Iluminações
Aos “sentinelas de espíritos e estradas” (A. dos Anjos)
Move-se a língua úmida da vida em sussurro e lume
mas não há ouvido humano capaz de ouvir
o destino
Iluminações queimam a retina
enquanto os inaudíveis hálitos pesados
continuam a falar
na língua feérica das serpentes
— por trás dos meus olhos há desenhos incompreensíveis
à língua dos homens
Ribomba trovoada quando a sua palma
toca a minha
nossos pactos milicentesimais funcionam
no silêncio.
Se te chamo “pai” – como me pede –
é porque já existem galhos iluminados
atrás dos meus olhos
relâmpagos na escuridão do corpo.
Cinco falanges que se encontram e
dez anos se passam voando
como que contados nos dedos de duas
mãos
Um flash de luz e agora seu céu é azul.
Com a mão direita,
eu fecho seus olhos,
meio verdes, meio azuis.
Agora,
para sempre.
Só há tatuagens quando o fogo se esvai.
O olho esquerdo é obediente.
Ficou o olho direito, então, aberto.
Azul-esverdeado.
Fulminante.
Ficou assim, meio a meio.
Yin e yang estáticos como um último
símbolo do nosso pacto.
Nós dois
meio desconfiados da vida
meio desconfiados da morte
na dualidade típica de
quem anda pelo vale da sombra da morte
[e não teme.
Quem pisa na escuridão não tem
delicadeza na língua
sabe que tempo é relâmpago
corta as finezas
as palavras são trovões
Mas repara nos seus galhos de luz:
são traços finos, delicadamente
desenhados
com a mão direita de Deus.
“continue sendo como você é”
foi a última mensagem
foi a primeira mensagem
E se apagou.
De alma
Pode ser cedo para o amanhã
mas os pássaros já sobrevoam a cabeça
dos mansos
herdeiros da Terra
levantam os olhos ao firmamento
a palavra do destino vem de outros céus
ainda como uma asa.
Fecho meus olhos para ver melhor:
a felicidade é branca
inscreve-se em sal e água
nos pequeninos mundos que exalam
de nossos corpos nus
sempre nus
São milhões de pequenas águas-vivas
bioluminescentes
cintilando através desse espelho de
voal
um portal
para os francos desertos
que beberam da boca seca
das mulheres, esse oceano
É uma leitura “almática” - você diz
no seu próprio latim
buscando as palavras que nunca ouvira
como soldado de guerra
um códice para além das armas
para além das almas -
anímica.
Perto do mar
quando envoltos em névoa turva
nos encontramos
corrias como um Nostradamus menino
os pés livres, avançando sobre a areia
reluzente
ainda inocente de todos os vaticínios
Lembro-me da cicatriz da montanha,
onde nos encontramos nas escadarias
era noite
e ali demos novamente as mãos
para amarmos as línguas antigas
que atravessam séculos e pousam
sobre a pele de indigentes, em
tatuagens vulgares
– a vida ali era âmbar.
Mas todas as vidas engendram-se
nos cachos dos teus cabelos
nessas voltas negras que revivem
as estrelas extintas de outros
universos
Agora que não é mais menino e já sabe
demais
seu olhar bruscamente se ilumina:
são eles também
milhões de pequenas águas-vivas
lascivas, nesse santuário abissal
esse portal, de fúria e calmaria.
Também meus olhos
incompreensíveis aos humanos
fixos no céu
fitam um pássaro negro
rasga o horizonte com a delicadeza de
uma pena
o amor.
Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.
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