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7 de set. de 2026

Um pequeno problema para Freud

 

Por Milton Rezende

 

Nunca pude explicar

o fato de ficar horas a fio

à porta de uma lanchonete

observando uma moreninha

que trabalha numa loja em frente.

Ela nunca percebeu nada,

e se percebesse, acho que eu

deixaria meu observatório.


Do livro Um Andarilho Dentro de Casa.


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog.

 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

24 de mai. de 2026

O elixir da longa vida

 

Por Milton Rezende
 
Agora eu era o lendário
Juan Ponce de León que,
já naquela época, andava afoito
atrás da Fonte da Juventude.
 
Também como ele e todos os demais
homens, eu sentia que a minha vida tinha sido
desbaratada até então no mais puro equívoco,
e que eu precisava de uma segunda chance.
 
Consultei todos os compêndios e manuais
antigos onde eu pudesse encontrar a fórmula
do Elixir da Longa Vida, pois eu já havia
nascido doente da alma e com fome no estômago.
 
Eu precisava, portanto, e com a máxima urgência
de uma panaceia qualquer para me dar um
pouco de acalanto depois de tantas decepções
durante minhas expedições e jornadas perdidas.
 
Equipei um laboratório no porão desativado e
nele instalei minha alquimia de sábio ancião
a partir do cinábrio, enxofre, arsênico e mercúrio,
conforme as lendas urbanas desde os espanhóis.
 
Entretanto antes de eu alcançar qualquer
sucesso ou lograr algum avanço científico
em minhas pesquisas, fui atingido por uma
flecha envenenada disparada por uma tribo.
 
Do livro O Jardim Simultâneo.


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

17 de mai. de 2026

O cotidiano em círculos

Por Milton Rezende
 
Viemos de um sonho remoto
onde algumas sombras pairam
sobre a quietude das águas.
Mas a chuva nos molha o rosto
e de resto temos apenas as palavras.
 
Um encontro casual
entre seres com a mesma afinidade
mostra que imagens diversas se misturam
para definir nosso retrato interior.
E o tempo estanca o sangue e escoa.
 
A noite silenciava as vozes do edifício
e a luta pelo recolhimento se tornou impraticável.
Eu estava tentando dormir como os outros,
mas uma mosca desenhava o espaço
com a sua presença inquieta. 

Do livro Inventário de Sombras.


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

19 de mar. de 2026

Noturno


Por Milton Rezende
 
As pedras da calçada
retêm um pouco da vida
que escorre de meus pés
através dos meus sapatos.
 
As marcas que deixo na poeira
inevitavelmente serão repisadas
por pés de homens que amanhã
seguem por diferentes caminhos,
e também pelo orvalho da noite
se hoje esta rua não conhecer outros passos.
 
Se delimitarmos este pequeno espaço
onde está agora o número 38 de meus pés
como sendo o ponto de partida de mim,
é certo não haver convergência de um todo
pois sou muitos na unidade do nada
e caminhamos divorciados no tempo.
 
Assim a calçada me acompanha
como numa procissão qualquer
onde a cada passo
inaugura-se uma nova fase de mim,
e não se repete nunca o mesmo percurso.
 
Tampouco posso ignorar o fato
de que ontem estive aqui,
embora não existam vestígios
o meu sapato em mim se renova
e comprova o meu itinerário passado.
 
Do livro O Acaso das Manhãs.


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

14 de mar. de 2026

Nós

 

Por Milton Rezende 
 
Somos apenas alguns
e o mundo todo pesa
sobre nós o seu peso
de mundo que machuca.
 
Somos apenas alguns
que transitam em meio
aos destroços de nós
e ao redor dos sonhos.
 
Somos apenas alguns
que dividem o silêncio
de cada exílio para que
em nós algo se restaure.
 
Somos apenas alguns
e o resultado de nós
nessa sequência de buscas
é ainda o que não achamos.
 
Somos apenas alguns
e esperamos que o dia
esclareça luzes sobre
o nosso absurdo de nós.
 
Somos apenas alguns
que não sabem o que fazer
de nós e da vida que temos
e que precisam de ajuda.
 
Somos apenas alguns
ao redor de uma mesa
ou de um pensamento
e nos amamos com receio.


Do livro Areia (À fragmentação da Pedra).


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).

6 de mar. de 2026

Dois poemas de Allyne Fiorentino

 



Iluminações 

Aos “sentinelas de espíritos e estradas” (A. dos Anjos) 

Move-se a língua úmida da vida em sussurro e lume

mas não há ouvido humano capaz de ouvir

 o destino

 

Iluminações queimam a retina

enquanto os inaudíveis hálitos pesados continuam a falar

na língua feérica das serpentes

— por trás dos meus olhos há desenhos incompreensíveis 

à língua dos homens

 

Ribomba trovoada quando a sua palma toca a minha

nossos pactos milicentesimais funcionam no silêncio.


Se te chamo “pai” – como me pede –

é porque já existem galhos iluminados atrás dos meus olhos

relâmpagos na escuridão do corpo.

 

Cinco falanges que se encontram e

dez anos se passam voando

como que contados nos dedos de duas mãos


Um flash de luz e agora seu céu é azul.

 

Com a mão direita,

eu fecho seus olhos,

meio verdes, meio azuis.

Agora,

para sempre.

 

Só há tatuagens quando o fogo se esvai.

 

O olho esquerdo é obediente.

Ficou o olho direito, então, aberto.

Azul-esverdeado.

Fulminante.

Ficou assim, meio a meio.

Yin e yang estáticos como um último símbolo do nosso pacto.

 

Nós dois

meio desconfiados da vida

meio desconfiados da morte

na dualidade típica de

quem anda pelo vale da sombra da morte

[e não teme.

 

Quem pisa na escuridão não tem delicadeza na língua

sabe que tempo é relâmpago

corta as finezas

as palavras são trovões

Mas repara nos seus galhos de luz:

são traços finos, delicadamente desenhados

com a mão direita de Deus.

 

“continue sendo como você é”

foi a última mensagem

foi a primeira mensagem 

 

E se apagou.

 

 

De alma

 

Pode ser cedo para o amanhã

mas os pássaros já sobrevoam a cabeça dos mansos

herdeiros da Terra

levantam os olhos ao firmamento

 

a palavra do destino vem de outros céus

ainda como uma asa.

 

Fecho meus olhos para ver melhor:

a felicidade é branca

 

inscreve-se em sal e água

nos pequeninos mundos que exalam

de nossos corpos nus

 

sempre nus

 

São milhões de pequenas águas-vivas

bioluminescentes

cintilando através desse espelho de voal

 

um portal

para os francos desertos

que beberam da boca seca

das mulheres, esse oceano

É uma leitura “almática” - você diz

no seu próprio latim

buscando as palavras que nunca ouvira

como soldado de guerra

 

um códice para além das armas

para além das almas -

anímica.

 

Perto do mar

quando envoltos em névoa turva

nos encontramos

corrias como um Nostradamus menino

os pés livres, avançando sobre a areia reluzente

ainda inocente de todos os vaticínios

 

Lembro-me da cicatriz da montanha,

onde nos encontramos nas escadarias

era noite

e ali demos novamente as mãos

para amarmos as línguas antigas

que atravessam séculos e pousam

sobre a pele de indigentes, em tatuagens vulgares

– a vida ali era âmbar.

 

Mas todas as vidas engendram-se

nos cachos dos teus cabelos

nessas voltas negras que revivem

as estrelas extintas de outros universos

 

Agora que não é mais menino e já sabe demais

seu olhar bruscamente se ilumina:

são eles também

milhões de pequenas águas-vivas

lascivas, nesse santuário abissal

esse portal, de fúria e calmaria.

 

Também meus olhos

incompreensíveis aos humanos

fixos no céu

fitam um pássaro negro

rasga o horizonte com a delicadeza de uma pena

                                                                          o amor.


Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.

28 de jan. de 2026

Três poemas de Ana Yanca

 

Na manhã tântrica  
línguas babilônicas
serpenteiam fluídas
sorvendo leite da carne
no corpo solar

Na manhã tântrica
uma dança xamânica
germina no ventre do signo

partejo fábulas corcéis labirintos

Flâmulas vibram espasmos
entorno da ânsia: o grito

Serpente dourada protege
a manjedoura do filho

 Urge e fulgura

na parede da casa
a memória urtigada dos sentidos


*

Contorcia a língua
no ventre do silêncio
para entreabrir a palavra
em ritmo de alaúde
em mantra ou mandarim

o corpo perfumado em chá branco
poros em flor vestidos de luz
delineando contornos
que a penumbra produz

do corpo solar emerge
o sopro que me anima
a vívida aurora íntima 

olho para o alto
pássaros na bruma da manhã
atravessam-me
cada gesto é frágil
e carrega o peso do mundo

há que se ter coragem para ser

*

Espero na sombra
uma palavra que
se despregue
das paredes
do poema
e me atinja
como sol
dinamitado

espero a vida ávida
da palavra-lâmina-lamparina
lacerando a carne
bifurcando a língua
e fotografe o tempo

esse agoraprolongado
daqui da sombra
vejo a fosforescência:
germina um corsário

Ana Yanca, natural de Porto Velho, atua como professora na área de linguagens. É graduada em Letras, Pós-graduada em Filosofia Contemporânea, Mestra em Estudos Literários e autora da obra Do corpo ao espaço em Hilda Hilst. Outros poemas, além das colagens digitais, estão disponíveis em meios impressos e virtuais.

27 de jan. de 2026

Poemas de Marcelo Benini do livro "Poemas do núcleo rural"


Retrato com abelha no cabelo

Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes 
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.


Terra sem males

Todas as palavras rudes
Formam as montanhas que foi um dia
Minas Gerais

Toda máquina renasce
No contingente ser das máquinas

Todo o embaraço humano
Ignorado pelos gatos 
Todo vazio entre átomos
Tudo que se rompeu
Fios, barragens, amores
Tratados

Restos de construções gramaticais
Anais das instituições
A promessa de vir e não vir

Vidas em corpos arrestados
Presos a esse imenso vazio
Que desmatamos
As cidades são pastos cinzas
Sem onças

Apanha-se a vida no chão
Até que haja o consenso de que todo pasto
É cinza

Fica mesmo é um mato
Um imenso
De precários rebocos.


Poemas apanhados do chão na estrada do núcleo rural 

Nasceu a flor no homem
A chuva demora
A formiga corta
O mato abafa   
A mão arranca a tentativa
De flor no homem.

****

Tudo que alcanço
É um cata-vento sem Deus
Um mundo mecânico
De pá e vento.  

****

Quem é meu pai
Quem é minha mãe
Quem são meus irmãos
Ossos que visito
Arrependimentos
Pratos sobre a pia
Quem é esse silêncio
Que assoma 
Na manhã inventariada?

****

Amor é o gosto por livros
Com prefácios equivocados.

****

De grunhidos
Faremos um mundo
E com gritos -
Neste uso
De urros -
Linguagem
Gramática
E normas
Cultas.

****

Se acabarem os passarinhos
Como farás os poemas
Terás que falar apenas das árvores
Mas as árvores secam no
Abandono dos passarinhos
Os rios sem as árvores vão embora
As flores desistem
Acabaram os passarinhos.


Lamentações do doutor Fausto

Um diabinho pousou no galho mais alto do ipê
Prometeu-me dez minutos de felicidade
E começou a cantar, cantar e cantar
Em troca de minha alma.


* Retirados de Poemas do Núcleo Rural (2022, Penalux).


Marcelo Benini é poeta e ambientalista, nascido em 1970, em Cataguases - Minas Gerais. Publicou O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/edição do autor); O Homem Interdito (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); Currais Concretos (poesia/2018/Intermeios); Poemas do Núcleo Rural (poesia/2022/Penalux). Em 2013 foi incluído na antologia de autores brasileiros Wir sind bereit, publicada na Alemanha. Vive em uma área rural próxima a Brasília-DF. Instagram: @marcelobeninipoemas