Por Gustavo Coelho
Nordeste. Podemos dizer que é uma das regiões mais antigas do Brasil. Por ser o berço do início da colonização do país, é uma das regiões que mais sofreram com a exploração de suas riquezas. Devido à união de fatores históricos, estruturais e de própria natureza, nos dias atuais é considerada a região mais pobre do Brasil. Mas, apesar de todos estes pontos, pode-se dizer que é uma das regiões onde se concentra o maior índice de riquezas culturais, fruto de uma forte miscigenação entre povos indígenas, africanos e europeus.
É neste vasto cenário que os autores (Chaffim et al.) de Sertão dos Mortos escrevem uma HQ de ficção voltada para o terror social. A história passa em um Nordeste pós-apocalíptico, onde acompanhamos o encontro de figuras regionais, como o próprio povo interiorano, cangaceiros, volantes, povos estrangeiros, indígenas, vaqueiros e uma figura que simboliza o futuro (astronauta). Com diversas referências que recontam um pouco da exploração daquela terra cansada, Sertão dos Mortos mostra uma “epopeia” de conflitos que acabam em um verdadeiro apocalipse zumbi.
A HQ mostra uma trama bem violenta. Mas todo conteúdo da HQ, inclusive a própria violência, está conectado à questão crítico-social. Eis alguns pontos importantes analisados a partir dos extras da obra:
A questão da violência: As HQs de horror (terror), comumente, apresentam uma trama de violência. Mas no caso do Sertão dos Mortos, esta violência dialoga com a forma pela qual o Nordeste foi explorado: as mortes, por exemplo, que ocorrem em todo a HQ, são reflexos da exploração da região e representam a exploração do povo nordestino (visto, de início, pela figura do “cabra”), o conflito/violência da volante e dos cangaceiros, a invasão dos povos estrangeiros, a luta indígena e como, muitas vezes, o progresso vem de forma impositiva e agressiva.
Simbolismos dos personagens: Esta HQ possui uma crítica específica em cada personagem. O(s) autor(es), nos extras, descreveu(eram) o significado de cada um deles. Em síntese, a caracterização de cada um dos personagens se deu como uma crítica de como a cultura nacional (brasileira) está sendo jogada cada vez mais de lado em detrimento da cultura estrangeira. Embora há aqueles que prezam, calados, por sua cultura, outros que fingem gostar dela, mas a negligenciam, ou até aqueles lutam por ela, mas em geral a maioria acaba oprimida ou massacrada pela cultura estrangeira.
Referências e curiosidades: Ainda nos extras, somos apresentados a alguns dos fatores que auxiliaram na construção do enredo. O(s) autor(es) deixaram evidentes, dentro do processo criativo, que tiveram inspirações em outras obras e, que em alguns trechos, sentiram a necessidade de homenagear ícones da cultura popular brasileira.
Opinião
do leitor
Aqui expressarei minha opinião. Abordarei a questão crítica e comercial, onde, pela maioria das vezes, costumam ser opostas, não dialogando em prol do mesmo objetivo. Dividirei em dois pontos: a parte positiva da HQ e a parte negativa.
Ponto positivo
Sertão dos Mortos é uma HQ de cunho crítico apresentada de forma que tenha a ação necessária para cativar o leitor de quadrinhos. O gênero de horror (mais precisamente o terror), nos quadrinhos, sempre teve um bom público. Rodrigues (2015 apud Ramone, 2015) diz que “no Brasil, o gênero terror sempre foi um dos mais importantes dos quadrinhos, desde o final da década de 1930 (Garra Cinzenta já era uma dessas histórias, só que com elementos policiais) até meados dos anos 1990. Os brasileiros adoram uma boa história de terror, seja de lobisomem, assombração ou boitatá. Isso tem nos interessado como manifestação cultural”.
Mas nota-se, no mercado, uma pequena mudança no cunho do horror, onde as histórias começaram a ficar mais dinâmicas, voltadas para a temática de aventura, com um toque de terror. Como exemplo, vemos quadrinhos da antiga revista Vertigo como Hellblazer, Morte, Preacher ou, até mesmo, Spawn da antiga Image. Eram quadrinhos com muitas doses de ação com uma pitada de macabro.
A febre, entre a temática desta mesma HQ, veio com a The Walking Dead da Image. Focada no drama humano, com uma narrativa longa, ela apresentou algo que cativou o mercado gerando um hype no gênero de zumbis, priorizando o desenvolvimento psicológico dos personagens e distanciando da narrativa padrão de histórias de zumbi, colocando as relações em primeiro plano.
Sertão dos Mortos acabou acertando a mão na temática, principalmente por escolher uma região com uma cultura tão rica para ser palco da trama. Com o objetivo de conscientizar o leitor por meio de críticas sociais e, ao mesmo tempo, buscar elementos que valorizem a cultura nacional, o processo acaba sendo natural, permitindo que todos aqueles que buscam um quadrinho de zumbi quanto aqueles que buscam pelo conteúdo nacionalista/crítico, acabem recebendo de forma satisfatória a obra.
Mas devo alertar que o quadrinho, por mais que pareça algo comum aos outros de mesmo gênero, é diferenciado. Ele não é um quadrinho voltado para a narração básica das histórias de horror. Não apresenta mortes sem sentido ou para causar alguma espécie de impacto por ser violenta ou algo do gênero. Esta é uma HQ feita para fazer refletir. Voltada para um nicho específico. Ela faz críticas pessoais, sociais e políticas sobre a questão nacionalista de nosso país, tentando conscientizar as pessoas de que deveríamos valorizar mais a nossa cultura do que abraçar, de forma cega, o estrangeirismo e suas vertentes. É uma excelente obra para se discutir no meio acadêmico, tentando causar debate e diversas visões sobre nossa identidade cultural.
Ponto negativo
Curiosamente, o que exalta como ponto positivo acaba trazendo um fator negativo de grande impacto para HQ. O objetivo de toda e qualquer obra literária é a comercialização. Aliás, este é objetivo de todo e quaisquer produtos que estão no mercado. Focar em um conteúdo tão denso (a ponto de ter que apresentar um extra que demonstre todos os significados do enredo) acaba por nichar demais seu público. Todo e qualquer periódico da nona arte deve estar voltado em atingir o máximo de público na grande massa de leitores de HQs. A densidade do enredo impede, no meu ponto de vista, de atingir a real massa deste gênero, onde as ideias centrais da obra acabam por ser mais políticas, afastando o entretenimento que a maioria do público quer.
Outro ponto é o antagonismo entre a ideia central e a construção da HQ. Podemos notar até mesmo nos extras. Onde há, claramente, um embate crítico sobre a permissibilidade brasileira frente ao tal “imperialismo cultural estrangeiro”, mas o(s) próprio(s) autor(es) utilizaram alguns filmes internacionais (13 filmes, ao todo) como referências mencionadas na HQ. O autor principal confessa, na seção de curiosidades, que o próprio título da obra foi inspirado em títulos de obras internacionais. Neste ponto vejo uma discrepância, principalmente por se tratar de uma ode ao nacionalismo.
Outro ponto que seria importante trabalhar é quanto ao protagonismo. Por retratar tantas críticas e buscar diversos tipos de referências para o enredo, a história, por vezes, acaba não conceituando um protagonista ou um antagonista (pelo menos de forma clara, visto que claramente o protagonismo é a questão de nossa identidade nacional, produto nacional, e o antagonismo acaba sendo o estrangeiro, retratado na forma dos EUA). A ideia de protagonismo acaba se perdendo no meio de tantos personagens nascidos para representar uma ideia, ao invés de ser parte da trama.
Por fim, o trabalho de arte é bom, assim como o enredo. Não estou aqui para criticar de forma negativa, mas sim de forma construtiva. Acredito no potencial da trama. Mas, em minha opinião, há um conceito nacionalista exacerbado, triscando em um ponto político extremista. Acho que toda crítica (ou movimento) por trás de Sertão dos Mortos é válida, contudo o foco foi voltado mais para a ideologia e não para a trama. A história tem um potencial gigantesco, onde poderia focar mais no que a massa gostaria de ler, por mais que o estrangeirismo faça parte deste “modismo”, pois no final o que conta são as vendas.
Gustavo
Coelho,
natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação
Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado
pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do
anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da
Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação. É
coautor de Crisântemo (Cápsula Editora, 2025) e
autor de Os 13 contos (Cápsula Editora, 2026).