8 de mar. de 2026

Um trecho de 'Crisântemo' - Ao som de rock


Por Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior 

“Olhei para cima. O céu estava espetacular, um negrume profundo pilhado de estrelas, como só acontece longe das luzes da cidade. A Via Láctea se estendia como pinceladas de giz divino. Mas a beleza que deslumbrava também colocava tudo em perspectiva, e uma tristeza profunda bateu forte, mas por causa dele, de Lucas, que estava quebrado demais para conseguir apreciar uma noite como aquela. 

Nesse instante de paz, uma ruptura: bem longe, atrás de um monte, ao fixar minha vista em um ponto qualquer daquela escuridão, eu ouvi uma cascata de sons que fez o meu chão tremer, o grito longo e áspero do aço se dobrando sobre si mesmo e o estalo final de mil fragmentos de vidro. E então, o silêncio. Um silêncio absoluto, pesado.


 

Gelei. Meu corpo, uma estátua de pavor. Um pneu? Um animal na pista? Minha mente tentava, desesperadamente, encontrar uma explicação lógica, uma resposta que não fosse aquela. Mas era inútil. 

A cena inteira dos últimos minutos se rebobinou em minha cabeça. O sorriso triste, a voz calma, o abraço apertado demais. “A gente se tromba lá em cima, no meio das estrelas...” A risada seca. “Até a próxima, viajante estelar.” Não foi uma piada, mas sim um presságio. O toque de punho não foi um cumprimento. Foi uma despedida. 

E então, um som mais alto veio me assombrar, algo de dentro da minha cabeça. As minhas palavras... “Vai pra casa agora. Só... apaga. Desliga do mundo.” Um frio percorreu minha espinha, tão violento que minhas pernas bambearam por um instante. Aquelas palavras. Minhas. Eu as disse. Eu lhe dei a ideia? Eu que lhe dei a solução? O que eu quis dizer – um conselho para que ele descansasse – foi o que a mente de um homem no fundo do poço ouviu? Não, não foi um conselho. Foi a porra de uma instrução. 

A verdade não se encaixou como uma peça de quebra-cabeça. Ela explodiu dentro de mim. Meu amigo não tinha superado. Ele não se acalmou. Apenas cumpriu a sua palavra, e com o meu aval. Ensaiou comigo e me deixou sair do carro para terminar, sozinho, o seu show. 

Ali, parado na escuridão, sob o mesmo céu que pouco antes me parecia tão belo, senti o chão desaparecer. Eu não conseguia gritar. Não conseguia me mover. Só conseguia mirar a estrada, uma curva escura no nada, onde a noite, sob o olhar indiferente de um milhão de estrelas, havia acabado de engolir o meu melhor amigo.” 

 

In: Crisântemo. Gustavo Coelho e Sinvaldo Júnior. Uberlândia: Cápsula Editora, 2025. pp. 13-14.