Por Gustavo Coelho
Mas, para Francisco, a vida não era apenas
movida pelos seus infortúnios. Apesar de tudo, ele tinha uma esposa que o
recebia com um sorriso sincero e um olhar calmo, o último refúgio depois de
qualquer tragédia. Aquilo bastava para que aguentasse as mazelas do dia a dia.
E naquela tarde, voltando mais cedo do trabalho — ou melhor, do lugar onde, até
aquela manhã, ele tinha um emprego —, era justamente disso que ele precisava:
um pouco de paz, algum conforto doméstico.
Pensava em como iria contar a ela —
talvez durante o jantar, com calma, explicando tudo da melhor forma possível.
Queria suavizar a notícia, então teve a ideia de levar para casa um bom vinho.
Nada demais, apenas um gesto para tornar menos amargo o que estava por dizer.
Parou na calçada, tirou a carteira do
bolso traseiro da calça e a abriu, olhando discretamente para o que restava do
seu dinheiro. Logo se deu conta de que não podia exagerar. Era hora de começar
a cuidar melhor das finanças, pelo menos até arrumar um novo emprego. Tinha que
ser um vinho barato…
Então, vistoriando a sua carteira à
procura de quaisquer recursos financeiros, ele enfiou os dedos num
compartimento lateral. Sentiu algo diferente: um papel dobrado, mais rígido que
as cédulas. Puxou com cuidado. Reconheceu de imediato: era um cupom
promocional, as letras ainda legíveis, mesmo que o tempo tivesse começado a
vencê-lo.
"40% de desconto em qualquer
produto da loja", lia-se no topo, com letras largas e um fundo verde que começava
a desbotar.
— Ah, é verdade… — disse em voz baixa,
os olhos fixos no papel. — Aquela inauguração do mês passado…
Lembrava-se bem do mercado novo: todo
decorado, cheio de funcionários apressados e sorridentes, bandeirolas coloridas
tremulando na entrada. Na época, ele não havia ido pela inauguração, mas sim
porque era caminho de sua casa.
Guardou o cupom no bolso com cuidado,
como se fosse mais valioso agora do que antes, e ajeitou o colarinho da camisa.
— Um bom vinho com desconto é o melhor
que posso fazer por ela hoje.
Olhou em direção ao quarteirão
seguinte, onde ficava o mercado e, sem pressa, mas decidido, atravessou a rua,
seguindo a passos firmes rumo ao que seria, por enquanto, seu único acerto do
dia.
Francisco cruzou a entrada do mercado
com o pensamento fixo em sua missão: encontrar o vinho, passar no caixa e
voltar para casa. Um gesto nobre antes da má notícia.
“Há males que vêm para o bem”, repetia
mentalmente enquanto empurrava o carrinho vazio por entre os corredores. O
cupom dobrado repousava no bolso da calça como se fosse um bilhete premiado.
Passando pelas gôndolas, seguiu direto
ao setor de bebidas. Diante da prateleira iluminada e bem-organizada, seu olhar
foi direto ao vinho do Porto favorito de sua esposa. A garrafa era vistosa, o
rótulo com letras douradas e serifadas. Um vinho caro, mas elegante. Com o
desconto do cupom, ele poderia bancar o agrado sem comprometer a reserva
financeira — já escassa — que precisava durar até um novo emprego.
Sem pensar muito, pegou a garrafa com
firmeza, agarrando aí a chance de suavizar a tempestade que estava por vir.
Dirigiu-se ao caixa rápido, onde uma funcionária, sentada atrás de um visor
antiquado, atendia com movimentos lentos e precisos.
Vinte minutos depois — entre suspiros,
pigarros e olhares impacientes da fila — ouviu finalmente:
— Próximo!
Francisco se aproximou com a garrafa na
mão e colocou o vinho sobre o balcão.
— R$ 531,44, senhor — disse a atendente,
pausadamente.
Ele acenou com a cabeça, confiante.
— Mas com esse cupom, o preço deve cair
bem, não é? – apresentando o papel com um sorriso malicioso.
A funcionária franziu os olhos ao pegar
o cupom. Levou alguns segundos analisando a parte da frente, virou o verso com
um movimento rápido e estreitou ainda mais o olhar. Em seguida, soltou:
— Esse cupom expirou semana passada,
senhor.
Francisco arregalou os olhos.
— Como assim? Deixa eu ver.
A mulher o devolveu. Ele examinou com
pressa, vasculhando por datas. E lá estava, no verso, em letras minúsculas,
quase imperceptíveis: “Válido até o dia 14” – e apertou os dedos nos olhos
quando leu o mês.
Com vergonha, olhou ao seu redor e viu
uma fila que serpenteava atrás dele, cheia de rostos apressados e olhos
impacientes. A funcionária, com a mesma calma, apenas o encarava esperando a
decisão. Ele pensou em recuar, deixar a garrafa e sair de lá às pressas, mas
algo no peso daquela fila, naquele silêncio constrangedor, o impediu.
— Tá bom... passa no crédito mesmo.
A senhora assentiu, finalizando a
compra sem comentários.
Com a sacola na mão, Francisco saiu do
mercado resmungando em voz baixa:
— Meia hora de fila pra tomar uma
dessa... Quase quinhentos e cinquenta conto! Meu Deus!
A cada passo sua mente calculava os
ajustes que precisaria fazer para equilibrar o mês. Uma refeição a menos no
dia, um presente adiado, talvez cancelar aquele serviço de streaming que
ninguém usava em casa. Tudo para compensar o que agora era apenas uma garrafa
cara, balançando dentro de uma sacola plástica fina.
Mas ainda assim, pensava, talvez o
sorriso dela valesse o preço...
Eram 15h45 quando Francisco subiu os
degraus do prédio onde morava. Sentia o peso do dia nos ombros. A luz da tarde,
filtrada pelas janelas do corredor, desenhava sombras compridas no chão. Diante
da porta de seu apartamento, respirou fundo.
Sabia que não era o seu horário
habitual. Preparava-se para entrar sem fazer muito alarde, pois não queria
assustar a sua esposa. Como ela não visualizara a mensagem que ele deixara no
Whosapp, calculou que provavelmente estivesse tirando um cochilo, como
costumava fazer à tarde.
Com cuidado, retirou os sapatos e girou
a chave lentamente, empurrando a porta com a ponta dos dedos. O ambiente estava
silencioso, acolhedor. Sem grandes ruídos, caminhou até a cozinha, abriu a
geladeira e acomodou a garrafa de vinho na prateleira inferior. Sentia-se
exausto, como se o dia tivesse durado uma semana inteira. Decidiu que um banho
quente cairia bem antes de qualquer conversa difícil.
Rumo à suíte, empurrou a porta
entreaberta do quarto e confirmou sua suspeita: sua esposa repousava na cama, o
corpo sereno sob a penumbra que atravessava as persianas. Estava vestida com
uma lingerie leve e dormia de lado, como sempre fazia, em uma pose sensual. Por
um instante, Francisco hesitou. Pensou em deitar-se ali ao lado dela e deixar o
tempo correr. Mas o suor e o peso do dia exigiam outra escolha.
Com delicadeza, sem ruído, abriu a
porta do banheiro da suíte, revelando a cena em um flash instantâneo,
inesperada e perturbadora.
Sentado bem à sua frente, em seu
vaso sanitário, um homem nu se contorcia. Havia em sua face uma máscara de
sofrimento agudo. Os ombros estavam tensos, a testa franzida em uma careta de
dor. Da sua barriga vinham uns ruídos estranhos, e seus braços a agarravam como
se tentassem conter uma força avassaladora. Era óbvio que ele estava no meio de
uma batalha visceral.
O homem soltou um gemido baixo,
apertando ainda mais a barriga. Em meio à sua aflição, seus olhos encontraram
os de Francisco. Havia um misto de vergonha e desespero naquele olhar.
— Ah, droga… — ele conseguiu articular,
com a voz tensa e entrecortada. — Me desculpa… não consigo segurar…
Uma onda invisível, densa e ácida explodiu do banheiro, atingindo as narinas de Francisco, que levou a mão entre a boca e o nariz, tentando filtrar a realidade. Seus olhos lacrimejaram instantaneamente, dando dois passos cegos para longe da porta, buscando ar puro onde não havia. Seu calcanhar bateu na estrutura da cama, e seu corpo, já sem comando, desabou para o lado, caindo com todo o peso sobre a forma adormecida de sua esposa. O impacto a despertou com um grito agudo, misto de susto e dor.
** Leia a parte 1.
Gustavo
Coelho,
natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação
Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado
pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do
anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da
Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.
