Por
Krishnamurti Góes dos Anjos
No apagar das luzes do
ano de 2025, deparo-me com o volume de contos curtos (e alguns curtíssimos), Vidas
sem nome, do escritor e editor Wilson Gorj. Lida a última página da obra, e
pensando em retrospectiva mais alargada para os últimos anos, em que várias
obras semelhantes vieram a público, lembro do bruxo do Cosme Velho. Machado de
Assis escreveu em 1881, em um capítulo de Memórias póstumas de Brás
Cubas: “porque
o maior defeito deste livro és tu, leitor. Tu tens pressa de envelhecer, e o
livro anda devagar; tu amas a narração direta e nutrida, o estilo regular e
fluente, e este livro e o meu estilo são como os ébrios, guinam à direita e à
esquerda, andam e param, resmungam, urram, gargalham, ameaçam o céu, escorregam
e caem...” Referia-se ele a um romance, é verdade, mas com muita propriedade
quanto à postura de ‘leitores’ que têm pressa em envelhecer. Quanto aos contos,
o mesmo Machado escreve na advertência de Várias histórias, referindo-se
à extensão do gênero: “O tamanho não é o que faz mal a este gênero de
histórias, é naturalmente a qualidade; mas há sempre uma qualidade nos contos,
que os torna superiores aos grandes romances, se uns e outros são medíocres: é
serem curtos".
A coletânea que Wilson
Gorj publica mais de 140 anos depois de Machado, depois de tanta, mas tanta mudança,
atende ao leitor apressado e não decepciona no quesito qualidade. A começar
pelos dois primeiros contos que abrem a obra, e que atestam ao que o livro veio
afinal. Em “O sofá”, temos vívidos retratos do sentido de transitoriedade que
nos atravessa e, mesmo assim, e paradoxalmente, perdura em nós com força
descomunal o desejo de registrarmos nossa passagem no planeta. Já em “O circo”,
lemos belíssimo testemunho de que, mesmo em face da dor que nos alcança no
transcurso da vida, ainda assim, sabendo olhar, veremos que, “mesmo ali, no
meio do fracasso”, por mais triste que seja, ainda há beleza na vida, “há amor,
há afeto”.
Gorj revela-se exímio
intérprete de pequenos mundos de individualidades, varridos por situações
aflitivas que podem alcançar a nós viventes. Suas anônimas criaturas que
transitam nas 58 breves narrativas de que o livro se compõe, alimentam, de
texto para texto, convivências de lastro filosófico-espiritualista, como
acontece em “Invisível”, “Futuro” e “Caminho da perdição”. Há textos que
mostram como o medo que nos assola, sobretudo nas grandes cidades, acaba por
armar ciladas sem retorno para nós mesmos, como acontece em “A vítima”.
Já em outras ficções,
observamos pegadas da crença assaltada pela descrença, ou o otimismo minado
pelo pessimismo uma e outra a revistar memórias nem sempre felizes. Outros
personagens deflagram manifestações de humor que acabam por sentenciar o
aparente fim de tudo. Em certos contos pensamos em um alívio a renovar o ser por
meio do encontro de um grande amor, como sugerem contos como “Encontro marcado”
ou “Pancadas na porta”, este último, por sinal, um tremendo equívoco entre amor
e sexualidade que, afinal, adquire conotações de desespero e contrações de dor.
Um conto de tragicidade onde o narrador corre literalmente para o precipício da
tragédia. O tempo passa. Constatamos que hoje os cenários são outros, é
verdade, os dramas humanos mais incisivos e cruéis, talvez, mas há certas
coisas que não mudam...
Em Gorj, por vezes a
narrativa ficcional de reduzidos limites, também aparece com teor espectral
como acontece em “A rosa” e “O encontro”. Quanto à forma, temos textos ora de
narração objetiva e perversa como “Língua afiada” e, não raro, visitas ao
realismo mágico, ou ao fantástico, como lemos em “O ninho”, “O mergulho” e “Um
pequeno detalhe”.
Em “Os louros da fama”
(trata-se de um texto de 4 páginas) há algo de antológico no sentido de
traduzir o choque entre as vaidades e o desencontro com a realidade vivida hoje
por escritores no Brasil. Lembramos que o autor é editor chefe da Editora
Litteralux, antiga Penalux, para a qual escrevi, em parceria, 146 resenhas em
vários gêneros. É leitor experiente, portanto, e conhecedor do que se escreve
atualmente no país. Conhece bem a realidade brasileira nessa seara. De fato, um
texto muito perspicaz, que reproduz com fidelidade essa nossa estreita vidinha
literária que oscila, para além das capacidades individuais, num pêndulo que se
alterna entre o instrumento inquisitorial de pura e simples sabotagem de tantos
talentos e o endeusamento duvidoso de mediocridades literárias. Quem vive da
literatura e para a literatura nesse país, sabe muito bem do que estamos
falando.
Os contos elencados no volume, em sua maioria, não chegam a
completar duas páginas, entretanto, quando ultrapassam essa limitação, e
alcançam 3 ou 4 páginas, o leitor é brindado com uma inventiva mais livre e maior
concatenação de sentidos porque melhor se apresenta o insight, aquele
mergulho existencial que caracteriza o gênero. Aí os textos se aprimoram na
medida em que o autor-narrador aprimora revelações, ilumina mais os instantes
críticos que induzem o leitor em suas linhas e entrelinhas ao pulsar, ao
fermentar e ao germinar das grandes vivências da experiência humana. Isto é,
afinal, a nosso ver, o que verdadeiramente importa ao bom contista.
Entre a introdução e o desfecho que une as duas pontas do
leque, de tal forma que a impressão inicial se revigora nas palavras do
desfecho, entra o talento do ficcionista. Nesse ponto o leitor toma contato não
exatamente com o que os personagens estão a dizer ou fazer, mas o que estão a
pensar, transformando toda a estrutura da história curta em uma mensagem muito
tênue e delicada. Eis a unidade básica de modulação e desenvolvimento do conto.
Aí o campo fértil para as ambiguidades, ambivalências, impressões fortalecidas
em emoções muitas vezes apenas dedilhadas.
Vivemos tempos de imediatismos e superficialidades, de
relações instáveis e líquidas. Tais circunstâncias acabaram por impregnar o
gênero conto de um tal enxugamento verbal, que em muitos casos transformam o
gênero em meros aforismos, ou anedotas de três ou quatro linhas. Entretanto,
não se pode fugir de uma constatação que nos parece óbvia. O exercício de
textos de estrutura física muito reduzida exige do autor um vocabulário rico,
um conhecimento vasto das possibilidades da língua, de seus recursos
expressivos, das figuras de linguagem etc. Fora daí, corre-se o risco de
produzir textos vagos, difusos, sem enredo, às vezes em tom de crônica,
baseados em estados de espírito e/ou iluminações impressionistas, esvaziados de
sentido, rasos de significado. A criação de atmosferas ficcionais continua
válida, e hoje mais do que nunca. Precisamos da palavra sentida, pensada, burilada à exaustão, que é afinal o que
possui o dom de despertar em nós, não somente o significante da língua, mas
também aqueles outros efeitos conotativos (figurados), explorando a função
poética (estética), despertando
sonoridades da língua, que se abre a outras interpretações, permitindo
expressões que despertem diferentes significados e sentimentos no leitor, e por
quê não ?, exprimindo sentidos de subjetividades ao provocar o "eu
lírico" autoral, que se revela em emoções, visões de mundo e sentimentos
profundos, tornando afinal a linguagem um objeto de arte em si.
Cito como exemplo do
que escrevi acima, outro conto excepcional, “Pedalando pelas ruas da memória”,
do qual transcrevemos, à guisa de conclusão, o trecho abaixo. E julguem os
leitores a qualidade de uma prosa capaz de emocionar profundamente o leitor.
Uma simples conversa de um avô com seu jovem neto durante um passeio de
bicicleta que os dois empreendem nas ruas do bairro onde moram:
Ufa... Olhe, não foi à toa que parei
aqui. Nesta calçada, há muito tempo, havia uma árvore. Um ipê. Quando mocinha,
sua avó sempre me esperava encostada nele, debaixo de sua copa frondosa. A
gente namorava escondido, sabe? Ela dizia para os pais que ia ao cinema com uma
amiga e, enquanto a cúmplice ia na frente, sua avó me esperava aqui neste ipê.
Depois do filme, a gente voltava pra cá e aproveitava para namorar outro tanto.
Em agosto, nossas roupas ficavam cheias de pétalas amarelas. O ipê não era só um
ponto de encontro, era outro cúmplice. Imagina só como foi duro passar por esta
rua um dia e não encontrar mais a árvore tão querida, que trazia no tronco as
nossas iniciais. Cortaram o ipê só porque não combinava com a fachada desse
prédio moderno. ‘Cada geração constrói seu cenário sobre os escombros das
gerações anteriores’. Profundo, não? Li isso em algum livro, não me pergunte
qual. É por isso que nós, vovôs e vovós, às vezes nos sentimos assim, como
atores de uma peça que há muito se acabou; meio descartados, excluídos do palco
do mundo. Sei que estou exagerando, falando difícil. É que às vezes me esqueço
que você tem apenas dez anos.”... “Monta de novo. É isso aí garoto. Pronto,
agora vamos, seus pais já devem estar preocupados. Enquanto pedalo, vou te
contar um segredo. Ultimamente tenho sonhado muito com a gente. Nós dois, eu e
sua avó, de novo jovens. No sonho de ontem, ela estava outra vez me aguardando
em nosso ponto de encontro. Parecia tão real, ela ali, exatamente como nos bons
tempos: linda, risonha, esperando por mim debaixo do ipê florido. Esperando em
vão, porque nesses sonhos eu nunca consigo chegar perto dela. Acordo antes.
Acordo com uma saudade enorme, e passo o dia todo nessa expectativa de voltar a
dormir e sonhar com ela de novo. Quem sabe, a gente finalmente se encontre numa
noite dessas.
Eis aí. Às
vezes precisamos de palavras, muitas delas... E
ponhamos um ponto final a esta resenha que já vai longa...
Livro: “Vidas sem nome”
Contos de Wilson Gorj
Editora Litteralux
2025
154 p.
ISBN 978-65-5322-058-4
Link para compra e pronto envio.
Krishnamurti Góes dos
Anjos
é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre
outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado
Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos)
e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas
no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e
Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o
primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a
crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira
contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.