14 de jan. de 2026

E se a crítica literária também for fabricada? Malagueta #41

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior

De vez em quando alguns textos aparecem na mídia e causam um momentâneo rebuliço no mundo literário, como se de repente alguém metesse o dedo na água calma de um copo, girasse e depois saísse de cena. Vocês podem nos chamar de conspiracionistas, mas vamos arriscar esse palpite meio fora da curva e vocês poderão nos acompanhar nessa linha de pensamento e, quem sabe, chegar à conclusão de que não é tão absurdo assim.

O mercado é um grande narcisista e, como um representante legítimo de manipulação, ele precisa de um pequeno caos controlado de vez em quando para transformar aquilo que estava sendo esquecido na prateleira em um produto cheio de frescor, ou seja, movimentar vendas, tendências etc. Isso é mais velho que andar pra frente? Sim, marxistas sabem que o capitalismo prospera e precisa do caos desde que o velho barbudo apontou isso no século XIX, mas não é que essa arma ainda funciona perfeitamente? Quer uma prova?

Ano passado tivemos uma grande febre do açúcar por causa do morango do amor, lembram? De onde surgiu? Como hypou? Ninguém sabe precisar, mas a verdade é que do mesmo jeito que surgiu também se foi, pois as “febres mercadológicas” precisam ser aparentemente caóticas para dar uma sacudida no mercado, mas controláveis, porque depois precisamos voltar à ordem das ovelhas que não pensam. É aquilo que as mulheres conhecem como “migalhas de amor”: uma migalha aqui e ali pra dar uma emoção, gerar expectativa e aprofundar ainda mais o controle da vítima. Como dissemos, o mercado é um grande narcisista.

Também ano passado saiu um texto na Folha de S. Paulo, de autoria da professora Aurora Bernardini, que gerou bastante polêmica, pois dizia que certos autores famosos de hoje não poderiam ser considerados literatura. E este ano, novamente, a Folha solta agora um texto de outra professora, Dirce Waldrick do Amarante, em que ela opina que as listas de melhores livros são, na verdade, um “consenso fabricado”. Seria isso por acaso?    

Sabe o que há em comum entre Aurora e Dirce? É que ambas estão dizendo obviedades. E não, não estamos dizendo que o que elas estão dizendo é raso ou não faça sentido ou está incorreto; pelo contrário, “obviedades” no sentido de que qualquer um que estuda literatura ou que conhece teoria e história literária sabe.

Mas por que essas informações são encaradas hoje em dia como “extraordinárias”? Exatamente porque elas são direcionadas a um público que, embora amplo, possui características em comum: são leigos, teoricamente, de modo que se escandalizam com coisas óbvias e consomem produtos literários como verdadeiros fãs, e não como leitores. Será que leem o que defendem virtualmente? Eis outra questão que pode ser desenvolvida, quem sabe numa próxima malagueta.

O que essa verdade inconveniente significa? Significa que o mercado se aproveita da ignorância teórica (de conhecimento básico) dos leitores sobre determinado assunto para gerar falsas polêmicas que mobilizam novamente essa grande roda de consumo alienado (arriscamos a dizer que quem sai ganhando com isso são exatamente as grandes editoras que estão sendo criticadas, no caso das polêmicas do mundo literário).

Vamos de exemplo... Quando Aurora Bernardini levantou a questão de que best sellers não necessariamente são literatura e que autores hoje aclamados estão fora do padrão canônico daquilo que se considerava literatura de qualidade (sem querer entrar no mérito acadêmico aqui), isso implica em mais pessoas comprando esses livros mencionados para “comprovar” ou para “afrontar” a opinião da professora e pesquisadora: o mercado sabe mexer com o ego do público, que hoje, sabe-se, tem a tendência de afrontar os especialistas. A arrogância da ignorância está na moda, venha de onde vier.

Em seu texto, Aurora citou especificamente Itamar Vieira Júnior, premiado autor brasileiro. Quantos exemplares de Torto Arado, do referido escritor, foram vendidos depois disso? Quantos fãs do autor saíram em sua defesa e movimentaram as redes? Quantos fãs defenderam o autor, e não a sua literatura? Ou defenderam suas crenças (as crenças de uma tribo), mas não sua qualidade literária?

Então quer dizer que uma crítica certa lançada ao acaso e sem contexto profundo pode, por meio da polêmica, endossar ainda mais o objeto da crítica? E isso pode ser uma estratégia mercadológica? Sim, é exatamente o que estamos dizendo.

No caso do texto da professora Dirce Waldrick do Amarante, ela elenca algumas críticas já bastante desgastadas no meio literário, sem apontar nenhuma novidade: sobre as grandes editoras, sobre a visibilidade artística e sobre aquilo que nós nomeamos como “compadrio” ou “clube do brandy” (livros e autores que só sobrevivem graças às amizades) e que isso geram listas de melhores livros tendenciosos e sem critérios literários consistentes. Nada de novo sob o sol. 

Então, qual o objetivo dessa crítica? Qual o objetivo dessa crítica dentro de um grande jornal que por vezes ajudou a construir essa mesma visão mercadológica da literatura que finge atacar? Não questionamos o objetivo da autora, que não disse nenhuma inverdade - embora tenha preterido as evoluções de algumas editoras independentes, tenha deixado de lado aspectos importantíssimos sobre o comportamento dos leitores contemporâneos e, em certo momento do texto, forçou uma defesa periférica, derrapando em alguns argumentos, especialmente na parte de “eventos presenciais serem anacrônicos e inaceitáveis” por excluírem a periferia (forçou a barra pra lacrar! E sobre isso também desconfiamos...).

Percebem onde queremos chegar? Será isso uma teoria da conspiração inventada por nós? Não sabemos, mas veja um trecho do que dissemos em uma Malagueta (#37), publicada em 2021, ocasião em que Fernanda Montenegro entrou para a Academia Brasileira de Letras:

 “... escolhas baseadas em parâmetros obscuros e de compadrio sempre foram a regra. A regra é não ter uma regra clara. O que eu vejo é uma disputa de pequenos grupos que estão todos, sem exceção, interessados em manter o compadrio como meio de medir mérito. Seja no círculo dos consagrados, seja no círculo dos não consagrados, seja no círculo dos marginalizados. Todos têm seus “amigos”, mas nenhum deles está debruçado verdadeiramente sobre o texto, sobre a palavra na folha de papel, a palavra como ela chega a seu leitor. Fala-se muito em autores, mas pouquíssimo em literatura” (FIORENTINO, Allyne. ABL: muito barulho por nada. Revista O Bule, 13 nov. 2021.)

Então, indo um pouco além do que a professora Dirce menciona, concordamos com quase tudo que ela disse, mas entendemos, também, outros pontos de vista, como as possibilidades de publicação de autores e editoras independentes, que hoje criam uma segunda via de publicações fora das grandes editoras, coletivos e grupos que se mantêm resistentes a transformar a literatura em puro produto mercadológico (é o caso da Revista O Bule e de tantas outras revistas/editoras marginais), pessoas que se mantêm resistentes à ideia de que a literatura serve como pretexto e panfletagem para causas sociais de minorias, sem se importar com a qualidade e com a construção de linguagem (é o nosso caso, é o caso de muito gente que pode estar pensando a mesma coisa agora e não tem coragem de dizer porque tem medo de ser massacrado pelo dito politicamente correto). Nada disso foi mencionado. Estranho, não é mesmo? Ou será que foi proposital? Fica aí o questionamento.

Quem hoje teria coragem de dizer que uma obra que exalta algum aspecto de minoria é ruim? E olhe que, hoje em dia, há muitas, muitas, muitas obras literárias muito ruins. Você teria? Teria coragem de ir contra tudo e todos a partir de uma análise literária de verdade? O que sabemos é que, n'O Bule, a gente vive falando disso. E por isso continuamos aqui, menos para dar conclusões palatáveis que o público espera e mais para fazer o leitor pensar!

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Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais e reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.

13 de jan. de 2026

A podridão me serve de Evangelho...

Por Leonardo Cardoso


"Como um pouco de saliva quotidiana
Mostro meu nojo à Natureza Humana.
A podridão me serve de Evangelho...
Amo o esterco, os resíduos ruins dos quiosques
E o animal inferior que urra nos bosques
É com certeza meu irmão mais velho!"

(Augusto dos Anjos)

 


Leonardo Cardoso é graduado em Educação Artística/Artes Plásticas pela Universidade Federal de Uberlândia e pós-graduado em MBA Gestão de Marketing pela faculdade ESAMC. É professor de Arte na rede municipal de ensino e produz artes que são constantemente publicadas em suas redes sociais.

12 de jan. de 2026

'Ensaios sobre a total libertação', de Rogers Silva

 

Ensaios sobre a total libertação é um livro com quatro narrativas. “Drummond no Orkut”, a primeira, é um breve recorte da vida de João, que ao sentar-se num banco de uma praça no intervalo do seu almoço, se depara com um livro. Primeira leitura de sua vida, também será, para ele, um desconcerto e uma descoberta. Por meio das tramas e dos personagens, vai descobrindo-se a si mesmo. 

Em “A máquina-führer”, uma máquina, criada por um alemão a mando de Hitler na década de 1930, permite aos dois protagonistas (o Curioso-menor e o Curioso-Maior) irem a qualquer tempo, espaço ou mente humana. O que parece uma aventura despretensiosa possui, na verdade, outro propósito: não deixar que Rogers Silva, autor da história que ora se constrói, ser culpado pela Segunda Guerra Mundial. Os personagens precisam correr contra o tempo, porque senão – se essa tragédia ocorrer (não a Guerra, mas o autor ser o culpado por Ela) – ele se suicidará aos trinta anos. 

Em “Ensaio sobre a libertação total”, a partir dos termos “É isso aí” e “Vai lá”, Jéferson cria uma filosofia, retomando clássicos da filosofia antiga e moderna. Porém, a vida transcende e sufoca discursos e filosofias – é o que a crueza da vida vai provar para ele, que precisa resistir tanto aos tempos de ditadura quanto à sua alergia. 

Em “antifadorogerssilva@yahoo.com.br” o autor, Rogers Silva, é também o protagonista da história. Alguns anos após a publicação de Paraíso, seu primeiro romance, aos dezoito anos, um fã incomum (um antifã, na verdade) começa a persegui-lo em todos os seus passos. O que parece uma brincadeira, transforma-se numa história de suspense e terror, com todos os clichês possíveis do gênero. 

Ensaios sobre a total libertação é uma reflexão não apenas sobre a capacidade da linguagem e da literatura de criar vidas (e da influência da ficção sobre a realidade), mas também uma reflexão sobre a vida real: esta. Valendo-se de temas universais, traduzidos de modo local (na maioria das vezes em espaços bem definidos), esse livro trata de dores, anseios e angústias de todos os seres. É um brinde à literatura-vida. 

Ficha técnica:
Título: Ensaios sobre a total libertação
Autor: Rogers Silva
Gênero: contos: literatura brasileira
Páginas: 150
Formato: 13x18cm
Editora: Folheando (1ª edição, 2025) 


Onde adquirir o livro: https://shre.ink/5FHf 

 

Rogers Silva nasceu e mora em Uberlândia-MG. Publicou contos, artigos de opinião e resenhas em sites, revistas, jornais e coletâneas de livros. Em 2012 publicou Manicômio (contos e novelas), sua primeira obra literária. Em 2025/26, o seu primeiro curta-metragem, Estátuas sobre túmulos, está sendo lançado. É cofundador e colunista da Revista O Bule (www.revistaobule.com.br). Está em www.rogerssilva.com.br. Atualmente se dedica à escrita de roteiros para o cinema.

8 de jan. de 2026

Nós e a geografia que nos deram

Intervalo
 
Por Milton Rezende
 
“Eu quero os meus brinquedos novamente!
Sou um pobre menino
Que envelheceu, um dia, de repente!”
(Mário Quintana)
 
Tenho quarenta e cinco anos
e já neste meu último aniversário
foi levantada a hipótese irreversível
do envelhecimento antes da morte,
mas nunca sabemos o que virá primeiro.
 
Seja como for o assunto é desagradável.
 
Imaginei-me de carteirinha sexagenária,
entrando pela porta da frente dos ônibus
e viajando de graça pelo país dos meus netos.
 
Logo adiante eu precisaria sacar um dinheiro
no banco e haveria um guichê específico
esperando a minha dificuldade de caminhar.
 
Soube também que eu poderei requerer
um acréscimo no valor da aposentadoria,
para gastar com hospitais, médicos e remédios.
 
Seja como for o assunto é desagradável.
 
A minha vontade é rasgar
o estatuto do idoso
e voltar a ser criança.
 
Do livro Uma Escada que Deságua no Silêncio.
 
 

Nós e a geografia que nos deram
 
Somos como pássaros
extraídos de um livro
de ficção antes de lê-lo,                                                                           
e, portanto, não sabemos
representar bem os papéis
que nos são atribuídos.
 
Somos personagens assustadas
e não temos pátria afetiva.
Assim que pudermos vamos saindo
e a gaiola de nossa existência
coletiva deverá ficar vazia,
sem merecer sequer um poema.
 
Do livro Inventário de Sombras.

 
Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

6 de jan. de 2026

Cinco livros metaficcionais que você precisa ler!

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior 


Você sabe o que é metaficção? 

Trata-se de uma técnica narrativa, ou escolha estilística, em que uma obra de ficção se torna autoconsciente – mas como assim? –, chamando a atenção para sua própria natureza de artefato fictício (é bom sublinhar essa expressão), questionando a relação entre realidade e ficção. 

A obra, assim, revela seus próprios mecanismos de construção, tanto em personagens que sabem que estão em uma história (Paul Auster faz muito isso!) quanto em autores que escrevem sobre o processo de escrita e o explica (vide Machado de Assis). 

A metaficção não é recente! 

Embora bastante explorado na pós-modernidade, esse recurso é muito antigo! No século XVII, El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha (Dom Quixote), por exemplo, além de ser considerado como o primeiro romance moderno, também é um dos primeiros que se utiliza da técnica metaficcional, sendo considerado extremamente inovador para a época.

Machado de Assis, no século XIX, explorou bastante os recursos dessa técnica narrativa. Mas, sobretudo no século XX, a metaficção alcançou níveis nunca antes alcançados (adoramos esses termos!) com o espanhol Unamuno, o italiano Pirandello e o argentino Borges, entre outros. Jorge Luis Borges e Luigi Pirandello são mestres em questionar as fronteiras entre realidade, autoria e ficção. Enquanto o escritor argentino utiliza a metaficção para explorar labirintos intelectuais e filosóficos, o italiano a utiliza para desmascarar a identidade humana e os mecanismos do teatro. 

Metaficção é o mesmo que autoficção? 

Nãããão. Na nossa visão, obras metaficcionais são mais inventivas, mais criativas e confundem – de verdade – ficção e realidade, colocando às vezes os autores como personagens em situações absurdas e fantásticas. É uma brincadeira literária. A autoficção está mais para um recurso de autobiografia declaradamente ficcional, já que toda obra, seja ela biográfica ou autobiográfica, também tem sua parcela de "ficção", visto que trata-se de verosimilhança que passa pelo crivo subjetivo do autor/a (mas isso é assunto para outra hora).

Vamos à lista e já avisamos (contém spoilers!)

1 - Névoa – Miguel de Unamuno 

Já no início da obra, há um prefácio escrito por um homem que, depois, descobrimos ser um dos seus personagens. Após o prefácio, o autor (Unamuno) responde ao seu personagem com um pós-prefácio. Louco, né? 

Nesta "nivola" (termo criado pelo autor), no meio da história o protagonista Augusto Pérez descobre que é um personagem de ficção. Ele decide confrontar seu criador, o próprio Unamuno, em seu escritório em Salamanca, para discutir seu destino e o fato de não querer morrer. 

A obra quebra a barreira entre autor e personagem, questionando quem tem mais “realidade” (o criador mortal ou a criatura literária eterna?) e evidencia a dicotomia confusa entre o mundo real e o mundo ficcional.


 

Borges não escrevia romances, mas seus contos (em coletâneas como Ficções e O Aleph) são exemplos puros de metaficção no século XX. Em algumas narrativas, inclusive, Borges é o próprio narrador e personagem, confundindo as diferenças entre personagem/narrador/autor.

 

  • “Pierre Menard, autor do Quixote”: Trata-se de um falso ensaio literário que narra a história de um homem que decide reescrever o Dom Quixote de Cervantes, palavra por palavra. Borges discute como o significado de um texto muda dependendo do contexto e de quem o lê, transformando o ato de ler em um ato de criação. Aqui também há a intertextualidade com a própria metaficção contida em Dom Quixote.
  • “O jardim dos caminhos que se bifurcam”: O conto é um livro-labirinto onde todas as possibilidades de uma história acontecem simultaneamente. É uma ficção que comenta sobre a estrutura de todas as ficções e sobre o tempo como um livro infinito. 
  • “As ruínas circulares”: Um homem sonha com outro homem até torná-lo real, apenas para descobrir, no final, que ele próprio é um sonho de outra pessoa. É uma metáfora para o autor que cria personagens, mas que também é “criado” pela tradição literária.

Borges, ao refletir sobre a natureza da ficção, convida o leitor a refletir sobre a própria natureza da realidade. Também explora, por meio dessa técnica/escolha, a condição humana em vários aspectos, sobretudo em questões relacionadas à passagem do tempo, de uma forma extremamente inovadora. E por falar em inovador...


3 - Seis personagens à procura de um autor – Luigi Pirandello 

Pirandello é aquele cara que revolucionou o drama moderno ao romper a ilusão do palco, criando o que chamam de metateatro. 

Essa obra é o exemplo máximo de metaficção no teatro. É uma brincadeira. É uma loucura. E é muito divertido! No meio de um ensaio de uma peça de Pirandello, seis pessoas entram no palco alegando ser personagens inacabados de uma história nunca escrita. Eles exigem que os atores reais encenem a tragédia deles. 

A obra discute a si mesma, expondo suas características e funcionamento; os personagens sabem que fazem parte de uma história e interagem diretamente com o público, lembrando-o da artificialidade da obra e “quebrando a quarta parede” (expressão da moda usada para qualquer coisa nesse sentido).


 

Publicado em 1979, é uma das obras mais emblemáticas das últimas décadas: é um labirinto sobre a arte de ler e escrever, funcionando como uma reflexão profunda sobre a natureza da literatura. 

Se um viajante numa noite de inverno coloca o leitor real no papel de personagem, dissolvendo a fronteira entre o mundo real e o ficcional. Ademais, o livro discute abertamente os mecanismos da narrativa, as expectativas de quem lê e as frustrações de quem escreve. Através do personagem Silas Flannery (um autor em crise), Calvino questiona se o autor é realmente o “dono” da obra ou apenas um canal para tradições literárias.


5 - Ensaios sobre a total libertação – Rogers Silva 

Longe de nós querer comparar Borges, Unamuno, Calvino e Pirandello com nosso amigo Rogers! Mas, para destoar dessa lista de clássicos dos clássicos, escolhemos colocar um livro recém publicado e que encaixa perfeitamente no conceito de metaficção. Duvida? 

O primeiro conto do livro, “Drummond no Orkut”, começa com o personagem João se sentando em um banco de uma praça e se esbarrando no livro Manicômio, justamente a primeira obra do autor, Rogers Silva. A partir daí, o conto mistura narrativa e ensaio, metaficção e mistério, crítica social e redenção. 

No conto “A máquina-führer”, por exemplo, uma máquina, criada por um alemão a mando de Hitler na década de 1930, permite aos dois protagonistas (o Curioso-menor e o Curioso-Maior) irem a qualquer tempo, espaço ou mente humana. O que parece uma aventura despretensiosa possui, na verdade, outro propósito: não deixar que o autor Rogers Silva seja culpado pela Segunda Guerra Mundial. Os personagens precisam correr contra o tempo, porque se essa tragédia ocorrer (não a Guerra, mas o autor ser o culpado por ela), ele se suicidará aos trinta anos. 

Há mais dois contos longos: “Ensaio sobre a libertação total” e “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”, em que o autor, Rogers Silva, é também o protagonista da história. Esta última é uma história de stalker: um fã começa a seguir o autor em todos os seus passos: o que a princípio parece uma brincadeira, transforma-se numa história de suspense e terror.


 

Gostou das indicações?

E você, leitor, quais obras metaficcionais leu e gostou? 

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.

5 de jan. de 2026

Círculos

Por Allyne Fiorentino



Há um abismo. E você quase cai. O coração acelera. Sempre quis saber qual a sensação de alguém que escolhe cair de vários metros do chão. Um desejo recluso no peito. Arrepender-se-á talvez? Ou será como nos sonhos? Em que você sempre acorda antes de chegar ao chão. E se não acordássemos? E se não acordássemos mais? 

Há uma porta. Do outro lado te esperam. Você não quer ir, quer adiar. Quase cai novamente. E se eu não for? Se eu me recusar a fazer o que eles querem, se eu decidir que mudarei a rota, não adianta me esperarem. Eu pretendo demorar. O coração acelera. Você já estava quase lá. Por que voltou? Eu sei o que você quer ver. Seu demônio te espera quando abrir os olhos, mas pra isso é preciso cair no abismo antes. Por que você não cai? Por que resiste tanto? 

Um salto mais brusco e você está em frente a um rio. Não era bem onde eu imaginava estar. Águas caudalosas e turvas não permitem ver o fundo. Tem alguém do outro lado. Mas as águas sobem aos céus, viram fumaça branca e granulam a vista. Quem é essa mulher? Pergunto (Pergunto a quem?): “É a mulher que você prometeu sussurrar do outro lado do rio” – ele responde (Ele quem?). O coração acelera de novo. Estamos novamente na borda do abismo. Quantas vezes eu voltarei aqui? A ideia de um inferno cíclico assombra os homens. As mulheres não, elas estão acostumadas a círculos, ciclos e, também, a infernos. 

Ando prometendo coisas que nem sei. Ando sussurrando mulheres com língua de serpente sem saber. Há coisas que só fazemos no feérico. É certamente o dia delas chegando. No último dia de outubro, nós nos sussurramos todas. Criamos corpos sobre corpos, sobre corpos, sobre corpos... Do que você está falando? De assombros. Que horas são? O coração acelera mais uma vez. Dessa vez os batimentos me acordam pra valer. Bato o braço na mesa de cabeceira. Já se passaram duas horas. Duas horas meio perdidas. Duas horas de não sono, de delírios. Eu preciso acordar cedo. 

“É a mulher que você prometeu sussurrar do outro lado do rio” – penso. Que frase vívida! Eu costumo fazer poesia enquanto durmo. Eu costumo ser Eva quando durmo.

 

* Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia.

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

3 de jan. de 2026

Indique livros para O Bule!

🤓Queremos saber: Que livros você indica? 

Indique livros para lermos em 2026: 

📚de ficção,

📚de qualquer gênero literário: poemas, contos, novela, romance, etc.

📚pode citar autores que você gosta? Pode! 

Que tal movimentarmos o mercado literário além do óbvio?


31 de dez. de 2025

#EscuteLiteratura n'O Bule

#EscuteLiteratura, como o nome sugere, é uma série de textos literários, em geral curtos, lidos/narrados para quem assim prefere ou precise, como pessoas cegas, etc. Pode chamar de audiobook, leitura dramática, literatura audiovisual, do que quiser, mas é literatura.

30 de dez. de 2025

"conforto", de whisner fraga


Whisner Fraga é mineiro de Ituiutaba. Autor dos livros usufruto de demônios (Ofícios Terrestres, contos, 2022, finalista do Prêmio Jabuti), usufruto de ruínas (Ofícios Terrestres, contos, 2023), as fomes inaugurais (Sinete, contos, 2024), entre outros. Teve contos traduzidos para o inglês, árabe e alemão. É responsável pelo canal “Acontece nos livros”, no YouTube, em que fala sobre obras da literatura brasileira. 

27 de dez. de 2025

Quais os melhores livros que você leu em 2025? CorraAtrásDessesLivros (17ª edição)

A pergunta era simples: 

Quais os cinco melhores livros que você leu em 2025? 

Os critérios também: 

  • Não é uma regra, mas foque em livros literários.
  • Não precisa escrever nada sobre eles, ok? 

Mas – sabemos todos – que escritores costumam ser desobedientes, e alguns bem enrolados. 

É bom deixar claro que não estamos nenhum pouco preocupados em promover best sellers, das grandes editoras papadoras de prêmios, publicados em 2025, ok? Então não espere, leitor, listas com “os melhores livros de todos os tempos da última semana” nem, muito menos, de escritores carimbados que escrevem sobre temas batidos de uma forma superficial. 

Mas verá, por outro lado, que as listas são bem diversificadas. Nas listas de Rogers e Ricardo, por exemplo, prevalecem obras/autores canonizados, tanto brasileiros quanto estrangeiros. A lista da Allyne é bem eclética, com autores brasileiros que publicaram há dois meses, juntos com um autor islandês (Sjón, o único escritor que se repete), desconhecido dos leitores brasileiros. Na lista de Krishnamurti prevaleceu a literatura brasileira contemporânea. Na lista de Whisner prevaleceu a literatura contemporânea, com representantes do Brasil (a maioria), da Angola e da França. Milton Rezende, por sua vez, colocou em sua lista - espontaneamente, que fique claro - apenas livros dos colunistas d'O Bule, relidos por ele durante este ano.

Enfim, eis a lista de cada colunista a seguir e, para cada obra, um link onde o leitor pode conhecer um pouco mais sobre ela e adquiri-la, caso se interesse.
 

Dito isso, abraços! 

 

Os melhores livros lidos por Allyne Fiorentino em 2025:

Cinzas do Norte (Milton Hatoum)

Pela boca da baleia (Sjón)

Crisântemo (Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior)

A raposa sombria (Sjón) 

 

Os melhores livros lidos por Krishnamurti Góes dos Anjos em 2025:

O último dos copistas (Marcílio França Castro)    

Só vale a pena se houver encanto (André Giusti)

Vozes para tímpanos mortos (Mário Baggio)

Arqueologia da luz (Mell Renault)      

Toda mulher que ama é Medeia (Patrícia Porto)

Em-nome-do-PAI - trilogia infamiliar (Márcia Barbieri)



Os melhores livros lidos por Milton Rezende em 2025:

À flor da pele (Krishnamurti Góes dos Anjos)

Manicômio (Rogers Silva)

Da Essencialidade da Água (Milton Rezende)

O privilégio dos mortos (Whisner Fraga) 



Os melhores livros lidos Rogers Silva em 2025:

A última dança de Chaplin (Fabio Stassi)

Névoa (Miguel de Unamuno)

Todos os fogos o fogo (Julio Cortázar)

Fugitiva (Alice Munro)

 

Os melhores livros lidos por Ricardo Novais em 2025:

A Peste (Albert Camus)

O Casamento (Nelson Rodrigues)

Angústia (Graciliano Ramos)

Pessoas normais (Sally Rooney)

 

Os melhores livros lidos por Whisner Fraga em 2025:

Amores terás vivido (Wilson Loria)

De repente nenhum som (Bruno Inácio)

Caixa de vazios (Vicente Humberto)

A visão das plantas (Djaimilia Pereira de Almeida)

O deus da carnificina (Yasmina Reza)


Leu algum desses livros? Gostou? Afinal, quais os melhores livros que você leu em 2025, leitor? Fique à vontade em nos dizer!