6 de mar. de 2026

Dois poemas de Allyne Fiorentino

 



Iluminações 

Aos “sentinelas de espíritos e estradas” (A. dos Anjos) 

Move-se a língua úmida da vida em sussurro e lume

mas não há ouvido humano capaz de ouvir

 o destino

 

Iluminações queimam a retina

enquanto os inaudíveis hálitos pesados continuam a falar

na língua feérica das serpentes

— por trás dos meus olhos há desenhos incompreensíveis 

à língua dos homens

 

Ribomba trovoada quando a sua palma toca a minha

nossos pactos milicentesimais funcionam no silêncio.


Se te chamo “pai” – como me pede –

é porque já existem galhos iluminados atrás dos meus olhos

relâmpagos na escuridão do corpo.

 

Cinco falanges que se encontram e

dez anos se passam voando

como que contados nos dedos de duas mãos


Um flash de luz e agora seu céu é azul.

 

Com a mão direita,

eu fecho seus olhos,

meio verdes, meio azuis.

Agora,

para sempre.

 

Só há tatuagens quando o fogo se esvai.

 

O olho esquerdo é obediente.

Ficou o olho direito, então, aberto.

Azul-esverdeado.

Fulminante.

Ficou assim, meio a meio.

Yin e yang estáticos como um último símbolo do nosso pacto.

 

Nós dois

meio desconfiados da vida

meio desconfiados da morte

na dualidade típica de

quem anda pelo vale da sombra da morte

[e não teme.

 

Quem pisa na escuridão não tem delicadeza na língua

sabe que tempo é relâmpago

corta as finezas

as palavras são trovões

Mas repara nos seus galhos de luz:

são traços finos, delicadamente desenhados

com a mão direita de Deus.

 

“continue sendo como você é”

foi a última mensagem

foi a primeira mensagem 

 

E se apagou.

 

 

De alma

 

Pode ser cedo para o amanhã

mas os pássaros já sobrevoam a cabeça dos mansos

herdeiros da Terra

levantam os olhos ao firmamento

 

a palavra do destino vem de outros céus

ainda como uma asa.

 

Fecho meus olhos para ver melhor:

a felicidade é branca

 

inscreve-se em sal e água

nos pequeninos mundos que exalam

de nossos corpos nus

 

sempre nus

 

São milhões de pequenas águas-vivas

bioluminescentes

cintilando através desse espelho de voal

 

um portal

para os francos desertos

que beberam da boca seca

das mulheres, esse oceano

É uma leitura “almática” - você diz

no seu próprio latim

buscando as palavras que nunca ouvira

como soldado de guerra

 

um códice para além das armas

para além das almas -

anímica.

 

Perto do mar

quando envoltos em névoa turva

nos encontramos

corrias como um Nostradamus menino

os pés livres, avançando sobre a areia reluzente

ainda inocente de todos os vaticínios

 

Lembro-me da cicatriz da montanha,

onde nos encontramos nas escadarias

era noite

e ali demos novamente as mãos

para amarmos as línguas antigas

que atravessam séculos e pousam

sobre a pele de indigentes, em tatuagens vulgares

– a vida ali era âmbar.

 

Mas todas as vidas engendram-se

nos cachos dos teus cabelos

nessas voltas negras que revivem

as estrelas extintas de outros universos

 

Agora que não é mais menino e já sabe demais

seu olhar bruscamente se ilumina:

são eles também

milhões de pequenas águas-vivas

lascivas, nesse santuário abissal

esse portal, de fúria e calmaria.

 

Também meus olhos

incompreensíveis aos humanos

fixos no céu

fitam um pássaro negro

rasga o horizonte com a delicadeza de uma pena

                                                                          o amor.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

4 de mar. de 2026

'Crisântemo', de Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior

Carlos (20 anos) é um jovem músico que vê seu mundo desmoronar em uma sucessão de tragédias. Assombrado pela perda de Lucas, seu melhor amigo e baterista da banda, Carlos mergulha em uma espiral de dor, culpa e desconfiança. Cada pilar de sua vida parece ruir: o relacionamento conturbado com a mãe atinge um ponto de ruptura, antigos amores retornam com segredos avassaladores e a própria música, sua única válvula de escape, é silenciada. 

Expulso de casa e vagando por uma cidade que parece indiferente ao seu sofrimento, Carlos se vê confrontado por verdades dolorosas sobre as pessoas que mais amava. À beira do abismo, ele precisa encontrar uma razão para continuar em meio ao caos. Crisântemo é uma jornada visceral sobre luto, abandono, traição e a busca por um novo sentido para a vida, onde a amizade e a arte se tornam os últimos refúgios contra a escuridão, e uma única canção pode ser a chave para a redenção. 

Ficha técnica
Ano de publicação: 2025
1ª edição
126 páginas
Cápsula Editora
Ficção: novela
Formato: 15 x 21 cm 


Onde adquirir o Crisântemo

 

Em breve, o lançamento oficial! 

 

Sobre os autores 

Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Publicou diversas resenhas, artigos de opinião e artigos acadêmicos sobre leitura e literatura, com foco em obras e autores brasileiros. Crisântemo é sua primeira obra jovem adulta.

25 de fev. de 2026

Do mineral ao humano: 'Arqueologia da luz', de Mell Renault

 Por Krishnamurti Góes dos Anjos

O leitor que tiver a oportunidade de ler o volume de poesias Arqueologia da luz, da escritora mineira Mell Renault, publicado pela Editora Patuá (2025), sem dúvida desfrutará de literatura da mais alta qualidade. Em meio à imensa profusão de títulos que se publica no país atualmente, a obra de Mell Renault merece destaque, porque não se detém aprisionada por esse verdadeiro sequestro da literatura nas tantas e infindáveis bandeirinhas identitárias, ou por um lirismo de trivialidades amorosas egocêntrico.

A obra em evidência apresenta a experiência humana sob um prisma cósmico totalizante ao convergir em sua poética o sentimento e o conhecimento simultâneo da perfeição e da harmonia do cosmos, lembrando-nos a frase de Fernando Pessoa: uma “poesia que pensa sentindo e que sente pensando”. Poesia universalista, acrescentamos.

O filósofo e professor alemão, Martin Heidegger (1889-1976), nos alertou que o pensar deve estar liberto da interpretação técnica e instrumental que o reduz a uma atividade prática ou produtiva. A linguagem é a "morada do ser", e o pensar é a via para resgatar a experiência fundamental da verdade do Ser, o que não se alcança pela racionalidade instrumental ou científica. E é justamente por ser a linguagem a “casa do ser”, que a linguagem poética tem a capacidade de conferir sentidos mais amplos ao humano. 

Não percamos de vista ainda que o mesmo Heidegger adverte quanto à necessidade da superação radical do humanismo tradicional e da metafísica ocidental, que reduziram a essência humana a uma substância ou a um valor genérico submetidos a uma concepção, que esquece a questão fundamental do Ser. Aquele humanismo tradicional definiu o homem (ou a essência humana) a partir de noções como "animal racional" ou "substância", o que é insuficiente e redutor.

A poética que aflora de Arqueologia da luz é tão espontânea quanto a natureza em todas as suas manifestações metamórficas, transmutáveis, híbridas. Por este viés de simbolização da natureza, como matriz de pensamento, de criação estética e de posicionamento no mundo, que a linguagem se revela para que, aliada ao que nos circunda, encontremos novos caminhos. O pulsar da vida é o que interessa, sem discriminações de espécie. Eis a tradução do mundo que a poeta revela para além das aparências. Um posicionamento rizomático da palavra, diríamos, entendendo por rizomático certa abordagem que reflete a estrutura de um rizoma (de uma planta), caracterizada por crescimento descentralizado, conexões múltiplas e não hierárquicas.

Em cada poema de Arqueologia da luz o leitor deleita-se com a fluidez, o movimento, o devir e a diversidade, palavras associáveis à natureza, em uma abertura ao imenso que nos circunda, deixando absolutamente patente a necessidade da integração do homem ao meio que lhe confere vida, e não o contrário, como absurdamente alguns de nós pensam. 

Nesse  paralelismo poético entre escrita e natureza, as palavras saem da imobilidade, disponibilizam-se a novos sentidos, transfigurações, laços. Aí a “liberdade de consciência” encontra o “dom poético” da autora, ou, por outras palavras, a ética e a estética unem-se na concepção de uma poética cujas origens remontam aos mais ínfimos detalhes da existência que se inscrevem na ordem do devir, num fluxo permanente, no movimento ininterrupto e atuante, como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes.

O leitor sentirá vigoroso estímulo ao fim da cisão entre o humano e a natureza. Sobretudo quando o nosso dia a dia já nos mostra que esse distanciamento tem implicado alheamento (catastrófico) das consequências resultantes da ação humana no meio ambiente. O cerne da mensagem que o livro traduz é quase extra-humana (e não necessariamente mística, religiosa ou ecológica, palavras que até aqui, nesta curva da evolução, estão contaminadas por discursos simplistas e antropocêntricos). A lembrança e valoração da existência humana dentro dos tão amplos e variados elementos dos reinos mineral, vegetal e animal propõe marcante reorientação dos nossos valores.

Os poemas reunidos em Arqueologia da luz, pela densidade das imagens evocadas nos ciclos indomáveis da linguagem e da natureza, convidam o leitor a refletir sobre a unidade da vida que irmana de todos os seres. Do mineral ao humano, com trocas e interdependências impostas por uma lei comum que não é mais possível negar. O notório esforço poético empreendido pela autora incita-nos a sentir este liame de amor para com todas as outras formas de vida, porque tudo, desde o fenômeno químico ao fenômeno social, não é mais do que vida impregnada por um princípio espiritual.

Na luz que nos chega do sol se operam as primeiras transformações físico-dinâmicas nas quais a matéria se dissolve em radiações. As plantas apropriam-se da energia solar e dela se alimentam para os fins da vida, que se dissemina e cresce sem cessar. Compostos químicos se ajustam em fórmulas cada vez mais complexas e acumulam a energia solar, transmutando-a em compostos de estrutura química mais elevada. 

O animal, por sua vez, se por um lado destrói grandes quantidades de material orgânico fornecido pelas plantas, por outro reconstrói em qualidade aquilo que destruiu em quantidade, executando novas operações químicas e fabricando materiais ainda mais complexos, de uma complexidade progressiva, que é expressão e meio de formação de um rudimentar, mas progressivo psiquismo íntimo. 

Tudo representa divisão de trabalho, especialização de funções, transformação por contínuos e infinitesimais deslocamentos progressivos. Só no animal começa verdadeiramente a função específica da constituição daquele psiquismo que irá se tornando cada vez mais complexo, à medida que ascende nos fenômenos vitais. Então, chegamos ao humano, com a  derradeira transformação e acréscimo das funções psíquica e espiritual. Temos aí traçada a linha que, por meio das espécies físicas, dinâmicas e psíquicas, conjuga a matéria ao pensar/sentir. Eis onde culmina, depois de tantas transformações, a energia das radiações solares.Toda luz tem como nascente o amor(p. 90).

A “máquina” mais complexa e delicada que a evolução produziu no planeta Terra é a nossa psique. Em nossos órgãos sensórios, opera-se continuadamente a elevação das vibrações ambientes em vibrações de ordem superior. Pela audição, o som se torna música; a visão transforma a luz em beleza; por meio dos sentidos e no embate das forças ambientes constrói-se o instinto e a consciência. O poderoso mecanismo da vida transforma a energia, de suas formas inferiores até as mais altas formas nervosas de sensação, sentimento e pensamento, para o desabrochar da vida tornado realidade por meio das radiações solares que, com o concurso da universalidade de elementos da existência, chega à florescência da consciência. “O amor é essa presença sutil, percebe  ( p. 120).

O grande rio da energia, que fora matéria, transforma-se no imenso mar da vida, que muda em consciência para finalmente se sentir e se observar a si mesmo. A gravíssima crise psicológica que a humanidade hoje atravessa requer, e impõe impreterivelmente, uma nova consciência. É assim que a ‘Luz’ do título dessa obra seguirá luzindo cada vez mais intensa, como evoca o poema abaixo (p. 74):

 

“fazer da luz

esse talismã bem perto do corpo,

assim como o amor,

trazê-lo rente a pele.”


Mell Renault harmoniza versos de uma poética tão simples e imprescindível como uma pétala de flor, a nos lembrar que o amor é a mais potente das força cósmicas, a energia psíquica primordial. Como o sangue de evolução espiritual.

Em tempo, porque me deu na telha acrescentar: Aqueles que quiserem perceber tudo isto que acabei de escrever encontram melhor tradução em vários poemas. O da página 85 resume, numa lufada de vento, todas essas palavras que penosa e sofrivelmente verti nesta resenha. Pronto, falei!


Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

12 de fev. de 2026

Sem artigo, só achismo! #1 - Uma imersão em “Lamentos da Alvorada Renegada”, de Bruno Ricetti

Sem artigo, só achismo” é uma seção da Revista O Bule que valoriza a voz espontânea dos leitores! Sem análises técnicas e acadêmicas, aqui leitores vorazes e experientes emitem suas impressões, sensações e dão a opinião sincera sobre os livros que leram.

Para estrear nesta seção, a leitora Drielly Passos nos apresenta sua opinião e sua jornada de leitura do livro “Lamentos da Alvorada Renegada”, uma obra brasileira de fantasia em dois volumes.

Lamentos da Alvorada Renegada
Autor: Bruno Ricetti
País: Brasil
Disponível em: epub e impresso
Volume 1: 470 páginas.
Volume 2: 790 páginas

 Volume 1 - O despertar da Luz


Nunca imaginei que pudesse devorar quase 800 páginas de fantasia em menos de uma semana. “Lamentos da Alvorada Renegada” trata- se de uma obra de fantasia, que mistura mitologia e filosofia em uma intensidade que faz sentir cada emoção pulsando em você. Chorei, fiquei com raiva, me emocionei, fiquei tensa, confusa… tudo ao mesmo tempo!

O livro não entrega apenas aventuras, mas explora perdas, escolhas, amadurecimento forçado e a força do coletivo. A trama acompanha jovens que vivem em uma segurança ilusória até que o chamado do Lume vira tudo do avesso. Esses jovens são os “Arautos”, e não são apenas jovens “escolhidos” por destino, são adolescentes atravessados pelo caos da vida, moldados pela dor e pelo amor, aprendendo que o poder (os Lamentos) vem junto com responsabilidade e cicatrizes.

A ambientação dos espaços de Auren e Korvas, as descrições do amanhecer e do cotidiano, não são meros cenários: elas refletem estados emocionais, antecipam o luto, a dor, a tensão que está por vir.

“Os campos de Eldren, nos confins ocidentais de Auren, brilhavam sob um sol que ainda não conhecia traição. Colinas verdejantes salpicadas de flores amarelas eram cortadas por riachos que gorgolejavam contra pedras lisas, polidas pelo tempo. O céu era um manto azul-claro, manchado apenas por fiapos de nuvens que deslizavam lentas, e o ar trazia o perfume doce da erva recém-cortada, misturado ao cheiro terroso das lavouras que cercavam a vila.

Era uma terra generosa, onde o trigo crescia alto e os pomares carregavam frutas tão pesadas que os galhos se curvavam até o chão. Mas mesmo ali, entre os montes que se erguiam suaves ao longe, o vento carregava sussurros, um murmúrio baixo, quase um aviso, que roçava as folhas das faias e se perdia no zumbido das abelhas”.

O chamado da personagem Aerie é sutil e profundo; não é heroísmo por escolha, mas um destino chamando, e sentimos isso junto com ela a cada frase. Cada batalha, cada lamento e cada perda reforça que a luta é interna e externa, e que o amor, a música e a memória são armas tão poderosas quanto qualquer espada.

O que mais me marcou foi como a história consegue ser brutal e bela ao mesmo tempo. A dor, a morte, a injustiça, mas também a música, a luz e a esperança tímida, sempre acesa em meio às cinzas. É impossível não se conectar, não sentir as lágrimas, o suor, o sopro de vida ou de desespero dos personagens. O que diferencia essa obra é como o autor, Bruno Ricetti, trata a magia que traz o poder que nasce da arte e da melodia, mas que também tem um custo físico e emocional.

“A última palavra saiu num soluço, e ela enterrou o rosto nos braços.

 Ele não respondeu imediatamente, o silêncio entre eles foi preenchido pelo som distante de um riacho escondido. O peso do que acabara de acontecer os esmagava, uma experiência traumática que os marca-ria para sempre.

 O poder dos Lamentos, descontrolado e violento, havia salvado suas vidas, mas deixara cicatrizes em suas almas, Kael sentia o sangue em suas mãos, uma marca indelével, e Liora carregava o eco de seu grito como um peso invisível. Os dois ficaram ali, tentando entender o que haviam feito e se perdoar pelo que tinham causado, o ar pesado com o cheiro de morte que ainda os seguia.”

O poder dos Lamentos, que Kael e Liora liberam, não é apenas uma habilidade mágica, é uma explosão de dor, medo e desespero, mas também de esperança. Eles salvam suas vidas e de outros, mas carregam o peso de tudo o que destruíram pelo caminho, e aquilo fica com eles, ecoando nas almas, como o próprio nome do livro sugere. “Lamentos da Alvorada Renegada” não poderia ser mais perfeito! O lamento é literal e emocional.

O volume 1 finaliza com feridas abertas, perdas sentidas e esperança incerta, deixando-nos com um gosto de quero mais e com o coração acelerado. Um livro que mostra que fantasia também pode ser profunda, dolorosa, real e transformadora.

“Seu mundo inteiro havia sido destruído em segundos. Não havia mais o pai forte para carregá-lo nos ombros, rindo enquanto o erguia ao céu, nem a mãe amorosa para tratar suas feridas com suas canções suaves que pareciam acariciar a alma. Ele não sabia se alguém em Venth ainda respirava, e as lágrimas que escorriam por seu rosto embaçavam a visão tornando a noite ainda mais densa, um véu que sufocava qualquer esperança”.

 

Volume 2 - O Domínio da Sombra

Se o primeiro volume abriu, para mim, as portas do gênero, o segundo, “Domínio da sombra”, não pediu licença: entrou, virou a mesa e deixou claro que esse universo de fantasia chegou para ficar. A leitura me proporcionou um misto de exaustão emocional e admiração. É uma obra que confia no leitor e não tem medo de ser densa e provocativa.

“O sangue não esquece seu caminho” e “A distância é um pensamento” não são só ameaças físicas, são declarações sobre como o inimigo transcende a força bruta. Para os Arautos, isso significa que lutar apenas com armas ou construções (muralhas, guardas, máquinas) não será suficiente. A batalha exige estratégia, percepção e inteligência, quase como um xadrez mental ou guerra psicológica.

Nessa continuação, percebemos que o verdadeiro horror não reside apenas em monstros ou máquinas, mas na lógica que sustenta o poder. O antagonismo nessa fase é assustador, justamente porque governa pela narrativa, pela conveniência e pelo conforto oferecido às massas.

Nesse cenário, a memória vira uma ameaça. Lembrar exige uma responsabilidade ética que o sistema não quer permitir. É impossível não traçar paralelos com o nosso mundo contemporâneo, em que discursos vendem estabilidade como valor absoluto enquanto tentam neutralizar o pensamento crítico.

A fala de Lisa é uma metáfora poderosa sobre a passividade das massas. Ela identifica que o povo de Auren não está sendo dominado apenas pela força, mas pelo conforto. Em um mundo exausto por guerras e invernos eternos, a promessa de uma vida sem esforço oferecida pelas máquinas é tentadora demais. A comparação com as ovelhas sendo engordadas é brilhante. O "pastor" provê o alimento e o descanso, mas o objetivo é o abate. A submissão é vendida como "descanso", mascarando a perda da liberdade.

No segundo volume, os personagens ganham uma profundidade psicológica rara. Liora me atravessou em seus dilemas sobre o tempo e o que não pode ser devolvido. Já Nero traz um alívio agridoce, que nos faz questionar: o que somos quando não conseguimos mais lembrar? São figuras que nos despertam desde risadas até lágrimas de pura empatia.

O protagonista Kael, por sua vez, é o herói que nos tira do sério. Impulsivo e falho, ele erra e sofre as consequências de cada ato impensado. Mas é essa humanidade que o torna especial. Ele não sai inteiro de suas batalhas; ele carrega as marcas de quem salva o mundo, mas precisa aprender a viver com os estilhaços do que restou.

Enquanto no volume 1, vemos uma jornada de sobrevivência e descoberta, em que o foco está na construção dos protagonistas, por isso é uma história mais íntima, sobre o despertar de poderes e a fuga do perigo imediato.

no volume 2, tudo é mais político, mais sombrio e muito mais maduro. Terminei a jornada com o coração acelerado e uma percepção incômoda: o mal nem sempre vence pela força bruta, mas, muitas vezes, pela paciência e pela manipulação das verdades.

O que percebemos desse universo é que a magia (Lume) é uma energia consciente e compartilhada. Diferentemente de outras fantasias, em que se gesticula ou diz palavras rúnicas, Bruno usa a magia como expressão artística (música, poesia). Ou seja, nesse universo, a sensibilidade é uma forma de poder, e os deuses não são figuras distantes e perfeitas em altares, mas seres que interagem, sofrem julgamentos e dependem de seus “Arautos”. Existe uma interdependência entre o humano e o divino, que é muito rara na fantasia tradicional.

Além disso, no segundo volume percebemos que é um mundo que já viveu apocalipses (como a Guerra das Máquinas) e que a tecnologia e a magia vivem em uma tensão constante. O universo de Bruno Ricetti sugere que a humanidade está sempre em um ciclo entre evoluir e se autodestruir, e que a única coisa que pode quebrar esse ciclo é a memória preservada pelos Lamentos.

Se no primeiro volume somos apresentados ao “sentir” da magia, no segundo somos confrontados com o “pensar”. O universo de Ricetti nos mostra que a maior arma de um povo não é sua espada, mas sua capacidade de lembrar de onde veio. O encerramento  deixa perguntas inquietantes sobre o futuro dos deuses e da humanidade.

“O silêncio após a batalha não era alívio. Era ausência. O portão estava livre, sim, mas o preço havia se entranhado em sangue, suor e marcas que não cicatrizariam facilmente.”

A saga de Ricetti prova que a fantasia nacional pode, e deve, ser profunda, dolorosa, real e, acima de tudo, transformadora.


Drielly Passos – Leitora assídua desde a infância entre as estantes da Biblioteca Municipal. Interesso-me por narrativas que tencionam poder, moralidade e condição humana, comm predileção por terror, suspense, distopias e fantasia. Graduada em Pedagogia (UFPA) e Matemática (UFTM), neuropedagoga, atua com atendimento pedagógico para alunos com dificuldade ou transtorno de aprendizagem.

 

Nota: os textos desta seção não necessariamente refletem a opinião da Revista O Bule.

11 de fev. de 2026

Psicopatia (Parte 5)

Por Gustavo Coelho 

Livre. A palavra mal se fixava em sua mente, abafada pela dor latejante. Hebert se apoiou na parede, ofegante, e olhou para o corpo de seu algoz. A chave. Precisava da chave. 

Ele se arrastou até o homem. Com as mãos trêmulas, começou a revistar os bolsos do paletó. Encontrou primeiro uma outra pistola, um revólver .38 idêntico ao que o matara. Estranhou, mas continuou. No outro bolso, sentiu o contorno de uma moeda. Puxou-a. 

Era a moeda do jogo. Olhou um lado: cara. Virou-a: cara de novo. Uma moeda com duas faces iguais. A sorte, a escolha, a esperança – tudo uma farsa. O jogo nunca fora sobre chance. Mas sobre a vontade dele. 

Sem pensar muito nisso, enfiou a mão no bolso da calça do homem e sentiu o metal frio das chaves. Agarrou-as com força. Com o canto do olho, viu o pedaço de si mesmo caído no chão. Em um ato de desespero e negação, ele o recolheu com as mãos, na esperança absurda de que não fosse tarde demais. Já sentia o corpo ficar mais frio, a tontura chegando pela perda de sangue. 

Correu, ou melhor, mancou o mais rápido que pôde até a porta pela qual o sequestrador havia saído pouco antes. As mãos tremiam tanto que ele custou a encaixar a chave na fechadura. 

Girou-a. A porta se abriu. 

Aí ele se deparou com algo aterrorizante. 

Não era um corredor. Era um quarto de menina. As paredes eram pintadas de um rosa desbotado e, em uma delas, dezenas de fotos de uma jovem sorridente estavam presas em um mural. Os móveis, também cor de rosa, estavam bem-dispostos. Em cima da cama de dossel, repousava o cadáver mumificado de uma garota, a pele esticada sobre os ossos como pergaminho, a boca aberta em um grito silencioso. Acima, no teto, balançava uma corda com um laço na ponta. 

Hebert recuou aterrorizado. Olhando freneticamente ao redor em busca de outra saída, avistou uma porta do outro lado da sala. Correu até ela, mas seu coração afundou. Era uma porta de aço, uma porta sem maçaneta, apenas uma fechadura eletrônica, um leitor de impressão digital. Ele estava preso. 

Seus olhos percorreram a sala de forma frenética e finalmente se fixaram em uma pequena mesa. Talvez um cartão, algo para abrir a porta. Ele se jogou sobre ela, remexendo em papéis e objetos. Mas não encontrou um cartão. Encontrou um bilhete, dobrado e posicionado no centro da mesa, como se estivesse esperando por ele. Largou seu membro decepado na mesa e, com os dedos manchados de sangue, o abriu e leu:

 

“Pai,

 

Essa vai ser a última vez que você vai ouvir minha voz — mesmo que seja por letras no papel. Eu não sei como dizer isso de um jeito que doa menos. Talvez não exista. Então... me perdoa.

 

Eu tentei, de verdade. Tentei voltar a ser a Marina de antes. Tentei respirar como se meus pulmões ainda funcionassem direito. Mas alguma coisa em mim morreu naquela noite — e nunca mais voltou.

 

Você lembra da viagem da faculdade? Aquela em que você ficou orgulhoso por eu estar participando? Foi ali, pai. Foi ali que ele me destruiu. Hebert, um colega de turma, alguém que todo mundo admirava, aquele tipo de pessoa que sorri para todos e engana fácil. Ele se ofereceu para me levar até o quarto porque eu não estava bem. E foi lá que tudo acabou.

 

Ele me amarrou e estuprou, por diversas vezes. Eu me lembro do cheiro do quarto, da textura do lençol contra meu rosto quando tentei virar, dos segundos intermináveis com a boca trancada de medo. Depois ele só disse: “Não adianta gritar. Ninguém vai acreditar em você.”

 

E ninguém acreditou.

 

Eu denunciei. Fiz tudo que disseram ser o certo. A polícia disse que não havia provas. O exame deu inconclusivo. A faculdade se calou. Ele seguiu em frente, como se nada tivesse acontecido. E eu fiquei... aqui.

 

Você me dizia para não desistir, para ser forte. Mas, pai, você sabia que tem dias que eu nem lembrava o gosto da comida? Eu parei de sentir fome. Parei de sentir sede. Os sabores sumiram da minha boca como se fossem arrancados. Eu mastigava o vazio.

 

Sair na rua virou tortura. Quando eu sentia os olhares — e sempre haviam olhares — era como se cada um fosse uma descarga elétrica atravessando minha pele. Me deixavam paralisada. Eu tremia por dentro, querendo correr, desaparecer. Como se todos soubessem. Como se todos me culpassem.

 

Eu não conseguia mais dormir direito. E quando dormia... era pior. Eu voltava para aquele quarto, para aquele peso, para aquele som abafado da minha própria voz tentando gritar. Acordava molhada de suor, o coração batendo como se quisesse escapar do meu peito.

 

Eu passei a sentir que algo tinha sido arrancado de mim. Como se um pedaço meu tivesse ficado naquele chão. Algo essencial. Sem ele, eu não conseguia continuar. Não era só tristeza. Era ausência. Um buraco fundo onde antes havia vida.

 

Eu sei que você tentou, pai. Sei que me ama. Mas o amor, às vezes, não alcança o que está morto.

 

Hoje, depois de terminar esta carta, vou me libertar. Não porque quero machucar você, mas quero descansar. Quero que essa dor pare. Que esse peso acabe.

 

Me perdoa. Me perdoa por não conseguir mais. Por não ter sido a filha que você merecia. Mas, se um dia você sentir saudade, lembra de mim antes de tudo isso. Quando eu ainda ria de bobagens. Quando ainda tinha gosto em viver.

Com amor,

Marina.” 

As palavras da carta queimaram a mente de Hebert. Marina. Hebert. O nome dela. O nome dele. Ele ergueu os olhos do papel e encarou o cadáver na cama. Aquele rosto, desfigurado pelo tempo e pela decomposição, com a pele esticada como couro velho... por baixo de tudo, ele o conhecia. Era ela. 

O desespero o atingiu com uma força terrível. Ele precisava sair dali. Correu até o corpo mumificado de Marina e, sem cerimônia, começou a revistá-lo, procurando nos bolsos do vestido, já podre, por um cartão, qualquer coisa. Não havia nada. 

Uma ideia medonha e desesperada surgiu. A porta de aço. O leitor de digital. A chave era a mão do homem morto na outra sala. 

Ele voltou, mancando e deixando um rastro de sangue, até o corpo do sequestrador. Ajoelhou-se e pegou uma das mãos, planejando usar o cutelo para decepá-la. Mas ao virar a palma para cima, lembrou de algo aterrorizante. Não havia digitais. Estava queimada. A pele completamente destruída, uma massa de tecido carbonizado. Ele se lembrou do homem segurando a barra de ferro quente. A "prenda". Não fora um ato de loucura. Fora um passo calculado para selar sua tumba. 

Derrotado, Hebert escorregou e sentou-se no chão úmido, entre os dois corpos. E, então, as peças começaram a se encaixar, uma a uma, em um mosaico de horror. 

As duas pistolas idênticas. Uma delas, a que estava no bolso, com a única bala já no gatilho, trocada pela vazia para o início do "jogo". A roleta russa era uma farsa. 

Os choques em seu pênis era a "descarga elétrica" que Marina sentia sob os olhares de julgamento... 

A pera da angústia introduzida em seu corpo, a violação, a boca trancada de medo que ela descreveu. 

Seu dedo e órgão genital arrancados significavam o sentimento de ter tido "algo essencial arrancado" de si, como ela escreveu? 

O saco plástico em sua cabeça, roubando-lhe o ar... a sensação dela de não conseguir mais "respirar direito". 

E por fim, aquilo. Aquela sala. A porta de aço. Sua prisão eterna, onde morreria lentamente de fome e sede, exatamente como ela, que em sua depressão "parou de sentir fome, parou de sentir sede".

Ele não era vítima de um psicopata aleatório. Estava condenado. Condenado a uma vingança pessoal, arquitetada nos mínimos detalhes por um pai que amava tanto a filha a ponto de recriar o inferno dela em seu algoz. Um destino que ia além da morte, um sofrimento lento e degradante de seu corpo e de sua alma, culminando em seu fim, trancado para sempre entre a sua vítima e o seu vingador.


Fim.

 

Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É coautor de Crisântemo.