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28 de jun. de 2012

Porão do Manicômio (final)

Mais opiniões sinceras de Kyanja Lee (parecerista, preparadora e revisora) sobre Manicômio, de Rogers Silva >>>



"Com relação ao Cap. VIII, d’O espelho, penso que a narrativa envolvendo o Curioso-Mor e o Curioso-menor em suas viagens ao passado e ao futuro até poderia ser encarado como um conto autônomo, com título. Excelente a passagem mencionando os escritores. Humor ferino, sarcástico na medida certa:

__ Como deve ter percebido, tenho uma queda para os escritores. São, quase todos, socialmente fracassados – não ficam ricos, não fazem sucesso, alguns nem são minimamente reconhecidos. Muitos deles chegam aos seus últimos anos de vida frustrados e magoados. Porém se acham, quase todos, uns semideuses. Consideram-se importantes, inteligentíssimos, até geniais. Deles, do seu interior, se enxergam muitas coisas.
(...) Mas, como diz uma música que ainda será composta por Belchior, pense comigo: um rapaz latino-americano, sem dinheiro no banco, sem parentes importantes, vindo do interior (da periferia de uma cidade do interior), com pais sem estudo, e pobre... A possibilidade de um indivíduo desses se dar bem como escritor ou qualquer outra coisa que seja é, no Brasil, remotíssima, quase inexistente. Tá vendo aquele ali?

Grandiloquente a sua intervenção na narrativa, ao fazer uso de si mesmo como autor, para se atribuir uma responsabilidade:

− Então... Preste bastante atenção: Rogers Silva, o rapaz que acabamos de visitar, é o autor d’O espelho, em cujo capítulo VIII foi criada a máquina-fuhrer...
− Quê?!
− Pois é... A máquina-fuhrer, essa mesma que estamos usando, criação de Rogers Silva, vai ser a grande motivação pro início da Guerra.
− Como?!
− Isso mesmo. Esta máquina é a responsável por tudo o que você viu. Vai ser (foi) o causador de todos os males: das mortes, das perseguições... E o criador dela, Klaus Hoffman, é personagem de Rogers Silva. Sendo assim, o verdadeiro culpado dessa Grande Guerra, em que milhões serão (foram) mortos, é este rapaz, que nascerá (nasceu) daqui a cinquenta anos.

Outra coisa de que gostei foi de seus experimentalismos com a linguagem e com o projeto gráfico, ao brincar com as palavras de maneira a mostrarem a intenção:
Pulou.
E foi caiiiindo,
caiiiindo,
caiiiindo,
caiiiindo,
                                                         TUMMMMMM!!! – um assombroso som seco.

Ou:

Não sabia se rhi hi ria ou se chorai ai aiva.

E:

oqueserá? comsuador não... meescutará afasta... DOIS! afasta... demim o maisdepressapossível essecálice  e-e o que-o-que... UM!

E o que

será visto:

somente

os meus cacos

espalhados

pelo chão...

TRIMMMMMMMMMMMMMMMMMM!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!!

A última revolta de Jesus Cristo é uma narrativa curta, mas acaba amarrando com êxito a longa narrativa de O espelho, uma vez que é quase interlocutor deste último.
 Uma viagem esplêndida me conquistou com a improvável interação de tantos personagens díspares, de Odin a Chico Bento. Fico me perguntando se a Parte 2, quando se inicia o relato dessa interação (uma vez que a Parte 1 diz respeito ainda à canção do adolescente suicida como narrador, que aparece em Uma viagem ruim) não poderia substituir Meus olhos verdes em suas oficinas de contação de histórias. Fica aí a minha sugestão, para sua análise.
Enfim, essas são as impressões que me passou a sua longa narrativa, que, como você mesmo disse, contempla um período grande de produção: de 2002 a 2006, com algumas interrupções no meio. Entendi que o seu objetivo não é fazer um texto pasteurizado ou se dirigir a um leitor pouco afeito a leituras densas. Certo?
Sucesso na publicação de seu livro!"


* Em breve, o livro Manicômio será publicado!

15 de jun. de 2012

Porão do Manicômio V

Opiniões sinceras de Kyanja Lee (parecerista, preparadora e revisora) sobre Manicômio, de Rogers Silva >>>



"Caro Rogers,

Antes de mais nada, parabéns! Parabéns pela inventividade, pela capacidade de criar e entremear tantas narrativas, tendo como principal fio condutor um espelho. São visíveis em sua escrita e temas as influências de Machado de Assis e Edgar Allan Poe. De Campos de Carvalho não posso falar muito, pois não li ainda nada dele. Você se utiliza em seus contos do recurso – em desuso, hoje em dia − de dirigir-se diretamente ao leitor, tornando-o cúmplice e testemunha dos acontecimentos que se desenrolam à sua frente. Sem medo de ser démodé, revela com isso que, quando bem empregado, continua surtindo o efeito desejado.
A sua primeira narrativa, Uma viagem ruim, está primorosa! Extremamente bem composta, criativa, original, sob o inusitado ponto de vista de uma canção que está sendo criada por seu criador depressivo no mesmo instante em que é lida pelo leitor. Se o seu objetivo é incluí-lo em seu projeto de contação de histórias, com certeza agradará aos jovens leitores pelo tema que pega bem na veia: o sentimento de inadequação, tão característico da adolescência, aliado ao lirismo que é passado para o papel em forma de canção poética.
Com Clarissa você reafirma a sua capacidade de emular com perfeição tanto a fala quanto a visão infantil. Isso é para poucos autores, com certeza! O seu conto, com enfoque intimista, deixa entrever que, desde a mais tenra idade, existe a atração, o fascínio pelo sexo oposto e, por que não dizer, uma sexualidade latente, apenas difusa e confusa.

Eu sentia a respiração da Clarissa, távamo muito perto, o pradão era pequeno e apertado e tava até meio escuro lá dentro. Eu ia falá alguma coisa mas ela disse shhhiii e colocou o dedo na minha boca. Távamo pertinho um do outro e ela foi assim chegano, chegano e pegou na minha mão. Eu tremi e senti uma coisa assim estranha. Credo. Aí então ela me deu um beijo na boca assim tão rápido e aí o Felipinho apareceu e gritou Clarissa e Hugo! Peguei! A Clarissa correu bem depressa mas eu fiquei paradinho dentro do pradão sentino aquele gosto estranho além do friozinho. À noite, na cama, eu pensava que Clarissa era minha namorada e beijava o travesseiro e sentia uma coisa boa mas estranha. E chorava. Mas não chorava assim de dor ruim. Era bom.

O Mundo Encantado de Desseres é uma fascinante viagem pelo mundo de personagens surreais que se desenham na mente do leitor, conforme este avança na narrativa. É um conto circular em que os personagens vão se imbricando um na vida do outro, cruzando destinos, com ritmo e balanço, num universo quase onírico. Imagino que tenha sido intencional você ter criado um único e longo parágrafo, como que para não dar tempo ao leitor de se desconectar, mesmo que para pular de uma linha a outra.
A trilogia Amor Amor: Ruínas, formada pelos três relatos, mostra um autor sensível às questões amorosas. Em Um voo entre as estrelas e o chão, o leitor vai entrando gradualmente no relato meio cru, descuidado, pretensamente sem medir palavras do personagem. Por meio de sua narrativa em primeira pessoa, onisciente restrito, ficamos sabendo de um grande amor vivido com Josi, a mulher de sua vida, paixão dividida com outras mulheres, haja vista seu papel mercantilista na relação com o sexo oposto. E a mágoa da namorada diante da descoberta de que o namorado não é apenas seu, com consequente atitude cega e extremada, jogando-se da sacada onde tanto fizeram amor. Um relato maduro, bem lapidado, de um autor que sabe manipular as palavras e tem consciência de que menos é mais!
Amor-Perfeito e As (im)perfeições de nosso amor são contos carregados de lirismo que têm em comum serem quase elegias a um outro que amam. Naturalmente não são contos em que há ação, pois são introjeções ou, antes, declamações de amor carregadas de prosa poética. Inusitada a imagem de um Lúcifer que aprende a amar doces de leite, pelo gosto transmitido por Gabriel (estaremos falando de um Gabriel mineiro?). Enquanto no primeiro conto há uma reafirmação de um amor, no segundo há, contraditoriamente, uma negação, a recusa e o afastamento de um amor que não basta a quem é alvo do mesmo.
Uma viagem estática é um conto que registra a dor de uma mãe que perde seu filho adolescente da maneira mais improvável: pelo suicídio. Você conduz o leitor como se o convidasse a adentrar na casa e nos pensamentos de Pérola, a dona de casa que é traída e leva uma vida insípida, até ser visitada pela tragédia."
(...)

* Em breve, mais opiniões sinceras de Kyanja Lee sobre outros contos.
** O livro Manicômio será publicado em julho de 2012.

17 de mai. de 2012

Trilha sonora do 'Manicômio' (parte III)

Meus olhos verdes (folhetim romântico)


EPÍGRAFE:


Did they get you to trade
Your heroes for ghosts (…)
And did you exchange.
(Wish You Where Here, PINK FLOYD)



*** ***
TRECHO: "A questão acima o instigava. Como? – se perguntava, agora deitado na cama, no som tocando Lady in red, olhando o teto escuro, pouca alumiação que vinha da janela aberta. A lembrança do rosto de Jéssica também o instigava..."



*** ***
TRECHO: "Esfregava o peito tentando assustá-lo, expulsá-lo, fazê-lo sumir. Isso não pode ser. Faz tão pouco tempo. Tão pouco tempo! O jeito é dormir. Amanhã estarei melhor... Dormiu com o som ligado. Tocava Words".




*** ***
TRECHO: "A noite, após uma breve chuva à tarde que atrapalhara o casal, pois combinara em passar o dia todinho juntos, ao ar livre, estava fria. No som, a música-clímax da paixão: Total eclipse of the heart".





*** ***
TRECHO: “Até que enfim a música ridícula que estava tocando acabou, pois não tem nada a ver com a situação que relembro agora. Quero uma canção que eu possa questioná-la. Talvez esta:
Eu tranco a porta pra todas as mentiras
E a verdade também está lá fora... Será que existe verdade lá fora?
A porta fechada me lembra você a toda hora...
Que tanto de ‘portas’ são essas?
Orientação...



>>> Manicômio é um livro de Rogers Silva. Será publicado em julho de 2012. Há mais música no folhetim romântico Meus olhos verdes e em todo o livro (mais trilha sonora AQUI).

Abraços!
Rogers Silva.

18 de abr. de 2012

Trilha sonora do 'Manicômio' (parte II)

Um voo entre as estrelas e o chão (conto)


TRECHO: "A música (Ando tão à flor da pele: qualquer beijo de novela me faz chorar) que eu escutava não tinha nada a ver com o ambiente de amor e prazer que se criou quando ela entrou sorridente e sensual por aquela porta vestida com uma calça jeans que ficava maravilhosamente bem em seu lindo corpo e uma blusinha que apertava seus seios grandes (Barco sem porto, sem rumo, sem vela)".



 *** ***

TRECHO: "Lembrei disso, esqueci a água, corri e Para Eliza de Beethoven tocando no vizinho, corria corria corria à sacada. Meu Deus! Tropecei na mesinha no meio da sala. Josi! Josi! A resposta: um grito já distante".

 

*** ***

  Uma viagem esplêndida (conto)


EPÍGRAFE:


Nessa estrada não nos cabe conhecer ou ver o que virá
O fim dela ninguém sabe bem ao certo onde vai dar
Vamos todos numa linda passarela de uma aquarela
Que um dia enfim descolorirá.
(Aquarela, TOQUINHO E VINÍCIUS DE MORAES)




>>> Manicômio é um livro de Rogers Silva. Será publicado em julho de 2012. Há muita, mas muita música em todas as suas histórias. Acima, a trilha sonora de mais dois contos. Mais músicas virão por aí, em outro post sobre o assunto.

Abraços & Beijos.
Rogers Silva.

15 de abr. de 2012

Trilha sonora do 'Manicômio' (parte I)

Uma viagem ruim (conto)


TRECHO: "Que balada triste é essa, meu amigo? Parece música erudita. Toca também erudito? Reconheço! Essa é o Romance de amor de Antônio Rovira. Muito triste essa canção. Si... si... si... si... lá... lá... sol... sol... fá#... A música é em Mi menor harmônico! Ah, e é ternária. Pare, Brad!, se não daqui há pouco eu também estarei chorando. Imagine uma canção chorando. É adequado dizer que ainda não sou uma canção. Estou em fase de composição". 

 



*** ***

TRECHO: "Esse rock eu conheço, Brad! Knockin’ on heaven’s door – eis o nome da canção. Batendo o céu na porta? Como assim? Isso é ilógico. Ou seria Batendo na porta do céu? Esse deve ser o ritual de Brad: tocar algumas melodias tristes antes de compor uma canção".





*** ***


TRECHO: "À noite inteira, a mesma canção:

I used to love her, but I had to kill her
I used to love her, yeah but I had to kill her
I had to put her six feet under.
And I can still hear her complain…

I used to love her, ooh, yeah, but I had to kill her.
I used to love, ooh, yeah…

(Na madrugada inteira, a mesma canção).
Num imensurável escuro e num denso silêncio passei a noite.

Não dormi. Também não tenho espírito. Repeat, repeat, repeat, repeat, repeat... E sempre o mesmo I used to love her, but I had to kill her..."





*** ***

Manicômio (conto)


TRECHO: "Escutou, de quase todos, cada um à sua maneira, para não ir. Que ficasse mais um pouquinho. Quando João Marcos saía, um mulato com cabelo black power cantava uma música que não ouvira nos luais anteriores:

Quero explodir as grades e voar
Eu não tenho pra onde ir, mas não quero ficar..."




*** ***

TRECHO: "Dava atenção a tudo: às casas pequenas, sujas, do bairro pobre em que morava, às árvores maltratadas da beira da rua, às pouquíssimas pessoas (morenas encardidas, negras) que via andando pela rua, ao (talvez) único bar que estava aberto àquela hora. Só não prestava atenção à música que, apesar da péssima transmissão, passava na rádio AM:

Vocês são vermes, pensam que são reis"




*** ***

TRECHO: "Rafael, enfim no local onde fora marcado o mini-evento, ouviu os outros, que já estavam cantando:

Enquanto você se esforça pra ser...
um sujeito normal...
e fazer tudo igual...
Eu, do meu lado, aprendendo a ser louco...
Um maluco total, na loucura real..."



>>> Manicômio é um livro de Rogers Silva. Será publicado em julho de 2012. Há muita, mas muita música em todas as suas histórias. Acima, a trilha sonora de apenas dois contos. Mais músicas virão por aí, em outro post sobre o assunto. Aguarde.

Abraços & Beijos.
Rogers Silva.

31 de mar. de 2012

Porão do Manicômio IV


     Mais opiniões sinceras de Glenio Cabral (escritor) sobre Manicômio, de Rogers Silva >>>

  "As imperfeições do nosso amor: um texto perturbador. Perturbador porque é contraditório, repleto de antíteses em suas mais variadas formas. Não há consenso em um único momento. Enquanto o lemos, somos levados de um lado para o outro como um barco à deriva. Instintivamente, enquanto lia cantarolava “Monte Castelo”, do  Legião Urbana. Acho que alguns textos naturalmente têm uma trilha sonora.  O “cego-luz”, centro de todo o discurso, é o pilar de onde saem todos os paradoxos. Tudo vai nele e sai dele. E sai como ele é, distorcido, sem direção, uma bagunça. O texto é forte. O turbilhão de palavras às vezes confunde. Mas também dá pra sentir a força de cada uma dessas palavras, meticulosamente escolhidas. Parabéns pela escolha das palavras. As palavras são o grande diferencial desse texto.

·    Meus olhos verdes: piração, esse livro. Quando eu já vinha me acostumando com as altas viagens, eis que me deparo com “Meus olhos verdes”. Uma novela simples, uma história de amor, traição e surpresas. Como um conto assim poderia estar presente em Manicômio? A sensação que tive foi que eu vinha a 1.000 por hora, e de repente brequei. Senti-me um pouco seguro, enfim. Pela primeira vez, sentia-me dono da situação. Em todo o momento o leitor é inserido dentro da novela pelo narrador. Somos apresentados aos personagens, aos seus dramas, aos seus ambientes. A narrativa nos aproxima ao máximo de cada personagem. Eu posso dizer que os vi, não com a força da minha imaginação, mas com a narrativa deste conto. Vi e me constrangi. Constrangi-me diante dos dramas. Fiquei com raiva da Jéssica. Até agora não entendi. E muito menos o Geisel. E o que parecia ser um conto simples e de pouca profundidade, mexeu comigo. O conto é longo. Mas não cansa. Parei de lê-lo algumas vezes, mas sempre desejando retornar à leitura. Ele fisga. Um ótimo texto.

·   Uma viagem estática: a grande surpresa do livro. Linguagem simples, objetiva, fácil. Do jeito que eu gosto. Já li muitos livros de contos, mas o recurso utilizado aqui como forma de observar a mesma situação numa outra perspectiva foi nova pra mim. Muito criativo da parte do autor. A linguagem é clara, as peças vão se encaixando e o quebra-cabeça se arrumando. Excelente artifício.

·    A última revolta de Jesus Cristo: um dos melhores textos do livro. O que mais gostei foi do humor ácido extravasado nas últimas linhas. Sou um amante do humor, e o final do conto foi de matar de rir. Rir em Manicômios? Pois é, mais uma surpresa. Se bem que os loucos adoram gargalhar também. Parabéns pela tensa abordagem psicológica do Filho de Deus. Como cristão, fiquei impressionado. E chocado também. Seu texto me incomodou, devo admitir. Incomodou-me pela fé que professo. Mas não a ponto de não admirá-lo pelo que ele é: uma divertidíssima e ácida crítica à raça humana". 

     * Em breve, mais opiniões sinceras de outros leitores sinceros.
     ** O livro Manicômio será publicado em julho de 2012.

30 de mar. de 2012

Porão do Manicômio III

Opiniões sinceras sobre o Manicômio, de Rogers Silva:


Glenio Cabral (escritor) >>>



"Caro Rogers,

seguem minhas opiniões sinceras sobre o seu livro. Não é preciso dizer que não sou um crítico literário. Na verdade sinto-me meio desconfortável nessa atividade, já que sou apenas um aspirante a escritor voltado para o público infanto-juvenil, e nesse caso estou muito mais pra uma versão nacional da J. K. Rowling do que para uma Saramago à brasileira, como é seu caso. Mas vamos ao que interessa.

Seu livro é denso, difícil, complicado. Exige muito do leitor. Por densidade e complicação não entenda ausência de conteúdo ou sequência desconexa de ideias. De forma alguma. Em todos os contos percebi claramente uma história ou “viagem” muito bem organizada, com início, meio e fim. A questão é que seu livro é totalmente visceral.  Tudo é muito intenso, sem subterfúgios, direto na ferida. Mas o direto na ferida é viajante, é submerso em devaneios, encharcado em loucuras. Confesso que não tenho o hábito de ler esse tipo de literatura.  Por isso, talvez, tenha sentido algumas dificuldades. Se eu estivesse numa livraria e me deparasse com seu livro, muito provavelmente não o compraria. Por quê? Porque acharia difícil pra mim. Falo como Glenio, como um leitor de coisas simples e algumas um pouco mais complicadas, que gosta de mergulhar fundo no mundo da literatura, mas que também aprecia objetividade e clareza. Falo como um leitor medíocre, que ainda tem muito a amadurecer. Enfim, seu livro faz jus ao título, é uma loucura literária. E como loucura, um grande desafio para o leitor médio. Cada vez que eu terminava um texto, me perguntava se de fato minhas impressões estavam corretas. Será que havia entendido mesmo? Era aquilo mesmo? Sabe, ler seu livro me deu a sensação de que as coisas não estavam em ordem em minha cabeça, de que havia muitas alternativas de compreensão, de que talvez o seu objetivo não fosse enjaular seus textos num espaço compacto de compreensão, mas deixá-los livres na mente alucinada de um ávido leitor. Seu livro me deixou alucinado. Completamente.  Deixou-me irritado também. Fiquei nervoso várias vezes, e a leitura de “Manicômios” quase me causa um conflito matrimonial.   Por vezes encarei-o como um jogo, um jogo difícil de se ganhar. No conto “O mundo desencantado de Desseres”, por exemplo, eu quase pirei. Foi muita viagem. Sei que o que estava em questão era a angústia humana, essa permanente crise provocada pelas perdas na vida, pelas decepções e frustrações que os personagens vivenciaram. Suas reações são cotidianas. Raiva, desprezo, frustração, mágoa, esperança, desesperança... Mas admito que não consegui penetrar no conto como gostaria. Se a leitura dessa história fosse uma relação sexual, meu gozo não teria sido pleno, uma vez que seria dificultado pelas penosas tentativas de penetração. Foi um conto difícil de ser penetrado. Enfim, seu livro é um desafio. Mas qual grande literatura não é?

1.     Uma viagem ruim: na minha opinião, o melhor conto do livro. Duas coisas me chamam atenção neste conto. Primeiro, o fato de ser de fácil compreensão. É um texto direto, objetivo, claro, fácil. Para um leitor mediano como eu, agradou bastante. E é o texto que abre a loucura que é seu livro. Achei legal isso, um estímulo pra que o leitor não se desespere logo de cara. Fico imaginando o que aconteceria se o primeiro texto fosse o da “Desseres...” Gostei muito deste primeiro conto, como já havia lhe adiantado. A maneira como o poema se manifesta comentando as frases que são compostas pelo Brad, a forma como ele analisa o Brad, as conclusões a que chega... O poema é concluído e... O final, arrebatador. Fantástico. Sinceramente, um dos melhores e mais criativos textos que já li. Não tenho nenhuma crítica a fazer. Parabéns!

2.    Clarissa: Também de fácil compreensão. Insisto na tecla compreensão porque leitores medianos como eu adoram compreender claramente as coisas que estão lendo. É um defeito, eu sei. Mas, enfim, o vocabulário da criança é bastante convincente. Em todo o tempo tive a sensação de que meu sobrinho de cinco anos estava conversando comigo. Muito bacana a linguagem que você utilizou. Gostei também da forma como você abordou as descobertas da criança, a sexualidade, a admiração profunda pela amiga mais velha... coisas do dia-dia, palpáveis a qualquer um, vivenciadas por todos nós. Li o texto numa boa e gostei do que li. Esse foi fácil de ser penetrado. O final foi bem legal também.

3.    O mundo desencantado de Desseres: esse é problema. Pelo menos pra mim, foi. São muitos personagens, cada um mais psicodélico que o outro. Em todo o tempo tinha a sensação de que estava assistindo a um show do Pink Floyd, algo como The Wall. Loucura total, psicodelia geral! Francamente não entendi muita coisa não, e olhe que quase saí no tapa com esse texto. Mas você pediu franqueza, então estou sendo franco. Pra mim, um texto quase impenetrável, embora muito rico. Não senti prazer em lê-lo. Li-o mais por obrigação. É isso. 

4.    Um vôo entre as estrelas e o chão: bom texto. Senti uma enorme carga psicológica (o que é geral em todo o livro) neste conto. Senti-me na pele do cara, do conquistador, do incompleto, do insaciável. Foi um texto fácil de ser lido, apesar de ter sido um grande desafio também. As frases curtas não o tornam cansativo, apesar de ser um texto relativamente longo. Gostei da linguagem e das frases curtas. O final é um retorno ao começo, com a Josi em questão. Recurso legal também. Tive prazer em lê-lo.

5.    Amor-perfeito: um texto difícil. Texto de frases imensas, povoado por palavras, por mil palavras, por um turbilhão de letras. Às vezes eu procurava loucamente por um ponto final, e nada. O tema me parece simples. O amor. Mas o amor é tratado aqui de forma visceral, intensa, metafórica e exagerada. Compreendi facilmente que havia um diálogo no texto. Um diálogo entre Lúci e Gabriel. Isso foi fácil de entender. A questão toda foi saber quem eram as duas pessoas.  Estamos tratando aqui de seres angelicais? Gabriel e Lúcifer? Ambos estavam tendo um caso celestial? Ou infernal? Ou são apenas pessoas com esses nomes? Fiquei com essa dúvida na cabeça. Mas confesso que a dúvida foi legal. Gostei de sentir isso, gostei mesmo. Acho que enriqueceu muito o texto".


* Já-já, mais opiniões sinceras do Glenio Cabral e de outros leitores sinceros.
** O livro Manicômio será publicado em julho de 2012.

15 de fev. de 2012

Porão do Manicômio II

Por Rogers Silva


Queridos e fiéis leitores d’O BULE,


Aqui, como dito na postagem anterior, publicarei a série Porão do Manicômio (livro de narrativas de minha autoria que será publicado em julho de 2012). Do livro fazem parte, dentre vários outros, os contos:
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Dada a cena que esmaga a minha mente já esmagada (se não, não estaria aqui, e assim), decidi, por unanimidade, ou seja, um voto a zero, suicidar-me. Vejo palhaços, e sinceros (o que é pior) mortos, com um sorriso nos rostos, em rostos (para ser mais exato) feios e iguais ao meu – por isso do meu arrependimento e da conseqüente decisão de me matar, porque não vejo, por enquanto, alternativa melhor (se tem, por favor, venha me informar qual, no máximo em vinte minutos).
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Quando Josi veio vindo chorando, pela primeira vez entrou chorando no meu apartamento, sempre entrava feliz, sorrindo, quando ela veio vindo me abraçando, pensei: O que será? Eu te amo eu te amo eu te amo, saiba, insistia em dizer. Sei, murmurei. E eu também. Mas..., começou. Não terminou. Por quê?, perguntou. E eu sabendo do que se tratava falei: Você é insubstituível.
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Como pode duas pessoas se amarem tanto, ao cúmulo da anulação mútua? Como pode? Desiludida com as respostas foi para a beira do mar, avistou uma gaivota lá longe, ínfimo branco sobreposto à imensidão azul, sorriu, quão belo é o mundo, quão bela é a vida, meu Deus, mas quão angustiante – e se jogou. As ondas a levaram, para onde, se perguntava a filha, a garota que perdeu a mãe, para onde, se perguntava o marido, o surdo e seus olhos de gato.
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A falta que você me faz é semelhante ao mal que você me faz. A falta – a que fui obrigado a render – dói. A falta, a ausência doem, meu Cego-luz (prefiro assim). Com você, a falta do sublime, do transcendental. Sem você, a falta de você. Tudo é ausência. Como me acostumar a um mundo onde tudo é ausência? Com você (porque você insiste em não querer transgredir), a mesmice enfim. Seu amor é pouco: não se entrega. Às vezes preferiria que fosse uma paixão ardente, passageira, mas sublime, feita de instantes intensos e inesquecíveis.
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Eu sentia a respiração da Clarissa, távamo muito perto, o pradão era pequeno e apertado e tava até meio escuro lá dentro. Eu ia falá alguma coisa mas ela disse shhhiii e colocou o dedo na minha boca. Távamo pertinho um do outro e ela foi assim chegano, chegano e pegou na minha mão. Eu tremi e senti uma coisa estranha. Credo. Aí então ela me deu um beijo na boca assim tão rápido e aí o Felipinho apareceu e gritou Clarissa e Hugo! Peguei! A Clarissa correu bem depressa mas eu fiquei paradinho dentro do pradão sentino aquele gosto estranho além do friozinho. À noite, na cama, eu pensava que Clarissa era minha namorada e beijava o travesseiro e sentia uma coisa boa mas estranha. E chorava. Mas não chorava assim de dor ruim. Era bom.
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Cometas e eclipses foram feitos para nós, nós dois, e se cometas não caiem na Terra é porque sabem que aqui estamos nos amando, sempre nos amando, e se alguma vez a lua se sobrepor ao sol, minha luz, o espetáculo é nosso, sim, é para nos vangloriarmos, porque tudo foi feito para nós, basta querer, basta querer que o mar caiba aqui nessa minha mão fechada e ele caberá, e juro que nenhuma gota cairá, não deixarei nenhuma gota cair para poder te presentear o mar, o mar inteiro, todo o mar que existir só para você, somente para você, vem, pegue, aqui está o mar na minha mão fechada, vem logo meu amor, vem logo que ele pode secar.


Até o próximo dia 15 (com algumas curiosidades sobre essa casa de loucos)!
Abraços, beijos do
Rogers.

Porão do Manicômio

Por Rogers Silva


A partir de hoje, n'O BULE, você poderá conhecer o Porão do Manicômio (livro de narrativas de minha autoria que será publicado em julho de 2012).  Eis o convite para acompanhar essa série que objetiva desnudar a criação, o contexto pessoal, ficcional e histórico de  alguns contos e novelas que compõem esse livro, no dizer de Nelson de Oliveira, claustrofóbico e desestabilizador. A obra não será explicada, aqui, pelo próprio autor. O leitor deve ter a liberdade de interpretar a coisa lida, e o autor não deve - a meu ver - facilitar essa interpretação com as suas opiniões e achismos. Aqui, sim, as curiosidades sobre a feitura do livro (as homenagens, as inspirações, os personagens históricos e os retomados de outras obras, os manuscritos dos contos, as músicas da trama etc.) que serão abordadas.

Sobre Manicômio:

Escrito entre 2002 e 2006 – deixado de lado por umas 3 vezes, esquecido por uns 4 anos (ou mais), nunca enviado pra editora nenhuma –, Manicômio é fruto de uma obsessão. Noites perdidas. Estresse. Pesquisa. Mil leituras. Esperança. Empolgação. Emoção. Imaginação. Lembranças. Frustração. Ora escrito com sangue, ao pé da letra.

Manicômio sob os vieses loucos de alguns:


Nelson de Oliveira (escritor) >>>
“Terminei de ler teu Manicômio e confesso que só por muita sorte consegui escapar de lá com a sanidade ainda intacta. Essa coletânea de narrativas tem a mesma densidade claustrofóbica e desestabilizadora do Asilo Arkham, a notória instituição psiquiátrica de Gotham City. Numa das melhores histórias sobre essa instituição, Batman quase não conseguiu sair de lá. A loucura é muito sedutora.

As duas narrativas mais psicologicamente violentas são sem sombra de dúvida as mais fragmentadas, O espelho[1] e Manicômio[2]. Na primeira, o diálogo intertextual com o conto de Machado rendeu um texto bastante inquietante, que ao mesmo tempo seduz e incomoda o leitor. Então o tempo começa a avançar e a recuar, os cenários vão mudando, começam a aparecer outras personagens: Carolina, Policarpo Quaresma, Campos de Carvalho, e tudo vai ganhando a consistência de um sonho. Já estamos na ante-sala do manicômio, onde os desejos e os impulsos mais antigos amordaçam a razão e matam o professor de lógica. Nesse estabelecimento a juventude está sem rumo (ainda, há décadas) e a morte violenta é a parada final.

Teu livro revela o mundo desencantado de dezenas de pessoas, não só de Desseres[3]. E faz isso sem se preocupar com o estômago e o bom gosto dos leitores mais idiotas, esses mesmos leitores que, apesar de possuírem certa inteligência letrada, não perdem uma edição do Big Brother.
(...)
Tua literatura não é para os leitores comuns, é para os raros, ou só para os loucos, como queria Hermann Hesse, no romance O lobo da estepe. A densidade discursiva vem da complexidade existencial das personagens e do narrador, que sofrem intelectualmente, ou seja, bem mais profundamente do que as pessoas comuns já sofreram ou vão conseguir sofrer em toda sua mísera existência. Mas foi sempre assim... Enquanto noventa e cinco por cento da humanidade está envolvida apenas com a trágica luta pela sobrevivência, os cinco por cento restantes estão parados diante do infinito, do mistério, de queixo caído e olhos arregalados."

Ney César (escritor) >>>
"Caro Rogers,
o seu livro é, em princípio, excelente. Senti nele um arrebatamento contido (paradoxo permitido pelo que vi da própria obra) que busca, cego, uma resolução que lhe escapa tão dolorosa, tão tragicamente. Arrebatamento humano, na ânsia de um sentido, de um significado, de uma resposta, melhor dizendo, a si mesmo. Na minha leitura senti, ou melhor, vislumbrei (porque está tão oculto!) um desejo inerentemente humano de uma correspondência, que mais propriamente é amorosa, desejo que, a cada passo acremente, acerbamente irônico, revela-se frustrado, revela-se não encontrado no outro. E eu escrevi acima o adjetivo contido, porque essa tragédia humana, diferentemente de tragédias gregas ou dramalhões mexicanos, é contida, abafada, às vezes presa no cotidiano ou na vida inteira das personagens. Incomunicável. E a incomunicabilidade não se mostra somente muda, é cega também.

E aqui lembro do principal texto do livro, O espelho. Esse texto, com sua super-estrutura multiforme, demonstra uma superposição de discursos humanos que na verdade não se comunicam senão na mesma tragédia de que falei. Tragédia anunciada às vezes com ironia acerba, chegando a ser até maldosa. Às vezes essa ironia maldosa significa nada mais do que uma sobreironia à maldade do mundo, mas percebi que no seu livro ela revela somente um certo cinismo e descaso para com essa mesma tragédia. Como se não importasse, talvez até como se fosse uma brincadeira. Porém, a metáfora implícita num espelho que viaja de vida em vida sem ninguém o enxergar revela a cegueira dessa tragédia humana, pois não é capaz nem de reconhecer-se tragédia, não é capaz de reconhecer no outro aquela correspondência de que falei, e queda-se sozinha, silente, escura, incomunicável.



Isso tudo li no seu livro. Contudo, existem outras coisinhas que, na minha humilde posição de leitor, eu acharia melhor se fossem de outro jeito. Em primeiro lugar, às vezes você usa, como já disse, de uma ironia cínica, e eu particularmente não gosto desse tipo de ironia. Pois ele revela um distanciamento sentimental, um alheamento com relação à tragédia que talvez seja sintoma dos nossos tempos de individualismo exacerbado, mas que eu preferiria ver criticado literariamente, e não assumido. E não estou dizendo que você o faça com consciência, ou não, o que digo é que está lá. Mas eu acredito que críticas existem é para isso, não para elogiar ou denegrir simplesmente, mas para desvendar, até mesmo para o autor, os alcances significativos e culturais de suas obras, e dar-lhes, a elas, mais possibilidades, intrínsecas e futuras, abrir-lhes caminhos de interpretação e até mesmo de possíveis mudanças, no auto-conhecimento do autor.
(discorre sobre o conto Meus olhos verdes)


Sua linguagem é boa, inovadora, de uma sintaxe truncada e instigante, e eu gosto disso.
(continua discorrendo sobre o conto Meus olhos verdes)

No conto O espelho eu li trechos daquele seu outro conto, A última revolta de Jesus Cristo, em que você traça aquele itinerário ficcional do personagem, que vive, presencia e sofre tantas mazelas, testemunha e experimenta tantos crimes e tantos pecados que no fim revolta-se contra o Pai, com a sua inflexível e tirânica vontade de fazê-lo passar por tudo aquilo. Revolta-se, resolvendo morrer não pelos homens, mas... 
(3 páginas discorrendo sobre o conto A última revolta de Jesus Cristo).

Porém, sendo este texto uma crítica literária, e não somente uma apologia cristã, termino dizendo que seu livro, Manicômio, é ótimo. Excelente na sua proposta e feliz na sua consecução. Um livro que nos desperta para uma procura desesperada de significado, amoroso que seja, para a vida, procura essa que chega à beira da loucura de tão difícil, talvez mesmo impossível (eu ainda não cheguei ao final do livro para saber qual a sua palavra final sobre esse assunto, ou se ela existe). (...) Eu poderia escrever mais coisas, sobre a ambientação citadina, sobre a mistura entre realidade e ficção (pondo você mesmo como personagem e seus personagens conscientemente como vida criada e não como vida ativa etc.), sobre essa confusão pós-moderna de elementos culturais diversos e díspares (que eu rapidamente vi no último conto[4]) mas esta não é uma análise literária, é apenas uma crítica amiga. Só reitero os meus elogios; se houvesse uma prova para textos literários, o seu passaria."



Enfim, espero que gostem dessa literatura claustrofóbica, louca e triste. 
Abraços!
Rogers.

[1] Novela. Não será publicada n’O BULE.
[2] Conto. Já foi publicado n’O BULE.
[3] Referência ao conto O mundo desencantado de Desseres, primeiramente publicado no Portal Stalker (org. Nelson de Oliveira).
[4] Refere-se ao conto Uma viagem esplêndida (epopéia). Não será publicado n’O BULE..