11 de dez. de 2025

O que o espelho não mostrou

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Ele entrou no carro e acionou a ignição. Nada. Tentou outra vez, e uma vez mais. Ruído de bateria descarregada. Um súbito sentimento de pânico assaltou-o. Que fazer? Olhou o relógio. Sete horas. Às oito da manhã em ponto a reunião da diretoria começaria... Um táxi! Apalpou o bolso em busca do celular: “Ih...também não vai dar. Descarregado. Pego um na rua mesmo. Não, não posso correr esse risco...” Olhou pensativo para a vaga ao lado da sua na garagem, em busca da caminhonete Toyota importada que recentemente comprara para Inês como presente, no dia em que resolveram morar juntos. Mas o carro estava com ela na academia de ginástica. Quatro quadras de distância. “Bom, vou em direção à academia, se no caminho encontrar um táxi... Se não, pego-a na aula, deixo-a em casa, e sigo para a fábrica. O problema é que essa caminhada toda com este terno, esta gravata apertando-me o pescoço...” 

Caminhou pelas ruas quase desertas do bairro, sem que encontrasse o urgentíssimo táxi, e absorto em complicações sobre linha de produção, estoques, cotações cambiais e cifras de faturamentos estratosféricos, só voltou a reentrar na atmosfera da realidade daquele dia pelo efeito da cadência veloz da música que marcava o passo dos exercícios físicos na academia. 

... 

Inês estava em um grupo de umas dez ou doze alunas, todas vestidas em malhas coloridas coladas aos corpos. Seguiam as orientações para execução dos exercícios que lhes iam sendo passadas por um musculoso instrutor, também este em calça e camiseta apertadas. 

O instrutor gritava e batia palmas de estímulo: 

— E um, e dois, e três, e vai! Joga os braços na linha do ombro, para a direita três vezes, e para na frente. Os pés juntos, a coluna ereta! E um, dois, e três e vai! Agora para a esquerda. Dez vezes e vai! Um... dois... três... quatro... 

Da porta do salão, ele via a imagem do grupo refletida no espelho que forrava toda a parede em frente. Através do espelho podia visualizar o rosto de Inês na primeira fila, próxima ao instrutor. Da porta enxergava a nuca coberta com os cabelos castanhos encaracolados, os ombros, as curvas que iam dar na cintura... A bundinha de Inês... Apesar dos quarenta anos, estava em forma. A típica mulher brasileira. Morena, baixinha, redondinha, “gostosa ainda”, pensou enquanto lançava um rápido olhar ao relógio. O instrutor agora determinava outra série de exercícios: 

— E para! Inspira fundo... agora... expira... com calma... de novo... mais uma vez... relaxa. E agora ó. De pé ainda, separa bem as pernas, abre. Abre mais. Braços erguidos acima da cabeça, paralelos... E vai, devagar até tocar as palmas das mãos no chão. Depois volta, põe as mãos nos quadris e recomeça tudo novamente. E vai! Dez vezes, depois relaxa dois minutos e passaremos às bicicletas ergométricas. E um... e dois... 

Com os corpos fletidos para a frente, a visão do espelho ficou para o observador mais livre, de forma que agora também ele se via refletido sob o caixilho da porta. O rosto emoldurado por uma cabeleira grisalha, ainda que barbeado, mostrava generosas rugas a descerem-lhe do nariz aos cantos dos lábios. Do pescoço para baixo o terno azul marinho escuro ia alargando-se para os lados até a cintura. E esta imagem de si, refletida em meio a tantos corpos esbeltos e rígidos, o fez olhar para a própria barriga que se avolumava para frente como a de uma grávida. 

Impaciente, voltou a consultar o relógio e a fixar a imagem de Inês através do espelho. Buscava-lhe os olhos e percebeu, não só no rosto afogueado, mas em todo o corpo dela, uma vitalidade e uma saúde que contrastava imensamente com a sua obesidade. Num átimo, exasperou-se com aquela confrontação física, e desejou com ardor que aquela aula terminasse. Ora, ele diretor de uma grande fábrica, sem transporte, pingando de suor, e Inês ali, a poucos passos, exercitando-se tranquilamente, sem notar-lhe a presença... A pressa, o nunca acabar daquilo, o foi irritando mais e mais até que avaliou a sua situação aflitiva, em oposição à felicidade que ela deixava transparecer. A raiva contraiu-lhe o rosto, e começou a pensar que ela já não era mais nenhuma adolescente para todo dia estar naquela academia a esticar-se... Procurou comparar os corpos das outras mulheres com o de Inês, e nisto, nesta cegueira de rancor, começaram a se agitar dentro dele, como ratos, sentimentos mesquinhos de inveja, despeito e amor-próprio espicaçado. 

“Ora, a verdade mesma é que ela também já não passa mesmo de uma coroa alegre” — pensou. 

E seu ódio foi indo ao escárnio. Queria zombar daquela revigoração forçada, queria mesmo uma maneira de fazê-la sentir que passava da conta, que a vida não lhe poderia ser assim tão bela, tão descontraída como ela queria naquele entusiasmo de ex-comerciária. 

Enfim concluíram a série e ela terminou por perceber a presença dele. Foi a seu encontro com um sorriso preocupado. 

— Oh querido, você por aqui? ... Já não deveria estar na fábrica? 

— Devia. Mas o carro não pegou, acho que deve estar com a bateria arriada. Então pensei em vir pegar você, deixá-la em casa e seguir com a Toyota — respondeu com irritação mal dissimulada. 

— Mas, meu bem, a aula ainda não terminou... Por que você não ligou para a fábrica ou chamou um táxi? 

— Inês, eu já estava em cima da hora, e o celular também descarregou... Vamos, tenho que estar na fábrica às oito para uma reunião muito importante. 

— Ah... Mas eu queria tanto concluir a aula... Olhe, tome. Aqui está a chave do carro. 

— E você, como vai retornar? 

— Como você veio, a pé. 

— Com essa roupa? Andando por aí? Ora, não vai lhe cair bem — ele retrucou num tom áspero e desdenhoso. 

A expressão de alegria que ela imprimiu ao rosto quando o encontrou, desapareceu. Aquela última frase a fez sentir vergonha diante das colegas de malhação, que começaram a prestar atenção ao diálogo. 

— Olhe. meu filho — tornou ela brandamente quase num sussurro e sorrindo para que as pessoas não percebessem que eles estavam tendo uma desavença. — Você vai para a fábrica e, quando a aula terminar, eu posso pegar uma carona com uma das meninas e... 

— Inês, vamos logo. Agora — interpelou ele com irritação. 

Os dois ficaram frente a frente por segundos, olhos nos olhos, esforçando-se cada um por ir até o impenetrável segredo do coração do outro, a sondarem o fundo de seus pensamentos, numa luta íntima de dois seres que apesar de viverem lado a lado durante dois anos, se desconheciam, desconfiavam um do outro. Entretanto, o olhar dela começou a recuar da intenção de permanecer na academia. Deu a entender isso por um último olhar rápido e doce, que fez passar na retina dele uma evocação sensual que ela sabia, escravizava-o. Ele sentiu-se mais leve; experimentou mesmo um sentimento de vitória que massageou-lhe o ego dominador. 

— Vamos que você está mesmo muito, muito atrasado — ela respondeu secamente. 

No percurso de volta, não trocaram palavra. Ao ouvir o cantar de pneus se afastando da portaria do prédio, ela subiu ao apartamento mal conseguindo mover as pernas. Os músculos estavam um tanto doloridos pelo esforço, e bastante trêmulos pela revolta contida. Procurava encontrar a mais ofensiva, corrosiva e venenosa palavra para atirar bem no meio da cara dele quando retornasse à noite. Mas como? 

Entrou no apartamento, vermelha, arfante, sufocada. Jogou-se na cama e começou a chorar. Sentia-se ultrajada, inconformada por não ter concluído a sessão de malhação daquele dia. Reviu a expressão de zombaria e sarcasmo de algumas colegas quando ela saiu da academia. E, quando recordou-se, então, daqueles lindos olhos verdes do instrutor, cheios de menosprezo para com ela, teve ímpetos de urrar de ódio. 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

10 de dez. de 2025

F.O.D.A. - SE (Parte 4)

 Por Gustavo Coelho

Por um segundo, ambos ficaram imóveis.

Marcos soltou uma gargalhada alta, que atraiu a atenção de algumas pessoas da fila.

— Meu Deus, cara... — disse ele, entre risos, com os olhos já lacrimejando. — FODA-SE! Literalmente! Não é possível!

— Só queria saber como você conseguiu meus dados para essa bosta de evento?

— Sério, Chico? Hahaha. Esqueceu do meu rolo com a Bianca do R.H.?

Francisco, sem ver graça alguma, pegou o crachá com resignação e o girou nas mãos.

— Isso vai ser um desastre... — murmurou. — Isso sou eu. Isso é minha vida inteira resumida em um pedaço de plástico.

Marcos, ainda rindo, deu um tapinha no ombro do amigo:

— Pelo menos hoje você já começa com um aviso. Quem quiser, vai saber com o que tá lidando.

Francisco olhou ao redor, segurando o crachá com dois dedos, o objeto pesando mais que sua própria dignidade.

— Eu devia ter ficado em casa...

Depois de três rodadas humilhantes, em que Francisco foi alvo de piadas por parte das pretendentes, a noite parecia arruinada. Cada nova mulher que se sentava à sua frente notava o crachá pendurado em seu peito, franzia a testa por um segundo, lia em voz alta "F.O.D.A. – SE", e então vinha a risada — algumas disfarçadas, outras escancaradas. Ele não contou, mas a última risada foi demais, o que não conseguiu tolerar: se levantou da cadeira e saiu andando em direção à saída do salão. O evento ainda seguia animado, com música baixa e pessoas conversando nos cantos, mas para ele tudo havia acabado.

Marcos, percebendo a ação repentina do amigo, gritou e correu atrás dele, empurrando as pessoas no meio do caminho:

— Francisco! Ei, espera aí! Cara! — insistia, acelerando o passo.

Francisco não respondia. Seguia firme, como se andar rápido fosse a única maneira de não desmoronar ali mesmo. Quando estava fora do prédio, sobre a calçada úmida de sereno e sob a iluminação de postes espaçados, ele enfim diminuiu o ritmo. Seu rosto ainda estava quente, os olhos sem brilho, os ombros pesados.

— Francisco... — Marcos se aproximou ofegante. — Me desculpa, cara. Eu juro que não sabia que iam usar o nome no crachá desse jeito.

Francisco respirou fundo e parou, olhando para o asfalto escuro à sua frente.

— Sabe o que mais me incomoda? — perguntou, com a voz mais baixa. — Não é só o crachá. É que eu me esforço, de verdade. Tento fazer tudo certo. E sempre, sempre dá errado.

Marcos tentou esboçar um sorriso, estendendo o braço para um leve tapinha nas costas do amigo.

— Bom, já que estamos aqui fora, tem um parque logo ali. Bora andar um pouco. Vai te fazer bem. E eu te escuto reclamar o quanto quiser. De graça.

Francisco soltou um riso sem graça, mais pelo gesto do que pela piada.

— Contando que hoje não apareça mais nenhuma zebra... — murmurou, caminhando ao lado do amigo.

— Ah, mas se aparecer, pelo menos é do zoológico e não vai rir do seu crachá — Marcos brincou.

Os dois seguiram em silêncio, a noite movimentada, cruzando a rua em direção ao parque. Pela primeira vez em horas, Francisco sentia que seu azar ficava para trás, mesmo que só por alguns passos.

Francisco soltou um sorriso torto, um reflexo involuntário diante da piada da zebra, que logo cedeu espaço a um semblante sério, o olhar distante, perdido entre os galhos das árvores iluminadas pelas luzes amarelas do parque.

— Eu não entendo, Marcos... — começou, com a voz baixa e rouca. — Como é possível tudo na minha vida sempre terminar em merda? Olha isso – apontou para seu crachá. – Eu realmente queria dar um foda-se pra tudo. Mas parece que até o universo resolveu me sacanear com isso.

Marcos, calado, mantinha o passo ao lado, atento.

— Achei que depois de tudo que passei, eu estaria mais preparado pra essas rasteiras. Mas a traição dela... — ele engoliu em seco. — Aquilo ali foi a pior de todas.

Houve um breve silêncio.

— Eu já tentei, cara. De verdade. Estudo, trabalho, metas, sacrifício – tudo. Mas nunca vem o reconhecimento, sabe? Nunca tem aquela vitória, aquele “você conseguiu, Francisco”. Sempre tem alguma coisa pra puxar meu tapete. Um erro, uma distração, uma ironia estúpida do destino — ele chutou uma pedra, que bateu em um banco de madeira e ricocheteou para o meio do caminho.

Marcos suspirou e concordou com a cabeça, como quem compreende sem julgar.

— Vem, vamos ali no quiosque do zoológico — apontou com o queixo. — Acho que você tá precisando de uma dose de alguma coisa forte. E eu também. Alguém tem que te ouvir até o fim dessa história toda, né?

Francisco não resistiu. Seguiu o amigo, os ombros ainda curvados, mas agora com certo alívio de finalmente tirar um pouco do peso do peito.

Ao entrarem no zoológico, Francisco e Marcos se depararam com um aglomerado incomum e gritos desesperados: uma multidão se reunia em volta de um cercado. Os dois se aproximaram para entender o que estava acontecendo.

Na beira de um fosso, agarrado com força a uma pedra que sobressaía da encosta, estava um garoto de cerca de sete anos, o rosto banhado em lágrimas e os braços tremendo pelo esforço.

— Fica aqui, Francisco. Vou até a guarita pedir ajuda! — avisou Marcos, se virando e correndo pelo caminho de volta.

Francisco permaneceu onde estava, olhando para a criança em pânico, os dedos escorregando aos poucos da pedra. Respirou fundo. Mas num impulso, tomou uma decisão: tocou no crachá preso em seu peito e subiu no pequeno parapeito de segurança, saltando o cercado baixo que separava os visitantes do fosso. Um burburinho irrompeu da multidão.

Com cautela, ele se aproximou da borda e começou a descer pelas pedras. Os calçados não ofereciam nenhuma segurança, mas ele se apoiava como podia, com os olhos fixos no menino.

— Ei, garoto, vai ficar tudo bem, tá? — disse, tentando parecer forte.

O menino o encarava com um misto de medo e esperança. Francisco desceu mais um pouco e firmou os pés na encosta. Encostou seu ombro, com cuidado, abaixo dos pés da criança.

— Se apoia aqui. Eu tô com você. Vai dar tudo certo.

Lentamente, o garoto transferiu o peso do corpo para Francisco, que o segurou com firmeza. Nesse instante, outro espectador, provavelmente tocado pelo ato, saltou o cercado e correu até a borda, inclinando-se o máximo que podia com o corpo para dentro do fosso.

— Vem, garoto! Me dá a mão! — gritou o homem, estendendo o braço.

Faltavam apenas alguns centímetros. Francisco, reunindo suas últimas forças, impulsionou o garoto para cima. Foi o suficiente. O menino agarrou a mão estendida e, com a ajuda de um segundo homem, foi puxado para cima com segurança.

Mas, no momento que impulsionou o garoto, Francisco perdeu o equilíbrio. Seu pé deslizou sobre a pedra úmida. Tentou se segurar, mas o peso do corpo o puxou para trás, caindo em direção ao fundo do fosso.

Um coro de gritos tomou conta da multidão. Francisco permaneceu caído por alguns segundos, com o rosto contraído de dor, o peito arfando. Ainda consciente, mas sem forças para se levantar, apenas fechou os olhos por um momento, sentindo a velha e familiar presença do azar mais uma vez lhe dando as boas-vindas.

Alguns segundos ele passou em um silêncio abafado pelo zunido em seus ouvidos. Francisco abriu os olhos devagar, sentindo um peso estranho no corpo. A dor estava mais fraca. Tateou o próprio peito, mexeu os dedos e pernas — estava inteiro. Aos poucos, ergueu-se com dificuldade, retirando folhas e galhos grudados à roupa.

Olhou ao redor e percebeu que havia caído em uma porção de grama alta e moitas densas, que felizmente amorteceram a queda. Respirou fundo. Estava vivo.

Ao levantar os olhos, viu uma cena que o fez congelar: a multidão em volta do fosso batia palmas, como se clamasse por algo. Algumas pessoas assoviavam, outras gritavam palavras que, ao seu ver, pareciam de incentivo. Braços se levantavam, celulares filmavam. Pela primeira vez em muito tempo, Francisco sentiu um calor no peito que não era angústia. Era orgulho. Reconhecimento.

Sorriu, meio sem jeito. Deu um aceno tímido. Um grupo de jovens gritou seu nome — ou o que achavam ser seu nome, pela sigla do crachá — e ele quase esqueceu o incômodo de tê-lo carregado até ali. Lá em cima, ele avistou Marcos ao lado de um segurança, gesticulando freneticamente. O amigo apontava para o lado, depois para o fosso, fazia círculos com os braços, os olhos arregalados. Francisco franziu a testa.

— O que ele tá...?

Antes que pudesse terminar a frase, percebeu algo estranho. A vibração dos aplausos havia mudado. Os rostos da plateia deixaram de expressar entusiasmo para revelar horror.

As mãos que antes apontavam para ele, agora miravam algo atrás dele.

Francisco virou lentamente a cabeça.

A poucos metros, entre as sombras das árvores baixas e o capim alto, dois grandes olhos âmbar o encaravam fixamente. A juba dourada balançava levemente com o vento. O leão estava parado, observando. E, pela forma como movia as patas em direção a ele, parecia que o cuidador não o havia alimentado ainda.

O corpo de Francisco paralisou. O som ambiente se diluiu. O sangue lhe subiu à cabeça, seus joelhos começaram a fraquejar.

Marcos, seu amigo, gritava, mas ele não ouvia mais.

Só uma palavra martelava sua mente, escapando de seus lábios, como uma rendição:

— FODA-SE!

FIM.

* Leia a parte 3.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.

9 de dez. de 2025

F.O.D.A. – SE (Parte 3)

 

Por Gustavo Coelho

Duas semanas haviam se passado desde o episódio que abalara Francisco emocionalmente. O tempo parecia ter parado dentro do seu apartamento: as cortinas fechadas, os pratos se acumulando na pia e a TV ligada no mudo, servindo apenas como um sinal de que os dias ainda passavam. Ele mal comia, não falava com ninguém e se limitava a existir entre o sofá e a cama.

Em uma tarde abafada de sexta-feira, Marcos, amigo e ex-colega de trabalho de Francisco, apareceu na porta com um sorriso insistente e um celular na mão.

— Francisco! — gritou, batendo com força. — Abre essa porta, agora!

Francisco, de camiseta amarrotada e olhos fundos, abriu devagar, sem muita disposição.

— Eu não tô a fim de conversa, Marcos...

— Ótimo, porque não vim pra conversar — disse, entrando sem cerimônia. — Você vai sair. Já passou tempo demais chorando pelos cantos.

— Cara, eu...

— Shhh! Peguei seus dados no banco da firma e já estamos cadastrados: “Destino & Paixão”. É hoje. Sete e meia. Você vai.

— Marcos, não leve a mal não, mas não tenho nenhum motivo para ir. Me perdoe, amigo, mas fica pra próxima.

Marcos então resolveu tirar seu trunfo da manga:

— Francisco, lembra do nosso ex-colega Yuri? Japonês, baixinho, engenheiro elétrico que foi demitido pelo Osmar um ano atrás?

— Claro que lembro! O sr. Osmar culpou ele pela falha do próprio projeto. Como eu não iria lembrar! Na hora que ele foi despedido, levantou o dedo do meio e disse que seu dedo era maior que o pau do Osmar – disse Francisco com umas risadas contidas.

— Pois bem, eu contei o que aconteceu e ele garantiu uma entrevista pra você na empresa onde ele trabalha.

— Putz, nem sei o que dizer, Marcos.

— Simples, eu passo aqui às seis, com o carro ligado. Troca essa camiseta, passa um pente no cabelo e tenta parecer alguém vivo.

Antes que Francisco pudesse contestar, Marcos já saía do apartamento, deixando no ar um convite que mais parecia uma permuta. Não havia escapatória.

Horas depois, no salão decorado com cetim vermelho, pequenas velas enfeitando as mesas sob a iluminação densa dos lustres de cristais e uma música ambiente que dava um ar de evento particular, Francisco, sentado, de camisa social e um sapato gasto que utilizava quando trabalhava, se sentia deslocado.

— Olha quem tá aqui — comentou Marcos, cutucando o braço de Francisco e acenando. — Pablo!

Um homem de aparência refinada, vestindo uma camisa de linho clara, acenou de volta com um sorriso aberto. Aproximou-se da mesa e cumprimentou Marcos com um abraço que indicava uma velha amizade:

— Faz quanto tempo, hein?

— Anos! — respondeu Marcos. — Esse aqui é o Francisco, lembra que falei dele? O azar em pessoa.

Francisco forçou um sorriso e apertou a mão que lhe era oferecida.

— Prazer.

— O prazer é meu — respondeu Pablo, com um olhar atento. — Marcos exagera nas apresentações.

Havia algo em Pablo que chamava atenção, mas Francisco não soube identificar de imediato. Um detalhe no jeito que ele falava, talvez na forma como mantinha o contato visual, como se estudasse a alma por trás dos olhos.

— Olha só, Pablo já pegou o crachá dele. Vamos pegar os nossos também e ver o que o destino nos reserva — sugeriu Marcos, tentando aliviar o clima.

Francisco assentiu. Não tinha expectativas, tampouco energia, mas algo naquele ambiente — ou naquele estranho conhecido de Marcos — parecia diferente do que ele esperava. Ao observar o crachá de Pablo com atenção, tentou decifrá-lo: “P.H. – PR”.

— O que quer dizer isso? — perguntou Francisco, apontando com o queixo para o crachá pendurado no peito de Pablo.

Pablo sorriu, como se já esperasse pela pergunta:

— É o padrão do evento — respondeu. — Colocam só as iniciais do nome e o estado de nascimento. Para preservar um pouco a identidade, sabe? Às vezes é mais fácil conversar com um estranho do que com alguém que já sabe tudo sobre você. Manter o Estado de origem dá pequenas dicas culturais, facilitando a interação.

Francisco sentiu um frio na barriga.

— P... H? Do Paraná? — gaguejou.

O rosto de Francisco empalideceu, e suas mãos suaram de repente. Seus olhos fixavam nas letras, amaldiçoando o seu azar. “Esse detalhe” o atingiu de maneira brutal. Algo aparentemente irrelevante ganhou um peso repentino.

— Tá tudo bem? — perguntou Marcos, percebendo a mudança abrupta na expressão do amigo.

Francisco permaneceu calado, pálido, com uma expressão assustada.

Marcos se virou para Pablo, tentando mudar aquele clima estranho:

— E onde a gente pega os crachás? Porque na entrada não deram nada pra gente.

— Tá vendo aquela fila? — apontando discretamente com o indicador. — Aquela ali, ó, naquela que minha amiga de vestido preto está, perto da mesa do bufê.

Francisco acompanhou a indicação com o olhar e viu a mulher que Pablo mencionava. Tinha o corpo largo, os cabelos castanhos caindo nos ombros e usava um vestido preto justo demais para a ocasião.

— Tem que pegar logo — completou Pablo. — Quando começarem os jogos, só fica quem tiver o crachá.

— Valeu, irmão — agradeceu Marcos, animado. — Bora, Chico.

Sem dar muito tempo para hesitação, Marcos puxou Francisco pelo braço, conduzindo-o em direção à pequena fila que se formava adiante. Ao se aproximarem da mesa, Marcos percebeu que Francisco ainda mantinha o semblante fechado. Os olhos dele evitavam o contato direto com qualquer um ao redor, e a testa franzida denunciava que algo o incomodava profundamente.

— Tá estranho, cara — Marcos comentou, parando de andar por um instante. — Que foi agora? Tá branco igual parede.

Francisco respirou fundo, olhou ao redor, como se buscasse alguma privacidade naquele ambiente movimentado, e sussurrou:

— Me diz uma coisa... quando você fez minha inscrição... você colocou meu nome todo?

— Claro, ué. Tava no formulário. Nome completo, CPF, data de nascimento, naturalidade... Por quê?

Francisco tirou a carteira do bolso traseiro da calça e puxou a identidade com os dedos tremendo. Abriu e a mostrou, apontando com insistência:

— Lê meu nome inteiro aqui.

Marcos, sem entender a urgência, leu em voz baixa:

— Francisco Oliveira Duarte de Almeida...

— E minha cidade de nascimento?

— Aracaju... Sergipe — completou Marcos. — Tá, e daí?

Francisco o encarou por um segundo, como se esperasse que a ficha caísse. Depois soltou, com a voz falhando:

— Cara... Marcos... Pensa nas iniciais...

O silêncio durou um segundo. Marcos olhou novamente para o documento e depois, quase em câmera lenta, virou os olhos em direção à mesa dos crachás, onde uma fileira de identificações aguardava. A ordem era alfabética. O olhar dele pousou direto na seção marcada com a letra F: no alto da pilha, o crachá destacava em letras grandes e douradas:

 

F.O.D.A. – SE

* Continua amanhã, dia 10/12.

** Leia a parte 2.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.

8 de dez. de 2025

F.O.D.A. - SE (Parte 2)

Por Gustavo Coelho

Mas, para Francisco, a vida não era apenas movida pelos seus infortúnios. Apesar de tudo, ele tinha uma esposa que o recebia com um sorriso sincero e um olhar calmo, o último refúgio depois de qualquer tragédia. Aquilo bastava para que aguentasse as mazelas do dia a dia. E naquela tarde, voltando mais cedo do trabalho — ou melhor, do lugar onde, até aquela manhã, ele tinha um emprego —, era justamente disso que ele precisava: um pouco de paz, algum conforto doméstico.

Pensava em como iria contar a ela — talvez durante o jantar, com calma, explicando tudo da melhor forma possível. Queria suavizar a notícia, então teve a ideia de levar para casa um bom vinho. Nada demais, apenas um gesto para tornar menos amargo o que estava por dizer.

Parou na calçada, tirou a carteira do bolso traseiro da calça e a abriu, olhando discretamente para o que restava do seu dinheiro. Logo se deu conta de que não podia exagerar. Era hora de começar a cuidar melhor das finanças, pelo menos até arrumar um novo emprego. Tinha que ser um vinho barato…

Então, vistoriando a sua carteira à procura de quaisquer recursos financeiros, ele enfiou os dedos num compartimento lateral. Sentiu algo diferente: um papel dobrado, mais rígido que as cédulas. Puxou com cuidado. Reconheceu de imediato: era um cupom promocional, as letras ainda legíveis, mesmo que o tempo tivesse começado a vencê-lo.

"40% de desconto em qualquer produto da loja", lia-se no topo, com letras largas e um fundo verde que começava a desbotar.

— Ah, é verdade… — disse em voz baixa, os olhos fixos no papel. — Aquela inauguração do mês passado…

Lembrava-se bem do mercado novo: todo decorado, cheio de funcionários apressados e sorridentes, bandeirolas coloridas tremulando na entrada. Na época, ele não havia ido pela inauguração, mas sim porque era caminho de sua casa.

Guardou o cupom no bolso com cuidado, como se fosse mais valioso agora do que antes, e ajeitou o colarinho da camisa.

— Um bom vinho com desconto é o melhor que posso fazer por ela hoje.

Olhou em direção ao quarteirão seguinte, onde ficava o mercado e, sem pressa, mas decidido, atravessou a rua, seguindo a passos firmes rumo ao que seria, por enquanto, seu único acerto do dia.

Francisco cruzou a entrada do mercado com o pensamento fixo em sua missão: encontrar o vinho, passar no caixa e voltar para casa. Um gesto nobre antes da má notícia.

“Há males que vêm para o bem”, repetia mentalmente enquanto empurrava o carrinho vazio por entre os corredores. O cupom dobrado repousava no bolso da calça como se fosse um bilhete premiado.

Passando pelas gôndolas, seguiu direto ao setor de bebidas. Diante da prateleira iluminada e bem-organizada, seu olhar foi direto ao vinho do Porto favorito de sua esposa. A garrafa era vistosa, o rótulo com letras douradas e serifadas. Um vinho caro, mas elegante. Com o desconto do cupom, ele poderia bancar o agrado sem comprometer a reserva financeira — já escassa — que precisava durar até um novo emprego.

Sem pensar muito, pegou a garrafa com firmeza, agarrando aí a chance de suavizar a tempestade que estava por vir. Dirigiu-se ao caixa rápido, onde uma funcionária, sentada atrás de um visor antiquado, atendia com movimentos lentos e precisos.

Vinte minutos depois — entre suspiros, pigarros e olhares impacientes da fila — ouviu finalmente:

— Próximo!

Francisco se aproximou com a garrafa na mão e colocou o vinho sobre o balcão.

— R$ 531,44, senhor — disse a atendente, pausadamente.

Ele acenou com a cabeça, confiante.

— Mas com esse cupom, o preço deve cair bem, não é? – apresentando o papel com um sorriso malicioso.

A funcionária franziu os olhos ao pegar o cupom. Levou alguns segundos analisando a parte da frente, virou o verso com um movimento rápido e estreitou ainda mais o olhar. Em seguida, soltou:

— Esse cupom expirou semana passada, senhor.

Francisco arregalou os olhos.

— Como assim? Deixa eu ver.

A mulher o devolveu. Ele examinou com pressa, vasculhando por datas. E lá estava, no verso, em letras minúsculas, quase imperceptíveis: “Válido até o dia 14” – e apertou os dedos nos olhos quando leu o mês.

Com vergonha, olhou ao seu redor e viu uma fila que serpenteava atrás dele, cheia de rostos apressados e olhos impacientes. A funcionária, com a mesma calma, apenas o encarava esperando a decisão. Ele pensou em recuar, deixar a garrafa e sair de lá às pressas, mas algo no peso daquela fila, naquele silêncio constrangedor, o impediu.

— Tá bom... passa no crédito mesmo.

A senhora assentiu, finalizando a compra sem comentários.

Com a sacola na mão, Francisco saiu do mercado resmungando em voz baixa:

— Meia hora de fila pra tomar uma dessa... Quase quinhentos e cinquenta conto! Meu Deus!

A cada passo sua mente calculava os ajustes que precisaria fazer para equilibrar o mês. Uma refeição a menos no dia, um presente adiado, talvez cancelar aquele serviço de streaming que ninguém usava em casa. Tudo para compensar o que agora era apenas uma garrafa cara, balançando dentro de uma sacola plástica fina.

Mas ainda assim, pensava, talvez o sorriso dela valesse o preço...

Eram 15h45 quando Francisco subiu os degraus do prédio onde morava. Sentia o peso do dia nos ombros. A luz da tarde, filtrada pelas janelas do corredor, desenhava sombras compridas no chão. Diante da porta de seu apartamento, respirou fundo.

Sabia que não era o seu horário habitual. Preparava-se para entrar sem fazer muito alarde, pois não queria assustar a sua esposa. Como ela não visualizara a mensagem que ele deixara no Whosapp, calculou que provavelmente estivesse tirando um cochilo, como costumava fazer à tarde.

Com cuidado, retirou os sapatos e girou a chave lentamente, empurrando a porta com a ponta dos dedos. O ambiente estava silencioso, acolhedor. Sem grandes ruídos, caminhou até a cozinha, abriu a geladeira e acomodou a garrafa de vinho na prateleira inferior. Sentia-se exausto, como se o dia tivesse durado uma semana inteira. Decidiu que um banho quente cairia bem antes de qualquer conversa difícil.

Rumo à suíte, empurrou a porta entreaberta do quarto e confirmou sua suspeita: sua esposa repousava na cama, o corpo sereno sob a penumbra que atravessava as persianas. Estava vestida com uma lingerie leve e dormia de lado, como sempre fazia, em uma pose sensual. Por um instante, Francisco hesitou. Pensou em deitar-se ali ao lado dela e deixar o tempo correr. Mas o suor e o peso do dia exigiam outra escolha.

Com delicadeza, sem ruído, abriu a porta do banheiro da suíte, revelando a cena em um flash instantâneo, inesperada e perturbadora.

Sentado bem à sua frente, em seu vaso sanitário, um homem nu se contorcia. Havia em sua face uma máscara de sofrimento agudo. Os ombros estavam tensos, a testa franzida em uma careta de dor. Da sua barriga vinham uns ruídos estranhos, e seus braços a agarravam como se tentassem conter uma força avassaladora. Era óbvio que ele estava no meio de uma batalha visceral.

O homem soltou um gemido baixo, apertando ainda mais a barriga. Em meio à sua aflição, seus olhos encontraram os de Francisco. Havia um misto de vergonha e desespero naquele olhar.

— Ah, droga… — ele conseguiu articular, com a voz tensa e entrecortada. — Me desculpa… não consigo segurar…

Uma onda invisível, densa e ácida explodiu do banheiro, atingindo as narinas de Francisco, que levou a mão entre a boca e o nariz, tentando filtrar a realidade. Seus olhos lacrimejaram instantaneamente, dando dois passos cegos para longe da porta, buscando ar puro onde não havia. Seu calcanhar bateu na estrutura da cama, e seu corpo, já sem comando, desabou para o lado, caindo com todo o peso sobre a forma adormecida de sua esposa. O impacto a despertou com um grito agudo, misto de susto e dor.

* Continua amanhã, dia 09/12.

** Leia a parte 1.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.

7 de dez. de 2025

F.O.D.A. – SE (Parte 1)

Por Gustavo Coelho

Francisco era um homem pacato que, apesar de seus quilinhos extras, tentava manter a forma, sem engordar muito. Subia escadas ao invés de usar elevadores, dispensava refrigerantes durante a semana e colocava um tênis surrado nas manhãs de sábado para caminhar no parque a algumas quadras de casa. Mas nada disso parecia surtir muito efeito. Seu peso oscilava pouco, e a barriga, mesmo que não crescesse, também não regredia.

O curioso é que, para além da balança, Francisco parecia viver numa espécie de redoma de infortúnios. A maioria das coisas que desejava, por mais simples que fossem, acabava em decepção. Não era dramático nem vitimista — era apenas um padrão que, com o tempo, ele passou a encarar com uma resignação silenciosa. Seja quando ele encomendava algo online e os itens chegavam trocados, quebrados ou em tamanhos incompatíveis, ou quando ele ia ao banco tentar resolver um assunto simples, o sistema caía bem na sua vez e o fazia esperar por horas. Era como se houvesse uma pequena força sutil no universo que se deliciava com seus fracassos cotidianos.

Em uma manhã de terça-feira, ele se levantou disposto a começar com o “pé direito” e ter seu primeiro caso de sucesso na vida. No dia anterior seu chefe havia convocado seus melhores engenheiros para trabalhar na apresentação mais importante da empresa. Ali mesmo ele havia prometido a gerência do projeto para aquele que melhor se destacasse. Visando isto, durante a semana, até a noite anterior à apresentação, Francisco estudou com afinco, revisando o projeto elaborado pela firma. Era voltado para a construção de um grande shopping e seria apresentado para um novo cliente da empresa de engenharia na qual ele trabalhava. Como o projeto não era dele, buscou estar afiado, principalmente por ter detectado falhas estruturais sérias que poderiam comprometer a futura construção.

Então chegou o dia. Hoje era o prazo para a entrega junto ao cliente. Francisco, se dirigindo à sala de reuniões, não parava de pensar na promessa de seu chefe. Não era só a gerência do projeto que ele almejava. Queria, também, aproveitar a constante procura do sr. Osmar em achar alguém para coordenar equipes a partir do próximo trimestre.

A sala de reuniões estava iluminada pelos painéis de LED. As paredes de vidro deixavam passar o burburinho dos outros setores, abafado como um zumbido distante. Francisco ajeitou os óculos no rosto, se sentando e mantendo a postura ereta diante da mesa longa de madeira escura. Ao centro, estavam dispostas as pranchas do projeto. Osmar, o chefe de engenharia e coordenador da equipe, após a chegada de todos, começou a reunião. Conduzia a explanação com o tom firme de quem dominava o assunto. O cliente, um homem calvo e reservado que estava sentado junto de seu assistente e advogado, permanecia atento, sem demonstrar muito entusiasmo. Francisco escutava em silêncio, mas dentro de si havia um incômodo crescente. Esperou o momento certo e, sentindo o coração acelerado, levantou a mão, interrompendo as declarações positivas acerca do projeto que o sr. Osmar apresentava.

— Desculpe interromper — disse ele, com voz firme. — Antes de prosseguirmos com a aprovação, gostaria de fazer uma observação técnica sobre o projeto.

O silêncio tomou conta do ambiente. Todos se viraram em sua direção.

— Revisei detalhadamente as pranchas nos últimos dias. E, com o devido respeito ao autor do projeto, preciso dizer que encontrei falhas relevantes — ele apontou com seu lápis. — Aqui, por exemplo: há colunas superdimensionadas em relação à carga real; nesta seção, a distribuição do peso entre os blocos estruturais está desalinhada; e, mais adiante, uma laje cuja espessura não corresponde à carga especificada. A longo prazo, isso comprometeria a segurança do shopping.

Virou-se para o cliente.

— Acredito que, para o bem do empreendimento, essas questões devem ser revisadas antes da aprovação.

O cliente consultou seu advogado discretamente, limpou os óculos com um lenço e os recolocou.

O sr. Osmar, o rosto parado e sem alterar o tom de voz, disse:

— Obrigado pelo apontamento, Francisco — com um sorriso fechado. — De fato, revisões são sempre bem-vindas. Especialmente neste estágio.

O cliente pigarreou e disse:

— Agradeço a sinceridade e a atenção de todos — com o semblante pesado, mas polido. — Realmente não podemos permitir que o atual engenheiro projetista siga com esse projeto. Foi um alerta valioso. Mais uma vez, obrigado.

Dirigiu-se à porta, cumprimentando com acenos tímidos os presentes. Osmar, que permanecia imóvel em sua cadeira, acompanhou a saída do cliente. Assim que a porta se fechou, o ambiente permaneceu por alguns segundos mergulhado em silêncio. O chefe então se levantou lentamente e olhou para Francisco com um misto de incredulidade e raiva contida, os olhos frios e a mandíbula rígida.

— Fábio — disse ele, chamando um dos coordenadores da empresa que estava ao lado de Francisco —, na minha sala. Agora.

Sem esperar resposta, se virou e saiu da sala.

O ambiente, antes concentrado, agora se enchia de cochichos. Olhares se cruzavam. Cabeças se inclinavam umas para as outras. Francisco ainda estava sentado, imóvel, tentando entender o que havia acontecido. Sentia-se desconfortável, mas não arrependido.

— Cara... você tá maluco? — murmurou Marcos, seu parceiro de baia, que estava logo ao lado. — Você leu esse projeto mesmo?

— Li, claro. Passei a semana inteira analisando. Decorei cada detalhe estrutural. Só não entendi a reação do Osmar...

Marcos soltou uma risada sem humor e se inclinou para a frente, empurrando uma das folhas do projeto na direção de Francisco.

— Olha aqui, na capa. Dá uma lida com calma.

Francisco pegou a folha e observou. No canto inferior direito, em letras destacadas no carimbo técnico, lia-se:

 

Eng. Civil Osmar Guimarães – Responsável Técnico pelo Projeto

 

O sangue pareceu escoar de seu corpo todo, deixando apenas um frio no estômago e um calor no rosto. As palavras começaram a embaralhar-se em sua mente. “Revisar antes da reunião... Apontar os erros... Mostrar capacidade...” Tudo fazia sentido até ali. Mas havia pulado um detalhe essencial... A legenda principal carimbada.

Aquele não era um esboço interno, tampouco uma sessão de brainstorm técnico. Era a reunião de aprovação final. O cliente estava ali para dar o "sim" definitivo. E ele — Francisco — acabara de enterrar a negociação na frente de todos.

— Mas que diabos deu para o Osmar ter feito este projeto? Ele nunca faz porra nenhuma!

Marcos se inclinou e, em tom baixo, respondeu:

— Foi ordem lá de cima. Eles não queriam que nada saísse errado, então pediram que ele mesmo fizesse o projeto.

“Fudeu!”

* Continua amanhã, dia 08/12.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.