Por Gustavo Coelho
Duas semanas haviam se passado desde o
episódio que abalara Francisco emocionalmente. O tempo parecia ter parado
dentro do seu apartamento: as cortinas fechadas, os pratos se acumulando na pia
e a TV ligada no mudo, servindo apenas como um sinal de que os dias ainda
passavam. Ele mal comia, não falava com ninguém e se limitava a existir entre o
sofá e a cama.
Em uma tarde abafada de sexta-feira,
Marcos, amigo e ex-colega de trabalho de Francisco, apareceu na porta com um
sorriso insistente e um celular na mão.
— Francisco! — gritou, batendo com
força. — Abre essa porta, agora!
Francisco, de camiseta amarrotada e
olhos fundos, abriu devagar, sem muita disposição.
— Eu não tô a fim de conversa,
Marcos...
— Ótimo, porque não vim pra conversar —
disse, entrando sem cerimônia. — Você vai sair. Já passou tempo demais chorando
pelos cantos.
— Cara, eu...
— Shhh! Peguei seus dados no banco da
firma e já estamos cadastrados: “Destino & Paixão”. É hoje. Sete e meia.
Você vai.
— Marcos, não leve a mal não, mas não
tenho nenhum motivo para ir. Me perdoe, amigo, mas fica pra próxima.
Marcos então resolveu tirar seu trunfo
da manga:
— Francisco, lembra do nosso ex-colega
Yuri? Japonês, baixinho, engenheiro elétrico que foi demitido pelo Osmar um ano
atrás?
— Claro que lembro! O sr. Osmar culpou ele
pela falha do próprio projeto. Como eu não iria lembrar! Na hora que ele foi
despedido, levantou o dedo do meio e disse que seu dedo era maior que o pau do
Osmar – disse Francisco com umas risadas contidas.
— Pois bem, eu contei o que aconteceu e
ele garantiu uma entrevista pra você na empresa onde ele trabalha.
— Putz, nem sei o que dizer, Marcos.
— Simples, eu passo aqui às seis, com o
carro ligado. Troca essa camiseta, passa um pente no cabelo e tenta parecer
alguém vivo.
Antes que Francisco pudesse contestar,
Marcos já saía do apartamento, deixando no ar um convite que mais parecia uma
permuta. Não havia escapatória.
Horas depois, no salão decorado com
cetim vermelho, pequenas velas enfeitando as mesas sob a iluminação densa dos
lustres de cristais e uma música ambiente que dava um ar de evento particular,
Francisco, sentado, de camisa social e um sapato gasto que utilizava quando
trabalhava, se sentia deslocado.
— Olha quem tá aqui — comentou Marcos,
cutucando o braço de Francisco e acenando. — Pablo!
Um homem de aparência refinada,
vestindo uma camisa de linho clara, acenou de volta com um sorriso aberto.
Aproximou-se da mesa e cumprimentou Marcos com um abraço que indicava uma velha
amizade:
— Faz quanto tempo, hein?
— Anos! — respondeu Marcos. — Esse aqui
é o Francisco, lembra que falei dele? O azar em pessoa.
Francisco forçou um sorriso e apertou a
mão que lhe era oferecida.
— Prazer.
— O prazer é meu — respondeu Pablo, com
um olhar atento. — Marcos exagera nas apresentações.
Havia algo em Pablo que chamava
atenção, mas Francisco não soube identificar de imediato. Um detalhe no jeito
que ele falava, talvez na forma como mantinha o contato visual, como se
estudasse a alma por trás dos olhos.
— Olha só, Pablo já pegou o crachá dele.
Vamos pegar os nossos também e ver o que o destino nos reserva — sugeriu
Marcos, tentando aliviar o clima.
Francisco assentiu. Não tinha
expectativas, tampouco energia, mas algo naquele ambiente — ou naquele estranho
conhecido de Marcos — parecia diferente do que ele esperava. Ao observar o
crachá de Pablo com atenção, tentou decifrá-lo: “P.H. – PR”.
— O que quer dizer isso? — perguntou
Francisco, apontando com o queixo para o crachá pendurado no peito de Pablo.
Pablo sorriu, como se já esperasse pela
pergunta:
— É o padrão do evento — respondeu. —
Colocam só as iniciais do nome e o estado de nascimento. Para preservar um
pouco a identidade, sabe? Às vezes é mais fácil conversar com um estranho do
que com alguém que já sabe tudo sobre você. Manter o Estado de origem dá
pequenas dicas culturais, facilitando a interação.
Francisco sentiu um frio na barriga.
— P... H? Do Paraná? — gaguejou.
O rosto de Francisco empalideceu, e
suas mãos suaram de repente. Seus olhos fixavam nas letras, amaldiçoando o seu
azar. “Esse detalhe” o atingiu de maneira brutal. Algo aparentemente
irrelevante ganhou um peso repentino.
— Tá tudo bem? — perguntou Marcos,
percebendo a mudança abrupta na expressão do amigo.
Francisco permaneceu calado, pálido,
com uma expressão assustada.
Marcos se virou para Pablo, tentando
mudar aquele clima estranho:
— E onde a gente pega os crachás?
Porque na entrada não deram nada pra gente.
— Tá vendo aquela fila? — apontando
discretamente com o indicador. — Aquela ali, ó, naquela que minha amiga de
vestido preto está, perto da mesa do bufê.
Francisco acompanhou a indicação com o
olhar e viu a mulher que Pablo mencionava. Tinha o corpo largo, os cabelos
castanhos caindo nos ombros e usava um vestido preto justo demais para a
ocasião.
— Tem que pegar logo — completou Pablo.
— Quando começarem os jogos, só fica quem tiver o crachá.
— Valeu, irmão — agradeceu Marcos,
animado. — Bora, Chico.
Sem dar muito tempo para hesitação,
Marcos puxou Francisco pelo braço, conduzindo-o em direção à pequena fila que
se formava adiante. Ao se aproximarem da mesa, Marcos percebeu que Francisco
ainda mantinha o semblante fechado. Os olhos dele evitavam o contato direto com
qualquer um ao redor, e a testa franzida denunciava que algo o incomodava
profundamente.
— Tá estranho, cara — Marcos comentou,
parando de andar por um instante. — Que foi agora? Tá branco igual parede.
Francisco respirou fundo, olhou ao
redor, como se buscasse alguma privacidade naquele ambiente movimentado, e
sussurrou:
— Me diz uma coisa... quando você fez
minha inscrição... você colocou meu nome todo?
— Claro, ué. Tava no formulário. Nome
completo, CPF, data de nascimento, naturalidade... Por quê?
Francisco tirou a carteira do bolso
traseiro da calça e puxou a identidade com os dedos tremendo. Abriu e a
mostrou, apontando com insistência:
— Lê meu nome inteiro aqui.
Marcos, sem entender a urgência, leu em
voz baixa:
— Francisco Oliveira Duarte de
Almeida...
— E minha cidade de nascimento?
— Aracaju... Sergipe — completou
Marcos. — Tá, e daí?
Francisco o encarou por um segundo,
como se esperasse que a ficha caísse. Depois soltou, com a voz falhando:
— Cara... Marcos... Pensa nas iniciais...
O silêncio durou um segundo. Marcos
olhou novamente para o documento e depois, quase em câmera lenta, virou os
olhos em direção à mesa dos crachás, onde uma fileira de identificações
aguardava. A ordem era alfabética. O olhar dele pousou direto na seção marcada
com a letra F: no alto da pilha, o crachá destacava em letras grandes e
douradas:
F.O.D.A. –
SE
** Leia a parte 2.
Gustavo
Coelho,
natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação
Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado
pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do
anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da
Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.
