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14 de jun. de 2023

Minireminiscencias #8


Por Glauco Mattoso

Desde 1999 venho compondo sonnettos aos milhares, mas, depois daquele que recebeu o numero 5555, passei a compor dissonnettos, como chamo o poema de 16 versos ou mais, em logar dos 14 do sonnetto. Ahi converti alguns dos antigos em dissonnetto, inclusive os sonnettilhos. Aqui vão dois exemplos que sahiram no livro Graphophobia, agora dissonnettizados, que fallam justamente da composição num molde fixo.


Claustrophobia [3846]

Eu não fico aqui sozinho!
De pressão isto é panella!
Mas, si eu saio, me encaminho
bem ao fogo! Que esparrella!
Si ficar neste quartinho,
logo eu pullo da janella!
Sou peor que passarinho
na gaiola, ou réu na cella!
Dois quartettos, só? Que mais?
Vae que eu trovas fazer tente...
Tercettinhos? Grades taes
me apprisionam totalmente!
Nessa jaula eu não me metto!
Si uma trova prende a gente,
como posso, num sonnetto,
libertar a minha mente?


Agoraphobia [3847]


Tem certeza? Tudo eu posso?
Não preciso nem rhymar?
Nem tem metrica este troço?
Que legal? Vou me exbaldar!
E as estrophes? Neste nosso
poeminha, as faço em par?
Ou nem ligo e nem me coço
si as não ponho no logar?
Nossa! Tanta liberdade
eu extranho! Quem diria?
Puxa vida! Attraz de grade
sempre estive, em poesia!
Mas, si tudo fica aberto,
mais me augmenta esta agonia!
Mais eu soffro, e mais me apperto:
Antes, livre eu me sentia!

 

Glauco Mattoso é paulistano de 1951. Nos annos 1970 editou o poezine Jornal dobrabil e destaccou-se entre os poetas "marginaes". Compoz mais de dez mil poemas ou de septe mil sonnettos e assignou mais de cem livros de poesia, trez romances (um delles em  verso), trez volumes de contos, alem de chronicas, ensaios, um tractado de versificação e um diccionario orthographico, este systematizando sua reacção esthetica às reformas  cacophoneticas soffridas pelo portuguez escripto. Mattoso perdeu a visão nos annos 1990 devido a um glaucoma congenito que lhe ensejou o pseudonymo litterario. Sua producção mais volumosa occorre appós a cegueira, graças a um computador fallante. Seus ebooks saem pelo sello Casa de Ferreiro e seu blog traz mais informação.

28 de mai. de 2023

Minireminiscencias #7


Por Glauco Mattoso

No ultimo dia 9, ao ouvir no radio a noticia da morte de Ritta Lee, só trez annos mais velha que eu, me debulhei todo. Ritta sempre foi aquella gotta de vitamina na veia da minha geração. Só dois momentos pessoaes. No theatro Zaccaro, depois do show, fui com o amigo Mario Alvarez ao camarim della, para deixar um exemplar de Maus modos do verbo. Na serra da Canthareira, o amigo Antonio Carlos Fonseca (do gruppo Somos) tinha um chalé vizinho ao della, que vinha ao alpendre jogar conversa fora com quem quizesse pappear. Fora disso, só tietagem de fan, como todos eramos. No caso masculino, pode-se discutir quem seria o maior nome do rock brazileiro. No caso feminino, não. E, como mulher, ella foi muito mais que rockeira. Foi pioneira. Revisito este poema do livro Boa morte, finado e outros poemas.

Sazonado? [9702]

Não, Glauco! Um premiado não precisa
provar, anno por anno, que tem merito
capaz de lhe valer outro trophéu!
Ganhou seu Jaboty? Seu Oceanos?
Ah, pode fazer merda, agora, com
totaes direitos, Glauco! Não concorda?
A Ritta Lee ja disse que é gostoso
a gente ser famoso para, à bessa,
dizer qualquer besteira por ahi!

Glauco Mattoso é paulistano de 1951. Nos annos 1970 editou o poezine Jornal dobrabil e destaccou-se entre os poetas "marginaes". Compoz mais de dez mil poemas ou de septe mil sonnettos e assignou mais de cem livros de poesia, trez romances (um delles em  verso), trez volumes de contos, alem de chronicas, ensaios, um tractado de versificação e um diccionario orthographico, este systematizando sua reacção esthetica às reformas  cacophoneticas soffridas pelo portuguez escripto. Mattoso perdeu a visão nos annos 1990 devido a um glaucoma congenito que lhe ensejou o pseudonymo litterario. Sua producção mais volumosa occorre appós a cegueira, graças a um computador fallante. Seus ebooks saem pelo sello Casa de Ferreiro e seu blog traz mais informação.

14 de mai. de 2023

Minireminiscencias #6


Por Glauco Mattoso

Uma attitude contemplativa, a partir do caes, deante da imensidão maritima, me remette às canções de Milton Nascimento, especialmente na epocha do album Clube da exquina, mas não só. Tambem me remette ao immortal Otis Redding na canção The dock of the bay. Litterariamente, a referencia mais marcante foi à Ode maritima de Fernando Pessoa. Entretanto, ja que a philosophia e a escatologia caminham junctas, tive que pensar como quem está defecando. Dahi o poema abbaixo, que sahiu no livro Ode ao aedo e outra balladas.

 

Ode nauseabunda (1/7) [8155]

(1)
Sentado, pensativo fico, à toa,
tal como Otis ou Milton Nascimento,
tambem philosophando, qual Pessoa,
à beira do caes onde estou, ao vento
maritimo, ou à beira donde echoa
ruido de navio: o pensamento.

(2)
O mais bello horizonte que uma boa
visão possa alcançar! O olhar attento
poder dos transatlanticos a proa
ou poppa distinguir! O movimento
notar até das nuvens, me magoa
não possa, a mim, caber neste momento!

(3)
Mas posso viajar, ja me appregoa
Pessoa, mentalmente e, si lamento
a physica cegueira, livre voa
o olhar da phantasia, quando tento
uns versos decorar, antes que doa
o ventre constipado, o cu no assento.

(4)
Ai! Quando ja concluo quasi a loa
que quero dedicar a algum evento
feliz, a um thema ameno, me resoa
o rhoncho intestinal, um flatulento
fedor pollue a brisa que a canoa
da lyra me arejava, e me appoquento!

(5)
Emquanto cago, finjo que caçoa
de mim meu inimigo mais cruento,
que é elle quem me caga, quem me zoa
da cara enlameada, que me aguento
debaixo do seu rego, até que roa,
como osso duro, o troço fedorento!

(6)
Deliro nesse quadro que se excoa
aos poucos da visão, voltando ao lento
compasso peristaltico. Destoa
o surto do que agora, somnolento,
figuro. Ja o tuphão uma garoa
virou. Estou tranquillo, cem por cento.

(7)
A atroz constipação sempre me enjoa
durante este descharte tão nojento
das fezes. Todavia, quem remoa
seus odios e exorcize um violento
impulso se refaz, como um Pessoa,
um Redding, ou um Milton Nascimento.

 

Glauco Mattoso é paulistano de 1951. Nos annos 1970 editou o poezine Jornal dobrabil e destaccou-se entre os poetas "marginaes". Compoz mais de dez mil poemas ou de septe mil sonnettos e assignou mais de cem livros de poesia, trez romances (um delles em  verso), trez volumes de contos, alem de chronicas, ensaios, um tractado de versificação e um diccionario orthographico, este systematizando sua reacção esthetica às reformas  cacophoneticas soffridas pelo portuguez escripto. Mattoso perdeu a visão nos annos 1990 devido a um glaucoma congenito que lhe ensejou o pseudonymo litterario. Sua producção mais volumosa occorre appós a cegueira, graças a um computador fallante. Seus ebooks saem pelo sello Casa de Ferreiro e seu blog traz mais informação.

28 de abr. de 2023

Minireminiscencias #5


Por Glauco Mattoso

Meu caso tem sido estudado por analogia ao de Borges na Argentina e de Milton ou Joyce no mundo britannico. Sem entrar em questões de merito ou gosto pessoal, mas preservando a importancia intrinseca da obra, sou objecto de innumeras theses e ensaios academicos. Oxalá tal canônica perspectiva me rendesse, pelo menos, um tractamento semelhante ao de Borges, sempre papparicado por onde passasse! Lamurias à parte, o parallelo com elle foi, tambem, thema de varios poemas meus, como o sonnettilho abbaixo, que sahiu na edição original do livro Desilluminismo. A titulo de curiosidade, vale observar a repercussão do meu caso ante as novas gerações, como, por exemplo, no podcast Homerus, com versão em inglez. Cabe lembrar que fui um dos traductores da obra completa borgeana ao portuguez, indicada ao Jaboty.


SADISMO IMPLICITO [4896]

"Uma dadiva divina",
disse Borges da cegueira.
Ironia fez, ferina?
Da loucura estava à beira?
Si ha verdade que a defina,
phrase prompta isso me cheira,
pois, nas lettras da Argentina,
delle a lenda é costumeira.
Dicta pelo proprio cego,
a expressão, quando eu a emprego,
subentende um preço, um dom,
por ter alto ou claro som.
Quando dicta por alguem
que é chupado e que vê bem,
significa dizer, com
fé, que, nisso, o cego é bom.
 

Para conferir:
Desilluminismo em dissonnetto 
Homerus Podcast | James Joyce, Aldous Huxley, Jorge Luis Borges e Glauco Mattoso

Glauco Mattoso é paulistano de 1951. Nos annos 1970 editou o poezine Jornal dobrabil e destaccou-se entre os poetas "marginaes". Compoz mais de dez mil po-emas ou de septe mil sonnettos e assignou mais de cem livros de poesia, trez romances (um delles em verso), trez volumes de contos, alem de chronicas, ensaios, um tractado de versificação e um diccionario orthographico, este systematizando sua reacção esthetica às reformas cacophoneticas soffridas pelo portuguez escripto. Mattoso perdeu a visão nos annos 1990 devido a um glaucoma congenito que lhe ensejou o pseudonymo litterario. Sua producção mais volumosa occorre appós a cegueira, graças a um computador fallante. Seus ebooks saem pelo sello Casa de Ferreiro e seu blog traz mais informação.

14 de abr. de 2023

Minireminiscencias #4


Por Glauco Mattoso

Por volta dos dez annos, entre 1960 e 1961, fui victima, à mercê da molecada, dum bullying que redundou em curra, facto que condicionou meu masochismo/fetichismo, o qual exorcizei na forma de innumeras versões litterarias, seja no MANUAL DO PODOLATRA AMADOR, seja na poesia, principalmente no livro MEMORIAS SENTIMENTAES, SENSUAES, ENSORIAES E SENSACIONAES. Mas toda essa violencia sexual não a thematizo apenas para desabbafar. Me solidarizo com outros excluidos que sofrem discriminações ou abusos. Dahi que muitos factos veridicos me inspiram, como o caso abbaixo, commum nos States, onde a gordophobia se somma a outros preconceitos. O poema sahiu no livro HISTORIA DA CEGUEIRA.

LICÇÃO DE RUA [8566]

A gorda, que perdeu recentemente
os olhos, é bonita, mas bobinha.
Andando na calçada, ella apporrinha,
com sua bengalinha, muita gente.
Ainda que medir os passos tente,
não sabe caminhar em recta linha.
Dois brutos marmanjões, que ella ja tinha
trombado, vão parar na sua frente.
Fingindo offerescer adjuda, dão
o braço, mas a levam a local
fechado, onde estupral-a acham "legal",
pois querem que ella "apprenda uma licção".
Na bocca a fodem fundo, gozação
fazendo: "Engole, cega! Ahi, que tal?"
A gorda, adjoelhada, grunhe e mal
consegue, mas curtindo os dois estão.
Na rede virtual, a dupla posta
o video que gravou, no qual a gorda
se fode. Todos acham bom expor da
coitada a bocca cheia. A turma gosta.
A cara lembra alguem que comeu bosta.
Os jovens, sem deixar que a cega morda
a rolla que lhe mettem, ao sabor da
sucção junctam sebinho, em grossa crosta.

Leia o livro Historia da cegueira:
https://issuu.com/ed.casadeferreiro/docs/historia_da_cegueira

Glauco Mattoso é paulistano de 1951. Nos annos 1970 editou o poezine Jornal dobrabil e destaccou-se entre os poetas "marginaes". Compoz mais de dez mil poemas ou de septe mil sonnettos e assignou mais de cem livros de poesia, trez romances (um delles em verso), trez volumes de contos, alem de chronicas, ensaios, um tractado de versificação e um diccionario orthographico, este systematizando sua reacção esthetica às reformas cacophoneticas soffridas pelo portuguez escripto. Mattoso perdeu a visão nos annos 1990 devido a um glaucoma congenito que lhe ensejou o pseudonymo litterario. Sua producção mais volumosa occorre appós a cegueira, graças a um computador fallante. Seus ebooks saem pelo sello Casa de Ferreiro e seu blog traz mais informação.

28 de mar. de 2023

Minireminiscencias #3


Por Glauco Mattoso

Nasci com glaucoma, como Ray Charles, mas não perdi a visão na infancia. O olho direito aguentou até os vinte annos e o esquerdo até os quarenta. Meu pae era kardecista e insistia para que eu me tornasse espirita, mas só uma vez me submetti a uma cirurgia espiritual, aos vinte e trez annos, que, si não reverteu a cegueira do olho direito, paresce ter addiado a perda total, o que me levou a estudar o espiritismo, ao menos litterariamente. Fiquei tão impressionado com a obra de Chico Xavier que, certa vez, commentei: {Não sou de mesa branca nem de terreiro, mas sou bruxo, e "que las hay, las hay"... Portanto, não poderia deixar de registrar alguns exemplos tirados do famoso livro PARNASO DE ALEM TUMULO (1932), creditado à mediunidade de Chico Xavier. É claro que não posso concordar que um Bocage, o maior auctor de sonnettos sacanas em língua portugueza, tenha-se arrependido e, no celebre sonnetto dictado na agonia final, feche com a chave "Rasga meus versos, crê na eternidade!": ora, para crer na eternidade não é preciso rasgar nada, nem deixar de fazer versos! Pelo contrario: é mais comfortador crear sabendo que a obra pode perdurar indefinidamente. Acho, pois, muito extranho que não se publiquem sonnettos sacanas psychographados (siquer no caso de Emilio de Menezes), o que me cheira a censura doutrinaria. Pessoalmente, depois de morto pretendo continuar a compor meus versos desboccados, e quero transmittil-os para o lado de ca sem necessidade dum "nihil obstat". Mas isso tem tempo, ja que não espero morrer tão cedo. [...] Chico Xavier é mesmo phenomenal. Nem fallo do resto: basta-me a façanha de psychographar sonnettistas de differentes estylos e estheticas, arremedando o dominio que cada auctor tinha das normas de versificação (e dos mechanismos de transgressão dessas normas), embora elle proprio, o Chico, fosse tão joven e tão despreparado nas lettras. Mesmo que estivesse clandestinamente assessorado por uma equipe de academicos (hypothese que, por si, ja seria absurda), teria que comptar com especialistas em cada eschola poetica, cuja vaidade os impediria de guardar segredo sobre tal assessoria, não lhes paresce?} Fiz varios poemas psychographicamente estylizados no livro INSPIRITISMO, mas hoje quero revisitar o poema abbaixo, do livro DESAUCTORAES.


Parnaso de alem tumulo (1/2) [8068]

(1)
{Estou arrepiada, Glauco! Juro,
eu nunca tinha lido um livro tão
phantastico! Você crê nisso, Glau?
Alli cada poema tem a cara
perfeita do poeta quando vivo!
O Chico não seria assim tão culto
a poncto de imitar tantos auctores
de estylos differentes! Addemais,
tão joven era, Glauco! Supponhamos
que fosse assessorado por alguem
lettrado... Um dia aquillo vazaria!
Não, Glauco, o medium era foda! Foda!
Faltou, na certa, alguma putaria,
mas pode-se entender essa moral
da purificação, não é, querido?
Mas digo-lhe: fiquei arrepiada!}

(2)
-- Querida amiga, agora sou seguro
daquillo que está alli. Não sou christão
devoto, ou kardecista, mas num grau
qualquer eu nisso creio, pois a tara
tambem explicação tem, pelo crivo
espirita. A cegueira, nesse culto,
faz parte da missão, tal qual as dores
que sinto na velhice, si meus ais
causarem gozo sadico aos meus amos,
ou seja, a meus leitores. Ao Alem
eu devo o que escrevi, da poesia
à prosa, por aquillo que incommoda
pudores puritanos. Não seria,
porem, psychographia a bacchanal
que muitos me imputaram, no sentido
de culpa, de peccado. Não, qual nada!


Glauco Mattoso é paulistano de 1951. Nos annos 1970 editou o poezine Jornal dobrabil e destaccou-se entre os poetas "marginaes". Compoz mais de dez mil poemas ou de septe mil sonnettos e assignou mais de cem livros de poesia, trez romances (um delles em verso), trez volumes de contos, alem de chronicas, ensaios, um tractado de versificação e um diccionario orthographico, este systematizando sua reacção esthetica às reformas cacophoneticas soffridas pelo portuguez escripto. Mattoso perdeu a visão nos annos 1990 devido a um glaucoma congenito que lhe ensejou o pseudonymo litterario. Sua producção mais volumosa occorre appós a cegueira, graças a um computador fallante. Seus ebooks saem pelo sello Casa de Ferreiro e seu blog traz mais informação.

15 de mar. de 2023

Minireminiscencias #2


Por Glauco Mattoso

Em 1990, ainda enxergando do olho esquerdo, perdi um querido parceiro, Severino do Ramo, que morreu aos trinta annos. Parahybano de Cabedello, Raminho tinha mixtura de sangue negro e indio. Chegamos a morar junctos e tinhamos, alem da poesia, muitas affinidades e cumplicidades, entre ellas um jogo SM agora em voga nos States, no qual brancos "socialmente conscientes" se collocam como submissos aos negros, seja na privacidade, seja em publico, em signal de reparação por tudo que o povo afro soffreu no passado, sob dominio escravocrata. Phantasias à parte, quero approveitar a deixa para revisitar este poema do livro INFINITILHOS EXCOLHIDOS, gratuitamente disponivel como ebook.

Fabula cabulosa (1/2) [8083]

(1)
{Conhesces tu, dos indios, a famosa
versão da Creação, não é? Pois vou
lembrar-te: trez bonecos Deus na argilla
moldou. Levou ao forno todos trez.
Anxioso, retirou cedo o primeiro.
Ainda estava cru seu homem branco.
Um pouco mais tardando, Deus retira
do forno o seu segundo, moreninho,
no poncto: só podia ser um indio!
Ficou tão encantado com a sua
perfeita creatura, que exquesceu
la dentro o seu terceiro, que queimado
demais ficou: seria, claro, o negro.
Percebes, caro Glauco, como cada
cultura se elitiza, superior
se julga, valoriza a sua lenda?
Glaucão, somos racistas todos! Nada
de errado vejo nisso! O que tu vês?}

(2)
-- Pretextos nunca faltam para a prosa
racista, mas você não se informou
de qual tribu sahiu essa tranquilla,
pacifica versão. Tupan, talvez,
foi esse deus nativo? Não me inteiro
do thema, queridão. Para ser franco,
dizer não vou que seja só mentira,
mas nada justifica algum vizinho
mais loiro pretender que um Hitler guinde-o
ao topo racial. Que cê se inclua
na natta nem extranho, si europeu
tem sangue, mas tomar deve cuidado
com essas conclusões. Eu não me alegro
por causa duma pelle, si ja nada
ver posso. Para mim, nenhuma cor
de pelle differença faz, entenda,
querido. Sua these está furada,
em summa. Cê jamais foi finlandez.

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Glauco Mattoso é paulistano de 1951. Nos annos 1970 editou o poezine Jornal dobrabil e destaccou-se entre os poetas "marginaes". Compoz mais de dez mil poemas ou de septe mil sonnettos e assignou mais de cem livros de poesia, trez romances (um delles em verso), trez volumes de contos, alem de chronicas, ensaios, um tractado de versificação e um diccionario orthographico, este systematizando sua reacção esthetica às reformas cacophoneticas soffridas pelo portuguez escripto. Mattoso perdeu a visão nos annos 1990 devido a um glaucoma congenito que lhe ensejou o pseudonymo litterario. Sua producção mais volumosa occorre appós a cegueira, graças a um computador fallante. Seus ebooks saem pelo sello Casa de Ferreiro e seu blog traz mais informação.

28 de jan. de 2023

Minireminiscencias #1

Por Glauco Mattoso

Quando sahiu (1986) a primeira edição do MANUAL DO PODOLATRA AMADOR, Hebe Camargo commentou no ar que era absurdo alguem achar lambivel um pé fedido, muito menos um pé masculino. Ahi alguns jornaes me entrevistaram e até me defenderam quando os leitores cahiam de pau. Mas, em Uberlandia, um desses leitores foi sympathico e enviou-me um aerogramma (aqui reproduzido) no qual desenhava o contorno de seu pé, com a seguinte mensagem: {Glauco, achei o maior barato sua entrevista na FOLHA DA TARDE. Segue o formato e tamanho do pé, tenho os dedos com alguns pellinhos e uma frieira no mindim, em tractamento ha 2 annos. Sou vidrado nos pés das minhas namoradas, ellas ficam com um tesão intenso, que culmina em OMs (orgasmos multiplos). (...) Não o achei louco maluco, te achei liberado.} O dissonnetto abbaixo, que accaba de sahir no livro PIFFIA PIVIA (pelo sello paranaense Lambrequim) allude a esses meus comprehensivos interlocutores. 


Meniniscencia [5627]

Nos annos oitentistas, duma sola
mandaram-me o contorno, com canneta,
traçado no papel. Aquella colla
não peço mais a alguem que me remetta.
Depois que fiquei cego, me consola
appenas uma scena na punheta:
lembrar-me do pé chato que, de eschola,
collegas tinham, sola suja, preta.
Um delles me pisou e, como balla,
chupei-lhe o dedão grego, que me escita
até neste momento. Não se eguala
tal sola à que é, nos classicos, descripta.
Pés chatos, expalhados, vão na valla
commum ser exquescidos, mas bemdicta
à mente vem aquelle que me emballa, 
no sonho, a phantasia mais bonita. 

 

Glauco Mattoso é paulistano de 1951. Nos annos 1970 editou o poezine Jornal dobrabil e destaccou-se entre os poetas "marginaes". Compoz mais de dez mil poemas ou de septe mil sonnettos e assignou mais de cem livros de poesia, trez romances (um delles em verso), trez volumes de contos, alem de chronicas, ensaios, um tractado de versificação e um diccionario orthographico, este systematizando sua reacção esthetica às reformas cacophoneticas soffridas pelo portuguez escripto. Mattoso perdeu a visão nos annos 1990 devido a um glaucoma congenito que lhe ensejou o pseudonymo litterario. Sua producção mais volumosa occorre appós a cegueira, graças a um computador fallante. Seus ebooks saem pelo sello Casa de Ferreiro e seu blog traz mais informação.