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12 de jun. de 2026

Com a grandeza de uma menina

 

Por Allyne Fiorentino 

__  Ai, eu acho que não quero falar, não. Eu tenho vergonha. O que eu preciso mesmo dizer? 

__ Diga o que você quiser, Bianca. Agradeça pelo ano, incentive-os. Nada demais, improvisa. 

__ Ah! Não. Olha as minhas bochechas, eu já estou toda vermelha. Meu coração acelerado, daqui a pouco as mãos estão suando. Não quero. 

__ Bem, eu vou começar falando, depois vou abrir o microfone para quem quiser falar. Vai pensando aí... Se você quiser, lá na hora, você fala. 

Disse isso já com a mão na maçaneta da porta, prestes a entrar. Eu, que também estava lá fora verificando uma série de dinâmicas que tínhamos planejado, consegui ouvir esse finalzinho de conversa enquanto entrava na sala juntamente com os dois. Quando entramos, todos estavam já sentados em círculo, com as camisetinhas “Somos Foda” bombando no peito, os projetores ligados, coffee breake servido, ouvidos atentos para o que o chefe iria dizer sobre o trabalho que fizeram durante todo o ano que passou e sobre as grandes e prósperas oportunidades que teriam no ano posterior. Sobre isso ele teria de ser criativo porque nem ele sabia o que estava por vir, mas ele nos ensinava que há sempre alguma coisa por vir, embora ela não tenha vindo nunca. 

O importante era ser resiliente, envergar sem quebrar, ser maleável, cair e levantar depressa, dar a volta no problema, voar como a águia, ser inteligente como o lobo. Sempre me perguntei por que as cobras e as hienas nunca eram usadas como exemplos de característica que um humano deveria seguir. Uma pena, já que a cobra é fria e se rasteja aos pés dos outros, e a hiena, quase brasileira, ela ri dos seus problemas, tudo isso fazíamos sempre. Eu mesma desconfiava que éramos apenas bichos bestas e acuados, mas isso não vinha ao caso naquele momento. 

E foi gráfico colorido pra cá, gráfico animado pra lá, números incríveis, que realmente parecem ser incríveis, no sentido de não críveis mesmo: é muito trabalho pra pouco funcionário! Faltou só jogarem fumaça e um estroboscópio e estaria arrumada a festa. Os slides cada vez mais ousados, com músicas de impacto e tudo – o designer estava quase formado em marketing, já que tinha que transformar um grão de areia em uma praia inteira, com direito a coco e a guarda-sol. 

Claro que tudo poderia ter sido resumido em uma hora de conversa, mas, como ele sempre nos ensinou, o mundo corporativo não é exatamente sobre “o quê”, mas sobre o “como”. É sobre que tipo de show é possível produzir com quase nada. O chefe não entendia que a filosofia dele se aplicava a qualquer coisa, ele mesmo não fazia ideia da grandeza daquilo que ele dizia. Não por ser uma técnica a ser seguida, mas como um Guy Debord, sem saber que estava descrevendo uma sociedade de espetáculo. A diferença é que Debord denunciava; e o chefe, bom, ele era coach, ele, por vezes, mentia e acreditava na sua própria mentira. É até divertido esse jogo, a gente tentar encontrar nas pessoas a “autopsicopatia”, palavra que devo ter inventado, mas seria o quanto você é capaz de se autoenganar, assim como enganaria a qualquer um. 

Mas a Bianca estava lá, fazendo a sua cara de boazinha sempre, sendo fofa e doce, como o chefe gostava. Resiliente, ele diria. Eu teria outras palavras para isso, menos bonitas, mais realistas, menos machistas, mas se eu as dissesse, não teria a grandeza de uma menina, nem de uma mulher, nem estaria em versos de música do Cidade Negra, por exemplo... Seria uma mulher sem grandeza se eu dissesse a verdade sobre o que os homens acham que é uma mulher grande: aquela que se apequena para eles. 

O chefe finalmente havia terminado e abriu o microfone para quem quisesse falar, olhou pra Bianca – ela corou. Ficou assim por alguns segundos, entre “vou ou não vou?”, “será que tenho competência pra isso?”, “será que tenho o que dizer?”. 

Nisso o chefe coach tinha razão, era preciso aproveitar as oportunidades que apareciam, porque nesses segundos em que Bianca pensava se ela era “grande” ou não, o supervisor se adiantou, pegou o microfone e começou a falar, com segurança, com a mão firme, a voz clara, sem tremer, sem gaguejar, sem titubear, sobre educação e liderança, como se sempre tivesse feito aquilo. Ele, que nem era daquela área, não entendia nada daquilo, mas era homem. E Bianca? Ela era a coordenadora e tinha muitos diplomas sobre aquilo que ele estava falando. 

É que o verso da música estava errado: pra ser homem sempre tiveram de se aproveitar da grandeza de uma mulher. 

Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia. 

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

14 de abr. de 2026

Magnificente Sky

 

Por Allyne Fiorentino 

Já reparou que as formigas não comem mais açúcar puro? Se você deixar alguns grãozinhos sobre uma superfície qualquer, poderá ver que nada acontece como antigamente. Não formarão aquele desenho bonito que temos na cabeça, aquele formato de “sol de formigas” envolta de um doce. Sabe? Isso não acontece mais. Não foram as formigas que mudaram, foi o açúcar. 

Meu cachorro teima em não comer pão de forma: ele cheira, cheira e identifica com seu olfato uma gama de químicos que pode ter ali e vai embora sem comer. Se recusa. Esperto ele. Também nunca vi formiga comer pão de forma, embora deva ser um dos pães mais consumidos no país. É sábio não comer e beber de qualquer fonte envenenada, ainda que todos o façam. Ah! Mas é um vício. É mesmo. Vício é aquilo que você faz mesmo sabendo que te faz mal. É mais do que químico, é moral e temporal, eu diria. Temporal? Sim, uma formiga comum tem apenas 2 anos de vida, ela sabe da sua finitude, então não arriscaria ceifar sua vida por bobagens. Nós temos mais tempo e isso nos ilude. Já a moral, bom, essa sabemos mesmo que somos precários, principalmente quando se trata de nós com nós mesmos.

Mas eu vou te mostrar uma coisa. Está vendo ali, perto daquelas nuvens acinzentadas, aquele magnífico pote de doces? Uau! É enorme. Sim, e ele é infinitamente abastecido, de forma que nunca acaba. Que loucura! E o que são aqueles pontinhos? Ah! Aquilo? São pessoas. Pessoas? Sim, um pequeno grupo de pessoas. Vamos chegar mais perto pra ver. Estão todas lambuzadas dessa espécie de “mel”. Olha a barriga deles! Está até grande de tanto comer esse doce maluco desse pote. O que tem nesse doce? Hum... é uma mistura de muitas coisas, não posso te dizer exatamente a receita, mas pra ficar mais palatável, nós o tingimos de dourado, mas a cor original era vermelho-sangue. 

Mas o mais magnífico é o que você vai ver lá embaixo. Tome, use esse binóculo! Embaixo? Sim, não vê que esse pote está no topo de uma escada? Ah! É verdade, eu nem tinha reparado. É uma escada longa, está bem suja, nojenta, precária, parece viscosa de tanta sujeira. Aquilo são ossos? Hum... vamos deixar esses detalhes pra depois. Olha o que tem perto do início da escada. Um trilhão de pontinhos... Não vá me dizer que são pessoas. Precisamente, são pessoas! Parece que vez ou outra elas brigam, vejam como são animalescas! É mais legal quando estão assim, é meio chato quando estão tristes e cansados. Aí não tem muita graça, alguns até se matam. 

Mas o que eles querem, afinal? O que eles querem é subir a escada. Pra quê? Pra comer daquele doce. Eles quase são famintos. Muitos não têm nada pra comer. E o restante, come o suficiente pra sobreviver. Isso não tem feito muito sentido pra mim. Por que diz isso? Aposto que você já entendeu. A escada. Isso, exatamente, você entendeu tudo! Ela é precária pelo que vi. Calculando a quantidade de pessoas lá embaixo, elas facilmente conseguem derrubá-la, é uma escada podre e frágil. Assim, o pote cairia lá embaixo e todos poderiam comer. Sim, não é magnífico? E por que eles não fazem isso? Aí é que vem a nossa maior diabolice. Eles não querem dividir o pote de doces infinito. São egoístas. Cada um pensa por si, acham que o único jeito de solucionar esse problema é subir a escada. Em vez de destruí-la, eles a protegem com todo o fervor, na esperança de um dia conseguir chegar lá em cima. Isso é diabólico mesmo! Estou impressionada. Nada disso, você ainda nem viu o maior plot twist desse jogo que inventamos! Vou pegar um binóculo de maior alcance pra você. Tome! Esse fará você vê-los lá embaixo, bem de pertinho. Oh! Meu deus do céu magnífico... Isso é terrivelmente desumano... Genial, não é? Eles não têm pernas. 

— Estamos recebendo uma bordoada de todos os lados. Se aplicarem essa tal lei Magnitisky, estamos fodidos. 

— Desculpa, sr. Marcelo, eu viajei legal aqui, estava com os pensamentos em uma história que me veio na cabeça... Sabe como é escritor, né? O que o senhor disse mesmo? 

— Que as coisas funcionam como sempre funcionaram, não tem o que fazer. Já terminei de limpar sua mesa, fia. Agora vou limpar outros escritórios. Mas depois eu volto aqui pra gente continuar proseando. Eu li agora a pouco que vão proibir as pessoas de terem iates! Esses canalhas! 

— Mas o senhor não tem um iate! 

— Mas e se um dia eu tiver, não é? 

 

Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

6 de mar. de 2026

Dois poemas de Allyne Fiorentino

 



Iluminações 

Aos “sentinelas de espíritos e estradas” (A. dos Anjos) 

Move-se a língua úmida da vida em sussurro e lume

mas não há ouvido humano capaz de ouvir

 o destino

 

Iluminações queimam a retina

enquanto os inaudíveis hálitos pesados continuam a falar

na língua feérica das serpentes

— por trás dos meus olhos há desenhos incompreensíveis 

à língua dos homens

 

Ribomba trovoada quando a sua palma toca a minha

nossos pactos milicentesimais funcionam no silêncio.


Se te chamo “pai” – como me pede –

é porque já existem galhos iluminados atrás dos meus olhos

relâmpagos na escuridão do corpo.

 

Cinco falanges que se encontram e

dez anos se passam voando

como que contados nos dedos de duas mãos


Um flash de luz e agora seu céu é azul.

 

Com a mão direita,

eu fecho seus olhos,

meio verdes, meio azuis.

Agora,

para sempre.

 

Só há tatuagens quando o fogo se esvai.

 

O olho esquerdo é obediente.

Ficou o olho direito, então, aberto.

Azul-esverdeado.

Fulminante.

Ficou assim, meio a meio.

Yin e yang estáticos como um último símbolo do nosso pacto.

 

Nós dois

meio desconfiados da vida

meio desconfiados da morte

na dualidade típica de

quem anda pelo vale da sombra da morte

[e não teme.

 

Quem pisa na escuridão não tem delicadeza na língua

sabe que tempo é relâmpago

corta as finezas

as palavras são trovões

Mas repara nos seus galhos de luz:

são traços finos, delicadamente desenhados

com a mão direita de Deus.

 

“continue sendo como você é”

foi a última mensagem

foi a primeira mensagem 

 

E se apagou.

 

 

De alma

 

Pode ser cedo para o amanhã

mas os pássaros já sobrevoam a cabeça dos mansos

herdeiros da Terra

levantam os olhos ao firmamento

 

a palavra do destino vem de outros céus

ainda como uma asa.

 

Fecho meus olhos para ver melhor:

a felicidade é branca

 

inscreve-se em sal e água

nos pequeninos mundos que exalam

de nossos corpos nus

 

sempre nus

 

São milhões de pequenas águas-vivas

bioluminescentes

cintilando através desse espelho de voal

 

um portal

para os francos desertos

que beberam da boca seca

das mulheres, esse oceano

É uma leitura “almática” - você diz

no seu próprio latim

buscando as palavras que nunca ouvira

como soldado de guerra

 

um códice para além das armas

para além das almas -

anímica.

 

Perto do mar

quando envoltos em névoa turva

nos encontramos

corrias como um Nostradamus menino

os pés livres, avançando sobre a areia reluzente

ainda inocente de todos os vaticínios

 

Lembro-me da cicatriz da montanha,

onde nos encontramos nas escadarias

era noite

e ali demos novamente as mãos

para amarmos as línguas antigas

que atravessam séculos e pousam

sobre a pele de indigentes, em tatuagens vulgares

– a vida ali era âmbar.

 

Mas todas as vidas engendram-se

nos cachos dos teus cabelos

nessas voltas negras que revivem

as estrelas extintas de outros universos

 

Agora que não é mais menino e já sabe demais

seu olhar bruscamente se ilumina:

são eles também

milhões de pequenas águas-vivas

lascivas, nesse santuário abissal

esse portal, de fúria e calmaria.

 

Também meus olhos

incompreensíveis aos humanos

fixos no céu

fitam um pássaro negro

rasga o horizonte com a delicadeza de uma pena

                                                                          o amor.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

24 de jan. de 2026

Sussurros



Por Allyne Fiorentino 

Tenho teorias absurdas sobre ecos. Eles sussurram em meus ouvidos, reclamando que já haviam sido ditos e só estão retornando para lembrar que somos surdos, embora toda a nossa vida seja movida a hálitos. Há um milhão de vozes suspirando ao nosso redor, contando nossa história, como menestréis. Desde ordinárias coisas até eventos grandiosos e traumáticos. Você não ouve, mas se prestar atenção direitinho... 

Há muitos anos eu ouvi sobre ausentar-se pela primeira vez. Naquele dia, ela disse, e eu lembro de prestar muita atenção: ser adulto é saber lidar com a distância. Não havia motivo nenhum para que isso me consternasse naquela época — eu vivia com a minha família e meu desejo ainda se concentrava em furar a membrana do útero que, aos nos tornarmos adultos, vira prisão. 

Mas aquilo me tocou: ela, vinda de outra cidade para nos dar aulas, tinha, claro, abdicado do convívio com a sua família para seguir sua carreira. E com a frieza típica das mulheres fortes — sem emoção nos olhos, mas com pausas um pouco mais alongadas — ela falava sobre a avó e o tempo de “não convívio”. Nós abdicamos de um tempo para construir outros tempos. Ser adulto é isso: tomar as rédeas do tempo que te resta. 

A sala estava cheia. Ela falava tudo aquilo para mim, sem saber. Eu escutava atenta, também sem saber que aquilo era para mim. Eram os sussurros do tempo dela soprando o tempo que eu deveria deixar. Naquela época a voz era vaticínio. Hoje, narradora. Vejo meus pés caminhando e aqueles ecos formando a trilha sonora, repetindo, “eu já estava lá”. Não acredito que nosso destino esteja selado, mas que ele é produzido com muita antecedência. Nossa vida é sopro tão curto que muitos fecharão seus olhos sem se dar conta disso. 

Ausentar-se ou morrer, reflete Sóror Juana... O que dói mais? O que é mais sublime? Longe do que é nosso, o tempo dá sinais mais fortes: a criança que cresce mais rápido, os cabelos que se agrisalham sem você ver, as rugas que desfiguram a imagem da mãe que você guardou. No seu rosto talvez notem a solidão, mas esta você guarda às setes chaves para poupar os outros de dores que eles não devem sentir. Mas e se você não se ausentasse? E se permanecesse ali? E se fechasse a janela para não soprarem sua vida? Ventos e vozes cessariam no seu deserto e ao se despedirem diriam que os hálitos do passado não podem ser engarrafados, cativos. A única maneira de mantê-los vivos é criando memória... ausentando-se.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

14 de jan. de 2026

E se a crítica literária também for fabricada? Malagueta #41

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior

De vez em quando alguns textos aparecem na mídia e causam um momentâneo rebuliço no mundo literário, como se de repente alguém metesse o dedo na água calma de um copo, girasse e depois saísse de cena. Vocês podem nos chamar de conspiracionistas, mas vamos arriscar esse palpite meio fora da curva e vocês poderão nos acompanhar nessa linha de pensamento e, quem sabe, chegar à conclusão de que não é tão absurdo assim.

O mercado é um grande narcisista e, como um representante legítimo de manipulação, ele precisa de um pequeno caos controlado de vez em quando para transformar aquilo que estava sendo esquecido na prateleira em um produto cheio de frescor, ou seja, movimentar vendas, tendências etc. Isso é mais velho que andar pra frente? Sim, marxistas sabem que o capitalismo prospera e precisa do caos desde que o velho barbudo apontou isso no século XIX, mas não é que essa arma ainda funciona perfeitamente? Quer uma prova?

Ano passado tivemos uma grande febre do açúcar por causa do morango do amor, lembram? De onde surgiu? Como hypou? Ninguém sabe precisar, mas a verdade é que do mesmo jeito que surgiu também se foi, pois as “febres mercadológicas” precisam ser aparentemente caóticas para dar uma sacudida no mercado, mas controláveis, porque depois precisamos voltar à ordem das ovelhas que não pensam. É aquilo que as mulheres conhecem como “migalhas de amor”: uma migalha aqui e ali pra dar uma emoção, gerar expectativa e aprofundar ainda mais o controle da vítima. Como dissemos, o mercado é um grande narcisista.

Também ano passado saiu um texto na Folha de S. Paulo, de autoria da professora Aurora Bernardini, que gerou bastante polêmica, pois dizia que certos autores famosos de hoje não poderiam ser considerados literatura. E este ano, novamente, a Folha solta agora um texto de outra professora, Dirce Waldrick do Amarante, em que ela opina que as listas de melhores livros são, na verdade, um “consenso fabricado”. Seria isso por acaso?    

Sabe o que há em comum entre Aurora e Dirce? É que ambas estão dizendo obviedades. E não, não estamos dizendo que o que elas estão dizendo é raso ou não faça sentido ou está incorreto; pelo contrário, “obviedades” no sentido de que qualquer um que estuda literatura ou que conhece teoria e história literária sabe.

Mas por que essas informações são encaradas hoje em dia como “extraordinárias”? Exatamente porque elas são direcionadas a um público que, embora amplo, possui características em comum: são leigos, teoricamente, de modo que se escandalizam com coisas óbvias e consomem produtos literários como verdadeiros fãs, e não como leitores. Será que leem o que defendem virtualmente? Eis outra questão que pode ser desenvolvida, quem sabe numa próxima malagueta.

O que essa verdade inconveniente significa? Significa que o mercado se aproveita da ignorância teórica (de conhecimento básico) dos leitores sobre determinado assunto para gerar falsas polêmicas que mobilizam novamente essa grande roda de consumo alienado (arriscamos a dizer que quem sai ganhando com isso são exatamente as grandes editoras que estão sendo criticadas, no caso das polêmicas do mundo literário).

Vamos de exemplo... Quando Aurora Bernardini levantou a questão de que best sellers não necessariamente são literatura e que autores hoje aclamados estão fora do padrão canônico daquilo que se considerava literatura de qualidade (sem querer entrar no mérito acadêmico aqui), isso implica em mais pessoas comprando esses livros mencionados para “comprovar” ou para “afrontar” a opinião da professora e pesquisadora: o mercado sabe mexer com o ego do público, que hoje, sabe-se, tem a tendência de afrontar os especialistas. A arrogância da ignorância está na moda, venha de onde vier.

Em seu texto, Aurora citou especificamente Itamar Vieira Júnior, premiado autor brasileiro. Quantos exemplares de Torto Arado, do referido escritor, foram vendidos depois disso? Quantos fãs do autor saíram em sua defesa e movimentaram as redes? Quantos fãs defenderam o autor, e não a sua literatura? Ou defenderam suas crenças (as crenças de uma tribo), mas não sua qualidade literária?

Então quer dizer que uma crítica certa lançada ao acaso e sem contexto profundo pode, por meio da polêmica, endossar ainda mais o objeto da crítica? E isso pode ser uma estratégia mercadológica? Sim, é exatamente o que estamos dizendo.

No caso do texto da professora Dirce Waldrick do Amarante, ela elenca algumas críticas já bastante desgastadas no meio literário, sem apontar nenhuma novidade: sobre as grandes editoras, sobre a visibilidade artística e sobre aquilo que nós nomeamos como “compadrio” ou “clube do brandy” (livros e autores que só sobrevivem graças às amizades) e que isso geram listas de melhores livros tendenciosos e sem critérios literários consistentes. Nada de novo sob o sol. 

Então, qual o objetivo dessa crítica? Qual o objetivo dessa crítica dentro de um grande jornal que por vezes ajudou a construir essa mesma visão mercadológica da literatura que finge atacar? Não questionamos o objetivo da autora, que não disse nenhuma inverdade - embora tenha preterido as evoluções de algumas editoras independentes, tenha deixado de lado aspectos importantíssimos sobre o comportamento dos leitores contemporâneos e, em certo momento do texto, forçou uma defesa periférica, derrapando em alguns argumentos, especialmente na parte de “eventos presenciais serem anacrônicos e inaceitáveis” por excluírem a periferia (forçou a barra pra lacrar! E sobre isso também desconfiamos...).

Percebem onde queremos chegar? Será isso uma teoria da conspiração inventada por nós? Não sabemos, mas veja um trecho do que dissemos em uma Malagueta (#37), publicada em 2021, ocasião em que Fernanda Montenegro entrou para a Academia Brasileira de Letras:

 “... escolhas baseadas em parâmetros obscuros e de compadrio sempre foram a regra. A regra é não ter uma regra clara. O que eu vejo é uma disputa de pequenos grupos que estão todos, sem exceção, interessados em manter o compadrio como meio de medir mérito. Seja no círculo dos consagrados, seja no círculo dos não consagrados, seja no círculo dos marginalizados. Todos têm seus “amigos”, mas nenhum deles está debruçado verdadeiramente sobre o texto, sobre a palavra na folha de papel, a palavra como ela chega a seu leitor. Fala-se muito em autores, mas pouquíssimo em literatura” (FIORENTINO, Allyne. ABL: muito barulho por nada. Revista O Bule, 13 nov. 2021.)

Então, indo um pouco além do que a professora Dirce menciona, concordamos com quase tudo que ela disse, mas entendemos, também, outros pontos de vista, como as possibilidades de publicação de autores e editoras independentes, que hoje criam uma segunda via de publicações fora das grandes editoras, coletivos e grupos que se mantêm resistentes a transformar a literatura em puro produto mercadológico (é o caso da Revista O Bule e de tantas outras revistas/editoras marginais), pessoas que se mantêm resistentes à ideia de que a literatura serve como pretexto e panfletagem para causas sociais de minorias, sem se importar com a qualidade e com a construção de linguagem (é o nosso caso, é o caso de muito gente que pode estar pensando a mesma coisa agora e não tem coragem de dizer porque tem medo de ser massacrado pelo dito politicamente correto). Nada disso foi mencionado. Estranho, não é mesmo? Ou será que foi proposital? Fica aí o questionamento.

Quem hoje teria coragem de dizer que uma obra que exalta algum aspecto de minoria é ruim? E olhe que, hoje em dia, há muitas, muitas, muitas obras literárias muito ruins. Você teria? Teria coragem de ir contra tudo e todos a partir de uma análise literária de verdade? O que sabemos é que, n'O Bule, a gente vive falando disso. E por isso continuamos aqui, menos para dar conclusões palatáveis que o público espera e mais para fazer o leitor pensar!

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Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais e reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.

6 de jan. de 2026

Cinco livros metaficcionais que você precisa ler!

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior 


Você sabe o que é metaficção? 

Trata-se de uma técnica narrativa, ou escolha estilística, em que uma obra de ficção se torna autoconsciente – mas como assim? –, chamando a atenção para sua própria natureza de artefato fictício (é bom sublinhar essa expressão), questionando a relação entre realidade e ficção. 

A obra, assim, revela seus próprios mecanismos de construção, tanto em personagens que sabem que estão em uma história (Paul Auster faz muito isso!) quanto em autores que escrevem sobre o processo de escrita e o explica (vide Machado de Assis). 

A metaficção não é recente! 

Embora bastante explorado na pós-modernidade, esse recurso é muito antigo! No século XVII, El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha (Dom Quixote), por exemplo, além de ser considerado como o primeiro romance moderno, também é um dos primeiros que se utiliza da técnica metaficcional, sendo considerado extremamente inovador para a época.

Machado de Assis, no século XIX, explorou bastante os recursos dessa técnica narrativa. Mas, sobretudo no século XX, a metaficção alcançou níveis nunca antes alcançados (adoramos esses termos!) com o espanhol Unamuno, o italiano Pirandello e o argentino Borges, entre outros. Jorge Luis Borges e Luigi Pirandello são mestres em questionar as fronteiras entre realidade, autoria e ficção. Enquanto o escritor argentino utiliza a metaficção para explorar labirintos intelectuais e filosóficos, o italiano a utiliza para desmascarar a identidade humana e os mecanismos do teatro. 

Metaficção é o mesmo que autoficção? 

Nãããão. Na nossa visão, obras metaficcionais são mais inventivas, mais criativas e confundem – de verdade – ficção e realidade, colocando às vezes os autores como personagens em situações absurdas e fantásticas. É uma brincadeira literária. A autoficção está mais para um recurso de autobiografia declaradamente ficcional, já que toda obra, seja ela biográfica ou autobiográfica, também tem sua parcela de "ficção", visto que trata-se de verosimilhança que passa pelo crivo subjetivo do autor/a (mas isso é assunto para outra hora).

Vamos à lista e já avisamos (contém spoilers!)

1 - Névoa – Miguel de Unamuno 

Já no início da obra, há um prefácio escrito por um homem que, depois, descobrimos ser um dos seus personagens. Após o prefácio, o autor (Unamuno) responde ao seu personagem com um pós-prefácio. Louco, né? 

Nesta "nivola" (termo criado pelo autor), no meio da história o protagonista Augusto Pérez descobre que é um personagem de ficção. Ele decide confrontar seu criador, o próprio Unamuno, em seu escritório em Salamanca, para discutir seu destino e o fato de não querer morrer. 

A obra quebra a barreira entre autor e personagem, questionando quem tem mais “realidade” (o criador mortal ou a criatura literária eterna?) e evidencia a dicotomia confusa entre o mundo real e o mundo ficcional.


 

Borges não escrevia romances, mas seus contos (em coletâneas como Ficções e O Aleph) são exemplos puros de metaficção no século XX. Em algumas narrativas, inclusive, Borges é o próprio narrador e personagem, confundindo as diferenças entre personagem/narrador/autor.

 

  • “Pierre Menard, autor do Quixote”: Trata-se de um falso ensaio literário que narra a história de um homem que decide reescrever o Dom Quixote de Cervantes, palavra por palavra. Borges discute como o significado de um texto muda dependendo do contexto e de quem o lê, transformando o ato de ler em um ato de criação. Aqui também há a intertextualidade com a própria metaficção contida em Dom Quixote.
  • “O jardim dos caminhos que se bifurcam”: O conto é um livro-labirinto onde todas as possibilidades de uma história acontecem simultaneamente. É uma ficção que comenta sobre a estrutura de todas as ficções e sobre o tempo como um livro infinito. 
  • “As ruínas circulares”: Um homem sonha com outro homem até torná-lo real, apenas para descobrir, no final, que ele próprio é um sonho de outra pessoa. É uma metáfora para o autor que cria personagens, mas que também é “criado” pela tradição literária.

Borges, ao refletir sobre a natureza da ficção, convida o leitor a refletir sobre a própria natureza da realidade. Também explora, por meio dessa técnica/escolha, a condição humana em vários aspectos, sobretudo em questões relacionadas à passagem do tempo, de uma forma extremamente inovadora. E por falar em inovador...


3 - Seis personagens à procura de um autor – Luigi Pirandello 

Pirandello é aquele cara que revolucionou o drama moderno ao romper a ilusão do palco, criando o que chamam de metateatro. 

Essa obra é o exemplo máximo de metaficção no teatro. É uma brincadeira. É uma loucura. E é muito divertido! No meio de um ensaio de uma peça de Pirandello, seis pessoas entram no palco alegando ser personagens inacabados de uma história nunca escrita. Eles exigem que os atores reais encenem a tragédia deles. 

A obra discute a si mesma, expondo suas características e funcionamento; os personagens sabem que fazem parte de uma história e interagem diretamente com o público, lembrando-o da artificialidade da obra e “quebrando a quarta parede” (expressão da moda usada para qualquer coisa nesse sentido).


 

Publicado em 1979, é uma das obras mais emblemáticas das últimas décadas: é um labirinto sobre a arte de ler e escrever, funcionando como uma reflexão profunda sobre a natureza da literatura. 

Se um viajante numa noite de inverno coloca o leitor real no papel de personagem, dissolvendo a fronteira entre o mundo real e o ficcional. Ademais, o livro discute abertamente os mecanismos da narrativa, as expectativas de quem lê e as frustrações de quem escreve. Através do personagem Silas Flannery (um autor em crise), Calvino questiona se o autor é realmente o “dono” da obra ou apenas um canal para tradições literárias.


5 - Ensaios sobre a total libertação – Rogers Silva 

Longe de nós querer comparar Borges, Unamuno, Calvino e Pirandello com nosso amigo Rogers! Mas, para destoar dessa lista de clássicos dos clássicos, escolhemos colocar um livro recém publicado e que encaixa perfeitamente no conceito de metaficção. Duvida? 

O primeiro conto do livro, “Drummond no Orkut”, começa com o personagem João se sentando em um banco de uma praça e se esbarrando no livro Manicômio, justamente a primeira obra do autor, Rogers Silva. A partir daí, o conto mistura narrativa e ensaio, metaficção e mistério, crítica social e redenção. 

No conto “A máquina-führer”, por exemplo, uma máquina, criada por um alemão a mando de Hitler na década de 1930, permite aos dois protagonistas (o Curioso-menor e o Curioso-Maior) irem a qualquer tempo, espaço ou mente humana. O que parece uma aventura despretensiosa possui, na verdade, outro propósito: não deixar que o autor Rogers Silva seja culpado pela Segunda Guerra Mundial. Os personagens precisam correr contra o tempo, porque se essa tragédia ocorrer (não a Guerra, mas o autor ser o culpado por ela), ele se suicidará aos trinta anos. 

Há mais dois contos longos: “Ensaio sobre a libertação total” e “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”, em que o autor, Rogers Silva, é também o protagonista da história. Esta última é uma história de stalker: um fã começa a seguir o autor em todos os seus passos: o que a princípio parece uma brincadeira, transforma-se numa história de suspense e terror.


 

Gostou das indicações?

E você, leitor, quais obras metaficcionais leu e gostou? 

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.