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21 de ago. de 2020

Tempo de cão – capítulo 4

Por Marcia Barbieri

Nada mais mórbido do que compartilhar com um semelhante o tédio e a falência dos dias. Quando se devora um figo maduro também se engole a ideia da semente também se morde o fruto ainda verde vertendo leite que amarra a boca. Acendi um cigarro. Parei de fumar faz alguns dias, no entanto, só me lembrei disso depois da terceira tragada. Não voltaria, precisavam dos meus serviços. Um homem afeito a sua família jamais será capaz de salvar uma cidade, o amor te arranca as pernas. Não voltaria. Meu pai era como o pai de todos, compreendia que os filhos eram livres como as manadas e tinham asas como as galinhas, uma hora ou outra ciscariam fora da cerca e seriam abatidos. Não havia dúvida. Não havia choro. Por trás do muro, um pouco depois do quintal, existem perigos iminentes, um cão farejando outro cão, um urubu esperando a refeição diária, uma cobra pronta para o bote, uma besta procurando o alvo. A natureza se autorregulava pela fome. Eu também era um ser faminto. Não havia na cabeça do meu pai um pensamento mais elaborado sobre esses fatos. Desconfio que os pais sejam naturalmente amputados de afeto. O meu era. As mãos eram grandes, mas feitas exclusivamente para o trabalho, era igual a uma pedra de limar facas. O perigo se estendia em qualquer menção de afago, rápido recolhia os dedos para dentro das palmas. O animal mineral. Apelidaram o meu pai de duas caras. O motivo era bem óbvio. Ainda jovem sofreu de uma estranha paralisia, assim, tinha um rosto alegre e um rosto triste, usava ambos ao mesmo tempo, sem distinção das emoções. Eu também queria ter duas caras, assim bastava eu ficar de perfil dependendo da situação. Estava farto de ficar trocando as máscaras, era cansativo e ainda passível de erro. O bom é que no povoado não havia motivos para ficar trocando as feições, ali era tristeza o tempo inteiro, sorrir era extremamente ofensivo, sinal de mau agouro. Mais fácil assim. Antes da minha chegada os corpos eram amontoados no armazém, alguns passavam noites e noites dormindo com os mortos, ninguém queria recolher os cadáveres. E os mortos não aprenderam a cavar a própria cova. Em pouco tempo teriam que ser enterrados em trincheiras. A guerra chega vestida em muitos disfarces. Os mortos estavam angustiados à minha espreita. Pisei a terra dos infectados e pude ver seus olhos moribundos e arregalados de terror. Ninguém se acostuma com naturalidade a comer capim pela raiz. A produção de caixões era insuficiente. Muitos pensam que é simples como fabricar caixas de tomate. Antes fosse. Acreditam que não necessita de nenhuma arte de carpintaria, que qualquer idiota é capaz de fazer. Todos estão redondamente enganados. Não tínhamos mais empregados para o ofício. Não era um emprego atraente, ninguém crescia sonhando em ser operário em uma firma vagabunda de caixões. Além disso, quem estava disposto a doar as últimas horas trabalhando para o inimigo¿ Éramos uma cidade de velhos imprestáveis. Antes do surto passavam as tardes jogando baralho e dominó pelas praças. De repente, desapareceram. A fábrica não estava preparada para a tragédia. Ninguém estava. Foram todos pego com as calças curtas. Não adiantava ficar choramingando pelos cantos. A disseminação do vírus produzia mais mortos do que vivos. Os velhos viviam reclamando da miséria, mas quando souberam que estavam com os dias contados passaram a fazer promessas e novenas. Algum Deus mexeu os pauzinhos lá em cima, exigia de volta todos os nascimentos que derramou sobre aquele país de indigentes. O jeito era acomodar mais de um defunto no mesmo caixão, era preciso economizar cova. Até mesmo inimigos mortais foram abraçados para o além.

6 de ago. de 2020

Tempo de cão – capítulo 3

Por Marcia Barbieri

Não escutava mais os relinchos durante a madrugada. Não sentia mais o cheiro da bosta apodrecendo no estábulo. As moscas continuavam rondando o corpo do cavalo morto. O cavalo estava morto, mas as rédeas continuavam intactas. Acabou-se o trote o suor escorrendo nas ancas o coração acelerado o bater dos cascos o galope ansioso. Eu era um homem sem sombra    de dúvida. Sem sombra de dúvida eu era um homem. Não era nem as rédeas nem a mosca nem o galope morto moribundo. Não era nem o discurso nem a língua sombreada nem a baba branca do epilético. Eu era um homem   sem sombra de dúvida. Atento o ouvido na parede, já não posso escutar a respiração ofegante de minha mãe, suas tetas já não invadem minha cara. Posso respirar longe do seu corpo, seu corpo não é a minha casa. No entanto, posso ouvir os seus soluços. Até os crocodilos costumam chorar, não é isso o que dizem¿ Lágrimas de crocodilo¿ Sim, minha mãe chorava lágrimas de crocodilo. Não se parte em dois para evitar a solidão, cada um que aprenda a lidar com os seus infortúnios, cada um que mate seus próprios demônios. A figueira se desenvolve bem em locais de clima temperado, mas não suporta geadas. Não me importo com a infelicidade alheia. Ninguém me ofereceu um naco de pão quando estava faminto. Quantos olhos te olham quando você tropeça¿ 

Eu me responsabilizava apenas pelo café que estava no fundo da minha xícara e nada mais. Não nasci para agradar ninguém. Não estava a fim de fazer concessões. Quando estamos presos numa jaula com um leão não nos admiramos pela possibilidade de sermos devorados. Não voltaria. Um filho precisa de uma cartografia maior que a carne de sua mãe. E uma mãe não pode cobrar a vida inteira por alojar o filho em seu útero por alguns meses. Invejo a solidão da ave que nasce distante da cloaca de sua progenitora. Da cria que não sente a saliva pegajosa da mãe passeando pelas dobras do seu corpo nu. A consanguinidade não amarraria os meus pés, tampouco selaria a minha língua dentro da boca. Não existe egoísmo maior do que amor esparramado. O amor exige a castração do objeto amado. As suas tetas ainda pingam leite. Vejo as manchas no seu avental. Precisa eliminar os ramos do passado que já estão secos. Não se pode ter um animal dentro da barriga infinitamente. Ninguém a alertara¿ Uma hora o diabo exige sua cria. Urrava. Urrava de novo. De quais genes ela fez o seu desastre¿ Qual buceta se abriu e a derramou¿ Não nascera da buceta de Deus, isso era certo, não passaria por uma fresta tão estreita e escura. Mais fácil ter sido cuspida pela boca larga de uma chimpanzé. Fixava nos seus olhos e via apenas uma grande carcaça. O seu corpo era uma carroça extensa guiada por bois cegos. Não reconhecia aquela monstruosidade como antiga morada. Eu fora arquitetado no ventre da rocha. Não queria passar meses pensando em cosmologias que não me levariam a nada. Eu não esperaria anos e anos sentado para recolher seus ossos. Se eu fosse um cão talvez esperasse para roer o tutano das suas costelas, eu não era. Eu era o tipo de animal inofensivo, porém orgulhoso. Não tinha o hábito funesto de lamber as mãos dos meus dessemelhantes. Nem cravaria os dentes nas canelas dos meus inimigos. Não latiria para assustar os fantasmas que perambulam pela noite. Não ajudaria. Seu esposo que cuidasse dos seus restos. Não foi para isso que inventaram a instituição matrimonial¿ Para que mais seria¿

21 de jul. de 2020

Tempo de cão (capítulo 2)

Por Marcia Barbieri

Livro Um – Um homem sem sombra

 [Sentei no alto da montanha, peguei o binóculos do meu falecido avô e observei a trágica comédia da vida] 

Cutuquei. Estava viva.

Cutuquei. Estava morta.

Um zum zum zum de moscas.

Uma falação de fantasmas.

Cheguei antes de amanhecer em Sombrio. Eu vim a pedido do meu pai e pela boca insossa de minha mãe. Minha mãe pouco falava, no entanto, seu corpo se estendia em um falatório sem fim. Da sua língua comprida em riste se fez a ausência do meu verbo. Da sua vértebra curvada se fez meu andar altivo. Eu era um figo amadurecido que já não se sustentava no pé. Ela cutucava o próprio umbigo e depois levava o dedo à boca. Observava a sua saliva absorto. Ela me devolvia o olhar com a baba branca já escorrendo pelo peito. Era um gesto desesperado, eu sei. Talvez procurasse a origem da desgraça. Sem se dar conta que a maternidade era a raiz da sua desventura. De repente percebia que o útero era uma construção anatômica que se assemelhava a um patíbulo. Talvez fosse uma questão de tempo até ver os condenados pendurados pela traqueia. Qual de nós tomaria partido e impediria o enforcamento¿ Qual monstro poderia duvidar da crueldade de sua própria cria¿ O monstro nutre uma falsa esperança de sacralidade. No entanto, não podemos fechar os olhos diante do assombro. A maldade pode ser adivinhada no gesto primeiro, no choro inaugural ou numa inocente mordida nos seios. O canibalismo começa com o filete de sangue misturado ao leite materno. Eu não estava mais dentro dela, às vezes, ela se esquecia e me empurrava em direção a sua barriga com o intuito que eu nunca partisse ou que voltasse em breve. Prepotência. Não estava preparada para o abandono. Desde criança ouvira que os filhos traziam alento e sossegavam apenas debaixo das asas da mãe. Não sabia que alguns filhos eram capazes de amputar os voos de sua genitora. Aquela velha história mentirosa do filho pródigo. Sentava de costas para a janela, uma evidente negação da extensão fora do seu corpo, colocava as mãos sobre meus olhos, numa espécie de venda artificial, não me explicara nada sobre a diáspora, aprendi num livro de geografia. O mundo é só uma placenta mais espessa e elástica, a qual não temos que atravessar, meu filho, não vale a pena se cansar, veja, suas pernas são tão fininhas! Venha, sente no meu colo. Daqui a pouco começa o temporal, escuta escuta os trovões se aproximam. Miocárdio, também aprendera essa palavra e não conseguia parar de soletrar mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio mi-o-cár-dio. Ventrículo direito ventrículo esquerdo veia cava aorta. Por acaso todos os mamíferos amam da mesma forma¿ Porque eu amava de uma forma frouxa, como se tivesse sido chocado e não parido. As paisagens de dentro eram foscas, enxergava cor quando caminhava fora do quadrilátero que me fora destinado. Mãe não conseguia compreender minha deformidade congênita, não aceitava que a minha mente era dada a espetáculos puramente abstratos. Embora tenha sido, como muitos, gerado dentro da casca, tornei-me um ser avulso. Você já viu um rato perdendo a vida ao tentar devorar o queijo da armadilha¿ Ela parecia um rato prestes a perder. Porém, o seu declínio não me provocava pena, um incômodo talvez. A tragédia visitava pouco a pouco todos os seres, era preciso se habituar. Um cômodo, dois cômodos, três cômodos, a casa não pararia o seu crescimento, quando mais eu me movimentava, maior ela se tornava. Meu lar não podia mais ser mapeado. 


6 de jul. de 2020

Tempo de cão (capítulo 1)

Por Marcia Barbieri

Livro zero – Anatomia dos mortos

Era gorda e grande. Essas são as impressões mais fortes que guardo daquela tarde. O peso quase insuportável do caixão e o sol comendo meus miolos. Não deveria haver enterros nas tardes quentes. As flores das coroas estavam murchas, não aguentaram a quentura. Meu corpo estava empapado de suor. Uma perna raspava na outra e a cada passo ficava mais incômodo. Queria fumar, mas era impossível manter uma brasa na boca. Espero morrer no inverno. Não vejo cabimento a pessoa se extinguir justamente no verão. Olhava para a cara de Donana e ela parecia se divertir às minhas custas. Menino tonto, carrega direito esse caixão, se não se comportar te dou uma sova e ainda conto tudo para o seu pai. Era mesmo uma fofoqueira, não duvido que fosse se queixar de mim ao meu pai. Não coube em um caixão convencional, tiveram que fabricá-lo às pressas, ninguém imaginaria que um dia ela morresse. Dava nó até em pingo d’água. Todos do povoado juravam que ficaria para semente. Estavam enganados. Parece que Donana fizera questão de engordar o quanto pode nos últimos anos, sabia que assim ninguém esqueceria do tamanho da sua presença. Eu e mais cinco homens carregavam o seu caixão, no entanto, a carga era tão descomunal que uma das alças quebrou, fazendo com que todos perdessem o equilíbrio e deixassem o corpo cair. Não nos sentíamos culpados com isso, poucos teriam nossa coragem. As suas roupas ficaram sujas e amarrotadas. Demoramos mais de meia hora para ajeitar a defunta novamente e seguir o cortejo. Alguns gatos pingados, o dono da mercearia, a benzedeira, um homem que se dizia padre e meia dúzia de curiosos. Justo ela, o seu sonho era um velório lotado, em que as pessoas disputassem espaço para se despedir. Não perdia um enterro, dizia que assim garantiria uma morte farta. Donana fizera questão de morrer no dia mais quente do ano. O ventre estava enorme, tínhamos a impressão que estava prenha da humanidade inteira. No entanto, era só a gordura acumulada ao longo da existência. 


Loquinho vinha logo atrás e se pendurava no corpo da velha, deixando nossa obrigação ainda mais insustentável. Acorda macaquinha, vamos, acorda macaquinha preguiçosa. Não seja boba menina para de brincar de morta vamos logo acorda coisinha feia vem correr atrás de Loquinho Loquinho está cansado de chamar vem vem logo macaquinha feia macaquinha danada se não pular logo daí vou te pegar de cinta. Loquinho era quase tão velho quanto Donana, mas tinha juízo de um garoto de cinco anos. Era engraçado quando uma criança habitava o corpo desgrenhado de um velho. Confundia morrer com dormir, seu afeto era tão sincero quanto o dos animais diurnos. Os seus pensamentos eram tão leves que recordavam passarinhos, girassóis e beija-flores. Às vezes, sem querer falava alguma sapiência, o resto era só bobagem mesmo. Vamos, Loquinho, deixa a gente passar, sai de cima de Donana, ela quer dormir sossegada, vamos, sai de cima, prometo que daqui a pouco te compramos um pirulito, vai, se afasta um pouquinho, amanhã vocês brincam mais. Tentava a todo custo despertar a velha amiga, alternava doçuras e xingamentos, enraivecido por ela se dar ao luxo de um sono tão profundo em pleno sol a pino. As outras velhas se negaram a participar do cortejo, tinham medo de espiar a morte e a morte resolver levá-las. Não seria improvável, afinal, já faziam peso sobre a terra faz tempo, não seria estranho se, de repente, desencarnassem. Ficaram confinadas em suas casas, olhando a tragédia pela janela, como se a morte não pudesse atravessar suas venezianas. Quanto a mim, eu ainda era jovem, teria a vida inteira para construir minha mortalha. Meu pai não permitiria que eu morresse tão cedo. Loquinho faleceu uma semana depois, dizem que seu coração parou, não suportou a dor da lonjura.