9 de mar. de 2026

Sobre ‘Todos os cantos de Eros’, de Anna Kroiss

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

A leitura de “Todos os cantos de Eros” (contos), livro de estreia da escritora paulista Anna Kroiss, nos faz lembrar, em boa medida, de uma citação do escritor norte-americano Nathaniel Hawthorne (1804-1964): "Benditas são as emoções simples, sejam elas vivas ou sombrias! É a mistura lúgubre de ambas que produz a explosão das regiões infernais." Como se vê, Hawthorne celebra a intensidade das emoções humanas, sejam elas alegres (vivas) ou tristes (sombrias), valoriza tanto a felicidade quanto a tristeza genuínas, sem disfarces ou complicações, mas também alerta que a mistura dessas emoções, especialmente com a preponderância da "lúgubre" (sombria, fúnebre, macabra) sobre a "viva", gera uma força destrutiva, uma "explosão", o que remete à complexidade da alma humana. O perigo reside na combinação dessas emoções em atrito, gerando conflitos internos intensos, paixões avassaladoras ou até mesmo a autodestruição. 

Os 11 contos reunidos no volume apresentam personagens e situações existenciais aflitivas nas quais se evidencia a profundidade psicológica da humanidade e suas interfaces com o desejo, a passagem do tempo, a finitude da vida, dentro de enfoques que envolvem moralidade, culpa, solidão e pecado, explorando não somente regiões obscuras, mas também as belezas da psique humana. Aproximemos mais a lupa... 

“Todos os cantos de Eros” traz já no seu título o substantivo próprio que nomeia o deus grego do amor e do desejo, associado pelo senso comum ao amor apaixonado, com desejo e atração sensual, vulgarmente conhecido, em nosso mundo super hedonista, simplesmente como “tesão”, ou seja, forte desejo ou excitação sexual. Mas nem todos fazem tal ligação simplista, vulgar e obscena com o deus grego que os romanos conheciam como Cupido. 

Tal personagem vem sendo estudado desde a filosofia (lá de Platão, uns quatrocentos anos A.C.) até a psicologia de Sigmund Freud (1856-1939) e Carl Gustav Jung (1875-1961). E o mito foi, aos poucos, transformando seu caráter. Aquele serzinho inescrupuloso munido de arco e flecha a alvejar corações incautos, ganhou afinal outros atributos mais condizentes com a razão, se é que podemos falar em razão nessa seara do sentimento humano. Algo mais compreensível, digamos. Eros, à luz da psicanálise, atualmente é entendido como um sentido de energia vital em geral, integradora da psique. Constitui-se, em última análise, num desejo de totalidade e, embora possa inicialmente assumir a forma de amor apaixonado, é mais verdadeiramente um desejo de "parentesco psíquico", um desejo de interconexão e interação com outros seres sencientes (que percebem pelos sentidos). Não é mais e exclusivamente o desejo sexual, mas nossa força vital, a vontade de viver e de amar. Desejo de criar vida e favorecer a produtividade e a construção. 

Freud avança inclusive um pouco mais, afirmando que o propósito de Eros é reunir indivíduos isolados em uma única grande unidade, a humanidade. Para isso, os homens devem estar libidinalmente ligados entre si, ainda que a natural agressividade do homem, representante de sua pulsão de morte, se oponha a esse programa da civilização. Eros corresponde à pulsão de vida e divide o domínio do mundo com Thanatos, representante da pulsão de morte. E é na tensão entre ambas as pulsões que se constitui a espécie humana, cujo principal objetivo é encontrar a felicidade. Na busca da satisfação desse objetivo, podemos ter esperança de nos libertar de pelo menos uma parte de nossos sofrimentos, agindo sobre nossas pulsões. Nesse processo estão os deslocamentos de libido reorientando os objetivos pulsionais de tal forma que evitem a frustração do mundo externo com a participação de um processo de sublimação. 

No discurso literário proposto por Anna Kroiss residem preciosidades que, ao buscarem expressão, encontram seu caminho feito de brechas por metáforas ou, então, seguem vias que deslizam por metonímias, exibindo significantes que  constituem rotas sem um fim previsível. A literatura de Kroiss é marcada por uma linguagem minimalista, às vezes repetitiva, que reduz a trama ao mínimo, e foca no ritmo, e em calculadas pausas que exploram o indizível e a psique humana com intimidade e profundidade psicológica, criando atmosferas ora oníricas, ora existenciais e melancólicas, mesclada com fluxos narrativos que brincam com o tempo, dando voz ao inconsciente e a sentimentos como solidão e angústia. 

No conto que abre o volume, “O casamento de Isabel” (esse texto traz logo abaixo do título apenas um indicativo sociológico muito claro. A datação de 1923. Data em que se passa a narrativa), a família de Isabel arranja-lhe um casamento com um rapaz tido e havido como bom moço, excelente criação, boa família, etc. A mocinha dele só conhece de “ouvir dizer” e de duas fotos, em uma das quais o sujeito é fotografado em um baile de carnaval usando uma máscara que lhe encobria metade do rosto. “Uma máscara mostrando um nariz comprido e pontudo, como dos personagens maliciosos do teatro.” Durante o curto namoro/noivado Isabel tem lá uma oportunidade de estar a sós com o pretendente — e observe-se o poder de sugestão da autora, impresso em apenas 4 frases curtas:

 

Era o olhar de algo que Isabel ainda não conhecia.

Não era bom.

Não era para o bem.

Foi embora junto do irmão. 

Essas curtas frases dão ao leitor a percepção, com uma ponta de calafrio, que a violência e amargura iriam descer ali. O ocorrido acima, ante os preparativos e expectativas sonhadoras do casamento próximo, acabou sendo relegado a um mero mal-entendido e finalmente ao esquecimento, até que se deu o casamento. A noite de núpcias foi de completa desgraça onde prevaleceu a monstruosidade da tara machista que nada tem de amor. 

A este conto, segue-se outro de urdidura exemplar, “Ele vinha pelo corredor” (também com datação de 1975 e localização em Oklahoma). Temos aí um foco narrativo que se volta para a morte acidental de um homem por afogamento em um lago. A jovem viúva padece de uma indizível tristeza, uma melancolia pungente que por uns dias provocam insônia, choros, gritos. Mas o tempo passa inexorável, a dor imensa da perda se arrefece um pouco, mas não se conforma, até que um dia... Eis que ele aparece na calada da noite para estar ali “naquela cama ao seu lado, a acordando com beijos”. 

Estamos diante de uma narrativa que convoca o fantástico em suas oscilações entre o racional e o sobrenatural, impondo ao leitor uma hesitação entre o real e o irreal, sendo o limiar entre esses dois mundos o ponto central da narrativa. (À propósito do fantástico e do maravilhoso, nessa autora, o leitor deve ler com redobrada atenção os contos “Um pássaro” e “O cordeiro honesto”, que não comentaremos aqui por razões óbvias de espaço que comporta uma resenha). Em “Ele vinha pelo corredor”, lemos a agonia pungente e dilacerante da solidão daquela mulher amorosa e sua terminante recusa na aceitação da morte, essa condição de nosso existir e que nos remete ao desamparo e a um tal confronto com a finitude da vida que certas mentes não a aceitam a um ponto tal de engendrarem delírios que definitivamente atiram-na à mais franca loucura. 

Anna Kroiss mostra fazer parte daquela rara galeria de escritores que criam com o que resta, aproximam-se do traumático, confrontam-se com as pulsões, tangenciam limites e buscam forjar novos sentidos com as palavras e os afetos. 

 É no ambíguo chiaroscuro da natureza humana que vamos encontrar ainda, na sequência, o conto “Vestidinho rosa - O anjinho”. A narrativa passa-se dentro de uma escola de segundo grau da classe média. Uma casualidade faz o porteiro da escola, homem de meia idade e de aparência repulsiva, a se interessar por uma certa adolescente loirinha e de olhos verdes, aluna da escola, que o encanta profundamente. Ela, depois de algum tempo, nota o interesse do homem e toma uma atitude que não passaria na cabeça de ninguém. Deliberadamente marca um encontro à noite, nos fundos do colégio. O que ninguém poderia supor é que a aluna fosse uma completa devassa que se atira a aventuras sexuais quando bem lhe dá na telha. O diálogo inicial que travam é nesses termos:

 

— O que você quer comigo?

T. perguntava mostrando não se importar, quase como quem debocha.

O homem não tinha o que responder.

— É me comer que você quer? Porque eu não costumo dar pra velhos; já saí com alguns, mas em troca de alguma coisa, e penso que você não deve ter condição para isso.

E ria.

Ele franziu o cenho e ainda não sabia o que responder.

— Mas eu deixo você me tocar. Você quer?

Nada.

T. pegou aquela mão que já possuía rugas demais e botou no meio de suas pernas lisas e brancas.      

Este foi o início de uma tórrida relação entre os dois, no qual a única intenção da bela garota devassa era ancorada firmemente em imenso desejo de domínio, de posse sobre o outro, nada mais. No entanto, nem ela mesma poderia também imaginar que aquela relação promíscua de mero desejo sexual desenfreado pudesse fazer irromper dentro de si mesma uma outra relação de dependência física, uma fixação tal naquele homem que a deixaria completamente desnorteada. Acabou por ser tomada por um estado de carência afetiva imensa, guiada por intuições e fatalismos cegos, minada por legados atávicos, sobretudo em relação ao sexo. — “mas lá, naquele jardim só deles, essa relação de submissão era como estar no paraíso dos corrompidos”. Quem poderá decifrar as ciladas de Eros? Foi o que se deu e quase degenera em desastre tremendo. 

Esses três primeiros textos e os oito que se seguem são belos exemplos de como fazer literatura com espontaneidade, com simplicidade, sem lances teatrais, sem laboratórios, num estilo de extrema simplicidade, sempre direto e claríssimo. Mais subjetividade do que objetividade nos fins a atingir; elementos psicológicos e sociológicos entrosados, aparecendo mais por sugestão do que por afirmação. A autora mostra-se hábil em casar linguagem inventiva de modo a obter determinados efeitos. É, acima de tudo, a ficcionista, ou seja, ela não sonega o núcleo ficcional, que escamoteia no início de suas ficções para, ao final, criar o efeito de terror, mistério, solidão, abandono — ou que outro final pretenda sugerir. 

Finalmente; Anna Kroiss parece também concordar com uma Katherine Mansfield (1888-1923), grande contista neozelandesa pouco lida no Brasil, que certa feita afirmou: “Não vejo nenhuma possibilidade de salvação se não aprendermos a viver também com nossas emoções e nossos instintos, conservando-os em equilíbrio”. Kroiss surge no cenário literário brasileiro como autora que se esforça em  multiplicar testemunhos ficcionais a atestarem o esforço da criação e o talento da criadora. Em lúcida busca pelas emoções particulares de suas criaturas, não recorre a maniqueísmos, não edifica no vazio, mas encontra material que expõe direta ou indiretamente, ao levantar conflitos, agitar problemas, captar situações existenciais. Falam por si mesmas suas criaturas. Por tais motivos é autora para quem devemos estar muito atentos. Razões suficientes pelas quais aguardamos com vívido interesse por novas produções suas.


Ficha técnica:
Todos os cantos de Eros
Contos de Anna Kroiss
Editora Patuá – São Paulo/SP
2025
104 p.
ISBN 978-65-281-0281-5
 

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Editora Patuá

No site da autora 

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.