5 de jan. de 2026

Círculos

Por Allyne Fiorentino



Há um abismo. E você quase cai. O coração acelera. Sempre quis saber qual a sensação de alguém que escolhe cair de vários metros do chão. Um desejo recluso no peito. Arrepender-se-á talvez? Ou será como nos sonhos? Em que você sempre acorda antes de chegar ao chão. E se não acordássemos? E se não acordássemos mais? 

Há uma porta. Do outro lado te esperam. Você não quer ir, quer adiar. Quase cai novamente. E se eu não for? Se eu me recusar a fazer o que eles querem, se eu decidir que mudarei a rota, não adianta me esperarem. Eu pretendo demorar. O coração acelera. Você já estava quase lá. Por que voltou? Eu sei o que você quer ver. Seu demônio te espera quando abrir os olhos, mas pra isso é preciso cair no abismo antes. Por que você não cai? Por que resiste tanto? 

Um salto mais brusco e você está em frente a um rio. Não era bem onde eu imaginava estar. Águas caudalosas e turvas não permitem ver o fundo. Tem alguém do outro lado. Mas as águas sobem aos céus, viram fumaça branca e granulam a vista. Quem é essa mulher? Pergunto (Pergunto a quem?): “É a mulher que você prometeu sussurrar do outro lado do rio” – ele responde (Ele quem?). O coração acelera de novo. Estamos novamente na borda do abismo. Quantas vezes eu voltarei aqui? A ideia de um inferno cíclico assombra os homens. As mulheres não, elas estão acostumadas a círculos, ciclos e, também, a infernos. 

Ando prometendo coisas que nem sei. Ando sussurrando mulheres com língua de serpente sem saber. Há coisas que só fazemos no feérico. É certamente o dia delas chegando. No último dia de outubro, nós nos sussurramos todas. Criamos corpos sobre corpos, sobre corpos, sobre corpos... Do que você está falando? De assombros. Que horas são? O coração acelera mais uma vez. Dessa vez os batimentos me acordam pra valer. Bato o braço na mesa de cabeceira. Já se passaram duas horas. Duas horas meio perdidas. Duas horas de não sono, de delírios. Eu preciso acordar cedo. 

“É a mulher que você prometeu sussurrar do outro lado do rio” – penso. Que frase vívida! Eu costumo fazer poesia enquanto durmo. Eu costumo ser Eva quando durmo.

 

* Crônica publicada originalmente no Crônica do Dia.

 

Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia. Atua, atualmente, em Tecnologia da Educação. Apaixonada por Literatura Feminina, Simbolismo, Filosofia e excentricidades. Low profile do mundo literário, escreve pouco, mas, acredite, incisivamente. Está também em Crônica do Dia. Instagram: @fiorentinoallyne.