26 de ago. de 2026

'Nesse corpo de água doce' nada é doce

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Colofão é uma nota ou inscrição final na última página de um livro. Geralmente traz dados técnicos e de produção da obra, ou pode ser também espécie de resumo ou síntese, que serve para dar contexto ou mostrar a inspiração do autor. Em Nesse corpo de água doce (Editora Patuá, poemas), livro de estreia na literatura da escritora e professora mineira Priscila Faria, o leitor lerá na última página da obra: “Este livro foi escrito no decorrer de muitas águas – minhas ou de tantas outras mulheres. Inundou e lavou muita coisa aqui. Que possa seguir frutífero nos corpos todos que o receberem.”

O leitor, então, que se deleitou ou ficou com o travo amargo na garganta pelo que o sofrimento humano pode nos causar, após a leitura das 111 páginas precedentes, sente uma verdadeira catarse existencial provocada pelos poemas que leu antes de virar a última página. Aí temos "de trás pra frente" na ordem inversa da normal (do fim para o começo), o que melhor se pode sentir da poesia da autora. Eis os frutos que este livro produziu, regadas que foram suas árvores/poemas com as águas da dor e do sofrimento humano transfiguradas em profundas forças de conscientização e transformação, que tiveram o poder de quebrar velhas certezas, revelar limites reais e forçar o ser a buscar novos caminhos de consciência e liberdade. 

Em texto de orelhas, a escritora Maria Fernanda Elias Maglio afirma com muito acerto: 

“Nas poesias de Nesse corpo de água doce, livro de estreia de Priscila Faria, estão as mulheres e suas profusões de água: rio, leite, chuva, sangue, cachoeira, lágrima, líquido amniótico. Todas elas embarcadas em um naufrágio cansado, progressivo, contínuo. Uma morte lenta e insistente: sim, estamos vivas – gestando e parindo – mas podemos morrer, eles podem nos matar. Com efeito, estamos diante de um mosaico composto de poemas: imagéticos, reflexivos, profundos ‘que atravessam a experiência de ser mulher, a resiliência e a violência de gênero por meio de fortes imagens ligadas à água’”. 

Os textos reunidos contam toda uma história de vida essencialmente difícil para o gênero feminino, difícil por condições impostas que prevaleciam e ainda prevalecem nas relações de poder e domínio dos homens sobre as mulheres – a tal sociedade patriarcal. O que nos recorda as definições comuns impostas pela sociedade patriarcal como as de que mulheres são frágeis ou que nasceram para cuidar dos filhos e da casa, enfatizando a estigmatização da feminilidade e corroborando não apenas as condições sociais, mas também, e de várias maneiras, constituindo uma problemática enraizada culturalmente. 

Observe-se algumas estrofes do poema constante da página 13:

 

nasceu numa cidade do interior / a mãe e o pai / de outros interiores mais interiores ainda / foram parar nessa cidade em que nasceu / e não teria feito diferença alguma se não fosse essa / nasceu mulher / nem mais nem menos que nenhuma outra / a mãe que também nasceu mulher / a criou como foi criada / o pai que nasceu homem / a criou como a mãe foi criada / criadas, ela e a mãe / assim como quase toda pessoa / que chega nesse mundo com uma vagina” ... “nasceu e logo recebeu o título / de difícil / nasceu rasgando tudo / nasceu sem querer nascer / nasceu sem querer servir / nasceu sabendo o quanto ia morrer”...  “e morreu muitas vezes / chorava e se escondia com uma frequência / que ninguém entendia / criada como toda pessoa com vagina / não podia reclamar não podia gritar / toda vez que tentava era lembrada do que era / difícil / então se continha / cresceu calada. 

A menina nascida no sul de Minas, no município de Varginha, viveu o que as mulheres sempre vivem, sobretudo em sociedades ainda com forte ranço colonial onde a religião atua como poderoso mecanismo de controle social a padronizar valores “morais”.

 

a catequista dizia todas as quintas / a família é sagrada / na missa aos domingos também / então acreditava / até o padre tinha uma / na escola ninguém queria ser filho / de uma SE-PA-RA-DA / em casa a mãe suportava tudo / pela sagrada família / então ela também / se calava (p. 20). 

Também não escapou de assédios em um tempo no qual nem se dera conta ainda de que existia sexo. 

 

Todo dia a menina atravessa duas ruas para buscar pão moleton enorme, calças e chinelo para atravessar e trazer / o pão e a incompreensão / de por que aqueles homens ainda falam / aquelas coisas / de por que o pão tem que ser / tão amargo (p. 25). 

E acaba chegando a tristes conclusões do que é ser mulher numa sociedade estruturada pelo patriarcado. Um mero objeto.

 

a falha de ser mulher nesse mundo / de homens / e de ser traumatizada nesse mundo / por homens / a gente que resolva / entre nós // mulher dá / muito trabalho. (p. 24). 

Até que o impensável aconteceu. A menina foi crescendo e entendeu de pensar, estudou e continuou  pensando, sofreu e continuou  pensando,  sofrendo, pensou mais ainda, até que sortilégios da vida transformaram seu coração numa “lona de circo/fincada na tempestade” e ela afinal se assume como:

 

o bicho que fui / equilibrista do silêncio / agradava monstros / o bicho que sou / renasceu ontem / dessa vez chegou berrando (p. 16). 

Os poemas de Nesse corpo de água doce são desabafos libertadores em sua estrutura formal. Não possuem títulos, e seus versos curtos e cortantes apresentam amplas inquirições existenciais que transbordam de um metabolismo psicológico a assumir caráter coletivo.  Via de regra, impregnam o leitor de insuspeitadas epifanias, ou seja, momentos de clareza repentina ou insights profundos, de súbita revelação ou iluminação interior que ocorre quando uma verdade profunda sobre si, sobre o mundo, ou sobre a própria arte, surge a partir de uma constatação ainda não pensada. Isto pode trazer uma sensação de desestabilização, mas muda a visão que a poeta tem do fazer literário. Instantes carregados de significados simbólicos, emocionais e sexuais que convidam o leitor a refletir sobre temas universais de maneira mais profunda. 

No poema abaixo a palavra é repensada como ponte viva entre pensamento e sentimento. Aquilo que dá forma ao mundo, revela a alma, constrói as culturas. Mais do que um sinal na fala ou na escrita, a palavra guarda a essência da experiência humana e o emprego significativo dos recursos linguísticos. Só através de um trabalho artesanal com o vocábulo (desprendendo as amarras fonéticas, sintáticas e semânticas do português formal) é possível apreender a palavra potencializada:

 

eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos / que veja a beleza desfocada / quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia / que abrace a menina, penetre a mulher / quero a palavra perfurante / na garganta / a palavra que treme e vibra e contrai / a palavra da água da morte do medo do fim / eu quero a palavra engasgada / sem fôlego, sem batimentos, sem culpa / quero a palavra mapa, procura e dedos / a palavra sem ida e sem volta / que se contradiga / a palavra descrente da verdade do agora / eu quero uma palavra que é tudo / e que não sabe de nada / quero a palavra que reinvente a vida / materialidade fina e transcendente / do meu gozo, num único verbete / uma fogueira, um altar, a porta / do céu ou do inferno / eu quero a palavra muda / a palavra que desnude a poesia / eu quero o milagre do verso / porque meu sexo não sabe ser escrito (p. 103). 

Há na obra também poemas que produzem verdadeira catarse no leitor, promovendo reflexões de intensas impressões sobre o estado atual do mundo que positivamente ativa emoções acumuladas, permitindo sua liberação através da identificação, da empatia e da elaboração simbólica, que a todos atinge, sobremodo ao ser feminino, e que produz novas compreensões sobre si e os outros. A catarse fornece iluminações e aprendizados sobre nós mesmos, é a purificação ou a liberação intensa de emoções, sobretudo a de tristeza, que o leitor sente ao ler o que vamos fazendo de nosso mundo social. Aquilo que em nosso tempo está reprimido ou acumulado, seja em termos psicológicos, emocionais e/ou de superação de medos e traumas.

 

tempo em que as seguranças não existem / que as palavras se perdem em rolos infinitos / tempo em que as grandes salas só discursam / sobre moedas deuses pastos lucros / tantos pseudo-intelectuais influenciadores digitais // tempo de bruscas e inesperadas rupturas / tempo da não-verdade, da falta de respostas / tempo de cada um cuidar de si / uma vez por semana por uma hora / tempo da total autonomia, da liberdade / tempo da humana-mercadoria / da nossa imensa fragilidade // tempo em que crianças pesam mais que o mundo / tempo em que uma barriga exige tempo demais / tempo em que mães só são sagradas nos andores / e que filhos mortos não comovem mais // tempo em que não se pode mais dormir / porque às três da madrugada homens pisam em nossos sonhos // em vão lutamos, milênios de espera / mas os dias seguem dias de reis (p. 57). 

Interessante observar, neste poema ainda, que o fio condutor tecido costura uma tessitura até o cruzamento final do profano com sagrado. Com a supremacia do divino, que acontece no verso do instante final iluminado, de revelação representado pela menção a “dias de reis” que como sabemos, representa a manifestação de Jesus Cristo como o Salvador da humanidade, pela fé em uma luz divina que orienta a humanidade, e o esforço sincero daqueles que buscam a verdade. 

Assim os sofrimentos da vida são transfigurados pela autora em vivências (dela mesma e de tantas outras mulheres anônimas), que por sua vez geraram consequências de profunda maturidade existencial e que, afinal, colidem em versos com a sensibilidade do leitor. De forma pungente, profundamente comovente. O que se pode dizer da morte de um filho? Quando se perde um filho ainda bebê, não existe palavra. Todavia, Priscila dá o seu testemunho sobre o parto, a perda e o luto, dentro de uma perspectiva da mulher que se reergue, se fortalece e recomeça. Observe-se na última estrofe a metáfora da chuva que serve para algo que lava, que banha, faz passar e, até mesmo, purifica. Metáfora esta que também serve para o tempo, o qual amaina tudo, abranda o pranto e faz tudo passar, mas deixa em nós a essência do amor. Aquilo que verdadeiramente importa.

 

Que consigas sentir no menor gesto toda a imensidão do que sinto / e percebas o quanto me salvaste / pois mesmo nos meus dias de maior desespero / era o teu corpo dentro do meu que me lembrava de / voltar à vida / e ainda que me consumissem todos os dias / a angústia e o medo da despedida / era imaginar esse nosso encontro que toda força / dentro de mim brotava

 

Tu foste a minha maior ferida e a minha maior esperança / nada mais neste mundo me deu tal sorte / de descobrir o poder da natureza em mim / em suas profundas catástrofes e em seus sutis recomeços / em toda fúria, em cada perdão, em todo milagre / da criação / nós fomos deus um do outro

 

Perdoa-me pelo meu cansaço, pelo sangue acelerado / e pela covardia tantas vezes em mim habitada / recebas a humanidade do meu amor / embrulhada em minha fraqueza / e tenhas a certeza da verdade que és para mim / verdade que só a dor desse nosso nascimento pode dar

 

Quando os dias voltarem a ser dias e a chuva voltar a ser só chuva / tu serás o eterno arco-íris da minha memória (p. 67). 

Priscila Faria declarou em entrevista recente à Revista Mana: “Depois, quando fui reunir esses textos, percebi o quanto estavam dispersos. Foi um processo de organização difícil, quase caótico, mas também parte do que esse livro é” (...) “Quando finalmente fiz esse mergulho, foi muito intenso. Um processo quase catártico, de revisitar tudo isso e dar forma ao livro. E foi curioso perceber o quanto eu tinha escrito. Acho que ainda daria facilmente mais dois ou três livros.” 

Muito bem. Aguardamos com vivo interesse novas produções dessa autora que fere a tecla poética certa e necessária neste nosso mundo ainda em dificultoso percurso de emancipação do humano. Cabe aqui, e finalmente, o nosso mais caloroso aplauso.

 

Nesse corpo de água doce
Priscila Faria
Editora Patuá – São Paulo / SP
2026
112p.
ISBN 978-65-281-0380-5

 

Links para compra: 

Editora Patuá

Amazon 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

15 de ago. de 2026

Mosaico da condição humana: o realismo cru e o lirismo fantástico em 'Manicômio'

  

Manicômio é uma coletânea de contos que convida o leitor a caminhar sobre a tênue linha que separa a sanidade da loucura. Muito além de muros e camisas de força, o verdadeiro hospício retratado na obra é o nosso próprio cotidiano: são as neuroses, a incomunicabilidade, as paixões destrutivas e os vazios existenciais que habitam as cidades e os lares modernos. Com fortes influências de grandes nomes da literatura — explicitamente presentes ou homenageados no texto —, o autor tece um mosaico profundo e poético sobre a condição humana. 

A coletânea transita por diferentes gêneros e atmosferas, garantindo que cada conto seja uma experiência única, mas todos unidos por desfechos impactantes. No campo dos dramas psicológicos e amorosos, narrativas como “Meus olhos verdes” e “Minha namorada de um amigo meu” exploram a vulnerabilidade masculina, as cicatrizes amargas da traição e as consequências drásticas de amores proibidos, não ditos ou sufocados pelo tempo. O abismo das relações interpessoais e a coisificação dos corpos surgem em contos existenciais como “Um voo entre as estrelas e o chão”, expondo o vazio de quem busca preencher suas fraturas com prazeres efêmeros. 

O autor, Rogers Silva, também mergulha nas dores silenciosas da juventude e na completa falência do diálogo familiar. Em “Uma viagem ruim” e “Uma viagem estática”, somos testemunhas impotentes de quartos trancados: o mesmo protagonista, sob pontos de vistas diferentes, esmagado pelo tédio e pela depressão, clama por socorro através de cifras de violão e rock, enquanto seus responsáveis permanecem surdos aos avisos da tragédia. Essa fragilidade da pureza inicial também ecoa no belíssimo “Clarissa”, um relato sensível sobre o fim abrupto da inocência infantil diante da fatalidade. 

Em contraponto ao realismo cru, a obra ousa ao adentrar o lirismo fantástico, o realismo mágico e a subversão teológica. O leitor é transportado para realidades poéticas onde a dor molda identidades alegóricas (“O mundo desencantado de Desseres”), anjos rebeldes desafiam as regras do universo por um amor profano e incondicional (“Amor-perfeito”) e o próprio Messias, atormentado na cruz, rebela-se contra o peso de ter que salvar uma humanidade corrompida (“A última revolta de Jesus Cristo”). A metalinguística – histórica e ficcional – se destaca em “Memórias de um espelho” (narrado por um espelho centenário que testemunha as hipocrisias dos lares do Rio de Janeiro desde 1808) e na delicada homenagem literária e espiritual de “Machado e Carolina”. 

Por último, o conto-título “Manicômio” amarra o conceito central do livro. Guiado por um narrador intruso, irônico e metalinguístico, a história cruza a trajetória simultânea de diversos personagens da cidade — famílias alienadas pela televisão, jovens em busca de identidade, amigos afogando mágoas em bares — até colidi-los no mesmíssimo instante, escancarando a violência, o racismo e a completa imprevisibilidade da vida urbana. 

Manicômio é uma leitura provocativa. Sem entregar respostas fáceis, a obra nos oferece um espelho para as nossas próprias angústias, lembrando-nos de que as maiores tragédias costumam espreitar nas pequenas escolhas e naquilo que deixamos em silêncio. 

 

“Caro Rogers, tua literatura não é para os leitores comuns, é para os raros, ou só para os loucos, como queria Hermann Hesse, no romance O lobo da estepe. A densidade discursiva vem da complexidade existencial das personagens e do narrador, que sofrem intelectualmente, ou seja, bem mais profundamente do que as pessoas comuns já sofreram ou vão conseguir sofrer em toda sua mísera existência”.

(Nelson de Oliveira, escritor)


O e-book do Manicômio está disponível na Amazon.

29 de jul. de 2026

Estande d’O Bule na Feira da Cultura

 

Feira da Cultura – Especial Coreia do Sul 

O Centro Municipal de Cultura, em Uberlândia/MG, recebe mais uma edição da Feira da Cultura – e o estande d’O Bule estará lá, com muitos livros e autores de literatura. 

Nessa edição, a cultura sul-coreana é a homenageada, com uma programação especial para toda a família! 

Venha viver uma experiência repleta de música, dança, ótimas comidas e bebidas, muita cultura e produtos artesanais:


🎤 K-pop
💃 Danças e atrações artísticas
🍜 Gastronomia coreana
🛍️ Produtos coreanos
🎎 Artesanato e produtos locais

Narrativa com preenchimento sólido Livros (romances, biografias, contos, crônicas, poesias, memórias, etc.)

 

📅 1º de agosto (sábado) | 12h às 21h
📅 2 de agosto (domingo) | 12h às 19h
 
📍 Centro Municipal de Cultura
Praça Prof. Jacy de Assis – Centro 

Uma edição especial da Feira da Cultura para quem deseja conhecer, experimentar e se encantar com o universo da Coreia do Sul. 

Anote na sua agenda. Esperamos por você! 🇰🇷✨

24 de jul. de 2026

'Sertão dos mortos' - um retrato simbólico do Nordeste

 

Por Gustavo Coelho 

Nordeste. Podemos dizer que é uma das regiões mais antigas do Brasil. Por ser o berço do início da colonização do país, é uma das regiões que mais sofreram com a exploração de suas riquezas. Devido à união de fatores históricos, estruturais e de própria natureza, nos dias atuais é considerada a região mais pobre do Brasil. Mas, apesar de todos estes pontos, pode-se dizer que é uma das regiões onde se concentra o maior índice de riquezas culturais, fruto de uma forte miscigenação entre povos indígenas, africanos e europeus. 

É neste vasto cenário que os autores (Chaffim et al.) de Sertão dos Mortos escrevem uma HQ de ficção voltada para o terror social. A história passa em um Nordeste pós-apocalíptico, onde acompanhamos o encontro de figuras regionais, como o próprio povo interiorano, cangaceiros, volantes, povos estrangeiros, indígenas, vaqueiros e uma figura que simboliza o futuro (astronauta). Com diversas referências que recontam um pouco da exploração daquela terra cansada, Sertão dos Mortos mostra uma “epopeia” de conflitos que acabam em um verdadeiro apocalipse zumbi.  

A HQ mostra uma trama bem violenta. Mas todo conteúdo da HQ, inclusive a própria violência, está conectado à questão crítico-social. Eis alguns pontos importantes analisados a partir dos extras da obra: 

A questão da violência: As HQs de horror (terror), comumente, apresentam uma trama de violência. Mas no caso do Sertão dos Mortos, esta violência dialoga com a forma pela qual o Nordeste foi explorado: as mortes, por exemplo, que ocorrem em todo a HQ, são reflexos da exploração da região e representam a exploração do povo nordestino (visto, de início, pela figura do “cabra”), o conflito/violência da volante e dos cangaceiros, a invasão dos povos estrangeiros, a luta indígena e como, muitas vezes, o progresso vem de forma impositiva e agressiva. 


   Simbolismos dos personagens: Esta HQ possui uma crítica específica em cada personagem. O(s) autor(es), nos extras, descreveu(eram) o significado de cada um deles. Em síntese, a caracterização de cada um dos personagens se deu como uma crítica de como a cultura nacional (brasileira) está sendo jogada cada vez mais de lado em detrimento da cultura estrangeira. Embora há aqueles que prezam, calados, por sua cultura, outros que fingem gostar dela, mas a negligenciam, ou até aqueles lutam por ela, mas em geral a maioria acaba oprimida ou massacrada pela cultura estrangeira.

      Referências e curiosidades: Ainda nos extras, somos apresentados a alguns dos fatores que auxiliaram na construção do enredo. O(s) autor(es) deixaram evidentes, dentro do processo criativo, que tiveram inspirações em outras obras e, que em alguns trechos, sentiram a necessidade de homenagear ícones da cultura popular brasileira. 

Opinião do leitor

Aqui expressarei minha opinião. Abordarei a questão crítica e comercial, onde, pela maioria das vezes, costumam ser opostas, não dialogando em prol do mesmo objetivo. Dividirei em dois pontos: a parte positiva da HQ e a parte negativa.


Ponto positivo

Sertão dos Mortos é uma HQ de cunho crítico apresentada de forma que tenha a ação necessária para cativar o leitor de quadrinhos. O gênero de horror (mais precisamente o terror), nos quadrinhos, sempre teve um bom público. Rodrigues (2015 apud Ramone, 2015) diz que “no Brasil, o gênero terror sempre foi um dos mais importantes dos quadrinhos, desde o final da década de 1930 (Garra Cinzenta já era uma dessas histórias, só que com elementos policiais) até meados dos anos 1990. Os brasileiros adoram uma boa história de terror, seja de lobisomem, assombração ou boitatá. Isso tem nos interessado como manifestação cultural”. 

Mas nota-se, no mercado, uma pequena mudança no cunho do horror, onde as histórias começaram a ficar mais dinâmicas, voltadas para a temática de aventura, com um toque de terror. Como exemplo, vemos quadrinhos da antiga revista Vertigo como Hellblazer, Morte, Preacher ou, até mesmo, Spawn da antiga Image. Eram quadrinhos com muitas doses de ação com uma pitada de macabro. 

A febre, entre a temática desta mesma HQ, veio com a The Walking Dead da Image. Focada no drama humano, com uma narrativa longa, ela apresentou algo que cativou o mercado gerando um hype no gênero de zumbis, priorizando o desenvolvimento psicológico dos personagens e distanciando da narrativa padrão de histórias de zumbi, colocando as relações em primeiro plano. 

Sertão dos Mortos acabou acertando a mão na temática, principalmente por escolher uma região com uma cultura tão rica para ser palco da trama. Com o objetivo de conscientizar o leitor por meio de críticas sociais e, ao mesmo tempo, buscar elementos que valorizem a cultura nacional, o processo acaba sendo natural, permitindo que todos aqueles que buscam um quadrinho de zumbi quanto aqueles que buscam pelo conteúdo nacionalista/crítico, acabem recebendo de forma satisfatória a obra. 

Mas devo alertar que o quadrinho, por mais que pareça algo comum aos outros de mesmo gênero, é diferenciado. Ele não é um quadrinho voltado para a narração básica das histórias de horror. Não apresenta mortes sem sentido ou para causar alguma espécie de impacto por ser violenta ou algo do gênero. Esta é uma HQ feita para fazer refletir. Voltada para um nicho específico. Ela faz críticas pessoais, sociais e políticas sobre a questão nacionalista de nosso país, tentando conscientizar as pessoas de que deveríamos valorizar mais a nossa cultura do que abraçar, de forma cega, o estrangeirismo e suas vertentes. É uma excelente obra para se discutir no meio acadêmico, tentando causar debate e diversas visões sobre nossa identidade cultural.

 

Ponto negativo

Curiosamente, o que exalta como ponto positivo acaba trazendo um fator negativo de grande impacto para HQ. O objetivo de toda e qualquer obra literária é a comercialização. Aliás, este é objetivo de todo e quaisquer produtos que estão no mercado. Focar em um conteúdo tão denso (a ponto de ter que apresentar um extra que demonstre todos os significados do enredo) acaba por nichar demais seu público. Todo e qualquer periódico da nona arte deve estar voltado em atingir o máximo de público na grande massa de leitores de HQs. A densidade do enredo impede, no meu ponto de vista, de atingir a real massa deste gênero, onde as ideias centrais da obra acabam por ser mais políticas, afastando o entretenimento que a maioria do público quer. 

Outro ponto é o antagonismo entre a ideia central e a construção da HQ. Podemos notar até mesmo nos extras. Onde há, claramente, um embate crítico sobre a permissibilidade brasileira frente ao tal “imperialismo cultural estrangeiro”, mas o(s) próprio(s) autor(es) utilizaram alguns filmes internacionais (13 filmes, ao todo) como referências mencionadas na HQ. O autor principal confessa, na seção de curiosidades, que o próprio título da obra foi inspirado em títulos de obras internacionais. Neste ponto vejo uma discrepância, principalmente por se tratar de uma ode ao nacionalismo. 

Outro ponto que seria importante trabalhar é quanto ao protagonismo. Por retratar tantas críticas e buscar diversos tipos de referências para o enredo, a história, por vezes, acaba não conceituando um protagonista ou um antagonista (pelo menos de forma clara, visto que claramente o protagonismo é a questão de nossa identidade nacional, produto nacional, e o antagonismo acaba sendo o estrangeiro, retratado na forma dos EUA). A ideia de protagonismo acaba se perdendo no meio de tantos personagens nascidos para representar uma ideia, ao invés de ser parte da trama. 

Por fim, o trabalho de arte é bom, assim como o enredo. Não estou aqui para criticar de forma negativa, mas sim de forma construtiva. Acredito no potencial da trama. Mas, em minha opinião, há um conceito nacionalista exacerbado, triscando em um ponto político extremista. Acho que toda crítica (ou movimento) por trás de Sertão dos Mortos é válida, contudo o foco foi voltado mais para a ideologia e não para a trama. A história tem um potencial gigantesco, onde poderia focar mais no que a massa gostaria de ler, por mais que o estrangeirismo faça parte deste “modismo”, pois no final o que conta são as vendas. 

 

Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo (Cápsula Editora, 2025) e autor de Os 13 contos (Cápsula Editora, 2026).

15 de jun. de 2026

consulta, de whisner fraga


 

Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

14 de jun. de 2026

Quando o Vão Vira Casa: nasce o VãoAteliê, território vivo entre gesto, criatividade e arte

 

Os múltiplos artistas — e parceiros de vida e de alma — Diego El Khouri & Lívia Batista inauguram a VãoAteliê, uma loja virtual dedicada à arte em processo. 

_ a cultura viva _
e há muito mais do que vocês ainda nem imaginam, 
mas que vão ver se revelar ao longo do tempo.

Arte, cultura, achados e tudo o que cabe nesse território em constante transformação, onde o fazer artístico atravessa o cotidiano e ocupa a casa. 

👉 Conheça a loja VãoAteliê no TikTok Shop: https://www.tiktok.com/@vaoatelie?_r=1&_t=ZS-937gIIN3Qry 

Instagram: @vaoatelie 

Fiquem atentos: 

 diariamente faremos lives por essa página, apresentando obras, pintando ao vivo, criando caricaturas personalizadas, abrindo processos. 

Aos poucos, o vão se expande: novos produtos, novas matérias, novas camadas de sentido. 

Nada pronto. Tudo em movimento. 

VãoAteliê 

Arte autoral em processo.

O vão como espaço de mudança.

Do gesto à casa.

Sente-se. 

Um dos programas vinculados ao Vão Ateliê. 

Histórias Absurdas da Arte. 

Um passeio por histórias insólitas, curiosas e absurdas envolvendo artistas, suas obras e episódios pouco conhecidos da história da arte. 

Roteiro, apresentação e edição: Lívia Batista 

Arte também é excesso, ruído e contradição. 

Cheguem junto.


12 de jun. de 2026

Com a grandeza de uma menina

 

Por Allyne Fiorentino 

__  Ai, eu acho que não quero falar, não. Eu tenho vergonha. O que eu preciso mesmo dizer? 

__ Diga o que você quiser, Bianca. Agradeça pelo ano, incentive-os. Nada demais, improvisa. 

__ Ah! Não. Olha as minhas bochechas, eu já estou toda vermelha. Meu coração acelerado, daqui a pouco as mãos estão suando. Não quero. 

__ Bem, eu vou começar falando, depois vou abrir o microfone para quem quiser falar. Vai pensando aí... Se você quiser, lá na hora, você fala. 

Disse isso já com a mão na maçaneta da porta, prestes a entrar. Eu, que também estava lá fora verificando uma série de dinâmicas que tínhamos planejado, consegui ouvir esse finalzinho de conversa enquanto entrava na sala juntamente com os dois. Quando entramos, todos estavam já sentados em círculo, com as camisetinhas “Somos Foda” bombando no peito, os projetores ligados, coffee breake servido, ouvidos atentos para o que o chefe iria dizer sobre o trabalho que fizeram durante todo o ano que passou e sobre as grandes e prósperas oportunidades que teriam no ano posterior. Sobre isso ele teria de ser criativo porque nem ele sabia o que estava por vir, mas ele nos ensinava que há sempre alguma coisa por vir, embora ela não tenha vindo nunca. 

O importante era ser resiliente, envergar sem quebrar, ser maleável, cair e levantar depressa, dar a volta no problema, voar como a águia, ser inteligente como o lobo. Sempre me perguntei por que as cobras e as hienas nunca eram usadas como exemplos de característica que um humano deveria seguir. Uma pena, já que a cobra é fria e se rasteja aos pés dos outros, e a hiena, quase brasileira, ela ri dos seus problemas, tudo isso fazíamos sempre. Eu mesma desconfiava que éramos apenas bichos bestas e acuados, mas isso não vinha ao caso naquele momento. 

E foi gráfico colorido pra cá, gráfico animado pra lá, números incríveis, que realmente parecem ser incríveis, no sentido de não críveis mesmo: é muito trabalho pra pouco funcionário! Faltou só jogarem fumaça e um estroboscópio e estaria arrumada a festa. Os slides cada vez mais ousados, com músicas de impacto e tudo – o designer estava quase formado em marketing, já que tinha que transformar um grão de areia em uma praia inteira, com direito a coco e a guarda-sol. 

Claro que tudo poderia ter sido resumido em uma hora de conversa, mas, como ele sempre nos ensinou, o mundo corporativo não é exatamente sobre “o quê”, mas sobre o “como”. É sobre que tipo de show é possível produzir com quase nada. O chefe não entendia que a filosofia dele se aplicava a qualquer coisa, ele mesmo não fazia ideia da grandeza daquilo que ele dizia. Não por ser uma técnica a ser seguida, mas como um Guy Debord, sem saber que estava descrevendo uma sociedade de espetáculo. A diferença é que Debord denunciava; e o chefe, bom, ele era coach, ele, por vezes, mentia e acreditava na sua própria mentira. É até divertido esse jogo, a gente tentar encontrar nas pessoas a “autopsicopatia”, palavra que devo ter inventado, mas seria o quanto você é capaz de se autoenganar, assim como enganaria a qualquer um. 

Mas a Bianca estava lá, fazendo a sua cara de boazinha sempre, sendo fofa e doce, como o chefe gostava. Resiliente, ele diria. Eu teria outras palavras para isso, menos bonitas, mais realistas, menos machistas, mas se eu as dissesse, não teria a grandeza de uma menina, nem de uma mulher, nem estaria em versos de música do Cidade Negra, por exemplo... Seria uma mulher sem grandeza se eu dissesse a verdade sobre o que os homens acham que é uma mulher grande: aquela que se apequena para eles. 

O chefe finalmente havia terminado e abriu o microfone para quem quisesse falar, olhou pra Bianca – ela corou. Ficou assim por alguns segundos, entre “vou ou não vou?”, “será que tenho competência pra isso?”, “será que tenho o que dizer?”. 

Nisso o chefe coach tinha razão, era preciso aproveitar as oportunidades que apareciam, porque nesses segundos em que Bianca pensava se ela era “grande” ou não, o supervisor se adiantou, pegou o microfone e começou a falar, com segurança, com a mão firme, a voz clara, sem tremer, sem gaguejar, sem titubear, sobre educação e liderança, como se sempre tivesse feito aquilo. Ele, que nem era daquela área, não entendia nada daquilo, mas era homem. E Bianca? Ela era a coordenadora e tinha muitos diplomas sobre aquilo que ele estava falando. 

É que o verso da música estava errado: pra ser homem sempre tiveram de se aproveitar da grandeza de uma mulher. 

Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia. 

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

10 de jun. de 2026

‘Vidas sem nome’ [e em poucas palavras]

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

No apagar das luzes do ano de 2025, deparo-me com o volume de contos curtos (e alguns curtíssimos), Vidas sem nome, do escritor e editor Wilson Gorj. Lida a última página da obra, e pensando em retrospectiva mais alargada para os últimos anos, em que várias obras semelhantes vieram a público, lembro do bruxo do Cosme Velho. Machado de Assis escreveu em 1881, em um capítulo de Memórias póstumas de Brás Cubas: “porque o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam e caem...” Referia-se ele a um romance, é verdade, mas com muita propriedade quanto à postura de ‘leitores’ que têm pressa em envelhecer. Quanto aos contos, o mesmo Machado escreve na advertência de Várias histórias, referindo-se à extensão do gênero: “O tamanho não é o que faz mal a este gênero de histórias, é naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos, que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é serem curtos". 

A coletânea que Wilson Gorj publica mais de 140 anos depois de Machado, depois de tanta, mas tanta mudança, atende ao leitor apressado e não decepciona no quesito qualidade. A começar pelos dois primeiros contos que abrem a obra, e que atestam ao que o livro veio afinal. Em “O sofá”, temos vívidos retratos do sentido de transitoriedade que nos atravessa e, mesmo assim, e paradoxalmente, perdura em nós com força descomunal o desejo de registrarmos nossa passagem no planeta. Já em “O circo”, lemos belíssimo testemunho de que, mesmo em face da dor que nos alcança no transcurso da vida, ainda assim, sabendo olhar, veremos que, “mesmo ali, no meio do fracasso”, por mais triste que seja, ainda há beleza na vida, “há amor, há afeto”. 

Gorj revela-se exímio intérprete de pequenos mundos de individualidades, varridos por situações aflitivas que podem alcançar a nós viventes. Suas anônimas criaturas que transitam nas 58 breves narrativas de que o livro se compõe, alimentam, de texto para texto, convivências de lastro filosófico-espiritualista, como acontece em “Invisível”, “Futuro” e “Caminho da perdição”. Há textos que mostram como o medo que nos assola, sobretudo nas grandes cidades, acaba por armar ciladas sem retorno para nós mesmos, como acontece em “A vítima”. 

Já em outras ficções, observamos pegadas da crença assaltada pela descrença, ou o otimismo minado pelo pessimismo uma e outra a revistar memórias nem sempre felizes. Outros personagens deflagram manifestações de humor que acabam por sentenciar o aparente fim de tudo. Em certos contos pensamos em um alívio a renovar o ser por meio do encontro de um grande amor, como sugerem contos como “Encontro marcado” ou “Pancadas na porta”, este último, por sinal, um tremendo equívoco entre amor e sexualidade que, afinal, adquire conotações de desespero e contrações de dor. Um conto de tragicidade onde o narrador corre literalmente para o precipício da tragédia. O tempo passa. Constatamos que hoje os cenários são outros, é verdade, os dramas humanos mais incisivos e cruéis, talvez, mas há certas coisas que não mudam... 

Em Gorj, por vezes a narrativa ficcional de reduzidos limites, também aparece com teor espectral como acontece em “A rosa” e “O encontro”. Quanto à forma, temos textos ora de narração objetiva e perversa como “Língua afiada” e, não raro, visitas ao realismo mágico, ou ao fantástico, como lemos em “O ninho”, “O mergulho” e “Um pequeno detalhe”. 

Em “Os louros da fama” (trata-se de um texto de 4 páginas) há algo de antológico no sentido de traduzir o choque entre as vaidades e o desencontro com a realidade vivida hoje por escritores no Brasil. Lembramos que o autor é editor chefe da Editora Litteralux, antiga Penalux, para a qual escrevi, em parceria, 146 resenhas em vários gêneros. É leitor experiente, portanto, e conhecedor do que se escreve atualmente no país. Conhece bem a realidade brasileira nessa seara. De fato, um texto muito perspicaz, que reproduz com fidelidade essa nossa estreita vidinha literária que oscila, para além das capacidades individuais, num pêndulo que se alterna entre o instrumento inquisitorial de pura e simples sabotagem de tantos talentos e o endeusamento duvidoso de mediocridades literárias. Quem vive da literatura e para a literatura nesse país, sabe muito bem do que estamos falando. 

Os contos elencados no volume, em sua maioria, não chegam a completar duas páginas, entretanto, quando ultrapassam essa limitação, e alcançam 3 ou 4 páginas, o leitor é brindado com uma inventiva mais livre e maior concatenação de sentidos porque melhor se apresenta o insight, aquele mergulho existencial que caracteriza o gênero. Aí os textos se aprimoram na medida em que o autor-narrador aprimora revelações, ilumina mais os instantes críticos que induzem o leitor em suas linhas e entrelinhas ao pulsar, ao fermentar e ao germinar das grandes vivências da experiência humana. Isto é, afinal, a nosso ver, o que verdadeiramente importa ao bom contista. 

Entre a introdução e o desfecho que une as duas pontas do leque, de tal forma que a impressão inicial se revigora nas palavras do desfecho, entra o talento do ficcionista. Nesse ponto o leitor toma contato não exatamente com o que os personagens estão a dizer ou fazer, mas o que estão a pensar, transformando toda a estrutura da história curta em uma mensagem muito tênue e delicada. Eis a unidade básica de modulação e desenvolvimento do conto. Aí o campo fértil para as ambiguidades, ambivalências, impressões fortalecidas em emoções muitas vezes apenas dedilhadas. 

Vivemos tempos de imediatismos e superficialidades, de relações instáveis e líquidas. Tais circunstâncias acabaram por impregnar o gênero conto de um tal enxugamento verbal, que em muitos casos transformam o gênero em meros aforismos, ou anedotas de três ou quatro linhas. Entretanto, não se pode fugir de uma constatação que nos parece óbvia. O exercício de textos de estrutura física muito reduzida exige do autor um vocabulário rico, um conhecimento vasto das possibilidades da língua, de seus recursos expressivos, das figuras de linguagem etc. Fora daí, corre-se o risco de produzir textos vagos, difusos, sem enredo, às vezes em tom de crônica, baseados em estados de espírito e/ou iluminações impressionistas, esvaziados de sentido, rasos de significado. A criação de atmosferas ficcionais continua válida, e hoje mais do que nunca. Precisamos da palavra sentida, pensada,  burilada à exaustão, que é afinal o que possui o dom de despertar em nós, não somente o significante da língua, mas também aqueles outros efeitos conotativos (figurados), explorando a função poética (estética), despertando  sonoridades da língua, que se abre a outras interpretações, permitindo expressões que despertem diferentes significados e sentimentos no leitor, e por quê não ?, exprimindo sentidos de subjetividades ao provocar o "eu lírico" autoral, que se revela em emoções, visões de mundo e sentimentos profundos, tornando afinal a linguagem um objeto de arte em si. 

Cito como exemplo do que escrevi acima, outro conto excepcional, “Pedalando pelas ruas da memória”, do qual transcrevemos, à guisa de conclusão, o trecho abaixo. E julguem os leitores a qualidade de uma prosa capaz de emocionar profundamente o leitor. Uma simples conversa de um avô com seu jovem neto durante um passeio de bicicleta que os dois empreendem nas ruas do bairro onde moram:

 

Ufa... Olhe, não foi à toa que parei aqui. Nesta calçada, há muito tempo, havia uma árvore. Um ipê. Quando mocinha, sua avó sempre me esperava encostada nele, debaixo de sua copa frondosa. A gente namorava escondido, sabe? Ela dizia para os pais que ia ao cinema com uma amiga e, enquanto a cúmplice ia na frente, sua avó me esperava aqui neste ipê. Depois do filme, a gente voltava pra cá e aproveitava para namorar outro tanto. Em agosto, nossas roupas ficavam cheias de pétalas amarelas. O ipê não era só um ponto de encontro, era outro cúmplice. Imagina só como foi duro passar por esta rua um dia e não encontrar mais a árvore tão querida, que trazia no tronco as nossas iniciais. Cortaram o ipê só porque não combinava com a fachada desse prédio moderno. ‘Cada geração constrói seu cenário sobre os escombros das gerações anteriores’. Profundo, não? Li isso em algum livro, não me pergunte qual. É por isso que nós, vovôs e vovós, às vezes nos sentimos assim, como atores de uma peça que há muito se acabou; meio descartados, excluídos do palco do mundo. Sei que estou exagerando, falando difícil. É que às vezes me esqueço que você tem apenas dez anos.”... “Monta de novo. É isso aí garoto. Pronto, agora vamos, seus pais já devem estar preocupados. Enquanto pedalo, vou te contar um segredo. Ultimamente tenho sonhado muito com a gente. Nós dois, eu e sua avó, de novo jovens. No sonho de ontem, ela estava outra vez me aguardando em nosso ponto de encontro. Parecia tão real, ela ali, exatamente como nos bons tempos: linda, risonha, esperando por mim debaixo do ipê florido. Esperando em vão, porque nesses sonhos eu nunca consigo chegar perto dela. Acordo antes. Acordo com uma saudade enorme, e passo o dia todo nessa expectativa de voltar a dormir e sonhar com ela de novo. Quem sabe, a gente finalmente se encontre numa noite dessas.

 

Eis aí. Às vezes precisamos de palavras, muitas delas... E ponhamos um ponto final a esta resenha que já vai longa... 

 

Livro: “Vidas sem nome”
Contos de Wilson Gorj
Editora Litteralux
2025
154 p.
ISBN 978-65-5322-058-4

 

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Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.