Retrato com abelha no cabelo
Escrevo
o lado oposto de quem me lê
Nunca
pensei ser compreendido
Senão
por passarinhos e saguis
As
frutas me ajudaram mais que os
Dicionários
de verbos e regimes
E
as gramáticas
As
palavras com as quais me importo
Ciscam
O
vento que escrevo está nas folhas
Dos
buritis
Só
faço versos que têm sopro
No coração.
Terra sem males
Todas
as palavras rudes
Formam
as montanhas que foi um dia
Minas
Gerais
Toda
máquina renasce
No
contingente ser das máquinas
Todo
o embaraço humano
Ignorado
pelos gatos
Todo
vazio entre átomos
Tudo
que se rompeu
Fios,
barragens, amores
Tratados
Restos
de construções gramaticais
Anais
das instituições
A
promessa de vir e não vir
Vidas
em corpos arrestados
Presos
a esse imenso vazio
Que
desmatamos
As
cidades são pastos cinzas
Sem
onças
Apanha-se
a vida no chão
Até
que haja o consenso de que todo pasto
É
cinza
Fica
mesmo é um mato
Um
imenso
De
precários rebocos.
Poemas apanhados do chão na estrada do núcleo rural
Nasceu
a flor no homem
A
chuva demora
A
formiga corta
O mato abafa
A
mão arranca a tentativa
De
flor no homem.
****
Tudo
que alcanço
É
um cata-vento sem Deus
Um
mundo mecânico
De
pá e vento.
****
Quem
é meu pai
Quem
é minha mãe
Quem
são meus irmãos
Ossos
que visito
Arrependimentos
Pratos
sobre a pia
Quem
é esse silêncio
Que
assoma
Na
manhã inventariada?
****
Amor
é o gosto por livros
Com
prefácios equivocados.
****
De
grunhidos
Faremos
um mundo
E
com gritos -
Neste
uso
De
urros -
Linguagem
Gramática
E
normas
Cultas.
****
Se
acabarem os passarinhos
Como
farás os poemas
Terás
que falar apenas das árvores
Mas
as árvores secam no
Abandono
dos passarinhos
Os
rios sem as árvores vão embora
As
flores desistem
Acabaram
os passarinhos.
Lamentações do doutor
Fausto
Um
diabinho pousou no galho mais alto do ipê
Prometeu-me
dez minutos de felicidade
E
começou a cantar, cantar e cantar
Em
troca de minha alma.
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Marcelo Benini é poeta e ambientalista, nascido em 1970, em Cataguases - Minas Gerais. Publicou
O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/edição do autor); O Homem Interdito
(crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); Currais
Concretos (poesia/2018/Intermeios); Poemas do Núcleo Rural
(poesia/2022/Penalux). Em 2013 foi incluído na
antologia de autores brasileiros Wir
sind bereit, publicada na Alemanha. Vive em uma área rural próxima a Brasília-DF. Instagram:
@marcelobeninipoemas
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