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27 de fev. de 2021

De açúcar

Por Cláudio B. Carlos

Salivar, diante da imagem, até não mais aguentar. E lambê-la. Toda. Dos impolutos pezinhos aos angélicos cabelos – incluindo a mimosa coroa. Lambê-la, até não mais poder. E mordê-la. Comê-la. Toda. Dos imaculados pés aos dourados cachinhos – incluindo o gracioso ornato da cabeça. Morder, com especial deleite, seus cândidos joelhinhos e as alvinhas e apetecíveis nádegas.

É pecado, padre? É? Devorar, assim, uma santinha (tão bonitinha!) de alfenim?


27 de jan. de 2021

Réquiem para Adalberon

Por Cláudio B. Carlos

Cheguei, apeei do cavalo e lá estava ele, balançando, pendurado na velha figueira que como mão que protege, estendia os galhos sobre o rancho. O cusco me recebeu ganindo alvoroçadamente como que querendo me mostrar o dono enforcado. Galinhas, ao derredor da casa, ciscavam alheias. No fogão a lenha: uma chaleira com água e algumas brasas que preguiçosas se transformavam lentas em carvão. Depois da vala aberta o enrolei no poncho e o plantei próximo aos eucaliptos. Agora são duas cruzes ali: a da finada Dorvalina e a dele, onde depois de puxar pela memória algumas nênias, atei o lenço colorado. Montei a cavalo e a despacito fiz o trajeto inverso, trazendo comigo o peso do imenso vazio de quem perde um amigo. O cusco seguiu-me na modorra da tarde que se extinguia…

26 de dez. de 2020

A caixa

Por Cláudio B. Carlos

Ele chegou faceiro, depositou a caixa sobre a mesa e chamou toda a família para que víssemos o que havia conseguido no centro da cidade, na saída do trabalho. Foi uma pechincha, disse. Falou que se tratava de um animalzinho frágil, que faria muito bem a todos. Disse que o bichinho comia pouco, e se chamava Paz. Pediu para que todos se aproximassem. Disse que abriria a caixa. O guri menor arregalou bem os olhos e abraçou a perna do velho. Quando o pai abriu a caixa, o bicho voou e desapareceu por um vão da cumeeira. Mal tivemos tempo de ver a cor do animal. A Paz, tão desejada pelo velho, foi embora de nossa casa, e ainda cagou sobre nossas cabeças. O pai nunca mais foi o mesmo.

26 de nov. de 2020

Clint Eastwood (ou a óbvia analogia)

Por Cláudio B. Carlos

Ele não conhecia os filmes de caubói, por isso, quando os novelos de cisco rolavam pela imensidão do terreiro seco, não fazia a óbvia analogia. Ali não tinha Clint Eastwood, nem Lee Van Cleef, nem Burt Lancaster – tinha o Durvalino, o Deodato e o Deoclécio. Ali não tinha Marianne Koch, nem Claudia Cardinale, nem Carla Mancini – tinha a Jandira, a Jurema e a Jeneci. Ennio Morricone era o guaipeca magricela, sonolento, pulguento e mais uns dois ou três entos. Talvez Morricone fosse o bem-te-vi, o sabiá, o quero-quero, o mugido do gado (coitado – magro que só) ou o relincho do pingo amarelo – que mascava o freio, num devaneio, quiçá, de verde capim. Talvez o Ennio fosse tudo isso misturado – tudo ao mesmo tempo. Ali não tinha saloon – tinha a venda do Doca, a pensão da Deolinda e o puteiro da Durvalina. O som grave do cello era, ali, o ronco da fome – dentro das cordas frouxas das tripas vazias, da barriga vazia. As cenas, ali, não eram dirigidas por Sergio Leone – eram arranjadas por um deus melenudo, representado num calendário velho que insistia sempre no mesmo mês do eterno ano. Ali não tinha orquestra – tinha o Telmo de Lima Freitas, o Cenair Maicá e o Pedro Ortaça – que se quarteavam nas fugidias ondas da estação de amplitude modulada. Ele não conhecia os filmes de caubói, por isso, quando rebrilhou, ao longe, a espora de prata do cavaleiro que, a galope, levantava poeira na estradinha sinuosa, não fez a óbvia analogia.

8 de out. de 2020

Trecho de 'Maravalha', uma novela de Cláudio B. Carlos

 

Me aparece, esbaforido, o Romualdo – 20h45: entra no bar com a camisa arremangada, apesar do frio.

(...)

Romualdo era um tipo magrizel, aloirado, lábios finos e boca murcha – típico teuto-rio-grandense. O risco e o fedor. A boca murcha lhe rendeu o apelido de “Cu de Galinha”, que foi sofrendo alterações até chegar no afrancesado “Dirrã” – diminuição de “Cu di Rã”. O Romualdo, naturalmente, não gostava de ser chamado de Cu de Galinha, nem de Dirrã, nem de Cu di Rã, e, evidentemente que por isso mesmo, os apelidos, todos, pegaram. Eu, por sermos mui amigos, não o chamava assim. Pensava, às vezes, mas não falava. Outra coisa, que de vez em quando pensava, é que se o Romualdo soubesse o verdadeiro significado de “dirrã”, poderia adotar o apelido, e ainda se sair bem. Mas é claro que ele não sabia. Eu mesmo só descobri por acaso, quando folheava uma revista na sala de espera do dentista. A publicação apresentava uma matéria sobre as moedas do mundo, e aí entrou o “dirrã”: moeda de prata usada em Portugal no início do domínio mouro – ou qualquer coisa assim. Bueno, o fato é que me aparece, esbaforido, o Romualdo. Entra no bar com a camisa arremangada, apesar do frio. 20h45 – eu já disse, né?

Vem direto à minha mesa, se acotovelando no adensado de gente. Diz:

__ Oi.                                                             

Respondo:

__ Oi. 

Romualdo se senta e, com um gesto, pede um copo. Acendo um cigarro, em silêncio. Naquela época eu só fumava Carlton, ou Free (era a modinha do momento). Estava estranho, o Romualdo: os olhos esbugalhados, mais quieto que guri cagado. Dou uma longa tragada no careta e pergunto:                                                                                     

__ E aí?                                                                        

Olha para os lados, e responde:                                                             

__ Cara, que foda, meu.

Indago:

__ Hã?                                                                         

__ Nem te conto – ele disse.

Pego o maço de cigarros com a mão direita e bato-o levemente no indicador esquerdo para que se afrouxem dentro da carteira, e lhe ofereço um. Ele pega. Acendo (eu só acendia cigarros com isqueiro Bic, ou com fósforo: era o que se tinha para o momento). Romualdo dá uma tragada nervosa, soltando a fumaça pelo nariz. Com o copo na mão, olha para os lados (mais uma vez) e dispara:                                                                                            

__ Acabo de matar um cara.                                       

__ Quê? – pergunto.                         

__ Um cara – responde. — Acabo de matar um cara – reforça.

__ Como? – quero saber.

__ Atropelado – diz.

__ Quem? – interrogo.

__ O Maravalha – fala.

__ O Maravalha? – digo.


O livro está em pré-venda no site da Editora Coralina. )


Cláudio B. Carlos é poeta, prosador e comunicador. Nasceu em 22 de janeiro de 1971, em São Sepé, Rio Grande do Sul. Atua no mercado literário como editor, preparador e revisor de textos. Apresenta o podcast Balaio de Letras. Vive em Cachoeira do Sul. Escreve para sites, revistas e jornais, do Brasil e de Portugal. Publicou Um arado rasgando a carne – narrativas (Editora Maneco, 2005), O aprendiz de poeta – infantil (Editora Maneco, 2005) e O uniforme – narrativas (Editora Maneco, 2007).