6 de mar. de 2026

Dois poemas de Allyne Fiorentino

 



Iluminações 

Aos “sentinelas de espíritos e estradas” (A. dos Anjos) 

Move-se a língua úmida da vida em sussurro e lume

mas não há ouvido humano capaz de ouvir

 o destino

 

Iluminações queimam a retina

enquanto os inaudíveis hálitos pesados continuam a falar

na língua feérica das serpentes

— por trás dos meus olhos há desenhos incompreensíveis 

à língua dos homens

 

Ribomba trovoada quando a sua palma toca a minha

nossos pactos milicentesimais funcionam no silêncio.


Se te chamo “pai” – como me pede –

é porque já existem galhos iluminados atrás dos meus olhos

relâmpagos na escuridão do corpo.

 

Cinco falanges que se encontram e

dez anos se passam voando

como que contados nos dedos de duas mãos


Um flash de luz e agora seu céu é azul.

 

Com a mão direita,

eu fecho seus olhos,

meio verdes, meio azuis.

Agora,

para sempre.

 

Só há tatuagens quando o fogo se esvai.

 

O olho esquerdo é obediente.

Ficou o olho direito, então, aberto.

Azul-esverdeado.

Fulminante.

Ficou assim, meio a meio.

Yin e yang estáticos como um último símbolo do nosso pacto.

 

Nós dois

meio desconfiados da vida

meio desconfiados da morte

na dualidade típica de

quem anda pelo vale da sombra da morte

[e não teme.

 

Quem pisa na escuridão não tem delicadeza na língua

sabe que tempo é relâmpago

corta as finezas

as palavras são trovões

Mas repara nos seus galhos de luz:

são traços finos, delicadamente desenhados

com a mão direita de Deus.

 

“continue sendo como você é”

foi a última mensagem

foi a primeira mensagem 

 

E se apagou.

 

 

De alma

 

Pode ser cedo para o amanhã

mas os pássaros já sobrevoam a cabeça dos mansos

herdeiros da Terra

levantam os olhos ao firmamento

 

a palavra do destino vem de outros céus

ainda como uma asa.

 

Fecho meus olhos para ver melhor:

a felicidade é branca

 

inscreve-se em sal e água

nos pequeninos mundos que exalam

de nossos corpos nus

 

sempre nus

 

São milhões de pequenas águas-vivas

bioluminescentes

cintilando através desse espelho de voal

 

um portal

para os francos desertos

que beberam da boca seca

das mulheres, esse oceano

É uma leitura “almática” - você diz

no seu próprio latim

buscando as palavras que nunca ouvira

como soldado de guerra

 

um códice para além das armas

para além das almas -

anímica.

 

Perto do mar

quando envoltos em névoa turva

nos encontramos

corrias como um Nostradamus menino

os pés livres, avançando sobre a areia reluzente

ainda inocente de todos os vaticínios

 

Lembro-me da cicatriz da montanha,

onde nos encontramos nas escadarias

era noite

e ali demos novamente as mãos

para amarmos as línguas antigas

que atravessam séculos e pousam

sobre a pele de indigentes, em tatuagens vulgares

– a vida ali era âmbar.

 

Mas todas as vidas engendram-se

nos cachos dos teus cabelos

nessas voltas negras que revivem

as estrelas extintas de outros universos

 

Agora que não é mais menino e já sabe demais

seu olhar bruscamente se ilumina:

são eles também

milhões de pequenas águas-vivas

lascivas, nesse santuário abissal

esse portal, de fúria e calmaria.

 

Também meus olhos

incompreensíveis aos humanos

fixos no céu

fitam um pássaro negro

rasga o horizonte com a delicadeza de uma pena

                                                                          o amor.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.