28 de jan. de 2026

Três poemas de Ana Yanca

 

Na manhã tântrica  
línguas babilônicas
serpenteiam fluídas
sorvendo leite da carne
no corpo solar

Na manhã tântrica
uma dança xamânica
germina no ventre do signo

partejo fábulas corcéis labirintos

Flâmulas vibram espasmos
entorno da ânsia: o grito

Serpente dourada protege
a manjedoura do filho

 Urge e fulgura

na parede da casa
a memória urtigada dos sentidos


*

Contorcia a língua
no ventre do silêncio
para entreabrir a palavra
em ritmo de alaúde
em mantra ou mandarim

o corpo perfumado em chá branco
poros em flor vestidos de luz
delineando contornos
que a penumbra produz

do corpo solar emerge
o sopro que me anima
a vívida aurora íntima 

olho para o alto
pássaros na bruma da manhã
atravessam-me
cada gesto é frágil
e carrega o peso do mundo

há que se ter coragem para ser

*

Espero na sombra
uma palavra que
se despregue
das paredes
do poema
e me atinja
como sol
dinamitado

espero a vida ávida
da palavra-lâmina-lamparina
lacerando a carne
bifurcando a língua
e fotografe o tempo

esse agoraprolongado
daqui da sombra
vejo a fosforescência:
germina um corsário

Ana Yanca, natural de Porto Velho, atua como professora na área de linguagens. É graduada em Letras, Pós-graduada em Filosofia Contemporânea, Mestra em Estudos Literários e autora da obra Do corpo ao espaço em Hilda Hilst. Outros poemas, além das colagens digitais, estão disponíveis em meios impressos e virtuais.