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15 de mar. de 2022

Palavras para um tempo de silêncio

Por Sinvaldo Júnior

A primeira morte por Covid-19 no Brasil ocorreu há dois anos: a primeira divulgada, no dia 16 de março de 2020, e a primeira oficial, corrigida posteriormente, ocorrida no dia 12 de março de 2020. Era uma pessoa do sexo feminino, com 57 anos, que deu entrada no dia 11, possivelmente mãe, talvez avó, filha, esposa. Outros filhos, filhas; outras mães, avós, tias; outros pais, avôs, bisavôs morreram nesses últimos dois anos (656 mil), de uma morte que trouxe, em si, mais do que a morte. Também trouxe revolta, ansiedade, frustração, raiva. Sofrimento coletivo.

É sobre essas mortes, esses mortos, essas pessoas, essa raiva, essa solidão, essa frustração, essa revolta que queremos (e vamos) falar em nossa Semana Palavras para um tempo de silêncio, que ocorrerá entre 15 e 21 de março de 2022 n’O Bule. A antítese do título é intencional: queremos textos que tentem – quiçá consigam – registrar sentimentos e homenagens não só aos que se foram, mas também aos que aqui permaneceram, alguns com sua raiva; outros com sua revolta; alguns com seu silêncio, um silêncio que quer dizer muito (que tudo poderia ser diferente, talvez, se tivéssemos feito diferente. Mas não fizemos: como um ser coletivo, não fizemos).

Traga sua revolta. Traga sua raiva. Envie o seu texto (mais informações no flyer abaixo). Leia os textos de um ser raivoso, solitário. Ou empático com o sofrimento alheio. Um ser com saudade: do pai, do filho, da mãe, da avó. Compartilhe esses sentimentos, esses textos.

Esses dois anos não foram (não podem ter sido) em vão.

31 de out. de 2011

Dia D, D de Drummond


Espalhe-se a ideia, tão simples quanto ambiciosa: transformar o dia 31 de outubro, data de nascimento de Carlos Drummond de Andrade, num dia de grande comemoração.

Nas escolas, universidades, livrarias, bares, museus, TVs, rádios, centros culturais e mesmo em solidão, não importa onde e como, que todos se lembrem de festejar Drummond e a sua poesia.

Um outro dia D, para apagar a guerra e saudar a liberdade, a imaginação, a aliança entre os homens de boa palavra.

Dia de festa, para a qual outros poetas devem ser convidados, claro. D é dia de todos, dia dado de bom grado por aquele que nos deu A rosa do povo, Claro enigma, A vida passada a limpo e tantas outras maravilhas.

Dia D. Dia de Drummond


Lygia Fagundes Telles lê poema de Carlos Drummond de Andrade





Leitura em vários idiomas do poema "No meio do caminho", de Carlos Drummond de Andrade.




>>> Mais informações, vídeos, poemas, curiosidades, você encontra no site http://diadrummond.ims.uol.com.br/

28 de fev. de 2011

Homenagem a Benedito Nunes e a Moacyr Scliar

Em um só final de semana, o Brasil perdeu dois grandes nomes do universo das letras: o professor, filósofo, ensaísta e crítico literário Benedito Nunes e o escritor Moacyr Scliar. O interessante é que ambos, embora tendo alcançado projeção nacional e internacional, não arredaram pé da terra natal: Benedito Nunes passou a maior da vida no Pará, e Scliar, em Porto Alegre. O BULE rende aqui homenagem a esses dois grandes mestres do universo intelectual e literário brasileiro.


BENEDITO NUNES
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Benedito José Viana da Costa Nunes (Belém, 21 de novembro de 1929 – Belém, 27 de fevereiro de 2011) foi filósofo, professor, crítico de arte e escritor brasileiro.
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Foi um dos fundadores da Faculdade de Filosofia do Pará, que depois foi incorporada à Universidade Federal do Pará – UFPA. Ensinou Literatura e filosofia em outras universidades do Brasil, da França e dos Estados Unidos. Escreveu artigos e ensaios para jornais e publicações locais, nacionais e internacionais. Aposentou-se como professor titular de Filosofia pela UFPA, tendo recebido o título de Professor em 1998. No mesmo ano, foi um dos ganhadores do Prêmio Multicultural Estadão.
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É autor de O drama da Linguagem, uma leitura de Clarice Lispector; O tempo na narrativa; Introdução à Filosofia da Arte; O dorso do tigre (ensaios literários e filosóficos); João Cabral de Melo Neto (Coleção Poetas Modernos do Brasil); Oswald Canibal (Coleção Elos); Passagem para o poético; A filosofia contemporânea; No tempo do niilismo e outros ensaios e Crivo de Papel (ensaios literários e filosóficos).
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Benedito Nunes recebeu o Prêmio Jabuti de Literatura em 1987 e o Prêmio Machado de Assis em 2010.


MOACYR SCLIAR
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Moacyr Jaime Scliar (Porto Alegre, 23 de março de 1937 — Porto Alegre, 27 de fevereiro de 2011) foi escritor, médico sanitarista e professor universitário.

Scliar publicou mais de setenta livros, entre crônicas, contos, contos, ensaios, romances e literatura infanto-juvenil. Seu estilo leve e irônico lhe garantiu um público bastante amplo de leitores, e em 2003 foi eleito para a Academia Brasileira de Letras, tendo recebido antes uma grande quantidade de prêmios literários como o Jabuti ( 1988, 1993 e 2009), o Associação Paulista de Críticos de Arte (APCA) (1989) e o Casa de las Américas (1989).

Suas obras frequentemente abordam a imigração judaica no Brasil, mas também tratam de temas como o socialismo, a medicina (área de sua formação), a vida da classe média e vários outros assuntos. O autor já teve obras suas traduzidas para doze idiomas.

Em 2002 ele se envolveu em uma polêmica com o escritor canadense Yann Martel, cujo famoso romance A vida de Pi, vencedor do prêmio Man Booker, foi acusado de ser um plágio da sua novela Max e os felinos. O escritor gaúcho, no entanto, diz que a mídia extrapolou ao tratar do caso, e que ele nunca teve o intuito de processar o escritor canadense.

Entre suas obras mais importantes estão os seus contos e os romances O ciclo das águas, A estranha nação de Rafael Mendes, O exército de um homem só e O centauro no jardim, este último incluído na lista dos 100 melhores livros de temática judaica dos últimos 200 anos, feita pelo National Yiddish Book Center nos Estados Unidos.

Fonte de Pesquisa: Wikipédia.

12 de jul. de 2010

Tributo a Roberto Piva: parte final


Nesta segunda parte do tributo ao poeta Roberto Piva, O BULE publica os poemas-homenagem. Cada poeta convidado, mesmo tendo a sua linguagem própria, deixa-se tomar, neste caso, pelo fluxo da linguagem surrealista e delirante do autor de Estranhos sinais de Saturno e Paranoia.

Piva fascina, principalmente, pela extrema liberdade e ousadia com que compôs seus poemas, tanto em relação à linguagem quanto em relação à temática. O leitor poderá constatar isso no poema Praça da República dos meus sonhos, que publicamos aqui, seguido de uma minibiobibliografia.

Apresentamos, ao final, mais alguns links contendo informações sobre Piva ou poemas de sua autoria. Pensamos que dessa forma contribuímos para aproximar os internautas de sua obra rica e provocante.

Nosso muito obrigado a todos os que contribuíram para que essa homenagem se tornasse possível.

Bom mergulho na poesia que nasce sob o signo da alma xamânica e libertária de Piva.

Os Editores.


POEMAS-HOMENAGEM



PROFANO PROPHETA [soneto 3390]

Por Glauco Mattoso

Esperma de palavra se deriva
em fertil mente e em lyra creativa.

Semantica ou syntaxe, só, não basta
nem são imprescindiveis metro e rima
si a escripta surprehende e a penna é vasta.

Conheço um tal poeta e nelle vejo
de olympicas metropoles o exgotto,
o gozo azul de impubere garoto,
o samba em harpa e o rock em realejo.

É magico e sublime o pederasta
que do maldicto mytho se approxima
e do castiço canone se afasta.

No orgasmo oral dos jovens está viva
a chamma que deixou Roberto Piva.

(Publicado, originalmente, na revista Germina Literatura)


VELHOS

Por Horácio Costa

Descendo a Rua Mato Grosso
Em Higienópolis
Nesta manhã de segunda
Diviso no sentido contrário
O poeta Roberto Piva
Um dos mais importantes
Vivos
Deste país

Estou à direção de meu carro
E acabava de observar
Pelo contador de quilometragem
O número 85358
Me parece muito
Muitos quilômetros rodados
E me chamou atenção pela simetria

Meu carro está ficando velho
Eu estou ficando velho
O Roberto Piva
De camiseta estiva branca e bermuda azul
Tem Alzheimer e caminha meio bambo
Pela calçada da Rua Mato Grosso
Em Higienópolis

É um grande poeta
Um monumento municipal
Desta cidade que ele viu
Crescer da província ao estrelato
No Japão seria um Tesouro Nacional Vivo

Justamente, estava a caminho
Do Centro Cultural Tomie Ohtake
Em Pinheiros
E aqui estou agora
A Tomie Ohtake é nonagenária

Vim pegar no Setor de Documentação
Fotos nas quais apareço
Conversando com o Saramago
No vernissage de sua exposição
Em Dezembro passado

O José está bem velho
Diminuiu de tamanho desde a última vez que o vi
Conheço-o há 25 anos e não tenho
Fotos com ele

Quando o conheci ninguém queria saber muito dele
Mas ele escreve prosa de ficção
Muito boa
E hoje é o Nobel da língua
Portuguesa

O Roberto Piva
Escreve poesia
Boa também
Mas ao contrário do número no painel
Do meu carro que está ficando velho
Não há simetria entre
Prosa e poesia

Nesta manhã de verão
Descia
Tropegamente
A rua Mato Grosso
Em Higienópolis

(SP 2 II 09)


[SEM TÍTULO]

Por Ricardo Corona


ferozes motores acordam o menino curandeiro para cruzar o céu decifrado. o boing engole o vácuo pelas nadadeiras laterais e abre uma brecha no tempo. o menino curandeiro retomará a brincadeira dos mundos em outro lugar. decalcará palavras na página com a pele adolescente macerada debaixo das unhas. e colocará no bolso de estampa mais bonita os mais ásperos pensamentos. céus continuarão em seu mocó com nuvens-insetos que tecem as LINHAS DA PALMA.


SAMPARAGUAI, REGURGITANDO O ESCÁRNIO

E para que ser poeta em tempos de penúria? (Roberto Piva)

Por Silas Corrêa Leite

A grande metrópole de Sampa entregue a tantos demônios
De máfias e quadrilhas do crime organizado paraestatal
(Inclusive o miolo formal das privatarias, privatizações-roubos)
Pela falsa lei de oferta e procura com subornos no entorno
O mercado-cadela parindo monturos de rejeitos sociais
O narcocontrabando informal e os new-richs da terceirização
Prostitutas, travestis, e os excluídos sociais entre favelados
E marginais baratos rendidos ao jogo de aparências e ao crack
Na cidade grande o núcleo do charco iluminado pra consumo
Entre estátuas e cofres e restos de seres entre tantas vendas
A consciência-formiga querendo o açúcar das noites efêmeras
Entre a tecnologia cabritada e a sensibilidade hollywoodiana
Numa augusta sampa que cria modelitos para o resto do Brazyl
Embrutecida urbe de escarros e dejetos entre abraços de palhas

Totens, bancos, catedrais - e parasitas de todos os estilos
Personagens bizarros, decrépitos; revistarias de novidades sórdidas
O álcool-íris das cirroses letrais como furos de labirintos e panelas
Arames-fariseus, lamúrias com discórdias consentidas
E jugos superiores no status-quo a preço de vidas descartáveis
E a cidade grande feito Samparaguai sitiada entre guaritas
Pelo cinturão verde da muamba chinesa entre parasitas
E o dólar neoliberal do neoescravismo inconsequente

Tabletes de felicidade química em pó marmóreo sulatino
Ah Geração Teflon que esquenta mas não quer aderência
Cérebros-barrinhas-de-cereais com esquisitices exóticas
O bordel excelência da Avenida Paulista de liberais escrotos
As máfias da expropriação et caterva por atacado
Os cérebros nanicos de aluguéis gerando lucro com a fome
As proust-trutas de uma peregrinação miserável para a sobrevida
O câncer social via Pinóquio de Chuchu e outros leprosários
Tudo um gigante Carandiru a céu aberto com bandeiras do Brasil

Os beco-hambúrgueres ardis, estacionamentos-cidades hostis
Os guetos-tubainas, cortiços e a sofrida periferia S/A
As oxige-nadas da alta sociedade num podre pop-star
A tevê que esconde a senzala mas se mostra cloaca
O governo paralelo do crime organizado nutre e viça
As propinas estatais pró-partidárias de tucanos insanos
Professores ganhando salário de mendigos na exclusão proposital
Quadrilhas em praças de pedágios entre brucutus fantasmas
E o cogumelo do self; a sopa de egos-bandeirantes, assaz sina
Tudo putrefetado em modus operandi ordem e progresso
A nova mpb que não é nova não é popular e não é brasileira
A cultura pindorama miojo-nojo de almanaque de ocasião
A sazonal oposição caça-níquel à república de Brasília

Os operários da web com barrrigas de tanquinho e links dúbios
Na esquina da Ipiranga com a São João a máfia dos transportes
E Samparaguai prevaricando improbidades públicas
O minimo estado cínico corrupto e inumano e amoral
O patê de víboras na sala vip das autoridades histéricas
O som jeca com grife, na orgia pagã-pirata, a elite branca
O cadafalso do rodo-anel que foi um tremendo roubo-anel
O cassino estaiado superfaturado para agradar a gregos e baianos
Sociedade hipócrita de sampa e seus universos paralelos, primatas
A midia-nódoa, o crime de obras inúteis sem castigos sonhados

O lucro fóssil, o poder camarão, os caras de pau
Marginais engabelando capos de surubas com erário público
As tecnologias de cipós entre regimes de exceção e arbítrio
O turismo lepra, pedofilias e tráfico de influências sistemizadas
Ongs de araque em campus minados de consciências com glosas
O centro velho entre velhacos de porões e arranha-céus decadentes
Nas periferias mutantes com machadinhas de raps mandorovás
As tetas do capitalhordismo americanalhado e circo e pão e brioches
Descarregos-pivôs entre o boi-bumbá e os migrantes com ódio-ópio
E os orientais chegando... chegando... para o futuro chino-brasilis
Depois do afrobrasilis-tupídavidico e suas orgias natividades...

Os nóias filhinhos de papai em clãs falsos como notas de três reais
Os seres-reses em situação de rua - não constam em estatísticas
O morumbi (se gritar pega ladrão não fica um na geografia-beronha)
As importações insensíveis e o medo de mudanças que mudem mesmo
A mágica do dezelo público impune re-elegendo quem rouba e diz que faz
Discórdias sindicalizadas com pelegos no flanco querendo levar vantagem
Caras pintadas subjugados com medo da cota dos negros aos brancos
Condomínios sitiados por favelas, enchentes e ladrões de faróis
A Máfia do Lixo em contratos que cheiram mal e se consumam

(Trombadinha é a fome)

A bela prostituição generalizada de grosso calibre
As pegações-ping-pong dos estábulos entre jecas e rodeios criminosos
A manada de parangolés embrutecidos pela cidade desmiolada
Futebol-marionete entregue ao deus-dará da lavagem de dinheiro
A antimateria, a antipoesia, a marginália querendo gangrenar miolos
Tecnologias efêmeras, assédios de consumos em amebas com grana
Uma espécie de sub-rota para uma fuga em massa pra Miami-Esgoto
Alckmin, CPIs abortadas, bem parecendo um genérico de Collor-cover
O ladrão municipal e o ladrão estadual no mesmo antro cordial
Criticando uma Brasília federal com seus asnos e seus sonhadores
A justiça caolha e canalha de uma elite sem pudor em falsos credos
A imprensa marrom de um caostólico que cheira a formol
O padre-circo, o pastor-bunker, o espírita flanelinha num bat-macumba
E os jumentos da espécie entre universiotários e o sertãonojo
De brasis gerais em sépias de gruas entre o cimento armado

Os demônios do lucro amoral, riquezas injustas, propriedades-roubos
Lucros impunes - e os emo – ai de ti paulicéia desvairada
O rei rói a roupa do rato do maracatu atônito
Alguma brega parada suspeita, ou balada ou rave
O luxo-fusco: compram e gastam para saciar rebeldias inócuas
Lexotam: tomam coke zero e arrotam poses com flatulências sonoras
As tetas da vaca sampa suga sangue suor e a alma
De crianças e jovens, entre grades e aparelhos no dente como gps

E somos todos engabelados pelo corvo do consumo vil, na volúpia
Um Samparaguai sujo pela marginália de tantos num cardume
Entre fracassos-drops e casagrandes de oprimidos

Não conduzimos: somos conduzidos
Basta ver

No poder

De terno, gravata, túnica, toga, farda

E colarinhos brancos, os bandidos!

(Publicado, originalmente, na revista Germina Literatura)


EVOÉ LAROIÊ PIVA

Por José Geraldo Neres


no ventre paulistano
um MASP rachado
brinca de ser menino
de apunhalar as praças

memória devorada por suas tripas
templos & centopeias
cidade & anjos engraxates
nos lábios jogos noturnos
a porta & suas locomotivas
sinto as torres & o relógio sem nuvens
& o choque do cérebro

adormeço
– o suspiro da carne –

o girassol rói os olhos da morte

como atravessar espelhos se na vitrola
sugadora de desertos

os ponteiros se dissolvem

o tempo abre a janela de Breton

(do livro "Outros silêncios", Escrituras Editora, 2009; o original foi entregue em mãos ao Piva em seu apartamento na Santa Cecília, São Paulo)


MORREU O POETA ROBERTO PIVA

Por Jaime Leitão

O poeta mais paulistano morreu.
O poeta cosmopolita morreu.
O poeta marginal morreu.
Roberto Piva grita os seus poemas
pelas ruas de São Paulo
vivo
apesar de morto.
Ninguém escuta.
O trânsito caótico
a loucura
a pressa vertiginosa
impedem
que Roberto Piva
diga um poema de sua autoria
para lembrar
que a poesia não morre.
Roberto Piva
é um poeta
de ação.
A sua palavra é um manifesto
poético
que não termina.
Roberto Piva morreu.
Quem é Roberto Piva,
pergunta um passageiro
esperando
o próximo trem no metrô.
Chega o trem,
o passageiro entra
e nem se lembra mais da notícia
que voou nos seus ouvidos
como um pássaro fugaz
e etéreo.

(Publicado, originalmente, n o blog de Leituras e Propostas)


DESAFIO À ORDEM ESTABELECIDA

Por Rubens Shirassu Jr.


Os hóspedes incômodos
arrombam e devoram o interior
da casa na ordem do dia
Como um vento, arrastam
retalhando a vida
no verão dos dentes enfurecidos
Maquinaria, animália
face encarnada
na transitória passagem
da noite, impressa com sangue,
dor, solidão e desemprego
O poeta anda errante
pela Avenida das Esfinges
correndo da máquina
devastadora

II

Chamar o animal tutelar.
Conhecer a natureza paralela
novas tribos. Seguir a viagem xamânica
vida & poesia experimental
À deriva no rio da existência,
chinelo cósmico
pé-na-estrada luminosa
deixar de ser bibelô-eunuco
deste teatro máquina
registradora, paraísos artificiais
voltar a ser bruxo
nas matas e litorais.

(Grafitti para Roberto Piva, publicado no livro Cobra de Vidro, 1991, e-book independente, Presidente Prudente, São Paulo)


UM POEMA DE PIVA

PRAÇA DA REPÚBLICA DOS MEUS SONHOS

A estátua de Álvares de Azevedo é devorada com paciência pela paisagem
              de morfina
a praça leva pontes aplicadas no centro de seu corpo e crianças brincando
              na tarde de esterco
Praça da República dos meus sonhos
              onde tudo se faz febre e pombas crucificadas
              onde beatificados vêm agitar as massas
              onde Garcia Lorca espera seu dentista
              onde conquistamos a imensa desolação dos dias mais doces
os meninos tiveram seus testículos espetados pela multidão
lábios coagulam sem estardalhaço
os mictórios tomam um lugar na luz
e os coqueiros se fixam onde o vento dasarruma os cabelos
Delirium Tremens diante do Paraíso bundas glabras sexos de papel
              anjos deitados nos canteiros cobertos de cal água fumegante nas
              privadas cérebros sulcados de acenos
os veterinários passam lentos lendo Dom Casmurro
há jovens pederastas embebidos em lilás
e putas com a noite passeando em torno de suas unhas
há uma gota de chuva na cabeleira abandonada
enquanto o sangue faz naufragar as corolas
Oh minhas visões lembranças de Rimbaud praça da República dos meus
              Sonhos última sabedoria debruçada numa porta santa

(Poema do livro Paranoia, publicado em 1963, pela Massao Ohno, e republicado em 2000 pelo Instituto Moreira Salles)



Roberto Piva nasceu em 1937, na cidade de São Paulo, onde sempre viveu. Figura ativa no meio cultural e poético paulistano desde a juventude, teve seus primeiros poemas publicados na célebre Antologia dos novíssimos (Massao Ohno, 1961). Publicou os livros de poemas Paranoia (Massao Ohno, 1963, Instituto Moreira Salles, 2000), Piazzas (Massao Ohno, 1964, Kairós, 1980), Abra os olhos e diga ah! (massao Ohno, 1975), Coxas (Feira de Poesia, 1979), 20 poemas com brócoli (Massao Ohno/Roswitha Kempf, 1981), Quizumba (Global, 1983), Antologia poética (L & PM, 1985) e Ciclones (Nankin, 1997). Todos esses livros foram reunidos nos volumes Um estrangeiro na legião, Mala na mão & asas pretas e Estranhos sinais de Saturno (Globo, 2005, 2006, 2008).



JOÃO SILVÉRIO TREVISAN SOBRE ROBERTO PIVA

Por João Silvério Trevisan

Além de ter sido um amigo querido, Roberto Piva foi um personagem tão inesquecível quanto sua obra. As histórias que o cercavam constituem quase uma lenda, que ainda será contada, com tudo aquilo que implica de graça, inconformismo e criatividade. O clima de liberdade exacerbada perpassava igualmente sua poesia e sua vida. Ler sua obra é conhecer sua vida, e vice versa. Numa de suas tantas sacadas genais, Piva afirmava que "poesia é aquilo que sobra da orgia". Cheio de contradições, nunca se preocupou em não tê-las. Seus poemas eram escritos a mão. Sempre pedia que alguém os passasse a limpo. Nunca usou máquina de escrever e, menos ainda, computador. Não que não fosse antenado com o seu tempo. Mas gostava de juntar as pontas. Definia-se como um monarquista anarquista. Admirava os clássicos, mas suas leituras eram instigadas pelo desejo de compartilhar com os modernos e dialogar com seu tempo. Crítico do comunismo, amava Pier Paolo Pasolini, ex-comunista. Julgava o cristianismo a fonte de grandes males da humanidade, preferindo voltar aos valores pagãos. Feroz crítico da decadência da sociedade tecnocrática, era fã das corridas de carro da Fórmula 1. Muito antes da ecologia virar moda, Piva cultivava a sacralidade da natureza. Visitava regularmente o parque da Água Branca, para celebrar a natureza e tomar sol. Sempre que conseguia uma carona, ia para o mato nos arredores de São Paulo, para se encontrar com o gavião, seu animal xamânico. Seus poemas vinham em rompantes epifânicos. Era um adorador da beleza dos adolescentes, e sempre encarou o amor como um direito que não tem idade. Era um erudito no sentido mais legítimo. Lia incessantemente, e chegava a se endividar para comprar livros que considerava fundamentais, e que encomendava em livrarias importadoras. Suas leituras não convergiam para intelectuais da moda. Detestava a norma de que o trabalho dignifica o homem. Aliás, detestava a normatização dos valores humanos. Incomodou muita gente porque era incômodo, às vezes até mesmo a nós seus amigos. O viés paranóico que inaugurou sua obra funcionava como balize de sua vida. Era paranóico de fato, muitas vezes me atormentando com seus medos. Tinha pânico de avião, um dos motivos pelos quais não fazia viagens longas -- jamais para fora do Brasil. Adorava comer, e comer bem, se possível sem pagar. Para tanto, gostava de ser convidado . Beber vinho fazia parte da sua celebração dionisíaca. Quando eu viajava ao exterior, Piva fazia listas de presentes que queria. Quando voltei ao México em 2009, pediu que eu lhe trouxesse um objeto xamânico e uma lembrança de Nossa Senhora de Guadalupe, a seu ver uma força pagã que os cristãos cooptaram. Uma vez me deu de presente um tambor com uma varinha de goiabeira, para fazer preces xamânicas, que tenho até hoje em lugar de destaque na minha sala. Com a morte de Roberto Piva, perdi um grande amigo e interlocutor (mesmo quando divergíamos em política, o que acontecia frequentemente). Sua lição de poesia vai ficar como seu legado. Ela me ajuda a iluminar a vida e, espero, me acompanhará até a morte.



POEMAS DE ROBERTO PIVA

Niilismo .net
Unisex
Digestivo Cultural
Dali e Daqui


TEXTOS SOBRE ROBERTO PIVA

Felipe Fortuna
Sibila
Blog Du Bois
Shvoong
Estadão

9 de jul. de 2010

Tributo a Roberto Piva: primeira parte

Roberto Piva, poeta genial e contundente, nascido em 1937 na cidade de São Paulo, onde sempre viveu, autor de uma obra que só agora começa a ser realmente valorizada, faleceu no dia 03 de julho, depois de um longo período internado no Instituto do Coração.

O BULE, na intenção de contribuir para um maior reconhecimento da obra do poeta paulistano, convidou alguns escritores para lhe prestar um tributo, seja com um poema-homenagem, seja com um breve depoimento sobre ele ou sua obra. A quantidade de textos que nos chegou foi grande, prova da admiração de todos por Piva, o que nos obrigou a dividir o tributo em duas partes: na primeira, postaremos os depoimentos e, na segunda, os poemas-homenagem. Em cada uma dessas postagens, publicaremos um poema de Piva, retirado do livro Paranoia, que teve uma primeira edição em 1963, pela Massao Ohno, e uma segunda em 2000, pelo Instituto Moreira Salles. A seguir, indicamos alguns links onde o leitor pode acessar textos e vídeos sobre o autor e sua obra.

Bom mergulho no delírio poético e visionário de Roberto Piva.

Os Editores


BREVES DEPOIMENTOS

Piva, sua poesia, a primeira trombeta do apocalipse.
(Carlos Emílio Barreto Corrêa Lima, escritor)

O gavião de penacho voa para o desconhecido. Viva Piva. Abraços poéticos.
(Reynaldo Bessa, violonista, compositor, cantor e escritor)

Piva se foi. Mas permanece através da poesia, da sua enorme contribuição cultural, e de seus amigos.
(Claudio Willer, poeta e ensaísta)

Roberto Piva: O Horror Literário Contra o Esgoto Social no Pântano da Condição Humana.
(Silas Corrêa Leite, poeta)

A merecida atenção que a poesia de Roberto Piva começa a ter é prova de que a história da poesia brasileira nos últimos 50 anos precisa ser reescrita.
(Affonso Romano de Sant’Anna, poeta, cronista e ensaísta)

Piva, autor de um dos mais belos livros de poesia alucinada, São Paulo na veia, Paranóia e as fotos, poema-imagem.
(Italo Moriconi, professor e poeta)

Nosso Piva se foi, estamos todos de luto. Anos atrás, quando morreu meu filho, ele me ensinou a dizer: não há o que lamentar. Foi uma vida plena, erguida em poesia. Que revive em nós.
(Carlos Felipe Moisés, poeta)

A obra poética de Roberto Piva merece um estudo mais aprofundado em todos os aspectos, sob um olhar amoral, que foge das regras das ciências e da academia. Seus poemas instigantes e provocadores fazem refletir sobre os mecanismos de controle do Homem na sociedade.
(Rubens Shirassu Jr., escritor e cronista)

Pensar e falar algo de mestre Xamã Piva é complicado. Vou ficar sempre com a lembrança dele lendo ao telefone um poema inédito. Eu: um aprendiz. Ele ali falando o poema. É o sonho poético de qualquer leitor/admirador. É complicado, mas ele está alçando voos maiores na poesia cósmica.
(José Geraldo Neres, poeta)

Roberto Piva era a inquietação em pessoa. Criou versos com imagens que me impressionaram profundamente. Um exemplo: “arcanjos de enxofre bombardeiam o horizonte através dos meus sonhos”. E o homem não gostava de escrever. Sentia febre e mal-estar depois da incorporação. Para Piva, se Freud não tivesse existido as pessoas andariam pelas ruas arrancando seus próprios olhos. Era um xamã sábio e ilustrado. Evoé!
(Edson Cruz, poeta e editor)

Piva, o poeta que quebrou todos os paradigmas, vendo beleza e sensualidade nos meninos e garotos quando todos, sufocados pelo heterocentrismo, só têm olhos para a mulher. Ele olhou o garoto, provou de sua carnalidade e desta experiência forjou sua poesia com acento surrealista, barroco, absurdo. Sua coragem de enfrentar os modelos estabelecidos é uma lição de vida para quem prende-se a tabus idiotas. Ele viverá por esta coragem, por sua poesia inovadora.
(Paulo Venturelli, professor e escritor)

A marginalidade consequente foi a tônica da vida e da obra de Roberto Piva. Diferentemente daqueles incensados marginais da poesia e da prosa, que não passam de produto de um modismo ou de uma histeria pequeno burguesa para atrair a atenção da mídia ou de uma esquerda deslumbrada e alcoólica, Piva era um escritor apenas comprometido com a verdade estética: antípoda do mercado, das facilidades editoriais e do sistema de compadrio e vasos comunicantes que tanto vicia a crítica e as redações. Sua poesia refletia um consciente descontentamento com o mundo e as instituições (família, estado, moral, igreja, sociedade), transitava na contramão das escolas, dos movimentos, dos guetos e das irmandades literárias bem comportadas. Visceral, denso, intenso e tenso, Roberto Piva navegou na alucinada, mas lúcida, viagem de uma palavra que não admite qualquer tipo de concessão, senão ser espelho de nossas inquietações e canal de expansão onírica e expressão de um desconforto íntimo, de uma inquietação existencial, de um atávico questionamento filosófico diante do seu (nosso) deslugar nesse tempo e mundo coisificados, banalizados e sedentários, que tanto massificam e mumificam. Da mesma altura de um Rimbaud, de um Blake, de um Breton, de um Genet, de um Artaud, Roberto Piva iluminou o universo reacionário e fetichista da literatura brasileira com seu facho inconformado, mostrando a poesia que há na miséria e nos subúrbios geográficos e psicológicos. Como viveu e escreveu, ele queria “a destruição de tudo que é frágil:/
cristãos fábricas palácios/ juízes patrões operários".
(Ronaldo Cagiano, resenhista e escritor)

Li a poesia de Roberto Piva, pela primeira vez, na antologia 26 poetas hoje, lançada em 1976. Relendo agora os poemas de Piva publicados nesse livro, constato que, dos poetas brasileiros que conheço, ele terá sido o que levou às últimas consequências - isto é, à desagregação da referencialidade, ao abandono do pé de apoio no real - a escrita automática proposta pelos surrealistas. Uma década mais tarde, li a sua Antologia poética, organizada pelo próprio. Dessa vez, procurei deliberadamente, nesses poemas, estímulo para me liberar um pouco do pendor lógico, do metro mental que, achava eu, poderia limitar o que escrevia ou viesse a escrever. Acabo de reler a Antologia também. Confesso que, diferentemente de Piva, não sou hoje, como talvez nunca tenha sido, contrário a "todas as Ordens", como ele declara ser em breve "Biografia" ao final do volume. Vivemos na desordem, não na ordem - esta só se poderá alcançar de maneira pactuada, coletiva, coisa de que ainda estamos longe. A desordem travestida de ordem, na qual pastamos, é, ela sim, autoritária. Sem querer ser conciliatório, mas falando francamente, compreendo que necessitamos de autores como Roberto Piva para que o pendor à ordem - à simetria, às ideias claras - não se torne autoritário, restritivo, mesquinho. Reli hoje, com admiração, os seus poemas, que só aparentemente prescindem de organização estética. É preciso acrescentar que se trata de um grande escritor?
(Fernando Marques, jornalista e escritor)


UM POEMA DE PIVA

POEMA SUBMERSO

Eu era um pouco da tua voz violenta, Maldoror,
          quando os cílios do anjo verde enrugavam as
          chaminés da rua onde eu caminhava
E via tuas meninas destruídas como rãs por
          uma centena de pássaros fortemente de passagem
Ninguém chorava no teu reino, Maldoror, onde o
          infinito pousava na palma da minha mão vazia
E meninos prodígios eram seviciados pela Alma
          ausente do Criador
Havia um revólver imparcialíssimo vigiado pelas
          Amebas no telhado roído pela urina de tuas borboletas
Um jardim azul sempre grande deitava nódoas nos
          meus olhos injetados
Eu caminhava pelas aleias olhando com alucinada ternura
          as meninas na grande farra dos canteiros de
          insetos baratinados
Teu canto insatisfeito semeava o antigo clamor dos
          piratas trucidados
Enquanto o mundo de formas enigmáticas se desnudava
          para mim, em leves mazurcas


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