Mostrando postagens com marcador Alice e Alex. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Alice e Alex. Mostrar todas as postagens

15 de nov. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: 8 e ¹/² - ep.06 [parte alternativa]

Por Mauro Siqueira




Como dito anteriormente, a história de Alice&Alex é uma reconstituição e dentro disto há incongruências. Dentre as várias que já ocorreram (e que certamente ocorrerão), foram encontradas mais ou menos dez páginas avulsas que entram em choque direto com a história contada no Caderno Azul do narrador. Desconhece-se sua autoria, a caligrafia ali é outra, mas oferece pontos de vista (bem como sintaxe e estilo) distintos do narrador. Não podemos meramente descartar essa "terceira via" já que de fato a comparação com outras fontes, como jornais e revistas da época, corroboram com alguns aspectos apontados por essas dez páginas apócrifas; pontos como deste trecho da Balada Imprudente que se segue, distinta da versão do narrador e seu caderno azul. O leitor que escolha a sua preferida. Temos compromisso com o relato, não com a exatidão.

~~~
A menina ainda andava à frente. A ideia de roubarem um carro só seria válida em algum posto de gasolina ou numa dessas lanchonetes de beira de estrada. Os poucos veículos que passaram na estrada não atenderam os polegares eretos pedintes de carona de Alice, a cada negação, o polegar dava lugar ao dedo médio em riste: era quase automático. Mesmo o corpo bonito de Alice não prestou para isso, talvez os piercings tenham assustado, mas quem se assusta com piercings hoje? Ao menos aumentaram a suspeita: estavam longe de casa, entre eles e o seu lugar, duas cidades: uma com nome Santo, outra alguma-coisapólis.

Então viram um carro passar por eles e indicar a seta. Ainda ficaram duvidando enquanto o pisca alerta brilhava nas pupilas dos dois: “Agora é a hora da retribuição.” Alex não entendeu o que Alice quis dizer com aquilo, mas assim como ela correu, sem saber como, talvez com as pernas dos náufragos salvos na última hora do salvamento, ele até deu pulos de alegria: chegariam a algum lugar, qualquer que fosse não teriam de ir andando.

Joana se apresentou primeiro, depois foi Nirvana – sim, esse era o nome da menina –, ela tinha um sorriso estranho e não tirou os olhos de cima de Alex enquanto falava – e falava muito – mesmo sendo ela quem dirigia. Ambas voltavam para casa, na capital, depois de uns meses de “um retiro artístico”. Alice antipatizou com a menina automaticamente. A estrada parecia uma infinita descida, Alice e Alex fizeram bem em insistir por uma carona, não havia nada – nada – no caminho, só estrada e uma paisagem de um verde nauseante pelo excesso. No momento chovia e a falante motorista calou-se um pouco; Alex e Joana cochilavam... Alice observava os olhos verdes da motorista do velho Chevette pelo retrovisor e vez ou outra seus olhares se encontravam.

– Algum problema? – perguntou Nirvana.
– Problema? Hmmm espero que não, você tem algum?

Tensão de causar acidentes.
As duas ficaram em silêncio e feito uma gata acuada, Alice continuou a observar Nirvana, reparando nos seus gestos atrás do volante, a maneira atenta e ao mesmo tempo relaxada de dirigir, as atitudes seguras, a quase descontração aliada a uma concentração. “Um feitiço”, assim quem leu os gestos dela, sabia do que se tratava, ela e Alex dividiam sensação parecida, uma experiência profunda e perigosa que não se podia comparar com dirigir sem ser leviana.

– Você gosta muito de dirigir. – Não era uma pergunta, mas mesmo assim Nirvana achou direito responder.
– Sim, gosto, aprendi com meu tio. Ele era taxista e sempre me levava aos domingos para a praça, e eu tinha uns doze anos, ele me colocava no colo dele e fingia que eu que dirigia, até soltar as mãos uma vez, meio como se faz com as bicicletas e daí...

Alice não ouvia, de fato ela não fez uma pergunta e não estava nem aí! O que lhe interessava era algo em Nirvana que não sabia nomear.

– ...é seu irmão? Namorado?
– Ahã?
– Alex. Ele é seu irmão... é namorado...
– E ela? É sua namorada – visivelmente contrariada com as perguntas da menina.
– Não. Ex. Hoje somos só amigas.

Alice não esperava tanta segurança na resposta. Então era isso que percebia de diferente em Nirvana? Talvez. Permaneceram em silêncio. Lá fora o dia caía e teriam de parar para descansar. Alice sugeriu que revezassem. Ouviu um não veemente. De fato era uma tensão de causar acidentes.
Alex foi o primeiro a acordar, depois Joana, o carro parado à beira de estrada – um arrepio percorreu a coluna de Alex, pensou na menina que povoou o seu sono nos últimos quilômetros e pensou no olhar de Alice para ela, abriu a porta o mais rápido: Alice!!!
Alice e Nirvana conversavam com um senhor de idade, as duas pararam e olharam para Alex surpresas:

– O que foi?
– Hmmm... nada só queria dizer que acordei...
– Já podemos seguir – interrompeu Nirvana, dando um tapinha no ombro do rapaz.

O velho senhor à beira da estrada indicou uma pousada para o, agora, quarteto passar a noite, só que eles teriam de voltar uns quilômetros – ninguém viu inconveniente nisso. Somente Alex que cochichou no ouvido de Alice: Como vamos pagar essa merda? Alice não se deu trabalho de responder.
A pousada era velha, um fato explicito pelo ruído do tempo sobre a arquitetura do lugar, uma tabuleta desbotada, o caminho para sede tomado pela hera alta, um silêncio que não se traduzia em tranquilidade, mas sim desolação; a construção – uma velha Casa Grande – feita toda ela em madeira e granito, que um dia foi bonita. Um velho senhor de idade já esperava à porta – seria o mesmo senhor da estrada? Parecia que o senhor lera a mente dos 4 viajantes e respondeu:

– Não, eu não sou o senhor da estrada, sou apenas o irmão gêmeo dele. Vamô chegando gente, que é tempo que não recebo ninguém.
– Quanto é o pernoite, moço? – perguntou Alex, ainda preocupado.
– Farei um preço especial para vocês, não se preocupem! Faz tanto tempo que não recebemos ninguém e não faz sentido eu cobrar o valor de tabela!

De repente Alex e Alice se deram conta de que a última coisa que comeram foi a sopa batizada da velha chinesa e ambos tiverem certeza que seus estômagos roncaram em uníssono naquele instante de lembrança – se alguém ouviu ou não, não se importaram.

Joana e Alice foram as primeiras a se levantarem, estavam satisfeitas; Alex e Nirvana ficaram. Ela com uma xícara de café e ele ainda envolto de guarnições, sopas e a suculenta carne assada recheada. Apesar da fome Alice comeu pouco, seus olhos passeavam de Alex para Nirvana, de Nirvana para Alex, num balé enjoativo... Joana nem ai, essa uma completa nulidade, nem parecia estar ali, parecia sempre chapada e quando Alice chegou à varanda, a menina tinha dificuldades em fazer o isqueiro acender o bagulhinho... Alice sempre estava certa – era da sua natureza. Decidiu ir para o quarto.

***
Nirvana passou em direção ao quarto, a ex-companheira que dançava descalça na chuva, não estava mais por ali, estava cansada demais para ir buscá-la sei lá onde; com as chaves na mão passou pelo quarto de Alice e Alex, pensou parar. Bater de leve. Perguntar se Alex queria dar uma volta ou conversar, gostou do rapaz assim que bateu os olhos neles, era tímido de uma maneira doce... um nerdizinho de nada... já a menina, ela não: de certa forma lhe causava arrepios, os olhos quase de gatos sobre ela, era fria, mas também não podia deixar de reparar a sua beleza, aliás, por aquela porção generosa de pernas e colo – além as tatuagens e piercings – que parara à beira da estrada para dar carona a dois estranhos. Não, Nirvana não bateu naquela porta, caminhou para seu quarto, pela manhã ainda teria um carro para levar.
Assim que abriu o quarto percebeu uma sombra em meio à escuridão. Estacou. Sua mão correu a parede em busca do interruptor... e então sentiu mãos no seu pescoço e no braço, o abraço apertado em seguida, seu coração na boca... para depois os lábios, tocados por outros lábios, um tremor percorrendo toda a sua coluna, fraquejaram as pernas, o corpo pendeu, sentindo-se já entregue: quem era aquele estranho e como conhecia suas fraquezas daquele jeito? Giravam pelo quarto agarrados, ela sendo sorvida por uma língua quase felina, viu-se jogada com força na cama, a excitação só aumentando e de repente... um nada. Um silêncio de todos os sons, os olhos de Nirvana buscando um referencial naquela escuridão, disse um “Hey!” À-toa. Nada. Preparava-se para se levantar – um delírio tudo aquilo? Sentiu então o peso de outro corpo, os beijos recomeçaram tão famélicos como antes, a blusa arrancada, o peito arfante, subindo e descendo, os beijos nos bicos duros, causando arrepios e arpejos, as mãos percorrendo o corpo, reciprocidade incipiente, o quadril buscando o encaixe, o jeito e a forma, as mãos de Nirvana buscando uma forma de soerguer-se – afinal quem a tomava daquela forma? Saber não foi uma opção, respirava fundo e pela boca, quase não saiu:

– Alex, é você?
– Não.

Reconheceu a voz um pouco rouca de Alice. Enquanto o fecho éclair de sua calça descia, Nirvana já não lembrava por onde começaram.

Alex acabou seu banho e ligou a tevê um filme italiano. Estava sem sono, a preocupação era pela manhã, quando fosse acertar a conta, não tinha nenhum dinheiro ali. E onde estaria Alice? Ela saíra cedo do jantar, parecendo irritada com alguma coisa, e ainda não voltara. Resolveu andar, não conseguiria dormir daquele jeito. Na varanda, a chuva amainara, no matagal em frente pareceu ter visto um vulto, um pedaço de pano. Sentiu a grama úmida, quando pisou na pequena trilha, não precisou chegar mais perto, reconheceu a fazenda do vestido de Joana. Seu corpo deitado sem respirar, os olhos ainda abertos, uma expressão clama, quase alegre, não viu sangue, mas no pescoço um cadarço preto e branco. Alex sabia de onde ele vinha. Deu as costas e correu...
A porta estava entreaberta, nenhuma luz, o silêncio, entrou sorrateiro, como um cachorro que comete um erro, sua visão leva pouco tempo para se acostumar, distingue primeiro Nirvana, dormindo, submissa abraçada ao quadril de Alice, que de olhos abertos encara Alex. Não trocam uma palavra.

***

A concentração dos dois era tamanha que nem mesmo o sangue nas roupas recém tomadas incomodavam, mal perceberam que de repente o terreno nivelara e que já não era possível observar a grande cidade em sua magnitude e totalidade. O Chevette andava bem, era confortável, Alex mexia no porta-luvas, encontrou algum dinheiro, balas e muitos cartões postais e fotos, uma em especial chamou a sua atenção: Joana e Nirvana com óculos Wayfarer, como os de Alice & Alex tiveram uma certa vez. Rasgou Joana da foto, fez uma bola e engoliu, Nirvana... guardou no bolso sem que Alice visse.
O dia, no auge do seu calor, Alice voava pela estrada, uma placa passou em branco, outra e outra. Conseguiu ler o nome da cidadezinha para que onde se dirigiam, talvez tenha sido a desolação do nome da cidadezinha que a fez dirigir para lá. Rodaram bem devagar pela rua principal: o coreto, a igreja, o pipoqueiro. Para sua surpresa, um cinema drive-in, no letreiro, letras garrafais anunciavam: “Festival Fellini” – Hoje: “Amarcord”, “8½” e “La nave va”.

Alex, lendo na expressão da garota, adiantou-se:

– A sua pipoca é salgada ou doce?
– Doce.


~~~

» No próximo episódio, Alice e Alex estão "A um passo da eternidade" em 8 e ¹/² - ep.07 [parte final]
» Anteriormente em A Balada Imprudente de Alice e Alex:
interlúdio

10 de nov. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: interlúdio

Por Mauro Siqueira


Caros leitores, vocês devem ter sentido falta das (des)aventuras de Alice & Alex por esses tempos. Quero dizer - e relembrar - que a fonte de suas histórias são notas de jornal, depoimentos de testemunhas, vítimas e, principalmente as notas do Caderno Azul do narrador. Todo esse conjunto de documento requer deste que vos escreve um árduo trabalho de reconstituição e recriação filológica que demanda tempo e cuidado. Assim, informo que a continuação do último capítulo apresentado aqui n'O BULE foi recuperada na sua quase totalidade. Por ora, então, ofereço àqueles que acompanham o folhetim o que já foi publicado das andanças de Alice & Alex e para você, leitor, que é novo no blog, a chance de não pegar a história pela metade... se bem que ela não tem propriamente um início... Bem, divirtam-se de novo ou pela primeira vez!
-
Um folhetim pulp: À guisa de explicação (eu acho)
Antes mesmo de começar já me explico: consciente ou não, não sei ao certo os porquês de contar essa... história, mas quero crer que tenha sido por saudade da minha avó – gosto de pensar assim. Ela ficava costurando e ouvindo as estações AM das rádios. Eu chegava do colégio perto da hora do almoço, passava pela cozinha, deixava a mochila pelo caminho, tirava os kichutes sem desamarrar os cadarços e ia ao quartinho de costura dar um beijo nela; ela, na velha máquina Singer, com o pé direito no pesado pedal, os óculos bifocais, ouvindo aqueles programas policiais cheios de sonoplastia e desespero – vez ou outra soltava um “Cruz em credo!”, assim mesmo: cruz em credo, ou um “Minha Ave-Maria!”, sem levantar a cabeça da máquina de costura, o mesmo tom de voz, sem perder a concentração e o compasso, o ritmo impresso por ela. Eu ria. [Leia Mais]

Gata em teto de zinco quente - ep.01
A altura lhes dizia: não estamos baixos. Até impressiona a força do vento ali em cima, mas não que bastasse para aplacar o calor do alto daquele prédio; lá embaixo formigas de diversas espécies em trajes e andrajos, movimentando-se dentro de alguma lógica que Alice entenderia a algum tempo, agora apenas desprezava e por detrás dos óculos exultava um ar de vitória – aquela que somente uns poucos descobrem e que se confunde com liberdade: a verdade exulta. Do alto ela ria dos insetos lá debaixo; quem quer que olhasse para as outras direções veria o calor saliente dos edifícios como ondas revoltas, o mar de prédios estendendo-se até se deformarem e se esconderem no horizonte, as variadas alturas, “conceitos”, funções, formando um relevo feito concreto-metal-vidroreluzente-suor&sangue, erguido por muitos sem-nome-cara&rosto... particularmente, prédios orgânicos quase personagens vivas de um cenário... um teto de nuvens esparsas, e contrastando como o imenso horizonte (...) [Leia Mais]

A Invasão Chinesa - ep.02 [parte um]
– Rá: “Miau”, você é louca, Alice... louca! Rarará, mas foi demais, tenho que admitir: “Miau”. “Miau”!!! Meu maxilar está doendo de tanto rir.
– Podemos andar mais depressa? Estou ficando com fome...
Alice e Alex desciam as escadas do prédio, não as internas, mas aquelas outras, as de fora, contra incêndios, o corrimão quente e áspero da exposição ao sol. Há pouco menos de uma hora os dois chegaram àquele ali, naquele lugar; há pouco mais de cinquenta e cinco minutos subiram onze andares e chegariam suados e arfantes ao terraço; por pouco mais de vinte e sete se bronzearam totalmente nus e, por fim, há menos de oito agrediram e incapacitaram um homem, o zelador dali... [Leia Mais]

A Invasão Chinesa - ep.03 [parte final]
Quando Alice e Alex despertaram, certa noite, da indução alucinógena a que foram conduzidos viram-se transformados... em porra nenhuma. Aqui não há artrópodes humanizados ou relações pai-e-filho metaforizadas, nada disso!
O estado em que se encontravam, durante o estranho sono não lhes reservou nada: não sonharam, não choraram, não sentiram dor alguma. De certo, mal sabia como estavam ali; e o ali era o porta-malas de um velho Opala SS 75. Alice foi a primeira a acordar, piscou os olhos e tudo ainda continuou escuro, sua cabeça doía e os latejos pareciam ribombar nos tímpanos, a percepção do ambiente demorando a agir o desespero não tardou. E com ele os erros: chamou um “Oi” por alguém, bateu com a cabeça no tampo do porta-malas tentando levantar, esperneou. Percebeu o exíguo espaço e a completa escuridão palpável ao seu redor, sentiu tudo menor e, levando uma das mãos ao peito, um calor e um sufocamento que até então não estavam ali, agora estavam... e o pavor. [Leia Mais]

Uma das estradas de tijolos amarelos - ep.04
Todo o lugar era chamado de Mirante, Alice e Alex deixaram para trás um chinês agonizante azarado e o seu Opala destruído e seguiram o coelho branco, agora, estavam numa espécie de platô, construído à beira da estrada, um pouco após o acostamento e aonde pararam para observar o que sobrara do animal.
Com a ponta de um graveto, Alex remexia as entranhas do coelho, eviscerando o bicho órgão a órgão. Alice olhava a distância, mas não via o rapaz subitamente curioso pela anatomia dos leporídeos, que agachado junto aos restos do bicho, agora levantava com cuidado a boca do coelho, os enormes dentes saltavam a vista, Alex olhava fixamente a fenda entre os dentes e a gengiva, instintivamente o rapaz levou à mão aos seus próprios lábios... [Leia Mais]

8 e ¹/² - ep.05 [parte 01]
Naquela noite eu não dormi bem.
Causa? Não foi por medo ou insegurança. Eu era pura excitação, eu era pura energia. O que ouvi sobre o zelador do tal prédio fez com que eu voasse em cenas, imagens, visões de como tudo se dera. Pode um coração parar e você não morrer? Quando sai do meu estado de perplexidade, quase apoplexia, senti a necessidade de correr. Peguei a minha bicicleta e pedalei pelo bairro até sentir o meu coração bater e vibrar por clemência nas batatas da minha perna. Só voltei à noitinha... Minha mãe no portão com uma cara... saiu barato o sumiço, “Nada de ‘Esquadrão Classe A’ pra você hoje”, por sorte fiquei só de castigo – ela também entendia. Mas não me importei muito, afinal era um episódio reprisado mesmo. Fui para o quarto e abri o caderno azul – eu lembro vividamente daquela noite em especial – respirei fundo. “O que é isso? Dever de casa?”, perguntou a minha irmã por perguntar ao entrar no quarto e pegar o seu walkman. “É.” – e escrevi. [Leia Mais]

6 de set. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: 8 e ¹/² - ep.05 [parte 01]

Por Mauro Siqueira

“Alfredo, va fan cullo!”
Totó – Cinema Paradiso



Naquela noite eu não dormi bem.
Causa? Não foi por medo ou insegurança. Eu era pura excitação, eu era pura energia. O que ouvi sobre o zelador do tal prédio fez com que eu voasse em cenas, imagens, visões de como tudo se dera. Pode um coração parar e você não morrer? Quando sai do meu estado de perplexidade, quase apoplexia, senti a necessidade de correr. Peguei a minha bicicleta e pedalei pelo bairro até sentir o meu coração bater e vibrar por clemência nas batatas da minha perna. Só voltei à noitinha... Minha mãe no portão com uma cara... saiu barato o sumiço, “Nada de ‘Esquadrão Classe A’ pra você hoje”, por sorte fiquei só de castigo – ela também entendia. Mas não me importei muito, afinal era um episódio reprisado mesmo. Fui para o quarto e abri o caderno azul – eu lembro vividamente daquela noite em especial – respirei fundo. “O que é isso? Dever de casa?”, perguntou a minha irmã por perguntar ao entrar no quarto e pegar o seu walkman. “É.” – e escrevi.

Ao menos tentei. Eu perdi a conta de quantas folhas foram arremessadas fora, nunca desperdicei tantas delas; mudei de caneta; usei lápis. Lapiseira. Hidrocor. Nada! Troquei de lugar, mudei objetos de posição, ouvi música, tentei jeitos de começar, comi, bebi água. Nada! Certo de que não conseguiria escrever o que imaginava querer – eu não sabia representar, transpor os acontecidos em palavras: eram falhas, gastas, mancas; inúteis. Elas despencavam da caneta para o papel e só sujavam as linhas, mas era algo que eu precisava (tentar) fazer, tirar de mim. Foi um martírio. Não sei quando dormi, a desistência involuntária, só me dei conta na madrugada quando despertei, meu pescoço doía, estava com sede. Indo até a cozinha, vi a luz azulada da tevê, meu tio roncava. No Corujão um filme italiano.[1]

***

– Então, bobalhão, tem certeza que o caminho é esse?
– Claro que sim!
– Como? Se estávamos presos num porta-malas...
– Alice, Alice, Alice... sabe aquele caminhão que matou o coelho? Você leu a lateral dele?
– Que caminhão?
– hmm... esquece, então. Só saiba que além de mal motorista ele tem na sua carga isso.
– Fubá?
– É!! E ele tá soltando desde sei lá onde, olha... E tá fazendo um caminho pra gente, uma caminho que nos paralelepípedos parecem tijolos amarelos, como você falou!
– Não falei bem isso, Alex...
– Mas falou...
– Alex: foda-se.

Alice e Alex caminhavam há horas, pareciam que nunca iam chegar. Apesar de todo cansaço e da má aparência não demonstravam um ao outro as sua preocupações, ao menos Alex, pois a irritação de Alice era evidente e isto, um sinal de contrariedade. Do alto do tal bairro Alto, ou o Mirante, via-se a cidade inteira, mas qual cidade? Eles tinham dúvidas se os caminhos do opalão os levaram para fora dos limites do município. Estavam quase convencidos de que estavam num cidade vizinha. Margeando a estrada, a metrópole. Quase um organismo, Alice definia assim, podia sentir dali a sua vida e força – definitivamente, o interior não é o seu lugar –, ela queria estar ali imediatamente. No céu daquela cidade uma camada amarelada a cobria e a linha do horizonte, distraída pela sua sujeira, escondia dos dois peregrinos sua suposta beleza. Alex queria conversar, Alice não. A menina andava à frente. Os poucos veículos que passaram na estrada não atenderam os polegares eretos pedintes de carona, nem mesmo o corpo bonito de Alice prestou para isso, talvez as tatuagens tenham assustado, mas quem se assusta com tatuagens hoje? Ao menos confirmaram a suspeita: não estavam nem perto de casa, entre eles e o seu lugar, duas cidades: uma com nome índio, outra como nome da santa. Assim que tivessem chance roubariam um carro, Alice dirigia muito bem (segundo ela mesma). O cansaço insuportável, até mesmo Alex, que vinha mantendo um bom humor quase monástico não falava mais nada.

– Chega, Alice: nós vamos morrer! Eu não aguento mais andar...
– Então voe, idiota... É a melhor ideia que eu posso ter.
– Vamos parar, vamos pegar carona...
– Ninguém quer para a gente! Olhe para nós? O nosso estado. Você pararia?
– Eu?... Pararia sim.
– Pra puta que pariu que pararia! Mas você tem razão, chega de andar.
– Vamos mesmo voar, então?
– Melhor: nós vamos roubar um carro...

A desconcentração dos dois era tamanha – que nem mesmo o sangue nas roupas recém tomadas emprestas incomodavam –, mal perceberam que de repente o terreno nivelara e que já não era possível observar a grande cidade em sua magnitude e totalidade. O dia, no auge do seu calor. Talvez tenha sido a desolação da cidadezinha com o que se propunha aquele estabelecimento que a fez dirigir para lá. No letreiro do cinema drive-in, letras garrafais anunciavam: “Festival Fellini” – Hoje: “Amarcord”, “8½” e “La nave va”.

Alex, lendo na expressão da garota, adiantou-se:

– A sua é salgada ou doce?
– Doce.

Já acordando, vendo sobre a mesa o caderno azul fechado com a minha caneta feito marca-páginas em que parei; as rasuras, os rabiscos marcando em Bic-azul a minha derrota. “Foi seu pai que te levou pra cama. Te achou no tapete da sala. Seu tio vai ouvir umas também, dormiu com a tevê ligada... de novo! A conta, pela hora da morte e ele desperdiçando luz...” “Mais cinco minutinhos...” “Não, levanta logo... Ah, seu pai também gravou o seriado pra você... ao menos ele disse que dessa vez ele conseguiu.”, minha mãe falou numa incredulidade.
Segundas-feiras sempre são estranhas, mas aquela em especial parecia conter em si muitas segundas-feiras que viria a ter. Com doses a mais de frustração... nem sentira o Domingo passar e a segunda surgia com um peso que eu, com catorze anos não suportava, Deus! Minha mãe continuava a falar, eu pouco a pouco acordando, pensando no que não consegui reter no papel sobre os acontecidos e que filme doido foi aquele? Que peitos eram aqueles? Enormes! E aquele pavão? Qual o sentido daquele pavão?! Afinal, quantos filmes eu vi ontem? Eu já estava perdido com dez minutos de despertar.
No caminho da escola, a banca de jornais, só pensava nas histórias de delinquência que ganhava cada vez mais corpo nos noticiários pendurados, a tal da Claudia Vargas vinha irritando a polícia, demonstrando ser bem mais sucedida que eles nas pistas deixadas. Depois do zelador canibalizado, ela seguiu uma “dica anônima”. A danada achou um velho opala próximo dos limites fronteiriços de Santa Letícia, quase a duas cidades daqui. Para surpresa de todos, um homem fora encontrado dentro de um velho Opala... agora não lembro se vivo ou morto, apenas que era um grande contrabandista chinês. Seguindo o caminho de volta, talvez o pior. Cláudia Vargas e a sua equipe – sim ela ganhara uma equipe – encontraram um casal de amigas, gravemente feridas. Uma foi incapaz de dizer qualquer coisa – teve a língua arrancada. A outra, nos dedos restantes das mãos, e estranhando a voz metálica que saía dela mesma, por um tubo na traqueia disse: “Foram dois. Uma garota com tatuagens e um garoto de lábio leporino”.
(Num cinema muito longe dali e muito antes dessas informações cobrirem os jornais, Alice e Alex assistiam a um enorme rinoceronte ser transportado num bote salva-vidas).


[1] Essa é a história do que não foi história das Notas do Caderno Azul.


~~~~

» No próximo episódio, Alice e Alex estão "A um passo da eternidade" em 8 e ¹/² - ep.05 [parte final]
» Anteriormente em A Balada Imprudente de Alice e Alex: Uma das estradas de tijolos amarelos - ep.04

16 de ago. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: Uma das estradas de tijolos amarelos - ep.04

“You're the fugitive but you don't know what you're running away from.”
Old yellow brick – Arctic Monkeys


Todo o lugar era chamado de Mirante, Alice e Alex deixaram para trás um chinês agonizante azarado e o seu Opala destruído e seguiram o coelho branco, agora, estavam numa espécie de platô, construído à beira da estrada, um pouco após o acostamento e aonde pararam para observar o que sobrara do animal.
Com a ponta de um graveto, Alex remexia as entranhas do coelho, eviscerando o bicho órgão a órgão. Alice olhava a distância, mas não via o rapaz subitamente curioso pela anatomia dos leporídeos, que agachado junto aos restos do bicho, agora levantava com cuidado a boca do coelho, os enormes dentes saltavam a vista, Alex olhava fixamente a fenda entre os dentes e a gengiva, instintivamente o rapaz levou à mão aos seus próprios lábios...
Ainda pasma, Alice estava irritada. Sentia-se estúpida e perguntava-se como caíra no ardil da velha senhora chinesa. Pensava assim sentada numa pedra, joelhos tocando joelhos. Tinha o estranho cachimbo nas mãos, olhava e olhava para ele sem entender ao certo as artimanhas daquilo. Cansou-se da cena de autocomiseração: pegou o cachimbo, depositou calmamente sobre a pedra em que estava sentada, pegou uma outra, enorme, ergueu-a com as duas mãos sobre a cabeça. Tomou distância... impulso... e correu. A sua raiva se dissiparia com a sua ideia: com a força que possuía e o pedregulho: o alvo: o cachimbo. Não saberia o que aconteceria se o destruísse, mas iria fazê-lo – como um símbolo.
A pedra atingiu bem do alto, bem em cheio e...
Nada.
Esfarelou-se, mas para a surpresa do imaginário de Alice, nada de especial aconteceu: luzes, raios cósmicos, espíritos orientais, fumaça sequer. Nada nada aconteceu – Alice se sentiu frustrada e cansada. Era hora de andarem. (E acertar contas).

– Alex, vamos... Temos que ir, estou farta desse leugar! E quero esganar aquela velha.
– E para onde vamos, voltar para o Ásia?
– Não sei... Antes vamos aonde essa trilha de tijolos nos leva.
– Igual na história que leva o seu nome!
– Não, idiota! A dos tijolos é O Mágico de Oz...
– Ah tá...

***

“...ferido e em estado de choque, Ruãn Martinez foi levado às pressas ao Hospital. Passou por duas cirurgias: a primeira, mais urgente, para a remoção de um grande coágulo cerebral e a segunda, com certeza, mais bizarra, enxertiva: a polícia encontrou o zelador do Ásia com o rosto coberto de sangue e para o choque dos socorristas, parte da sua bochecha fora retirada: os primeiro laudos indicam que por uma mordida. Os peritos ainda não sabem se essa mordida foi feita por algum animal ou... algum psicótico ou dois. Sim. Depoimentos anônimos apontam para um casal de jovens que estiveram no Ásia hoje, no início da tarde.
Eu sou Cláudia Vargas e esse o nosso Plantão; é com você Silveira.”

Acho que como todo ouvinte, ficamos em choque àquele relato. A reportagem falava de mais episódio, provavelmente, envolvendo Alice e Alex. Eu ouvi tudo. Minha avó parou de costurar e minha de cozer e ficamos estáticos diante do rádio.[1]

***

– Isso é doideira, Cláudia?! Você não pode entrar no ar e levantar hipóteses não confirmadas pela polícia! Isso é crime...
– Crime? Qual?
– Ah, deve ser! Ao menos é incitação de histeria, sei lá... Sei que é um caminho perigoso para se seguir.
– Não me importa, farei desses perigos a minha estrada de tijolos amarelos. O que me importa de fato é que serei eu a primeira repórter a tirar uma foto de casal de malucos. Ou não me chamo Cláudia Vargas.
~~~~

» No próximo episódio, Alice e Alex tem uma tarde de puro tédio em uma sessão de cinema em "8 e ¹/²".
» Anteriormente em
A Balada Imprudente de Alice e Alex:
A Invasão Chinesa - ep.03 [parte final]
[1] Notas do Caderno Azul.

6 de ago. de 2010

A Balada Imprudente de Alice e Alex: A Invasão Chinesa - ep.03 [parte final]

Por Mauro Siqueira


A vingança é um prato que se come frio.
Ditado Klingon

Siga o coelho branco.
Charles Lutwidge Dodgson


Quando Alice e Alex despertaram, certa noite, da indução alucinógena a que foram conduzidos viram-se transformados... em porra nenhuma. Aqui não há artrópodes humanizados ou relações pai-e-filho metaforizadas, nada disso!
O estado em que se encontravam, durante o estranho sono não lhes reservou nada: não sonharam, não choraram, não sentiram dor alguma. De certo, mal sabia como estavam ali; e o ali era o porta-malas de um velho Opala SS 75. Alice foi a primeira a acordar, piscou os olhos e tudo ainda continuou escuro, sua cabeça doía e os latejos pareciam ribombar nos tímpanos, a percepção do ambiente demorando a agir o desespero não tardou. E com ele os erros: chamou um “Oi” por alguém, bateu com a cabeça no tampo do porta-malas tentando levantar, esperneou. Percebeu o exíguo espaço e a completa escuridão palpável ao seu redor, sentiu tudo menor e, levando uma das mãos ao peito, um calor e um sufocamento que até então não estavam ali, agora estavam... e o pavor.
E então tomou o susto de uma vida
Sem saber e de maneira muito igual, Alex despertou do seu próprio mundo e como Alice, por segundos, se viu só, mas ao contrário da parceira, tateou o ambiente e um breve esticar de mão a encontrou.

– Alice?!, Alice?! É Você?! Onde estamos?!?!
– Sim!!!, Alex, sou eu!!! Eu não sei, acho que é um carro ou um caminhão... A minha cabeça dói...
– A minha também... para onde estamos indo? Que está dirigindo, Alice como viemos parar aqui? Me tira daqui Alice... eu quero sair...
– Para de choramingar! Eu também quero sair!
– Como viemos parar aqui? – Alex repetiu.

Alice não respondeu, não possuía as respostas (ou achava que não). Só de tentar imaginar algo, sua cabeça doía mais ainda e para o seu espírito prático, aquilo não importava no momento, mas sim...

– Como sair daqui. É só isso o que eu quero agora, Alex.

Alice e Alex não sabiam, mas o Opala SS 75 pertencia ao filho da velha chinesa. Ela, feito rainha, vinha sentada no lugar do carona; fumava um cachimbinho estranho e fedorento, resmungava com filho a audácia dos dois; e ele, concentrado na estrada, ainda assim parecia dar toda a atenção à mãe.
O filho da velha, era... diferente e seu nome transmitia isso, chamava-se Jiu-jiu, que significava “Nove-nove”, pois era o número de dedos que possuía nas mãos e nos pés – nascera com uma anomalia. Tinha por volta dos quarenta anos, mas aparentava bem mais (uma característica da família?), os cabelos evidentemente tingidos não escondia os fios revoltosos e brancos que saltavam no centro da cabeça chata e escorriam na direção da nuca; tinha um bigode que acompanhava essa tendência e nas pontas o branco ressaltava, Jiu-jiu parecia um gato velho e era com essa alcunha que se firmara e se tornara conhecido. O Gato Velho era um dos maiores contrabandistas em atividade, era responsável por entulhar a cidade e oferecer a mim e a você quinquilharias de que não precisamos e guarda-chuvas que não nos protege, apesar do que sugere o nome, mas isso é tudo fachada, o menor dos problemas, a mentira sincera, sem contar os cassinos clandestinos, mas a brincadeira mais séria mesmo é o tráfico de mulheres. Então, quando sua mãe ligou dizendo que uma coisinha ... de uns ... anos, de cabelos coloridos e olhos ... apareceu por lá, invadindo o apartamento Ásia, ele pegou o mais rápido que pode seu Opalão e segui para lá, ao chegar, diz a lenda que quase chorou e que prostrou diante de Alice beijando-lhe a testa suada – e não deixou de notar na tatuagem da garota.

Tirar Alice e Alex do Ásia não requereu grandes esforços da velha senhora chinesa, ela observou o seu filho carregar Alice nos próprios braços, enquanto que Alex fora carregado por dois moradores daquele andar – um nepalês e um... quem nasce no Sri Lanka é o quê?

Agora, subiam a estrada do Alto, sinuosa, balançava o velho carro de lá pra cá, e talvez tenha sido o chacoalhar que tenha despertado Alice e Alex antes do imaginado e agora, sem saber como ao certo, Alex, apenas de cuecas e Alice de calcinha e sutiã, esforçavam-se com um pedaço de ferro o ferrolho interno do porta-malas de um Opala SS 75, que desesperados, sentiam o sangue escorrer dos dedos.

– Vai seu viadinho!!! Abre logo!
– Tô quase, to quase...
– Tá dizendo isso há uma hora... vai, antes que alguém perceba que a gente acordou!!
– Acho que consegui... Não, não consegui.
– Deixa eu tentar... – Alice falou tomando o pedaço de ferro. Meio de lado, meio ajoelhada, lutou por um bom tempo até se dar por vencida. Parecia não haver esperança ali. O que fariam? Esperariam o carro parar e no momento em que abrissem o porta-malas tentariam fugir?

Alex não via, mas podia perceber algo novo, algo que nunca presenciara: Alice desistia. Era, sob certo aspecto, excitante aquilo. Ele queria poder vê-la e ler no seu semblante a derrota, a frustração, a tristeza; sensações corriqueiras para ele. Era excitante, pois assim a fazia igual a ele...

– Alice...
– Quié...
– ...Alice...
–Fala, cacete! O que você quer?!

Alex não disse nada, mexendo a mão na direção dela alcançou seu cabelo. Desceu a mão pelo rosto de Alice, foi um toque diferente e ela percebeu, reagiu com um arrepio.

– O que é isso – disse ela.
– Não é nada, só queria fazer isso: ver seu rosto.

Um estranho silêncio se fez. Uma longa pausa. Alguns movimentos limitados pelo espaço e pela inibição e por um momento, só por um momento, os dois esqueceram que viviam um pequeno inferno e foi somente a sensação do carro parar que os tirou daquele lugar no tempo, fazendo seus instintos de preservação e sobrevivência dizerem em uníssono: “É agora a nossa chance”.

De fato o carro parou, mas foi um momento muito breve, pouco para uma atitude corajosa/estúpida da parte dos dois. O terreno agora parecia mais acidentado – onde diabos estariam? Tudo levava a crer que o perímetro urbano ficara para trás, do nada, Alice e Alex sentiram o estômago na garganta: o carro descia velozmente: trepidavam, batiam cabeças, pernas, braços uns nos outros – os dois no metal, a velocidade só aumentava, mesmo, agora apertavam-se no fundo do porta-malas – a física exibia-se.
Então o estrondo.

E tudo continuou escuro por mais um longo tempo.
E...
E... o que já não tinha agravou-se: a noção dos dias e das horas, meros conceitos abstratos. Mais uma vez, Alice fora a primeira a acordar: o sol cuspia na sua cara uns 40° graus de delicadeza e possibilidade cancerígenas – ela adorou a ideia. Saiu com dificuldade do porta-malas, percebeu que como por um milagres, nada fora quebrado ou partido, mas as dores inevitáveis. Alex. Alex... parecia experimentar o sono dos justos, parecia até sorrir. Ela agora, que livre, querendo entender tudo: por que estavam naquele carro? E quase sem roupas? E como se acidentaram. “Acidente”. Somente ao pensar nele que se deu conta que a respostas as suas perguntas podia estar bem próximo, dentro do carro. E estava, porém morto. Alice se deparou com china de cabelo estranho e de rosto “todo fodido de sangue”, como falou para Alex mais tarde, ainda naquele dia. Um objeto chamou a sua atenção, caído no assoalho no Opala, um estranho cachimbo. Não pegou de imediato, ficou olhando de longe, quase que com medo. Ela mesma começa a se incomodar com as frescuras que vinha sentindo.

– Que merda ‘cê tá fazendo?

A voz de Alex surgindo por detrás dela.

– Nada...
– Puta merda, o que foi isso, hein?! Cara... que acidente... sorte que estamos bem, como será que... – Alice não estava nem aí para Alex, só interessava o cachimbo, mas não tinha certeza que queria pegá-lo...

***

– Duvido que você consiga...
– Por quê?
– Ora... porque sim, idiota! Ha-ha-ha!
– Quer apostar? –
– ... ...você não vai conseguir! – Alguém parecia inseguro.
– Quer... a-pos-tar?... – disse Alice com um brilho doentio nos olhos.
Alguém parecia muito seguro.
– Vamos lá, é uma simples paga, se você perder...
– Valendo o quê?
Um passo além para os dois.
– Valendo o quê?... deixe eu pensar...
– Dinheiro?
– Você sabe que não me interesso por dinheiro... não preciso dele.
– É, eu sei, eu sei; também não me importo. O que a gente aposta?
– Um cu: o seu ou o meu.

Surpresa, pavor, palidez, livor, descoramento, palor, lividez, desassossego, inaudição, incerteza, secura, dúvida, embaraço, esgotamento, incômodo. Silêncio. Congelamento. Hesitação, excitação, ventura, desafio, aceitação, convergência, imaginação, confiança, curiosidade... sensações experimentadas em muito pouco tempo.

– Feito!
– “Selemos a nossa paga, embebida com o nosso sangue!”
– Bonito, é Shakespeare?
– Não, é Sherlock Holmes.
– Repetindo: quem perder a aposta paga com o cu. A forma e quando, cada um escolhe. Sem avisar ao outro.
A 7 anos dali, na palma da mão de ambos, um risco, uma cicatriz aniversariava.
– Hum, hum... Combinado.
Alguém lambia o sangue que escorria até o pulso.

***

O mais difícil não foi escolher a vítima, assustá-la, persegui-la, lográ-la como gado, guiando-a para onde quisesse: um beco fora dos olhos. Nem mesmo acabar-se de rir enquanto chutava as costelas e rosto da setuagenária desabada no chão; ao ouvi-la, ainda assim, na merda que estava, pedir pelo amor de Deus que parasse. Ela não entendia que naquele momento, Alice era Deus, o destino da velha repousava violentamente na bota da garota com camisa de coelho que chutava a sua cara. E ela, Alice, ria da ignorância e incompreensão da velha – ela não se lembrava deles.
O mais difícil para Alice era saber a hora de parar.

– Alice... Alice, acho que está bom... Alice, para, se não você mata a velha...
– Você acha?
– Acho.
–Você não lembra dela, não é? Olha bem perto...

Não precisou muito, Alex reconheceu: a velha senhora chinesa.

– Continua – quase implorou ele.

Alice olhou para a senhora no chão, arfava feito bicho cego na hora da morte – e talvez de fato fosse, não tinha certeza se a velha conseguia vê-la – estava com o rosto guardado pelo sangue. Alice queria que ela a visse. A menina ergueu o seu vestido florido-primavera e por entre a calcinha mesmo mijou sobre o vermelho-sangue-violência da velha. Era morno, era um alívio. Ela sentia o cheiro do mijo subindo no ar. Se abaixou e com sua mão mesmo esfregou o rosto mijado da vovó chinesa... inexpressão & espanto, dor & prostração, hálitos & vapores.
Alice se levantou rápido e virando para Alex, seu namorado, Alice disse:

“Teu cu é meu.”

***

...Alice, estranhamente tomada, de um ímpeto pegou o estranho cachimbo e como um feitiço reviveu cada instante no Ásia: a velha senhora, a estranha sopa, a sua quase nudez e de Alex completamente gratuita, o filho de dedos faltantes, as intenções dele de vendê-la para a Espanha, a velha estrada de Santos, o estranho desvio, o enfarto de Jiu-jiu, a batida na árvore e a velha sair quase que incólume de tudo. Caminhando com um leve mancar, na direção do mirante e o sol nascente a sua frente.
Alice engoliu secou e cuspiu areia e jurou vingança recitando um velho ditado Klingon. Um coelho parou perto da estrada e antes que um caminhão em alta velocidade sujasse o asfalto com as suas vísceras frescas e o pelo branquinho, Alice e Alex seguiram a direção em que o bicho correra, parecendo estranhamente atrasado para algum compromisso.


~~~
» No próximo episódio, Alice e Alex, após conhecerem o coelho branco, põem-se a caminho de uma estrada de tijolos amarelos.
» Anteriormente... A Balada Imprudente de Alice e Alex: A Invasão Chinesa - ep.02 [parte um]