25 de abr. de 2023

Truques


Por André Ferrer

Em vários textos, ao longo da sua obra, Ernest Hemingway cita a arte da pintura. Nenhum desses momentos, entretanto, é mais eloquente a respeito das suas reais intenções ao mencionar a pintura do que em um trecho do conto Escrever. Aliás, uma das suas histórias menos conhecidas.

Em Paris é uma festa, Hemingway fala de alguns dos vários pintores que conheceu e, com a propriedade de quem viveu na Cidade Luz dos anos de 1920, relaciona as soluções encontradas por aqueles artistas à sua própria arte, a escrita. Trata-se de um livro de memórias. Nele, o autor relata os anos em que vivera na França e era apenas um repórter norte-americano que aspirava, um dia, tornar-se escritor. Paris é uma festa foi escrito na década de 1950 e só foi publicado após a morte do autor.

Se neste livro Hemingway gasta várias linhas com a tentativa de demonstrar o quanto um escritor pode aprender com a pintura, no conto Escrever ele atinge o objetivo com maestria. Sabe-se, claramente, que o autor valorizava a personalidade como o único caminho para a inovação. Em nenhum outro texto, no entanto, a experiência pessoal é tida em tão alto grau de importância em relação ao ofício da escrita.

Por exemplo, já no meio da pescaria (sim, o conto é sobre pescaria), fica-se conhecendo os pensamentos do protagonista, Nick Adams.

Este, mediante um discurso indireto livre, afirma que James Joyce sabia como Cézanne pintaria aquela extensão de rio. E o pescador escritor lamenta: “Meu Deus, se ele estivesse aqui para pintar. Eles morreram e isto foi mesmo o diabo. Trabalharam durante a vida inteira e ficaram velhos e morreram.”

“Nick, vendo como Cézanne faria a extensão do rio e o pântano, levantou-se e entrou na corrente. A água estava fria e verdadeira.” Exato: uma sensação, a temperatura, que é um argumento de autoridade capaz de sustentar uma proposição verdadeira. Ora, mais Hemingway do que isso não existe.

Papa gostava tanto de pintura (ou da relação entre pintura e escrita), que Thomas Hudson – é claro, mais um dos seus alter egos – não é escritor, mas pintor. Hudson é o protagonista do romance As ilhas da corrente, também uma edição póstuma.

No conto Escrever, que integra o volume The Nick Adams stories (As aventuras de Nick Adams), lê-se ainda: ele (Nick Adams ou, de novo, o próprio Hemingway) “queria escrever como Cézanne pintava.”

“Cézanne começara usando todos os truques. Em seguida, destruiu a coisa toda e construiu a coisa verdadeira.”

Com algum conhecimento de História, detectam-se pistas daquela grande ruptura nas artes, a emergência das vanguardas, enquanto a Belle Époque agonizava. Aquém disso, Hemingway aponta para aquela que constitui a maior obrigação de todo bom artista: o esforço de imprimir a sua personalidade na obra. Sob a pena de ser medíocre, o artista deve substituir velhos truques por novos truques. Seus próprios truques.


André Ferrer é escritor de contos e crônicas, farmacêutico e bioquímico. Deu aulas de Química em universidade e participou com seus textos nas antologias de contos A morte do outro lado da luneta e Grenzenlos, e da antologia Retire aqui a sua história, com colaboradores do coletivo Crônica do Dia.