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4 de set. de 2025

A escrita delirante de Ariana Harwicz

 Por Márcia Barbieri

O livro é estruturado em capítulos curtos e fragmentados, apresenta mudanças de perspectiva e tempo.  Harwicz utiliza um fluxo de consciência que alterna os pensamentos das personagens com descrições de cenas externas. 

A obra é narrada em primeira pessoa por uma mulher jovem, que vive com a mãe no interior da França. O enredo apresenta essa dupla de mulheres que compartilham a vida numa relação íntima e violenta. Em vários pontos do livro mãe e filha quase se insere num estranho desejo de triangulação amorosa.

A mito do amor materno é um tema caro à literatura. A figura materna sempre está associada ao amor incondicional, não se espera que uma mãe odeie o fruto do seu próprio ventre.  A mãe encarna a validação de quem somos, faz parte da nossa história íntima, ela é responsável por aquilo que herdamos e raramente conseguimos fugir dessas heranças. 

Uma mãe pode odiar a própria filha? A resposta imediata seria não. No entanto, Ariana responde de forma diferente a esse questionamento, e A débil mental transforma essa pergunta numa escrita potente e visceral.

O romance questiona a lógica da mãe ideal, pois apresenta uma mãe que não possui nenhum traço de bondade ou abnegação, pelo contrário, encontramos uma mãe que é capaz de disputar o amante com a filha.

Com um olhar alucinante para as próprias experiências e traumas, a personagem desenvolve uma narrativa em forma de looping, levando o leitor a se perguntar se realmente aquilo é verdade ou faz parte de um surto psicótico.

Em A débil mental Ariana joga luz sobre o desenvolvimento da personagem da infância à vida adulta,  acompanha o seu processo de se tornar mulher e a brutalidade contida nas dinâmicas com a figura materna e com a sexualidade. Aqui, a mãe também é uma entidade sexualizada: “Na verdade, sonhando que entram dois indivíduos de chapéu de aba larga pela porteira, pedem licença e começam a nos violar contra as cadeiras, contra a gangorra de madeira na pérgola, uma por trás, a filha pela frente” (Harwicz, 2020, p. 12).


A forma de escrita de Ariana é singular, podendo causar certo estranhamento a leitores que estão acostumados com uma narrativa linear e explicável. Considero que essa é uma das melhores qualidades da escritora, pois não subjuga o seu leitor. Obviamente a autora não está preocupada com as exigências do mercado literário, ela não faz concessões e isso fica evidente durante a leitura. Segundo a própria autora: “A grande diferença entre um escritor e um trabalhador da escrita (ou um escritor profissional) é que o último controla a sua obra. Ele se põe a serviço da demanda. (...) Por outro lado, o escritor não profissional não pode controlar o seu coração, precisa fazer o livro que precisa fazer, até as últimas consequências” (Harwicz, 2024, p. 24).

Embora o romance não ultrapasse cem páginas, A Débil Mental não nos dá descanso.  Somos projetados para um fluxo de palavras que mistura realidade, ficção, fragmentos, delírios e pesadelos: “Vou dormir como o exercício de olhar fixo para um barranco antes de pular. Estão me amamentando. Eu me divorcio cerebralmente de tudo e já não estou nessa casona entre as pernas da mamãe nem com a boca sorvendo seu mamilo” (Harwicz, 2020, p. 20).

A autora faz com que encaremos de frente os seus fantasmas, que não deixam de ser nossos fantasmas também, ela nos dá uma rasteira e faz com que abandonemos nosso mundo cor-de-rosa e entremos em um cenário muito mais perturbador. Não é à toa que alguns leitores não foram capazes de seguir adiante.  Esse é um livro para pessoas audazes. Vale muito a pena a experiência!

 

Referências bibliográficas:

HARWICZ, Ariana. A débil mental. São Paulo: editora Instante, 2020.

_____________. O ruído de uma época. São Paulo: editora Instante, 2024.

 

Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979.  Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Participou de várias antologias e tem textos nas principais revistas literárias brasileiras. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno, As mãos mirradas de Deus e O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas. Entre os romances figuram Mosaico de rancores (Terracota, 2013), lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), A Puta, O enterro do lobo branco (Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e A casa das aranhas, semifinalista do Prêmio Oceanos e do Prêmio Guarulhos de Literatura.

14 de set. de 2020

Quer ganhar o romance 'A casa das aranhas', semifinalista do Prêmio Oceanos?

 

O romance A casa das aranhas é o terceiro da trilogia sobre o corpo. A história faz uma referência às histórias de horror do século XIX. O livro é dividido em capítulos cambiáveis, tendo um total de quatro sumários, ou seja, os leitores podem escolher quatro diferentes versões de leitura, uma clara homenagem ao grande autor Julio Cortázar em seu famoso O jogo da amarelinha. O livro é escrito em sete capítulos mais o prólogo e o epílogo.

O cenário é uma pensão em um povoado não nomeado, cada cômodo da pensão abriga um tempo diverso. Estevão, o empregado e que escreve a maior parte dos relatos, conhece três mulheres supostamente distintas, porque tinham idades e aparências diferentes, uma inclusive já estava morta dentro do caixão. Contudo, as três eram a mesma mulher. O mais engraçado é que apesar de vê-la agonizando e conhecê-la totalmente sem vida não o impediu de desejá-la de uma forma como jamais pode desejar novamente, provavelmente o único homem do mundo a conhecer tão intimamente uma mulher. Estevão também conheceu um homem sem cabeça, alimentou com as próprias mãos um cachorro verborrágico, viu um homem se duplicar bem diante do seu nariz e conheceu um homem sem truques.

Apesar do livro trazer personagens insólitos e uma linguagem beirando o poético, ele discute de forma profunda a aspereza das relações humanas e os jogos de poder que permeiam essas relações.

Capa comum: 216 páginas

Editora: Reformatório

Ano: 2019

ISBN: 9788566887631

Idioma: Português

Preço: R$ 40,00 (frete grátis)

Onde comprar:

Direto na Editora: https://editorareformatorio.minhalojanouol.com.br/produto/210823/a-casa-das-aranhas

Sobre a autora:

Márcia Barbieri nasceu em Indaiatuba, São Paulo, em 1979.  Formou-se em Letras pela Unesp e é mestra em Filosofia pela Unifesp. Participou de várias antologias e tem textos nas principais revistas literárias brasileiras. Publicou os livros de contos Anéis de Saturno, As mãos mirradas de Deus e O exílio do eu ou a revolução das coisas mortas. Entre os romances figuram Mosaico de rancores (Terracota, 2013), lançado no Brasil e na Alemanha (Clandestino Publikationen, 2016), A Puta, O enterro do lobo branco (Patuá, 2017), finalista como melhor romance de 2017 pelo Prêmio São Paulo de Literatura 2018 e A casa das aranhas, semifinalista do Prêmio Oceanos e do Prêmio Guarulhos de Literatura.

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Caro leitor, será sorteado 1 (um) exemplar do romance A casa das aranhas, de Marcia Barbieri. Para participar do sorteio:

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21 de ago. de 2020

Tempo de cão – capítulo 4

Por Marcia Barbieri

Nada mais mórbido do que compartilhar com um semelhante o tédio e a falência dos dias. Quando se devora um figo maduro também se engole a ideia da semente também se morde o fruto ainda verde vertendo leite que amarra a boca. Acendi um cigarro. Parei de fumar faz alguns dias, no entanto, só me lembrei disso depois da terceira tragada. Não voltaria, precisavam dos meus serviços. Um homem afeito a sua família jamais será capaz de salvar uma cidade, o amor te arranca as pernas. Não voltaria. Meu pai era como o pai de todos, compreendia que os filhos eram livres como as manadas e tinham asas como as galinhas, uma hora ou outra ciscariam fora da cerca e seriam abatidos. Não havia dúvida. Não havia choro. Por trás do muro, um pouco depois do quintal, existem perigos iminentes, um cão farejando outro cão, um urubu esperando a refeição diária, uma cobra pronta para o bote, uma besta procurando o alvo. A natureza se autorregulava pela fome. Eu também era um ser faminto. Não havia na cabeça do meu pai um pensamento mais elaborado sobre esses fatos. Desconfio que os pais sejam naturalmente amputados de afeto. O meu era. As mãos eram grandes, mas feitas exclusivamente para o trabalho, era igual a uma pedra de limar facas. O perigo se estendia em qualquer menção de afago, rápido recolhia os dedos para dentro das palmas. O animal mineral. Apelidaram o meu pai de duas caras. O motivo era bem óbvio. Ainda jovem sofreu de uma estranha paralisia, assim, tinha um rosto alegre e um rosto triste, usava ambos ao mesmo tempo, sem distinção das emoções. Eu também queria ter duas caras, assim bastava eu ficar de perfil dependendo da situação. Estava farto de ficar trocando as máscaras, era cansativo e ainda passível de erro. O bom é que no povoado não havia motivos para ficar trocando as feições, ali era tristeza o tempo inteiro, sorrir era extremamente ofensivo, sinal de mau agouro. Mais fácil assim. Antes da minha chegada os corpos eram amontoados no armazém, alguns passavam noites e noites dormindo com os mortos, ninguém queria recolher os cadáveres. E os mortos não aprenderam a cavar a própria cova. Em pouco tempo teriam que ser enterrados em trincheiras. A guerra chega vestida em muitos disfarces. Os mortos estavam angustiados à minha espreita. Pisei a terra dos infectados e pude ver seus olhos moribundos e arregalados de terror. Ninguém se acostuma com naturalidade a comer capim pela raiz. A produção de caixões era insuficiente. Muitos pensam que é simples como fabricar caixas de tomate. Antes fosse. Acreditam que não necessita de nenhuma arte de carpintaria, que qualquer idiota é capaz de fazer. Todos estão redondamente enganados. Não tínhamos mais empregados para o ofício. Não era um emprego atraente, ninguém crescia sonhando em ser operário em uma firma vagabunda de caixões. Além disso, quem estava disposto a doar as últimas horas trabalhando para o inimigo¿ Éramos uma cidade de velhos imprestáveis. Antes do surto passavam as tardes jogando baralho e dominó pelas praças. De repente, desapareceram. A fábrica não estava preparada para a tragédia. Ninguém estava. Foram todos pego com as calças curtas. Não adiantava ficar choramingando pelos cantos. A disseminação do vírus produzia mais mortos do que vivos. Os velhos viviam reclamando da miséria, mas quando souberam que estavam com os dias contados passaram a fazer promessas e novenas. Algum Deus mexeu os pauzinhos lá em cima, exigia de volta todos os nascimentos que derramou sobre aquele país de indigentes. O jeito era acomodar mais de um defunto no mesmo caixão, era preciso economizar cova. Até mesmo inimigos mortais foram abraçados para o além.

6 de ago. de 2020

Tempo de cão – capítulo 3

Por Marcia Barbieri

Não escutava mais os relinchos durante a madrugada. Não sentia mais o cheiro da bosta apodrecendo no estábulo. As moscas continuavam rondando o corpo do cavalo morto. O cavalo estava morto, mas as rédeas continuavam intactas. Acabou-se o trote o suor escorrendo nas ancas o coração acelerado o bater dos cascos o galope ansioso. Eu era um homem sem sombra    de dúvida. Sem sombra de dúvida eu era um homem. Não era nem as rédeas nem a mosca nem o galope morto moribundo. Não era nem o discurso nem a língua sombreada nem a baba branca do epilético. Eu era um homem   sem sombra de dúvida. Atento o ouvido na parede, já não posso escutar a respiração ofegante de minha mãe, suas tetas já não invadem minha cara. Posso respirar longe do seu corpo, seu corpo não é a minha casa. No entanto, posso ouvir os seus soluços. Até os crocodilos costumam chorar, não é isso o que dizem¿ Lágrimas de crocodilo¿ Sim, minha mãe chorava lágrimas de crocodilo. Não se parte em dois para evitar a solidão, cada um que aprenda a lidar com os seus infortúnios, cada um que mate seus próprios demônios. A figueira se desenvolve bem em locais de clima temperado, mas não suporta geadas. Não me importo com a infelicidade alheia. Ninguém me ofereceu um naco de pão quando estava faminto. Quantos olhos te olham quando você tropeça¿ 

Eu me responsabilizava apenas pelo café que estava no fundo da minha xícara e nada mais. Não nasci para agradar ninguém. Não estava a fim de fazer concessões. Quando estamos presos numa jaula com um leão não nos admiramos pela possibilidade de sermos devorados. Não voltaria. Um filho precisa de uma cartografia maior que a carne de sua mãe. E uma mãe não pode cobrar a vida inteira por alojar o filho em seu útero por alguns meses. Invejo a solidão da ave que nasce distante da cloaca de sua progenitora. Da cria que não sente a saliva pegajosa da mãe passeando pelas dobras do seu corpo nu. A consanguinidade não amarraria os meus pés, tampouco selaria a minha língua dentro da boca. Não existe egoísmo maior do que amor esparramado. O amor exige a castração do objeto amado. As suas tetas ainda pingam leite. Vejo as manchas no seu avental. Precisa eliminar os ramos do passado que já estão secos. Não se pode ter um animal dentro da barriga infinitamente. Ninguém a alertara¿ Uma hora o diabo exige sua cria. Urrava. Urrava de novo. De quais genes ela fez o seu desastre¿ Qual buceta se abriu e a derramou¿ Não nascera da buceta de Deus, isso era certo, não passaria por uma fresta tão estreita e escura. Mais fácil ter sido cuspida pela boca larga de uma chimpanzé. Fixava nos seus olhos e via apenas uma grande carcaça. O seu corpo era uma carroça extensa guiada por bois cegos. Não reconhecia aquela monstruosidade como antiga morada. Eu fora arquitetado no ventre da rocha. Não queria passar meses pensando em cosmologias que não me levariam a nada. Eu não esperaria anos e anos sentado para recolher seus ossos. Se eu fosse um cão talvez esperasse para roer o tutano das suas costelas, eu não era. Eu era o tipo de animal inofensivo, porém orgulhoso. Não tinha o hábito funesto de lamber as mãos dos meus dessemelhantes. Nem cravaria os dentes nas canelas dos meus inimigos. Não latiria para assustar os fantasmas que perambulam pela noite. Não ajudaria. Seu esposo que cuidasse dos seus restos. Não foi para isso que inventaram a instituição matrimonial¿ Para que mais seria¿

21 de jul. de 2020

Tempo de cão (capítulo 2)

Por Marcia Barbieri

Livro Um – Um homem sem sombra

 [Sentei no alto da montanha, peguei o binóculos do meu falecido avô e observei a trágica comédia da vida] 

Cutuquei. Estava viva.

Cutuquei. Estava morta.

Um zum zum zum de moscas.

Uma falação de fantasmas.

Cheguei antes de amanhecer em Sombrio. Eu vim a pedido do meu pai e pela boca insossa de minha mãe. Minha mãe pouco falava, no entanto, seu corpo se estendia em um falatório sem fim. Da sua língua comprida em riste se fez a ausência do meu verbo. Da sua vértebra curvada se fez meu andar altivo. Eu era um figo amadurecido que já não se sustentava no pé. Ela cutucava o próprio umbigo e depois levava o dedo à boca. Observava a sua saliva absorto. Ela me devolvia o olhar com a baba branca já escorrendo pelo peito. Era um gesto desesperado, eu sei. Talvez procurasse a origem da desgraça. Sem se dar conta que a maternidade era a raiz da sua desventura. De repente percebia que o útero era uma construção anatômica que se assemelhava a um patíbulo. Talvez fosse uma questão de tempo até ver os condenados pendurados pela traqueia. Qual de nós tomaria partido e impediria o enforcamento¿ Qual monstro poderia duvidar da crueldade de sua própria cria¿ O monstro nutre uma falsa esperança de sacralidade. No entanto, não podemos fechar os olhos diante do assombro. A maldade pode ser adivinhada no gesto primeiro, no choro inaugural ou numa inocente mordida nos seios. O canibalismo começa com o filete de sangue misturado ao leite materno. Eu não estava mais dentro dela, às vezes, ela se esquecia e me empurrava em direção a sua barriga com o intuito que eu nunca partisse ou que voltasse em breve. Prepotência. Não estava preparada para o abandono. Desde criança ouvira que os filhos traziam alento e sossegavam apenas debaixo das asas da mãe. Não sabia que alguns filhos eram capazes de amputar os voos de sua genitora. Aquela velha história mentirosa do filho pródigo. Sentava de costas para a janela, uma evidente negação da extensão fora do seu corpo, colocava as mãos sobre meus olhos, numa espécie de venda artificial, não me explicara nada sobre a diáspora, aprendi num livro de geografia. O mundo é só uma placenta mais espessa e elástica, a qual não temos que atravessar, meu filho, não vale a pena se cansar, veja, suas pernas são tão fininhas! Venha, sente no meu colo. Daqui a pouco começa o temporal, escuta escuta os trovões se aproximam. Miocárdio, também aprendera essa palavra e não conseguia parar de soletrar mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio. Ventrículo direito ventrículo esquerdo veia cava aorta. Por acaso todos os mamíferos amam da mesma forma¿ Porque eu amava de uma forma frouxa, como se tivesse sido chocado e não parido. As paisagens de dentro eram foscas, enxergava cor quando caminhava fora do quadrilátero que me fora destinado. Mãe não conseguia compreender minha deformidade congênita, não aceitava que a minha mente era dada a espetáculos puramente abstratos. Embora tenha sido, como muitos, gerado dentro da casca, tornei-me um ser avulso. Você já viu um rato perdendo a vida ao tentar devorar o queijo da armadilha¿ Ela parecia um rato prestes a perder. Porém, o seu declínio não me provocava pena, um incômodo talvez. A tragédia visitava pouco a pouco todos os seres, era preciso se habituar. Um cômodo, dois cômodos, três cômodos, a casa não pararia o seu crescimento, quando mais eu me movimentava, maior ela se tornava. Meu lar não podia mais ser mapeado. 


6 de jul. de 2020

Tempo de cão (capítulo 1)

Por Marcia Barbieri

Livro zero – Anatomia dos mortos

Era gorda e grande. Essas são as impressões mais fortes que guardo daquela tarde. O peso quase insuportável do caixão e o sol comendo meus miolos. Não deveria haver enterros nas tardes quentes. As flores das coroas estavam murchas, não aguentaram a quentura. Meu corpo estava empapado de suor. Uma perna raspava na outra e a cada passo ficava mais incômodo. Queria fumar, mas era impossível manter uma brasa na boca. Espero morrer no inverno. Não vejo cabimento a pessoa se extinguir justamente no verão. Olhava para a cara de Donana e ela parecia se divertir às minhas custas. Menino tonto, carrega direito esse caixão, se não se comportar te dou uma sova e ainda conto tudo para o seu pai. Era mesmo uma fofoqueira, não duvido que fosse se queixar de mim ao meu pai. Não coube em um caixão convencional, tiveram que fabricá-lo às pressas, ninguém imaginaria que um dia ela morresse. Dava nó até em pingo d’água. Todos do povoado juravam que ficaria para semente. Estavam enganados. Parece que Donana fizera questão de engordar o quanto pode nos últimos anos, sabia que assim ninguém esqueceria do tamanho da sua presença. Eu e mais cinco homens carregavam o seu caixão, no entanto, a carga era tão descomunal que uma das alças quebrou, fazendo com que todos perdessem o equilíbrio e deixassem o corpo cair. Não nos sentíamos culpados com isso, poucos teriam nossa coragem. As suas roupas ficaram sujas e amarrotadas. Demoramos mais de meia hora para ajeitar a defunta novamente e seguir o cortejo. Alguns gatos pingados, o dono da mercearia, a benzedeira, um homem que se dizia padre e meia dúzia de curiosos. Justo ela, o seu sonho era um velório lotado, em que as pessoas disputassem espaço para se despedir. Não perdia um enterro, dizia que assim garantiria uma morte farta. Donana fizera questão de morrer no dia mais quente do ano. O ventre estava enorme, tínhamos a impressão que estava prenha da humanidade inteira. No entanto, era só a gordura acumulada ao longo da existência. 


Loquinho vinha logo atrás e se pendurava no corpo da velha, deixando nossa obrigação ainda mais insustentável. Acorda macaquinha, vamos, acorda macaquinha preguiçosa. Não seja boba menina para de brincar de morta vamos logo acorda coisinha feia vem correr atrás de Loquinho Loquinho está cansado de chamar vem vem logo macaquinha feia macaquinha danada se não pular logo daí vou te pegar de cinta. Loquinho era quase tão velho quanto Donana, mas tinha juízo de um garoto de cinco anos. Era engraçado quando uma criança habitava o corpo desgrenhado de um velho. Confundia morrer com dormir, seu afeto era tão sincero quanto o dos animais diurnos. Os seus pensamentos eram tão leves que recordavam passarinhos, girassóis e beija-flores. Às vezes, sem querer falava alguma sapiência, o resto era só bobagem mesmo. Vamos, Loquinho, deixa a gente passar, sai de cima de Donana, ela quer dormir sossegada, vamos, sai de cima, prometo que daqui a pouco te compramos um pirulito, vai, se afasta um pouquinho, amanhã vocês brincam mais. Tentava a todo custo despertar a velha amiga, alternava doçuras e xingamentos, enraivecido por ela se dar ao luxo de um sono tão profundo em pleno sol a pino. As outras velhas se negaram a participar do cortejo, tinham medo de espiar a morte e a morte resolver levá-las. Não seria improvável, afinal, já faziam peso sobre a terra faz tempo, não seria estranho se, de repente, desencarnassem. Ficaram confinadas em suas casas, olhando a tragédia pela janela, como se a morte não pudesse atravessar suas venezianas. Quanto a mim, eu ainda era jovem, teria a vida inteira para construir minha mortalha. Meu pai não permitiria que eu morresse tão cedo. Loquinho faleceu uma semana depois, dizem que seu coração parou, não suportou a dor da lonjura.

15 de jan. de 2013

Uma literatura de nocaute

Por Marcia Barbieri


Silente

A literatura é a boia dos desesperados, quem escreve tem que aprender sobre os escafandristas, tem que conseguir enxergar os peixes abissais sem perder o rumo. Renato Tardivo aceitou esse desafio, teve coragem de vasculhar esse lugar de seres dementes, de seres marginais, de rostos insólitos. De todas as narrativas, considero o conto um dos gêneros mais difíceis, talvez ele só perca para a poesia. É uma ilusão acreditar que por se tratar de um texto curto ele exija menos do autor, eu diria o contrário disso, é preciso sintetizar, cortar o inútil para que o imprescindível venha à tona, sair do abismo profundo e encontrar a superfície, onde flutuam as vitórias-régias. Isso não é uma tarefa fácil, sintetizar não significa ser breve, mas usar poucas palavras para fazer um universo respirar, sacudir, gemer.

Lendo o livro de contos Silente experimentei na pele uma das definições que mais gosto de Cortázar sobre   o gênero contos. Cortázar diz que enquanto o romance ganha por pontos, o conto ganha por nocaute. Foi assim que me senti ao longo da leitura, sendo constantemente nocauteada. Nenhum leitor poderá sair ileso, sem hematomas depois do contato com as palavras de Tardivo. O autor sabe como se mover dentro da estrutura do conto, não peca por excesso, nem é breve a ponto de deixar os leitores decepcionados, seus contos são muito bem amarrados e apesar de ser um autor novo podemos ver que não é inexperiente, ele sabe manejar muito bem a sua matéria-prima, ainda que se trate de uma matéria porosa, aerada.

Eu me arrisco a dizer que esse escritor tem um apego às circularidades do tempo, poderia afirmar que suas narrativas são enrodilhadas, uma narrativa-oroboro e por vezes, temos a impressão de apreendê-la, no entanto, na próxima linha percebemos que fomos mordidos no rabo pela cobra de nossa ignorância, de nossa pretensão.

A narrativa de Tardivo é um retrato do homem, não diria que é um retrato do homem contemporâneo, mas dessa espécie de homem universal que atravessa todas as épocas, é o retrato dessa alma ancestral, primata, dessa ânsia humana que não passa com o tempo, apenas modifica de circunstância. O mesmo homem-tédio que nas cavernas manejava a pedra e agora maneja o computador.

Encontramos em Silente um flâneur, não um observador externo das ruas, mas alguém que olha os becos, os esgotos humanos, um flâneur íntimo. As suas descrições não são do fora (mesmo quando se trata de mostrar objetos ou cenários), suas descrições são obscenas, eu diria que Tardivo é um anatomista da alma humana e ao longo dos seus contos tomamos nota das nomenclaturas da solidão humana, ele disseca a angústia e nos devolve um quadro desesperador.

Renato não é um autor pronto, porque nenhum autor jamais está pronto, todo escritor é um protótipo, uma máquina experimental, jamais está formado, nunca está a salvo, situa-se entre a emersão e o afogamento, o autor é o próprio devir e é isso que faz dele um ser especial.

O que mais posso dizer sobre essa escritura de desespero? Posso apenas deixar uma alerta ao leitor: se você não está disposto a mergulhar esse livro não é para você, esse livro é para os que têm coragem para o salto mortal.

Livro: Silente
Autor: Renato Tardivo
Editora: 7Letras

6 de jan. de 2013

A puta - XI


Deixei bem claro que eu cumpria como ninguém meu papel, e o meu papel não era dar amor, era trepar, amor era coisa comprada, custava caro, era mercadoria importada e não conhecia quem vendesse por aquelas bandas. Abaixei suas calças e fiz uma chupeta bem feita. Ele espirrou o jato quente na minha garganta. Fiquei com aquele líquido pastoso um tempo na traquéia, ele demorou um pouco a descer, fiquei intrigada, nunca tinha sentido algo tão denso, que se nega a desmanchar. Confessou que era poeta <então entendi tudo> e por isso trazia a carne putrefata e o mau cheiro, esperava que eu não me importasse, ele já tinha usado todo tipo de perfume e nenhum era capaz de disfarçar a carniça. O cheiro também o incomodava e crescia com os anos, há alguns em nem sequer conseguia sentia nada, agora quase não consigo dormir com esse odor terrível, tenho insônias tenebrosas. Os poetas trocam de pele como trocam de roupas, o dia todo eu me decomponho, está vendo¿ Tem pele descolando por toda parte, poeta é uma espécie de leproso incurável. Não me importava, já tinha visto de tudo. Depois continuou como louco acariciando minha pele, apalpando meus peitos, lambendo minha buceta, enfiando o dedo nas minhas entranhas, seus dedos pareciam uma pinça feita de desespero, enfiava, chegava a suar a testa com o esforço, como se tivesse a intenção de arrancar o que eu trazia escondido por dentro, de lançar minhas trompas aos cachorros. Não tenha medo querida, estou empolgado porque você é a primeira mulher pura que como. Não pude resistir e soltei outra gargalhada, dessa vez ainda mais alta, esperei e escutei de volta seu eco, ele estava de sacanagem comigo, só podia ser. Uma mulher pura, eu¿ Você só pode estar de brincadeira¿ Você é poeta ou comediante¿ Bem, não sei se há grande diferença entre os dois... Vou te explicar o que chamo de pureza. Cansei de foder quem me fode a cara. Tenho levado porrada à toa. A vida inteira tenho comido apenas as mulheres de alma elevada. Mulheres que declamam Paul Celan, discutem sobre dialética e sabe o nome de todos os músculos que produzem o riso. E o que isso me trouxe¿ Nada, absolutamente nada. Percebi que a maioria das mulheres intelectuais não passam de um boi que acabou de ter as vísceras retiradas no matadouro. Todas bichos empalhados. Fazer amor com o ser amado traz à superfície os escorpiões que se escondem nos buracos. Não queria ter dormido com seres que eu amava, preferível a isso seria dormir aconchegado com meu pior inimigo, esperando uma faca me atravessar. Só quem te ama pode te levar ao inferno, pode te fazer andar por lá, pode te fazer encarar o diabo. Não posso chegar ao gozo com tantas amarguras percorrendo meu pau, minha memória, meu pau tem memória e eu tenho memória de elefante, sabe¿. Com você é diferente, seu corpo, seu sexo me é virgem, sua carne é macia, não traz nódulos de outros tempos, não tem ranhuras nem cicatrizes. Eu posso adormecer no seu colo e não cair em abismos, em precipícios. Eu posso oferecer meu pau a sua boca e saber que ele não será decepado, posso oferecer todos os meus membros e saber que nenhum será amputado. Enfio minha língua no meio de suas pernas e sei que o líquido que escorre não será ácido a ponto de me corroer. Sabe, houve um dia em que eu era esquecimento, mas aos poucos fui perdendo o interesse pelas coisas que me faziam humano, observava as guelras suspensas da noite, a pele morta dos répteis... disfarçava meu anseio e passava a mão pelo meu crânio e ela afundava devido a fissura provocada pela trepanação do tempo, apalpava meu ventre e sentia a cada dia que o tamanho do meu intestino diminuía consideravelmente e depois de alguns anos eu não era nada além de um peixe estripado bem na época da desova, um ser vazio, esquecido à margem lodosa do rio. Senti um pouco de raiva daquela falação toda, ela me incomodava, uma ejaculação cerebral inútil, além disso, me fazia lembrar do filho da puta daquele filósofo, não via muita diferença entre os poetas e os filósofos, os dois não mantinham o pau em pé quando o cérebro funcionava, os dois misturavam tesão com citações bibliográficas, tentavam impressionar com a exatidão frouxa das palavras. Nenhum dos dois entendia que as palavras eram mortas e a língua no sexo valia mais que um bando de léxico sem sentido.

6 de dez. de 2012

A puta - X


A culpa deve ter sido da minha mãe com suas feitiçarias. É melhor continuar à beira da cama. Entre os dentes do cão a fresta é branca. As madrugadas mais bonitas são aquelas invadidas pelos tiros de canhão, é mais bonito que fogo de artifício. Ninguém ouviu falar dessa guerra, assim mesmo ela deve estar pintada em algum quadro. Até menino morto é bonito na mão de artista. Muitos homens perderam seus filhos, suas esposas, suas orelhas. A minha orelha continua intacta. Escuto o dia todo abelhas zunindo do meu lado esquerdo. Isso não é agradável. Uma colmeia no crânio. Um enxu. Um candomblé. Formigas picando meu cérebro. Ontem sonhei tava nevando na minha cabeça. Além disso, a acústica do vazio não é muito boa, mas posso afirmar com certeza que eram lâminas. Cegas, talvez por isso depois veio o falatório, os gritos, as fibras sendo covardemente rompidas. Um pano podre. A demora do ato foi tanta, uma interminável luta corporal, que é mesmo possível se tratar de uma faca de serra. Não me assusta a morte, o ritual me assusta. Torcer o pescoço de uma galinha é mais cruel do que atirar no pai. Não tinha imaginado tal loucura, no entanto, agora que citou, sim é possível, explicaria muita coisa. Não conheço a vítima, como posso saber se tem inimigos? Não conheço nenhum homem que não tenha ao menos meia dúzia de inimigos. Você conhece? Não acredito que seja útil analisar o terreno. Essa região não deixa impressões digitais e depois o que adiantaria a digital de um bandido desconhecido, sem eira nem beira. Um natimorto para o mundo.  Aqui está cheio de gente assim, que não existe para o sistema. ¿Quantos zeros à esquerda a matemática pode comportar¿ Agora eu sou a única nos arredores. De forma alguma, isso não me faz suspeita, me faz vítima. Quando cheguei com os olhos tapados e as mãos atadas logo percebi que aqui as flores não murchavam, assim como não nasciam. Um cemitério loteado. Eu esfolava a vida em potencial das sementes. As flores não murchavam, também não nasciam. Eu esfregava os dedos e esfolava a vida em potencial das sementes. A terra era fofa, quase movediça, embora não houvesse rios ou córregos por perto. Os pés gordos afundavam com facilidade. Uma terra de ninguém. Era uma estrada quase asfaltada, os homens não tiveram coragem suficiente para despejar o piche por aquelas bandas. O chão era tão preto nos dias sem lua, que eu realmente acreditava que a civilização comia e cagava ali por perto. O farelo e o cheiro de porcos não saia das minhas narinas e meus dedos se perdiam em seus rabos enrolados. Os curto-circuitos não chegaram. Os postes não chegaram. A vida foi ficando rarefeita. Eu era uma puta na esquina escancarada do mundo. O fundo do lixo. Todos os gatos eram pardos e não miavam, reviravam as latas em busca de restos, mas os restos já tinham sido devorados pelos homens. Algumas vezes fiz companhia a eles. Porque também sei sobreviver do que não serve a mais ninguém. Cansada do sucesso me esbaldava na desgraça. E se eu ainda estava aqui é porque queria ver os miolos de perto. A morte sem a tragédia e sem as representações não provoca o choro.  Os homens gregos invocando mulheres, com suas máscaras fajutas ainda me fazem rir. As notícias são vagas e trazem a fragilidade dos discursos humanos. Estalava o chiclete na boca e enfiava os dois dedos nos buracos dos dentes. Minha-boca-minha cova. Isso me acalmava, às vezes rangia os dentes. Era uma das minhas distrações preferidas. O que acabou me custando muito, minhas mandíbulas estalam e desencaixam no meio dos beijos e dos boquetes. Fiz disso um diferencial, uma idiossincrasia como dizia o filósofo, cobrava mais caro por isso, o que de certa forma era ridículo já que o ouro não valia mais nada. As minhas refeições são verdadeiras sinfonias. Minha saia deixa à mostra duas coxas que já foram grossas e firmes. Hoje são como duas próteses mal feitas. O importante é o oco vermelho - carne viva - molusco morto sem pouso a devorar a gosma branca. Corvo copulando com defunto. O branco reproduzindo a indelicadeza. Em todas as mãos carrego as cicatrizas da brutalidade. É mais fácil respirar do que sobreviver. Virgilio chegou numa noite dessas em que a lua e o desejo são minguantes. Nessas noites em que há mais baratas que estrelas. Percebi que seu dorso trazia um sol vermelho e embora cansado nunca se punha... Não pronunciei nenhuma palavra porque podia ler em sua cara que estava farto dos discursos fáceis. E pra mim era muito mais fácil calar, assim os insetos não podiam copular na minha língua. Ordenou que eu arrancasse a roupa porque queria um amor sem nódulos, sem nervuras. Não queria me tocar e sentir ossos expostos pelo meu corpo. Certamente ele me confundia ou era um tresloucado. Já nasci com a cloaca purulenta. Não pude segurar a gargalhada, que ecoou pelos quatro cantos do cubículo, como uma puta poderia saber fazer amor¿ Logo eu que media os homens pelo tamanho do pau. Como uma mulher qualquer pode saber fazer amor conhecendo as fraquezas e as perversidades do macho¿ Há uma lua podre na face de todo macho e é possível entrever sua escuridão. O amor é só uma ideia tola para distrair a mente limitada e oca do homem, não conheci quem tenha vivido o amor, apenas alguns dementes que confundem amor com sofrimento compartilhado.

21 de nov. de 2012

Cariátide

Por Marcia Barbieri


Continuo costurando, estou me tornando boa em disfarçar os pontos sob a pele branca. Embora a queloide se estenda por um dos meus braços e eles apenas dizem que sou geneticamente predisposta  a criar dobras sobre a pele. 

Depois da queda, passei duas madrugadas fazendo o enchimento, estofa velha cheirando a mijo de gato, era necessário disfarçar o oco que me esvaziava, que comia minha carne, que desgastava minhas cartilagens. Era preciso parecer que os órgãos ainda estavam lá, que as vértebras ainda eram móveis, era preciso fingir que os ratos ainda copulavam nos esgotos gerando homens-simulacros, era preciso fingir que eu era uma dessas crias, fingir que eu teria orgasmos quando meu clitóris fosse tocado por uma língua, e quantas vezes precisei mentir que havia um clitóris sobre minha vulva. Era preciso ser uma boneca cheia, dessas com glândulas sudoríparas, dessas que têm pálpebras, que abrem e fecham os olhos e não causam estranhamentos, dessas que quando morrem são carregadas por formigas famintas, dessas que fedem como cavalos, que fodem como cadelas, era preciso ser um desses corpos que explodem ovos de baratas.

Entretanto, é preciso dizer que eu era mulher, feia mas mulher, que a minha vagina me enjoava e que tive mais poluções noturnas que orgasmos e todas as minhas fendas causavam mais pavor do que prazer. Torno mecânico.

6 de nov. de 2012

A puta - IX


Não compreendo seus ditos, mas acho bonito gente falando floreado. Dando nó no trapo da língua. O linguajar fica parecendo escultura lá da mão do Carlinhos. Viu o anjinho que ele fez? Só faltou voar. Política não entendo. Vou atrás dele como em romaria, desgastando o resto dos ossos. Romaria não é protesto, é tumulto bonito de se vê. Não tenho filho vivo, a minha mulher morreu de tédio e monólogo, não quero o mesmo destino, embora ainda sonhe em ir pra junto dela. A morte sem uma companhia deve ser muito chata, eu não gostaria de falar comigo eternamente, visitar os lugares em que vivi e não poder ser visto, olhar plantação de longe e não poder matar as pragas, ver meus companheiros e não poder tomar uma cachaça. Tristeza não é feita pra gente, é coisa de cachorro sarnento. Carrapato quando entra na carne apodrece tudo. Cachorro amanhece com a tripa preta enroscada. Filhote nasce com cordão enrolado no pescoço. Eu vou pulando enquanto o couro não salta do esqueleto. Uma hora a folia acaba. Deus arranca nossa fantasia. Quero morte mansa, que venha criança, na ponta dos pés, feito gato beirando a cama. Quando eu abrir o olho, já amanheceu de noite. Sem estrela. Breu, saco de pão vazio. Galopes sem vigílias. O que farei de manhã quando não houver mais para quem contar meus sonhos. Nightmare. Égua da madrugada. A lembrança do infanticídio me atormenta, pare com isso, tem desespero que é feito carniça, é preciso enterrar para que nenhum cão encontre. A saudade quase me matou, não quero ela de novo perto de mim, ela parece foto 3X4 na carteira, não me dê corda, isso é assunto pra outra hora. Um dia, quando eu estiver próximo da partida, talvez te conte como tudo aconteceu, antes disso não, ferida que é muito cutucada cria pus, junta mosca, tem corte que necessita de uma boa sutura. Não insista ou eu acabo perdendo as estribeiras. Foi isso, foi assim com Gaguinho e aconteceu com a maioria, seguiu sem motivo. As pessoas esperam algo que as convença, um pouco ao menos. Sem convicção para que toda essa pintura alucinada, esses pássaros sem pouso? Essa tela povoada de branco? Pobre não pode ver homem vestido de santo. A vila foi perdendo os pés. A distância fez o vento apagar o caminho de volta. A canseira gangrenou os passos pra trás, continuaram seguindo. Tanta parentela do diabo perdida poraí. Eu continuei aqui. Sem identidade, raiz frouxa, tubérculo humano. O mundo é redondo, não é o que dizem? Não gasto sola pra depois voltar com o rabo entre as pernas. Murcho, fruto pendido do pé. Goiaba branca bichada fica preta. Resisti, sou mulher de muita carcaça. Não me perco nos versos, nas linhas vagas, nas redondilhas, na margem de folha amassada. Minha palavra é linha reta. Não me perco nas pernas varicosas de Deus. Homem que fala bonito rimado esconde maldade na alma. Tenho pra mim que os anjos são mudos, não têm língua, não sofrem desse mal. Só os mortos foram ficando tagarelas, marcando trilha. Semente semeada que não dá em nada. Os pregadores foram deixando rasgos nas roupas esquecidas. Se acalme, não adianta pressa, aqui não segue sua lógica, continue sentado na sua cadeira de couro que boi morto não muge. Essa terra tem suas regras, suas leis, sua cronologia, seu espaço, seu espelho. Homem que não se retrata aqui se torna solitário, não dá nó em gravata. Aqui caracol é quadrado e objeto de culto. Já viu moleque matando lesma com sal? É tão perverso ver o tempo encurtando no corpo do bicho. Você é real? Até duvido da sua existência-almofadinha-, ela é muito diversa desse buraco. Você olhou as carcaças que se amontoam lá fora¿ Por que só eu posso enxergar¿ Não queria ter nascido com tantos olhos vigilantes.

20 de out. de 2012

Gênese

Por Marcia Barbieri

Ela estava há milênios ajoelhada naquele cubículo e expunha com certa vaidade uma fratura no fêmur esquerdo. Brincava com uma Matrioshka. Tirava e recolocava as várias bonecas russas, enfiava o dedo no miolo, encontrava a menor de todas, rasgava com uma faca, duvidando da sua entranha oca, do seu corpo sem órgãos, como se através dessa manobra pudesse resolver sua demência ou seus problemas de ancestralidade.

Olhando-a assim, acreditei que ela jamais morreria, estava enganado, ela era uma barata branca e logo seria esmagada.
Não foi fácil ver seu corpo estendido na pedra. Aqueles seres estranhos, vermelhos e mascarados (sempre considerei a máscara uma repetição desnecessária), falando línguas estrangeiras, dançando e urrando, imitando o som gutural dos animais. Ofereceram-me um cálice de sangue, eu deveria celebrar a morte, sacralizar o útero que foi meu abrigo, minha origem. A caverna era escura, úmida. Havia na parede da rocha, atrás do seu corpo, o desenho de uma vulva aberta e gigante, em volta caçadores com seus membros em ereção, em outra gravura um antílope estava montado em uma mulher nua e grávida, aos seus pés demiurgos ejaculavam.
Colocaram em minhas mãos um instrumento pontiagudo, fizeram gestos que indicavam que eu deveria retirar as vísceras do cadáver e fazer uma trepanação. Hesitei, mas concordei, a matéria era uma abstração e nunca foi sólida, era uma rachadura, uma trinca no tempo-espaço.
Sei que existe um animal rastejante que circula em sentido anti-horário pelo meu útero (sou um homem castigado com um útero) se espreguiça nas minhas trompas, se enrosca nas paredes do meu intestino, como um cão de rua que não morde, mas fareja, mas fede. Trêmulo começo a estripar aquele corpo-origem. Partenogênese. Ovo cósmico.
O ritual de sepultamento continua e eu sigo fazendo a trepanação. Lamento porque nunca me senti parte desse mundo, porque quando cheguei o mundo já estava instituído. É como se eu fosse uma orelha implantada no organismo de um sapo. É como se eu tivesse despencado em um país estrangeiro e por todos esses anos continuei um exilado no meu corpo-máquina. Preciso ser civilizado, sou homem e preciso entender o sorriso fingido dos hipócritas, a boca banguela, desnuda dos desalmados. A humanidade se alimenta parindo ovos chocos. Preciso ser homem, trabalhar, acasalar, conversar, entender de política, entender a rosa dos ventos, fingir felicidade, matar os porcos que aparecem nas noites sujas, quando tenho as vértebras trincadas e pinos na mandíbula.
Nasci no corpo-simulacro de um homem evoluído. No entanto, minha alma tem uma corcunda feia e incurável, minha alma é de um egiptopiteco, um primata franzino de seis quilos.
Então, diga, como não ser arrebatado se não tenho olhos nas costas? Ando atento pela casa e em todas as portas multiplicam ferrolhos enferrujados. Como posso sorrir se sou um amontoado de átomos, os quais poderiam tanto estar em mim como numa cadeira de vime. Ela me falou que eu era fraco e por isso estava em eterna diáspora. Eu catava piolhos de um macaco de pelúcia. Só não era mais ridículo porque eu nascera inteiro, sem amputações. Era nesse ponto que ela se enganava Eu era a própria amputação, a própria rachadura na coluna de Deus. O meu quarto-mundo era uma incubadora e eu estava fadado a viver cem anos e continuar prematuro.
Um enxu de moscas andam tontas e circunspectas em torno do meu mamilo. Não sinto cócegas, não as expulso, acompanho sua coreografia macabra nas redondezas do seu peito. A angústia não é muito diversa de um amontoado de larvas de inseto. Barroca.
Coagulo a noite. Navalho a face profícua de Deus. Continuo a trepanação. Depois de um tempo eu era só o exoesqueleto de uma cigarra, vazio, solitário, oco.
Não havia dúvida do que eu deveria fazer. Abri a vulva da minha mãe e voltei ao seu útero. Invaginação do fora. As esporas, os cascos, os trotes, a noite, o beco deixaram de me incomodar.

6 de out. de 2012

A puta - VIII


Um dia mãe tirou um grande atlas debaixo do colchão, tinha sido presente do Corisco, cabra macho, matava inimigo na unha. O atlas estava todo marcado com carvão, cada ponto era um lugar que tinha visitado no pensamento, vaguear assim custa barato, ela costumava dizer. Mãe tentou me ensinar sobre escalas, trópicos e linhas imaginárias. Ela conhecia o segredo dos meridianos e das paralelas, o marco zero e todas essas invenções cartográficas que não me ajudaram em nada, a não ser me perder cada dia mais, eu achava que dentro da nossa cabeça também deveria haver alguma espécie de linha imaginária, assim evitaria tantos devaneios. Grewitch, quem se lembraria disso¿ Nunca aprendi, tristeza nasce do avesso do globo, sempre achei o mundo confuso demais para caber nos mapas. Nunca entendi a rosa dos ventos. Pra mim, quando ando pra trás é sul, pra frente é norte. E o sol, bem, não é todos os dias que o sol se põe no oeste. Ela tinha pregado na parede revista de lugares distantes. Ela ia ao mercado, quando voltava retirava os papéis das mercadorias. Ela sabia que no meio daquilo tudo havia uma paisagem bonita. Desamassava com carinho e pendurava as maravilhas que jamais conheceria. Amor era coisa frágil, era moleira de bebê. Muito amor se desgasta no ranger feio das portas. Um abre-fecha brusco sem sossego e um dia a coisa emperra, ninguém mais abre, nem um vãozinho anêmico, nem isso. A coisa vai enferrujando e ferrugem velha ninguém tira meu filho. A boca criou ranço. Criou musgo. Verde-verde-escuro. Língua geográfica. Sonho velado, homem caído na porta do puteiro. Bafo de bêbado amanhecido. Mijo misturado com cachaça. Aninha não conheceu carta de amor, tão triste não ter conhecido as cartas de amor, mais triste do que desconhecer o amor, porque nas cartas ele se inventa tão mais bonito, tão mais jeitoso!!! Moça maquiada, é isso, feito moça maquiada à espera. Agora tenho minhas garatujas, estão todas lá, num caderninho amarelo, todas dedicadas pra Aninha, mas Aninha não está mais aqui. Coitada morreu de tédio porque eu não sabia fazer o mundo contado, naquela época o mundo só era pra gente um rabisco, incompreensível. Matei Aninha, como me arrependo! Aninha morreu mergulhada na minha ignorância. Uma tarde ela retirou um baú debaixo da cama. Abriu, olhou para os panos de morangos bordados, eles estavam no fundo, servindo de aconchego aos insetos e deixou as baratas brancas voarem pela janela. Suspirou, tinha a cara cansada, seu rosto parecia uma noite que jamais amanheceria, o olhar no lado inverso da folha. Se foi. Morreu desenganada de amor e nunca pode saber que era amor o que tinha nela, que era amor quando me enfiava nela, quando lambia a porta do seu mundo, quando badalava o sino que trazia perto do ventre, quando deixava minha baba no meio das suas pernas, quando rolava meu pé gelado no seu pé quente de meia e esperava contente o dia amanhecer. Quando trazia abóbora moranga das maiores pra fazer doce, quando trazia tacho de cobre novinho novinho. Quando ela perguntava se a comida tava boa e eu respondia mais ou menos, dá pra forrar o estomago. Quando tomava seu café fraco feito água de batata. Não soube que era amor porque inventaram na novela um amor burguês que eu não sabia encenar. Dó de Ana, dó de mim, só sem Ana. Tropeçando, caindo toda hora, rascunhando e aprendendo coisas do peito que já gangrenaram. Agora um coágulo imenso aqui me envergonhando. Se eu soubesse podar direito as rosas ainda iriam florir. Se eu tivesse me especializado em enxertos, elas teriam cores variadas, eu inventaria primaveras. Não nascem mais. Eu planto e replanto grama perto do seu tumulo, não nasce. Você se encheu de mim Aninha, e eu estou repleto de você. Quando eu olho no espelho eu só enxergo o meu avesso, e ele é feio, aterrorizante depois que você partiu, é um grito estrangulado. Se você tivesse os genes da ruindade, eu diria que foi embora para fazer pirraça. Se fala porque sigo Conselheiro, também é por isso, por causa de desengano antigo. Gostei da cara do sujeito, do jeito manso. Do chinelo de couro escorregando, alisando o chão. A pele da canela comendo poeira. O sol explodindo vermelho no dorso. Dava pra contar nos dedos e de longe as costelas, tinha o corpo esbelto como de Jesus. Admiro homem que come só o necessário, a gula é um desvario que cometo com frequência, não é fácil me esquecer dos morangos polpudos e encarnados, às vezes vomito só de pensar... Aninha também devia ser meio santa, fazia a multiplicação do absurdo, ela sempre foi mais forte que eu, desconfio que não existe uma só mulher que não traga aço nas vértebras, as dos homens viram pó com tanta facilidade! Queria eu ter um seio cheio alimentando o mundo. Conselheiro devia ter nascido de uma mulher porque também era forte. Carregava cruz pesada feito santo. Gastava saliva com pobre, explicando tudo. O gosto do fruto beira o caroço. Antes do tempo amarra-amordaça a boca. 

21 de set. de 2012

Sutura

Por Marcia Barbieri

As dobras e redobras de um corpo sem órgão:

lindo bebê deformado,
do nascimento só me sobrou a viscosidade da placenta
a linha-curvatura-do-fora-cartografia-escalas-estrias
de uma catástrofe cotidiana - memória palato fendido

no retrovisor sua imagem é uma abstração que não pode ser codificada
a subjetivação sem sujeito
nasci assim, órfão, despencado da cloaca de Deus
nos templos o homem exibe nuas cabeças decepadas

o pódium é o lugar da não-ocupação
e eu sou um homem de corpo coalhado.

13 de set. de 2012

Escritores marginais ou marginais escritores? Malagueta # 30


Por Marcia Barbieri

A um homem de humilde nascimento exijo que não alimente a desumanidade de não poder apresentar-se no palácio do rei... (Kierkegaard)

A literatura da periferia é equivalente a um homem desprovido de vísceras e de sombra, dormindo e escarrando na sarjeta da literatura de alta classe. As obras de autores periféricos são colocadas no saco escrotal da arte. Para os elitistas não é necessário discutir conceitos estéticos na periferia, ou melhor, obras da classe baixa e da classe alta são analisadas de formas diferentes, como se fossem duas categorias distintas. É indiferente rimar flor com dor, porque para a classe abastada é tudo muito “lindinho”, “os marginais” fazem poesia depois de arrotar frango e farofa, no entanto, é razoável que sua literatura não cheire bem.
Não tem que haver paternalismo na arte, não temos que inventar uma literatura palatável e que comungue com as deficiências da periferia. Uma sociedade omissa e deficiente não pode exigir como devolutiva uma literatura igualmente omissa e deficiente. Uma literatura digerível não pode ser chamada de arte, a função do estético é deslocar, descentralizar, não é curar feridas, ao contrário, é romper ossos e deixar à mostra as fraturas expostas do homem. Entretanto, estar na no espaço físico da periferia não significa fazer uma literatura de boca de lixo, uma literatura menor.
Os artistas marginais ficam dentro do seu grande aquário do desespero, exibindo-se como peixes ornamentais e os ricos respiram aliviados porque os pobres estão enclausurados em saraus falando seu poeminha de merda e mantendo a cabeça ocupada. Não se pode avaliar a escrita do rico com os mesmos aparelhos estéticos, afinal, o literato pobre tem uma “cultura carente”, uma cultura lacunar.
Podemos nos perguntar, mas afinal, a literatura da periferia não é comentada, é ignorada como manifestação artística? Claro que não, ela existe e a condição para sua existência é que o escritor assuma seu papel de artista engajado e coloque na sua coleirinha a identificação: periferia, não se misture e cumpra seu papel de levar literatura medíocre à sociedade doente que o gerou. A periferia pode fazer arte, desde que aceite servir o sopão. Isso não é arte, é obra social.
Às vezes, tenho a impressão que ainda estamos no século XIX, no qual o homem inculto (como definir o que é culto?) é impedido de fazer arte. Em um dos seus ensaios Henry James diz que o escritor Besant não acreditava que um escritor de classe média baixa pudesse e tivesse permissão para escrever sobre classes abastadas. Tal afirmação nos parece absurda e descabida, no entanto, embora hoje se pregue hipocritamente igualdade, o artista pobre precisa se fechar no seu quartinho de empregada e escrever apenas sobre essa ótica, ele não pode adentrar a casa grande, sua cultura nefasta não permite que ele entenda o universo vasto e rococó do homem requintado (quem recolhe a merda não pode falar de quem as cagou), ele está fadado a escrever raps de protesto.
É preciso entender que a arte é mais do que acúmulo de saberes, se ela fosse apenas isso não passaria de pastiche. A arte também está nas deficiências, nas brechas, nas fendas, nas rachaduras, nas ignorâncias, nos deslocamentos, ela se manifesta mais no sentir do que no saber, sendo assim, podemos dizer que a literatura de qualquer um é legítima. Para Deleuze: “Ao escrevermos, como evitar que escrevamos sobre aquilo que não sabemos ou que sabemos mal? É necessariamente neste ponto que imaginamos ter algo a dizer. Só escrevemos na extremidade de nosso próprio saber, nesta ponta extrema que separa nosso saber e nossa ignorância e que transforma um no outro. É só deste modo que somos determinados a escrever. Suprir a ignorância é transferir a escrita para depois ou, antes, torná-la impossível.”
A crítica desse texto não se restringe à classe alta que enxerga o homem pobre com olhos miúdos e míopes, ela se estende também aos artistas que compram e se aproveitam desse discurso, se autotitulam escritores do povo e realizam saraus, onde se escuta e se vê de tudo, menos arte. Os saraus são enxergados como entretenimento, novela das oito e não com a seriedade e pulsão que a arte exige.
Deixo claro também que a crítica não se refere aos que realizam com verdade e convicção uma literatura que sensibilize a massa. Assim como esclareço que não sou adepta de uma literatura inalcançável e elitista. A minha ideologia é uma literatura universal e paradoxalmente do não-lugar, desfocada, que não traga segregações, divisórias ou amarras, uma literatura do não-aparthaid. Uma literatura que exponha o avesso do homem e na qual todo homem, por mais mirrado que aparente, possa gerar sombra.

6 de set. de 2012

A puta - VII

Por Marcia Barbieri

Às vezes, me sento na estrada, fico perseguindo o sol, como se minha vida dependesse urgentemente desse ato boçal, abro as pernas e sinto o vento e a areia me assediando, ali mesmo solto um mijo ocre, quente, depois no lugar daquele minúsculo lago artificial, cutuco a terra e como as raízes novas, é como degustar o sabor das suas origens, é como descobrir o gosto que terão seus descendentes, é como destrinchar seres primitivos pelo umbigo, é como desterrar carcaças ancestrais. Toco nos chifres ocos dos antílopes e os imagino rasgando o útero leitoso do universo numa cópula bruta e universal. Comendo terra me acostumo com a cova. A insipidez do nada. Quando morrer meus ossos descansarão em paz. Morto de verdade não faz peso na terra. Seus ossos viram poeira pó de mico feitiço em tacho de bruxa. Perguntei ao Gaguinho porque ele seguia aquele homem louco, barbudo e com fucinho largo, de muitos amigos, cheirando o traseiro de todo homem. Sei não, não sou de fazer muita pergunta. Repara não, sou calado, lábio selado, casco de cavalo na língua. Falasse mais a vida tinha encurtado as pernas. Imagine só uma vida de pernas curtas, tão engraçado. A vida inteira passei trabalhando e seguindo homem bronco. Escarrador de palavra no chão. Gente que soca discurso com pilão, come cabeça de porco, língua de boi. Verbo rasgado, curto. Pouca polidez na carranca. Criando e adubando desafetos só por medo de desaguar. Fingindo que choro é erva daninha. Homem desaguando é maricas. Tapeio minha cara e ela é dura feito cara de burro arredio. Dura feito escultura de madeira, mas madeira quando infesta de cupim fica fofa, desmancha com um sopro, a minha danou a desmanchar. Perdi o cabresto tarde, por muito tempo andei olhando o mundo sem viés. Acho bonito homem que olha o mundo de canto de olhos, de través e assim mesmo enxerga e assim mesmo relata história comprida, põe palavra na boca de gente muda, não conheço personagem de contador que também não seja um pouco contador ou mentiroso. Gente de faz de conta tem mais língua e saliva que homem de carne e osso. Corre mundo, vagueia debaixo da lua. Tem menos dente, mais ouro na boca. Mais brio nas carcaças. E tem também mais coragem, monta touro bravo, atira em malandro, desobedece matador, despista da bala. E eu catando praga da plantação de arroz pra ter o que comer. Amarrando tomate pra não tombar - é triste ver planta morta porque não aguentou o peso do próprio fruto, é como uma mulher que morre parindo filho - abrindo vala pra água escorrer, fugindo do guizo da cascavel, tomando pinga pra curar as palavras que foram apodrecendo lá dentro do estomago. Pinga cura tudo, até gripe brava. Às vezes penso que sou só ventríloquo. Palavra bonita... Conselheiro me explicou o que era e achei que sou um pouco isso. Um ventríloquo... oco por natureza. Por muito tempo só aprendi a ser telegrama, a fazer epitáfio, porque era meu papel, anunciava a morte dos parentes pra outros parentes, telefone nunca existiu aqui. Não queria ser assim, queria saber dar consolo. Na minha boca palavra tem peso de pai furioso, varinha de marmelo abrindo vergões vergonha da pele. Só sabia mesmo era dar notícia ruim de jeito calmo, por isso me chamavam. A calma era por causa da gagueira, a ruindade demorava a escorregar pela garganta. Os olhos enchiam d’água. Começava a falar da diferença dos pastos e da grama verde, do silêncio e do nó forte que só morto sabe fazer, dos mortos que viram santos, fazem milagres, das almas penadas que vagam felizes poraí. Quando me avistavam ao longe, acendiam velas, preparavam o leito, o banho, a roupa fúnebre, a bebida pra tomar o defunto. Tristes das famílias que não podem preparar e enterrar seus mortos. Palavra saia fraca, parecia dedo mindinho, restinho de leite em teta de vaca anêmica. E olha que dentro da minha cabeça os sentimentos eram muitos, acho que todos eles viraram coágulos, feridas de joelho. Agora tenho que segurar as unhas pra não rasgar com muita força a casquinha e deixar o negócio sangrar. Acho que é herança de pai. Eu abraçava ele e o seu peito era como de um gorila. Olhava pro seu rosto e ficava tão fácil entender a tal da evolução. Comecei a duvidar de Deus, não por rebeldia, mais por constatação. Aquela que diz que não foi Adão e Eva, mas fomos levantando e virando homem. Meu pai não tinha terminado, estava no meio do caminho e deram alma de homem pra ele. Seu rosto era igualzinho de um macaco. Suas mãos grandes pareciam cascas de árvore centenária. Tentei ser menos animal que ele. Mesmo assim, conto em um dedo quantas vezes falei pra Aninha do meu bem querer. Me arrependo tanto tanto! E ela tão mais alta do que eu, difícil de alcançar, difícil de chegar até meus ouvidos os seus grunhidos. Por um tempo achei que talvez fosse surda, por isso falava tão mal. Não era isso, era desespero, era angústia porque mulher nunca tinha vez. Era café com leite. Um dia, brava, Aninha gritou que queria bem ser puta, deveria ter nascido já puta, porque puta falava, gemia. Puta pensava, era boa na aritmética, fazia conta pra não ser roubada, cortava à faca homem folgado. Mulher era que nem cachorro, só não tinha rabo por falta de destreza de Deus, tinha que viver lambendo a bunda dos homens. Eu ia dizer que não era assim, ela se virou, começou a mexer o doce no tacho grande e eu me esqueci de discordar. Meu espírito era de pouco argumento. Ela também falava tão pouco, sempre bordando no pano o mesmo morango. E nunca terminava. Chegava a me dar enjoo tanta fartura. Queria plantar morangos, mas o tempo era ruim e os morangos mofavam e morangos mofados traziam má sorte. Nos seus panos os morangos eram vivos e carnudos e não morriam. Eram feito plantação bem cuidada, plantio de rico. Um dia, por engano, tentei morder, arrancar a polpa. Aninha gritou, disse que eu estava ficando louco, querendo comer ilusão. E que por certo era a cachaça que tinha comido meu juízo. Coitada, não sabia que a fantasia é que faz a gente mais feliz. Faz a gente grande, vistoso, carne secando ao sol. Todos os homens que não acreditavam estão mortos agora e nem o odor de sua carne chega até nossas narinas. É preciso um pouco de mentira pra resistir. Todo suicida é um religioso esperando o perdão de Deus. E Deus está ocupado com outras coisas, como catar piolho de cabelo de criança. Minha cabeça queria mas minha cabeça dura não conhecia frase feita. Como sou feliz agora que conheço todas as frases de pára-choque de caminhão. Minha mãezinha falava que queria casar com caminhoneiro porque ele ia contar sobre as outras verdades que ela não conhecia, ia trazer lembrança de cidade santa, ia trazer água do mar em garrafa de tubaína.  Se tivesse casado com caminhoneiro todos os dias iria esperar na porta um novo homem, porque quando o homem sai de sua terra e conhece terra estrangeira, ele já é outro. E ela ajudaria ele a pintar as frases e apagar e escrever outra. Mãezinha não conheceu marido, mas se deitou com muito caminhoneiro. Ela dizia que se a gente não pode realizar um sonho inteiro, tem que se contentar com meio sonho. Também se deitou com um pescador. Ele colocou o apelido dela no barco, mas o barco logo naufragou. Ela nunca criou raízes, no entanto, ela não se entregou, não soluçou, ela entendia de cartografia e sabia que gente parada num lugar só cria micoses e as micoses distraiam sua solidão.

21 de ago. de 2012

Escamas

Por Marcia Barbieri

Ressoa a pele verde e incrustada de mágoas - clave de sol -
um verme se espreme entre as circunvoluções do meu cérebro
Respiro aliviada porque meus pelos têm a cor dos cachorros magros
Respiro aliviada porque minha alma tem a candura das tardes longas de solstício
Respiro aliviada porque minha boca perdeu o fel de antigamente.

A língua salivante  de lagarto passeia abstrata nas minhas gretas
Geme meu quadril curva desalinhada
Quero desentristecer
mas olho de soslaio as venezianas
e vejo me encarando seu sorriso entre muralhas.

6 de ago. de 2012

A puta - VI

Por Marcia Barbieri

Antonio Conselheiro arrastou muita gente pro seu bando. Não era bonito, mas trazia mel na língua. Aqui é escuro, um mundo em cubículo, um cativeiro, ninho de cascavel chocalho do diabo. As pedras são úmidas, nos encaram sem medo, restos de pele humana servem de ornamento em suas gretas, seus grilos, a fenda é o clitóris da rocha. Tateio por dentro da fenda e procuro o ponto G. Algumas mulheres trazem argolas no pescoço, eu perfuro com platina meus pequenos lábios. Avô, mãe, pai, primo, irmão, dormimos todos juntos. Não conhecemos o conceito de incesto, ele se aniquilou junto com a civilização antiga. À noite sobe um cheiro de carniça, de fêmur humano, de víscera podre. Posso afirmar que não há grandes diferenças entre homens, símios e urubus, estamos todos à caça do próximo jantar. Dormíamos todos dentro dessa caverna escura. Um clã. Um globo em miniatura. Parecia que ele queria despovoar o mundo. Nômade vagabundo. ¿Ou seria um chifrudo inconformado¿. A traição mais dolorida da história, é o que falam as más línguas, sua mulher foi embora com um sargento. Depois disso virou revolucionário, ficou vagando pelo mundo em busca de conforto. O coitado não sabia que a felicidade é um dado viciado. Virou inimigo do Estado. No entanto, na nossa terra ninguém sabia nada sobre as agruras da sociedade, éramos um bocado de gente sem governo. O governo era só uma miragem, nossa terra era abandonada à própria sorte e nós gostávamos disso, a destruição nos deu autonomia. Nascemos todos cangaceiros. Sem crime e sem cadeia. Tiramos o bucho de muito homem, de homem safado que não merecia viver. Deixávamos a tripa secar no sol, empretecer, como se curte couro de touro, as formigas vinham e faziam seu serviço, todas cúmplices dos nossos assassinatos. Então tínhamos certeza, éramos inocentes. Éramos juízes e nossa sentença jamais era contestada. Nenhum homem bom teve a pele riscada ou o corpo atravessado por bala. A morte vinha pros escolhidos de Deus ou do Diabo. Inácio também abandonou o povoado. Inácio não falava, só aprendeu a varrer o terreiro, ficar grunhindo e esfregando uma mão na outra como se fosse fazer uma grande mágica, no entanto, suas mãos eram estéreis assim como seu cérebro de mariposa. A burrice é o pior dos martírios. Aqui os homens costumavam afrouxar as pregas com dez ou onze anos. Suas mãos jamais devem ter presenciado o gozo, não servia nem pra punheteiro. Nunca procurou uma puta pra se aliviar, nunca tinha se deitado com uma mulher nem comido o cu de nenhum homem. Aqui os homens costumavam afrouxar as pregas com dez ou onze anos. O idiota dizia que ia se guardar para a sua esposa. Ele não queria ter a carne suja quando encontrasse a moça certa. E não existe mancha mais escura do que nódoa de amor. Ficou noivo de uma sirigaita do outro lado do povoado. O que vem do lado de lá provoca encanto, guarda segredo em punho fechado. Mal sabia ele que alguns mistérios trazem escorpiões no bolso. Talvez os ingênuos não sofram. O casamento estava marcado. Quando o juiz chegou pra fazer o casamento a moça estava mais gorda que uma porca em véspera de matança. Estava prenha. Jurou que era do espírito santo. Inácio agradeceu e louvou a Deus por tamanha graça. Depois do primeiro filho, vieram mais quatro, todos do espírito santo e Inácio sempre louvando por ser o escolhido. Depois disso começou a bater punheta, já que não podia macular uma mulher santa. Ofereci ajuda abrindo minhas pernas, ele nem sequer olhou de esguelha. Várias vezes tentei descobrir porque ele vivia se escondendo nas barras daquele homem, inútil, ele tinha medo de mim. Dizia que eu era uma bruxa louca sem chapéu, que tinha fugido do hospício e que transformei um povoado santo num prostíbulo. Fiquei feliz com o título, mesmo sabendo que as putas nasceram antes de Deus e eu não era responsável por nada. Além disso, jamais conheci uma casa de loucos, mas imagino que não seja muito diferente dessas encruzilhadas, desses escarros escuros misturados na poeira amarela dos dias. 

21 de jul. de 2012

O jardim branco

Por Marcia Barbieri

“O homem é a semente da degradação”

Olho para o céu e vejo Deus transformado em um pássaro negro e ele devora a carne verde que se forma em volta da minha carcaça e ele vai espalhando no músculo da rocha a minha combinação incerta de átomos.

Volto ao jardim branco em frente ao salão de festas, um acorde ainda ressoa longe no meu ouvido esquerdo. Ele continuava lá sentado no banco, como se eu estivesse ali o tempo todo mirando seu perfil. Ele me falava sobre a sua misoginia, sobre o quanto repugnava as mulheres, no entanto, elas nem eram capazes de retribuir tal aversão, eram tolas demais para experimentar o ódio. Considerava que o buraco no meio de suas pernas era a prova mais evidente e atroz de sua fraqueza. Nunca conseguira encontrar uma mulher que sustentasse a palavra até o fim, sua língua é mais ágil que seu cérebro. Diferente dos homens, que podiam ser calhordas, mas jamais voltavam atrás em seus acordos.

Divaguei um pouco enquanto ele pronunciava suas blasfêmias, o que bem poderia ser o que ele chamava de um defeito tipicamente feminino. Apalpei meu externo, à procura inútil dos meus seios, eles são ridiculamente pequenos e escorregam facilmente...

Não sei se a culpa era dos pelos grossos que cobriam todo o meu dorso ou do meu chapéu coco um tanto masculino. O fato é que ele não parecia reparar que eu era de uma espécie inferior a sua.

Estendi meus dedos em volta do pescoço como se procurasse um pomo de adão ou desapertasse uma gravata borboleta que não existia. Ele reparava em meus movimentos e pigarreava de alegria, afinal, éramos tão parecidos que ele podia se deitar na minha cama e não tocar no meu sexo, porque meu órgão era grande, pesado e imponente como o dele e como dos touros que não foram castrados. Eu não era como as outras que tinham as genitálias escondidas na abstração e nas gretas do corpo, meu clitóris despencava das minhas ancas como um sino enferrujado prestes a cair.

A mulher é cheia de pretensões e na sua cabeça germinam apenas futilidades, diz conhecer o abismo dos homens, enquanto sua alma não passa de um porão cheio de quinquilharias. Como poderia adivinhar a ranhura na face do macho? No entanto, qualquer pedra desse jardim pode dissertar mais sobre a evolução humana do que esse ser rastejante originário da vértebra fraturada de um cão sarnento.

Consegue sentir a música? Uma mulher não conseguiria, ela ficaria horas analisando sobre a importância das notas utilizadas, o compasso, o ritmo, a harmonia, porque para ela é mais  importante a origem do que o produto final. Remói os miomas do seu útero e não é capaz de reconhecer a cria que rasga sua vulva.

Ele continuava discorrendo como um maníaco depressivo. Olhei para seu rosto animalesco, para a curvatura das suas costas, um pouco disfarçada pelo terno escuro, para os seus débeis e longos dedos. Recordei da primeira vez que o vi sem roupa através da fechadura, não conseguia entender como eu podia amar um homem como aquele, um primata, eu me perguntava se ele participara daquela tal evolução que transformou os macacos em homo erectus, a sua coluna vertebral era tão envergada que eu poderia também ver a sua semelhança com um cachorro, nunca com outro homem ou com um ser divino, feito de matéria porosa e perfeita.

Embora ele não percebesse, ele também não passava de um símio, que por um erro conceitual do Ser ganhou o nome de homem.

Toquei de novo o avesso da minha cartografia. A mulher era um corpo oco até que Deus a sodomizou, ejaculou o sêmem da desgraça na sua cloaca. Então, ela deu o primeiro suspiro, descobriu que o mundo era semelhante a um pântano, deixou de ser objeto vazio para se tornar um simulacro e simultaneamente um criadouro de homem.

Quando vi o quanto era ridícula minha forma, pensei em partir. Contudo, ao olhar ao meu redor, eu percebi que estava só, não havia ninguém além de mim no jardim branco, não havia nenhuma festa no saguão, nem danças e o som de jazz que escutava não passava do coaxar dos loucos do outro lado do muro das lamentações e tampouco o jardim branco existia. Um escaravelho rolava um esterco de um lado para o outro imitando os movimentos de translação e rotação. Eu estava suspenso por uma espécie invisível de corda, eu poderia despencar a qualquer momento e experimentei o medo pela primeira vez. Dei uma cutucada embaixo das minhas costelas, não senti nada, minha carne se tornou gelatinosa e transparente. Definitivamente eu estava no não-lugar e meu nome era Deus.