Por Krishnamurti Góes dos Anjos
A recente publicação pela Editora Patuá do romance Tango Feroz, obra de estreia na literatura do escritor argentino Fabián Echegaray, apresenta de saída uma situação limite, embora muito comum atualmente:
E então ela me bloqueou. Não só me
bloqueou no WhatsApp, como também no Instagram. Eu, impossibilitado de me
comunicar; ela, inacessível. Eu, cancelado; ela, canceladora. Eu, interrompido;
ela com a palavra final.
O autor, que possui sólida experiência profissional no campo da opinião pública e comportamento social e político, é um verdadeiro estudioso do comportamento humano. Urde sua narrativa com muita sensibilidade e observação crítica ao trazer o teatro das relações humanas para um cenário que atualmente forja comportamentos, incita desejos, acelera desmesuradamente sonhos de posse: a Internet. Outro ponto alto do livro é a história de vida de Lisa, como veremos, que pode também ser compreendida no campo do simbólico, como o percurso que o gênero feminino vem trilhando desde o século XX até aqui.
Muito
bem; amor repelido é amor multiplicado. Vejamos como funcionava na cabecinha
autoiludida de Puán a obsessão por Lisa:
A saudade que eu sentia, assim como a
enxurrada de outros sentimentos nostálgicos e reverenciais que eu nutria por
ela, davam-me prazer e me transportavam para um diálogo tão místico quanto
irreal com Lisa, no qual as nossas afeições se espelhavam até o infinito (p.16).
A entronização do direito de não se
comprometer coexistia curiosamente com alguma expressão isolada de ciúme
possessivo por parte dela, como nas ocasiões que me cobrava para sair dos
aplicativos de namoro. Por outro lado, ela exaltava um tipo de liberdade
individual descompromissada, mais parecida com egoísmo mesmo, para
soberanamente – e sem questionamentos – definir a qualquer momento a natureza
ad hoc, flexível da nossa interação e da relação que ela comportava (p.13).
Mas, afinal, vejamos em brevíssimas palavras quem é essa mulher tão fascinante. Nascida em Araxá, interior de Minas Gerais, sempre foi rejeitada com violências e mal tratos pela própria mãe que a chamava de putinha, porque na adolescência era cobiçada pela rapaziada do clube onde praticava natação. Casaram-na aos 19 com um primo segundo bem de vida. Anos depois veio a separação. Conhece então um psicólogo “paz-e-amor” famoso, que aparentava promessas de vida excitante, pomposa – e quem sabe? Encontrar afinal o amor verdadeiro. Nada; outro fiasco, o que encontrou foram atitudes completamente irresponsáveis da tal celebridade. Drogas e internações do sujeito a torto e a direito. Desta relação resultou uma filha. Com mais essa separação passou a ser professora de inglês e estudante de Economia e acabou conhecendo um velho português riquíssimo e avarento que a humilhava e a filha de todas as maneiras. Novo desquite. Mãe e filha sozinhas no mundo, sem dinheiro ou emprego. Volta a se dedicar com afinco aos estudos, e termina passando em concurso da Receita Federal. No interior do Mato Grosso conhece um tal professor de história. Este aproveitador do salário de funcionária pública federal. Quinze anos de convivência e novo divórcio litigioso. Aí o percurso vivencial de Lisa. A mulher de meia-idade que Puán encontrou no site de namoro da Internet. De menina matuta do interior de Minas onde nasceu, à mulher financeiramente independente e dona de seu nariz. Entretanto, algo dentro dela irremediavelmente estilhaçara qualquer crença no amor. Restara-lhe o vivo entendimento de que necessitava de sexo como qualquer outra função física, completamente desvinculada do amor. Quantos de nós seguimos tal inclinação hoje e estamos deixando de lado a construção de verdadeiros vínculos emocionais, de afetos sinceros e de perspectivas de futuro em nossas relações? É a pergunta que não quer calar.
Todavia, aqui e ali, Puán demonstra lampejos de lucidez. Após uma conversa com o amigo Feldman, encontramos um deles.
Teria eu ficado obcecado por ela apenas para encobrir outra
obsessão mais difícil de resolver ou lidar? O autoengano pode chegar a isso?
Pode a fixação ser um truque não apenas de sensações ou de resultados, mas de
objetivos, de quem em definitivo somos ou terminamos sendo? E na hora me vem à
cabeça a imagem não de algum sofredor platônico ou de um amante rejeitado, mas
das pessoas apaixonadas por avatares digitais. O que precisa ocorrer no
mecanismo de percepção dessas pessoas para chegarem à semelhante distorção da
realidade? A resposta está na própria pessoa, em algum desajuste ou falha
individual, ou no clima de época que alimenta ou legitima o império da
autoilusão, naturalizando impressões subjetivas como sendo superiores à
realidade? (p.28).
Outro ponto alto da narrativa amplia a questão da autoilusão ao relacioná-la aos nossos dias. Vale a pena conferir: “A origem da autoilusão enganadora é... é... é o sistema!”, exclamou Feldman. E acrescentou:
Por acaso não estão as novas gerações acostumadas a pensar
que é só desejar algo com intensidade que isso já garante seu direito ao
desfrute, à conquista? Não se tornou natural supor que identificar uma situação
ou um estado desejado seja suficiente para atribuir às pessoas a prerrogativa
de acesso a essas aspirações – e até mesmo a de curtição delas? Não foram
educados Millenials, Gen Z e até gerações anteriores no princípio de que seus
sentimentos são a métrica mais relevante e − em última instância − mais válida
para definir a realidade, mais do que os próprios fatos e as limitações
impostas pela própria realidade? Não se generalizou a ideia de que não existem
absolutos e que − em definitivo − tudo é relativo? (p. 30).
A epígrafe que abre o romance do senhor Fabián Echegaray é um alerta de consciência da autoria de Friedrich Nietzche: “A principal mentira é a que contamos a nós mesmos.” No que tange propriamente ao amor, a leitura do romance Tango Feroz não nega sua existência. Entretanto, faz eco, e mesmo amplia as contradições da alma humana, para direções insuspeitadas, sugerindo a verdade daquela outra advertência feita por Machado de Assis: “Sonharás uns amores de romance, quase impossíveis. Digo-lhe que faz mal, que é melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.”
Romance de Fabián Echegaray
Editora Patuá – São Paulo / SP
2026
Links para compra e pronto envio: Editora Patuá & @fabianechegaray_lit
Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.