Por Luiz
Gustavo
É recorrente
o discurso que investir em Cultura é inútil. Que artistas, principalmente os
pequenos, não são trabalhadores; são preguiçosos, inúteis, desempregados,
parasitas, esquerdistas, dentre outros adjetivos pejorativos. Mas será que é
assim? Será que o investimento ou despesa, como dizem muitos liberais e
conservadores, em Cultura é ruim? Afinal, o que dizem os dados?
Nesse texto vamos
explorar uma pequena, porém importantíssima, ponta desse discurso reiterado por
setores ditos “produtivos” da sociedade. Não é nosso objetivo, nesse momento,
debater politicamente se um artista defende um lado A ou B, ou se a Lei X ou Y
são ruins. Vamos apontar, de uma maneira lúdica, o que dizem os dados e estudos
acadêmicos sobre os mais diversos dados disponíveis para quem quiser consultar.
Imagine uma tarde
de sábado, em um bairro qualquer, com uma comunidade real, que luta pela vida.
Calor, sol, baixa umidade do ar. As pessoas em casa, sem acesso a lazer público
e gratuito, sem acesso ao conforto necessário que o clima exige. Crianças
entediadas. Casal mal-humorado. Pais e mães brigando. Estranhos na rua
consumindo produtos impróprios. Sensação de perigo, tédio, cansaço, desânimo.
O cenário
parece caótico. Existem outras formas de lazer, sabemos disso. Sabemos que as
pessoas se organizam. Lutam. Trabalham. Divertem-se. Nosso objetivo aqui não é
minimizar essa luta e trabalho. Nosso objetivo é outro. Nosso objetivo é
mostrar que Cultura também gera Lucro, tanto social quanto financeiro.
Para esse
mesmo dia entediante um grupo de artistas locais, da comunidade local,
conseguiu aprovar, via Lei Municipal, um pequeno sarau Cultural, com apresentações
ao vivo de poesia, música e teatro na principal praça do bairro. Como Cultura é
considerada “gasto” e não INVESTIMENTO, o edital que eles
venceram disponibilizou acesso a escassos recursos.
Chegando o
dia do evento muitos locais não sabiam. O pouco dinheiro disponível não
permitiu uma ampla divulgação. A comunidade estava alheia ao que estava
acontecendo. Os próprios organizadores correram atrás, tirando dinheiro do
bolso, procurando comerciantes do bairro, vendedores ambulantes, artistas
locais e explicando o projeto.
Tirando essa
parte mais fictícia, vamos aos números. Com os recursos disponibilizados, a
equipe conseguiu contratar algumas pessoas para montar som, montar palco, montar
barracas e estandes de venda, iluminação, contratar bandas locais, chamar
vendedores de livros, revistas, roupas, comida, bebida, itens de artesanato da
comunidade, entre outras atividades.
É justamente
nessa escala que vale observar uma pergunta econômica simples: o que acontece
com o dinheiro alocado ali? Quando se acompanha o caminho dos recursos, a
resposta é menos abstrata do que parece. Cultura movimenta fornecedores, gera
trabalho, atrai público e induz consumo no entorno. O recurso não termina no
palco, no livro, na tela ou na oficina. Ele continua circulando. Mas qual o
impacto real desse recurso?
Para tentar responder
a essa pergunta, é importante buscar respostas tanto na economia real quanto na
academia. No Brasil, um dos estudos mais
detalhados sobre esse efeito foi produzido pela Fundação Getúlio Vargas para o
Ministério da Cultura, que em 2018 estimou que cada R$ 1 captado e executado
por projetos da Lei Rouanet movimentava R$ 1,59 na economia, considerando o
impacto direto dos recursos incentivados e o impacto indireto sobre a cadeia de
fornecedores.
Já em janeiro
de 2026 com dados de 2024, essa pesquisa foi refeita, ampliando a metodologia.
Se a primeira pesquisa considerava basicamente os gastos da execução, nesta entraram
no cálculo outras fontes de recursos dos projetos e os gastos do público. Ainda
que as duas não sejam comparáveis entre si devido a metodologias diferentes, o
resultado da segunda pesquisa foi um Índice de Alavancagem Econômica de R$ 7,59
movimentados para cada R$ 1 gasto na execução, ou seja, cada Real gasto PODE
movimentar direta e indiretamente, em média, R$ 7,59 no evento e entornos.
A pesquisa
da FGV analisou projetos de 2024 que movimentaram cerca de R$ 25,7 bilhões e criaram
algo em torno de 228 mil postos de trabalho diretos e indiretos. Foram identificados
também cerca de 567 mil pagamentos, mais de 1.800 tipos de gastos e
aproximadamente 81 mil fornecedores e prestadores de serviço. É importante
lembrar que essa pesquisa focou apenas na Lei Rouanet. Estados e municípios
apresentam legislações próprias, mas, mesmo assim, tais resultados ajudam a visualizar
algo que o número agregado esconde: o dinheiro se distribui por uma rede
extensa de atividades.
Isso exige
uma ressalva. Não podemos pegar o multiplicador nacional da Rouanet, que é uma
média geral, e afirmar que um sarau de bairro produzirá exatamente R$ 7,59 para
cada real recebido. O estudo não demonstra isso. O que pode ser transferido
para a pequena escala é o mecanismo econômico que produz o efeito.
Falar sobre
a Lei Rouanet no Brasil é mexer em um vespeiro. Por isso é importante analisar
estudos semelhantes em outras regiões do mundo. Como o papel desse texto não é
ser acadêmico, então faremos um recorte mais simples analisando alguns aspectos
dos EUA e Europa.
Nos Estados
Unidos, o Arts & Economic Prosperity 6, da Americans for the Arts,
calculou que organizações artísticas e culturais sem fins lucrativos e seus
públicos geraram US$ 151,7 bilhões em atividade econômica em 2022, sustentando
2,6 milhões de empregos e US$ 29,1 bilhões em receitas governamentais. O dado
mais interessante para pequenos eventos está no público: o participante gastou,
em média, US$ 38,46 além do ingresso. Visitantes vindos de fora do condado
gastaram US$ 60,57, contra US$ 29,77 dos moradores locais.
Na Europa, o
estudo Rebuilding Europe, realizado pela EY para a GESAC, registrou em
2019 faturamento de € 643 bilhões nas indústrias culturais e criativas, valor
equivalente a 4,4% do PIB da União Europeia segundo a metodologia do relatório,
além de mais de 7,6 milhões de empregos. No Brasil, o Mapeamento da
Indústria Criativa 2025, da Firjan, estimou a economia criativa em R$ 393,3
bilhões em 2023, ou 3,59% do PIB, com aproximadamente 1,26 milhão de
profissionais formalmente empregados.
Legal, são
muitos números, mas muita coisa parece milagrosa. Afinal como investir RS 100
mil num bando de “fracassado” pode dar um retorno de até R$ 759 mil? Nenhum
investimento “produtivo” chega sequer perto dessa cifra maravilhosa.
Reimagine o
sarau do início. A aprovação no Edital deu direito a um orçamento que irá pagar
organizadores, autores, produtores, equipes de som, áudio, vídeo, aluguel de
mesas, estandes etc. Quando da aprovação do edital, é necessário já ter muitos itens
definidos, pois estamos trabalhando com recursos públicos, os quais precisam
ser detalhados. Parte desses fornecedores compra insumos de outras empresas e
remunera seus trabalhadores. Depois vem o público, que pode consumir numa
padaria, restaurante, estacionamento, comércio próximo e adquirir livros, artesanatos,
poesias, fotografias, entre outros itens e serviços que podem ser
disponibilizados durante o evento.
É daí que
surgem os efeitos diretos, indiretos e induzidos. Não há mágica contábil: há
uma cadeia. Quanto maior a capacidade de contratar localmente e atrair gastos
adicionais sem apenas deslocar consumo de um estabelecimento para outro, maior
tende a ser a retenção do recurso naquele território.
Eventos
recorrentes acrescentam outra camada. Uma oficina de quadrinhos pode formar um
ilustrador; um cineclube pode criar demanda para técnicos e produtores; um
pequeno festival pode consolidar fornecedores locais. Cultura também ajuda a
formar mão de obra, redes profissionais e ambientes em que novos projetos se
tornam viáveis.
Além do
óbvio movimento financeiro, eventos culturais consolidados podem apresentar efeitos
sociais que exigem cuidado na interpretação. Dados do Departamento de Justiça
dos Estados Unidos mostram que, em dias letivos, a violência juvenil apresenta
concentração relevante no período logo após as aulas. Isso ajuda a explicar o
interesse em programas estruturados de contraturno.
Uma
avaliação conduzida pela UCLA/CRESST sobre o LA's BEST, programa de Los
Angeles, acompanhou dados de milhares de estudantes ao longo de oito anos. Os
resultados indicaram menor incidência de crime juvenil entre participantes com
maior engajamento, e a análise de custo-benefício estimou economia social de
aproximadamente US$ 2,50 em custos relacionados ao crime para cada dólar
investido.
Outro
levantamento em doze comunidades de alto risco da Califórnia encontrou, entre
participantes de programas de contraturno, reduções expressivas em vandalismo,
furtos, atos violentos e contatos com a polícia. Mas aqui também cabe precisão:
esses programas combinavam supervisão, educação, recreação, esporte e
atividades culturais. Não é correto atribuir sozinho à cultura todo o efeito
observado.
No Brasil, o
Instituto Sou da Paz desenvolveu na Brasilândia, em São Paulo, o projeto Paz em
Atitude, com oficinas culturais em escolas públicas voltadas à discussão
crítica da violência. Avaliações do Ipea sobre o programa Cultura Viva também
mostram a forte presença de jovens nos Pontos de Cultura. A evidência
brasileira é mais consistente para vínculo comunitário, participação e
protagonismo juvenil do que para afirmar uma redução percentual específica da
criminalidade causada exclusivamente por atividades culturais.
Nosso
objetivo com esse texto é provocar uma necessária discussão na sociedade sobre
a importância de investimento em eventos culturais. Sabemos que o sarau da
praça provavelmente nunca será um estudo de caso da FGV. Nem precisa ser. O
argumento econômico não depende de fingir que todo pequeno evento terá o mesmo
multiplicador de uma média nacional. Basta observar o percurso do dinheiro: ele
paga gente, aciona negócios, cria competências, atrai público e pode fortalecer
vínculos locais. Nessa perspectiva, cultura deixa de ser apenas uma linha de
despesa e passa a ser analisada pelo que também é: investimento com efeitos
econômicos e sociais mensuráveis.
Referências
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Luiz
Gustavo é
contador, mestre em Administração e atua há mais de 17 anos no setor
financeiro. Possui experiência em gestão, análise de custos, prestação de
contas e acompanhamento financeiro de projetos, com interesse especial na área
cultural e nos mecanismos de financiamento, incentivo e sustentabilidade de
iniciativas artísticas.
Nos últimos anos, passou a se
dedicar ao estudo e à atuação em projetos culturais, aproximando a visão
contábil e econômica da realidade de produtores, coletivos e iniciativas
locais. Seus textos buscam discutir cultura a partir de dados, viabilidade
econômica e impacto social, em linguagem acessível e sem perder de vista a
realidade de quem transforma ideias em projetos.