9 de dez. de 2025

F.O.D.A. – SE (Parte 3)

 

Por Gustavo Coelho

Duas semanas haviam se passado desde o episódio que abalara Francisco emocionalmente. O tempo parecia ter parado dentro do seu apartamento: as cortinas fechadas, os pratos se acumulando na pia e a TV ligada no mudo, servindo apenas como um sinal de que os dias ainda passavam. Ele mal comia, não falava com ninguém e se limitava a existir entre o sofá e a cama.

Em uma tarde abafada de sexta-feira, Marcos, amigo e ex-colega de trabalho de Francisco, apareceu na porta com um sorriso insistente e um celular na mão.

— Francisco! — gritou, batendo com força. — Abre essa porta, agora!

Francisco, de camiseta amarrotada e olhos fundos, abriu devagar, sem muita disposição.

— Eu não tô a fim de conversa, Marcos...

— Ótimo, porque não vim pra conversar — disse, entrando sem cerimônia. — Você vai sair. Já passou tempo demais chorando pelos cantos.

— Cara, eu...

— Shhh! Peguei seus dados no banco da firma e já estamos cadastrados: “Destino & Paixão”. É hoje. Sete e meia. Você vai.

— Marcos, não leve a mal não, mas não tenho nenhum motivo para ir. Me perdoe, amigo, mas fica pra próxima.

Marcos então resolveu tirar seu trunfo da manga:

— Francisco, lembra do nosso ex-colega Yuri? Japonês, baixinho, engenheiro elétrico que foi demitido pelo Osmar um ano atrás?

— Claro que lembro! O sr. Osmar culpou ele pela falha do próprio projeto. Como eu não iria lembrar! Na hora que ele foi despedido, levantou o dedo do meio e disse que seu dedo era maior que o pau do Osmar – disse Francisco com umas risadas contidas.

— Pois bem, eu contei o que aconteceu e ele garantiu uma entrevista pra você na empresa onde ele trabalha.

— Putz, nem sei o que dizer, Marcos.

— Simples, eu passo aqui às seis, com o carro ligado. Troca essa camiseta, passa um pente no cabelo e tenta parecer alguém vivo.

Antes que Francisco pudesse contestar, Marcos já saía do apartamento, deixando no ar um convite que mais parecia uma permuta. Não havia escapatória.

Horas depois, no salão decorado com cetim vermelho, pequenas velas enfeitando as mesas sob a iluminação densa dos lustres de cristais e uma música ambiente que dava um ar de evento particular, Francisco, sentado, de camisa social e um sapato gasto que utilizava quando trabalhava, se sentia deslocado.

— Olha quem tá aqui — comentou Marcos, cutucando o braço de Francisco e acenando. — Pablo!

Um homem de aparência refinada, vestindo uma camisa de linho clara, acenou de volta com um sorriso aberto. Aproximou-se da mesa e cumprimentou Marcos com um abraço que indicava uma velha amizade:

— Faz quanto tempo, hein?

— Anos! — respondeu Marcos. — Esse aqui é o Francisco, lembra que falei dele? O azar em pessoa.

Francisco forçou um sorriso e apertou a mão que lhe era oferecida.

— Prazer.

— O prazer é meu — respondeu Pablo, com um olhar atento. — Marcos exagera nas apresentações.

Havia algo em Pablo que chamava atenção, mas Francisco não soube identificar de imediato. Um detalhe no jeito que ele falava, talvez na forma como mantinha o contato visual, como se estudasse a alma por trás dos olhos.

— Olha só, Pablo já pegou o crachá dele. Vamos pegar os nossos também e ver o que o destino nos reserva — sugeriu Marcos, tentando aliviar o clima.

Francisco assentiu. Não tinha expectativas, tampouco energia, mas algo naquele ambiente — ou naquele estranho conhecido de Marcos — parecia diferente do que ele esperava. Ao observar o crachá de Pablo com atenção, tentou decifrá-lo: “P.H. – PR”.

— O que quer dizer isso? — perguntou Francisco, apontando com o queixo para o crachá pendurado no peito de Pablo.

Pablo sorriu, como se já esperasse pela pergunta:

— É o padrão do evento — respondeu. — Colocam só as iniciais do nome e o estado de nascimento. Para preservar um pouco a identidade, sabe? Às vezes é mais fácil conversar com um estranho do que com alguém que já sabe tudo sobre você. Manter o Estado de origem dá pequenas dicas culturais, facilitando a interação.

Francisco sentiu um frio na barriga.

— P... H? Do Paraná? — gaguejou.

O rosto de Francisco empalideceu, e suas mãos suaram de repente. Seus olhos fixavam nas letras, amaldiçoando o seu azar. “Esse detalhe” o atingiu de maneira brutal. Algo aparentemente irrelevante ganhou um peso repentino.

— Tá tudo bem? — perguntou Marcos, percebendo a mudança abrupta na expressão do amigo.

Francisco permaneceu calado, pálido, com uma expressão assustada.

Marcos se virou para Pablo, tentando mudar aquele clima estranho:

— E onde a gente pega os crachás? Porque na entrada não deram nada pra gente.

— Tá vendo aquela fila? — apontando discretamente com o indicador. — Aquela ali, ó, naquela que minha amiga de vestido preto está, perto da mesa do bufê.

Francisco acompanhou a indicação com o olhar e viu a mulher que Pablo mencionava. Tinha o corpo largo, os cabelos castanhos caindo nos ombros e usava um vestido preto justo demais para a ocasião.

— Tem que pegar logo — completou Pablo. — Quando começarem os jogos, só fica quem tiver o crachá.

— Valeu, irmão — agradeceu Marcos, animado. — Bora, Chico.

Sem dar muito tempo para hesitação, Marcos puxou Francisco pelo braço, conduzindo-o em direção à pequena fila que se formava adiante. Ao se aproximarem da mesa, Marcos percebeu que Francisco ainda mantinha o semblante fechado. Os olhos dele evitavam o contato direto com qualquer um ao redor, e a testa franzida denunciava que algo o incomodava profundamente.

— Tá estranho, cara — Marcos comentou, parando de andar por um instante. — Que foi agora? Tá branco igual parede.

Francisco respirou fundo, olhou ao redor, como se buscasse alguma privacidade naquele ambiente movimentado, e sussurrou:

— Me diz uma coisa... quando você fez minha inscrição... você colocou meu nome todo?

— Claro, ué. Tava no formulário. Nome completo, CPF, data de nascimento, naturalidade... Por quê?

Francisco tirou a carteira do bolso traseiro da calça e puxou a identidade com os dedos tremendo. Abriu e a mostrou, apontando com insistência:

— Lê meu nome inteiro aqui.

Marcos, sem entender a urgência, leu em voz baixa:

— Francisco Oliveira Duarte de Almeida...

— E minha cidade de nascimento?

— Aracaju... Sergipe — completou Marcos. — Tá, e daí?

Francisco o encarou por um segundo, como se esperasse que a ficha caísse. Depois soltou, com a voz falhando:

— Cara... Marcos... Pensa nas iniciais...

O silêncio durou um segundo. Marcos olhou novamente para o documento e depois, quase em câmera lenta, virou os olhos em direção à mesa dos crachás, onde uma fileira de identificações aguardava. A ordem era alfabética. O olhar dele pousou direto na seção marcada com a letra F: no alto da pilha, o crachá destacava em letras grandes e douradas:

 

F.O.D.A. – SE

* Continua amanhã, dia 10/12.

** Leia a parte 2.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.