5 de out. de 2026

‘Tango feroz’ e as mentiras que contamos a nós mesmos

 

Por Krishnamurti Góes dos Anjos

A recente publicação pela Editora Patuá do romance Tango Feroz, obra de estreia na literatura do escritor argentino Fabián Echegaray, apresenta de saída uma situação limite, embora muito comum atualmente:

 

E então ela me bloqueou. Não só me bloqueou no WhatsApp, como também no Instagram. Eu, impossibilitado de me comunicar; ela, inacessível. Eu, cancelado; ela, canceladora. Eu, interrompido; ela com a palavra final.

 Este o final melancólico da relação amorosa entre Puán e Lisa, iniciada em um site de namoros, e que durou alguns meses de turbilhão sensual. Fim do relacionamento físico e início de um processo mental obsessivo de autoengano alimentado pela rememoração dos acontecimentos que culminaram neste desfecho. Eis a espinha dorsal da narrativa de Echegaray. Entretanto, não se pense que essa engrenagem tenha como razão única o inconformismo pelo término ou o desejo premente de reatar com Lisa. O que verdadeiramente move aquele coração rechaçado era provar a si mesmo que o vivido não foi somente mais uma paixão de ocasião sem envolvimentos mais profundos. Segundo ele, houve mais, houve muito mais. E toca a procurar indícios e pistas do amor. Eis o paradoxo brutal: sexo ou amor? 

O autor, que possui sólida experiência profissional no campo da opinião pública e comportamento social e político, é um verdadeiro estudioso do comportamento humano. Urde sua narrativa com muita sensibilidade e observação crítica ao trazer o teatro das relações humanas para um cenário que atualmente forja comportamentos, incita desejos, acelera desmesuradamente sonhos de posse: a Internet. Outro ponto alto do livro é a história de vida de Lisa, como veremos, que pode também ser compreendida no campo do simbólico, como o percurso que o gênero feminino vem trilhando desde o século XX até aqui. 

Muito bem; amor repelido é amor multiplicado. Vejamos como funcionava na cabecinha autoiludida de Puán a obsessão por Lisa:

 

A saudade que eu sentia, assim como a enxurrada de outros sentimentos nostálgicos e reverenciais que eu nutria por ela, davam-me prazer e me transportavam para um diálogo tão místico quanto irreal com Lisa, no qual as nossas afeições se espelhavam até o infinito (p.16).

 Ocorre, todavia, que havia algo de muito errado quanto à reciprocidade afetiva.

 

A entronização do direito de não se comprometer coexistia curiosamente com alguma expressão isolada de ciúme possessivo por parte dela, como nas ocasiões que me cobrava para sair dos aplicativos de namoro. Por outro lado, ela exaltava um tipo de liberdade individual descompromissada, mais parecida com egoísmo mesmo, para soberanamente – e sem questionamentos – definir a qualquer momento a natureza ad hoc, flexível da nossa interação e da relação que ela comportava (p.13).

O tango, conhecido gênero musical argentino marcado por forte dramaticidade, melancolia, paixão e nostalgia, foi dançado ardorosamente pelo casal durante o tempo que durou a relação. A expressão “romântico-libidinal” que lemos em alguma parte do texto, sintetiza o clima que perpassa aquela relação doentia extremamente voltada para as tórridas relações sexuais relatadas na obra e que não impediram, afinal, os desentendimentos, as cobranças e as agressões verbais que culminaram na separação irremediável.

Mas, afinal, vejamos em brevíssimas palavras quem é essa mulher tão fascinante. Nascida em Araxá, interior de Minas Gerais, sempre foi rejeitada com violências e mal tratos pela própria mãe que a chamava de putinha, porque na adolescência era cobiçada pela rapaziada do clube onde praticava natação. Casaram-na aos 19 com um primo segundo bem de vida. Anos depois veio a separação. Conhece então um psicólogo “paz-e-amor” famoso, que aparentava promessas de vida excitante, pomposa – e quem sabe? Encontrar afinal o amor verdadeiro. Nada; outro fiasco, o que encontrou foram atitudes completamente irresponsáveis da tal celebridade. Drogas e internações do sujeito a torto e a direito. Desta relação resultou uma filha. Com mais essa separação passou a ser professora de inglês e estudante de Economia e acabou conhecendo um velho português riquíssimo e avarento que a humilhava e a filha de todas as maneiras. Novo desquite. Mãe e filha sozinhas no mundo, sem dinheiro ou emprego. Volta a se dedicar com afinco aos estudos, e termina passando em concurso da Receita Federal. No interior do Mato Grosso conhece um tal professor de história. Este aproveitador do salário de funcionária pública federal. Quinze anos de convivência e novo divórcio litigioso. Aí o percurso vivencial de Lisa. A mulher de meia-idade que Puán encontrou no site de namoro da Internet. De menina matuta do interior de Minas onde nasceu, à mulher financeiramente independente e dona de seu nariz. Entretanto, algo dentro dela irremediavelmente estilhaçara qualquer crença no amor. Restara-lhe o vivo entendimento de que necessitava de sexo como qualquer outra função física, completamente desvinculada do amor. Quantos de nós seguimos tal inclinação hoje e estamos deixando de lado a construção de verdadeiros vínculos emocionais, de afetos sinceros e de perspectivas de futuro em nossas relações? É a pergunta que não quer calar.

Todavia, aqui e ali, Puán demonstra lampejos de lucidez. Após uma conversa com o amigo Feldman, encontramos um deles.


Teria eu ficado obcecado por ela apenas para encobrir outra obsessão mais difícil de resolver ou lidar? O autoengano pode chegar a isso? Pode a fixação ser um truque não apenas de sensações ou de resultados, mas de objetivos, de quem em definitivo somos ou terminamos sendo? E na hora me vem à cabeça a imagem não de algum sofredor platônico ou de um amante rejeitado, mas das pessoas apaixonadas por avatares digitais. O que precisa ocorrer no mecanismo de percepção dessas pessoas para chegarem à semelhante distorção da realidade? A resposta está na própria pessoa, em algum desajuste ou falha individual, ou no clima de época que alimenta ou legitima o império da autoilusão, naturalizando impressões subjetivas como sendo superiores à realidade? (p.28).

Outro ponto alto da narrativa amplia a questão da autoilusão ao relacioná-la aos nossos dias. Vale a pena conferir: “A origem da autoilusão enganadora é... é... é o sistema!”, exclamou Feldman. E acrescentou:


Por acaso não estão as novas gerações acostumadas a pensar que é só desejar algo com intensidade que isso já garante seu direito ao desfrute, à conquista? Não se tornou natural supor que identificar uma situação ou um estado desejado seja suficiente para atribuir às pessoas a prerrogativa de acesso a essas aspirações – e até mesmo a de curtição delas? Não foram educados Millenials, Gen Z e até gerações anteriores no princípio de que seus sentimentos são a métrica mais relevante e − em última instância − mais válida para definir a realidade, mais do que os próprios fatos e as limitações impostas pela própria realidade? Não se generalizou a ideia de que não existem absolutos e que − em definitivo − tudo é relativo? (p. 30).

A epígrafe que abre o romance do senhor Fabián Echegaray é um alerta de consciência da autoria de Friedrich Nietzche: “A principal mentira é a que contamos a nós mesmos.” No que tange propriamente ao amor, a leitura do romance Tango Feroz não nega sua existência. Entretanto, faz eco, e mesmo amplia as contradições da alma humana, para direções insuspeitadas, sugerindo a verdade daquela outra advertência feita por Machado de Assis: “Sonharás uns amores de romance, quase impossíveis. Digo-lhe que faz mal, que é melhor contentar-se com a realidade; se ela não é brilhante como os sonhos, tem pelo menos a vantagem de existir.”

 

Livro: “Tango feroz”
Romance de Fabián Echegaray
Editora Patuá – São Paulo / SP
2026
172 p.
ISBN 978-65-281-0547-2

 

Links para compra e pronto envio: Editora Patuá & @fabianechegaray_lit

 

Krishnamurti Góes dos Anjos é baiano de Salvador. Escritor, pesquisador e crítico literário, é autor, entre outros, de O Crime dei Caminho Novo (romance histórico), Embriagado Intelecto e outros contos, À flor da pele (contos) e Destinos que se cruzam (romance). Possui textos publicados em revistas no Brasil, Portugal, Argentina, Chile, Peru, Venezuela, Panamá, México e Espanha. O Touro do rebanho (Editora Chiado, romance histórico) obteve o primeiro lugar no Prêmio José de Alencar (UBE/RJ) em 2014. Atuando com a crítica literária, resenhou mais de 350 obras de literatura brasileira contemporânea, colaborando em diversos jornais, revistas e sites literários.