Por Allyne Fiorentino e Sinvaldo Júnior
Você sabe o que é metaficção?
Trata-se
de uma técnica narrativa, ou escolha estilística, em que uma obra de
ficção se torna autoconsciente – mas como assim? –, chamando a atenção para sua
própria natureza de artefato fictício (é bom sublinhar essa expressão),
questionando a relação entre realidade e ficção.
A obra, assim, revela seus
próprios mecanismos de construção, tanto em personagens que sabem que estão em
uma história (Paul Auster faz muito isso!) quanto em autores que escrevem sobre
o processo de escrita e o explica (vide Machado de Assis).
A metaficção não é recente!
Embora bastante explorado na pós-modernidade, esse recurso é muito antigo! No século XVII, El Ingenioso Hidalgo Don Quijote de la Mancha (Dom Quixote), por exemplo, além de ser considerado como o primeiro romance moderno, também é um dos primeiros que se utiliza da técnica metaficcional, sendo considerado extremamente inovador para a época.
Machado de Assis, no século XIX, explorou bastante
os recursos dessa técnica narrativa. Mas, sobretudo no século XX, a metaficção
alcançou níveis nunca antes alcançados (adoramos esses termos!) com o espanhol
Unamuno, o italiano Pirandello e o argentino Borges, entre outros. Jorge Luis
Borges e Luigi Pirandello são mestres em questionar as fronteiras entre
realidade, autoria e ficção. Enquanto o escritor argentino utiliza a metaficção
para explorar labirintos intelectuais e filosóficos, o italiano a utiliza para
desmascarar a identidade humana e os mecanismos do teatro.
Metaficção é o mesmo que autoficção?
Nãããão. Na nossa visão,
obras metaficcionais são mais inventivas, mais criativas e confundem – de
verdade – ficção e realidade, colocando às vezes os autores como personagens em
situações absurdas e fantásticas. É uma brincadeira literária. A autoficção
está mais para um recurso de autobiografia declaradamente ficcional, já que toda obra, seja ela biográfica ou autobiográfica, também tem sua parcela de "ficção", visto que trata-se de verosimilhança que passa pelo crivo subjetivo do autor/a (mas isso é assunto para outra hora).
Vamos à lista e já avisamos (contém spoilers!)
1 - Névoa – Miguel
de Unamuno
Já no início da obra, há um prefácio escrito por um homem
que, depois, descobrimos ser um dos seus personagens. Após o prefácio, o autor
(Unamuno) responde ao seu personagem com um pós-prefácio. Louco, né?
Nesta "nivola" (termo criado pelo autor), no meio
da história o protagonista Augusto Pérez descobre que é um personagem de
ficção. Ele decide confrontar seu criador, o próprio Unamuno, em seu escritório
em Salamanca, para discutir seu destino e o fato de não querer morrer.
A obra quebra a barreira entre autor e personagem,
questionando quem tem mais “realidade” (o criador mortal ou a criatura
literária eterna?) e evidencia a dicotomia confusa entre o mundo real e o mundo
ficcional.
Borges não escrevia romances, mas seus contos (em coletâneas
como Ficções e O Aleph) são exemplos puros de metaficção
no século XX. Em algumas narrativas, inclusive, Borges é o próprio narrador e
personagem, confundindo as diferenças entre personagem/narrador/autor.
- “Pierre Menard, autor do Quixote”: Trata-se de um falso ensaio literário que narra a
história de um homem que decide reescrever o Dom Quixote de
Cervantes, palavra por palavra. Borges discute como o significado de um
texto muda dependendo do contexto e de quem o lê, transformando o ato de
ler em um ato de criação. Aqui também há a intertextualidade com a própria metaficção contida em Dom Quixote.
- “O jardim dos caminhos que se bifurcam”: O conto é um livro-labirinto onde todas as
possibilidades de uma história acontecem simultaneamente. É uma ficção que
comenta sobre a estrutura de todas as ficções e sobre o tempo como um
livro infinito.
- “As ruínas circulares”: Um homem sonha com outro homem até torná-lo real,
apenas para descobrir, no final, que ele próprio é um sonho de outra
pessoa. É uma metáfora para o autor que cria personagens, mas que também é
“criado” pela tradição literária.
Borges, ao refletir sobre a natureza da ficção, convida o
leitor a refletir sobre a própria natureza da realidade. Também explora, por
meio dessa técnica/escolha, a condição humana em vários aspectos, sobretudo em
questões relacionadas à passagem do tempo, de uma forma extremamente inovadora. E por falar em inovador...
3 - Seis personagens à procura de um autor – Luigi Pirandello
Pirandello é aquele cara que revolucionou o drama moderno ao
romper a ilusão do palco, criando o que chamam de metateatro.
Essa obra é o exemplo máximo de metaficção no teatro. É uma
brincadeira. É uma loucura. E é muito divertido! No meio de um ensaio de uma
peça de Pirandello, seis pessoas entram no palco alegando ser personagens
inacabados de uma história nunca escrita. Eles exigem que os atores reais
encenem a tragédia deles.
A obra discute a si mesma, expondo suas características e
funcionamento; os personagens sabem que fazem parte de uma história e interagem
diretamente com o público, lembrando-o da artificialidade da obra e “quebrando
a quarta parede” (expressão da moda usada para qualquer coisa nesse sentido).
Publicado em 1979, é uma das obras mais emblemáticas das
últimas décadas: é um labirinto sobre a arte de ler e escrever, funcionando
como uma reflexão profunda sobre a natureza da literatura.
Se um viajante numa noite de inverno coloca
o leitor real no papel de personagem, dissolvendo a fronteira entre o mundo
real e o ficcional. Ademais, o livro discute abertamente os mecanismos da
narrativa, as expectativas de quem lê e as frustrações de quem escreve. Através
do personagem Silas Flannery (um autor em crise), Calvino questiona se o autor
é realmente o “dono” da obra ou apenas um canal para tradições literárias.
5 - Ensaios sobre a total libertação – Rogers Silva
Longe de nós querer comparar Borges, Unamuno, Calvino e
Pirandello com nosso amigo Rogers! Mas, para destoar dessa lista
de clássicos dos clássicos, escolhemos colocar um livro recém publicado e que
encaixa perfeitamente no conceito de metaficção. Duvida?
O primeiro conto do livro, “Drummond no Orkut”, começa com o
personagem João se sentando em um banco de uma praça e se esbarrando no livro Manicômio,
justamente a primeira obra do autor, Rogers Silva. A partir daí, o conto
mistura narrativa e ensaio, metaficção e mistério, crítica social e redenção.
No conto “A máquina-führer”, por exemplo, uma máquina,
criada por um alemão a mando de Hitler na década de 1930, permite aos dois
protagonistas (o Curioso-menor e o Curioso-Maior) irem a qualquer tempo, espaço
ou mente humana. O que parece uma aventura despretensiosa possui, na verdade,
outro propósito: não deixar que o autor Rogers Silva seja culpado pela Segunda
Guerra Mundial. Os personagens precisam correr contra o tempo, porque se essa tragédia ocorrer (não a Guerra, mas o autor ser o culpado por ela), ele se suicidará aos trinta anos.
Há mais dois contos longos: “Ensaio sobre a libertação
total” e “antifadorogerssilva@yahoo.com.br”, em que o autor, Rogers Silva, é
também o protagonista da história. Esta última é uma história de stalker:
um fã começa a seguir o autor em todos os seus passos: o que a princípio parece
uma brincadeira, transforma-se numa história de suspense e terror.
Gostou das indicações?
E você, leitor, quais obras metaficcionais leu e gostou?
Allyne Fiorentino é natural de Minas Gerais, mas reside em
São Paulo, capital. É profissional das Letras e da Educação, mestra em Estudos
Literários na linha de Teorias e Crítica da Poesia, com foco em Simbolismo brasileiro e hispano-americano. Atua em
Tecnologia da Educação. Instagram: @allyne.fiorentino.
Sinvaldo Júnior
é professor, pesquisador acadêmico e revisor de textos. Possui graduação em
Letras/Português, mestrado em Administração e doutorado em Estudos Literários.
Atualmente cursa pós-doutorado, com pesquisa comparada entre literatura e
cinema. Mora em Uberlândia/MG.