27 de jan. de 2026

Poemas de Marcelo Benini do livro "Poemas do núcleo rural"


Retrato com abelha no cabelo

Escrevo o lado oposto de quem me lê
Nunca pensei ser compreendido
Senão por passarinhos e saguis
As frutas me ajudaram mais que os
Dicionários de verbos e regimes 
E as gramáticas
As palavras com as quais me importo
Ciscam
O vento que escrevo está nas folhas
Dos buritis
Só faço versos que têm sopro
No coração.


Terra sem males

Todas as palavras rudes
Formam as montanhas que foi um dia
Minas Gerais

Toda máquina renasce
No contingente ser das máquinas

Todo o embaraço humano
Ignorado pelos gatos 
Todo vazio entre átomos
Tudo que se rompeu
Fios, barragens, amores
Tratados

Restos de construções gramaticais
Anais das instituições
A promessa de vir e não vir

Vidas em corpos arrestados
Presos a esse imenso vazio
Que desmatamos
As cidades são pastos cinzas
Sem onças

Apanha-se a vida no chão
Até que haja o consenso de que todo pasto
É cinza

Fica mesmo é um mato
Um imenso
De precários rebocos.


Poemas apanhados do chão na estrada do núcleo rural 

Nasceu a flor no homem
A chuva demora
A formiga corta
O mato abafa   
A mão arranca a tentativa
De flor no homem.

****

Tudo que alcanço
É um cata-vento sem Deus
Um mundo mecânico
De pá e vento.  

****

Quem é meu pai
Quem é minha mãe
Quem são meus irmãos
Ossos que visito
Arrependimentos
Pratos sobre a pia
Quem é esse silêncio
Que assoma 
Na manhã inventariada?

****

Amor é o gosto por livros
Com prefácios equivocados.

****

De grunhidos
Faremos um mundo
E com gritos -
Neste uso
De urros -
Linguagem
Gramática
E normas
Cultas.

****

Se acabarem os passarinhos
Como farás os poemas
Terás que falar apenas das árvores
Mas as árvores secam no
Abandono dos passarinhos
Os rios sem as árvores vão embora
As flores desistem
Acabaram os passarinhos.


Lamentações do doutor Fausto

Um diabinho pousou no galho mais alto do ipê
Prometeu-me dez minutos de felicidade
E começou a cantar, cantar e cantar
Em troca de minha alma.


* Retirados de Poemas do Núcleo Rural (2022, Penalux).


Marcelo Benini é poeta e ambientalista, nascido em 1970, em Cataguases - Minas Gerais. Publicou O Capim Sobre o Coleiro (poesia/2010/edição do autor); O Homem Interdito (crônica/2012/Intermeios); Fazenda de Cacos (poesia/2014/Intermeios); Currais Concretos (poesia/2018/Intermeios); Poemas do Núcleo Rural (poesia/2022/Penalux). Em 2013 foi incluído na antologia de autores brasileiros Wir sind bereit, publicada na Alemanha. Vive em uma área rural próxima a Brasília-DF. Instagram: @marcelobeninipoemas