voltavam e nos traziam a alegria dos que voam e são cobertos de cores.
Quando você se foi, pensei que se tinham ido com você. Depois soube que você pensava estarem comigo.

Hoje sei que não voltaram, nem em rápida visita, para nenhum de nós dois.
Foi a forma que encontraram para protestar por não termos sabido cuidar do sentimento que, de tão grande, nos ultrapassava e chegava até elas.  
 


Cristina Ancona Lopez é paulista, tocantinense, inglesa, vida variada, prato cheio de letras para colocar no branco de qualquer lugar. Não se lembra de andar pela vida sem um lápis, um papel, um computador, um tablet ou um celular, desde quando começaram os questionamentos, delinearam-se os tormentos, e descobriu-se com fortes sentimentos. Nas fases brancas de escritas, pensa, anota, mas nada cria, tornando-se incompleta. Gosta de ser chamada de Tita, como se autodenominou em idade bem pouca, não se lembra quando ou como. Quer leitores, críticas, troca de ideias deste e neste mundo por onde andar ímpar.

14 de out. de 2021

Sobre silêncios e solidões

Por Adrianna Alberti

Castelo

Eu escolhi meu castelo nas alturas, entre sorrisos de amigos que não estão mais no mesmo caminho e maldições familiares não tão rapidamente retiradas. Escolhi meu castelo no ar porque era o único lugar disponível e o tempo era curto. E era um pouco caótico. A vista na primeira noite foi aquilo que sedimentou o espaço no coração, o tom azul vibrante com os últimos resquícios do sol, uma única estrela no horizonte. Agora, deitada no escuro, ouvindo os morcegos e as corujas na mexeriqueira, me sinto pequena, em uma torre que, apesar das escadas, parece não haver saídas o suficiente. Eu adormeço exausta, sem forças para manter os olhos abertos. Sinto falta do chão.


As paredes brancas

Eu mantenho alguns sons, como o barulho do ventilador em rotação alta, apenas ruídos acolhedores para noites insones. Tenho um ninho em meu colchão, de cobertores e de travesseiros, me cercando como um abraço fantasma, fingindo que alguém me acolhe nos dias em que o cansaço não é o suficiente para me apagar. Conto baixinho minhas histórias para as paredes, repensado seus caminhos, refazendo suas vozes e me deixando levar em suas expressões, esperando que minha imaginação desgastada me leve para qualquer lugar. É em vão, em algum lugar entre a louça suja de uma semana e as três horas da madrugada, eu desisto.

 

Silêncio

O silêncio não tem gosto, foi o que decidi alguns meses depois, sozinha naquele quarto novamente. O silêncio tem gosto de calor sufocado, seco e excruciante, tem cheiro de saudade e uma lágrima de tristeza. Eu ainda o amo, o silêncio, no caso. Com todas as minhas, ainda o desejo, nos dias comuns, nas horas de trabalho, quando o tec-tec dos dedos em teclados me incomodam, quando os tons dos risos me irritam e a presença constante de pessoas estranhas me deprimem. Mas desejo aquele silêncio com gosto de luz do sol, de verde das plantas que sobrevivem apesar de mim, com um som morno na sola do pé. Está difícil separar silêncios de solidão.

28 de abr. de 2021

Quando a magia diz adeus

Por Adrianna Alberti

Seu nome é perpétuo

Quando o dia se abriu, depois de tanto tempo de nuvens cinzas, timidamente ela preparou o jardim: balões coloridos, toalhas de mesa bonitas, tendas esvoaçantes e sorrisos cheios de boas intenções. Eles trariam as comidas, bolos, refrigerantes, salgados e docinhos mil. Ela confiava, eles estariam lá para quando ela resolvesse exibir o vestido mais caro e as cores mais vibrantes. Mas, então, por intuição, antes de ver o sol despontar no horizonte, ela se sentou na maior mesa, acendendo a vela de comemoração sozinha, rodeada de estrelas e silêncio, cancelando os festins.


 Baile de máscaras

Há três máscaras, a do orgulho, a da nostalgia e a da curandeira. A primeira ela veste sempre constrangida, desacostumada a ostentar o ouro, os louros e a vitória – essa, ela deixa para usar quando sabe que todos estão distraídos demais e não será observada. A terceira é sua alcunha, ali sempre apta, disposta e a postos – nessa, carrega tudo, desde as ervas à sinceridade, sua história pincelada em aquarela e grafite, desde os dedos sujos de terra às marcas da guerra. A segunda, a única que nunca tira, deixa as ranhuras marcar a face, a madeira misturada com a pele, cravando dolorosamente cada final de dia que ela abraça, esperando a morte.


 Quando a magia diz adeus

A maior mentira que nos contam é que criaturas místicas morrem quando deixamos de acreditar nelas. Faz sentido apenas quando você para de buscá-las, pois é quando elas param de surgir. Mas cá estou, fechada em um quarto, sendo crente, observando-o aguardar. Pelo quê? Já não lembramos. Enquanto eu rezo em busca de algo que possa pará-lo, ele despe sua roupa acetinada, dobrando-a com cuidado. Abaixa-se no meio do quarto, cabelos caindo em ondas pelo chão, sorrindo como se me pedisse desculpas. Eu imploro mais uma vez, mas isso não o impede. Ele se despede, raiando como o dia, com um silvo baixo no ar, finalmente desistindo de esperar. O pó brilhante que explode cai como cinzas no tapete.

16 de abr. de 2021

O lugar delas

Por Adrianna Alberti

 

Caixa de Pandora

A porta não foi aberta por um convite delicado e sincero, não, foi metido o pé em uma bicuda, com um cheiro forte de álcool envolvendo o ambiente, tropeçante em dois pés iguais. A despeito dos sorrisos largos e abraços amigáveis, havia um grito sendo ecoado, lá no fundo do quintal – entre as sombras e o calor escaldante. Abrir as janelas foi mais difícil, porque se julgavam escancaradas aos olhos vizinhos, como se tornasse todos íntimos com um olhar só, mas o metal estava enferrujado, a tinta brilhante escorria nos cantos, apodrecendo o reboco. Mas já estava sentada ali, naquele sofá cinza aconchegante, olhar terno esperando as lágrimas escorrerem e as palavras saírem. Estou aqui, ele disse, ela acreditou.

 

A matriarca em vermelho

O olhar era severo, vinda de mulher nordestina acostumada a tempestades e estrada esburacada. Mãe de todos os tipos de filhos, figura que exalava um quê de inquestionável, poderosa entre seus tecidos e costuras, filha de Oyá. As unhas compridas vermelhas sempre enroscadas no copo de café preto e forte. Ainda mora na memória uma noite de sábado qualquer, eu aos 14 anos, o peito se encontrava vazio e a mente em branco. O colo parecia ser o lugar certo, ajoelhei-me, abraçando as pernas cobertas pelo vestido de renda vermelho e chorei até secar, a mão no meu cabelo não se mexia, mas a voz era suave, carinhosa: É assim mesmo, Tica.


No lugar certo

Era uma universidade, mas estava encravada no final de um bairro na puta que o pariu, no prédio de uma escola minúscula. Desconfiou, estranhou, sentiu saudades do terreno amplo da outra. Nem era aula, era só uma apresentação, o professor vinha com a camiseta amarela, cabelo cacheado e todo despenteado, barba cheia, olhos cansados apesar de ser início do semestre. Mas a cadência era perfeita – na cabeça dela a perfeição vinha de palavras bem pronunciadas e colocadas. Ela estrelou os olhos nem bem a primeira meia hora, sorvendo a menor das informações, o coração disparado. Era tudo o que estava sendo dito.  Era ali, jurado, cimentado, seu lugar, em meio às letras.