15 de fev. de 2012

Porão do Manicômio

Por Rogers Silva


A partir de hoje, n'O BULE, você poderá conhecer o Porão do Manicômio (livro de narrativas de minha autoria que será publicado em julho de 2012).  Eis o convite para acompanhar essa série que objetiva desnudar a criação, o contexto pessoal, ficcional e histórico de  alguns contos e novelas que compõem esse livro, no dizer de Nelson de Oliveira, claustrofóbico e desestabilizador. A obra não será explicada, aqui, pelo próprio autor. O leitor deve ter a liberdade de interpretar a coisa lida, e o autor não deve - a meu ver - facilitar essa interpretação com as suas opiniões e achismos. Aqui, sim, as curiosidades sobre a feitura do livro (as homenagens, as inspirações, os personagens históricos e os retomados de outras obras, os manuscritos dos contos, as músicas da trama etc.) que serão abordadas.

Sobre Manicômio:

Escrito entre 2002 e 2006 – deixado de lado por umas 3 vezes, esquecido por uns 4 anos (ou mais), nunca enviado pra editora nenhuma –, Manicômio é fruto de uma obsessão. Noites perdidas. Estresse. Pesquisa. Mil leituras. Esperança. Empolgação. Emoção. Imaginação. Lembranças. Frustração. Ora escrito com sangue, ao pé da letra.

Manicômio sob os vieses loucos de alguns:


Nelson de Oliveira (escritor) >>>
“Terminei de ler teu Manicômio e confesso que só por muita sorte consegui escapar de lá com a sanidade ainda intacta. Essa coletânea de narrativas tem a mesma densidade claustrofóbica e desestabilizadora do Asilo Arkham, a notória instituição psiquiátrica de Gotham City. Numa das melhores histórias sobre essa instituição, Batman quase não conseguiu sair de lá. A loucura é muito sedutora.

As duas narrativas mais psicologicamente violentas são sem sombra de dúvida as mais fragmentadas, O espelho[1] e Manicômio[2]. Na primeira, o diálogo intertextual com o conto de Machado rendeu um texto bastante inquietante, que ao mesmo tempo seduz e incomoda o leitor. Então o tempo começa a avançar e a recuar, os cenários vão mudando, começam a aparecer outras personagens: Carolina, Policarpo Quaresma, Campos de Carvalho, e tudo vai ganhando a consistência de um sonho. Já estamos na ante-sala do manicômio, onde os desejos e os impulsos mais antigos amordaçam a razão e matam o professor de lógica. Nesse estabelecimento a juventude está sem rumo (ainda, há décadas) e a morte violenta é a parada final.

Teu livro revela o mundo desencantado de dezenas de pessoas, não só de Desseres[3]. E faz isso sem se preocupar com o estômago e o bom gosto dos leitores mais idiotas, esses mesmos leitores que, apesar de possuírem certa inteligência letrada, não perdem uma edição do Big Brother.
(...)
Tua literatura não é para os leitores comuns, é para os raros, ou só para os loucos, como queria Hermann Hesse, no romance O lobo da estepe. A densidade discursiva vem da complexidade existencial das personagens e do narrador, que sofrem intelectualmente, ou seja, bem mais profundamente do que as pessoas comuns já sofreram ou vão conseguir sofrer em toda sua mísera existência. Mas foi sempre assim... Enquanto noventa e cinco por cento da humanidade está envolvida apenas com a trágica luta pela sobrevivência, os cinco por cento restantes estão parados diante do infinito, do mistério, de queixo caído e olhos arregalados."

Ney César (escritor) >>>
"Caro Rogers,
o seu livro é, em princípio, excelente. Senti nele um arrebatamento contido (paradoxo permitido pelo que vi da própria obra) que busca, cego, uma resolução que lhe escapa tão dolorosa, tão tragicamente. Arrebatamento humano, na ânsia de um sentido, de um significado, de uma resposta, melhor dizendo, a si mesmo. Na minha leitura senti, ou melhor, vislumbrei (porque está tão oculto!) um desejo inerentemente humano de uma correspondência, que mais propriamente é amorosa, desejo que, a cada passo acremente, acerbamente irônico, revela-se frustrado, revela-se não encontrado no outro. E eu escrevi acima o adjetivo contido, porque essa tragédia humana, diferentemente de tragédias gregas ou dramalhões mexicanos, é contida, abafada, às vezes presa no cotidiano ou na vida inteira das personagens. Incomunicável. E a incomunicabilidade não se mostra somente muda, é cega também.

E aqui lembro do principal texto do livro, O espelho. Esse texto, com sua super-estrutura multiforme, demonstra uma superposição de discursos humanos que na verdade não se comunicam senão na mesma tragédia de que falei. Tragédia anunciada às vezes com ironia acerba, chegando a ser até maldosa. Às vezes essa ironia maldosa significa nada mais do que uma sobreironia à maldade do mundo, mas percebi que no seu livro ela revela somente um certo cinismo e descaso para com essa mesma tragédia. Como se não importasse, talvez até como se fosse uma brincadeira. Porém, a metáfora implícita num espelho que viaja de vida em vida sem ninguém o enxergar revela a cegueira dessa tragédia humana, pois não é capaz nem de reconhecer-se tragédia, não é capaz de reconhecer no outro aquela correspondência de que falei, e queda-se sozinha, silente, escura, incomunicável.



Isso tudo li no seu livro. Contudo, existem outras coisinhas que, na minha humilde posição de leitor, eu acharia melhor se fossem de outro jeito. Em primeiro lugar, às vezes você usa, como já disse, de uma ironia cínica, e eu particularmente não gosto desse tipo de ironia. Pois ele revela um distanciamento sentimental, um alheamento com relação à tragédia que talvez seja sintoma dos nossos tempos de individualismo exacerbado, mas que eu preferiria ver criticado literariamente, e não assumido. E não estou dizendo que você o faça com consciência, ou não, o que digo é que está lá. Mas eu acredito que críticas existem é para isso, não para elogiar ou denegrir simplesmente, mas para desvendar, até mesmo para o autor, os alcances significativos e culturais de suas obras, e dar-lhes, a elas, mais possibilidades, intrínsecas e futuras, abrir-lhes caminhos de interpretação e até mesmo de possíveis mudanças, no auto-conhecimento do autor.
(discorre sobre o conto Meus olhos verdes)


Sua linguagem é boa, inovadora, de uma sintaxe truncada e instigante, e eu gosto disso.
(continua discorrendo sobre o conto Meus olhos verdes)

No conto O espelho eu li trechos daquele seu outro conto, A última revolta de Jesus Cristo, em que você traça aquele itinerário ficcional do personagem, que vive, presencia e sofre tantas mazelas, testemunha e experimenta tantos crimes e tantos pecados que no fim revolta-se contra o Pai, com a sua inflexível e tirânica vontade de fazê-lo passar por tudo aquilo. Revolta-se, resolvendo morrer não pelos homens, mas... 
(3 páginas discorrendo sobre o conto A última revolta de Jesus Cristo).

Porém, sendo este texto uma crítica literária, e não somente uma apologia cristã, termino dizendo que seu livro, Manicômio, é ótimo. Excelente na sua proposta e feliz na sua consecução. Um livro que nos desperta para uma procura desesperada de significado, amoroso que seja, para a vida, procura essa que chega à beira da loucura de tão difícil, talvez mesmo impossível (eu ainda não cheguei ao final do livro para saber qual a sua palavra final sobre esse assunto, ou se ela existe). (...) Eu poderia escrever mais coisas, sobre a ambientação citadina, sobre a mistura entre realidade e ficção (pondo você mesmo como personagem e seus personagens conscientemente como vida criada e não como vida ativa etc.), sobre essa confusão pós-moderna de elementos culturais diversos e díspares (que eu rapidamente vi no último conto[4]) mas esta não é uma análise literária, é apenas uma crítica amiga. Só reitero os meus elogios; se houvesse uma prova para textos literários, o seu passaria."



Enfim, espero que gostem dessa literatura claustrofóbica, louca e triste. 
Abraços!
Rogers.

[1] Novela. Não será publicada n’O BULE.
[2] Conto. Já foi publicado n’O BULE.
[3] Referência ao conto O mundo desencantado de Desseres, primeiramente publicado no Portal Stalker (org. Nelson de Oliveira).
[4] Refere-se ao conto Uma viagem esplêndida (epopéia). Não será publicado n’O BULE..