22 de set. de 2026

Investimento não é gasto: o que os números dizem sobre a cultura de bairro

 

Por Luiz Gustavo 

É recorrente o discurso que investir em Cultura é inútil. Que artistas, principalmente os pequenos, não são trabalhadores; são preguiçosos, inúteis, desempregados, parasitas, esquerdistas, dentre outros adjetivos pejorativos. Mas será que é assim? Será que o investimento ou despesa, como dizem muitos liberais e conservadores, em Cultura é ruim? Afinal, o que dizem os dados? 

Nesse texto vamos explorar uma pequena, porém importantíssima, ponta desse discurso reiterado por setores ditos “produtivos” da sociedade. Não é nosso objetivo, nesse momento, debater politicamente se um artista defende um lado A ou B, ou se a Lei X ou Y são ruins. Vamos apontar, de uma maneira lúdica, o que dizem os dados e estudos acadêmicos sobre os mais diversos dados disponíveis para quem quiser consultar. 

Imagine uma tarde de sábado, em um bairro qualquer, com uma comunidade real, que luta pela vida. Calor, sol, baixa umidade do ar. As pessoas em casa, sem acesso a lazer público e gratuito, sem acesso ao conforto necessário que o clima exige. Crianças entediadas. Casal mal-humorado. Pais e mães brigando. Estranhos na rua consumindo produtos impróprios. Sensação de perigo, tédio, cansaço, desânimo. 

O cenário parece caótico. Existem outras formas de lazer, sabemos disso. Sabemos que as pessoas se organizam. Lutam. Trabalham. Divertem-se. Nosso objetivo aqui não é minimizar essa luta e trabalho. Nosso objetivo é outro. Nosso objetivo é mostrar que Cultura também gera Lucro, tanto social quanto financeiro. 

Para esse mesmo dia entediante um grupo de artistas locais, da comunidade local, conseguiu aprovar, via Lei Municipal, um pequeno sarau Cultural, com apresentações ao vivo de poesia, música e teatro na principal praça do bairro. Como Cultura é considerada “gasto” e não INVESTIMENTO, o edital que eles venceram disponibilizou acesso a escassos recursos. 

Chegando o dia do evento muitos locais não sabiam. O pouco dinheiro disponível não permitiu uma ampla divulgação. A comunidade estava alheia ao que estava acontecendo. Os próprios organizadores correram atrás, tirando dinheiro do bolso, procurando comerciantes do bairro, vendedores ambulantes, artistas locais e explicando o projeto. 

Tirando essa parte mais fictícia, vamos aos números. Com os recursos disponibilizados, a equipe conseguiu contratar algumas pessoas para montar som, montar palco, montar barracas e estandes de venda, iluminação, contratar bandas locais, chamar vendedores de livros, revistas, roupas, comida, bebida, itens de artesanato da comunidade, entre outras atividades. 

É justamente nessa escala que vale observar uma pergunta econômica simples: o que acontece com o dinheiro alocado ali? Quando se acompanha o caminho dos recursos, a resposta é menos abstrata do que parece. Cultura movimenta fornecedores, gera trabalho, atrai público e induz consumo no entorno. O recurso não termina no palco, no livro, na tela ou na oficina. Ele continua circulando. Mas qual o impacto real desse recurso? 

Para tentar responder a essa pergunta, é importante buscar respostas tanto na economia real quanto na academia.  No Brasil, um dos estudos mais detalhados sobre esse efeito foi produzido pela Fundação Getúlio Vargas para o Ministério da Cultura, que em 2018 estimou que cada R$ 1 captado e executado por projetos da Lei Rouanet movimentava R$ 1,59 na economia, considerando o impacto direto dos recursos incentivados e o impacto indireto sobre a cadeia de fornecedores. 

Já em janeiro de 2026 com dados de 2024, essa pesquisa foi refeita, ampliando a metodologia. Se a primeira pesquisa considerava basicamente os gastos da execução, nesta entraram no cálculo outras fontes de recursos dos projetos e os gastos do público. Ainda que as duas não sejam comparáveis entre si devido a metodologias diferentes, o resultado da segunda pesquisa foi um Índice de Alavancagem Econômica de R$ 7,59 movimentados para cada R$ 1 gasto na execução, ou seja, cada Real gasto PODE movimentar direta e indiretamente, em média, R$ 7,59 no evento e entornos. 

A pesquisa da FGV analisou projetos de 2024 que movimentaram cerca de R$ 25,7 bilhões e criaram algo em torno de 228 mil postos de trabalho diretos e indiretos. Foram identificados também cerca de 567 mil pagamentos, mais de 1.800 tipos de gastos e aproximadamente 81 mil fornecedores e prestadores de serviço. É importante lembrar que essa pesquisa focou apenas na Lei Rouanet. Estados e municípios apresentam legislações próprias, mas, mesmo assim, tais resultados ajudam a visualizar algo que o número agregado esconde: o dinheiro se distribui por uma rede extensa de atividades. 

Isso exige uma ressalva. Não podemos pegar o multiplicador nacional da Rouanet, que é uma média geral, e afirmar que um sarau de bairro produzirá exatamente R$ 7,59 para cada real recebido. O estudo não demonstra isso. O que pode ser transferido para a pequena escala é o mecanismo econômico que produz o efeito. 

Falar sobre a Lei Rouanet no Brasil é mexer em um vespeiro. Por isso é importante analisar estudos semelhantes em outras regiões do mundo. Como o papel desse texto não é ser acadêmico, então faremos um recorte mais simples analisando alguns aspectos dos EUA e Europa. 

Nos Estados Unidos, o Arts & Economic Prosperity 6, da Americans for the Arts, calculou que organizações artísticas e culturais sem fins lucrativos e seus públicos geraram US$ 151,7 bilhões em atividade econômica em 2022, sustentando 2,6 milhões de empregos e US$ 29,1 bilhões em receitas governamentais. O dado mais interessante para pequenos eventos está no público: o participante gastou, em média, US$ 38,46 além do ingresso. Visitantes vindos de fora do condado gastaram US$ 60,57, contra US$ 29,77 dos moradores locais. 

Na Europa, o estudo Rebuilding Europe, realizado pela EY para a GESAC, registrou em 2019 faturamento de € 643 bilhões nas indústrias culturais e criativas, valor equivalente a 4,4% do PIB da União Europeia segundo a metodologia do relatório, além de mais de 7,6 milhões de empregos. No Brasil, o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, da Firjan, estimou a economia criativa em R$ 393,3 bilhões em 2023, ou 3,59% do PIB, com aproximadamente 1,26 milhão de profissionais formalmente empregados. 

Legal, são muitos números, mas muita coisa parece milagrosa. Afinal como investir RS 100 mil num bando de “fracassado” pode dar um retorno de até R$ 759 mil? Nenhum investimento “produtivo” chega sequer perto dessa cifra maravilhosa. 

Reimagine o sarau do início. A aprovação no Edital deu direito a um orçamento que irá pagar organizadores, autores, produtores, equipes de som, áudio, vídeo, aluguel de mesas, estandes etc. Quando da aprovação do edital, é necessário já ter muitos itens definidos, pois estamos trabalhando com recursos públicos, os quais precisam ser detalhados. Parte desses fornecedores compra insumos de outras empresas e remunera seus trabalhadores. Depois vem o público, que pode consumir numa padaria, restaurante, estacionamento, comércio próximo e adquirir livros, artesanatos, poesias, fotografias, entre outros itens e serviços que podem ser disponibilizados durante o evento. 

É daí que surgem os efeitos diretos, indiretos e induzidos. Não há mágica contábil: há uma cadeia. Quanto maior a capacidade de contratar localmente e atrair gastos adicionais sem apenas deslocar consumo de um estabelecimento para outro, maior tende a ser a retenção do recurso naquele território. 

Eventos recorrentes acrescentam outra camada. Uma oficina de quadrinhos pode formar um ilustrador; um cineclube pode criar demanda para técnicos e produtores; um pequeno festival pode consolidar fornecedores locais. Cultura também ajuda a formar mão de obra, redes profissionais e ambientes em que novos projetos se tornam viáveis. 

Além do óbvio movimento financeiro, eventos culturais consolidados podem apresentar efeitos sociais que exigem cuidado na interpretação. Dados do Departamento de Justiça dos Estados Unidos mostram que, em dias letivos, a violência juvenil apresenta concentração relevante no período logo após as aulas. Isso ajuda a explicar o interesse em programas estruturados de contraturno. 

Uma avaliação conduzida pela UCLA/CRESST sobre o LA's BEST, programa de Los Angeles, acompanhou dados de milhares de estudantes ao longo de oito anos. Os resultados indicaram menor incidência de crime juvenil entre participantes com maior engajamento, e a análise de custo-benefício estimou economia social de aproximadamente US$ 2,50 em custos relacionados ao crime para cada dólar investido. 

Outro levantamento em doze comunidades de alto risco da Califórnia encontrou, entre participantes de programas de contraturno, reduções expressivas em vandalismo, furtos, atos violentos e contatos com a polícia. Mas aqui também cabe precisão: esses programas combinavam supervisão, educação, recreação, esporte e atividades culturais. Não é correto atribuir sozinho à cultura todo o efeito observado. 

No Brasil, o Instituto Sou da Paz desenvolveu na Brasilândia, em São Paulo, o projeto Paz em Atitude, com oficinas culturais em escolas públicas voltadas à discussão crítica da violência. Avaliações do Ipea sobre o programa Cultura Viva também mostram a forte presença de jovens nos Pontos de Cultura. A evidência brasileira é mais consistente para vínculo comunitário, participação e protagonismo juvenil do que para afirmar uma redução percentual específica da criminalidade causada exclusivamente por atividades culturais. 

Nosso objetivo com esse texto é provocar uma necessária discussão na sociedade sobre a importância de investimento em eventos culturais. Sabemos que o sarau da praça provavelmente nunca será um estudo de caso da FGV. Nem precisa ser. O argumento econômico não depende de fingir que todo pequeno evento terá o mesmo multiplicador de uma média nacional. Basta observar o percurso do dinheiro: ele paga gente, aciona negócios, cria competências, atrai público e pode fortalecer vínculos locais. Nessa perspectiva, cultura deixa de ser apenas uma linha de despesa e passa a ser analisada pelo que também é: investimento com efeitos econômicos e sociais mensuráveis.


Referências

AMERICANS FOR THE ARTS. Arts & Economic Prosperity 6: the economic & social impact study of nonprofit arts & culture organizations & their audiences. Washington, DC: Americans for the Arts, 2023. Disponível em: Arts & Economic Prosperity 6 – Americans for the Arts. Acesso em: 4 set. 2026.

BARBOSA, Frederico; ARAÚJO, Herton Ellery (org.). Cultura Viva: avaliação do Programa Arte, Educação e Cidadania. Brasília, DF: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2010. 148 p. Disponível em: Cultura Viva: avaliação do Programa Arte, Educação e Cidadania. Acesso em: 4 set. 2026.

EY. Rebuilding Europe: the cultural and creative economy before and after the COVID-19 crisis. [S. l.]: GESAC, 2021. Disponível em: Rebuilding Europe – estudo EY/GESAC. Acesso em: 4 set. 2026.

FIGHT CRIME: INVEST IN KIDS CALIFORNIA. After-school programs can prevent crime. California: Fight Crime: Invest in Kids, 2015. Disponível em: After-School Programs Can Prevent Crime. Acesso em: 4 set. 2026.

FIGHT CRIME: INVEST IN KIDS CALIFORNIA. California's after-school choice: juvenile crime or safe learning time. Oakland, CA: Fight Crime: Invest in Kids California, 2001. 64 p. Disponível em: California's After-School Choice – Office of Justice Programs. Acesso em: 4 set. 2026.

FIRJAN – FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Mapeamento da Indústria Criativa 2025. Rio de Janeiro: Firjan, 2025. Disponível em: Mapeamento da Indústria Criativa 2025. Acesso em: 4 set. 2026.

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS; BRASIL. Ministério da Cultura. Impactos econômicos da Lei Rouanet. Rio de Janeiro: FGV, 2018. Disponível em versão originalmente publicada pelo Ministério da Cultura. Acesso em: 4 set. 2026.

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS; BRASIL. Ministério da Cultura; ORGANIZAÇÃO DE ESTADOS IBERO-AMERICANOS. Lei Rouanet: uma força estratégica para o desenvolvimento do Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2026. Disponível em: Relatório integral – Lei Rouanet: uma força estratégica para o desenvolvimento do Brasil. Acesso em: 4 set. 2026.

GOLDSCHMIDT, Pete; HUANG, Denise; CHINEN, Marjorie. The long-term effects of after-school programming on educational adjustment and juvenile crime: a study of the LA's BEST after-school program. Los Angeles: National Center for Research on Evaluation, Standards, and Student Testing, University of California, Los Angeles, 2007. Relatório final apresentado ao National Institute of Justice, U.S. Department of Justice, Award n. 2004-SI-FX-0032. Disponível em: Relatório LA's BEST. Acesso em: 4 set. 2026.

INSTITUTO SOU DA PAZ. Paz em Atitude. São Paulo: Instituto Sou da Paz, [2013?]. Disponível em: Paz em Atitude – Instituto Sou da Paz. Acesso em: 4 set. 2026.

SICKMUND, Melissa et al. Violence after school. Washington, DC: Office of Juvenile Justice and Delinquency Prevention, U.S. Department of Justice, nov. 1999. Disponível em: Violence After School – OJJDP. Acesso em: 4 set. 2026. 

 

Luiz Gustavo é contador, mestre em Administração e atua há mais de 17 anos no setor financeiro. Possui experiência em gestão, análise de custos, prestação de contas e acompanhamento financeiro de projetos, com interesse especial na área cultural e nos mecanismos de financiamento, incentivo e sustentabilidade de iniciativas artísticas. 

Nos últimos anos, passou a se dedicar ao estudo e à atuação em projetos culturais, aproximando a visão contábil e econômica da realidade de produtores, coletivos e iniciativas locais. Seus textos buscam discutir cultura a partir de dados, viabilidade econômica e impacto social, em linguagem acessível e sem perder de vista a realidade de quem transforma ideias em projetos.

16 de set. de 2026

Bastidores da escrita: bate-papo com Rogers Silva


Neste episódio, Andréa Brandão recebe o escritor e colunista desta revista Rogers Silva, nascido e residente em Uberlândia-MG, para uma conversa sobre literatura, criação artística e seus projetos que transitam entre os livros e os filmes. 

Rogers Silva publicou contos, crônicas e artigos de opinião em sites, revistas, jornais e coletâneas. Em 2012, lançou Manicômio (contos e novelas), sua primeira obra literária, que está em 2ª edição em formato e-book. É também cofundador e colunista da Revista O Bule, espaço dedicado à literatura, ao cinema, às artes. No final de 2025, Rogers lançou seu segundo livro de contos, Ensaios sobre a total libertação (Editora Folheando) e seu primeiro curta-metragem, Estátuas sobre túmulos. Para 2026, pretende lançar seu segundo curta-metragem, Hoje eu pensei em você. 

Uma conversa para quem gosta de literatura, cinema e, principalmente, de conhecer os bastidores de quem transforma ideias em arte!

Assista no Youtube.

9 de set. de 2026

Quando termina uma história de amor? Na hora da despedida ou somente quando cicatrizam as feridas?

 

É o apaixonamento uma forma de autoengano?

Após ser bloqueado por Lisa, uma mulher magnética e inalcançável com quem viveu uma relação intensa, Puán mergulha em uma espiral de desejo, ressentimento e autoengano. Incapaz de aceitar o fim, ele revisita obsessivamente cada encontro, cada contradição e cada gesto ambíguo da amante, tentando provar a si mesmo que aquilo que viveu foi mais do que uma paixão unilateral.

Entre conversas com amigos, sessões de terapia, lembranças eróticas, viagens, aplicativos de namoro e anúncios algorítmicos que parecem ler sua dor, o narrador transforma a perda em investigação íntima. Aos poucos, a história de Lisa também emerge: sua infância marcada pela rejeição, seus casamentos, suas fugas, seus excessos e sua busca permanente por desejo, elegância e validação.

Com humor ácido, linguagem provocadora e forte carga psicológica, o romance Tango Feroz explora os limites entre amor e obsessão, realidade e fantasia, vínculo e projeção. No centro da narrativa está a pergunta que o protagonista tenta evitar: até que ponto amamos o outro — e até que ponto apenas nos apaixonamos pela mentira que contamos a nós mesmos? 

Publicada pela Editora Patuá, essa é a primeira obra de ficção de Fabián Echegaray.


Adquira o livro AQUI.

 

Fabián Echegaray foi professor da UFSC em Florianópolis, Universidad de Buenos Aires (Argentina) e Trinity College (EUA) e é autor de numerosos artigos científicos e livros acadêmicos no campo da opinião pública, comportamento social e político e sustentabilidade. É doutor em Ciências Políticas pela University of Connecticut (EUA), foi consultor do PNUD das Nações Unidas, presidente da WAPOR Latinoamérica (World Association for Public Opinion Research) e palestrante frequente dentro e fora do Brasil sobre temas de comportamento político, sustentabilidade e consumo consciente.  

Mais detalhes sobre a obra e o autor, aqui: https://www.instagram.com/fabianechegaray_lit/

8 de set. de 2026

É possível criar com IA sem perder a própria voz?

 

Por Andréa Brandão 

Transformar textos em outras formas de arte e utilizar a inteligência artificial como ferramenta criativa exige cuidado para que não se perca a própria voz, o estilo, a sensibilidade e a essência. 

Eu mesma já vivenciei esse processo. Testei diferentes ferramentas, explorei possibilidades, descartei aquelas que não atendiam às minhas expectativas, aprovei e reprovei resultados. Essa fase de experimentação me mostrou que, para que uma obra seja verdadeiramente concluída, ela precisa carregar a identidade de quem a cria. 

É o autor — ou a autora — quem detém a mensagem. É quem conhece sua essência, suas experiências e aquilo que deseja transmitir. O formato, o estilo e a entonação precisam dialogar com essa intenção. Quando não há esse cuidado, o resultado pode se tornar frio, linear e distante daquilo que a obra pretende comunicar. É diferente quando existe uma identidade humana conduzindo o processo. 

Falar sobre a dor, por exemplo, envolve muito mais do que organizar palavras. Como uma inteligência artificial poderia compreender plenamente a saudade, se até mesmo algumas línguas não possuem tradução exata para determinados sentimentos? Como poderia entender a dor de perder um filho, se nem sequer existe um nome específico para definir essa ausência? Há sentimentos humanos complexos, como a experiência de se conectar com o Criador e a própria fé — algo que não se vê, mas se sente. 

Quando se escreve, há uma tradução de sentimentos em palavras, versos e histórias. Essa transformação acontece por meio da combinação de significados, imagens e metáforas. São instrumentos que só ganham verdadeiro sentido quando pensados, sentidos e, principalmente, vividos. 

Essa é uma diferença que dificilmente permitirá que a inteligência artificial se iguale à inteligência emocional e humana. A ferramenta pode contribuir, ampliar possibilidades e materializar ideias, mas não substitui aquilo que nasce da experiência, da sensibilidade e da essência de quem cria. 

Por isso, entendo que a inteligência artificial deve estar a serviço do criador, e não o contrário. É o autor ou a autora quem conduz, define, direciona, escolhe, ajusta e decide o que permanece ou não na obra. 

O uso dessas ferramentas precisa acontecer com responsabilidade, respeito e, acima de tudo, amor. É o amor que traz equilíbrio e mantém a humanidade presente no processo criativo. 

A evolução é necessária e faz parte do mundo. As novas tecnologias podem — e devem — ser utilizadas a favor da criatividade, permitindo que ideias alcancem mais pessoas, atravessem fronteiras e encontrem novos formatos de expressão. 

A arte não tem limites, mas tem formas. Tem sentido. E, sim, tem sentimentos. A voz vem de dentro dos seres humanos, e não de fora. Quando se acredita nessa máxima, deixa-se de enxergar as novas soluções como ameaças e passa-se a reconhecê-las como aliadas para chegar mais longe e cumprir missões por meio da arte e da criatividade. 

Cada pessoa deve ter liberdade para escolher e decidir por si mesma, sem julgamentos ou discriminação, sempre com tolerância e respeito — valores que, diante do cenário atual, parecem um pouco perdidos, mas continuam sendo fundamentais para que tecnologia e humanidade caminhem lado a lado. 

 

Este texto é a manifestação da opinião da autora, mas não de todos os integrantes da Revista O Bule. 

 

Andréa Brandão é contadora por formação e escritora por vocação. Atua na literatura desde 2009. Possui dez livros publicados e diversas participações em antologias, com reconhecimentos nacionais e internacionais. Suas obras estão disponíveis na Amazon e em edições impressas, além de presença nas plataformas digitais como Andréa Brandão Escritora. 

Participou das Bienais do Livro de São Paulo (2009 e 2018) e prepara os lançamentos Versos que Cantam, Pérolas Europeias e Guto Gino e Tixa para a Bienal 2026. Também desenvolve projetos musicais, incluindo Vem Dançar, e é idealizadora dos projetos Cultura para Todos e do Podcast Bate-Papo Cultural, voltados à promoção da arte e da criatividade.

7 de set. de 2026

Um pequeno problema para Freud

 

Por Milton Rezende

 

Nunca pude explicar

o fato de ficar horas a fio

à porta de uma lanchonete

observando uma moreninha

que trabalha numa loja em frente.

Ela nunca percebeu nada,

e se percebesse, acho que eu

deixaria meu observatório.


Do livro Um Andarilho Dentro de Casa.


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog.

 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

2 de set. de 2026

Uma corrida pela tormenta do contemporâneo

 

O livro acompanha, em primeira pessoa, um dia de corridas de um motorista de aplicativo, lidando com os conflitos e crises que surgem em sua própria vida, enquanto tenta não se deixar tomar pelos conflitos trazidos continuamente pelos passageiros. Uma corrida pela tormenta do contemporâneo, através da cidade e do trânsito, contra as expectativas, e apesar dos homens. 

 

Informações a compra da obra:

https://www.oterroristadoces.com.br

  

Booktrailer do livro 

 

V. Tavares nasceu em 1986. Desde cedo entusiasmou-se pela contação de histórias de seus pais e, mais tarde, pela literatura por meio dos seus mestres da escola pública, em cujas bibliotecas sempre passava mais tempo do que era permitido. Publica agora este seu primeiro romance. O autor ainda não morreu.

1 de set. de 2026

Escrever também é libertação

 

Você tem uma história ou uma ideia guardada e quer dar o primeiro passo para colocá-la no papel? 

Participe da nossa Live Especial: Como Escrever o Seu Primeiro Livro, um bate-papo imperdível sobre ideias, coragem, prática de escrita e apresentação da obra Ensaios sobre a Total Libertação (Editora Folheando), de Rogers Silva. 

O que vai rolar no encontro:

 

  • Como transformar ideias em um livro;
  • Processo de escrita na prática;
  • Dicas essenciais para começar (e terminar!) seu projeto;
  • Bastidores do trabalho de um escritor;
  • Apresentação oficial do livro com o autor. 

Convidados:

  • Lorraine Crozara (@lorrainecrozara)
  • Rogers Silva (@revistaobule)

📅 Data: 02/09 (Quarta-feira) 

Horário: 19h00 

📍 Onde: Ao vivo no Instagram (@lorrainecrozara e @revistaobule)


Coloque na sua agenda, prepare suas perguntas e venha fazer parte dessa conversa! 📚✍️

30 de ago. de 2026

Chorei bilhões de vezes

 

Leonardo Cardoso é graduado em Educação Artística/Artes Plásticas pela Universidade Federal de Uberlândia e pós-graduado em MBA Gestão de Marketing pela faculdade ESAMC. É professor de Arte na rede municipal de ensino e produz artes que são constantemente publicadas em suas redes sociais.

28 de ago. de 2026

Quando a literatura se olha no espelho: participe do II Enpel e do minicurso sobre metaficção

 

A literatura nunca foi um repositório passivo de histórias. A literatura é um território de disputa, um campo de resistência e, fundamentalmente, um exercício de alteridade. No contexto contemporâneo, discutir a produção textual é um imperativo para a manutenção da saúde democrática. É sob essa premissa — “Letras e promoção da democracia: narrativas, discursos e resistências” — que o II Encontro Nacional de Pesquisadores em Letras (II Enpel) e a Semana de Letras do IFTM Campus Patrocínio abrem suas portas. 

O evento ocorrerá entre 21 e 23 de outubro de 2026, em formato híbrido: presencialmente no Campus Patrocínio e com transmissões globais via YouTube. 

O minicurso de Rogers Silva 

Dentre as atividades, destacamos o minicurso “A metaficção na literatura: o texto autoconsciente”, que será conduzido pelo nosso colunista Rogers Silva (UFU) no dia 23 de outubro de 2026, às 16:00, no Campus Patrocínio. 

Rogers Silva transita entre a criação e a exegese: é escritor, pesquisador, roteirista e cofundador da Revista O Bule. Com doutorado em Estudos Literários e pós-doutorado em Literatura e Cinema, sua produção inclui as obras Manicômio (2012) e Ensaios sobre a total libertação (2025), além do curta-metragem Estátuas sobre túmulos (2026). Sua presença garante um debate que une o “fazer” literário ao pensamento crítico acadêmico. 

O que é metaficção? 

Imagine entrar em uma “casa de espelhos”. A diversão reside em aceitar a ilusão, mas a metaficção é o arquiteto que acende as luzes, aponta para as engrenagens e diz: “Veja como eu construí este truque”. Longe de ser um pedantismo técnico, a metaficção é um imperativo de honestidade. Ela rompe com a mentira do realismo tradicional para revelar que a linguagem não é uma janela transparente, mas uma estrutura mediada. 

O minicurso abordará as seguintes questões:

  • A ficção que se reconhece como artefato sistemático, questionando a ontologia da obra.
  • O colapso deliberado entre o mundo ficcional e o real, transformando o leitor em cocriador de sentido.
  • A exposição das entranhas narrativas, como a metalepse. 

Para conferir autoridade a essa jornada, o autor revisitará a “página preta” de Laurence Sterne em Tristram Shandy — um luto visual pela morte de um personagem que desafia a linearidade — e percorreremos os labirintos de Machado de Assis, Pirandello e Borges. 

Estudo de Caso: o livro Ensaios sobre a total libertação 

O curso utilizará a obra mais recente do próprio Rogers Silva como laboratório prático. O livro exemplifica como a metaficção pode ser, ao mesmo tempo, um jogo intelectual e uma ferramenta de urgência ética: 

1.   O autor como protagonista: No conto “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”, o autor real se torna vítima de um stalker, borrando as fronteiras entre a identidade pública e a vulnerabilidade ficcional.

2.    Mise-en-abyme e colapso de níveis: Em “Drummond no Orkut”, o personagem João encontra o livro real Manicômio (publicado por Rogers em 2012), fazendo com que a ficção “engula” a bibliografia verídica do criador.

3.  A metaficção historiográfica e o trauma: No conto “A máquina-führer”, os personagens Curioso-menor e Curioso-Maior viajam no tempo para impedir que o autor seja responsabilizado pela criação do personagem Klaus Hoffman. O objetivo é evitar o suicídio do criador aos 30 anos, discutindo se um autor deve carregar o peso moral das tragédias que sua obra evoca. 

Por que participar? 

A metaficção nos ensina a desconfiar de discursos absolutos e a ler a própria vida como um “texto editável”. A metaficção exige que o leitor deixe a passividade de quem consome ilusões para assumir a postura crítica de quem compreende a engenharia das narrativas que moldam o mundo. 

Informações úteis & inscrições 

Garanta seu lugar neste diálogo essencial sobre a literatura contemporânea e a resistência democrática.

Esperamos por você no II Enpel!

26 de ago. de 2026

'Nesse corpo de água doce' nada é doce

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Colofão é uma nota ou inscrição final na última página de um livro. Geralmente traz dados técnicos e de produção da obra, ou pode ser também espécie de resumo ou síntese, que serve para dar contexto ou mostrar a inspiração do autor. Em Nesse corpo de água doce (Editora Patuá, poemas), livro de estreia na literatura da escritora e professora mineira Priscila Faria, o leitor lerá na última página da obra: “Este livro foi escrito no decorrer de muitas águas – minhas ou de tantas outras mulheres. Inundou e lavou muita coisa aqui. Que possa seguir frutífero nos corpos todos que o receberem.”

O leitor, então, que se deleitou ou ficou com o travo amargo na garganta pelo que o sofrimento humano pode nos causar, após a leitura das 111 páginas precedentes, sente uma verdadeira catarse existencial provocada pelos poemas que leu antes de virar a última página. Aí temos "de trás pra frente" na ordem inversa da normal (do fim para o começo), o que melhor se pode sentir da poesia da autora. Eis os frutos que este livro produziu, regadas que foram suas árvores/poemas com as águas da dor e do sofrimento humano transfiguradas em profundas forças de conscientização e transformação, que tiveram o poder de quebrar velhas certezas, revelar limites reais e forçar o ser a buscar novos caminhos de consciência e liberdade. 

Em texto de orelhas, a escritora Maria Fernanda Elias Maglio afirma com muito acerto: 

“Nas poesias de Nesse corpo de água doce, livro de estreia de Priscila Faria, estão as mulheres e suas profusões de água: rio, leite, chuva, sangue, cachoeira, lágrima, líquido amniótico. Todas elas embarcadas em um naufrágio cansado, progressivo, contínuo. Uma morte lenta e insistente: sim, estamos vivas – gestando e parindo – mas podemos morrer, eles podem nos matar. Com efeito, estamos diante de um mosaico composto de poemas: imagéticos, reflexivos, profundos ‘que atravessam a experiência de ser mulher, a resiliência e a violência de gênero por meio de fortes imagens ligadas à água’”. 

Os textos reunidos contam toda uma história de vida essencialmente difícil para o gênero feminino, difícil por condições impostas que prevaleciam e ainda prevalecem nas relações de poder e domínio dos homens sobre as mulheres – a tal sociedade patriarcal. O que nos recorda as definições comuns impostas pela sociedade patriarcal como as de que mulheres são frágeis ou que nasceram para cuidar dos filhos e da casa, enfatizando a estigmatização da feminilidade e corroborando não apenas as condições sociais, mas também, e de várias maneiras, constituindo uma problemática enraizada culturalmente. 

Observe-se algumas estrofes do poema constante da página 13:

 

nasceu numa cidade do interior / a mãe e o pai / de outros interiores mais interiores ainda / foram parar nessa cidade em que nasceu / e não teria feito diferença alguma se não fosse essa / nasceu mulher / nem mais nem menos que nenhuma outra / a mãe que também nasceu mulher / a criou como foi criada / o pai que nasceu homem / a criou como a mãe foi criada / criadas, ela e a mãe / assim como quase toda pessoa / que chega nesse mundo com uma vagina” ... “nasceu e logo recebeu o título / de difícil / nasceu rasgando tudo / nasceu sem querer nascer / nasceu sem querer servir / nasceu sabendo o quanto ia morrer”...  “e morreu muitas vezes / chorava e se escondia com uma frequência / que ninguém entendia / criada como toda pessoa com vagina / não podia reclamar não podia gritar / toda vez que tentava era lembrada do que era / difícil / então se continha / cresceu calada. 

A menina nascida no sul de Minas, no município de Varginha, viveu o que as mulheres sempre vivem, sobretudo em sociedades ainda com forte ranço colonial onde a religião atua como poderoso mecanismo de controle social a padronizar valores “morais”.

 

a catequista dizia todas as quintas / a família é sagrada / na missa aos domingos também / então acreditava / até o padre tinha uma / na escola ninguém queria ser filho / de uma SE-PA-RA-DA / em casa a mãe suportava tudo / pela sagrada família / então ela também / se calava (p. 20). 

Também não escapou de assédios em um tempo no qual nem se dera conta ainda de que existia sexo. 

 

Todo dia a menina atravessa duas ruas para buscar pão moleton enorme, calças e chinelo para atravessar e trazer / o pão e a incompreensão / de por que aqueles homens ainda falam / aquelas coisas / de por que o pão tem que ser / tão amargo (p. 25). 

E acaba chegando a tristes conclusões do que é ser mulher numa sociedade estruturada pelo patriarcado. Um mero objeto.

 

a falha de ser mulher nesse mundo / de homens / e de ser traumatizada nesse mundo / por homens / a gente que resolva / entre nós // mulher dá / muito trabalho. (p. 24). 

Até que o impensável aconteceu. A menina foi crescendo e entendeu de pensar, estudou e continuou  pensando, sofreu e continuou  pensando,  sofrendo, pensou mais ainda, até que sortilégios da vida transformaram seu coração numa “lona de circo/fincada na tempestade” e ela afinal se assume como:

 

o bicho que fui / equilibrista do silêncio / agradava monstros / o bicho que sou / renasceu ontem / dessa vez chegou berrando (p. 16). 

Os poemas de Nesse corpo de água doce são desabafos libertadores em sua estrutura formal. Não possuem títulos, e seus versos curtos e cortantes apresentam amplas inquirições existenciais que transbordam de um metabolismo psicológico a assumir caráter coletivo.  Via de regra, impregnam o leitor de insuspeitadas epifanias, ou seja, momentos de clareza repentina ou insights profundos, de súbita revelação ou iluminação interior que ocorre quando uma verdade profunda sobre si, sobre o mundo, ou sobre a própria arte, surge a partir de uma constatação ainda não pensada. Isto pode trazer uma sensação de desestabilização, mas muda a visão que a poeta tem do fazer literário. Instantes carregados de significados simbólicos, emocionais e sexuais que convidam o leitor a refletir sobre temas universais de maneira mais profunda. 

No poema abaixo a palavra é repensada como ponte viva entre pensamento e sentimento. Aquilo que dá forma ao mundo, revela a alma, constrói as culturas. Mais do que um sinal na fala ou na escrita, a palavra guarda a essência da experiência humana e o emprego significativo dos recursos linguísticos. Só através de um trabalho artesanal com o vocábulo (desprendendo as amarras fonéticas, sintáticas e semânticas do português formal) é possível apreender a palavra potencializada:

 

eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos / que veja a beleza desfocada / quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia / que abrace a menina, penetre a mulher / quero a palavra perfurante / na garganta / a palavra que treme e vibra e contrai / a palavra da água da morte do medo do fim / eu quero a palavra engasgada / sem fôlego, sem batimentos, sem culpa / quero a palavra mapa, procura e dedos / a palavra sem ida e sem volta / que se contradiga / a palavra descrente da verdade do agora / eu quero uma palavra que é tudo / e que não sabe de nada / quero a palavra que reinvente a vida / materialidade fina e transcendente / do meu gozo, num único verbete / uma fogueira, um altar, a porta / do céu ou do inferno / eu quero a palavra muda / a palavra que desnude a poesia / eu quero o milagre do verso / porque meu sexo não sabe ser escrito (p. 103). 

Há na obra também poemas que produzem verdadeira catarse no leitor, promovendo reflexões de intensas impressões sobre o estado atual do mundo que positivamente ativa emoções acumuladas, permitindo sua liberação através da identificação, da empatia e da elaboração simbólica, que a todos atinge, sobremodo ao ser feminino, e que produz novas compreensões sobre si e os outros. A catarse fornece iluminações e aprendizados sobre nós mesmos, é a purificação ou a liberação intensa de emoções, sobretudo a de tristeza, que o leitor sente ao ler o que vamos fazendo de nosso mundo social. Aquilo que em nosso tempo está reprimido ou acumulado, seja em termos psicológicos, emocionais e/ou de superação de medos e traumas.

 

tempo em que as seguranças não existem / que as palavras se perdem em rolos infinitos / tempo em que as grandes salas só discursam / sobre moedas deuses pastos lucros / tantos pseudo-intelectuais influenciadores digitais // tempo de bruscas e inesperadas rupturas / tempo da não-verdade, da falta de respostas / tempo de cada um cuidar de si / uma vez por semana por uma hora / tempo da total autonomia, da liberdade / tempo da humana-mercadoria / da nossa imensa fragilidade // tempo em que crianças pesam mais que o mundo / tempo em que uma barriga exige tempo demais / tempo em que mães só são sagradas nos andores / e que filhos mortos não comovem mais // tempo em que não se pode mais dormir / porque às três da madrugada homens pisam em nossos sonhos // em vão lutamos, milênios de espera / mas os dias seguem dias de reis (p. 57). 

Interessante observar, neste poema ainda, que o fio condutor tecido costura uma tessitura até o cruzamento final do profano com sagrado. Com a supremacia do divino, que acontece no verso do instante final iluminado, de revelação representado pela menção a “dias de reis” que como sabemos, representa a manifestação de Jesus Cristo como o Salvador da humanidade, pela fé em uma luz divina que orienta a humanidade, e o esforço sincero daqueles que buscam a verdade. 

Assim os sofrimentos da vida são transfigurados pela autora em vivências (dela mesma e de tantas outras mulheres anônimas), que por sua vez geraram consequências de profunda maturidade existencial e que, afinal, colidem em versos com a sensibilidade do leitor. De forma pungente, profundamente comovente. O que se pode dizer da morte de um filho? Quando se perde um filho ainda bebê, não existe palavra. Todavia, Priscila dá o seu testemunho sobre o parto, a perda e o luto, dentro de uma perspectiva da mulher que se reergue, se fortalece e recomeça. Observe-se na última estrofe a metáfora da chuva que serve para algo que lava, que banha, faz passar e, até mesmo, purifica. Metáfora esta que também serve para o tempo, o qual amaina tudo, abranda o pranto e faz tudo passar, mas deixa em nós a essência do amor. Aquilo que verdadeiramente importa.

 

Que consigas sentir no menor gesto toda a imensidão do que sinto / e percebas o quanto me salvaste / pois mesmo nos meus dias de maior desespero / era o teu corpo dentro do meu que me lembrava de / voltar à vida / e ainda que me consumissem todos os dias / a angústia e o medo da despedida / era imaginar esse nosso encontro que toda força / dentro de mim brotava

 

Tu foste a minha maior ferida e a minha maior esperança / nada mais neste mundo me deu tal sorte / de descobrir o poder da natureza em mim / em suas profundas catástrofes e em seus sutis recomeços / em toda fúria, em cada perdão, em todo milagre / da criação / nós fomos deus um do outro

 

Perdoa-me pelo meu cansaço, pelo sangue acelerado / e pela covardia tantas vezes em mim habitada / recebas a humanidade do meu amor / embrulhada em minha fraqueza / e tenhas a certeza da verdade que és para mim / verdade que só a dor desse nosso nascimento pode dar

 

Quando os dias voltarem a ser dias e a chuva voltar a ser só chuva / tu serás o eterno arco-íris da minha memória (p. 67). 

Priscila Faria declarou em entrevista recente à Revista Mana: “Depois, quando fui reunir esses textos, percebi o quanto estavam dispersos. Foi um processo de organização difícil, quase caótico, mas também parte do que esse livro é” (...) “Quando finalmente fiz esse mergulho, foi muito intenso. Um processo quase catártico, de revisitar tudo isso e dar forma ao livro. E foi curioso perceber o quanto eu tinha escrito. Acho que ainda daria facilmente mais dois ou três livros.” 

Muito bem. Aguardamos com vivo interesse novas produções dessa autora que fere a tecla poética certa e necessária neste nosso mundo ainda em dificultoso percurso de emancipação do humano. Cabe aqui, e finalmente, o nosso mais caloroso aplauso.

 

Nesse corpo de água doce
Priscila Faria
Editora Patuá – São Paulo / SP
2026
112p.
ISBN 978-65-281-0380-5

 

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Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.