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9 de jun. de 2012

Fandemônio nº 6: Para que serve o imponderável

Por Roberto de Sousa Causo



O sujeito pode ser um leitor de ficção científica – alguém que lê regularmente livros do gênero; ou pode ser um fã de ficção científica – alguém que possui um grande entusiasmo pelo gênero. O fã pode até prescindir da leitura: talvez ele seja apenas fã de FC no cinema, nos videogames ou na televisão. Mas ele só pode ser um fã ativo quando externar o seu entusiasmo perante os seus pares.
Eu me tornei um fã ativo em 1983, depois de responder a um apelo de José Carlos Neves, de que gostaria de se corresponder com outros fãs de FC; apelo esse feito em carta na revista Cinemin, que na época dava atenção aos sucessos do cinema americano de FC e fantasia.
Zé Carlos era um dos editores do fanzine Hiperespaço, criado por ele, Cesar Silva e Mário Dimov Mastrotti naquele ano, de modo que entrei diretamente em contato com esse que foi um dos fanzines mais influentes daquele momento – e que hoje ainda sobrevive como o blog de Cesar Silva, Mensagens do Hiperespaço [http://mensagensdohiperespaco.blogspot.com.br]. (Recentemente, o fã Alexandre Lucchesi disponibilizou um exemplar da primeira geração do Hiperespaço, no seu blog Gabinete do Dr. Lucchesi: http://alexandrelucchese.blogspot.com.br/2012/06/zines-historicos-para-baixar.html)
Por sua vez, Hiperespaço me apresentou ao Clube de Ficção Científica Antares e o seu Boletim Antares, editado por Jane Terezinha Mondello de Souza. Nesses e noutros fanzines – como o nordestino Space –,publiquei meus primeiros contos, desenhos e artigos. Mais tarde, o Boletim Antares me apresentou o Clube de Leitores de Ficção Científica, criado em 1985 por R. C. Nascimento, por intermédio do qual fiz meu primeiro trabalho profissional em ilustração (o cartaz da II Mostra de Ficção Científica, realizada em 1988). O fanzine de Jane Terezinha também me apresentou a revista semiprofissional francesa Antarès – Science Ficcion sans Frontieres (sem parentesco com o clube brasileiro), editada por Jean-Pierre Moumon e na qual saiu meu primeiro conto publicado profissionalmente: “A Última Chance” (1989).
Naquela época, estes eram os meios de ser um fã ativo: comprar e assinar fanzines, colaborar com eles ou editá-los, escrever cartas e trocar recortes e fotocópias, associar-se a clubes e participar de reuniões e eventos. Hoje, imagino, ser um fã ativo significa participar de listas de discussão, comunidades no Orkut ou Facebook, criar blogs e sites – mas clubes, eventos e mesmo fanzines (agora em PDF e distribuição pela rede) ainda têm o seu espaço. Como ocorreu comigo, essas atividades de fãs são a porta de entrada para atividades profissionais ou semiprofissionais.
O fandom, definido como essa interação entre fãs, é um fenômeno muito antigo na FC. O próprio Hugo Gernsback (1884-1967), o editor que criou a expressão “science fiction”, também teria sido o pai do fandom americano, ao lançar The Science Fiction League nas páginas da revista Wonder Stories, em 1934. O interesse de Gernsback era mobilizar os fãs a favor de suas iniciativas, mas essas coisas têm uma tendência natural a fugir do controle e ganhar vida própria.
Existe até uma organização chamada First Fandom [http://www.firstfandom.org], que reúne fãs ativos desde a década de 1930. O grupo se apresenta em convenções e organiza um prêmio Hall of Fame desde 1976, destacando contribuições significativas para a FC, sob uma perspectiva de trinta anos, além do Moskowitz Archive Award, que premia, desde 1998, grandes colecionadores (Sam Moskowitz foi um dos primeiros pesquisadores-fãs).
No Brasil, o fandom surge na década de 1960. Segundo anotações no diário do jornalista e escritor Jerônymo Monteiro [http://jeronymomonteiro.blogspot.com.br] (1908-1970), já havia em fins de 1963 um grupo em São Paulo, às vezes chamado por ele de Clube dos Autores de FC, outras de Clube de Ficção Científica ou Clube de Ciencificção. Realizava encontros duas vezes por mês, com almoços e jantares. Monteiro foi o grande catalisador dessas atividades – que levaram, em 1965, à realização da I Convenção Brasileira de Ficção Científica na capital paulista. Durante o evento, foi fundada a Associação Brasileira de Ficção Científica, inclusive com a publicação de um boletim interno do evento, O Cobra (de Convenção Brasileira), que pode ter sido o primeiro fanzine brasileiro de FC [http://pt.wikipedia.org/wiki/Fanzine#Fanzines_no_Brasil]. Mimeografado, O Cobra foi seguido por Dr. Robô, como o clubzine da ABFC. Com a morte de Monteiro em 1970, essas iniciativas foram descontinuadas. O fandom ressurgiria apenas em 1981 ou 1982, com fanzines como Star News e Boletim Antares. Em 1997, na V InteriorCon, organizei o Primeiro (e único) Encontro do Primeiro Fandom Brasileiro, com as presenças de André Carneiro, Nilson Martello, Luiz Marcos da Fonseca e Therezinha Monteiro (a filha de Jerônymo).
Certamente, o Boletim Antares, editado por Jane Terezinha para o Clube Antares (desdobramento de um clube astronomia amadora), foi mais importante para a história do gênero. O clube realizou três ou quatro edições do Prêmio Fausto Cunha ­– que teve entre seus finalistas nomes como Jorge Luiz Calife e Gerson Lodi-Ribeiro –, e também organizou a sua própria I Convenção Brasileira de Ficção Científica, em 1985, neste país de memória curta. Além do Boletim Antares, Porto Alegre também produziu o Millennium, fanzine do Grupo Genesis de Ficção Científica, mais voltado para o cinema.
De lá pra cá muita coisa rolou, mas neste ano a realização do 1.ª Odisseia de Literatura Fantástica em Porto Alegre [http://odisseialitfan.wordpress.com] trouxe uma sugestiva circularidade. Organizado por Cesar Alcazar, Christopher Kastensmidt e Duda Falcão, e realizado nos dias 27 e 28 de abril, foi inspirado no já tradicional Fantasticon que ocorre anualmente em São Paulo. Mas teve cara própria e uma saudável ênfase na produção local – sua própria realização emana do fato do Rio Grande do Sul ter sua quota substancial de autores, fãs e editores (Alcazar e Falcão são os cabeças da Argonautas Editora [http://argonautaseditora.wordpress.com], de Porto Alegre). Com uma freqüência de mais de 500 pessoas, autores e editores vindos de diversas partes do Brasil e até da Argentina (o escritor Gustavo Bondoni), e 17 editoras vendendo seus produtos no evento, a Odisseia voltou a reivindicar a centralidade do Rio Grande do Sul no movimento de fãs, semelhante àquela do início do fandom moderno. (Particularmente indicativo disso foi o meu encontro, pela primeira vez, com Jerri Dias e Pedro Zimmermann [http://jerridias.blogspot.com.br/2011/04/pedro-zimmermann-entrevista.html], do Grupo Genesis de FC e do fanzine Millennium, durante a Odisseia.)
Mas não obstante o quanto o fandom possa ter avançado no Brasil, é inevitável que ele também receba críticas.
A mais recente veio do escritor Tibor Moricz, autor de Síndrome de Cérbero (2007), Fome (2009) e O Peregrino (2011). Moricz declarou no Facebook [http://www.facebook.com/tibor.moricz/posts/10150785785527295?comment_id=22207071] que o fandom, se posso ser eufemístico, não serve pra nada. A questão seria a falta de apoio dos fãs aos autores brasileiros: “FC brasileira não é lida nem pelo fandom. O nicho, que deveria prestigiar a nossa FC, lê os estrangeiros mas não lê o que a gente faz aqui dentro. Esse nicho, esse fandom, é uma merda.”
Seguiram-se dezenas de comentários, declarações, respostas e contra-respostas. Do Facebook, Moricz levou a discussão ao seu concorrido É só Outro Blogue [http://esooutroblogue.wordpress.com/2012/05/23/ficcao-cientifica-brasileira-elitizar-ou-popularizar], agora menos sobre o que o fandom poderia fazer por nós, e mais sobre uma estratégia, levantada por ele na discussão anterior, de popularizar a FC brasileira: “Defendi a popularização da FC com o intuito de podermos atingir um público maior”, escreveu. “Defendi simplificar a linguagem e os símbolos desse gênero para nos tornarmos mais compreensíveis. Defendi uma abertura de mercado que poderá nos beneficiar, que poderá nos levar a fronteiras antes não exploradas. Defendi a FC humanista (em contrapartida à hard, mas nem por isso menos ou mais importante que ela) como a que dialoga mais facilmente com esse público. Defendi uma evolução temática lenta e gradual para formarmos novos leitores.”
Embutida na proposta, uma oposição algo artificial entre elitista e popular, com o esboço de um argumento conciliador: “É válido elitizar a nossa literatura, a nossa FC, ao ponto de criarmos rupturas dentro de nosso próprio establishment? Vamos etiquetar determinados autores de gênero como maiores e menores? Determinadas obras de gênero como maiores ou menores (admitindo-se que o gênero é autossuficiente, é a ele que julgamos em primeira instância. Mas sem deixar de compreender e aceitar que existem obras melhores e piores, mais elaboradas e menos elaboradas)?”
Tenho a sensação muito aflitiva de que isto é o retorno – com retórica um pouco menos acidentada – de um dos primeiros e menos produtivos postulados da Terceira Onda da Ficção Científica (de 2004 ao presente), contra o qual me posicionei logo no início do movimento. Realmente, não quero retornar a essa discussão; no momento, basta apontar um problema recorrente nesse tipo de proposta, que é centralizar tudo na figura do escritor ou coletividade de escritores. O buraco é bem mais embaixo e envolve um sistema complexo de interações entre editoras, distribuidoras e formadores de opinião, sem mencionar hábitos de leitura. Escritores costumam chamar para si soluções de problemas difíceis porque têm a tendência de apenas enxergarem a si mesmos e seus colegas.
Talvez isso seja um vício do ensino de literatura ou resultado do silêncio inerente de uma sociedade de poucos leitores. A voz do leitor é miúda, o escritor tende a declarar mais alto suas intenções. Mas o assunto é o fandom, e se ele se define como comunidade de fãs, de possíveis leitores de FC, isso significa que sua voz deveria ser bem mais audível. Eu suspeito que a ela não o é em parte porque a timidez em afirmar o que é bom ou ruim já está aí, há muito tempo e sem produzir a almejada união do “establishment”. Não obstante, não tenho dúvida de que parte da efervescência atual que vivemos se deve à existência prévia dessa comunidade.
O embrião do fandom atual já existia, claro, naquele bem menos auspicioso momento anterior. As críticas contra o fandom na época foram semelhantes às atuais, e provavelmente originárias da mesma causa – a sua incapacidade de apoiar os talentos locais, em vendas ou em reputação literária. O fandom não tem nenhum desses poderes, e depois de um tempo, aqueles escritores que nele convivem compreendem isso e passam a ver nele a origem de todos os problemas. Assim fandom vira “fandango”, comunidade vira “gueto”, e interlocutores viram massa inculta que impede os escritores de alçarem vôo, de alcançarem novos públicos. Em 1997 ou 1998 houve um surto semelhante nas listas do CLFC na Internet. Os principais acusadores logo se tornaram recovering fans – fãs que, cansados das interações do fandom, se afastam para se recuperarem. Mas pouco depois eles estavam engrossando as comunidades do Orkut, que, convenhamos, apresentam um nível ainda mais limitado de interação entre fãs. Ruim com ele, pior sem ele... ou até que o pessoal novo conclua que o fandom não é o salvador da pátria da FC.
Reaproveitando o que escrevi no Facebook, o fandom é uma instituição importante, mas sua história deixa claro que ele nunca funcionou como um mercado minimamente substancial para a FC nativa. Por ser inerentemente anárquico, tentativas de esterçá-lo na direção de um ou outro interesse particular redundam na formação de feudos que rapidamente degeneram em guerrilha fraticida – aquela mesma que sempre acaba chocando os recém-chegados; e, ocasionalmente, até um veterano de muitas escaramuças, como eu.
O papel do fandom não é esse. Não funcionou assim para Gernsback, como esperar que funcione aqui, tão abaixo da Linha do Equador? Seu papel é manter e difundir discussões especializadas e de fomentar instituições críticas, editoriais e de formação de autores, que não estão disponíveis fora-fandom. A comunidade Ficção Científica no Orkut tem 6.700 membros inscritos – fãs ativos, já que se reuniram mesmo que virtualmente, para discutir o assunto. Se um terço deles comprasse modestos dez novos livros de FC por ano, não haveria editor da área em dificuldade. Claramente, há um funil aí, no qual a literatura é minoritária (e cinema, games, TV e quadrinhos majoritários), e dentro dele, o autor brasileiro se coloca no seu diâmetro mais estreito.
Esse também é o papel do muito mais poderoso fandom americano.
Em 1940, Jerry K. Westerfield, então editor de Amazing Stories (a revista que Gernsback fundou em 1926), escreveu que, “dos 500 mil leitores da ficção científica, apenas cerca de 5 mil deles são fãs. Mas esses 5 mil fazem todo o barulho e soltam todos os fogos de artifício.” O artigo dele, “The Sky’s No Limit” (1940), está num maravilhoso livro chamado Pulp Fictioneers: Adventures in the Storytelling Business [http://www.amazon.com/Pulp-Fictioneers-Assorted-Hands/dp/1886937834] (2004), editado por John Locke com artigos recuperados de revistas como Writer’s Digest [http://www.writersdigest.com], na época mesmo das revistas pulp.
No Brasil de hoje é mais ou menos essa a equação, porém numa escala bem menor. Em 1940, aqueles 5 mil provavelmente compravam todas as revistas (livros de FC ainda eram raros) e todos os fanzines, mas mesmo assim as revistas de tiragem média de 150 mil exemplares só podiam contar com eles como multiplicadores de interesse, não como mercado principal. E os autores americanos não tinham de enfrentar a concorrência de uma FC mais sofisticada e de maiores credenciais – aquilo que toda FC não-anglófona tem de encarar.
Seduzir um público não previamente conquistado pela FC é interessante como princípio e como conceito geral a que toda a literatura de gênero deveria almejar, sem o velho ranço de que, ao fazê-lo, ela deixaria de ser “de gênero”. Mas isso é muito difícil de visualizar – e de realizar coletivamente. Assim como o velho argumento de que o que falta à FC brasileira é marketing, não mencionando que antes falta dinheiro para encomendar esse marketing. Por isso é bom lembrar que, como na equação de Westerfield, entre o fã de FC e o leitor comum existe ainda o leitor de FC que não é um fã ativo. Se o fandom brasileiro é composto de 500 fãs que fazem todo o barulho e soltam todos os fogos, talvez haja 5 mil ou 50 mil leitores potenciais do gênero. Mas Eles certamente são mais fáceis de abordar, e, novamente, há aquela histórica desconfiança do público quanto à capacidade do brasileiro de escrever literatura de gênero – seja FC, fantasia, ficção de detetive, ficção militar ou outra qualquer.
Enfim, a história da FC no Brasil também nos lembra que o gênero teve efervescência e mercado (embora nenhuma respeitabilidade crítica) entre 1960 e meados de 1980 – para depois ser impiedosamente assassinado pelos diversos planos econômicos. De lá pra cá, a cultura empresarial das editoras assumiu o bordão de que “ficção científica não vende”, ou passou a buscar outros filões – auto-ajuda, literatura urbana, divulgação histórica, e finalmente, a onda que todos surfam no momento, a literatura jovem-adulta. Isso implica que a FC como ramo editorial está renascendo agora, mas, em se tratando da FC brasileira, sem acesso àqueles meios de difusão que lhe garantiriam popularidade verdadeira: as grandes cadeias, as bancas de revista, as bibliotecas públicas e as raríssimas adaptações para outras mídias.
E tudo num contexto em que a maioria dos leitores não teve acesso ao estado da arte, formado nos últimos anos no exterior. Eles precisam ser reeducados nos caminhos que o gênero percorreu, e isso, novamente, demanda investimento, tempo e esforço. O fandom, por promover aqui e ali conceitos como New Weird, new space opera, FC feminista, queer e outros, dá passos miúdos nesse sentido, e muitas vezes indica direções às pequenas editoras associadas a ele. Então ele tem importância substancial, mesmo que não possa garantir um mercado para os autores locais.
Fixar a ficção científica como gênero viável aos autores brasileiros é o grande desafio de todas as gerações, de todas as ondas. Nesse processo, o fandom de FC é ferramenta cega, associação anárquica, organismo multicelular que se degenera e que se regenera periodicamente. Uma entidade imponderável com a qual trombamos no Fantasticon ou na Odisseia, na blogosfera e nas redes sociais. Tão duro de entender e administrar quanto a sociedade fora dos muros do suposto gueto que ela manteria. Uma ferramenta sem a qual teríamos bem menos do que temos hoje. O fandom só não é a panacéia dos nossos desejos frustrados.

Roberto de Sousa Causo é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (Caminho, 1999), A Sombra dos Homens (Devir, 2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (Devir, 2006) e Anjo de Dor (2009), e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (Editora UFMG, 2003), que recebeu o Prêmio da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica.
Seus contos foram publicados em revistas e livros de dez países. Foi um dos três classificados do Prêmio Jerônimo Monteiro (1991), da Isaac Asimov Magazine, e no III Festival Universitário de Literatura, com a novela Terra Verde (2000); foi o ganhador do Projeto Nascente 11 (da USP e do Grupo Abril) em 2001 com O Par: Uma Novela Amazônica, publicada em 2008. Completando um trio de novelas de FC ambientadas na Amazônia, Selva Brasil foi lançado em 2010 pela Editora Draco.
Causo escreveu sobre os seus gêneros de interesse para o Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo e para a Gazeta Mercantil, para as revistas Extrapolation, Science Fiction Studies, Cult, Ciência Hoje, Palavra e Dragão Brasil.
Mantém coluna quinzenal sobre ficção científica e fantasia no Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br), a revista eletrônica do Portal Terra. O jornal A Tarde disse sobre ele: “Roberto de Sousa Causo é um dos mais atuantes escritores brasileiros de FC, horror e fantasia.” Vive em São Paulo, com esposa e um filho.

11 de mai. de 2012

Fandemônio nº 5: Me dá uma pra viver

Por Roberto de Sousa Causo

Eu cresci em uma cidade do interior do Estado de São Paulo, chamada Sumaré, e não tenho problema algum em admitir que, até onde eu saiba, o melhor escritor que Sumaré já produziu é o dramaturgo e cronista Walter Cavalcanti de Paiva. Nós nos conhecemos lá por 1988, no Clube de Literatura de Sumaré, criado pela bibliotecária Terezinha Ongaro Monteiro de Barros, que na época chefiava a biblioteca pública. Eu lá lidava com ficção científica, é claro, e um dia, anos depois, Walter me disse – veja que ele não perguntou, mas me disse – que a ficção científica era a minha utopia.
“Mas qual ficção científica, exatamente?”, eu perguntei. “A da invasão da Terra por alienígenas, a da distopia totalitária, a da superpopulação ou a do pós-apocalipse nuclear?”
Moral da história: ficção científica não é ideologia, é só um gênero literário – o que justifica a sua abordagem de temas duros e sombrios, aos quais ninguém em sã consciência poderia atribuir qualquer aspecto utópico.
É claro, uma história de FC pode ter uma ideologia. Certamente, a ficção científica que foi escrita em países soviéticos devia ser comunista, e a FC escrita nos Estados Unidos devia ser bem capitalista, assim como a FC francesa seria... Sei lá, pós-estruturalista?
O escritor cubano Yoss (José Miguel Sánchez) contou uma história divertida, no Festival Utopiales 2002, em Nantes. Num painel sobre ficção científica global, ele contou que publicou um romance de FC no qual ainda existiria capitalismo no futuro – e foi imediatamente processado pelo governo de Cuba, país no qual o único romance de FC americana liberado para a publicação e leitura era Os Mercadores do Espaço (The Space Merchants; 1952), de Frederik Pohl & C. M. Kornbluth, uma crítica sarcástica ao consumismo.
Yoss, de qualquer modo, foi salvo pelo gongo: seu processo foi suspenso quando caiu o Muro de Berlim. “Obrigado, Gorbashev. Bem na hora!”, exclamou, referindo-se ao fato de o então presidente do Partido Comunista da União Soviética ter permitido o fim da divisão da Alemanha, ao evitar a repressão a protestos na Alemanha Oriental. Aparentemente, as autoridades cubanas passaram a aguardar os desenvolvimentos – e Yoss se safou por uma eventualidade histórica. O episódio, por outro lado, mostra como posições extremas enxergam ideologicamente as especulações imaginativas da ficção científica.
O escritor do noveau roman francês Michel Butor lamentou justamente que a FC enfraquecia seu potencial de “mitologia do nosso tempo”, ao realizar uma multiplicidade de idéias e cenários. Butor sugere – no ensaio “Science Fiction: The Crisis of Its Growth” – que seus escritores deveriam trabalhar coletivamente na criação de um único universo ficcional: “A FC, se conseguisse se limitar e se unificar, seria capaz de adquirir acima da imaginação individual um poder de constrangimento comparável ao de qualquer mitologia clássica.” A proposta de se desenvolver coerentemente um mesmo cenário, que Butor chama de “cidade” e que eu interpreto como “utopia”, levaria os leitores a “organizarem suas ações em relação à sua existência eminente, e derradeiramente eles seriam obrigados a construí-la”. A última sentença do ensaio deixa claro o quanto Butor desejava que a ficção científica assumisse o papel de uma ideologia: “É fácil ver que prodigioso instrumento de libertação ou de opressão [a FC] poderia se tornar.”
Nesta coluna eu tenho pregado a variedade como ingrediente primordial do gênero, e não custa citar novamente Orson Scott Card, que explica o funcionamento da FC a partir dessa perspectiva: “Dúzias, centenas, milhares de vezes [os leitores de FC] viveram o processo de apreensão de uma realidade surpreendentemente nova. Não importa o que o futuro seja, eles já conhecem o processo: reconhecer a contradição entre a visão familiar do modo como as coisas são, e a nova ordem; extrapolar das contradições um novo sistema de causa e efeito; reconstruir uma visão do modo como as coisas são que inclua e acomode as antigas contradições; inventar o seu próprio papel na nova ordem; agir de acordo com o seu novo papel e sua nova visão da realidade.”
Seria justamente essa variedade de experiências o que permite ao leitor de ficção científica enxergar como mudanças de naturezas diversas (tecnológicas, políticas, econômicas, sociais, culturais e filosóficas) operam ao longo do tempo, ou a quais resultados determinadas circunstâncias podem chegar, a partir daquilo que a FC faz costumeiramente, que é extrapolar contextos atuais. Daí surgiria uma forma de senso crítico particular aos leitores do gênero, e sua função de quebrar os condicionamentos sócio-culturais. Isso nos leva ao conteúdo de uma carta de Isaac Asimov, escrita em 1966. “Eu sempre declarei que uma das virtudes da ficção científica é que ela pode romper qualquer tabu sem ter que ser ‘ousada’”, disse o Bom Doutor, naquilo que eu interpreto da seguinte maneira: a ficção científica alcança os efeitos das vanguardas literárias mas de modo acessível, sem a arrogância implícita de dizer que se anda na frente dos outros.
Mas se me perguntassem, na lata, qual é a ideologia da FC mais bem-sucedida do mundo, a norte-americana, eu diria que ela seria, ou estaria muito próxima, do libertarianismo.
Também chamado de “liberalismo clássico”, o libertarianismo (ou “libertarismo”) enfatiza a autonomia e as liberdades individuais, que, se deixadas em paz para se expressarem sob forma de livre-mercado e livre-iniciativa, conduziriam, por um princípio positivo de organização espontânea, a uma condição mais avançada de sociedade, menos propensa à guerra e à opressão. Em geral, o libertarianismo é contrário às intervenções do Estado – que deveria existir apenas para garantir direitos civis – sobre indivíduos, empresas e sociedade, e denuncia o poder coercitivo dos governantes. Para essa filosofia política e econômica, os indivíduos deveriam ser visados pelo poder apenas quando não respeitassem os direitos dos outros, e a natureza humana ­­e sua suposta base moral natural triunfarão se o Estado se retrair e deixar que a sociedade civil se auto-organize.
Para a maioria dos fãs brasileiros de ficção científica, essa ideologia passa batida como “coisa de americano”. De fato, muito do libertarianismo caracteriza a sociedade americana, embora institucionalmente o Partido Libertariano não tenha a força dos dois partidos dominantes nos Estados Unidos, o Democrata e o Republicano.
Graças à minha dieta de FC e outros produtos culturais americanos – o romance Uma Vez uma Águia (Once an Eagle; 1968) de Anton Myrer em particular –, fui muito influenciado pelo pensamento libertariano. É evidente que uma sociedade será mais positiva na medida em que seus cidadãos, individualmente, estiverem empenhados em contribuir para com ela e a agir honestamente no interior dela. Assim como parece evidente que governos e burocratas exorbitam as suas funções. Basta olhar para a opressão econômica que o governo brasileiro exerce sobre nós, com uma carga tributária de 35,13% do PIB, o que limita o poder de decisão individual do brasileiro sobre o usufruto do seu trabalho – especialmente perante do retorno insatisfatório desses impostos sob a forma de serviços essenciais, e diante dos níveis de corrupção no país.
Na FC, basta pensar na obra de Robert A. Heinlein (1907-1988), autor americano que foi socialista na juventude, mas que na década de 1950 já se inclinava para o libertarianismo. Seus romances Um Estranho numa Terra Estranha (Stranger in a Strange Land; 1961), Revolta da Lua (The Moon Is a Harsh Mistress; 1966) e Amor sem Limites (Time Enough for Love; 1973) foram eleitos para o Hall da Fama do Prêmio Prometheus, criado em 1979 para obras de FC de cunho libertariano. O prêmio é entregue pela Libertarian Futurist Society, criada em 1982. A sua mera existência já diz muito sobre o quanto o libertarianismo pesa na conta da ficção científica.
Heinlein foi imensamente influente, conquistando gerações de fãs que cresceram lendo os seus romances juvenis. Foi em algum momento o autor americano de FC mais popular, popularidade que nunca se refletiu aqui no Brasil – o que sugere o quanto nós estamos longe dessa visão político-econômica (ou talvez seus livros tenham aparecido num momento delicado, durante a ditadura militar, quando os discursos libertários eram exclusivos pela esquerda marxista). Mas também é sintomático que a militante do capitalismo radical, Ayn Rand (1905-1982), uma americana que passou a juventude na Rússia comunista, tenha escolhido dramatizar suas idéias na forma de bojudos romances de FC (lançados recentemente no Brasil pela Editora Landscape) como A Nascente (The Fountainhead; 1943) e A Revolta de Atlas (Atlas Shrugged; 1957). Hoje, Allen Steele, com a premiada série Coyote de FC hard, parece ser um dos muitos herdeiros de Heinlein a manter a bandeira do libertarianismo fincada no planeta FC.
Às vezes definido como liberal em termos sociais e conservador em termos fiscais, o libertarianismo incorre, como todas as ideologias, naquelas simplificações que H. L. Mencken denunciou quando disse: “Para cada problema complexo há uma resposta que é clara, simples e errada.” E a economia, a política, a sociedade e a vida humana são a própria definição do complexo – é ridículo propor resolver tudo com automatismos ideológicos, sejam eles do tipo “afastando a burguesia do poder teremos a utopia social”, ou do tipo “o livre-mercado conduzirá a uma sociedade mais feliz e mais justa”. Especialmente porque a organização espontânea pode não levar necessariamente a um estado de bem-aventurança. Afinal, a própria natureza busca antes o equilíbrio, que a utopia. Um equilíbrio violento pode muito bem ser o resultado. Em termos humanos, com a superpopulação e a crise climática global, a oferta de armas altamente eficientes e as comunicações instantâneas e de dimensão planetária, a violência possível, seja num período de transição ou na configuração final da “organização espontânea”, pode ser potencializada e vir a alcançar proporções catastróficas e resultados desastrosos irreversíveis.
Os libertarianos gostam de apontar o dedo para o Estado de bem-estar social na Europa, assim como nós gostamos de apontar o dedo para suas políticas protecionistas. O que ninguém reconhece é que se você tivesse sofrido duas guerras mundiais no seu solo, você aprenderia a conciliar, aplacar e mitigar descontentamentos e insatisfações, por todos os meios possíveis.
Nesse sentido, é compreensível que o espaço cósmico seja o lócus preferido dos épicos libertarianos na FC. A “fronteira final” é isso mesmo – uma fronteira, paisagem despovoada em que os indivíduos se provam e na qual o empreendedorismo é ferramenta de sobrevivência contra a hostilidade do meio ambiente. É por isso também que o planeta dos dorsais – uma sociedade libertariana/militar mercenária criada pelo autor canadense de FC Gordon R. Dickson (1923-2001) para o seu multigeracional “Ciclo Childe” – seja um mundo agrário subpovoado. Menos ingênuos, autores da new space opera como o escocês Ken McLeod não deixam de notar que a mesma tecnologia que manipula energias suficientes para o trânsito rápido entre sistemas solares pode ser canalizada para a destruição total dos adversários. Daí a cínica apologia, em The Cassini Division (1998) de McLeod, do ataque preventivo genocida (veja a espetada da escritora Cheryl Morgan no site Emerald City).
No livro Cyberselfish: A Critical Romp Through the Terribly Libertarian Culture of High Tech (2000), Paulina Borsook, uma ex-colaboradora da famosa revista Wired, disseca e pisoteia o libertarianismo na “cultura eletrônica” americana. Para efeito retórico, e acreditando que o autor e fã americano de FC teriam muito em comum com o membro da cibercultura, eu identifico muito das críticas dela com essa ideologia da FC dominante. (Borsook, aliás, menciona Heinlein, Rand e os cyberpunks.)
A autora dirige suas armas à cultura nerd/geek, cujos membros gostariam de se ver como “homens da fronteira”, e que seria “mais emocionante fazer de conta, em nossos tempos milenaristas, que você de fato vive numa frente de batalha hobbesiana”. Uma afetação heróica que seria muito melhor do que “encarar os problemas reais da nossa era, tais como a violação corporativa da privacidade, a superpopulação, a degradação ambiental e a ascensão de lideres guerreiros pelo mundo todo”.  
Seu outro alvo é a fusão conceitual de biologia e economia conhecida como “bionomics” – a partir do livro de Michael Rothschield, Bionomics: Economy as Ecosystem (1990). A esse livro seguiu-se uma série de conferências, nas quais se discutia como os conceitos darwinistas de sobrevivência do mais forte e evolução pela interação competitiva em um ecossistema (o mercado) funcionariam como impulsionadores do progresso e da prosperidade. Para isso, é preciso desregulamentar (fiscalizar, impor limites e procedimentos) o mercado, deixando-o livre o mais possível, na busca da “ordem espontânea”.
Nóis aqui abaixo da Linha do Equador sabemos no que deu a retração do Estado durante a aventura neoliberal, mas o livro de Borsook, publicado antes da explosão da bolha imobiliária americana – fonte da atual crise internacional –, soa ainda mais importante perante os resultados desastrosos da desregulamentação republicada na Administração Bush. Sem falar do desastre ambiental do Golfo do México, que se pode associar à desregulamentação do setor petrolífero. Livre-mercado às vezes se iguala a desastre econômico socializado e a catástrofe ambiental – não por qualquer razão ideológica, mas simplesmente porque dogma não é substituto para racionalidade e equilíbrio nas ações humanas.
Muitas vezes o libertarianismo soa, apesar de todo o seu propalado pacifismo, como dono de um sombrio lado cultuador da força. Em parte porque no libertarianismo freqüentemente há um elemento de darwinismo social, idéia contra a qual venho falando há algum tempo, como no meu livro Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil: 1875 a 1950 (Editora UFMG; 2003).
Definido como a aplicação das idéias de sobrevivência do mais forte e evolução pela competição entre os seres, o darwinismo social ajudou a justificar o colonialismo e a opressão dos povos da África e Ásia, e dos indígenas das Américas e da Austrália. Considerados mais fracos e portanto perdedores dentro da lógica do mais apto, esses povos estavam destinados ao desaparecimento – como, na ficção científica, Sir Arthur Conan Doyle (1859-1930) dramatizou nos romances O Mundo Perdido (The Lost World; 1912), em que hominídeos preservados num planalto entre Brasil e Venezuela são exterminados por uma aliança entre aventureiros brancos e índios amazônicos, e em A Nuvem da Morte (The Poison Belt; 1913), em que a cauda de um cometa envenena a atmosfera da Terra, atingido primeiro “as raças inferiores dos trópicos’ (a mortandade é enganosa, porém, já que os efeitos são temporários). Em Cyberselfish, Barsook condena a falta de filantropia entre os ricaços do Vale do Silício, associando-a à tendência “tecnolibertariana” da sua mentalidade.
Curiosamente, a justificativa darwinista social da tutela e do controle de povos considerados “inferiores” pelos ocidentais espelha a noção de superioridade moral cristã que justificou práticas semelhantes e todo as missões religiosas no mundo subdesenvolvido. No plano da cibercultura que Pauline Borsook critica, e citando alguns dos profetas do tecnolibertarianismo como Kevin Kelly e Stewart Brand, também haveria uma aproximação do discurso científico biológico e o discurso religioso. “A biologia como metáfora pode colocar sob a asa”, ela sentencia, “crenças que são tão atrasadas quanto [os tecnolibertarianos] são avançados”. De fato, assim como as línguas românicas surgiram da combinação do latim com adstrato e línguas locais como substrato, muitas vezes idéias novas se combinam com as velhas. Achar que novas idéias substituem as velhas é ingenuidade.
Às vezes embutidos em argumentos de antropologia evolucionária, que tenta explicar o comportamento humano, a sociologia, a sexualidade e às vezes a economia (daí a bionomics) e a política a partir da lógica evolucionária – o que é basicamente impossível dada à qualidade intrinsecamente especulativa dos seus argumentos: não importa o quanto eu e você possamos apoiar o evolucionismo nas escolas ou aceitar que somos frutos da evolução da espécie, o fato é que não há mecanismos “finos” que funcionem como ferramentas exatas para o entendimento particularizado dos nossos comportamentos a partir da lógica evolutiva.
Borsook afirmou que “muito do que diz respeito à bionomics é no seu sentido mais amplo uma grande diversão intelectual – ver relacionamentos entre padrões na natureza e padrões em computação ou economia, pensar de maneiras interdisciplinares e aplicar tecnologia com exuberância fora das maneiras óbvias de contar feijão e pagar contas...” De modo semelhante, a antropologia evolucionária estimula o pensamento e nos ajuda a equilibrar a noção radical pós-estruturalista de que tudo – todo o comportamento e todas as variações de interação social e humana – é produto exclusivo da cultura. E vice-versa: a idéia de que tudo é cultura ajuda a equilibrar a pretensão de se explicar tudo pelo evolucionismo.
Nesse sentido, explicar o homossexualismo pela antropologia evolucionária – como Greg Egan sugere fazer no seu romance de FC Terranesia (1999) – parece tão insuficiente quanto a tentativa de certos intelectuais de firmar que toda sexualidade é construção cultural e portanto arbitrária e impositiva.
Na ficção científica americana, a mais bem-sucedida, o libertarianismo freqüentemente encobre um darwinismo social que segue puro ou disfarçado de empreendedorismo capitalista radical, em antropologia evolucionária ou nas novas teorias de complexidade ou emergência (do verbo “emergir” e não do verbo “fugir correndo em pânico”). Essas novas teorias em particular são fascinantes por si mesmas, mas, novamente, entendê-las seus princípios ainda mal alinhavados como certificação científica do dogma do livre-mercado é outro atropelo conceitual.
Uma visão alternativa vem da Europa – a série de Karen Traviss, Wess’har Wars, que imagina espécie alienígena bem-sucedida e tecnologicamente superior à humana, e que se enxerga mais próxima da cooperação do que da competição: “A vida no seu planeta se desenvolveu pela competição”, diz um deles sobre a Terra, no romance The World Before (2005), antes de oferecer: “A nossa se desenvolveu largamente pela cooperação, simbiose e equilíbrio sustentado.” E na minha noveleta “A Alma de um Mundo” (a sair na antologia Space Opera: Jornadas Inimagináveis em uma Galáxia não muito Distante, de Hugo Vera & Larissa Caruso), tento fornecer um argumento evolucionário para uma espécie que, de modo semelhante, valoriza mais a cooperação e a confiança, do que a competição e a rivalidade.
No estágio em que estamos da civilização humana sobre a Terra, a cooperação é a única saída possível.


Roberto de Sousa Causo é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (Caminho, 1999), A Sombra dos Homens (Devir, 2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (Devir, 2006) e Anjo de Dor (2009), e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (Editora UFMG, 2003), que recebeu o Prêmio da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica.
Seus contos foram publicados em revistas e livros de dez países. Foi um dos três classificados do Prêmio Jerônimo Monteiro (1991), da Isaac Asimov Magazine, e no III Festival Universitário de Literatura, com a novela Terra Verde (2000); foi o ganhador do Projeto Nascente 11 (da USP e do Grupo Abril) em 2001 com O Par: Uma Novela Amazônica, publicada em 2008. Completando um trio de novelas de FC ambientadas na Amazônia, Selva Brasil foi lançado em 2010 pela Editora Draco.
Causo escreveu sobre os seus gêneros de interesse para o Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo e para a Gazeta Mercantil, para as revistas Extrapolation, Science Fiction Studies, Cult, Ciência Hoje, Palavra e Dragão Brasil.
Mantém coluna quinzenal sobre ficção científica e fantasia no Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br), a revista eletrônica do Portal Terra. O jornal A Tarde disse sobre ele: “Roberto de Sousa Causo é um dos mais atuantes escritores brasileiros de FC, horror e fantasia.” Vive em São Paulo, com esposa e um filho.

11 de abr. de 2012

Fandemônio nº 4: O lugar do lugar-comum

Por Roberto de Sousa Causo


A ficção científica é uma forma de literatura popular, e por isso sofre, faz um tempinho já, a pecha de literatura comercial, produto de indústria cultural, composta no todo ou nas partes, de fórmulas e de clichês.
No Brasil, como tudo o que a gente se der ao trabalho de pesquisar, essa opinião tem uma história. Na década de 1950 – apropriadamente o bastante, após o lançamento em 1957 do Sputnik, o primeiro satélite artificial —, a ficção científica foi saudada como a grande novidade literária, capaz de lidar, de forma interessante e legítima, com os avanços da ciência e da tecnologia que estavam mudando as circunstâncias da vida humana: as armas atômicas e a ameaça de guerra nuclear, o computador, a televisão e as comunicações intercontinentais, a teoria da relatividade e a mecânica quântica.
Desse modo, intelectuais importantes como Antonio Olinto (que mas tarde escreveria alguma ficção científica para o editor Gumercindo Rocha Dorea) e Mário da Silva Brito, logo em 1957 e 1958, escreveram positivamente sobre o gênero – que seria, logo na seqüência, atacado por outros intelectuais não menos importantes, como Otto Maria Carpeaux (em 1959), que a chamou de “loucura coletiva” pelas suas “vendas astronômicas”, e resumiu o gênero a uma fórmula: “façanhas heróicas em face de perigos monstruosos, fidelidade comovente de companheiros, traição infame, revoltas e motins de tripulações, a autoridade do chefe nato e, embora muito secundariamente, uma ou outra affaire amorosa – eis os enredos sempre repetidos da moderna Odisséia dos espaços interplanetários.”
Em 1960, João Camilo de Oliveira Tôrres afirmou que “A ficção científica está às portas de passar a ser o grande gênero literário do século XX. Tem lutado com certas dificuldades de ordem material, que lhe impedem a plenitude de expansão. A primeira delas é a de ser considerado ‘gênero menor’ – há uma certa desconfiança dos grandes escritores, principalmente se ficcionistas, com relação a ele.” Tôrres também aponta duas virtudes da FC: “A primeira, o fato da popularidade da ficção científica — é uma literatura que fala à alma do povo. A segunda, que vamos considerar mais atentamente, a sua condição de fantasia pura adaptada à mentalidade do século XX.”
As declarações de Tôrres foram tão positivas, que em 1961 Gumercindo Rocha Dorea usou seu ensaio (originalmente publicado na Revista do Livro N.º 18) como introdução da primeira antologia de FC nacional, a Antologia Brasileira de Ficção Científica.
Mas também em ’61 aparece texto de Alcântara Silveira, reagindo às declarações de Tôrres, e afirmando, de modo bem elitista, que “A ficção científica poderá a ser a ficção mais de acordo com o gosto popular, mas não será o grande gênero literário do século, precisamente porque não reflete absolutamente a condição do leitor de agora, isto é, do leitor digamos ‘classificado’, que sabe o que lê e por que lê. A ficção que está mais próxima a este tipo de leitor é aquela que Claude Mauriac intitulou de ‘aliteratura’ [o nouveau roman francês]e que se reflete nos romances de Samuel Beckett, Claude Simon, Nathalie Sarrautte, Michel Butor, etc... ‘Aliteratura’ que parece retratar o espírito de nossa época, o modo de ser da criatura de hoje que caminha tateante neste mundo de gelo e cinza que a civilização ocidental criou.”
Esse pingue-pongue de prós e contras persistiu por um tempo considerável nas páginas do O Estado de S. Paulo e de outros jornais e revistas. Ou até que a visão de Carpeaux, Silveira, Wilson Martins (“A chamada ficção científica [...] tampouco alcança os planos da literatura porque nela a função catalítica do estilo é, por definição, posta à margem como desprezível”) e outros foi se firmando. Ela acabou plasmada na tese de Muniz Sodré, elaborada em A Ficção do Tempo: Análise da Narrativa de Science Fiction (1973). Para Sodré, a FC é indústria cultural, partícipe e cúmplice da dominação ideológica capitalista por apresentar um “sonho” que “deve ser visto como um mito cuja função é fornecer uma essência para o homem contemporâneo”, essência da qual “subentendem-se os produtos alienados do trabalho humano, instaurados pelas relações capitalistas de produção, que são esquecidas pela ficção científica – logo, dadas como eternas”.
O fato dessa equação de conclusões muito absolutas estar atualmente sendo questionada e revista por uma nova geração de acadêmicos é outra história – por ora basta resumir esse pensamento. Quanto ao clichê, entendido como estereótipo, vivemos rodeados deles: políticos corruptos, policiais violentos, jornalistas desinformados, servidores públicos de má-vontade, ginecologistas safados, padres pedófilos, músicos viciados, maridos abusivos, esposas entediadas, escritores arrogantes, críticos literários alienados, e professores de literatura que não lêem literatura. Algumas dessas figuras têm orgulho de encarnar tais estereótipos, deixando para seus relações-públicas ou advogados a tarefa de repreender os outros por suas “generalizações”. Enfim, ser atingido por bala perdida é um clichê desumanizador de filmes de ação vagabundos – e não obstante, todo dia gente leva tiro de bala perdida.
Isso significa que evitar o clichê literário não tem correspondência com a realidade e é só uma recomendação visando certos efeitos: a vivacidade do estilo, a engenhosidade das soluções de enredo, a sensação de novidade, a sugestão de que a vida está aberta às possibilidades e de que observamos o caráter de personagens únicos.
Stephen King, o rei da literatura popular, escreveu que “o inferno é a repetição”; mas o fato é que evitar o clichê é só mais uma convenção literária.
E toda convenção literária está aí para ser trabalhada de diferentes maneiras. Pode-se aceitá-la tacitamente, pode-se escrever contra ela ou dobrá-la, renová-la, invertê-la, subvertê-la. Muitas vezes, até mesmo abordagens literárias de prestígio dependem do clichê: a sátira, por exemplo, explora intencionalmente o lugar-comum comportamental. A literatura modernista/pós-modernista tem substituído a noção de que “a vida está aberta às possibilidades” pela de que o sujeito não consegue resistir às arbitrariedades da vida. Nesse sentido, o tema da perda – a morte do cônjuge ou de um filho, a doença alienante, o pai ou mãe que abandona o lar – vem dominando a literatura americana há uns trinta anos, assim como o subúrbio alienador como cenário. Recentemente, o antigo tema da inadequação do sujeito individual à vida moderna assumiu a forma de um fascínio pela personalidade autista ou quase-autista (vide o celebrado Extremamente Alto & Incrivelmente Perto, de Jonathan Safran Foer), reformando a repetida premissa modernista da incomunicabilidade.
Acho que causaria algum escândalo declarar que o tema do adultério virou um lugar-comum da literatura mainstream. Onde traçar a linha do supérfluo, num caso desses? Com Otelo, de Shakespeare? Madame Bovary, de Flaubert? Será que Dom Casmurro já seria uma repetição sem sentido? Muita gente saltaria para dizer que não! O romance de Machado de Assis é exploração legítima de um diálogo intertextual com a tradição, e uma adequação de questionamentos sobre a instituição do casamento na sociedade burguesa, ao contexto da metrópole brasileira do século XIX! E blá, blá.
Mas e quanto a esta relação: Mark Twain escreveu Um Ianque na Corte do Rei Artur (A Connecticut Yankee in King Arthur's Court) em 1889, um romance de viagem no tempo. E quarenta anos depois, L. Sprague de Camp publicou Lest Darkness Fall (1939), que dialoga com a premissa e a realização de Twain, apoiado no desenvolvimento que o tema da viagem no tempo teve entre A Máquina do Tempo (1895), de H. G. Wells, e tudo o que foi feito nas revistas pulp americanas do período. A relação entre o livro de de Camp e o de Twain é diálogo intertextual e evolução literária, ou fórmula e clichê?
Vamos assumir que diálogo com a tradição não é exclusividade do mainstream, e que ele também existe na ficção popular. (E aproveitando a deixa, fiquem com minha tradução da Primeira Lei de Sturgeon: “Noventa por cento da ficção científica é porcaria. Mas então, noventa por cento de tudo é porcaria, e os dez por cento que não é porcaria é que são importantes, e os dez por cento da ficção científica que não é porcaria é tão bom ou menor do que qualquer coisa sendo escrita em qualquer lugar.”)
Em O Super-Homem de Massa (1978), Umberto Eco dedica quase duzentas páginas a denunciar como a literatura popular (especialmente aquela da era do folhetim europeu no século XIX) conforta o leitor nos seus relacionamentos com a realidade burguesa, ao invés de os desafiar ou revolucionar. O argumento não se fixa apenas na presença de clichês, mas também em como sucessivamente a tensão é resolvida e retomada. A alternativa é a rejeição de soluções reconfortadoras, e a renúncia de sentido e de reconciliação (sem falar na renúncia ao enredo), só restando virar tudo do avesso, rejeitar totalmente a ordem vigente – assumindo portanto uma postura ideológica revolucionária. Mas em Apocalípticos e Integrados (1964) Eco já dizia que “No fundo, o apocalíptico consola o leitor porque lhe permite entrever, sob o derrocar da catástrofe, a existência de uma comunidade de ‘super-homens’, capazes de se elevarem, nem que seja apenas através da recusa, acima da banalidade média.”
Assim, cultura popular e o mainstream partilhariam um terreno em comum, mesmo que alcançado por rotas diferentes. Mas o próprio Eco entende que é a reação do leitor que relativiza ambas as posturas. Afinal, se clichê é conceito baseado na repetição exaustiva e enfraquecedora de sentido, sempre haverá um leitor para quem o sentido ainda é novo e vibrante. E sempre haverá um leitor que consegue enxergar além do lugar-comum. Para alguns, não haverá consolo nem rendição ou revolução perante a ideologia, em nenhum dos dois campos.
Os fãs de ficção científica provavelmente registram o aspecto dialógico do gênero, quando reconhecem que ele é composto de uma infinidade de subgêneros (as histórias de viagem no tempo são só um deles). Cada subgênero tem a sua própria tradição, e fornece um paradigma de qualidade, de rigor e de engenho no tratamento dos seus temas. Ao mesmo tempo, os subgêneros não são estanques, e a sua mistura é constante dentro do gênero – uma história de viagem no tempo pode levar o viajante a uma situação de primeiro contato no passado da Terra, a uma utopia (como em When the Sleeper Wakes, romance de Wells publicado em 1910), ou estar inserida em um contexto de space opera (como a série alemã Perry Rhodan fez várias vezes).
O importante é que essas múltiplas tradições favorecem a comparação pelos leitores, que, numa situação ideal, passariam a enxergas menos as repetições e mais as variações; menos o clichê e mais a inovação e a condução do subgênero para novas direções.
É claro, por exemplo, que uma história de primeiro contato com alienígenas que trate de uma nave de extraterrestres refugiados que surge sobre Manhattan, despejando os seus passageiros para povoarem os guetos do Bronx ou do Brooklin, dirá coisas muito diferentes de uma história de primeiro contato com alienígenas que trate de uma nave de ETs refugiados que surge sobre Joanesburgo para despejar seu conteúdo de miseráveis passageiros sobre a favela de Soweto ou outra qualquer – assim como uma história de primeiro contato com alienígenas que trate de uma nave de ETs refugiados que surge sobre o Rio de Janeiro para abrigar seus passageiros alienígenas no complexo de favelas do Alemão dirá coisas muito diferentes. E representará contextos muito diferentes. Histórias nacionais muito diferentes. Culturas muito diferentes.
Sem dúvida, nesse sentido Distrito 9 (District 9; 2009), filme do sul-africano Neill Blomkamp, foi um dos filmes mais interessantes da ficção científica cinematográfica dos últimos anos. Um filme que dobrou, reconfigurou e reimaginou situações do antecessor Nação Alien (Alien Nation; 1988), do americano Graham Baker. E se pensar em termos de alegoria ainda serve para alguma coisa, Blomkamp também disse muito sobre a atual ansiedade sul-africana quanto a herança do seu passado autoritário e os caminhos incertos do seu futuro.
Nem sempre a situação de leitura é ideal, porém. Por isso e é comum que os fãs de ficção científica se curvem sobre a ditadura do original e da novidade. Ao menor sinal de uma idéia ou imagem já vista antes, ele recua e sentencia que “falta originalidade”. Em muitos casos ele estará certo, mas em muitos outros ele estará apenas se fechando para variações ou subversões, e não repetições, do lugar-comum. Isso se agrava particularmente no caso da ficção científica brasileira, porque ela costuma ser, na cabeça dos leitores, inerentemente de segunda-mão – algum americano, inglês ou francês sempre chegou primeiro, pavimentou o terreno e plantou os sinais de trânsito.
Uma reação exacerbada dessa “angústia da influência” é o desejo de seguir as pegadas desses engenheiros da CET, resultando na busca pelo novo modismo, a mais recente tendência, o new-new-qualquer-coisa-que-já-existia-noutro-formato-na década-de-1930. Talvez aí a variação sobre um subgênero devesse seguir num sentido mais lateral do que linear, mais local e menos imitativo. Mesmo porque nós não tivemos nada daquilo, na década de 1930.
Mas já mencionei antes a brasilianista M. Elizabeth Ginway, da Universidade da Flórida, cujo livro Ficção Científica Brasileira: Mitos Culturais e Nacionalidade no País do Futuro (2004) reviu como os ícones consagrados da ficção científica (o robô, o alienígena, a cidade e a terra devastada) foram reformulados no Brasil para representar as questões nacionais relativas aos campos social e político, em torno dos processos de modernização do país. Ainda há esperança para os narradores brasucas da literatura imaginativa, especialmente se eles olharem em volta, e não para trás.
Em última instância, mesmo o lugar-comum pode ceder à convicção do narrador, ao charme da realização, ao impulso narrativo e até mesmo à entrega do autor à influência, não tomando conhecimento daquela já proverbial angústia perante os que vieram antes. Uma bela mulher que você vê caminhando na rua ainda é uma bela mulher, mesmo que você já a tenha visto antes. Feliz é o leitor aberto mais para a vida que a literatura é capaz de figurar, do que para aquela ranhetice comum aos críticos e acadêmicos. 

Roberto de Sousa Causo é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (Caminho, 1999), A Sombra dos Homens (Devir, 2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (Devir, 2006) e Anjo de Dor (2009), e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (Editora UFMG, 2003), que recebeu o Prêmio da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica.
Seus contos foram publicados em revistas e livros de dez países. Foi um dos três classificados do Prêmio Jerônimo Monteiro (1991), da Isaac Asimov Magazine, e no III Festival Universitário de Literatura, com a novela Terra Verde (2000); foi o ganhador do Projeto Nascente 11 (da USP e do Grupo Abril) em 2001 com O Par: Uma Novela Amazônica, publicada em 2008. Completando um trio de novelas de FC ambientadas na Amazônia, Selva Brasil foi lançado em 2010 pela Editora Draco.
Causo escreveu sobre os seus gêneros de interesse para o Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo e para a Gazeta Mercantil, para as revistas Extrapolation, Science Fiction Studies, Cult, Ciência Hoje, Palavra e Dragão Brasil.
Mantém coluna quinzenal sobre ficção científica e fantasia no Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br), a revista eletrônica do Portal Terra. O jornal A Tarde disse sobre ele: “Roberto de Sousa Causo é um dos mais atuantes escritores brasileiros de FC, horror e fantasia.” Vive em São Paulo, com esposa e um filho.

15 de mar. de 2012

Fandemônio nº 3: Por um cardápio mais variado

Por Roberto de Sousa Causo


Eu nasci em 1965, quando a bota do regime militar já tinha um aninho nas costas da sociedade. O regime foi encerrado em 1985, com a eleição de Tancredo Neves para a presidência da república. Eu tinha 19 anos. Isso significa que boa parte da minha infância foi vivida durante os “Anos de Chumbo” (1968-1975), e parte da adolescência na “Abertura Politica” (1975-1985).

Todos sabem que com a ditadura vieram a censura das artes e do pensamento, além da perseguição política, o exílio forçado e lutas clandestinas contra a guerrilha comunista ou resistência armada ao regime. Vivendo em uma cidade do interior, eu e os meus parentes e amigos fomos provavelmente poupados do pior dessas situações – embora eu tenha conhecido, ao longo do caminho, pessoas que tiveram perdas pessoais muito graves.

Algo que ficou claro nesses anos de formação, porém, foi a ausência de discursos de direitos civis e individuais, fosse na escola, fosse nos meios de comunicação. Especialmente nas artes, sempre na mira da censura, ainda que algum argumento libertário aparecesse aqui e ali, como na abordada telenovela Eu e a Moto (1972-1973), escrita por Amaral Gurgel a partir de argumento de Roberto Freire, um psicanalista que se autodeclarava anarquista. E a crítica ao autoritarismo aparecia na posterior Saramandaia [http://pt.wikipedia.org/wiki/Saramandaia] (1976), escrita por Dias Gomes, porém dentro da tradição do realismo mágico e repleta de traços absurdistas – um marco da TV brasileira.

Mas por acidente circadiano, meus hábitos noturnos me fizeram assistir uma infinidade de filmes americanos sobre minorias e o movimento pelos direitos civis – já que a maioria deles era exibida durante a madrugada. Hoje eu me pergunto se os programadores os colocavam propositalmente nesse horário para driblar a censura, embora as produções americanas devessem ter alguma latitude junto aos censores, já que os EUA eram os maiores patrocinadores dos esforços anticomunistas no mundo, e, apesar de atritos ocasionais, ainda eram o nosso modelo principal de desenvolvimento e de consumo.

Essa dieta de filmes – e mais tarde de literatura – de cunho libertário ou reivindicativo me influenciou muito e me deixou impaciente com conceitos do tipo “arte pela arte” e “solipsismo” na literatura. Conseguir se expressar livremente e criticamente é um privilégio, e com certeza ainda havia muito a se criticar na sociedade brasileira, ao fim da ditadura. Observando casualmente a literatura brasileira hoje, me parece que ainda estamos devendo no uso desse privilégio.

Em 25 de fevereiro deste ano, o escritor de ficção científica Luiz Bras me enviou e-mail que dá uma pista das razões que existiriam por trás dessa dívida: “Estive relendo um artigo de 2005 da professora Regina Dalcastagné, da UnB, sobre a pesquisa O Personagem do Romance Brasileiro Contemporâneo. Durante dois anos, Regina e sua equipe fizeram um levantamento estatí­stico. Alguns números interessantes: setenta por cento dos personagens do romance brasileiro contemporâneo são do sexo masculino, oitenta por cento dos personagens são brancos e apenas oito por cento são negros. Sobre a orientação sexual: oitenta por cento são heterossexuais. A principal ocupação dos personagens masculinos é a de escritor. A principal ocupação das personagens femininas é a de dona-de-casa. No final, temos a comprovação estatística de que a grande maioria dos personagens é formada por homens brancos, hetero, europeizados, remediados (da classe média pra cima). Os pobres e os negros estão praticamente excluí­dos de nossa prosa de ficção. O mesmo vale para outros grupos: a mulher, o gay, a criança, o í­ndio, o velho, o deficiente...” Com seu e-mail, Bras acabou fornecendo o assunto desta coluna.

Na apresentação do seu livro, a Prof.ª Dalcastagné observa [LINK] que, “Ao interromper suas atividades e abrir um romance, o leitor busca, de alguma maneira, se conectar a outras experiências de vida. Pode querer ali encontrar alguém como ele, em situações que viverá um dia, ou que espera jamais viver. Mas pode ainda querer entender o que é ser o outro, morar em terras longínquas, falar uma língua estranha, ter outro sexo, um modo diferente de enxergar o mundo. O romance, enquanto gênero, promete tudo isso a seus leitores – que podem ser leitoras, que têm cores, idades, crenças, instrução, contas bancárias, perspectivas sociais muito diferentes entre si. Portanto, a promessa de pluralidade do romance... envolve não só personagens e narradores(ras), mas seus (suas) leitores(as) e autores(as).” Dalcastagné exprime seu “estranhamento quando determinados grupos sociais desaparecem dentro de uma expressão artística que se fundaria exatamente na pluralidade de perspectivas”. Para ela, faltam dois grandes grupos na literatura brasileira contemporânea: os pobres e os negros.

A resposta automática para esse tipo de denúncia é a de que cada autor faz o que quer com a liberdade de expressão que tem. E daí se alguém deu o sangue para o retorno desse direito, supondo que ele seria usado para discutir coisas significativas e não para o umbiguismo eterno de escritores brancos de classe média descontentes com o status da sua classe no Brasil? O que importa é que o direito esteja sendo exercido livremente. O argumento modernista de que o que importa na literatura é a inventividade do estilo também é desculpa para se abandonar o esforço de contato com o outro – o que aparece no embaraço de Leandro Oliveira, ao resenhar [LINK] o épico afro-brasileiro de Ana Maria Gonçalves, Um Defeito de Cor (2006). “O grande problema ao se ler [o romance] de Ana Maria Gonçalves”, Oliveira escreveu, “é que tudo o que o livro tem de grandioso e sublime, é apresentado dum modo sutil, numa estrutura tradicional”.

Enfim, a chamada “crise da representação” – a idéia de que a realidade é construída pela linguagem ou de que a realidade não pode ser representada pelos recursos da literatura – também vem justificar o isolamento do autor. O pensamento francês pós-estruturalista tem uma formulação variante: “O texto só pode dizer uma única verdade, a saber: que a verdade não existe ou que ela se mantém para sempre inacessível”, nas explicação do intelectual búlgaro-francês Tzvetan Torodov.

Embora tais respostas me soem insuficientes, cada autor realmente realiza o que quiser e puder, a partir das condições disponíveis. E não obstante, coletivamente a sua realização derradeira pode muito bem ser a mesmice desanimadora que o próprio Luiz Bras desmascarou, com bravura e audácia campeãs, no já obrigatório ensaio “Convite ao Mainstream” [LINK]: “Os heróis da prosa de ficção brasileira estão cansados. Entediados. Sem motivação. Eles não agüentam mais viver sempre as mesmas manjadas situações. Faz pelo menos vinte anos (ou mais) que sua rotina não muda.” E a do leitor também. Quais são as repetições, na visão de Bras: “Os mesmos dramas dos mesmos intelectuais entediados, da mesma classe média idiotizada, dos mesmos marginais marginalizados, dos mesmos indigentes tresloucados, da mesma juventude transviada.”

De onde emana essa inclinação para a repetição de recursos e abordagens? Quem acha que só a literatura de gênero tem fórmulas e lugares-comuns não podia estar mais enganado – o mainstream literário adora a cópia do autor consagrado e o reforço ideológico reconfortante que a repetição traz. Mas ao fazer o perfil do escritor brasileiro, Regina Dalcastagné fornece outras pistas: “Ele é homem [72,7%], branco [93,9%], aproximando-se ou já entrado na meia idade, com diploma superior [78,8%], morando no eixo Rio-São Paulo.” E sua ambientação favorita é urbana: “82,6% dos romances têm na grande cidade como um de seus cenários”.

Ou seja, existe um conjunto de coordenadas pessoais que os escritores brasileiros partilham, e que claramente informa a sua escrita. No âmbito da ficção científica recente, essa tendência foi explicitada pelo argumento da identificação, repetido pelos membros da Terceira Onda da Ficção Científica Brasileira (2004 ao presente), como o vocal Alexandre Lancaster, aqui reagindo a um anúncio, postado na lista Tecelagem dos Sonhos, do meu livro de contos A Sombra dos Homens (Devir, 2004), uma série de fantasia heróica protagonizada por um índio: “Não somos índios e não vivemos em tabas. Não encontro identificação possível nisso. Somos parte de algo chamado civilização ocidental.” E, “só para fechar, todo mundo sabe o que os portugueses fizeram com as nações indígenas aqui. Não acho que eu queira me identificar com quem foi derrotado não.”

Por essa lógica, o autor precisaria dirigir de caso pensado as suas representações ao estrato social da maioria dos seus leitores potenciais – o eixo Rio-São Paulo, diria Regina Dalcastagné, que adverte no seu estudo, tratando da tendência realista do mainstream brasileiro: “O efeito de realidade gerado pela familiaridade com que o leitor reconhece o espaço da obra acaba por naturalizar a ausência ou a figuração estereotipada de mulheres, de negros e de outros estratos subalternos.”

Contudo, mais do que visar um leitor semelhante a ele, no seu desejo de ser um agente dinâmico “de transformação do mundo ao redor”, “gente que deixa uma marca por onde passa”, nas palavras de Lancaster, o autor seria levado a recusar solidariedade a quem é visto como perdedor no processo histórico.

Em 1992, conheci Bruce Sterling pessoalmente na 50.ª Convenção Mundial de Ficção Científica, em Orlando, nos EUA. Pedi a ele uma entrevista, que gravamos no corredor o hotel. Lá pelo meio eu levantei uma questão surgida em reunião do Clube de Leitores de Ficção Científica – Fábio Fernandes se perguntando se um escritor do Primeiro Mundo seria capaz de alcançar a realidade do Terceiro – como Sterling fez no premiado romance Piratas de Dados (Islands in the Net; 1988). A resposta de Sterling: “Você poderia igualmente perguntar se uma pessoa que é rica e letrada pode descrever a vida de alguém que é pobre e analfabeto. Ou ainda se um homem pode descrever a vida de uma mulher, ou uma mulher descrever a de um homem. Ou um adulto descrever uma criança, ou seja lá o que for. Posso não ter conseguido, mas deve-se fazer uma tentativa. Pode-se mostrar algum tipo de simpatia.”

Com A Literatura em Perigo (La littérature en péril; 2010), Tzvetan Torodov, crítico estruturalista de entrada garantida nas universidades brasileiras, se mostra cansado da tendência contemporânea de ter o ensino de literatura subordinado ao ensino de teorias da literatura e da cultura. Ele lembra que o leitor busca a literatura para encontrar em suas obras “um sentido que lhe permita entender melhor o homem e o mundo, para nelas descobrir uma beleza que enriqueça sua existência; ao fazê-lo, ele compreende melhor a si mesmo”.

Todorov enxerga a prática teórica contaminando a produção literária: “A concepção redutora da literatura não se manifesta apenas nas salas de aula ou nos cursos universitários; ela também está representada de forma abundante entre os jornalistas que resenham livros, e mesmo entre os próprios escritores. Devemos nos espantar? Todos esses críticos [e autores] passaram pela escola, muitos deles também pelas faculdades de Letras, onde aprenderam que literatura fala apenas de si mesma e que a única maneira de honrá-la é valorizar o jogo de seus elementos constitutivos.” Argumento que serve para a França e serve para o Brasil, e que nos fornece outra resposta para a pergunta “de onde emana essa inclinação para a repetição de recursos e abordagens?”, a partir da denúncia por Luiz Bras. Certamente, as teorias em trânsito no ensino universitário contribuem para moldar a literatura brasileira contemporânea.

Freqüentemente, as teorias favorecem o formalismo na literatura: “Numerosas obras contemporâneas ilustram essa concepção formalista da literatura”, diz Todorov, que agrupa ainda outras duas tendências: “uma visão de mundo... niilista, segundo a qual os homens são tolos e perversos, as destruições e as formas de violência dizem a verdade da condição humana, e a vida é o advento de um desastre”, e nesse caso, “mais do que uma negação da representação, [a literatura] se torna a representação de uma negação”; e “uma atitude complacente e narcísica”, que ele chama de “solipsismo, de acordo com essa teoria filosófica que postula que o si mesmo é o único ser existente”. Para ele, “niilismo e solipsismo são claramente solidários”, na medida em que ambos “repousam na idéia de que uma ruptura radical separa o eu e o mundo, isto é, de que não existe mundo comum”. Essa observação é uma das fundamentações do seu apelo contrário – partilhado por Antoine Compagnon e outros intelectuais franceses –, no sentido de que a literatura volte a tratar do mundo, a olhar para o outro, a procurar um terreno em comum.

Mas se estamos falando de ficção científica, um gênero que imagina outros mundos, que pode se passar no futuro distante, que sentido há em pedir que nossos escritores olhem em torno e reconheçam a existência da diferenças de cor e gênero sexual, de diferentes visões de mundo informadas por etnia, religião, nacionalidade e classe social?

Pois mesmo na FC existe tendência semelhante à buscada por Todorov e Compagnon. Sem dúvida, o Movimento Cyberpunk de Bruce Sterling e William Gibson tentou trazer o gênero do afastamento da space opera e da fantasia heróica ou das histórias de pós-holocausto para uma análise das transformações tecnológicas e sociais possíveis. Hoje, o movimento “Mundane SF” [LINK], de Geoff Ryman, escritor canadense radicado na Inglaterra, aponta os vícios mais costumeiros (novamente a denúncia do cansaço da repetição) de uma FC que abriu mão da uma significação social tomada a partir da análise do local e do contemporâneo: a colonização espacial, a destruição da Terra, a imortalidade, as viagens no tempo, os universos paralelos e a tradução da consciência humana em linguagem de computador. “Nós sentimos que é como se a FC tivesse acumulado tantas idéias improváveis e se apoiado nelas tão regularmente”, Ryman argumentou [LINK], “que ela se desconectou da realidade. Os futuros que ela retratava eram tão improváveis a ponto de serem irrelevantes, se não forem na verdade danosos.”

Em seu lugar deveria existir, segundo Ryman, uma postura de FC hard que use a ciência para questionar os caminhos possíveis do desenvolvimento social, político e humano. Outros campos científicos continuariam constituindo alternativas interessantes para esse fim, incluindo a robótica e a informática, a engenharia genética e a nanotecnologia. O objetivo é nos livrarmos de idéias que mascaram o aqui e agora e adotarmos recursos que aumentem a consciência do leitor quanto aos problemas atuais, e que apontem soluções.

O movimento foi, como é inevitável, bastante atacado nos círculos da FC em língua inglesa. Eu mesmo não o subscreveria em sua totalidade – não apenas porque muitas das idéias inviáveis listadas sejam irresistíveis, mas porque a ficção científica também incorpora um lado alegórico que pode ser alcançado pela noção absurda ou improvável, sem deixar de conseguir de alertar o leitor para a realidade e as premências da sua época.

Não obstante, o apelo de um empenho maior na análise e extrapolação do social e do político como uma das justificativas da importância da FC também é inegável. Para a FC brasileira, na qual a tentativa de imaginação do Brasil e do mundo nos, digamos, próximos cinqüenta anos, é tão rara, o tempero do mundano parece mais do que opcional. Já passou da hora de buscarmos essa função do gênero. Para isso, é obrigatório o gesto de simultânea audácia e generosidade de olharmos para além das nossas coordenadas pessoais de classe, cor, gênero e opção sexual.

Alguns sinais de mudança, que merecem a consideração do leitor: as antologias A Fantástica Literatura Queer, organizadas por Cristina Lasaitis e Rober Pinheiro para a Tarja Editorial, nos lembram que outras sensibilidades sexuais estão disponíveis também para a FC; e a ficção de horror de Giulia Moon ganhou um interesse maior quando ela resolveu investigar suas raízes japonesas, nos romances Kaori: Perfume de Vampira (Giz Editorial; 2009) e Kaori 2: Coração de Vampira (2011). Uma autora como Simone Saueressig trouxe cores nativas e africanas à sua fantasia juvenil, e até um escritor americano como Christopher Kastensmidt busca colorir a sua fantasia heróica reconhecida internacionalmente, com essas tonalidades. Enfim, a FC brasileira também tem seus autores afro-descendentes, como Júlio Emílio Braz e José Roberto Vieira.

Não obstante, há mais de vinte anos que setores da ficção científica em língua inglesa pedem mais diversidade nesses campos, pede mais cor no cardápio da FC. E nós, vivendo num dos países mais coloridos do mundo, freqüentemente insistimos no monocromático (e insípido), em nome da adesão aos modismos do gênero, de uma suposta “identificação” com o público alvo, de supostos “estereótipos culturais” a serem evitados – ou de uma liberdade artística individual que soa cada vez mais como a própria negação dessa liberdade.

Repetindo uma metáfora que já empreguei antes [LINK], “assim como o Brasil dos muitos biomas é detentor da maior biodiversidade do planeta, nossa literatura deveria refletir a mesma diversidade”.



Roberto de Sousa Causo é autor dos livros de contos A Dança das Sombras (Caminho, 1999), A Sombra dos Homens (Devir, 2004), dos romances A Corrida do Rinoceronte (Devir, 2006) e Anjo de Dor (2009), e do estudo Ficção Científica, Fantasia e Horror no Brasil (Editora UFMG, 2003), que recebeu o Prêmio da Sociedade Brasileira de Arte Fantástica.
Seus contos foram publicados em revistas e livros de dez países. Foi um dos três classificados do Prêmio Jerônimo Monteiro (1991), da Isaac Asimov Magazine, e no III Festival Universitário de Literatura, com a novela Terra Verde (2000); foi o ganhador do Projeto Nascente 11 (da USP e do Grupo Abril) em 2001 com O Par: Uma Novela Amazônica, publicada em 2008. Completando um trio de novelas de FC ambientadas na Amazônia, Selva Brasil foi lançado em 2010 pela Editora Draco.
Causo escreveu sobre os seus gêneros de interesse para o Jornal da Tarde, Folha de S. Paulo e para a Gazeta Mercantil, para as revistas Extrapolation, Science Fiction Studies, Cult, Ciência Hoje, Palavra e Dragão Brasil.
Mantém coluna quinzenal sobre ficção científica e fantasia no Terra Magazine (http://terramagazine.terra.com.br), a revista eletrônica do Portal Terra. O jornal A Tarde disse sobre ele: “Roberto de Sousa Causo é um dos mais atuantes escritores brasileiros de FC, horror e fantasia.” Vive em São Paulo, com esposa e um filho.