15 de jan. de 2013

Uma literatura de nocaute

Por Marcia Barbieri


Silente

A literatura é a boia dos desesperados, quem escreve tem que aprender sobre os escafandristas, tem que conseguir enxergar os peixes abissais sem perder o rumo. Renato Tardivo aceitou esse desafio, teve coragem de vasculhar esse lugar de seres dementes, de seres marginais, de rostos insólitos. De todas as narrativas, considero o conto um dos gêneros mais difíceis, talvez ele só perca para a poesia. É uma ilusão acreditar que por se tratar de um texto curto ele exija menos do autor, eu diria o contrário disso, é preciso sintetizar, cortar o inútil para que o imprescindível venha à tona, sair do abismo profundo e encontrar a superfície, onde flutuam as vitórias-régias. Isso não é uma tarefa fácil, sintetizar não significa ser breve, mas usar poucas palavras para fazer um universo respirar, sacudir, gemer.

Lendo o livro de contos Silente experimentei na pele uma das definições que mais gosto de Cortázar sobre   o gênero contos. Cortázar diz que enquanto o romance ganha por pontos, o conto ganha por nocaute. Foi assim que me senti ao longo da leitura, sendo constantemente nocauteada. Nenhum leitor poderá sair ileso, sem hematomas depois do contato com as palavras de Tardivo. O autor sabe como se mover dentro da estrutura do conto, não peca por excesso, nem é breve a ponto de deixar os leitores decepcionados, seus contos são muito bem amarrados e apesar de ser um autor novo podemos ver que não é inexperiente, ele sabe manejar muito bem a sua matéria-prima, ainda que se trate de uma matéria porosa, aerada.

Eu me arrisco a dizer que esse escritor tem um apego às circularidades do tempo, poderia afirmar que suas narrativas são enrodilhadas, uma narrativa-oroboro e por vezes, temos a impressão de apreendê-la, no entanto, na próxima linha percebemos que fomos mordidos no rabo pela cobra de nossa ignorância, de nossa pretensão.

A narrativa de Tardivo é um retrato do homem, não diria que é um retrato do homem contemporâneo, mas dessa espécie de homem universal que atravessa todas as épocas, é o retrato dessa alma ancestral, primata, dessa ânsia humana que não passa com o tempo, apenas modifica de circunstância. O mesmo homem-tédio que nas cavernas manejava a pedra e agora maneja o computador.

Encontramos em Silente um flâneur, não um observador externo das ruas, mas alguém que olha os becos, os esgotos humanos, um flâneur íntimo. As suas descrições não são do fora (mesmo quando se trata de mostrar objetos ou cenários), suas descrições são obscenas, eu diria que Tardivo é um anatomista da alma humana e ao longo dos seus contos tomamos nota das nomenclaturas da solidão humana, ele disseca a angústia e nos devolve um quadro desesperador.

Renato não é um autor pronto, porque nenhum autor jamais está pronto, todo escritor é um protótipo, uma máquina experimental, jamais está formado, nunca está a salvo, situa-se entre a emersão e o afogamento, o autor é o próprio devir e é isso que faz dele um ser especial.

O que mais posso dizer sobre essa escritura de desespero? Posso apenas deixar uma alerta ao leitor: se você não está disposto a mergulhar esse livro não é para você, esse livro é para os que têm coragem para o salto mortal.

Livro: Silente
Autor: Renato Tardivo
Editora: 7Letras