12 de mai. de 2010

Três microcontos, do livro inédito 'Breu'

Por Geraldo Lima

Por baixo dos panos

A mão do outro metendo-se entre suas coxas, deslizando por baixo da calcinha, imprudente, ávida. Ela: úmida, quase louca, lutando em silêncio contra o desejo. O marido ali bem do lado, contando uma piada muito engraçada (contar piadas, o que melhor sabia fazer). Todos morrendo de rir em volta da mesa, e ela rindo também: riso, choro, gozo.

Breu

O desespero é um abismo: a pessoa age sem fio algum de razão. Naquele momento, bastava ter se acendido uma luzinha na minha mente para que o mal se esgarçasse. Eu avançava no breu. Veja, o ódio é uma coisa medonha, absurda, cegante. Depois do último estalido, o cheiro de pólvora — meu corpo recuou vazio, uma coisa oca, sem sentido, como se morresse.

Vazio

Abriu a porta e deu com ele lá, especado, tronco arcaico, desumano. Um turbilhão de imagens e rancores assaltou-lhe a mente: o passado todinho de volta, castigado pelas rugas. Pensou em fechar-lhe a porta na cara, mas não o fez. Ele sentou-se no sofá; ela, numa cadeira distante. E mergulharam num mundo sem palavras, sem gestos, sem vestígio algum de esperança.