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26 de ago. de 2026

'Nesse corpo de água doce' nada é doce

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Colofão é uma nota ou inscrição final na última página de um livro. Geralmente traz dados técnicos e de produção da obra, ou pode ser também espécie de resumo ou síntese, que serve para dar contexto ou mostrar a inspiração do autor. Em Nesse corpo de água doce (Editora Patuá, poemas), livro de estreia na literatura da escritora e professora mineira Priscila Faria, o leitor lerá na última página da obra: “Este livro foi escrito no decorrer de muitas águas – minhas ou de tantas outras mulheres. Inundou e lavou muita coisa aqui. Que possa seguir frutífero nos corpos todos que o receberem.”

O leitor, então, que se deleitou ou ficou com o travo amargo na garganta pelo que o sofrimento humano pode nos causar, após a leitura das 111 páginas precedentes, sente uma verdadeira catarse existencial provocada pelos poemas que leu antes de virar a última página. Aí temos "de trás pra frente" na ordem inversa da normal (do fim para o começo), o que melhor se pode sentir da poesia da autora. Eis os frutos que este livro produziu, regadas que foram suas árvores/poemas com as águas da dor e do sofrimento humano transfiguradas em profundas forças de conscientização e transformação, que tiveram o poder de quebrar velhas certezas, revelar limites reais e forçar o ser a buscar novos caminhos de consciência e liberdade. 

Em texto de orelhas, a escritora Maria Fernanda Elias Maglio afirma com muito acerto: 

“Nas poesias de Nesse corpo de água doce, livro de estreia de Priscila Faria, estão as mulheres e suas profusões de água: rio, leite, chuva, sangue, cachoeira, lágrima, líquido amniótico. Todas elas embarcadas em um naufrágio cansado, progressivo, contínuo. Uma morte lenta e insistente: sim, estamos vivas – gestando e parindo – mas podemos morrer, eles podem nos matar. Com efeito, estamos diante de um mosaico composto de poemas: imagéticos, reflexivos, profundos ‘que atravessam a experiência de ser mulher, a resiliência e a violência de gênero por meio de fortes imagens ligadas à água’”. 

Os textos reunidos contam toda uma história de vida essencialmente difícil para o gênero feminino, difícil por condições impostas que prevaleciam e ainda prevalecem nas relações de poder e domínio dos homens sobre as mulheres – a tal sociedade patriarcal. O que nos recorda as definições comuns impostas pela sociedade patriarcal como as de que mulheres são frágeis ou que nasceram para cuidar dos filhos e da casa, enfatizando a estigmatização da feminilidade e corroborando não apenas as condições sociais, mas também, e de várias maneiras, constituindo uma problemática enraizada culturalmente. 

Observe-se algumas estrofes do poema constante da página 13:

 

nasceu numa cidade do interior / a mãe e o pai / de outros interiores mais interiores ainda / foram parar nessa cidade em que nasceu / e não teria feito diferença alguma se não fosse essa / nasceu mulher / nem mais nem menos que nenhuma outra / a mãe que também nasceu mulher / a criou como foi criada / o pai que nasceu homem / a criou como a mãe foi criada / criadas, ela e a mãe / assim como quase toda pessoa / que chega nesse mundo com uma vagina” ... “nasceu e logo recebeu o título / de difícil / nasceu rasgando tudo / nasceu sem querer nascer / nasceu sem querer servir / nasceu sabendo o quanto ia morrer”...  “e morreu muitas vezes / chorava e se escondia com uma frequência / que ninguém entendia / criada como toda pessoa com vagina / não podia reclamar não podia gritar / toda vez que tentava era lembrada do que era / difícil / então se continha / cresceu calada. 

A menina nascida no sul de Minas, no município de Varginha, viveu o que as mulheres sempre vivem, sobretudo em sociedades ainda com forte ranço colonial onde a religião atua como poderoso mecanismo de controle social a padronizar valores “morais”.

 

a catequista dizia todas as quintas / a família é sagrada / na missa aos domingos também / então acreditava / até o padre tinha uma / na escola ninguém queria ser filho / de uma SE-PA-RA-DA / em casa a mãe suportava tudo / pela sagrada família / então ela também / se calava (p. 20). 

Também não escapou de assédios em um tempo no qual nem se dera conta ainda de que existia sexo. 

 

Todo dia a menina atravessa duas ruas para buscar pão moleton enorme, calças e chinelo para atravessar e trazer / o pão e a incompreensão / de por que aqueles homens ainda falam / aquelas coisas / de por que o pão tem que ser / tão amargo (p. 25). 

E acaba chegando a tristes conclusões do que é ser mulher numa sociedade estruturada pelo patriarcado. Um mero objeto.

 

a falha de ser mulher nesse mundo / de homens / e de ser traumatizada nesse mundo / por homens / a gente que resolva / entre nós // mulher dá / muito trabalho. (p. 24). 

Até que o impensável aconteceu. A menina foi crescendo e entendeu de pensar, estudou e continuou  pensando, sofreu e continuou  pensando,  sofrendo, pensou mais ainda, até que sortilégios da vida transformaram seu coração numa “lona de circo/fincada na tempestade” e ela afinal se assume como:

 

o bicho que fui / equilibrista do silêncio / agradava monstros / o bicho que sou / renasceu ontem / dessa vez chegou berrando (p. 16). 

Os poemas de Nesse corpo de água doce são desabafos libertadores em sua estrutura formal. Não possuem títulos, e seus versos curtos e cortantes apresentam amplas inquirições existenciais que transbordam de um metabolismo psicológico a assumir caráter coletivo.  Via de regra, impregnam o leitor de insuspeitadas epifanias, ou seja, momentos de clareza repentina ou insights profundos, de súbita revelação ou iluminação interior que ocorre quando uma verdade profunda sobre si, sobre o mundo, ou sobre a própria arte, surge a partir de uma constatação ainda não pensada. Isto pode trazer uma sensação de desestabilização, mas muda a visão que a poeta tem do fazer literário. Instantes carregados de significados simbólicos, emocionais e sexuais que convidam o leitor a refletir sobre temas universais de maneira mais profunda. 

No poema abaixo a palavra é repensada como ponte viva entre pensamento e sentimento. Aquilo que dá forma ao mundo, revela a alma, constrói as culturas. Mais do que um sinal na fala ou na escrita, a palavra guarda a essência da experiência humana e o emprego significativo dos recursos linguísticos. Só através de um trabalho artesanal com o vocábulo (desprendendo as amarras fonéticas, sintáticas e semânticas do português formal) é possível apreender a palavra potencializada:

 

eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos / que veja a beleza desfocada / quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia / que abrace a menina, penetre a mulher / quero a palavra perfurante / na garganta / a palavra que treme e vibra e contrai / a palavra da água da morte do medo do fim / eu quero a palavra engasgada / sem fôlego, sem batimentos, sem culpa / quero a palavra mapa, procura e dedos / a palavra sem ida e sem volta / que se contradiga / a palavra descrente da verdade do agora / eu quero uma palavra que é tudo / e que não sabe de nada / quero a palavra que reinvente a vida / materialidade fina e transcendente / do meu gozo, num único verbete / uma fogueira, um altar, a porta / do céu ou do inferno / eu quero a palavra muda / a palavra que desnude a poesia / eu quero o milagre do verso / porque meu sexo não sabe ser escrito (p. 103). 

Há na obra também poemas que produzem verdadeira catarse no leitor, promovendo reflexões de intensas impressões sobre o estado atual do mundo que positivamente ativa emoções acumuladas, permitindo sua liberação através da identificação, da empatia e da elaboração simbólica, que a todos atinge, sobremodo ao ser feminino, e que produz novas compreensões sobre si e os outros. A catarse fornece iluminações e aprendizados sobre nós mesmos, é a purificação ou a liberação intensa de emoções, sobretudo a de tristeza, que o leitor sente ao ler o que vamos fazendo de nosso mundo social. Aquilo que em nosso tempo está reprimido ou acumulado, seja em termos psicológicos, emocionais e/ou de superação de medos e traumas.

 

tempo em que as seguranças não existem / que as palavras se perdem em rolos infinitos / tempo em que as grandes salas só discursam / sobre moedas deuses pastos lucros / tantos pseudo-intelectuais influenciadores digitais // tempo de bruscas e inesperadas rupturas / tempo da não-verdade, da falta de respostas / tempo de cada um cuidar de si / uma vez por semana por uma hora / tempo da total autonomia, da liberdade / tempo da humana-mercadoria / da nossa imensa fragilidade // tempo em que crianças pesam mais que o mundo / tempo em que uma barriga exige tempo demais / tempo em que mães só são sagradas nos andores / e que filhos mortos não comovem mais // tempo em que não se pode mais dormir / porque às três da madrugada homens pisam em nossos sonhos // em vão lutamos, milênios de espera / mas os dias seguem dias de reis (p. 57). 

Interessante observar, neste poema ainda, que o fio condutor tecido costura uma tessitura até o cruzamento final do profano com sagrado. Com a supremacia do divino, que acontece no verso do instante final iluminado, de revelação representado pela menção a “dias de reis” que como sabemos, representa a manifestação de Jesus Cristo como o Salvador da humanidade, pela fé em uma luz divina que orienta a humanidade, e o esforço sincero daqueles que buscam a verdade. 

Assim os sofrimentos da vida são transfigurados pela autora em vivências (dela mesma e de tantas outras mulheres anônimas), que por sua vez geraram consequências de profunda maturidade existencial e que, afinal, colidem em versos com a sensibilidade do leitor. De forma pungente, profundamente comovente. O que se pode dizer da morte de um filho? Quando se perde um filho ainda bebê, não existe palavra. Todavia, Priscila dá o seu testemunho sobre o parto, a perda e o luto, dentro de uma perspectiva da mulher que se reergue, se fortalece e recomeça. Observe-se na última estrofe a metáfora da chuva que serve para algo que lava, que banha, faz passar e, até mesmo, purifica. Metáfora esta que também serve para o tempo, o qual amaina tudo, abranda o pranto e faz tudo passar, mas deixa em nós a essência do amor. Aquilo que verdadeiramente importa.

 

Que consigas sentir no menor gesto toda a imensidão do que sinto / e percebas o quanto me salvaste / pois mesmo nos meus dias de maior desespero / era o teu corpo dentro do meu que me lembrava de / voltar à vida / e ainda que me consumissem todos os dias / a angústia e o medo da despedida / era imaginar esse nosso encontro que toda força / dentro de mim brotava

 

Tu foste a minha maior ferida e a minha maior esperança / nada mais neste mundo me deu tal sorte / de descobrir o poder da natureza em mim / em suas profundas catástrofes e em seus sutis recomeços / em toda fúria, em cada perdão, em todo milagre / da criação / nós fomos deus um do outro

 

Perdoa-me pelo meu cansaço, pelo sangue acelerado / e pela covardia tantas vezes em mim habitada / recebas a humanidade do meu amor / embrulhada em minha fraqueza / e tenhas a certeza da verdade que és para mim / verdade que só a dor desse nosso nascimento pode dar

 

Quando os dias voltarem a ser dias e a chuva voltar a ser só chuva / tu serás o eterno arco-íris da minha memória (p. 67). 

Priscila Faria declarou em entrevista recente à Revista Mana: “Depois, quando fui reunir esses textos, percebi o quanto estavam dispersos. Foi um processo de organização difícil, quase caótico, mas também parte do que esse livro é” (...) “Quando finalmente fiz esse mergulho, foi muito intenso. Um processo quase catártico, de revisitar tudo isso e dar forma ao livro. E foi curioso perceber o quanto eu tinha escrito. Acho que ainda daria facilmente mais dois ou três livros.” 

Muito bem. Aguardamos com vivo interesse novas produções dessa autora que fere a tecla poética certa e necessária neste nosso mundo ainda em dificultoso percurso de emancipação do humano. Cabe aqui, e finalmente, o nosso mais caloroso aplauso.

 

Nesse corpo de água doce
Priscila Faria
Editora Patuá – São Paulo / SP
2026
112p.
ISBN 978-65-281-0380-5

 

Links para compra: 

Editora Patuá

Amazon 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

9 de mar. de 2026

Sobre ‘Todos os cantos de Eros’, de Anna Kroiss

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

A leitura de “Todos os cantos de Eros” (contos), livro de estreia da escritora paulista Anna Kroiss, nos faz lembrar, em boa medida, de uma citação do escritor norte-americano Nathaniel Hawthorne (1804-1964): "Benditas são as emoções simples, sejam elas vivas ou sombrias! É a mistura lúgubre de ambas que produz a explosão das regiões infernais." Como se vê, Hawthorne celebra a intensidade das emoções humanas, sejam elas alegres (vivas) ou tristes (sombrias), valoriza tanto a felicidade quanto a tristeza genuínas, sem disfarces ou complicações, mas também alerta que a mistura dessas emoções, especialmente com a preponderância da "lúgubre" (sombria, fúnebre, macabra) sobre a "viva", gera uma força destrutiva, uma "explosão", o que remete à complexidade da alma humana. O perigo reside na combinação dessas emoções em atrito, gerando conflitos internos intensos, paixões avassaladoras ou até mesmo a autodestruição. 

Os 11 contos reunidos no volume apresentam personagens e situações existenciais aflitivas nas quais se evidencia a profundidade psicológica da humanidade e suas interfaces com o desejo, a passagem do tempo, a finitude da vida, dentro de enfoques que envolvem moralidade, culpa, solidão e pecado, explorando não somente regiões obscuras, mas também as belezas da psique humana. Aproximemos mais a lupa... 

“Todos os cantos de Eros” traz já no seu título o substantivo próprio que nomeia o deus grego do amor e do desejo, associado pelo senso comum ao amor apaixonado, com desejo e atração sensual, vulgarmente conhecido, em nosso mundo super hedonista, simplesmente como “tesão”, ou seja, forte desejo ou excitação sexual. Mas nem todos fazem tal ligação simplista, vulgar e obscena com o deus grego que os romanos conheciam como Cupido. 

Tal personagem vem sendo estudado desde a filosofia (lá de Platão, uns quatrocentos anos A.C.) até a psicologia de Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Gustav Jung (1875-1961). E o mito foi, aos poucos, transformando seu caráter. Aquele serzinho inescrupuloso munido de arco e flecha a alvejar corações incautos, ganhou afinal outros atributos mais condizentes com a razão, se é que podemos falar em razão nessa seara do sentimento humano. Algo mais compreensível, digamos. Eros, à luz da psicanálise, atualmente é entendido como um sentido de energia vital em geral, integradora da psique. Constitui-se, em última análise, num desejo de totalidade e, embora possa inicialmente assumir a forma de amor apaixonado, é mais verdadeiramente um desejo de "parentesco psíquico", um desejo de interconexão e interação com outros seres sencientes (que percebem pelos sentidos). Não é mais e exclusivamente o desejo sexual, mas nossa força vital, a vontade de viver e de amar. Desejo de criar vida e favorecer a produtividade e a construção. 

Freud avança inclusive um pouco mais, afirmando que o propósito de Eros é reunir indivíduos isolados em uma única grande unidade, a humanidade. Para isso, os homens devem estar libidinalmente ligados entre si, ainda que a natural agressividade do homem, representante de sua pulsão de morte, se oponha a esse programa da civilização. Eros corresponde à pulsão de vida e divide o domínio do mundo com Thanatos, representante da pulsão de morte. E é na tensão entre ambas as pulsões que se constitui a espécie humana, cujo principal objetivo é encontrar a felicidade. Na busca da satisfação desse objetivo, podemos ter esperança de nos libertar de pelo menos uma parte de nossos sofrimentos, agindo sobre nossas pulsões. Nesse processo estão os deslocamentos de libido reorientando os objetivos pulsionais de tal forma que evitem a frustração do mundo externo com a participação de um processo de sublimação. 

No discurso literário proposto por Anna Kroiss residem preciosidades que, ao buscarem expressão, encontram seu caminho feito de brechas por metáforas ou, então, seguem vias que deslizam por metonímias, exibindo significantes que  constituem rotas sem um fim previsível. A literatura de Kroiss é marcada por uma linguagem minimalista, às vezes repetitiva, que reduz a trama ao mínimo, e foca no ritmo, e em calculadas pausas que exploram o indizível e a psique humana com intimidade e profundidade psicológica, criando atmosferas ora oníricas, ora existenciais e melancólicas, mesclada com fluxos narrativos que brincam com o tempo, dando voz ao inconsciente e a sentimentos como solidão e angústia. 

No conto que abre o volume, “O casamento de Isabel” (esse texto traz logo abaixo do título apenas um indicativo sociológico muito claro. A datação de 1923. Data em que se passa a narrativa), a família de Isabel arranja-lhe um casamento com um rapaz tido e havido como bom moço, excelente criação, boa família, etc. A mocinha dele só conhece de “ouvir dizer” e de duas fotos, em uma das quais o sujeito é fotografado em um baile de carnaval usando uma máscara que lhe encobria metade do rosto. “Uma máscara mostrando um nariz comprido e pontudo, como dos personagens maliciosos do teatro.” Durante o curto namoro/noivado Isabel tem lá uma oportunidade de estar a sós com o pretendente — e observe-se o poder de sugestão da autora, impresso em apenas 4 frases curtas:

 

Era o olhar de algo que Isabel ainda não conhecia.

Não era bom.

Não era para o bem.

Foi embora junto do irmão. 

Essas curtas frases dão ao leitor a percepção, com uma ponta de calafrio, que a violência e amargura iriam descer ali. O ocorrido acima, ante os preparativos e expectativas sonhadoras do casamento próximo, acabou sendo relegado a um mero mal-entendido e finalmente ao esquecimento, até que se deu o casamento. A noite de núpcias foi de completa desgraça onde prevaleceu a monstruosidade da tara machista que nada tem de amor. 

A este conto, segue-se outro de urdidura exemplar, “Ele vinha pelo corredor” (também com datação de 1975 e localização em Oklahoma). Temos aí um foco narrativo que se volta para a morte acidental de um homem por afogamento em um lago. A jovem viúva padece de uma indizível tristeza, uma melancolia pungente que por uns dias provocam insônia, choros, gritos. Mas o tempo passa inexorável, a dor imensa da perda se arrefece um pouco, mas não se conforma, até que um dia... Eis que ele aparece na calada da noite para estar ali “naquela cama ao seu lado, a acordando com beijos”. 

Estamos diante de uma narrativa que convoca o fantástico em suas oscilações entre o racional e o sobrenatural, impondo ao leitor uma hesitação entre o real e o irreal, sendo o limiar entre esses dois mundos o ponto central da narrativa. (À propósito do fantástico e do maravilhoso, nessa autora, o leitor deve ler com redobrada atenção os contos “Um pássaro” e “O cordeiro honesto”, que não comentaremos aqui por razões óbvias de espaço que comporta uma resenha). Em “Ele vinha pelo corredor”, lemos a agonia pungente e dilacerante da solidão daquela mulher amorosa e sua terminante recusa na aceitação da morte, essa condição de nosso existir e que nos remete ao desamparo e a um tal confronto com a finitude da vida que certas mentes não a aceitam a um ponto tal de engendrarem delírios que definitivamente atiram-na à mais franca loucura. 

Anna Kroiss mostra fazer parte daquela rara galeria de escritores que criam com o que resta, aproximam-se do traumático, confrontam-se com as pulsões, tangenciam limites e buscam forjar novos sentidos com as palavras e os afetos. 

 É no ambíguo chiaroscuro da natureza humana que vamos encontrar ainda, na sequência, o conto “Vestidinho rosa - O anjinho”. A narrativa passa-se dentro de uma escola de segundo grau da classe média. Uma casualidade faz o porteiro da escola, homem de meia idade e de aparência repulsiva, a se interessar por uma certa adolescente loirinha e de olhos verdes, aluna da escola, que o encanta profundamente. Ela, depois de algum tempo, nota o interesse do homem e toma uma atitude que não passaria na cabeça de ninguém. Deliberadamente marca um encontro à noite, nos fundos do colégio. O que ninguém poderia supor é que a aluna fosse uma completa devassa que se atira a aventuras sexuais quando bem lhe dá na telha. O diálogo inicial que travam é nesses termos:

 

— O que você quer comigo?

T. perguntava mostrando não se importar, quase como quem debocha.

O homem não tinha o que responder.

— É me comer que você quer? Porque eu não costumo dar pra velhos; já saí com alguns, mas em troca de alguma coisa, e penso que você não deve ter condição para isso.

E ria.

Ele franziu o cenho e ainda não sabia o que responder.

— Mas eu deixo você me tocar. Você quer?

Nada.

T. pegou aquela mão que já possuía rugas demais e botou no meio de suas pernas lisas e brancas.      

Este foi o início de uma tórrida relação entre os dois, no qual a única intenção da bela garota devassa era ancorada firmemente em imenso desejo de domínio, de posse sobre o outro, nada mais. No entanto, nem ela mesma poderia também imaginar que aquela relação promíscua de mero desejo sexual desenfreado pudesse fazer irromper dentro de si mesma uma outra relação de dependência física, uma fixação tal naquele homem que a deixaria completamente desnorteada. Acabou por ser tomada por um estado de carência afetiva imensa, guiada por intuições e fatalismos cegos, minada por legados atávicos, sobretudo em relação ao sexo. — “mas lá, naquele jardim só deles, essa relação de submissão era como estar no paraíso dos corrompidos”. Quem poderá decifrar as ciladas de Eros? Foi o que se deu e quase degenera em desastre tremendo. 

Esses três primeiros textos e os oito que se seguem são belos exemplos de como fazer literatura com espontaneidade, com simplicidade, sem lances teatrais, sem laboratórios, num estilo de extrema simplicidade, sempre direto e claríssimo. Mais subjetividade do que objetividade nos fins a atingir; elementos psicológicos e sociológicos entrosados, aparecendo mais por sugestão do que por afirmação. A autora mostra-se hábil em casar linguagem inventiva de modo a obter determinados efeitos. É, acima de tudo, a ficcionista, ou seja, ela não sonega o núcleo ficcional, que escamoteia no início de suas ficções para, ao final, criar o efeito de terror, mistério, solidão, abandono — ou que outro final pretenda sugerir. 

Finalmente; Anna Kroiss parece também concordar com uma Katherine Mansfield (1888-1923), grande contista neozelandesa pouco lida no Brasil, que certa feita afirmou: “Não vejo nenhuma possibilidade de salvação se não aprendermos a viver também com nossas emoções e nossos instintos, conservando-os em equilíbrio”. Kroiss surge no cenário literário brasileiro como autora que se esforça em  multiplicar testemunhos ficcionais a atestarem o esforço da criação e o talento da criadora. Em lúcida busca pelas emoções particulares de suas criaturas, não recorre a maniqueísmos, não edifica no vazio, mas encontra material que expõe direta ou indiretamente, ao levantar conflitos, agitar problemas, captar situações existenciais. Falam por si mesmas suas criaturas. Por tais motivos é autora para quem devemos estar muito atentos. Razões suficientes pelas quais aguardamos com vívido interesse por novas produções suas.


Ficha técnica:
Todos os cantos de Eros
Contos de Anna Kroiss
Editora Patuá – São Paulo/SP
2025
104 p.
ISBN 978-65-281-0281-5
 

Links para compra e pronto envio:

Editora Patuá

No site da autora 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

25 de fev. de 2026

Do mineral ao humano: 'Arqueologia da luz', de Mell Renault

 Por Krishnamurti Góes dos Anjos

O leitor que tiver a oportunidade de ler o volume de poesias Arqueologia da luz, da escritora mineira Mell Renault, publicado pela Editora Patuá (2025), sem dúvida desfrutará de literatura da mais alta qualidade. Em meio à imensa profusão de títulos que se publica no país atualmente, a obra de Mell Renault merece destaque, porque não se detém aprisionada por esse verdadeiro sequestro da literatura nas tantas e infindáveis bandeirinhas identitárias, ou por um lirismo de trivialidades amorosas egocêntrico.

A obra em evidência apresenta a experiência humana sob um prisma cósmico totalizante ao convergir em sua poética o sentimento e o conhecimento simultâneo da perfeição e da harmonia do cosmos, lembrando-nos a frase de Fernando Pessoa: uma “poesia que pensa sentindo e que sente pensando”. Poesia universalista, acrescentamos.

O filósofo e professor alemão, Martin Heidegger (1889-1976), nos alertou que o pensar deve estar liberto da interpretação técnica e instrumental que o reduz a uma atividade prática ou produtiva. A linguagem é a "morada do ser", e o pensar é a via para resgatar a experiência fundamental da verdade do Ser, o que não se alcança pela racionalidade instrumental ou científica. E é justamente por ser a linguagem a “casa do ser”, que a linguagem poética tem a capacidade de conferir sentidos mais amplos ao humano. 

Não percamos de vista ainda que o mesmo Heidegger adverte quanto à necessidade da superação radical do humanismo tradicional e da metafísica ocidental, que reduziram a essência humana a uma substância ou a um valor genérico submetidos a uma concepção, que esquece a questão fundamental do Ser. Aquele humanismo tradicional definiu o homem (ou a essência humana) a partir de noções como "animal racional" ou "substância", o que é insuficiente e redutor.

A poética que aflora de Arqueologia da luz é tão espontânea quanto a natureza em todas as suas manifestações metamórficas, transmutáveis, híbridas. Por este viés de simbolização da natureza, como matriz de pensamento, de criação estética e de posicionamento no mundo, que a linguagem se revela para que, aliada ao que nos circunda, encontremos novos caminhos. O pulsar da vida é o que interessa, sem discriminações de espécie. Eis a tradução do mundo que a poeta revela para além das aparências. Um posicionamento rizomático da palavra, diríamos, entendendo por rizomático certa abordagem que reflete a estrutura de um rizoma (de uma planta), caracterizada por crescimento descentralizado, conexões múltiplas e não hierárquicas.

Em cada poema de Arqueologia da luz o leitor deleita-se com a fluidez, o movimento, o devir e a diversidade, palavras associáveis à natureza, em uma abertura ao imenso que nos circunda, deixando absolutamente patente a necessidade da integração do homem ao meio que lhe confere vida, e não o contrário, como absurdamente alguns de nós pensam. 

Nesse  paralelismo poético entre escrita e natureza, as palavras saem da imobilidade, disponibilizam-se a novos sentidos, transfigurações, laços. Aí a “liberdade de consciência” encontra o “dom poético” da autora, ou, por outras palavras, a ética e a estética unem-se na concepção de uma poética cujas origens remontam aos mais ínfimos detalhes da existência que se inscrevem na ordem do devir, num fluxo permanente, no movimento ininterrupto e atuante, como uma lei geral do universo, que dissolve, cria e transforma todas as realidades existentes.

O leitor sentirá vigoroso estímulo ao fim da cisão entre o humano e a natureza. Sobretudo quando o nosso dia a dia já nos mostra que esse distanciamento tem implicado alheamento (catastrófico) das consequências resultantes da ação humana no meio ambiente. O cerne da mensagem que o livro traduz é quase extra-humana (e não necessariamente mística, religiosa ou ecológica, palavras que até aqui, nesta curva da evolução, estão contaminadas por discursos simplistas e antropocêntricos). A lembrança e valoração da existência humana dentro dos tão amplos e variados elementos dos reinos mineral, vegetal e animal propõe marcante reorientação dos nossos valores.

Os poemas reunidos em Arqueologia da luz, pela densidade das imagens evocadas nos ciclos indomáveis da linguagem e da natureza, convidam o leitor a refletir sobre a unidade da vida que irmana de todos os seres. Do mineral ao humano, com trocas e interdependências impostas por uma lei comum que não é mais possível negar. O notório esforço poético empreendido pela autora incita-nos a sentir este liame de amor para com todas as outras formas de vida, porque tudo, desde o fenômeno químico ao fenômeno social, não é mais do que vida impregnada por um princípio espiritual.

Na luz que nos chega do sol se operam as primeiras transformações físico-dinâmicas nas quais a matéria se dissolve em radiações. As plantas apropriam-se da energia solar e dela se alimentam para os fins da vida, que se dissemina e cresce sem cessar. Compostos químicos se ajustam em fórmulas cada vez mais complexas e acumulam a energia solar, transmutando-a em compostos de estrutura química mais elevada. 

O animal, por sua vez, se por um lado destrói grandes quantidades de material orgânico fornecido pelas plantas, por outro reconstrói em qualidade aquilo que destruiu em quantidade, executando novas operações químicas e fabricando materiais ainda mais complexos, de uma complexidade progressiva, que é expressão e meio de formação de um rudimentar, mas progressivo psiquismo íntimo. 

Tudo representa divisão de trabalho, especialização de funções, transformação por contínuos e infinitesimais deslocamentos progressivos. Só no animal começa verdadeiramente a função específica da constituição daquele psiquismo que irá se tornando cada vez mais complexo, à medida que ascende nos fenômenos vitais. Então, chegamos ao humano, com a  derradeira transformação e acréscimo das funções psíquica e espiritual. Temos aí traçada a linha que, por meio das espécies físicas, dinâmicas e psíquicas, conjuga a matéria ao pensar/sentir. Eis onde culmina, depois de tantas transformações, a energia das radiações solares. “Toda luz tem como nascente o amor” (p. 90).

A “máquina” mais complexa e delicada que a evolução produziu no planeta Terra é a nossa psique. Em nossos órgãos sensórios, opera-se continuadamente a elevação das vibrações ambientes em vibrações de ordem superior. Pela audição, o som se torna música; a visão transforma a luz em beleza; por meio dos sentidos e no embate das forças ambientes constrói-se o instinto e a consciência. O poderoso mecanismo da vida transforma a energia, de suas formas inferiores até as mais altas formas nervosas de sensação, sentimento e pensamento, para o desabrochar da vida tornado realidade por meio das radiações solares que, com o concurso da universalidade de elementos da existência, chega à florescência da consciência. “O amor é essa presença sutil, percebe”  ( p. 120).

O grande rio da energia, que fora matéria, transforma-se no imenso mar da vida, que muda em consciência para finalmente se sentir e se observar a si mesmo. A gravíssima crise psicológica que a humanidade hoje atravessa requer, e impõe impreterivelmente, uma nova consciência. É assim que a ‘Luz’ do título dessa obra seguirá luzindo cada vez mais intensa, como evoca o poema abaixo (p. 74):

 

“fazer da luz

esse talismã bem perto do corpo,

assim como o amor,

trazê-lo rente a pele.”


Mell Renault harmoniza versos de uma poética tão simples e imprescindível como uma pétala de flor, a nos lembrar que o amor é a mais potente das força cósmicas, a energia psíquica primordial. Como o sangue de evolução espiritual.

Em tempo, porque me deu na telha acrescentar: Aqueles que quiserem perceber tudo isto que acabei de escrever encontram melhor tradução em vários poemas. O da página 85 resume, numa lufada de vento, todas essas palavras que penosa e sofrivelmente verti nesta resenha. Pronto, falei!


Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

21 de nov. de 2025

Instantâneos poéticos nos minicontos de José Eduardo Degrazia

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Antes da resenha do costume sobre o último livro publicado do escritor José Eduardo Degrazia, cumpre colocar alguns ‘pingos nos is’ no que diz respeito à história do miniconto brasileiro. Pingos nos is” significando deixar algumas coisas mais esclarecidas, organizar aspectos confusos, discernir melhor entre uma coisa e outra e lhe conferir um reconhecimento inegável. 

Na questão de genealogia do miniconto (também conhecido como microconto, minificção ou conto em miniatura), há quem veja seus primórdios no texto de Machado de Assis “Um apólogo”, do livro Várias histórias (1886) ou em Raul Pompéia com suas Canções sem metro, publicado em 1900, cinco anos após sua morte. Atribuir conotações de gênero novo para esses textos constitui, em verdade, um exagero. Não passam de circunstâncias criativas e ocasionais de seus autores, embora não duvidemos das suas qualidades intrínsecas. 

Em verdade, o movimento que parece marcar a ficcionalidade diminuta contemporânea tem de fato suas raízes mais profundas no Modernismo de 1922. A partir desse evento, que trouxe a fragmentação da linguagem, o instantâneo poético, a introjeção do ficcional no poético e do humor irônico na prosa, dentre outras características, é que foi se firmando os contornos do que hoje entendemos como minificção. É verdade que Oswald de Andrade, Guimarães Rosa, Carlos Drummond de Andrade, Clarice Lispector, entre outros, mais tarde escreveram trabalhos no gênero, entretanto, quando os conceberam, ainda não havia um sentido muito claro do gênero. Pode-se afirmar, inclusive, que tais autores, ao se valerem de um cruzamento irrefreável entre prosa e poesia, poema e ficção, buscavam mais uma renovação de estofo verbal. 

Já nas décadas de 1960 e 1970 surgem autores que efetivamente deram início de modo mais orgânico à minificção no país. Wendell Guiducci, em Origens e consolidação do miniconto no Brasil, registra que a palavra miniconto aparece pela primeira vez numa plaquete do Grupo mineiro de Guaxupé (Francisca Vilas Boas, Elias José, Sebastião Rezende e Marco António de Oliveira), 20 mini-nontos, de 1969. Ainda faltam estudos sobre esses textos, mas parece indiscutível que é aqui que se deve situar o início mais efetivo da prática, não em Ah, é? (1994), de Dalton Trevisan (falecido aos 99 anos de idade). Antes de Trevisan, Elias José já publicava minicontos em periódicos desde 1968. À época, essa prática literária era nova, surpreendente e recebida com suspeita. Quando do Ah, é?, do Dalton Trevisan, de 1994, já existia ambiente mais propício à nova expressão literária. 

O escritor José Eduardo Degrazia está entre os autores precursores do gênero no Brasil. Entre os anos de 1996 e 2000, publicou três livros no gênero: O atleta recordista (1996), A orelha do bugre (1998) e A terra sem males (2000). Saliente-se que, desde pelo menos 1974, Degrazia vinha publicando minicontos no jornal Correio do Povo do Rio Grande do Sul. Vale também o registro de que este autor, ao lado de Dalton Trevisan e de Marina Colasanti, entre outros, pertencem à geração ou grupo de autores que levará à explosão desta prática no século XXI. Citar nomes nesse árduo caminho que é a literatura é sempre difícil e geralmente incorremos em faltas graves. A minha geração (anos 1990), por exemplo, assistiu a uma grande variedade de autores de minificção, como João Gilberto Noll, Rubem Fonseca, Moacyr Scliar, Luiz Arraes, Carlos Herculano, Fernando Bonassi, Luiz Ruffato e, mais recentemente e com destaque, Whisner Fraga, Mário Sérgio Baggio, Alê Motta e Fernanda Caleffi Barbetta. 

Temos então o registro da contribuição de José Eduardo Degrazia para o miniconto, que deve ser, portanto, reconhecida e valorizada. Muito bem. Eis que encontramos o autor nesse novo O homem que escrevia nobar (contos, 2024, Editora Sulina). Como sabemos, na ficção de estrutura curta, a ideia perseguida pelos autores é que num mínimo de palavras seja apresentado todo um contexto e uma ação em torno do pouco que é revelado e, mais importante que mostrar, sugerir, deixando ao leitor a tarefa de "preencher" as elipses narrativas e entender a história por trás da história escrita. 

Nesse mister, Degrazia é, sem favor, um mestre. Consegue, nos 56 minicontos reunidos, convergir duas das principais vertentes do gênero. A do conto miniaturizado dentro do poema de feição ficcional. Melhor dizendo, a gradativa redução da configuração física dos textos se ajusta, se amolda, perfeitamente, em subjetividades nas quais o andamento lírico do texto aproxima o miniconto pós-moderno do poema. Tudo dentro da construção de imagens e sínteses. Sobre a obra do autor, já o crítico literário galego Xosé M. Eyré, afirmou “o miniconto é uma narrativa de extrema contenção, mas que nunca perde a necessidade de contar uma história, tendo personagem, ambientação e tempo”. 

Os trabalhos de Degrazia, no gênero, abordam principalmente as relações do cotidiano, a solidão das grandes cidades, as crises pessoais e sociais, sempre dando uma aparência de simplicidade que acaba encontrando a epifania através do insólito, do que rompe subitamente com a ordem. E tudo isto, convenhamos, não é pouco, ainda mais em desfechos em que o imprevisível toma corpo. O miniconto deve ser sempre imprevisível, essa é a sua principal virtude que ocorre a abarcar as narrativas sob tantos e tão variados temas da vida, vistos sob as mais diversas óticas: metaficção, ironia, paródia, humor, intenção crítica. Daí o necessário impacto sobre o leitor, fustigado a reler os textos. 

Para quem não sabe, vale ainda um acréscimo. O autor há mais de 50 anos vem trilhando uma discreta carreira literária que já frutificou em 36 livros de contos, minicontos, poesia, romance e infantojuvenis, além de dezenas de crônicas e artigos em jornais. E não é só. Traduziu livros de Pablo Neruda, poetas latino-americanos e italianos e já foi premiado em poesia, conto, teatro e tradução. 

Temos neste O homem que escrevia no bar o aflorar nos textos de um humanismo que nos deixa entrever os caminhos que podemos percorrer para alcançar uma humanidade mais justa. Este o autoconhecimento que a literatura propicia, porque o discurso literário nos possibilita, também, melhor conhecer o próximo dentro das diferenças de que todos nós somos portadores. Como não se encantar com textos como “O estudante e a costureirinha”, “A moda” ou “A calcinha vermelha”, que revelam as possibilidades do amor, seus desvãos, quedas e delícias? Como não refletir demoradamente sobre a nossa consciência social ao lermos textos como “Coisas de futebol”, “Os supremos” ou “A invasão dos bárbaros”? Como não pensar seriamente sobre o trabalho do escritor e as dificuldades que enfrenta num país como o Brasil, ao ler “Na feira do livro” ou “O escritor mitômono”? Como não se emocionar, e profundamente, com narrativas como “O passarinho”, “Catatonia” ou “Velhos”? 

O conto-título, e de maior extensão na obra, é um verdadeiro achado ficcional. Narra uma história única, porém fragmentada em minicontos entrelaçados ao todo da narrativa. Cada unidade é a personalidade que se manifesta, e o todo é a ambiência, o tempo que passa. Márcia Ivana Lima e Silva, que assina o prefácio do livro, afirma com muito acerto que a ficção do autor é tecida em “instantâneos que elevam nosso espírito aos grandes temas, igualando-se à filosofia.” E mais adiante: “mais do que apresentar mundos diversos, o livro de Degrazia nos indica caminhos de representação de si e de validação do outro, num jogo de espelhamento que reflete, às vezes, o azul dos céus, e outras a lama da estrada”.


“O homem que escrevia no bar”
Contos
José Eduardo Degrazia
Editora Sulina – Porto Alegre / RS
2024
96p. 
ISBN 978-65-5759-175-8 

Links para compra e pronto envio: https://editorasulina.com.br/detalhes.php?id=884 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.

4 de nov. de 2025

'Conversas', de Jander Minesso: crônicas dialogadas

 Por Allyne Fiorentino 

Conversas, livro recém-publicado em São Paulo pela Editora Sinete, é um compilado de 57 crônicas de Jander Minesso, autor e roteirista audiovisual.

  

Para quem gosta do gênero crônica, vai achar curioso o fato de que todas elas estão em forma de diálogo (daí o título), o que torna a leitura bem dinâmica e rápida, sendo possível percorrer 177 páginas de escrita em menos tempo do que se supunha e com bastante fluidez.  

 

Dizem (eu sei que vocês gostam de fofocas literárias!) que o autor certa vez recebeu uma crítica, que afirmava que ele não escrevia diálogos muito bem. Eu não o sei o signo do autor, mas ele parece ser daqueles que remoeria essa crítica durante muitos anos, treinaria noite e dia, faria cursos, viraria madrugadas em claro com o único objetivo de superar a “fraqueza” e depois lançar um livro de crônicas totalmente em diálogos! Voilá! Será que foi isso? Não sei, mas não estou inventando fanfic aleatória, está lá escrito: 

 

“— Quando eu era mais novo, fiz um curso de roteiro e o professor me disse que os meus diálogos eram muito ruins. Aí, resolv…” (p. 17) 

 

E se está escrito, é claro que é verdade! Quem ousaria questionar a santidade de palavras escritas em papel ou tela? Brincadeiras à parte, os títulos das crônicas, bem diretos e curtos, muitos compostos de apenas uma palavra, já nos indicam — e podemos comprovar depois ao ler — que as histórias vão ser diretas, nada de reflexões longas e profundas, nem de filosofia, pelo contrário, os textos passam a sensação de estarmos com um controle remoto na mão, trocando os canais de uma TV e ouvindo conversas pinçadas de diversas cenas cotidianas, desde um jornal até uma conversa íntima de casal, por exemplo. Tudo bem-humorado, com sacadas humorísticas que poderiam mesmo estar em um sketch comedy.  

 

O leitor certamente se identificará em muitas ocasiões, pois todo esse universo divertido, abordado nas cenas, é o que estamos vivendo agora, com todas as contradições possíveis no nosso país (e no mundo!), intercalando os discursos que permeiam nosso dia a dia, os coaches dizendo que “você é um bosta que nasceu para trabalhar para os outros, que vai se matar para juntar uns trocados e passar o feriado na Praia Grande enquanto o patrão vai para Nova York todo mês” (p. 63); a era em que absolutamente tudo é passível de terapia e que se um paciente disser: “Doutora, eu tenho um problema [...] Eu sou feliz” (p. 112) não vai nos parecer tão distópico assim... Estamos em uma era de praticidade, e tudo pode ser resolvido facilmente com terapia ou com o bom e velho consumismo: “Como faz para sentir essa tal felicidade? É só escolher alguma coisa que a senhora goste aqui da loja, passar o cartão e pronto” (p. 82). 

 

Com linguagem simples, uso de gírias, referências contemporâneas, locais (paulistanos) e clichês, é assim construída a reflexão dos assuntos abordados, em que a crítica do autor se revela na evolução das falas e na chave de ouro, praticamente utilizada em todos os textos. Se desvelamos o assunto nas falas, a arquitetura do livro está bem às claras, justificadamente desvelada, quase que como um pedido de desculpas metalinguístico, no primeiro texto do livro. Novamente, não estou inventando fanfic, está lá: “não se prenda às questões filosóficas, vão entediar o leitor” (p. 18). Dê a eles o que eles querem!!! 

 

Nesse aspecto, o autor aposta no uso do clichê, que ora pode funcionar muito bem, já que o intuito é essa plasticidade contemporânea do rápido, consumível, palatável, direto e agradável, sendo uma saída para temáticas já bastante desgastadas socialmente, mas que voltam à voga em seu ápice de aplicação prática, como a temática do consumismo, por exemplo. Consumismo é algo já estabelecido como nocivo, mesmo que paradoxalmente estejamos vivendo tempos de ultraconsumismo; no fundo as pessoas sabem que é insustentável, apenas negam.  Já em outras temáticas, complexas e pouco estabelecidas, o clichê pode falhar miseravelmente, a meu ver, como na questão política, já que as piadinhas que mencionam Brasília e política podem soar demasiadamente rasas e “cringes” (ainda estamos usando essa palavra?).  

   

Por outro lado, a temática religiosa percorre muitas páginas (vide os títulos de algumas crônicas: "Apocalipse, não"; "Entrevista com o Criador"; "Confissão"; "Dilúvio"; "Pena capital"; "Crucificação"; "No Paraíso"; "Justiça"; "Reza"; "Assim caiu o anjo") de forma divertida, transportando cenas dos mitos religiosos para o cenário brasileiro e para as burocracias a que todos devemos nos submeter. Lendo esse livro, me dei conta do quanto de humor há na religião, no divino, nas histórias da Bíblia, talvez porque seja a nossa última arma profana, o riso. Ou também pelo fato de que não restou absolutamente nada sem profanação neste mundo e nós nos questionamos se o papel da religião não deve também ser queimado em fogueiras ao mesmo tempo em que esperamos, secretamente, que ele não se queime, que ele seja, ao fim e ao cabo, uma grande piada de mau gosto de que pretendemos ainda rir, verdadeiramente.   

 

Claro que a temática relacionamento também não passaria despercebida, já que isso também tem sido um martírio quase santo. Estamos tentando amar em novos padrões, encaixar os papéis que nos foram dados aos papéis que queremos desfazer, estamos nos afogando em meio a tantos papéis, tudo virou pressão, até sexo virou “muita pressão”, mas “vídeo de gato é demais. De cachorro também” (p. 143). E, como se não bastasse, estamos ou não vivendo o canônico evento do Osvaldo (quem é Osvaldo? Aí vai ter de ler o livro para entender...). Eu particularmente acredito que estamos mesmo vivendo um grande Osvaldo.  E que antes do Osvaldo acabar, vamos ainda ouvir muito sertanejo universitário.

   

Conversas - Jander Minesso 
Editora: Sinete 
Ano: 2025 
Páginas: 180 
Compre aqui.
 

  

  QUE TAL UMA PRÉVIA? 


"DÚVIDAS 

— Deus?  

— Diga, meu filho.  

— Preciso de uma ajuda do Senhor. Tenho tantas dúvidas…  

— Pode falar.  

— Afinal de contas, é pecado beber?  

— Se você for evangélico, é desaconselhável.  

— E homem namorar homem e mulher, mulher? 

 — Segundo o último Papa, os católicos estão liberados.  

— E carne de porco, pode ou não pode?  

— Se você não for judeu, tudo certo.  

— Está vendo? Por que uma religião pode e a outra não?  

— Filho, eu sou do Judiciário. O Legislativo é com vocês."

  

MINESSO, Jander. Conversas. São Paulo: Sinete, 2025.



Allyne Fiorentino - Natural de Minas Gerais, residente em São Paulo, capital. Graduada em Letras e mestra em Estudos Literários pela Unesp, na linha de Teorias e Crítica da Poesia, especificamente em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Feminista na vida e na literatura, flerta com a Filosofia, a política, excentricidades e paradoxos. Low profile do mundo literário. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @allyne.fiorentino.