17 de out. de 2026

Os luminosos contos de ‘A bala dos desarmados’, de Francisco de Morais Mendes

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Sabemos que o gênero literário conhecido como conto é fundamentalmente um texto ficcional curto em que um narrador conta uma história desenvolvida em torno de um enredo – uma situação que dá origem aos acontecimentos da narrativa, levando a desfechos impactantes que, via de regra, costumam ser súbitos e surpreendentes, deixando uma forte impressão no leitor, posto que sempre revelam algo além no capítulo do “aprendizado humano”. 

Nos últimos tempos de frenesi informativo e de forte apelo às imagens impactantes, o gênero tem passado por sucessivas reduções físicas que nem sempre se traduzem em qualidade. Antes empacam em uma espécie de esvaziamento da profundidade narrativa, propensos à espetacularização da concisão e da transformação da literatura em um produto de consumo rápido. 

Muitos autores, talvez por conta de um mimetismo de fácil assimilação, têm reduzido o gênero a poucas linhas ou palavras e, ao reduzirem demasiadamente sua estrutura física, abandonam a complexidade psicológica das personagens e o desenvolvimento de um enredo, resultando em diminuto resumo de frases de efeito, tiradas espirituosas ou simples motes que funcionam mais como charadas do que como literatura densa. Uma tal busca obsessiva pela brevidade extrema aproxima a literatura da lógica da publicidade e das redes sociais que priorizam o impacto instantâneo (o alarmismo, o engajamento ou a espetacularização) em detrimento de uma fruição estética que sugira sentidos férteis e mais prolongados, e da construção de um universo ficcional consistente. Alguns desses textos extremamente curtos se esquivam do trabalho literário propriamente dito, e delegam aos leitores a responsabilidade de inventar uma história que o autor sequer chegou a estruturar. 

Por outro lado, há quem defenda que a microficção exige do escritor o domínio cirúrgico da linguagem, onde cada palavra carrega peso poético e elíptico. Mas é justamente aí que entra o grande problema. O tal domínio cirúrgico da linguagem não se alcança através de “residências literárias”, cursos de “escrita criativa” ou outros cursos “on-line” de todo tipo que proliferam a torto e a direito. Antes, e bem mais eficiente, é a intensa e constante leitura e, ainda, a consequente reflexão das grandes obras da literatura universal e também, óbvio, de excelentes autores contemporâneos que, para além do notório conhecimento literário, possuem pitadinhas de talento, palavra essa, aliás, em vias de desaparecer, porque vamos entendendo que em matéria de literatura chegamos até aqui graças aos computadores, à Internet e – agora – a tal Inteligência Artificial que nos tornará super-homens da ficção. 

Em todos esses anos em que venho arduamente – porque de fato, também não é fácil — me dedicando ao que muito modestamente chamo de crítica literária, tenho visto dezenas, centenas de escritores de um livro só. Porque, quando sentem o que a verdadeira literatura deles exige, desistem para nunca mais. Escrever um livro, ou mesmo ganhar um ou outro concurso literário, positivamente não faz do sujeito um grande escritor. Aí outro equívoco do mundo literário. A luta com o texto elaborado e trabalhado com afinco, e que nos apresente a tal condição humana com suas quedas, ascensões e aprendizados é trabalho que consome muito, muito tempo e, mais ainda, esforço do autor. 

A razão desta resenha é uma coletânea de contos, o livraço A bala dos desarmados (Editora Sinete), do escritor e jornalista mineiro Francisco de Morais Mendes, que venceu o Prêmio da Academia Mineira de Letras de 2026. De saída. fiquemos sabedores que o senhor Mendes (mais um dos grandes talentos desse país que poucos conhecem), também já foi contemplado com oito prêmios literários, entre eles o Prêmio Minas de Cultura, do governo do Estado, o Cidade de Belo Horizonte, da Prefeitura Municipal, e o Prêmio Autor 2018, em Lisboa. Não é pouco. 

Embora não seja autor de volumosa obra, a qualidade autoral é inegável, conforme veremos, partindo justamente do tipo e extensão dos contos que escreve. São peças ficcionais de estrutura tradicional. Textos mais longos e, consequentemente, bem estudados e estruturados que concorrem com a vida em inventividade e, com tal objetivo, o autor manipula situações refletindo ou interpretando a matéria-prima: a personagem, seu meio e situação exposta. O conflito latente, em sua obra, sempre cria verossímeis atmosferas ficcionais em busca da construção de um universo ficcional consistente. O autor em suas criações não sonega o núcleo ficcional, que por vezes escamoteia no início para, ao final, criar o efeito de suspense, de mistério, de solidão ou abandono – ou que outro final pretenda sugerir. Exímio na arte de entrelaçar as pontas, de desenvolver ficcionalmente o que em princípio fica insinuado, segue propondo mistérios de uma situação invulgar que, por sua vez, expõe outros mistérios, os das personalidades de suas criaturas.

No conto “Ar”, as metáforas e símbolos saltam à vista. A protagonista hesita em destinar uma carta denúncia que escreve para seu tio ou sua família inteira (?). Denúncia de atitudes eleitoreiras que o tio havia tomado, e que resultaram na morte do próprio irmão, pai da protagonista. Cria-se um suspense entre a dúvida cruel de enviar a carta denúncia/acusação ao tio e o estado de espírito da personagem que depois do assassinato do pai, tornou-se presa de uma sensação asfixiante oscilando entre a falta de ar pela dor do assassinato do pai, conjugada com o mau cheiro terrível de um país que emerge das eleições cheirando a animal morto, apodrecido, largado numa poça de água suja. O que nos lembra uma situação assim, muito parecida com a que vivemos num passado recente, no qual faltou oxigênio para os doentes da pandemia de Covid nos hospitais. Falta de ar. Perdura no “ar” um certo sentido de “república das bananas”, com assassinatos políticos, corrupções, mentiras, calúnias e toda a sorte de podres poderes. A falta de ar nesse texto não é mera metáfora... E pior, dados os últimos acontecimentos, a amplificação do horror ameaça se repetir nesse país que se transforma a cada dia na terra das polarizações imbecis. 

Já em “Hospedes”, o leitor se depara com uma situação surreal. Um homem em viagem com a esposa na Polônia sai de um apartamento para jogar o lixo em uma lixeira. Nesse ínterim é confundido com o amante de uma mulher casada. O marido traído tem certeza tratar-se do amante e esfaqueia o sujeito bem na hora que depositava o lixo na lixeira. Temos nessa narrativa uma das especialidades do autor. A proposta de suspense que vai sendo controlada habilmente de forma a provocar no leitor vivo interesse pela sorte final do homem inocente. Um verdadeiro primor na arte de provocar expectativa, tensão, ansiedade e incerteza. Em contos como “Jardim das plantas” e “Corredores”, há inclinações em direção ao fantástico, embora o autor não ate deliberadamente as pontas do real e do suprarreal, mas cria ficções que espelham contingências humanas. Certamente não se poderá encontrar explicações plausíveis que satisfaçam e aquietem inteligências metódicas... No conto “Corredores” a leitura inicial deixa dúvidas, cria uma atmosfera ficcional rarefeita e, apesar disso, sugere e inquieta. Um texto provocadoramente ambíguo, assim como “A caminho do grande espetáculo”, um primor de inventividade que tanto nos diz da distopia que o mundo hoje vivencia. 

A verdade que os textos citados acima buscam, não depende necessariamente da lógica do acontecimento relatado e, sim, de uma veracidade interior, subjetiva, uma verdade artística plasmada pela personalidade que tanto se deixa influir por fatores extrínsecos, quanto alterna a interpretação da realidade. A partir desse instante, o conto alcança com recursos próprios, à confluência do ficcionismo em geral. Já em “Um olhar uma foto”, de viés realista, assistimos à recuperação de um momento histórico situado na Segunda Guerra Mundial, através de uma fotografia em uma exposição dos flagelos da guerra que flagra o exato momento em que uma garota é socorrida do que se supõe ser um estupro. A descrição do horror, da intolerância e da opressão que os visitantes sentem ao visitar a exposição e os efeitos que se gravam em seus espíritos é pungente.  

Mas Francisco de Morais se notabiliza também quando se transforma em intérprete de pequenos mundos da individualidade, varridos por situações aflitivas. Alguns de seus contos nascem, por certo, das profundezas da imaginação e da intuição, e do contato prolongado com o fascinante espetáculo da existência. Conseguem aliar à tal característica, a maravilhosa faculdade de observação precisa. Seus temas prediletos parecem ser os dramas, as comédias e tragédias e, porventura, as tragicomédias da personalidade, em que ressaltam conflitos inerentes à condição humana, outras vezes ditados por circunstâncias adversas. Criada a personagem no cenário que lhe cabe, vem o conflito, a situação, a “fatia de vida”, porque o contista busca sempre um veio ficcional, por mais tênue que este seja e lhe segue o curso, na sucessão dos naturais desdobramentos. Cria-se, dessa forma, a ficção da melhor qualidade. 

Já em “Feliz aniversário, Wainer”, um homem hospitalizado traz consigo a lembrança dolorosa que o remorso não deixa esquecer: um episódio do passado que assombra o personagem ainda no presente e que o ficcionista explora no flagrante em que ele se consulta, se olha e se flagela. Um ato de vingança praticado há décadas. E tanto pior para sua consciência quanto se sabe que foi perpetrada contra um homem praticamente cego e, ainda por cima, embriagado. O terrível drama de consciência é o ponto alto do texto. Até que ponto terá valido a pena a vendetta? Dois outros contos merecem destaque: “Estado bruto” e “Chuva”. Em “Chuva” um homem recebe a visita inesperada de uma mulher num dia chuvoso. Alguém com quem teve uma relação amorosa, seguida de um rompimento que, pressupomos, não foi consensual. A mulher cria coragem e vai procurá-lo, mas está transtornada, em frangalhos, narcotizada: “É, vim aqui algumas vezes. Parei na porta, sem coragem de bater” (...) “Não vale a pena — ela disse. Não vale a pena porque, porque você é um filho da puta. Você não devia ter me deixado.” O contista segue tecendo as emoções particulares que ocorreram no passado entre os dois, sem recorrer a maniqueísmos, por meio dos acontecimentos que captam a situação existencial da mulher naquele momento de extrema fragilidade. Aí o testemunho daquelas vidas que se desencontraram no amor. Em evidência a verdade da vida, um vívido testemunho de um desencontro amoroso e suas consequências na imaginação criadora.  

Francisco de Morais Mendes, em suma, maneja a linguagem com uma competência tal, que a transforma em instrumento de potente verticalização sugestiva. Aplaina arestas, desbasta o acessório e acaba por impor aquilo que, a seu ver, é o núcleo e constitui a essência, o cerne do instante revelador. Os contos de “A bala dos desarmados”, positivamente, são de alto calibre, concebidos por um ficcionista de extrema habilidade, perante os quais cabe apenas a atitude do mais franco aplauso. São contos de mestre. 

 

Livro: “A bala dos desarmados”

Contos de Francisco de Morais Mendes

Editora Sinete – São Paulo/SP

2025

192 p.

ISBN 978-65-83126-19-1

 

Link para compra e pronto envio:  

https://www.sineteeditora.com.br/a-bala-dos-desarmados 

Instagram do autor: @franciscodemoraismendes 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

5 de out. de 2026

‘Tango feroz’ e as mentiras que contamos a nós mesmos

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

A recente publicação pela Editora Patuá do romance Tango Feroz, obra de estreia na literatura do escritor argentino Fabián Echegaray, apresenta de saída uma situação limite, embora muito comum atualmente:

 

E então ela me bloqueou. Não só me bloqueou no WhatsApp, como também no Instagram. Eu, impossibilitado de me comunicar; ela, inacessível. Eu, cancelado; ela, canceladora. Eu, interrompido; ela com a palavra final.

 Este o final melancólico da relação amorosa entre Puán e Lisa, iniciada em um site de namoros, e que durou alguns meses de turbilhão sensual. Fim do relacionamento físico e início de um processo mental obsessivo de autoengano alimentado pela rememoração dos acontecimentos que culminaram neste desfecho. Eis a espinha dorsal da narrativa de Echegaray. Entretanto, não se pense que essa engrenagem tenha como razão única o inconformismo pelo término ou o desejo premente de reatar com Lisa. O que verdadeiramente move aquele coração rechaçado era provar a si mesmo que o vivido não foi somente mais uma paixão de ocasião sem envolvimentos mais profundos. Segundo ele, houve mais, houve muito mais. E toca a procurar indícios e pistas do amor. Eis o paradoxo brutal: sexo ou amor? 

O autor, que possui sólida experiência profissional no campo da opinião pública e comportamento social e político, é um verdadeiro estudioso do comportamento humano. Urde sua narrativa com muita sensibilidade e observação crítica ao trazer o teatro das relações humanas para um cenário que atualmente forja comportamentos, incita desejos, acelera desmesuradamente sonhos de posse: a Internet. Outro ponto alto do livro é a história de vida de Lisa, como veremos, que pode também ser compreendida no campo do simbólico, como o percurso que o gênero feminino vem trilhando desde o século XX até aqui. 

Muito bem; amor repelido é amor multiplicado. Vejamos como funcionava na cabecinha autoiludida de Puán a obsessão por Lisa:

 

A saudade que eu sentia, assim como a enxurrada de outros sentimentos nostálgicos e reverenciais que eu nutria por ela, davam-me prazer e me transportavam para um diálogo tão místico quanto irreal com Lisa, no qual as nossas afeições se espelhavam até o infinito (p.16).

 Ocorre, todavia, que havia algo de muito errado quanto à reciprocidade afetiva.

 

A entronização do direito de não se comprometer coexistia curiosamente com alguma expressão isolada de ciúme possessivo por parte dela, como nas ocasiões que me cobrava para sair dos aplicativos de namoro. Por outro lado, ela exaltava um tipo de liberdade individual descompromissada, mais parecida com egoísmo mesmo, para soberanamente – e sem questionamentos – definir a qualquer momento a natureza ad hoc, flexível da nossa interação e da relação que ela comportava (p.13).

O tango, conhecido gênero musical argentino marcado por forte dramaticidade, melancolia, paixão e nostalgia, foi dançado ardorosamente pelo casal durante o tempo que durou a relação. A expressão “romântico-libidinal” que lemos em alguma parte do texto, sintetiza o clima que perpassa aquela relação doentia extremamente voltada para as tórridas relações sexuais relatadas na obra e que não impediram, afinal, os desentendimentos, as cobranças e as agressões verbais que culminaram na separação irremediável.

Mas, afinal, vejamos em brevíssimas palavras quem é essa mulher tão fascinante. Nascida em Araxá, interior de Minas Gerais, sempre foi rejeitada com violências e mal tratos pela própria mãe que a chamava de putinha, porque na adolescência era cobiçada pela rapaziada do clube onde praticava natação. Casaram-na aos 19 com um primo segundo bem de vida. Anos depois veio a separação. Conhece então um psicólogo “paz-e-amor” famoso, que aparentava promessas de vida excitante, pomposa – e quem sabe? Encontrar afinal o amor verdadeiro. Nada; outro fiasco, o que encontrou foram atitudes completamente irresponsáveis da tal celebridade. Drogas e internações do sujeito a torto e a direito. Desta relação resultou uma filha. Com mais essa separação passou a ser professora de inglês e estudante de Economia e acabou conhecendo um velho português riquíssimo e avarento que a humilhava e a filha de todas as maneiras. Novo desquite. Mãe e filha sozinhas no mundo, sem dinheiro ou emprego. Volta a se dedicar com afinco aos estudos, e termina passando em concurso da Receita Federal. No interior do Mato Grosso conhece um tal professor de história. Este aproveitador do salário de funcionária pública federal. Quinze anos de convivência e novo divórcio litigioso. Aí o percurso vivencial de Lisa. A mulher de meia-idade que Puán encontrou no site de namoro da Internet. De menina matuta do interior de Minas onde nasceu, à mulher financeiramente independente e dona de seu nariz. Entretanto, algo dentro dela irremediavelmente estilhaçara qualquer crença no amor. Restara-lhe o vivo entendimento de que necessitava de sexo como qualquer outra função física, completamente desvinculada do amor. Quantos de nós seguimos tal inclinação hoje e estamos deixando de lado a construção de verdadeiros vínculos emocionais, de afetos sinceros e de perspectivas de futuro em nossas relações? É a pergunta que não quer calar.

Todavia, aqui e ali, Puán demonstra lampejos de lucidez. Após uma conversa com o amigo Feldman, encontramos um deles.


Teria eu ficado obcecado por ela apenas para encobrir outra obsessão mais difícil de resolver ou lidar? O autoengano pode chegar a isso? Pode a fixação ser um truque não apenas de sensações ou de resultados, mas de objetivos, de quem em definitivo somos ou terminamos sendo? E na hora me vem à cabeça a imagem não de algum sofredor platônico ou de um amante rejeitado, mas das pessoas apaixonadas por avatares digitais. O que precisa ocorrer no mecanismo de percepção dessas pessoas para chegarem à semelhante distorção da realidade? A resposta está na própria pessoa, em algum desajuste ou falha individual, ou no clima de época que alimenta ou legitima o império da autoilusão, naturalizando impressões subjetivas como sendo superiores à realidade? (p.28).

Outro ponto alto da narrativa amplia a questão da autoilusão ao relacioná-la aos nossos dias. Vale a pena conferir: “A origem da autoilusão enganadora é... é... é o sistema!”, exclamou Feldman. E acrescentou:


Por acaso não estão as novas gerações acostumadas a pensar que é só desejar algo com intensidade que isso já garante seu direito ao desfrute, à conquista? Não se tornou natural supor que identificar uma situação ou um estado desejado seja suficiente para atribuir às pessoas a prerrogativa de acesso a essas aspirações – e até mesmo a de curtição delas? Não foram educados Millenials, Gen Z e até gerações anteriores no princípio de que seus sentimentos são a métrica mais relevante e − em última instância − mais válida para definir a realidade, mais do que os próprios fatos e as limitações impostas pela própria realidade? Não se generalizou a ideia de que não existem absolutos e que − em definitivo − tudo é relativo? (p. 30).

A epígrafe que abre o romance do senhor Fabián Echegaray é um alerta de consciência da autoria de Friedrich Nietzche: “A principal mentira é a que contamos a nós mesmos.” No que tange propriamente ao amor, a leitura do romance Tango Feroz não nega sua existência. Entretanto, faz eco, e mesmo amplia as contradições da alma humana, para direções insuspeitadas, sugerindo a verdade daquela outra advertência feita por Machado de Assis: “Sonharás uns amores de romance, quase impossíveis. Digo-lhe que faz mal, que é melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.”

 

Livro: “Tango feroz”
Romance de Fabián Echegaray
Editora Patuá – São Paulo / SP
2026
172 p.
ISBN 978-65-281-0547-2

 

Links para compra e pronto envio: Editora Patuá & @fabianechegaray_lit

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

22 de set. de 2026

Investimento não é gasto: o que os números dizem sobre a cultura de bairro

 

Por Luiz Gustavo 

É recorrente o discurso que investir em Cultura é inútil. Que artistas, principalmente os pequenos, não são trabalhadores; são preguiçosos, inúteis, desempregados, parasitas, esquerdistas, dentre outros adjetivos pejorativos. Mas será que é assim? Será que o investimento ou despesa, como dizem muitos liberais e conservadores, em Cultura é ruim? Afinal, o que dizem os dados? 

Nesse texto vamos explorar uma pequena, porém importantíssima, ponta desse discurso reiterado por setores ditos “produtivos” da sociedade. Não é nosso objetivo, nesse momento, debater politicamente se um artista defende um lado A ou B, ou se a Lei X ou Y são ruins. Vamos apontar, de uma maneira lúdica, o que dizem os dados e estudos acadêmicos sobre os mais diversos dados disponíveis para quem quiser consultar. 

Imagine uma tarde de sábado, em um bairro qualquer, com uma comunidade real, que luta pela vida. Calor, sol, baixa umidade do ar. As pessoas em casa, sem acesso a lazer público e gratuito, sem acesso ao conforto necessário que o clima exige. Crianças entediadas. Casal mal-humorado. Pais e mães brigando. Estranhos na rua consumindo produtos impróprios. Sensação de perigo, tédio, cansaço, desânimo. 

O cenário parece caótico. Existem outras formas de lazer, sabemos disso. Sabemos que as pessoas se organizam. Lutam. Trabalham. Divertem-se. Nosso objetivo aqui não é minimizar essa luta e trabalho. Nosso objetivo é outro. Nosso objetivo é mostrar que Cultura também gera Lucro, tanto social quanto financeiro. 

Para esse mesmo dia entediante um grupo de artistas locais, da comunidade local, conseguiu aprovar, via Lei Municipal, um pequeno sarau Cultural, com apresentações ao vivo de poesia, música e teatro na principal praça do bairro. Como Cultura é considerada “gasto” e não INVESTIMENTO, o edital que eles venceram disponibilizou acesso a escassos recursos. 

Chegando o dia do evento muitos locais não sabiam. O pouco dinheiro disponível não permitiu uma ampla divulgação. A comunidade estava alheia ao que estava acontecendo. Os próprios organizadores correram atrás, tirando dinheiro do bolso, procurando comerciantes do bairro, vendedores ambulantes, artistas locais e explicando o projeto. 

Tirando essa parte mais fictícia, vamos aos números. Com os recursos disponibilizados, a equipe conseguiu contratar algumas pessoas para montar som, montar palco, montar barracas e estandes de venda, iluminação, contratar bandas locais, chamar vendedores de livros, revistas, roupas, comida, bebida, itens de artesanato da comunidade, entre outras atividades. 

É justamente nessa escala que vale observar uma pergunta econômica simples: o que acontece com o dinheiro alocado ali? Quando se acompanha o caminho dos recursos, a resposta é menos abstrata do que parece. Cultura movimenta fornecedores, gera trabalho, atrai público e induz consumo no entorno. O recurso não termina no palco, no livro, na tela ou na oficina. Ele continua circulando. Mas qual o impacto real desse recurso? 

Para tentar responder a essa pergunta, é importante buscar respostas tanto na economia real quanto na academia.  No Brasil, um dos estudos mais detalhados sobre esse efeito foi produzido pela Fundação Getúlio Vargas para o Ministério da Cultura, que em 2018 estimou que cada R$ 1 captado e executado por projetos da Lei Rouanet movimentava R$ 1,59 na economia, considerando o impacto direto dos recursos incentivados e o impacto indireto sobre a cadeia de fornecedores. 

Já em janeiro de 2026 com dados de 2024, essa pesquisa foi refeita, ampliando a metodologia. Se a primeira pesquisa considerava basicamente os gastos da execução, nesta entraram no cálculo outras fontes de recursos dos projetos e os gastos do público. Ainda que as duas não sejam comparáveis entre si devido a metodologias diferentes, o resultado da segunda pesquisa foi um Índice de Alavancagem Econômica de R$ 7,59 movimentados para cada R$ 1 gasto na execução, ou seja, cada Real gasto PODE movimentar direta e indiretamente, em média, R$ 7,59 no evento e entornos. 

A pesquisa da FGV analisou projetos de 2024 que movimentaram cerca de R$ 25,7 bilhões e criaram algo em torno de 228 mil postos de trabalho diretos e indiretos. Foram identificados também cerca de 567 mil pagamentos, mais de 1.800 tipos de gastos e aproximadamente 81 mil fornecedores e prestadores de serviço. É importante lembrar que essa pesquisa focou apenas na Lei Rouanet. Estados e municípios apresentam legislações próprias, mas, mesmo assim, tais resultados ajudam a visualizar algo que o número agregado esconde: o dinheiro se distribui por uma rede extensa de atividades. 

Isso exige uma ressalva. Não podemos pegar o multiplicador nacional da Rouanet, que é uma média geral, e afirmar que um sarau de bairro produzirá exatamente R$ 7,59 para cada real recebido. O estudo não demonstra isso. O que pode ser transferido para a pequena escala é o mecanismo econômico que produz o efeito. 

Falar sobre a Lei Rouanet no Brasil é mexer em um vespeiro. Por isso é importante analisar estudos semelhantes em outras regiões do mundo. Como o papel desse texto não é ser acadêmico, então faremos um recorte mais simples analisando alguns aspectos dos EUA e Europa. 

Nos Estados Unidos, o Arts & Economic Prosperity 6, da Americans for the Arts, calculou que organizações artísticas e culturais sem fins lucrativos e seus públicos geraram US$ 151,7 bilhões em atividade econômica em 2022, sustentando 2,6 milhões de empregos e US$ 29,1 bilhões em receitas governamentais. O dado mais interessante para pequenos eventos está no público: o participante gastou, em média, US$ 38,46 além do ingresso. Visitantes vindos de fora do condado gastaram US$ 60,57, contra US$ 29,77 dos moradores locais. 

Na Europa, o estudo Rebuilding Europe, realizado pela EY para a GESAC, registrou em 2019 faturamento de € 643 bilhões nas indústrias culturais e criativas, valor equivalente a 4,4% do PIB da União Europeia segundo a metodologia do relatório, além de mais de 7,6 milhões de empregos. No Brasil, o Mapeamento da Indústria Criativa 2025, da Firjan, estimou a economia criativa em R$ 393,3 bilhões em 2023, ou 3,59% do PIB, com aproximadamente 1,26 milhão de profissionais formalmente empregados. 

Legal, são muitos números, mas muita coisa parece milagrosa. Afinal como investir RS 100 mil num bando de “fracassado” pode dar um retorno de até R$ 759 mil? Nenhum investimento “produtivo” chega sequer perto dessa cifra maravilhosa. 

Reimagine o sarau do início. A aprovação no Edital deu direito a um orçamento que irá pagar organizadores, autores, produtores, equipes de som, áudio, vídeo, aluguel de mesas, estandes etc. Quando da aprovação do edital, é necessário já ter muitos itens definidos, pois estamos trabalhando com recursos públicos, os quais precisam ser detalhados. Parte desses fornecedores compra insumos de outras empresas e remunera seus trabalhadores. Depois vem o público, que pode consumir numa padaria, restaurante, estacionamento, comércio próximo e adquirir livros, artesanatos, poesias, fotografias, entre outros itens e serviços que podem ser disponibilizados durante o evento. 

É daí que surgem os efeitos diretos, indiretos e induzidos. Não há mágica contábil: há uma cadeia. Quanto maior a capacidade de contratar localmente e atrair gastos adicionais sem apenas deslocar consumo de um estabelecimento para outro, maior tende a ser a retenção do recurso naquele território. 

Eventos recorrentes acrescentam outra camada. Uma oficina de quadrinhos pode formar um ilustrador; um cineclube pode criar demanda para técnicos e produtores; um pequeno festival pode consolidar fornecedores locais. Cultura também ajuda a formar mão de obra, redes profissionais e ambientes em que novos projetos se tornam viáveis. 

Além do óbvio movimento financeiro, eventos culturais consolidados podem apresentar efeitos sociais que exigem cuidado na interpretação. Dados do Departamento de Justiça dos Estados Unidos mostram que, em dias letivos, a violência juvenil apresenta concentração relevante no período logo após as aulas. Isso ajuda a explicar o interesse em programas estruturados de contraturno. 

Uma avaliação conduzida pela UCLA/CRESST sobre o LA's BEST, programa de Los Angeles, acompanhou dados de milhares de estudantes ao longo de oito anos. Os resultados indicaram menor incidência de crime juvenil entre participantes com maior engajamento, e a análise de custo-benefício estimou economia social de aproximadamente US$ 2,50 em custos relacionados ao crime para cada dólar investido. 

Outro levantamento em doze comunidades de alto risco da Califórnia encontrou, entre participantes de programas de contraturno, reduções expressivas em vandalismo, furtos, atos violentos e contatos com a polícia. Mas aqui também cabe precisão: esses programas combinavam supervisão, educação, recreação, esporte e atividades culturais. Não é correto atribuir sozinho à cultura todo o efeito observado. 

No Brasil, o Instituto Sou da Paz desenvolveu na Brasilândia, em São Paulo, o projeto Paz em Atitude, com oficinas culturais em escolas públicas voltadas à discussão crítica da violência. Avaliações do Ipea sobre o programa Cultura Viva também mostram a forte presença de jovens nos Pontos de Cultura. A evidência brasileira é mais consistente para vínculo comunitário, participação e protagonismo juvenil do que para afirmar uma redução percentual específica da criminalidade causada exclusivamente por atividades culturais. 

Nosso objetivo com esse texto é provocar uma necessária discussão na sociedade sobre a importância de investimento em eventos culturais. Sabemos que o sarau da praça provavelmente nunca será um estudo de caso da FGV. Nem precisa ser. O argumento econômico não depende de fingir que todo pequeno evento terá o mesmo multiplicador de uma média nacional. Basta observar o percurso do dinheiro: ele paga gente, aciona negócios, cria competências, atrai público e pode fortalecer vínculos locais. Nessa perspectiva, cultura deixa de ser apenas uma linha de despesa e passa a ser analisada pelo que também é: investimento com efeitos econômicos e sociais mensuráveis.


Referências

AMERICANS FOR THE ARTS. Arts & Economic Prosperity 6: the economic & social impact study of nonprofit arts & culture organizations & their audiences. Washington, DC: Americans for the Arts, 2023. Disponível em: Arts & Economic Prosperity 6 – Americans for the Arts. Acesso em: 4 set. 2026.

BARBOSA, Frederico; ARAÚJO, Herton Ellery (org.). Cultura Viva: avaliação do Programa Arte, Educação e Cidadania. Brasília, DF: Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada, 2010. 148 p. Disponível em: Cultura Viva: avaliação do Programa Arte, Educação e Cidadania. Acesso em: 4 set. 2026.

EY. Rebuilding Europe: the cultural and creative economy before and after the COVID-19 crisis. [S. l.]: GESAC, 2021. Disponível em: Rebuilding Europe – estudo EY/GESAC. Acesso em: 4 set. 2026.

FIGHT CRIME: INVEST IN KIDS CALIFORNIA. After-school programs can prevent crime. California: Fight Crime: Invest in Kids, 2015. Disponível em: After-School Programs Can Prevent Crime. Acesso em: 4 set. 2026.

FIGHT CRIME: INVEST IN KIDS CALIFORNIA. California's after-school choice: juvenile crime or safe learning time. Oakland, CA: Fight Crime: Invest in Kids California, 2001. 64 p. Disponível em: California's After-School Choice – Office of Justice Programs. Acesso em: 4 set. 2026.

FIRJAN – FEDERAÇÃO DAS INDÚSTRIAS DO ESTADO DO RIO DE JANEIRO. Mapeamento da Indústria Criativa 2025. Rio de Janeiro: Firjan, 2025. Disponível em: Mapeamento da Indústria Criativa 2025. Acesso em: 4 set. 2026.

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS; BRASIL. Ministério da Cultura. Impactos econômicos da Lei Rouanet. Rio de Janeiro: FGV, 2018. Disponível em versão originalmente publicada pelo Ministério da Cultura. Acesso em: 4 set. 2026.

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS; BRASIL. Ministério da Cultura; ORGANIZAÇÃO DE ESTADOS IBERO-AMERICANOS. Lei Rouanet: uma força estratégica para o desenvolvimento do Brasil. Rio de Janeiro: FGV, 2026. Disponível em: Relatório integral – Lei Rouanet: uma força estratégica para o desenvolvimento do Brasil. Acesso em: 4 set. 2026.

GOLDSCHMIDT, Pete; HUANG, Denise; CHINEN, Marjorie. The long-term effects of after-school programming on educational adjustment and juvenile crime: a study of the LA's BEST after-school program. Los Angeles: National Center for Research on Evaluation, Standards, and Student Testing, University of California, Los Angeles, 2007. Relatório final apresentado ao National Institute of Justice, U.S. Department of Justice, Award n. 2004-SI-FX-0032. Disponível em: Relatório LA's BEST. Acesso em: 4 set. 2026.

INSTITUTO SOU DA PAZ. Paz em Atitude. São Paulo: Instituto Sou da Paz, [2013?]. Disponível em: Paz em Atitude – Instituto Sou da Paz. Acesso em: 4 set. 2026.

SICKMUND, Melissa et al. Violence after school. Washington, DC: Office of Juvenile Justice and Delinquency Prevention, U.S. Department of Justice, nov. 1999. Disponível em: Violence After School – OJJDP. Acesso em: 4 set. 2026. 

 

Luiz Gustavo é contador, mestre em Administração e atua há mais de 17 anos no setor financeiro. Possui experiência em gestão, análise de custos, prestação de contas e acompanhamento financeiro de projetos, com interesse especial na área cultural e nos mecanismos de financiamento, incentivo e sustentabilidade de iniciativas artísticas. 

Nos últimos anos, passou a se dedicar ao estudo e à atuação em projetos culturais, aproximando a visão contábil e econômica da realidade de produtores, coletivos e iniciativas locais. Seus textos buscam discutir cultura a partir de dados, viabilidade econômica e impacto social, em linguagem acessível e sem perder de vista a realidade de quem transforma ideias em projetos.

16 de set. de 2026

Bastidores da escrita: bate-papo com Rogers Silva


Neste episódio, Andréa Brandão recebe o escritor e colunista desta revista Rogers Silva, nascido e residente em Uberlândia-MG, para uma conversa sobre literatura, criação artística e seus projetos que transitam entre os livros e os filmes. 

Rogers Silva publicou contos, crônicas e artigos de opinião em sites, revistas, jornais e coletâneas. Em 2012, lançou Manicômio (contos e novelas), sua primeira obra literária, que está em 2ª edição em formato e-book. É também cofundador e colunista da Revista O Bule, espaço dedicado à literatura, ao cinema, às artes. No final de 2025, Rogers lançou seu segundo livro de contos, Ensaios sobre a total libertação (Editora Folheando) e seu primeiro curta-metragem, Estátuas sobre túmulos. Para 2026, pretende lançar seu segundo curta-metragem, Hoje eu pensei em você. 

Uma conversa para quem gosta de literatura, cinema e, principalmente, de conhecer os bastidores de quem transforma ideias em arte!

Assista no Youtube.

9 de set. de 2026

Quando termina uma história de amor? Na hora da despedida ou somente quando cicatrizam as feridas?

 

É o apaixonamento uma forma de autoengano?

Após ser bloqueado por Lisa, uma mulher magnética e inalcançável com quem viveu uma relação intensa, Puán mergulha em uma espiral de desejo, ressentimento e autoengano. Incapaz de aceitar o fim, ele revisita obsessivamente cada encontro, cada contradição e cada gesto ambíguo da amante, tentando provar a si mesmo que aquilo que viveu foi mais do que uma paixão unilateral.

Entre conversas com amigos, sessões de terapia, lembranças eróticas, viagens, aplicativos de namoro e anúncios algorítmicos que parecem ler sua dor, o narrador transforma a perda em investigação íntima. Aos poucos, a história de Lisa também emerge: sua infância marcada pela rejeição, seus casamentos, suas fugas, seus excessos e sua busca permanente por desejo, elegância e validação.

Com humor ácido, linguagem provocadora e forte carga psicológica, o romance Tango Feroz explora os limites entre amor e obsessão, realidade e fantasia, vínculo e projeção. No centro da narrativa está a pergunta que o protagonista tenta evitar: até que ponto amamos o outro — e até que ponto apenas nos apaixonamos pela mentira que contamos a nós mesmos? 

Publicada pela Editora Patuá, essa é a primeira obra de ficção de Fabián Echegaray.


Adquira o livro AQUI.

 

Fabián Echegaray foi professor da UFSC em Florianópolis, Universidad de Buenos Aires (Argentina) e Trinity College (EUA) e é autor de numerosos artigos científicos e livros acadêmicos no campo da opinião pública, comportamento social e político e sustentabilidade. É doutor em Ciências Políticas pela University of Connecticut (EUA), foi consultor do PNUD das Nações Unidas, presidente da WAPOR Latinoamérica (World Association for Public Opinion Research) e palestrante frequente dentro e fora do Brasil sobre temas de comportamento político, sustentabilidade e consumo consciente.  

Mais detalhes sobre a obra e o autor, aqui: https://www.instagram.com/fabianechegaray_lit/

8 de set. de 2026

É possível criar com IA sem perder a própria voz?

 

Por Andréa Brandão 

Transformar textos em outras formas de arte e utilizar a inteligência artificial como ferramenta criativa exige cuidado para que não se perca a própria voz, o estilo, a sensibilidade e a essência. 

Eu mesma já vivenciei esse processo. Testei diferentes ferramentas, explorei possibilidades, descartei aquelas que não atendiam às minhas expectativas, aprovei e reprovei resultados. Essa fase de experimentação me mostrou que, para que uma obra seja verdadeiramente concluída, ela precisa carregar a identidade de quem a cria. 

É o autor — ou a autora — quem detém a mensagem. É quem conhece sua essência, suas experiências e aquilo que deseja transmitir. O formato, o estilo e a entonação precisam dialogar com essa intenção. Quando não há esse cuidado, o resultado pode se tornar frio, linear e distante daquilo que a obra pretende comunicar. É diferente quando existe uma identidade humana conduzindo o processo. 

Falar sobre a dor, por exemplo, envolve muito mais do que organizar palavras. Como uma inteligência artificial poderia compreender plenamente a saudade, se até mesmo algumas línguas não possuem tradução exata para determinados sentimentos? Como poderia entender a dor de perder um filho, se nem sequer existe um nome específico para definir essa ausência? Há sentimentos humanos complexos, como a experiência de se conectar com o Criador e a própria fé — algo que não se vê, mas se sente. 

Quando se escreve, há uma tradução de sentimentos em palavras, versos e histórias. Essa transformação acontece por meio da combinação de significados, imagens e metáforas. São instrumentos que só ganham verdadeiro sentido quando pensados, sentidos e, principalmente, vividos. 

Essa é uma diferença que dificilmente permitirá que a inteligência artificial se iguale à inteligência emocional e humana. A ferramenta pode contribuir, ampliar possibilidades e materializar ideias, mas não substitui aquilo que nasce da experiência, da sensibilidade e da essência de quem cria. 

Por isso, entendo que a inteligência artificial deve estar a serviço do criador, e não o contrário. É o autor ou a autora quem conduz, define, direciona, escolhe, ajusta e decide o que permanece ou não na obra. 

O uso dessas ferramentas precisa acontecer com responsabilidade, respeito e, acima de tudo, amor. É o amor que traz equilíbrio e mantém a humanidade presente no processo criativo. 

A evolução é necessária e faz parte do mundo. As novas tecnologias podem — e devem — ser utilizadas a favor da criatividade, permitindo que ideias alcancem mais pessoas, atravessem fronteiras e encontrem novos formatos de expressão. 

A arte não tem limites, mas tem formas. Tem sentido. E, sim, tem sentimentos. A voz vem de dentro dos seres humanos, e não de fora. Quando se acredita nessa máxima, deixa-se de enxergar as novas soluções como ameaças e passa-se a reconhecê-las como aliadas para chegar mais longe e cumprir missões por meio da arte e da criatividade. 

Cada pessoa deve ter liberdade para escolher e decidir por si mesma, sem julgamentos ou discriminação, sempre com tolerância e respeito — valores que, diante do cenário atual, parecem um pouco perdidos, mas continuam sendo fundamentais para que tecnologia e humanidade caminhem lado a lado. 

 

Este texto é a manifestação da opinião da autora, mas não de todos os integrantes da Revista O Bule. 

 

Andréa Brandão é contadora por formação e escritora por vocação. Atua na literatura desde 2009. Possui dez livros publicados e diversas participações em antologias, com reconhecimentos nacionais e internacionais. Suas obras estão disponíveis na Amazon e em edições impressas, além de presença nas plataformas digitais como Andréa Brandão Escritora. 

Participou das Bienais do Livro de São Paulo (2009 e 2018) e prepara os lançamentos Versos que Cantam, Pérolas Europeias e Guto Gino e Tixa para a Bienal 2026. Também desenvolve projetos musicais, incluindo Vem Dançar, e é idealizadora dos projetos Cultura para Todos e do Podcast Bate-Papo Cultural, voltados à promoção da arte e da criatividade.

7 de set. de 2026

Um pequeno problema para Freud

 

Por Milton Rezende

 

Nunca pude explicar

o fato de ficar horas a fio

à porta de uma lanchonete

observando uma moreninha

que trabalha numa loja em frente.

Ela nunca percebeu nada,

e se percebesse, acho que eu

deixaria meu observatório.


Do livro Um Andarilho Dentro de Casa.


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog.

 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

2 de set. de 2026

Uma corrida pela tormenta do contemporâneo

 

O livro acompanha, em primeira pessoa, um dia de corridas de um motorista de aplicativo, lidando com os conflitos e crises que surgem em sua própria vida, enquanto tenta não se deixar tomar pelos conflitos trazidos continuamente pelos passageiros. Uma corrida pela tormenta do contemporâneo, através da cidade e do trânsito, contra as expectativas, e apesar dos homens. 

 

Informações a compra da obra:

https://www.oterroristadoces.com.br

  

Booktrailer do livro 

 

V. Tavares nasceu em 1986. Desde cedo entusiasmou-se pela contação de histórias de seus pais e, mais tarde, pela literatura por meio dos seus mestres da escola pública, em cujas bibliotecas sempre passava mais tempo do que era permitido. Publica agora este seu primeiro romance. O autor ainda não morreu.

1 de set. de 2026

Escrever também é libertação

 

Você tem uma história ou uma ideia guardada e quer dar o primeiro passo para colocá-la no papel? 

Participe da nossa Live Especial: Como Escrever o Seu Primeiro Livro, um bate-papo imperdível sobre ideias, coragem, prática de escrita e apresentação da obra Ensaios sobre a Total Libertação (Editora Folheando), de Rogers Silva. 

O que vai rolar no encontro:

 

  • Como transformar ideias em um livro;
  • Processo de escrita na prática;
  • Dicas essenciais para começar (e terminar!) seu projeto;
  • Bastidores do trabalho de um escritor;
  • Apresentação oficial do livro com o autor. 

Convidados:

  • Lorraine Crozara (@lorrainecrozara)
  • Rogers Silva (@revistaobule)

📅 Data: 02/09 (Quarta-feira) 

⏰ Horário: 19h00 

📍 Onde: Ao vivo no Instagram (@lorrainecrozara e @revistaobule)


Coloque na sua agenda, prepare suas perguntas e venha fazer parte dessa conversa! 📚✍️