30 de jun. de 2010

Um folhetim pulp: À guisa de explicação (eu acho)

Por Mauro Siqueira

Antes mesmo de começar já me explico: consciente ou não, não sei ao certo os porquês de contar essa... história, mas quero crer que tenha sido por saudade da minha avó – gosto de pensar assim. Ela ficava costurando e ouvindo as estações AM das rádios. Eu chegava do colégio perto da hora do almoço, passava pela cozinha, deixava a mochila pelo caminho, tirava os kichutes sem desamarrar os cadarços e ia ao quartinho de costura dar um beijo nela; ela, na velha máquina Singer, com o pé direito no pesado pedal, os óculos bifocais, ouvindo aqueles programas policiais cheios de sonoplastia e desespero – vez ou outra soltava um “Cruz em credo!”, assim mesmo: cruz em credo, ou um “Minha Ave-Maria!”, sem levantar a cabeça da máquina de costura, o mesmo tom de voz, sem perder a concentração e o compasso, o ritmo impresso por ela. Eu ria.
Com o tempo, fui gostando daquilo também e não me lembro de todas as histórias que eu ouvi – apenas algumas ficam, na realidade, são todas muito parecidas desde sempre. Porém uma, em especial, fez tudo ficar: registrado, grafado, mobilizado em mim e aquela, até a cidade parou e acompanhou. Não era mais uma exclusividade das rádios anacrônicas da minha avó, mas estava em todos os lugares: jornais, tevês, conversas de vizinhos. E eu, só ouvia junto da minha avó, e sem saber as razões pedi que minha mãe comprasse um caderno para mim: eu queria registrar de alguma maneira aquilo. Comecei recortando jornais, depois ia anotando as horas de quando eu ouvia algo sobre Eles na tevê ou nas rádios, do que saía da boca suja de meu tio, das conversa do pátio do colégio, tudo era registrado, tudo documentado, tudo evidência... Não tenho a data de quando comecei a escrever no caderno de capa azul, apenas tentava acompanhar o que o dramático locutor ia dizendo, ficavam muitos buracos e quando dei por mim, eu estava preenchendo os vazios com a minha imaginação (e hoje com a memória). Então não posso garantir que tudo que o que vou relatar aqui pertence só ao âmbito do real ou só da ficção – faz muito tempo...
Faz muito tempo, e reencontrei o, agora, velho caderno azul numa velha caixa, folhas desbotadas, manchas, trechos ilegíveis; eu ainda assim tiro a poeira e sorrio num sorriso de duplo sentido, pois me lembro de uma história do Paul Auster que também tinha um caderno azul, que também tinha um jovem escritor doente que também se sentia confuso entre o que era real e o que era a ficção naquilo que escreveu e mais, de como a última antecipava o primeiro. Rio, porque me coloco no lugar de Sidney Orr, o jovem e doente escritor do Brooklin, e que eu, há milhas de distância e poucos anos de diferença, posso estar me repetindo nele, mas não me importo - rio também de nervoso. Mas as coincidências acabam por aí, de resto, o narrador, é insólito, turvo, violento e perverso. Minto. Talvez ainda haja alguma coincidência, ou nesse caso como gosto de chamar, correspondência. É certo que alguns leitores durante os “fatos” que serão apresentados achem a minha história um pastiche sul-americano daquele casal do filme do Oliver Stone e com o roteiro escrito pelo Tarantino. Azar. Mas essa, de fato, parte e de direito, se deu aqui. E friamente, a de Mickey e Mallory Knox também não tem um que de Bonnie e Clyde? E tantas outras? Por que não a minha? Para mim são apenas histórias que ouvia no rádio e a deles, a de Alice e Alex, um divisor de águas de como eu encaro a violência...
Confesso que nem mesmo sei de tudo, do desenrolar e das consequências, mas lembro que não é fácil de se contar e dar conta – fico mais doente só de pensar na demanda que tenho pela frente e início, meio, fim... a ordem não importa, o que vai importar são os caminhos desses dois e os atos cometidos por eles, até mesmo porque, como já disse não sei quando começou, só sei apenas que EU tenho de começar de algum lugar e assim, ofereço, sem pretensão de pagamento...

A Balada Imprudente de Alice e Alex


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Gostou? Ficou curioso? Então volte ao BULE ao meio-dia, estará quente, muito quente, e acompanhe o primeiro episódio desse folhetim pulp: "Gata em teto de zinco quente"