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5 de mai. de 2026

'Os traidores do reino perdido', de Iasmim Assunção, na Feira da Cultura

 

Primeira obra do selo Cápsula Editora, o romance Os Traidores do Reino Perdido, de Iasmim Assunção, é destinada àqueles que buscam se perder em fantasias com cenários excêntricos, uma trama surpreendente, personagens cativantes e complexos, repletos de artimanhas e angústias.


“No reino perdido, ou você é o açougueiro,

ou você é o gado”.


Arizona Assunção é uma rebelde. Criada secretamente por Ethan Assunção — líder da facção que mata por poder, ouro e ossos — em túneis subterrâneos, os rebeldes usam Arizona como meio para o trono de Saafa, treinando-a para uma dupla função: a de uma estudante determinada a vencer a Competição Real para se tornar rainha de Saafa; e a de uma rebelde, desprovida de qualquer remorso e disposta a tudo que lhe dê o passe que os rebeldes a tantas décadas buscam para tomarem o reino. 

Do outro lado do rio, no meio da floresta que envolve a capital de Saafa, está a Academia Rossi, sede atual das fases da competição pelo trono que ocorre cada vez que um governante morre. Do lado de fora, o lugar se parece mais com uma prisão, com muros altos, cinzas e fortalecidos, que protegem a antiga mansão que se transformou na Academia. O prêmio para o único sobrevivente é todo o poder de Saafa concentrado em suas mãos. 

Arizona possui um poder que a favorece: ela suga a energia vital de um ser vivo com apenas um toque, como uma ladra que usa suas vítimas para ficar com os seus poderes. Entre todos os jogadores de dezoito anos das Três Academias (Castellan, Enam e Rossi), os únicos páreos para Arizona são Caden Castellan, o arqueiro, e Niccolo Assunção, o envenenador. Caden tem um poder único: o de transformar qualquer objeto — e pessoas — em prata. Já Niccolo é o filho do falecido rei e da antiga rainha. Cria veneno com as próprias mãos, sendo imune a ele. Se Niccolo Assunção encostar em alguém, este estará ferrado. 

O reino de Saafa, como muitos territórios desde a Guerra, era dividido entre Letalis, Normais e rebeldes. Letalis denominava todos os nascidos das Árvores da Vida que possuíam forças sobrenaturais, capazes de transformá-los em máquinas imbatíveis. Foram eles que descobriram como transformar os ossos humanos em ouro e as consequências são de se imaginar: quando se tem poderes e é possível tornar-se rico, batalhas são inevitáveis. 

Com a ideia das Três Academias — criadas em Saafa — se espalhando para os outros reinos, aumentava a tensão: Letalis eram treinados para que somente um desses fosse capaz de matar legiões nas guerras que se sucederam à descoberta de que desossar Normais gerava riqueza.

Leis foram criadas para tentar trazer a paz; os ossos só poderiam ser usados se a causa da morte fosse natural. Mas nenhuma lei impediu que os rebeldes prosperassem com seus túneis escondidos debaixo da terra, funcionando como verdadeiros quartos de desossamento. Eles seriam capazes de qualquer coisa para alcançar o poder, e os Normais inválidos, sem poderes, eram os que mais facilmente garantiam isso. 

O palco está montado. É tudo diversão até que alguém mate e outro morra. Que comece o show de horrores!


Ficha técnica

Editor responsável: Rogers Silva
Revisão: Textifique Soluções em Textos
Preparação: Sinvaldo Júnior
Arte de capa: Bryan Fogaça Rosado
Diagramação: Alexandre Barbosa
Editora: Cápsula
Número de páginas: 232


Onde comprar?

No estande da Editora O Bule: dias 08 e 09 de maio, na Feira da Cultura, no Centro Municipal de Cultura (antigo Fórum) - Praça Prof. Jacy de Assis - s/n - Centro, Uberlândia - MG.


Quem é Iasmim Assunção? 

Iasmim Assunção, nascida e criada na cidade de Uberlândia (MG), teve a Literatura, a Música e o Cinema sempre presentes em sua casa como instrumento de formação, por isso suas referências culturais são a maior herança dos seus pais e tios. Incentivada desde criança, se apaixonou por livros graças à aventura de adentrar universos desconhecidos. Quando escreveu sua primeira ficção, cursando o oitavo ano do Ensino Fundamental, foi motivada pelo entusiasmo de compartilhá-la com as amigas.

Quando a humanidade estava sofrendo sua pior pandemia desde a Peste Bubônica, escreveu o romance “Os Traidores do Reino Perdido” na esperança de interpretar aquilo que estava vivenciando. Três anos depois, o sonho de publicar um livro – em um país onde não existe um mercado fácil para escritores independentes – se concretizou, através da verba municipal que recebeu ao remeter seu projeto para o Programa Municipal de Incentivo à Cultura de Uberlândia (PMIC).

Atualmente Iasmim Assunção vive em Portugal e cursa Relações Internacionais na Universidade de Coimbra.

30 de dez. de 2021

‘Psicopata Americano’ – uma entrega à vontade de matar

 

Por Iasmim Assunção 

Para Platão, a catarse (do grego kátharsis) aborda a libertação da alma por meio do desprezo do prazer para que o conhecimento verdadeiro seja alcançado por um indivíduo. Já para Aristóteles, a sequela de uma tragédia alivia a alma – também pode ser destacada a expressão “renova a essência” – ao suscitar emoções como terror e piedade. Tendo isso em conta, o filme de horror sátiro Psicopata Americano propõe uma discussão sobre a aguda falta de empatia do protagonista, que se desenvolve em um processo contrário à eliminação de sentimentos ruins através da catarse. 

A obra cinematográfica, dirigida por Mary Harron e estrelada por Christian Bale,  lançada no ano 2000, apresenta em seus minutos iniciais um traço significativo do perfil psicológico de Patrick Bateman, o personagem principal. Em uma cena demorada e detalhada, Patrick dialoga com si mesmo acerca de sua rotina matinal incluindo a preocupação com sua imagem para que se encaixe na normalidade: ele usa máscaras faciais que combatem as marcas do envelhecimento – apesar de estar ainda em seus 27 anos – e pratica exercícios para manter a formosura de seu corpo. O personagem se esconde sob a aparência para que não deixe transparecer que não possui qualquer emoção identificável de um ser social.  

Ex-aluno da prestigiada universidade Harvard e filho do dono da empresa na qual trabalha, Patrick está em posição de privilégio. Branco, rico, bonito e jovem, que em um primeiro momento critica a hipocrisia de seus colegas em seus discursos – usualmente antissemitas e racistas – sobre problemas sociais, mas o próprio assume uma postura desagradável contra as mulheres. Patrick Bateman é consumido por uma idealização de sua superioridade, alimentada pelos ambientes socioeconômicos que frequenta. Seus colegas estão em constante competição pelo materialismo e por exclusividade, então se relacionam por conveniência; o protagonista não é diferente em sua busca agressiva de ter mais e do melhor. Além disso, Patrick se posiciona como dominante sobre as mulheres durante suas relações íntimas – nas quais aproveita para ficar se olhando no espelho – , já que considera o sexo feminino superficial. Ele até mesmo tem uma noiva, tipificada como patricinha e um acessório, que o trai e é traída.  

Durante o desenvolvimento contextual da narrativa, Patrick admite que a façanha que sustentava para aparentar sanidade está resvalando. Enquanto no início do filme Patrick achava vantajoso ser confundido por outra pessoa – tendo em mente que até ali ele era capaz de conduzir suas obrigações sociais –, no meio da trama o protagonista fica zangado ao ser tratado por Paul Allen, um funcionário com maior poder aquisitivo, como se fosse outro homem. Ressalta-se que em múltiplas vezes os personagens masculinos, burgueses na hierarquia da empresa, são indicados como cópias uns dos outros. 

Patrick – movido pela inveja e conhecimento de sua incapacidade de sentir remorso –, então, planeja o primeiro assassinato do filme, cena com a serra elétrica que se tornou uma icônica releitura de Psicose do Hitchcock. O sonho americano – “uma variedade de ideais de liberdade incluindo a chance para prosperidade e maior mobilidade social para as famílias, alcançada através de trabalho duro” –, estereotipado inicialmente em Patrick Bateman, se corrompeu com seu instinto violento e sua arrogância, incorporados durante o assassinato de Paul Allen, em que Patrick dialogava sobre música clássica e usava uma capa de plástico para proteger seu terno do sangue jorrado. 

Nos momentos seguintes, o desaparecimento de um homem influente como Paul Allen passa a ser investigado por um detetive contratado por sua namorada. O detetive suspeita principalmente das contradições na linha cronológica que Patrick usa para se esquivar, mas ele não possui fácil acesso a Patrick para fazer seu trabalho adequadamente. 

Conforme se entrega à vontade de matar, Patrick esconde os corpos destroçados de suas vítimas, majoritariamente prostitutas, no armário do apartamento sofisticado de Paul Allen. O personagem principal comete execuções em uma sequência descontrolada até que um erro o leva a ser perseguido pela polícia; admitindo ser um homem doente, Patrick confessa em prantos seus crimes à caixa postal de seu advogado. Cortando para o dia seguinte, em que Patrick acorda confuso por não ter sido capturado, ele retorna ao apartamento de Paul Allen e encontra uma surpresa: o lugar, limpo, sendo apresentado por uma corretora para uma família interessada em comprá-lo.  

O Psicopata Americano, preocupado consigo mesmo, encontra seu advogado em uma confraternização junto aos homens da empresa, já que nesta as mulheres eram apenas secretárias. O advogado acreditava que a mensagem de voz fora apenas uma brincadeira, considerando que almoçou com Paul Allen em uma viagem a Londres, onde Paul estava morando. O advogado confunde a identidade de Bateman com o próprio em sua frente, chamando-o de covarde, incapaz de ser um assassino. 

É dessa forma que o espectador capta a fantasia criada pelo enlouquecido Patrick Bateman. O filme termina assim como começou, com seus desejos violentos e desenhos macabros em seu diário. A confissão do psicopata nunca provocou uma catarse.

28 de out. de 2021

Sobre a Escola do Bem e do Mal

Por Iasmim Assunção

A Escola do Bem e do Mal é um romance de fantasia que se mistura aos históricos contos de fadas e famosos personagens infantis. O primeiro livro da coleção escrita pelo autor e cineasta americano, Soman Chainani, foi publicado em maio de 2013. A narrativa acompanha duas melhores amigas que foram escolhidas para frequentarem as Escolas do Bem ou do Mal, onde estudam para se tornarem heroínas ou vilãs.

A cada quatro anos, dois jovens (um bem-comportado e outro malcriado) do povoado de Galvadon são levados pelo Diretor para a Escola do Bem e do Mal. No entanto, apesar de desaparecerem sem deixarem rastros, anos mais tarde os jovens se tornam parte dos contos de fadas dos livros ilustrados que surgem magicamente na livraria do Sr. Deauville e são distribuídos à toda cidade.  

Em Gavaldon todos acreditam nessas lendas, o que manteve as histórias vivas durante gerações. Isso inclui Sophie, com seu vestido cor-de-rosa e sapatos de cristais, que sonha em ser admitida na Escola do Bem para se tornar uma princesa. Já Agatha, sua melhor amiga, não consegue imaginar como uma cidade inteira acredita em tanta baboseira. Agatha é vista pelo povoado como uma bruxa horrenda, por ser tão estranha, usar roupas desengonçadas e viver com sua mãe e um gato enrugado em um cemitério. Evidentemente, a aventura começa quando ambas são sequestradas pelo Diretor, mas caem nas Escolas erradas. Com essa peça pregada, a obstinada Agatha precisa resgatar a vaidosa e frívola Sophie da Escola do Mal para fugirem e retornarem a Gavaldon.

Há problemáticas interessantes para serem discutidas em A Escola do Bem e do Mal. Na Escola do Bem, as princesas têm o papel único de serem belas e praticarem supostas Boas Ações enquanto esperam indefesas que seus cavalheiros as salvem. Há muitas relações construídas por causa de interesses materiais e de status, principalmente após o ingresso de Tedros Pendragon, futuro rei do mais famoso reino – Camelot –, na Escola do Bem. Já na Escola do Mal, os vilões procuram por um propósito maior e com uma finalidade. Apesar de não simpatizarem com os heróis, eles são ensinados a verem a Escola do Bem como necessária para manter o equilíbrio do universo mágico. Na Escola do Mal, os alunos possuem aulas de Enfeiamento, entre tantas, e aprendem a se livrarem das aparências que contribuem para a futilidade. 

Ainda assim, Agatha – que passou a vida recebendo ofensas por conta de seus modos e sua falta de beleza, portanto levando-a acreditar que nunca poderia ser formosa – tem um desenvolvimento (após muita relutância) que busca a confiança na personagem rodeada por brilhosos cabelos louros e corpos suntuosos de meninas na Escola do Bem. Isso ocorre enquanto Sophie usa todos os encontros entre os Sempre e Nunca (como são chamados, respectivamente, os alunos da Escola do Bem e Escola do Mal) para ser notada por Tedros, o príncipe que deveria salvá-la. Sophie permanece desesperada para que Agatha passe a frequentar o lugar a que realmente pertence, e não a Escola que deveria ser sua.

Apesar de alguns aspectos sobre a trama parecerem óbvios, Soman Chainani surpreende com as ações que determinam qual lado o personagem está. O autor se aprofunda igualmente em ambos os pontos de vista das histórias para entender suas motivações. Com isso, os leitores podem ficar indecisos quando torcer para o Bem ou para o Mal. O autor procurou se distanciar da monotonicidade, e criou uma linha tênue para que o leitor tire suas conclusões sobre o certo ou errado, moral ou antiético.   

Um destaque para os personagens secundários tão cativantes. Na Escola do Bem, Tedros Pendragon procura por uma princesa que vê além de suas posses como príncipe de Camelot. Mesmo sendo cabeça-dura, agindo antes de pensar e sentindo uma necessidade enorme de parecer-se inabalável, Tedros é um menino sensível, confiante e conquista eventualmente a empatia dos leitores. Já na Escola do Mal, há o coven de três bruxas assustadoras e icônicas, maleficamente divertidas e essenciais em disputas que ameaçam as cabeças de todos. Além disso, o personagem mais querido do fandom: Hort, o Nunca astuto, mas pateta e inexplicavelmente apaixonado por Sophie. Hort tem os cabelos negros, olhos marrons e queixo pontudo, e é descrito para se assemelhar com uma doninha.

A Escola do Bem e do Mal é mais uma aposta da plataforma de streaming Netflix, que está dando a devida atenção para adaptações. O elenco do filme que será lançado no primeiro semestre de 2022 conta com Sophia Anne Caruso interpretando Sophie, Sofia Wylie como Agatha, Jamie Flatters como o príncipe de Camelot, e outros nomes de peso: Charlize Theron, Laurence Fishburne, Kerry Washington. Além desses, o ator Kit Young, que interpreta Jesper Fahey em uma das maiores séries da Netflix (a também adaptação Shadow and Bone) está escalado em The School for Good and Evil, assim como Earl Cave (filho do lendário Nick Cave, estrela do rock), que viverá o Hort.


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Ou Pix

16 de mai. de 2021

‘A metamorfose’ e seu retrato de uma condição desumana

 Por Iasmim Assunção

Escrita em apenas 20 dias, A metamorfose, do escritor austro-húngaro Franz Kafka, se tornou uma obra impactante na literatura universal. Finalizado em novembro de 1912, foi publicada em 1915.

A personagem principal é Gregor Samsa, um caixeiro viajante (profissão desgastante devido a inúmeras viagens) que trabalhava para sustentar a família e pagar as dívidas de seu pai, aposentado pela idade. Sem uma explicação racional para essa transformação, Gregor acorda metamorfoseado em um gigantesco inseto monstruoso no início da novela.

A preocupação do protagonista, assim que acordou e ao perceber que era um grande inseto, era ter que faltar ao trabalho, já que antes nunca havia perdido um dia. Apesar de não ser valorizado, a força de trabalho de Gregor era explorada e seu patrão foi o primeiro a ir atrás dele ainda na mesma manhã, por acreditar que Gregor não estava tendo compromisso com o cargo.

Gregor, lutando para se equilibrar nas pernas finas e se acostumar ao corpo grande e à cabeça sensível, consegue sair do quarto – agindo naturalmente – para dar uma explicação ao chefe e à sua família. Todos se assustam com a situação de Gregor; a família sente repulsa e o patrão corre quando ele tenta se comunicar, mas como sua fala também é afetada pela transformação, solta apenas ruídos.

Conforme o tempo passa, Gregor se acostuma e permanece, sob os móveis, recluso no quarto. Além disso, a família não permitia o contato de Gregor com o exterior. Os pais o enxergavam apenas sob o ponto de vista de sua função (sustentar a casa), e depois da transformação do filho, o pai foi obrigado a trabalhar novamente. Greta, sua irmã, era quem levava comida, limpava o quarto de Gregor e lhe mostrava alguma simpatia. Inclusive, sugere retirar os móveis para lhe dar mais espaço no quarto, mas ele não permite pois não quer perder o resto que tinha que o tornava humano.

A relação familiar muda da indiferença para o desprezo quando Gregor sai do quarto por ter sido atraído pela irmã tocando piano na sala e acaba assustando os inquilinos da casa, que geravam um dinheiro a mais para a família. A partir daí, Gregor é visto como um parasita, um peso, além de passar a ser tratado como um animal. Os inquilinos rompem o contrato de aluguel e Greta propõe que os pais se livrem de vez de Gregor (retrato da hipocrisia da família, que antes dependia do filho). Nesse momento, Gregor já habitava um quarto sujo, mas podia andar por paredes e pelo teto. A leitura se torna agoniante nos momentos em que Gregor finalmente age como o inseto que se tornou.

Oprimido enquanto indivíduo, já que as viagens constantes o afastavam das relações sociais, a transformação de Gregor em um inseto representa sua vida insignificante, como o animal em que pisamos em cima. Com a metamorfose, Gregor passa a perceber os relacionamentos em seus arredores.

A novela reflete sobre a identidade individual, e como uma pessoa escolhe viver a vida ou é forçado, nesse caso, por necessidades financeiras. Gregor era infeliz em seu serviço e sem amigos, mas não tinha outra opção, pois precisava trabalhar para ganhar dinheiro. Enquanto se tornava um inseto, ele não se desesperou justamente porque se viu livre das obrigações sociais, mas antes mesmo disso ele não possuía qualquer personalidade.

Essa novela de poucas páginas prende o leitor, que espera esperançoso por uma reviravolta na vida torturante de Gregor. Apesar de despertar sentimentos aflitivos, é uma obra que traz uma reflexão sobre dignidade, respeito, a importância de se diferenciar como individuo e até sobre a violação de direitos humanos. É um clássico em que, cada vez que é relido, se percebem novas nuances.


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12 de abr. de 2021

'A revolução dos bichos' e seu diálogo com a realidade

Por Iasmim Assunção

A revolução dos bichos é um romance satírico escrito pelo inglês George Orwell e publicado em 1945. Orwell escreveu uma obra que dá margem a muitas interpretações e reflexões sobre a realidade.

No começo do livro, indignados por sofrerem com a opressão, os animais da Granja do Solar se reúnem para organizar uma revolução liderada por Major Porco, seguindo seus ideais (todos os animais seriam iguais e nenhum deveria se assemelhar aos humanos, pois estes eram os inimigos, já que não buscavam interesses que não os deles próprios). O Major se importava em transmitir a mensagem para que futuras gerações de animais da fazenda onde viviam continuassem lutando até a vitória. Ainda no início, o Major Porco morre e Snowball fica em seu lugar como administrador, mas nunca superior ou privilegiado pelo cargo. Snowball, também um porco, tenta se portar como era o Major, com um ar sábio e benevolente. Ele foi o responsável por criar mandamentos relacionados à ética, como: nenhum animal dormiria em camas, nenhum animal consumiria álcool e nenhum animal andaria sobre dois pés como faziam os humanos.

Associando os personagens com suas representações reais, o discurso do Major se relaciona com as propostas lançadas por Vladimir Lenin, um político da União Soviética. Nessas propostas, Lenin lança teses que se opõem à Guerra Mundial, propõe que as terras sejam divididas nas mãos dos trabalhadores, e que todo o poder estaria na mão dos sovietes. Lenin seguia o socialismo científico, termo que se refere a uma sociedade que só alcançaria melhora nas condições de vida através de uma luta de classes dos proletariados.

Na obra de George Orwell, Snowball nunca conseguiu construir uma granja igualitária porque não foi administrador por muito tempo, pois foi traído por outro porco, Napoleão, que tomou o poder. Napoleão e seu parceiro, Garganta (que representa a mídia), desejavam persuadir os animais para aceitarem a dominação. Os animais na fazenda retratam como no capitalismo quem mais trabalha é quem menos ganha, e eles ainda eram negados de liberdade de expressão. 

Assim como na União Soviética, Josef Stalin ganhou o apoio da população através de discursos enganosos e, quando chegou ao poder, mudou completamente as propostas de Lenin e não construiu um governo socialista igualitário, mas investiu na indústria e no crescimento econômico. Stalin instalou um totalitarismo na URSS e uma ditadura da burocracia. Ele caçava e matava quem questionasse seu governo.

Os personagens de Orwell são marcantes pois retratam muito bem o que vemos na sociedade até nos dias de hoje. Mimosa, por exemplo, é um pônei que adora admirar a própria imagem refletida na água e se vende por torrões de açúcar e fitas escarlates para seu topete, enquanto outros animais estão em horário de trabalho. Ela claramente pertenceria a elite na nossa realidade.

A história é cheia de ironias em que podemos perceber o fracasso na tentativa de criar um sistema que preza pelo bem-estar de todos. Orwell julga a crença de que essa tentativa foi um passo grande em direção à formação de uma república inteiramente socialista. A obra alerta pede que reflitamos sobre líderes políticos “com motivos altruístas”, que podem acabar abusando dos cidadãos e restringindo a liberdade humana. Mesmo após sessenta anos, A revolução dos bichos é uma das maiores fábulas da literatura sobre as relações de poder e como ele está nas mãos de quem possui a influência para comandar os empregados que produzirão capital para a burguesia.


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13 de fev. de 2021

O universo genial de Julia Quinn: um pouco sobre o primeiro livro da coleção 'Os Rokesbys'

Por Iasmim Assunção

Bridgerton, nova série da Netflix, vem se popularizando cada vez mais. A produção já se tornou a maior série do serviço de streaming, com 82 milhões de telespectadores em seu primeiro mês de estreia. O roteiro é baseado nos nove livros de época da autora Julia Quinn, a coleção “The Bridgertons”. Cada livro conta a busca por amor dos oito irmãos Bridgerton, nomeados em ordem alfabética do A ao H, no século XIX; mas os livros não são na mesma ordem de nascimento deles. Além disso, o último se trata de uma coletânea de contos sobre os irmãos e seus respectivos pares, além de um capítulo extra sobre a matriarca Violet.

Julia começou a publicar sobre essa família a partir de 2000, se tornando então uma best seller. Apenas em 2018, publicado no Brasil pela Editora Arqueiro, conheceríamos os vizinhos dos Bridgertons, mas de uma geração anterior da família mais fértil da alta sociedade. Os Rokesbys se passa trinta anos antes do primeiro livro com Daphne Bridgerton, e nessa coleção podemos até ver os primeiros filhos de Violet e Edmund Bridgerton (Anthony, Benedict e Colin) crescendo e a família aumentando ano após ano.

Os Rokesbys são quatro irmãos e uma mulher: George é o mais velho, herdeiro do título. Então vem Edward e Andrew, um militar que foi lutar na guerra nos Estados Unidos e outro que estava na Marinha. Nicholas é o mais novo e o arteiro da família. Mary é a mulher Rokesby, mas não tem seu próprio livro.

No primeiro livro da coleção, acompanhamos George Rokesby e Billie Bridgerton. Billie também é a mais velha dos irmãos Bridgerton, mas por ser mulher, não será viscondessa. Billie não se comporta como uma dama deveria: a moça pratica tiro, caça, pesca, usa calças e até cuida das colheitas. É extrovertida, corajosa e adora aventuras perigosas! Para Billie, é ela quem deveria cuidar das propriedades da família, porque era seu sonho. Ela não gostava nem um pouco da ideia de dar seu sonho ao irmão que ajudara a trocar as fraldas, Edmund (que mais tarde seria o pai das crianças ordenadas alfabeticamente).

Já George era diferente, se sentia assim. Ele era reservado, tímido, apesar de presunçoso, e bem mais velho do que o próximo irmão, Edward. George tinha responsabilidades desde o dia em que nascera, mas as odiava. Ele se sentia impotente vendo os irmãos indo para a guerra, sendo que ele não poderia se arriscar para honrar seu país. Billie pensava nele como arrogante e irritante, mas porque não o conhecia como conhecia o bem-humorado Edward ou o simpático Andrew. Era claro para todos que Billie um dia se casaria com um Rokesby, por suas famílias serem sempre tão unidas, e ela aceitara seu destino. Mas esse Rokesby devia ser Edward.

Quando Billie vai salvar um gato do telhado de sua casa e acaba ficando presa por horas, ela não desiste de gritar por ajuda. Para sua infelicidade, o homem que apareceu com um sorriso debochado no rosto e os braços cruzados era George, quem ela odiava. A história entre eles começa quando George deixa a escada cair ao tentar salvar a moça e acaba ficando preso no telhado junto a ela. No entanto, Billie torceu o próprio pé ao escalar o telhado antes de George chegar, e o pequeno acidente levou os dois a passarem muito tempo juntos, pois ele é quem teve de carregá-la após finalmente descerem do topo da casa, mesmo que nenhum sentisse a mínima vontade de conversar um com o outro.

Billie não é delicada e cheia de formalidades, o que deixa os diálogos entre ela e George cheios de farpas. Julia Quinn, como sempre, consegue que nos apaixonemos por qualquer personagem de seu desejo. Billie e George são teimosos, têm a cabeça-dura e não admitem para si mesmos que apreciam a companhia do outro. Não poderiam, depois de tantos anos dando respostas ríspidas. George via a menina fora dos padrões como algum tipo de aberração, mesmo que se importasse com ela o suficiente para não usar o adjetivo no pior significado possível.

Entre os leitores, há uma comparação entre Billie Bridgerton e Eloise Bridgerton, sua sobrinha, e George Rokesby e Anthony Bridgerton. Porém, cada personagem é único. Diferente de Anthony, George não era o libertino que sabia falar com mulheres. Depois que se abre, o mais velho dos Rokesbys é o mais fofo dos homens. Ainda que haja uma diferença de trinta anos entre as histórias, Billie conseguiu ser mais livre e singular do que Eloise. Se a alta sociedade fez alguma coisa, foi se tornar mais rigorosa. Além de que Billie vivia no campo e nunca fora uma debutante na capital.

Como o destino pode ser um tanto inusitado, George e Billie tendem a surpreender a todos e eles mesmos quando começam a nutrir sentimentos um pelo outro. Começa a surgir uma relação de cumplicidade quando os dois deixam o orgulho de lado.

Foi uma surpresa para os fãs experimentar um gostinho dos Bridgertons passados, mas os novos livros são tão divertidos quanto. Vemos até a origem do famoso taco da morte de Anthony Bridgerton em Uma dama fora dos padrões. E para quem sentir saudade dos irmãos que já conhecemos, há várias cenas do trio beligerante ABC nos livros três e quatro dos Rokesbys. Exceto que Anthony, Benedict e Colin ainda são pequeninos, mas a maioria das cenas traz a essência dos adultos: Anthony sentado em cima da cabeça de Benedict, Benedict revidando e usando a altura em sua vantagem, e Violet Bridgerton reclamando que o Colin bebê não para de comer!

Na primeira página de Uma dama fora dos padrões, Julia Quinn dá aos leitores dez razões para lê-lo. E o livro atende às expectativas dos romances de época tão adorados, carregados de momentos emocionantes e instigantes, que nos fazem prender o ar. E momentos que nos fazem rir com os costumes da família Rokesby que não conhecíamos antes: como os jantares com todos os Bridgertons aos finais de semana; ou Andrew, machucado da batalha e se recuperando em casa, incomodando George e Billie e aproximando os dois sem que percebessem.

Os laços de família construídos pela autora são encantadores e trazem um acréscimo a mais para a história do que o foco completamente nos protagonistas.


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19 de dez. de 2020

“As mil partes do meu coração”, com ou sem Merit

Por Iasmim Assunção

As mil partes do meu coração é um romance publicado em outubro de 2018 pela editora Record. Colleen Hoover, a autora, escreveu best-sellers n°1 do New York Times, e seus romances se encaixam no gênero jovem adulto e/ou novos adulto. Inspirada por uma letra de música, “decide what to be and go be it” (decida o que quer ser e seja), Colleen escreveu sua primeira novela, Métrica, mas inicialmente não tinha a intenção de publicar. Ela vive com o marido e os três filhos onde cresceu, no Texas, e formou em Serviços Sociais, além de trabalhar nos Serviços de Proteção a Crianças.

As mil partes do meu coração conta a história de Merit e sua família peculiar. Merit Voss não vive em uma casa normal. Com três irmãos, Merit mora em uma antiga igreja reformada, mesmo o pai sendo ateu. Além disso, a mãe, curada de um câncer, mora no porão da igreja e a nova esposa do pai de Merit no andar de cima. Ambas se chamam Victória, e a ex-amante era enfermeira da esposa. Aliás, um dos irmãos de Merit (a criança mais nova) é fruto do relacionamento do pai e da nova esposa, que é fortemente odiada pelos enteados mais velhos. Merit se sente uma estranha na família, principalmente porque coleciona segredos de todos ali. Ela também coleciona troféus por cada vez que passou por uma situação humilhante ou falhou.  

Mesmo com a casa cheia, outros dois personagens importantes passam a morar com a família disfuncional: Luck, o irmão da ex-amante, e Sagan. Merit esperava que o primeiro acréscimo, Luck, um garoto excêntrico de cabelos verdes, melhoraria a situação familiar; mas Luck apenas traz mais problemas. Ele tem uma relação quase que inexistente  com a irmã mais velha e ficou anos sozinho, viajando pelo mundo. Sagan é misterioso, tem o cabelo preto meio picotado e bagunçado, é tatuado demais por ser tão novo. Ele também é o namorado da irmã gêmea de Merit, Honor. Por isso, Merit faz de tudo para lutar contra seus sentimentos assustadores por Sagan.

Desde o início, Merit deseja ser mais parecida fisicamente com a irmã gêmea, mas nunca faz algo para mudar. Apesar disso, Merit é quem mais julga a gêmea. As duas nunca foram próximas, pois Honor gosta de passar seu tempo em hospitais, se apaixonando por pacientes terminais. Mesmo acreditando que Honor é problemática por isso, Merit não comenta sobre o assunto porque acredita que a irmã a odeia. Em certo ponto, Merit larga todas suas responsabilidades, inclusive a escola, e até mesmo fica dias sem dizer nada, só para ver se alguém notaria. Ela se sente deixada de lado e não amada. A falta de comunicação é uma parte importante da história, porque Merit é obrigada a lutar contra um turbilhão de emoções sozinha. Merit não tem uma boa relação com ninguém, mas todos da família despejam seus problemas sobre ela. Está cansada disso, e a ponto de explodir.

É normal para adolescentes reagirem a tudo o que está em sua volta e não terem a maturidade necessária para lidar com uma situação, por isso a saúde mental nessa faixa etária é ainda mais estigmatizada. A protagonista da história é cheia de ressentimentos e atitudes alinhadas com suas emoções. Ela guarda tudo para si e, como é quem narra a história, o leitor consegue entendê-la muito bem, mesmo não concordando com suas ações. Aliás, o livro é cheio dessas atitudes adolescentes inconsequentes que nos deixam com raiva, mas, no caso de Merit, é fácil perceber que tudo estava ligado à falta de apoio e estrutura. 

Não é só com Merit que atitudes depressivas são abordadas. A mãe de Merit tem uma fobia social e não sai do porão, mas se arruma sempre que seu ex marido desce para vê-la. 

Desde o início do romance, Sagan desviava de qualquer pergunta e era um tanto distante. Por isso, é difícil gostar dele no começo, pois conhecemos muito pouco de sua personalidade; mas ele é um personagem que também tem um passado marcante, apesar da demora para desenvolver sua história. A autora fez isso porque, mesmo Sagan sendo importante para as autodescobertas de Merit, a protagonista não poderia ficar com alguém se não estivesse bem consigo mesma. A história de sobrevivência de Luck também é essencial para Merit admitir que precisa de ajuda. Ele foi um apoio, mostrou a ela que estava tudo bem aceitar suas diferenças.

O cenário se resume à antiga igreja/casa, porque a história é realmente sobre interações. Por a família ser tão reclusa e singular, uma imagem ruim é reforçada sobre eles para os vizinhos, mas as aparências não começam a descrever a realidade conturbada das pessoas que vivem na mesma casa mas não se conhecem. Os problemas psicológicos de cada um dos personagens não vão se curar sozinhos,  por isso a autora gera tantas discussões no romance. Os acontecimentos trabalham para chegar ao foco principal, que é o perdão, a superação e o desenvolvimento pessoal. Colleen tenta emocionar o leitor e abrir nossos olhos para a beleza da vida se escolhermos viver corretamente e não irmos pela solução mais fácil.


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14 de nov. de 2020

‘O Grande Gatsby’ e a maléfica abastança dos loucos anos 1920


Por Iasmim Assunção

Os anos 1920 é uma década famosa por sua prosperidade e liberdade, pelo entusiasmo das pessoas com a vida noturna, pelo jazz, pela dança Charleston. As mulheres começaram a ter mais liberdade na moda, passando maquiagem, contornando os lábios para se parecerem com um arco de cupido. Elas também usavam vestidos mais curtos, mais leves, de seda. Além disso, a Chanel, uma empresa especializada em alta costura, bens de luxo e acessórios de moda se instalou nos Estados Unidos. As pessoas frequentavam os cinematógrafos, que exibiam filmes de Hollywood. É claro que essa é a parte elegante dos loucos anos 20 do século XX, mas ainda existiam assassinos em série e a Ku Klux Klan (KKK). 

Em O Grande Gatsby, temos toda a riqueza dos anos 1920 para preencher o vazio que a guerra deixou. O livro é narrado por Nick Carraway, que se muda para Nova Iorque para tentar a sorte em Wall Street. Nick passa a conviver com sua prima Daisy, que faz parte da aristocracia junto com seu marido.

Ao lado da simples casa de Nick vive o misterioso Jay Gatsby, famoso por suas festas em sua mansão. Os rumores sobre ele correm soltos. Jay é um personagem bastante intenso e complexo, mas conhece suas raízes e de onde veio. Alguns dos moradores de Nova Iorque dizem que nunca viram Gatsby, nem mesmo nas festividades em sua própria casa, por isso ele não existe. Outros dizem que Gatsby era um militar; outros, que ele era um assassino ou descendente de alemães, mas nunca a verdade foi revelada sobre Gatsby e sua fortuna.

Até que Nick recebe um convite escrito à mão por Jay o convidando para uma de suas festas, pois este estava sozinho e cercado por pessoas fúteis. Com o tempo, Nick vai conhecendo cada vez mais Jay Gatsby e deixando de acreditar nos mitos sobre ele, o que o leva a descobrir que Gatsby é apaixonado por Daisy. Assim, por meio de Nick, o reencontro entre Gatsby e Daisy gera uma série de consequências, principalmente porque Daisy é casada.

O marido dela, Tom, é um dos piores personagens, pois é preconceituoso, agressivo e arrogante, mas Daisy também não é tão boa assim. Ela é vazia e mimada, e não quis Gatsby quando ele não tinha dinheiro. Daisy também tem uma filha com o marido, e esse pode ser um dos motivos pelo qual nunca deixaria Tom, já que é uma opção segura. E fica claro ao decorrer da história: ela não vai escolher Gatsby.

O romance deixa claro as loucuras que um pode fazer por amor, por isso é um livro tão trágico. O autor, por meio do romance de Gatsby e Daisy, critica a riqueza, as festas, os interesses por causa do status de uma pessoa. Além de Daisy, Gatsby também não sabe amar. Ele conseguiu todo aquele dinheiro com um único objetivo, e é assim que tenta reconquistar sua amada com os meios errados.

É curioso que Nick, mesmo sendo o narrador, não é o protagonista. Ele é adorável, mas é apenas um observador. A história contada sobre Nick é apenas a que ele desejava trabalhar na grande cidade da maçã, porque era alguém sem nada que o elevasse na sociedade em que vive. Porém, o rico estilo de vida do amigo acaba afetando-o. Nick cria uma obsessão sobre a figura de Gatsby e precisa concluir a trama de Jay e sua prima.

O romance foi publicado por F. Scott Fitzgerald em 1925 com a intenção de criticar o “sonho americano” e o caos surgido após a Primeira Guerra Mundial. O “sonho americano” é uma expressão usada para representar o alcance do sucesso absoluto, mas apenas para os moradores do país. Isso acontece porque eram os Estados Unidos quem abasteciam o resto do mundo em tempos de guerra, pois estavam aumentando sua produção e se preocupavam com uma revolução proletária na Europa. No entanto, no ano de 1925 houve uma crise de superprodução: a economia europeia tinha se reerguido e concorria com os Estados Unidos, que tinham os estoques cheios. Assim, em 1929, essa prosperidade dos anos 1920 chegou ao fim com uma crise no sistema capitalista e um fantasma de depressão assombrava o povo americano.

Além do livro, há uma adaptação cinematográfica de O Grande Gatsby. O filme é estrelado por Leonardo DiCaprio e por Tobey Maguire. O cenário, os atores, as locações e os figurinos são simplesmente perfeitos, e a trilha sonora leva músicas atuais para os anos 1920.


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11 de out. de 2020

‘Amor & Gelato’ – Uma história bem italiana

Por Iasmim Assunção

Amor & Gelato foi publicado no Brasil pela editora Intrínseca em julho de 2017. A autora, Jenna Evans Welch, passou sua adolescência na Itália, passeando de scooter e tomando mais gelato do que deveria. Hoje ela vive nos Estados Unidos, em Salt Lake City, com o marido e o filho.

O romance conta a história de Carolina, que fez uma promessa a sua falecida mãe de encontrar seu pai. Lina ainda está abalada com a morte da mãe e não fica nada feliz em deixar os Estados Unidos para morar com um cara estranho, ainda que fosse na Itália. No primeiro dia que passa em Florença, já quer ir embora. Howard, o cara estranho, é o administrador de um cemitério de soldados da Segunda Guerra Mundial que recebe constantes visitas, e morar em uma casa rodeada por túmulos não deixa Lina contente.

Assim que Carolina chega em sua nova moradia, a assistente de Howard, que também é uma antiga amiga da mãe de Lina, entrega um diário para a garota. O diário pertencia a mãe de Lina e conta a história da falecida mulher enquanto morou em Florença. Com relutância no início, Carolina embarca na aventura para saber mais sobre o que levou ao trágico final de sua mãe com o homem que amava.

Em uma de suas corridas matinais pela propriedade, Carolina conhece Ren, apelido para Lorenzo, seu vizinho que mora em uma casa de doces. Antes de receber o diário, Lina não estava interessada em aproveitar as belezas arquitetônicas, mas com o suporte de Ren, os dois vão recriando a trajetória da mãe de Carolina em Florença enquanto tentam desvendar as milhares de perguntas que surgem conforme leem o diário. Howard havia matriculado a garota na escola, no caso de ela querer ficar mais do que só um verão. É por isso que Ren já tinha ouvido sobre Lina, pois todos comentavam a chegada de uma nova garota na escola. Assim, Ren ajuda Lina a se enturmar com seus colegas de classe em festas de colegial italiano. Daí nasce uma amizade divertida entre Lina e Ren.

O livro também gira em torno dos dois possíveis pretendentes que dividem o coração de Lina, mas a parte do mistério sobre a mãe e a verdadeira paternidade de Carolina é mais interessante, pois conforme ela lê o diário, os leitores também leem fragmentos dele. Ren é um menino muito fofo e está sempre apoiando Lina, mas não há uma química significativa entre eles. Era uma boa amizade que foi arruinada com a necessidade de enfiar romance em tudo.

Ainda há Thomas, um intercambista britânico que emana “bad boy vibes” e tinha tudo para ser um dos melhores personagens, com seus cabelos escuros e olhos azuis. Lina descreve Thomas como o menino mais lindo que já vira, mas a conexão entre eles é ainda pior.

Enfim, trata-se de uma boa história, mas com uma protagonista fraca como personagem. Lina não é divertida ou sarcástica, não tem uma personalidade forte, mas também não é tímida e quietinha. Ela é uma protagonista que seria secundária em qualquer outra história. Apesar de termos que considerar a morte de sua mãe, Lina é bem insuportável. Não consegue ter uma conversa com Howard para perguntar sobre o passado dele e de sua mãe; na verdade, ela foge dessa conversa e apenas lê o diário porque tem medo de ser enganada por um estranho que – convenhamos – é o melhor personagem. Lina tira conclusões precipitadas por causa da escrita (aliás, não existiria história sem esse diário) e ignora o homem que foi simpático e compreensivo desde o começo.

Uma coisa realmente interessante no romance é o cenário, porque, quem não gostaria de ir para a Itália? Mesmo que seja apenas na imaginação... A descrição que Jenna faz sobre as artes, as histórias culturais e os monumentos de Florença faz qualquer leitor se sentir naquele país. Nunca fiquei com tanta vontade de comer pizza e tomar um gelato. Como o livro mesmo diz: as pessoas vão à Itália por vários motivos, mas ficam por dois: amor & gelato. O romance traz muito da culturaitaliana de Florença. 

Apesar de tudo, é um livro leve e rápido, e eu leria apenas para desvendar os questionamentos do passado da mãe de Carolina. Clichês jovens são clássicos por uma razão: a fórmula criada para eles funciona. Se uma autora de romance adolescente quer fugir dessa fórmula, deve pensar muito bem para fazê-lo funcionar.


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10 de set. de 2020

Como fogo iluminando o caminho

Por Iasmim Assunção

O romance Carry On: Ascensão e Queda de Simon Snow foi publicado no dia 28 de junho de 2016 pela editora Novo Século. A autora norte-americana Rainbow Rowell trabalha com livros para jovens-adultos e já recebeu vários elogios da crítica com seus best-sellers Eleanor & Park,  Fangirl e Carry On, que possui uma continuação chamada Wayward Son. Carry On nos apresenta o bruxo Simon Snow em sua jornada fantástica de “se sacrificar para salvar o mundo mágico” (bota aspas nisso).

Simon Snow estuda na Escola de Magia de Watford, na Inglaterra. Simon é o Escolhido, de acordo com profecias, e precisa salvar o mundo mágico, mesmo sendo tão desastrado a ponto de não conseguir controlar sua própria varinha. Uma entidade sinistra, chamada Insípidium, ronda por aí usando o rosto de Simon, e criando buracos negros ao redor do mundo, sugando a magia do mapa destes locais chamados de “zonas mortas”.

Ainda por cima, Simon precisa investigar o paradeiro de seu colega de quarto, inteligente e poderoso arqui-inimigo, Baz Pitch. Simon jura que Baz está armando algo, já que este prometeu fazer do último ano de Simon na Escola de Magia um inferno, começando com a tentativa de roubar sua namorada. Simon flagrou Baz e Agatha de mãos dadas no bosque, mas achava que não tinha o direito de terminar com Agatha, pois eles estavam destinados a ficarem juntos se Simon sobrevivesse aos ataques do Insípidium e à Escola de Magia. Os dias vão se passando, e Simon, assim como sua melhor amiga Penélope e sua namorada Agatha, ficam desnorteados com o sumiço de Baz.

Até que um fenômeno que só ocorre a cada 20 anos traz de volta o espírito da antiga diretora da Escola de Magia de Watford, que também é mãe de Baz. A mãe de Baz não encontra seu filho, até então desaparecido, então usa o colega de quarto de Baz, Simon Snow, para passar a mensagem de que seu assassino está a solta e precisa ser encontrado para que seu espírito encontre paz. Os mistérios sobre Baz e a tal entidade sinistra vão se desenrolando ao decorrer da história e envolvem o leitor.

Para resolver o mistério do assassinato da mãe de Baz, também relacionado com salvar o mundo mágico, Baz, Simon e Penélope precisam trabalhar juntos. Após o misterioso sumiço e a volta de Baz, eles precisam deixar suas desavenças de lado e se ajudarem, já que o mundo está contra o Simon, pois acham que O Escolhido é o próprio Insípidium, por terem o mesmo rosto. Para isso, Simon e Baz finalmente vão ter que lidar com a atração que sentem um pelo outro, ao mesmo tempo que salvam o mundo do monstro sugador de magia.

Carry On prende do começo ao final. No início, enquanto Baz está desaparecido, só conhecemos o personagem através de Simon, que não possui em seu vocabulário um único adjetivo bom para descrever aquele. Depois que o conhecemos, Baz é, para mim, simplesmente um dos melhores personagens literários. Ele é o famoso personagem sarcástico, de cabelos longos pretos, um maxilar definido e um passado triste, que deixa os leitores encantados com os flertes intensos. Já Penélope é a sensata e inteligente e está sempre com Simon. A amizade dos dois é super divertida e, graças a Deus, Rainbow não passou nem perto de um romance. O livro é narrado por vários personagens, o que é ótimo, mas ao mesmo tempo ruim, porque algumas narrações fazem o leitor querer revirar os olhos a cada minuto, como os da Agatha, a namorada sem graça de Simon. Apesar disso, é visível a personalidade de cada personagem em seus respectivos capítulos. Os diálogos são curtos, inteligentes, mas cheios de humor e intensidade, sobretudo quando está se aproximando o clímax da história.

A história de Simon e Baz surgiu de outro livro da mesma autora, Fangirl, no qual a personagem principal Cath escreve fanfictions sobre os personagens Simon e Baz, desconhecidos para os leitores. Rainbow Rowell decidiu escrever um livro próprio para Simon Snow (Glórias) depois da publicação de Fangirl.

Para os que acharam a sinopse parecida com uma certa saga de J. K. Rowling: foi intencional, justamente pela história ter surgido através de uma fanfic. Ainda assim, não, não é igual a Harry Potter. A leitura de Carry On é mais fluída, não é cheia de detalhes. Rainbow não está interessada em apresentar para nós cada pedaço e ser do mundo bruxo. O universo dos bruxos de Carry On não é tão complexo, como se eles tivessem poderes mas vivessem em um mundo normal. Uma das coisas que mais gosto neste romance são os feitiços, que são simplesmente hilários. Em um momento, até a letra de uma música do Queen, Bohemian Rhapsody, é usada como feitiço. A escola de Watford é como uma Hogwarts moderna, e ao decorrer do livro Carry On vão surgindo críticas aos livros de fantasias. Simon não é o herói, Penélope não é branca, Baz não é hétero e a Escola Watford não tem a estrutura de séculos passados, apesar de ser uma escola, em sua maioria, de alunos de famílias mágicas importantes.

Os mistérios entorno de cada personagem estão interligados, e eles se desenrolam gerando várias perguntas, o que deixa os leitores cheios de teorias e expectativas. O final não foi o que eu pensava, pois achei o desenvolvimento da história melhor do que a conclusão em si, principalmente porque alguns personagens tiveram um destino bem miserável. O romance não é a principal parte de Carry On, mas são as cenas de Simon e Baz que deixam os leitores soltando gritinhos e sorrindo como idiotas. Em minha opinião, Baz, Simon e Penélope não são cópias de Harry, Draco e Hermione porque são muito mais interessantes. 


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