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27 de mai. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Dança (ou Almodóvar)

Ambos movendo-se no círculo de fogo, devorados pelo desejo. Dois estranhos, quase. Ravel inundando a sala, os corpos. Um minuto antes, pensara em fugir; mas, agora, presa ao ímã do olhar, deixava-se arrastar até o olho do furacão. Parecia tão manso, outra espécie de homem; súbito, porém, crispou os lábios, e a mão cortou o ar, dilacerando o encanto.

Memória

Pensou nas duas crianças presas em casa, na cadelinha unhando a porta para entrar (odeia ficar no quintal à noite), no gás vazando, asfixiando o ambiente, e no tempo que levaria para conseguir esquecer tudo isso.

Oh, não!

Agora só estamos nós dois aqui, o homem disse com voz de lâmina cortante. A porta fechou-se com estrondo, e o tempo parou de pulsar.

Esses são os três últimos microcontos do livro Breu, que se tornou parte do livro Tesselário, cuja publicação deve ocorrer ainda este ano pela Editora Multifoco. Na sequência, postarei microcontos da primeira parte do Tesselário, denominada Tesselas.

12 de mai. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Por baixo dos panos

A mão do outro metendo-se entre suas coxas, deslizando por baixo da calcinha, imprudente, ávida. Ela: úmida, quase louca, lutando em silêncio contra o desejo. O marido ali bem do lado, contando uma piada muito engraçada (contar piadas, o que melhor sabia fazer). Todos morrendo de rir em volta da mesa, e ela rindo também: riso, choro, gozo.

Breu

O desespero é um abismo: a pessoa age sem fio algum de razão. Naquele momento, bastava ter se acendido uma luzinha na minha mente para que o mal se esgarçasse. Eu avançava no breu. Veja, o ódio é uma coisa medonha, absurda, cegante. Depois do último estalido, o cheiro de pólvora — meu corpo recuou vazio, uma coisa oca, sem sentido, como se morresse.

Vazio

Abriu a porta e deu com ele lá, especado, tronco arcaico, desumano. Um turbilhão de imagens e rancores assaltou-lhe a mente: o passado todinho de volta, castigado pelas rugas. Pensou em fechar-lhe a porta na cara, mas não o fez. Ele sentou-se no sofá; ela, numa cadeira distante. E mergulharam num mundo sem palavras, sem gestos, sem vestígio algum de esperança.

27 de abr. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima
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Telenovela
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Às 20 horas, a heroína vai matar o ex-namorado: um calhorda que o país inteiro odeia. Serão dois tiros no peito. Minha esposa vai aplaudir ao ver a assassina (?) correr para os braços do outro — o mocinho: branco, belo e bom. O vilão vai se estrebuchar lá no fundo, enquanto os dois, em primeiro plano, beijam-se. Tão lindo! Está no script: lágrimas rolarão dos olhos da minha esposa.
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Deus e o Diabo na terra de Machado de Assis
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Neguinho vem dizer que estou errado. Moral... Puta que o pariu! Vem me falar de moral, cara! O que faço ou deixo de fazer é da conta de alguém? Neguinho vem apontar defeito alheio com o dedo sujo. Se tudo é lama... Olha, vou continuar assim, torto. Aquele lá é crente, quer me converter: Só Deus pode consertar o mundo. Tem jeito não, brother, Deus e o Diabo são sócios nisso aqui.
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No ermo
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Ainda tá vivo!, alguém gritou. Saltamos de lado, para trás, o coração desse tamaninho. No meio do susto, do escuro, sei lá quem achou uma pedra. Depois, sob a claridade da Lua, apareceram outras. Uma chuva de pedras, até sobrar quase nada do corpo dentro da poeira, no meio do cosmos, em meio à sensação de nojo, de remorso, de terror profundo.

12 de abr. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Noir

Desceu a escadinha tateando no escuro. Loucura aquilo. Uma porta carcomida lhe deu passagem, quase tombando de lado. No centro do cômodo, sentado numa cadeira, cigarro aceso, um homem a aguardava. Sorriu assim que a viu. Vem cá, meu anjo, vem. Ela avançou se despindo. Embaixo de uma lâmpada oscilante, empoeirada, fizeram amor como se fosse a primeira vez.
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Antro

Aqui só há o inferno. Vestígios de céu? Nenhum. A gente avança é no escuro, sempre, sempre. A alma mais pura, uma vez aqui, não resiste aos apelos do lodo. Esse aí, ainda com cara de anjo, ontem mesmo, por uma coisinha de nada, abriu uma fenda no peito de um. Eu, que já vi o absurdo, ainda agora estou pasmo, sem crer. Um anjo varrido pela crueldade.

Ana

Sei que vai se agarrar nas minhas pernas me pedindo pra ficar. Por enquanto tá lá na cozinha, deixando cair panelas, talheres... Quer me fazer ouvir o seu desespero. Não pode viver sem mim. Mas minha mente já não está mais aqui, que posso fazer? Fecho a porta, ouvindo ainda os seus gemidos de dor. Melhor assim. Teria sido ridículo vê-lo atirando-se aos meus pés.

27 de mar. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Ali

Sou um filho da puta, não nego. Sou uma falha da natureza. Mas, já que nasci, então faço valer. Remorso? Não, não. Não sei o que é piedade. Matar é o meu orgasmo. Vivo no breu, ainda que haja luz. É, a senhora é uma mulher corajosa, estou admirando. Não tem medo da morte... Aqui, comigo, sem nada que a proteja. O que tanto vasculha em mim? Algum vestígio de Deus?

Anjo de botas II

Eu, no meio da forquilha, depois do 69, do toma-lá-dá-cá. As botas negras no alto, excitantes. Queria senti-las fustigando meus flancos, cavalo louco cavalgando a potranca selvagem, banhado de suor. Relinchando de prazer, de dor. Nem sei mais o que fazia ali, só a cabeça girando, girando. Diz então que estou te matando, diz! diz!

Calada

Um homem vem à noite. Ela ouve seus passos no corredor, mas não se move. Ele se assusta com o rangido da porta, quase recua, mas, resoluto, prossegue. Junto à cama, resfolegando, crescem-lhe os desejos insanos. A visão do corpo seminu, na penumbra do quarto, turva-lhe a mente. Ela poderia gritar, mas não grita. A mão sobre a sua coxa é bem familiar.
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12 de mar. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Casal

Ela não tinha fronteira. Um rio correndo para mar algum. Ele querendo estancar sua correnteza, domá-la. O gesto impossível. Única certeza: o sofrimento, a laceração da alma. Mas já haviam andado meio caminho — como retornar ao antigo leito? O desespero é que colocou a arma nas mãos dele.

Depois daquele ato

O que estava acontecendo não tinha explicação. A mão movera-se por si mesma. Mas quem acreditaria nisso? Louco, louco. O dia cinza, a cidade medonha, a vida absurda. Deus estivera com ele durante algum tempo; agora, as trevas. A mão movera-se sozinha: um gesto cruel, manchado de sangue. Insana, gravara em sua memória grafismos de horror e desordem.

Uma mulher no escuro

Talvez você não saiba, mas estou sangrando. Ontem foi o pior dia da minha vida. Hoje não melhorou em nada: o tempo escoa lento, devorando a vida, ávido, cru. Amanhã estarei viva? Não sei se isso lhe interessa, se lhe suscita apreensão, mas embaixo da pia há um saco de soda cáustica.
É tão fácil abrir as portas do além.

27 de fev. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Presa

Penetrei-a com instrumento rombudo, ferro em brasa. Os movimentos do corpo: bruscos, violentos, quase desesperados. A presa, acuada: alguns gemidos — chorando pra dentro — e nenhum espasmo.

Descarte

Isso que você chama de amor não existe. Existe, sim, esse deserto aí, esta pedra, aquela poça de lama... Uma linguagem toda foi criada para nos enredar, nos deixar à deriva no mar de ilusões. Mas você crê. Contra a crença, nada se pode fazer. Cega, e esse homem arrastando-a para o abismo.

Cardume

Sento-me, pernas cruzadas, nesga de carne à mostra: a isca. O mínimo de reputação preservado. Se olhar para mim, fisgo-o — peixe graúdo em meio à miudeza. Deve se debater: o macho surpreendido em sua rotina de caça. Mas devo me manter firme, arrastando-o até aqui só com o arpão do olhar.

12 de fev. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Delirium

Não sei se ela está gozando ou morrendo. Esses estertores me alucinam, ateiam fogo na minha carne: sem piedade, vou penetrando cada vez mais. Meus ouvidos, moucos, obliterados pelas areias do nada. O último grito ecoa num deserto banhado de sangue.

Fatalidade II

Enquanto um cavava por baixo, buscando a fenda peluda, o outro deixou as mãos escorregarem até o pescoço da mulher. Tão imersos estavam no lodo do desejo insano, que nem notaram que o corpo já não emitia nenhum sinal de nojo. Na delegacia, este remendo: Não tivesse gritado, estaria tudo como antes.

Lâmina

Um relâmpago iluminou a faca antes que lhe mordesse a carne, ávida, cega de ódio. Um baque seco na terra úmida, seguido de um ronco, parecido com o de um porco, foi tudo o que ouvimos.
A noite agonizou uma eternidade.
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27 de jan. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima
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Anjo de botas I
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Sem calcinha e sutiã, carne branca devorada pelos meus olhos. Atendeu ao meu pedido: cheia de dengo, calçou de novo as botas. Que se cumpra então a minha fantasia!
Remanso de pelos à minha espera, quente, úmido.
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Fatalidade I
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Não esperavam que ela gritasse. As mãos de Jorginho estavam trêmulas e, com aquele grito, entraram em pânico.
Torvelinho de braços, pernas, dentes e urros.
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Mistério
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Primeiro ouvimos um grito. Depois, dois estampidos. Só um cão latiu varado de susto. E nada mais.
O silêncio vestiu a noite.
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12 de jan. de 2010

Seis microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

O inesperado

Fazia tempo que não nos víamos. Ela tentou ainda correr o ferrolho. Inútil. Com a ponta do sapato impedi que fechasse a porta. Recuou aterrada, desintegrada pelo medo. Entrei. Desliguei a luz e avancei dentro do breu.

Por trás daquele sorriso

De dentro do sorriso saltaram os ferrinhos comprimindo os dentes. Tarde demais. Ferro contra ferro, língua contra língua, dente contra dente. Saliva, murmúrios. Depois, o abismo, a voz de Deus cada vez mais distante.

Sanctus

Deus não aprovaria isso, essa carne devassa, esse sexo exposto, faminto sempre. Só a morte lhe trará a verdadeira satisfação. Eu curo os doentes, amanso os loucos, dou descanso aos desenganados. Deus anda comigo pelos caminhos mais turvos. E agora estamos aqui, junto ao seu leito enfermo, o coração repleto de amor e piedade.

Missão

Quando adentrei o recinto, havia ainda uma nesguinha de Deus em mim. Confesso: quase senti piedade, remorso pelo que ia fazer. Quase, quase. Mas de repente as vistas turvaram, adveio uma noite medonha. O restinho de luz finou de vez. Agora, só o tumulto de gritos, clamor e desespero dentro do breu.

Oh!

Tentou ainda dizer algo como Deus está... Cortei com um beijo seco, quase violento. Deixa Deus fora disso, Ele é só remorso, temor... Quis retrucar, mas tapei-lhe a boca de novo: um beijo ávido, sufocante. Gemeu, como se algo morresse dentro dela. Desliguei então a luz para que ela não visse, não pensasse, não buscasse a face de Deus em meio aos estertores.

Macega

A gente avançou no meio do escuro, rumo ao lugar de onde vieram os gritos. Meu pai indo adiante, só coragem, medo nem de Deus nem do diabo. Eu indo bem no meio, dominado pelo terror. Por que estávamos indo até lá? Para a memória carregar pra sempre o charco de sangue, a ruína do corpo?
Meu pai avançava, sem fome de perguntas, senhor do nada.
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