26 de ago. de 2026

'Nesse corpo de água doce' nada é doce

Por Krishnamurti Góes dos Anjos 

Colofão é uma nota ou inscrição final na última página de um livro. Geralmente traz dados técnicos e de produção da obra, ou pode ser também espécie de resumo ou síntese, que serve para dar contexto ou mostrar a inspiração do autor. Em Nesse corpo de água doce (Editora Patuá, poemas), livro de estreia na literatura da escritora e professora mineira Priscila Faria, o leitor lerá na última página da obra: “Este livro foi escrito no decorrer de muitas águas – minhas ou de tantas outras mulheres. Inundou e lavou muita coisa aqui. Que possa seguir frutífero nos corpos todos que o receberem.”

O leitor, então, que se deleitou ou ficou com o travo amargo na garganta pelo que o sofrimento humano pode nos causar, após a leitura das 111 páginas precedentes, sente uma verdadeira catarse existencial provocada pelos poemas que leu antes de virar a última página. Aí temos "de trás pra frente" na ordem inversa da normal (do fim para o começo), o que melhor se pode sentir da poesia da autora. Eis os frutos que este livro produziu, regadas que foram suas árvores/poemas com as águas da dor e do sofrimento humano transfiguradas em profundas forças de conscientização e transformação, que tiveram o poder de quebrar velhas certezas, revelar limites reais e forçar o ser a buscar novos caminhos de consciência e liberdade. 

Em texto de orelhas, a escritora Maria Fernanda Elias Maglio afirma com muito acerto: 

“Nas poesias de Nesse corpo de água doce, livro de estreia de Priscila Faria, estão as mulheres e suas profusões de água: rio, leite, chuva, sangue, cachoeira, lágrima, líquido amniótico. Todas elas embarcadas em um naufrágio cansado, progressivo, contínuo. Uma morte lenta e insistente: sim, estamos vivas – gestando e parindo – mas podemos morrer, eles podem nos matar. Com efeito, estamos diante de um mosaico composto de poemas: imagéticos, reflexivos, profundos ‘que atravessam a experiência de ser mulher, a resiliência e a violência de gênero por meio de fortes imagens ligadas à água’”. 

Os textos reunidos contam toda uma história de vida essencialmente difícil para o gênero feminino, difícil por condições impostas que prevaleciam e ainda prevalecem nas relações de poder e domínio dos homens sobre as mulheres – a tal sociedade patriarcal. O que nos recorda as definições comuns impostas pela sociedade patriarcal como as de que mulheres são frágeis ou que nasceram para cuidar dos filhos e da casa, enfatizando a estigmatização da feminilidade e corroborando não apenas as condições sociais, mas também, e de várias maneiras, constituindo uma problemática enraizada culturalmente. 

Observe-se algumas estrofes do poema constante da página 13:

 

nasceu numa cidade do interior / a mãe e o pai / de outros interiores mais interiores ainda / foram parar nessa cidade em que nasceu / e não teria feito diferença alguma se não fosse essa / nasceu mulher / nem mais nem menos que nenhuma outra / a mãe que também nasceu mulher / a criou como foi criada / o pai que nasceu homem / a criou como a mãe foi criada / criadas, ela e a mãe / assim como quase toda pessoa / que chega nesse mundo com uma vagina” ... “nasceu e logo recebeu o título / de difícil / nasceu rasgando tudo / nasceu sem querer nascer / nasceu sem querer servir / nasceu sabendo o quanto ia morrer”...  “e morreu muitas vezes / chorava e se escondia com uma frequência / que ninguém entendia / criada como toda pessoa com vagina / não podia reclamar não podia gritar / toda vez que tentava era lembrada do que era / difícil / então se continha / cresceu calada. 

A menina nascida no sul de Minas, no município de Varginha, viveu o que as mulheres sempre vivem, sobretudo em sociedades ainda com forte ranço colonial onde a religião atua como poderoso mecanismo de controle social a padronizar valores “morais”.

 

a catequista dizia todas as quintas / a família é sagrada / na missa aos domingos também / então acreditava / até o padre tinha uma / na escola ninguém queria ser filho / de uma SE-PA-RA-DA / em casa a mãe suportava tudo / pela sagrada família / então ela também / se calava (p. 20). 

Também não escapou de assédios em um tempo no qual nem se dera conta ainda de que existia sexo. 

 

Todo dia a menina atravessa duas ruas para buscar pão moleton enorme, calças e chinelo para atravessar e trazer / o pão e a incompreensão / de por que aqueles homens ainda falam / aquelas coisas / de por que o pão tem que ser / tão amargo (p. 25). 

E acaba chegando a tristes conclusões do que é ser mulher numa sociedade estruturada pelo patriarcado. Um mero objeto.

 

a falha de ser mulher nesse mundo / de homens / e de ser traumatizada nesse mundo / por homens / a gente que resolva / entre nós // mulher dá / muito trabalho. (p. 24). 

Até que o impensável aconteceu. A menina foi crescendo e entendeu de pensar, estudou e continuou  pensando, sofreu e continuou  pensando,  sofrendo, pensou mais ainda, até que sortilégios da vida transformaram seu coração numa “lona de circo/fincada na tempestade” e ela afinal se assume como:

 

o bicho que fui / equilibrista do silêncio / agradava monstros / o bicho que sou / renasceu ontem / dessa vez chegou berrando (p. 16). 

Os poemas de Nesse corpo de água doce são desabafos libertadores em sua estrutura formal. Não possuem títulos, e seus versos curtos e cortantes apresentam amplas inquirições existenciais que transbordam de um metabolismo psicológico a assumir caráter coletivo.  Via de regra, impregnam o leitor de insuspeitadas epifanias, ou seja, momentos de clareza repentina ou insights profundos, de súbita revelação ou iluminação interior que ocorre quando uma verdade profunda sobre si, sobre o mundo, ou sobre a própria arte, surge a partir de uma constatação ainda não pensada. Isto pode trazer uma sensação de desestabilização, mas muda a visão que a poeta tem do fazer literário. Instantes carregados de significados simbólicos, emocionais e sexuais que convidam o leitor a refletir sobre temas universais de maneira mais profunda. 

No poema abaixo a palavra é repensada como ponte viva entre pensamento e sentimento. Aquilo que dá forma ao mundo, revela a alma, constrói as culturas. Mais do que um sinal na fala ou na escrita, a palavra guarda a essência da experiência humana e o emprego significativo dos recursos linguísticos. Só através de um trabalho artesanal com o vocábulo (desprendendo as amarras fonéticas, sintáticas e semânticas do português formal) é possível apreender a palavra potencializada:

 

eu quero a palavra com cheiro, a palavra com pelos / que veja a beleza desfocada / quero a palavra sem espelho, atemporal, vadia / que abrace a menina, penetre a mulher / quero a palavra perfurante / na garganta / a palavra que treme e vibra e contrai / a palavra da água da morte do medo do fim / eu quero a palavra engasgada / sem fôlego, sem batimentos, sem culpa / quero a palavra mapa, procura e dedos / a palavra sem ida e sem volta / que se contradiga / a palavra descrente da verdade do agora / eu quero uma palavra que é tudo / e que não sabe de nada / quero a palavra que reinvente a vida / materialidade fina e transcendente / do meu gozo, num único verbete / uma fogueira, um altar, a porta / do céu ou do inferno / eu quero a palavra muda / a palavra que desnude a poesia / eu quero o milagre do verso / porque meu sexo não sabe ser escrito (p. 103). 

Há na obra também poemas que produzem verdadeira catarse no leitor, promovendo reflexões de intensas impressões sobre o estado atual do mundo que positivamente ativa emoções acumuladas, permitindo sua liberação através da identificação, da empatia e da elaboração simbólica, que a todos atinge, sobremodo ao ser feminino, e que produz novas compreensões sobre si e os outros. A catarse fornece iluminações e aprendizados sobre nós mesmos, é a purificação ou a liberação intensa de emoções, sobretudo a de tristeza, que o leitor sente ao ler o que vamos fazendo de nosso mundo social. Aquilo que em nosso tempo está reprimido ou acumulado, seja em termos psicológicos, emocionais e/ou de superação de medos e traumas.

 

tempo em que as seguranças não existem / que as palavras se perdem em rolos infinitos / tempo em que as grandes salas só discursam / sobre moedas deuses pastos lucros / tantos pseudo-intelectuais influenciadores digitais // tempo de bruscas e inesperadas rupturas / tempo da não-verdade, da falta de respostas / tempo de cada um cuidar de si / uma vez por semana por uma hora / tempo da total autonomia, da liberdade / tempo da humana-mercadoria / da nossa imensa fragilidade // tempo em que crianças pesam mais que o mundo / tempo em que uma barriga exige tempo demais / tempo em que mães só são sagradas nos andores / e que filhos mortos não comovem mais // tempo em que não se pode mais dormir / porque às três da madrugada homens pisam em nossos sonhos // em vão lutamos, milênios de espera / mas os dias seguem dias de reis (p. 57). 

Interessante observar, neste poema ainda, que o fio condutor tecido costura uma tessitura até o cruzamento final do profano com sagrado. Com a supremacia do divino, que acontece no verso do instante final iluminado, de revelação representado pela menção a “dias de reis” que como sabemos, representa a manifestação de Jesus Cristo como o Salvador da humanidade, pela fé em uma luz divina que orienta a humanidade, e o esforço sincero daqueles que buscam a verdade. 

Assim os sofrimentos da vida são transfigurados pela autora em vivências (dela mesma e de tantas outras mulheres anônimas), que por sua vez geraram consequências de profunda maturidade existencial e que, afinal, colidem em versos com a sensibilidade do leitor. De forma pungente, profundamente comovente. O que se pode dizer da morte de um filho? Quando se perde um filho ainda bebê, não existe palavra. Todavia, Priscila dá o seu testemunho sobre o parto, a perda e o luto, dentro de uma perspectiva da mulher que se reergue, se fortalece e recomeça. Observe-se na última estrofe a metáfora da chuva que serve para algo que lava, que banha, faz passar e, até mesmo, purifica. Metáfora esta que também serve para o tempo, o qual amaina tudo, abranda o pranto e faz tudo passar, mas deixa em nós a essência do amor. Aquilo que verdadeiramente importa.

 

Que consigas sentir no menor gesto toda a imensidão do que sinto / e percebas o quanto me salvaste / pois mesmo nos meus dias de maior desespero / era o teu corpo dentro do meu que me lembrava de / voltar à vida / e ainda que me consumissem todos os dias / a angústia e o medo da despedida / era imaginar esse nosso encontro que toda força / dentro de mim brotava

 

Tu foste a minha maior ferida e a minha maior esperança / nada mais neste mundo me deu tal sorte / de descobrir o poder da natureza em mim / em suas profundas catástrofes e em seus sutis recomeços / em toda fúria, em cada perdão, em todo milagre / da criação / nós fomos deus um do outro

 

Perdoa-me pelo meu cansaço, pelo sangue acelerado / e pela covardia tantas vezes em mim habitada / recebas a humanidade do meu amor / embrulhada em minha fraqueza / e tenhas a certeza da verdade que és para mim / verdade que só a dor desse nosso nascimento pode dar

 

Quando os dias voltarem a ser dias e a chuva voltar a ser só chuva / tu serás o eterno arco-íris da minha memória (p. 67). 

Priscila Faria declarou em entrevista recente à Revista Mana: “Depois, quando fui reunir esses textos, percebi o quanto estavam dispersos. Foi um processo de organização difícil, quase caótico, mas também parte do que esse livro é” (...) “Quando finalmente fiz esse mergulho, foi muito intenso. Um processo quase catártico, de revisitar tudo isso e dar forma ao livro. E foi curioso perceber o quanto eu tinha escrito. Acho que ainda daria facilmente mais dois ou três livros.” 

Muito bem. Aguardamos com vivo interesse novas produções dessa autora que fere a tecla poética certa e necessária neste nosso mundo ainda em dificultoso percurso de emancipação do humano. Cabe aqui, e finalmente, o nosso mais caloroso aplauso.

 

Nesse corpo de água doce
Priscila Faria
Editora Patuá – São Paulo / SP
2026
112p.
ISBN 978-65-281-0380-5

 

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Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.