19 de mar. de 2026

Noturno


Por Milton Rezende
 
As pedras da calçada
retêm um pouco da vida
que escorre de meus pés
através dos meus sapatos.
 
As marcas que deixo na poeira
inevitavelmente serão repisadas
por pés de homens que amanhã
seguem por diferentes caminhos,
e também pelo orvalho da noite
se hoje esta rua não conhecer outros passos.
 
Se delimitarmos este pequeno espaço
onde está agora o número 38 de meus pés
como sendo o ponto de partida de mim,
é certo não haver convergência de um todo
pois sou muitos na unidade do nada
e caminhamos divorciados no tempo.
 
Assim a calçada me acompanha
como numa procissão qualquer
onde a cada passo
inaugura-se uma nova fase de mim,
e não se repete nunca o mesmo percurso.
 
Tampouco posso ignorar o fato
de que ontem estive aqui,
embora não existam vestígios
o meu sapato em mim se renova
e comprova o meu itinerário passado.
 
Do livro O Acaso das Manhãs.


Milton Rezende, poeta e escritor, nasceu em Ervália (MG), em 1962. Viveu parte da sua vida em Juiz de Fora (MG), onde foi estudante de Letras na UFJF, depois morou e trabalhou em Varginha (MG). Funcionário público aposentado, morou em Campinas (SP), Ervália (MG) e retornou a Campinas (SP). Escreve em prosa e poesia e sua obra consiste de quinze livros publicados e quatro e-books. Tem um site e um blog. 

Fortuna crítica: “Tempo de Poesia: Intertextualidade, heteronímia e inventário poético em Milton Rezende”, de Maria José Rezende Campos (Penalux, 2015).