14 de jan. de 2026

E se a crítica literária também for fabricada? Malagueta #41

Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior

De vez em quando alguns textos aparecem na mídia e causam um momentâneo rebuliço no mundo literário, como se de repente alguém metesse o dedo na água calma de um copo, girasse e depois saísse de cena. Vocês podem nos chamar de conspiracionistas, mas vamos arriscar esse palpite meio fora da curva e vocês poderão nos acompanhar nessa linha de pensamento e, quem sabe, chegar à conclusão de que não é tão absurdo assim.

O mercado é um grande narcisista e, como um representante legítimo de manipulação, ele precisa de um pequeno caos controlado de vez em quando para transformar aquilo que estava sendo esquecido na prateleira em um produto cheio de frescor, ou seja, movimentar vendas, tendências etc. Isso é mais velho que andar pra frente? Sim, marxistas sabem que o capitalismo prospera e precisa do caos desde que o velho barbudo apontou isso no século XIX, mas não é que essa arma ainda funciona perfeitamente? Quer uma prova?

Ano passado tivemos uma grande febre do açúcar por causa do morango do amor, lembram? De onde surgiu? Como hypou? Ninguém sabe precisar, mas a verdade é que do mesmo jeito que surgiu também se foi, pois as “febres mercadológicas” precisam ser aparentemente caóticas para dar uma sacudida no mercado, mas controláveis, porque depois precisamos voltar à ordem das ovelhas que não pensam. É aquilo que as mulheres conhecem como “migalhas de amor”: uma migalha aqui e ali pra dar uma emoção, gerar expectativa e aprofundar ainda mais o controle da vítima. Como dissemos, o mercado é um grande narcisista.

Também ano passado saiu um texto na Folha de S. Paulo, de autoria da professora Aurora Bernardini, que gerou bastante polêmica, pois dizia que certos autores famosos de hoje não poderiam ser considerados literatura. E este ano, novamente, a Folha solta agora um texto de outra professora, Dirce Waldrick do Amarante, em que ela opina que as listas de melhores livros são, na verdade, um “consenso fabricado”. Seria isso por acaso?    

Sabe o que há em comum entre Aurora e Dirce? É que ambas estão dizendo obviedades. E não, não estamos dizendo que o que elas estão dizendo é raso ou não faça sentido ou está incorreto; pelo contrário, “obviedades” no sentido de que qualquer um que estuda literatura ou que conhece teoria e história literária sabe.

Mas por que essas informações são encaradas hoje em dia como “extraordinárias”? Exatamente porque elas são direcionadas a um público que, embora amplo, possui características em comum: são leigos, teoricamente, de modo que se escandalizam com coisas óbvias e consomem produtos literários como verdadeiros fãs, e não como leitores. Será que leem o que defendem virtualmente? Eis outra questão que pode ser desenvolvida, quem sabe numa próxima malagueta.

O que essa verdade inconveniente significa? Significa que o mercado se aproveita da ignorância teórica (de conhecimento básico) dos leitores sobre determinado assunto para gerar falsas polêmicas que mobilizam novamente essa grande roda de consumo alienado (arriscamos a dizer que quem sai ganhando com isso são exatamente as grandes editoras que estão sendo criticadas, no caso das polêmicas do mundo literário).

Vamos de exemplo... Quando Aurora Bernardini levantou a questão de que best sellers não necessariamente são literatura e que autores hoje aclamados estão fora do padrão canônico daquilo que se considerava literatura de qualidade (sem querer entrar no mérito acadêmico aqui), isso implica em mais pessoas comprando esses livros mencionados para “comprovar” ou para “afrontar” a opinião da professora e pesquisadora: o mercado sabe mexer com o ego do público, que hoje, sabe-se, tem a tendência de afrontar os especialistas. A arrogância da ignorância está na moda, venha de onde vier.

Em seu texto, Aurora citou especificamente Itamar Vieira Júnior, premiado autor brasileiro. Quantos exemplares de Torto Arado, do referido escritor, foram vendidos depois disso? Quantos fãs do autor saíram em sua defesa e movimentaram as redes? Quantos fãs defenderam o autor, e não a sua literatura? Ou defenderam suas crenças (as crenças de uma tribo), mas não sua qualidade literária?

Então quer dizer que uma crítica certa lançada ao acaso e sem contexto profundo pode, por meio da polêmica, endossar ainda mais o objeto da crítica? E isso pode ser uma estratégia mercadológica? Sim, é exatamente o que estamos dizendo.

No caso do texto da professora Dirce Waldrick do Amarante, ela elenca algumas críticas já bastante desgastadas no meio literário, sem apontar nenhuma novidade: sobre as grandes editoras, sobre a visibilidade artística e sobre aquilo que nós nomeamos como “compadrio” ou “clube do brandy” (livros e autores que só sobrevivem graças às amizades) e que isso geram listas de melhores livros tendenciosos e sem critérios literários consistentes. Nada de novo sob o sol. 

Então, qual o objetivo dessa crítica? Qual o objetivo dessa crítica dentro de um grande jornal que por vezes ajudou a construir essa mesma visão mercadológica da literatura que finge atacar? Não questionamos o objetivo da autora, que não disse nenhuma inverdade - embora tenha preterido as evoluções de algumas editoras independentes, tenha deixado de lado aspectos importantíssimos sobre o comportamento dos leitores contemporâneos e, em certo momento do texto, forçou uma defesa periférica, derrapando em alguns argumentos, especialmente na parte de “eventos presenciais serem anacrônicos e inaceitáveis” por excluírem a periferia (forçou a barra pra lacrar! E sobre isso também desconfiamos...).

Percebem onde queremos chegar? Será isso uma teoria da conspiração inventada por nós? Não sabemos, mas veja um trecho do que dissemos em uma Malagueta (#37), publicada em 2021, ocasião em que Fernanda Montenegro entrou para a Academia Brasileira de Letras:

 “... escolhas baseadas em parâmetros obscuros e de compadrio sempre foram a regra. A regra é não ter uma regra clara. O que eu vejo é uma disputa de pequenos grupos que estão todos, sem exceção, interessados em manter o compadrio como meio de medir mérito. Seja no círculo dos consagrados, seja no círculo dos não consagrados, seja no círculo dos marginalizados. Todos têm seus “amigos”, mas nenhum deles está debruçado verdadeiramente sobre o texto, sobre a palavra na folha de papel, a palavra como ela chega a seu leitor. Fala-se muito em autores, mas pouquíssimo em literatura” (FIORENTINO, Allyne. ABL: muito barulho por nada. Revista O Bule, 13 nov. 2021.)

Então, indo um pouco além do que a professora Dirce menciona, concordamos com quase tudo que ela disse, mas entendemos, também, outros pontos de vista, como as possibilidades de publicação de autores e editoras independentes, que hoje criam uma segunda via de publicações fora das grandes editoras, coletivos e grupos que se mantêm resistentes a transformar a literatura em puro produto mercadológico (é o caso da Revista O Bule e de tantas outras revistas/editoras marginais), pessoas que se mantêm resistentes à ideia de que a literatura serve como pretexto e panfletagem para causas sociais de minorias, sem se importar com a qualidade e com a construção de linguagem (é o nosso caso, é o caso de muito gente que pode estar pensando a mesma coisa agora e não tem coragem de dizer porque tem medo de ser massacrado pelo dito politicamente correto). Nada disso foi mencionado. Estranho, não é mesmo? Ou será que foi proposital? Fica aí o questionamento.

Quem hoje teria coragem de dizer que uma obra que exalta algum aspecto de minoria é ruim? E olhe que, hoje em dia, há muitas, muitas, muitas obras literárias muito ruins. Você teria? Teria coragem de ir contra tudo e todos a partir de uma análise literária de verdade? O que sabemos é que, n'O Bule, a gente vive falando disso. E por isso continuamos aqui, menos para dar conclusões palatáveis que o público espera e mais para fazer o leitor pensar!

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Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais e reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino. 

Sinvaldo Júnior é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários. Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e cinema. Mora em Uberlândia/MG.