8 de dez. de 2025

F.O.D.A. - SE (Parte 2)

Por Gustavo Coelho

Mas, para Francisco, a vida não era apenas movida pelos seus infortúnios. Apesar de tudo, ele tinha uma esposa que o recebia com um sorriso sincero e um olhar calmo, o último refúgio depois de qualquer tragédia. Aquilo bastava para que aguentasse as mazelas do dia a dia. E naquela tarde, voltando mais cedo do trabalho — ou melhor, do lugar onde, até aquela manhã, ele tinha um emprego —, era justamente disso que ele precisava: um pouco de paz, algum conforto doméstico.

Pensava em como iria contar a ela — talvez durante o jantar, com calma, explicando tudo da melhor forma possível. Queria suavizar a notícia, então teve a ideia de levar para casa um bom vinho. Nada demais, apenas um gesto para tornar menos amargo o que estava por dizer.

Parou na calçada, tirou a carteira do bolso traseiro da calça e a abriu, olhando discretamente para o que restava do seu dinheiro. Logo se deu conta de que não podia exagerar. Era hora de começar a cuidar melhor das finanças, pelo menos até arrumar um novo emprego. Tinha que ser um vinho barato…

Então, vistoriando a sua carteira à procura de quaisquer recursos financeiros, ele enfiou os dedos num compartimento lateral. Sentiu algo diferente: um papel dobrado, mais rígido que as cédulas. Puxou com cuidado. Reconheceu de imediato: era um cupom promocional, as letras ainda legíveis, mesmo que o tempo tivesse começado a vencê-lo.

"40% de desconto em qualquer produto da loja", lia-se no topo, com letras largas e um fundo verde que começava a desbotar.

— Ah, é verdade… — disse em voz baixa, os olhos fixos no papel. — Aquela inauguração do mês passado…

Lembrava-se bem do mercado novo: todo decorado, cheio de funcionários apressados e sorridentes, bandeirolas coloridas tremulando na entrada. Na época, ele não havia ido pela inauguração, mas sim porque era caminho de sua casa.

Guardou o cupom no bolso com cuidado, como se fosse mais valioso agora do que antes, e ajeitou o colarinho da camisa.

— Um bom vinho com desconto é o melhor que posso fazer por ela hoje.

Olhou em direção ao quarteirão seguinte, onde ficava o mercado e, sem pressa, mas decidido, atravessou a rua, seguindo a passos firmes rumo ao que seria, por enquanto, seu único acerto do dia.

Francisco cruzou a entrada do mercado com o pensamento fixo em sua missão: encontrar o vinho, passar no caixa e voltar para casa. Um gesto nobre antes da má notícia.

“Há males que vêm para o bem”, repetia mentalmente enquanto empurrava o carrinho vazio por entre os corredores. O cupom dobrado repousava no bolso da calça como se fosse um bilhete premiado.

Passando pelas gôndolas, seguiu direto ao setor de bebidas. Diante da prateleira iluminada e bem-organizada, seu olhar foi direto ao vinho do Porto favorito de sua esposa. A garrafa era vistosa, o rótulo com letras douradas e serifadas. Um vinho caro, mas elegante. Com o desconto do cupom, ele poderia bancar o agrado sem comprometer a reserva financeira — já escassa — que precisava durar até um novo emprego.

Sem pensar muito, pegou a garrafa com firmeza, agarrando aí a chance de suavizar a tempestade que estava por vir. Dirigiu-se ao caixa rápido, onde uma funcionária, sentada atrás de um visor antiquado, atendia com movimentos lentos e precisos.

Vinte minutos depois — entre suspiros, pigarros e olhares impacientes da fila — ouviu finalmente:

— Próximo!

Francisco se aproximou com a garrafa na mão e colocou o vinho sobre o balcão.

— R$ 531,44, senhor — disse a atendente, pausadamente.

Ele acenou com a cabeça, confiante.

— Mas com esse cupom, o preço deve cair bem, não é? – apresentando o papel com um sorriso malicioso.

A funcionária franziu os olhos ao pegar o cupom. Levou alguns segundos analisando a parte da frente, virou o verso com um movimento rápido e estreitou ainda mais o olhar. Em seguida, soltou:

— Esse cupom expirou semana passada, senhor.

Francisco arregalou os olhos.

— Como assim? Deixa eu ver.

A mulher o devolveu. Ele examinou com pressa, vasculhando por datas. E lá estava, no verso, em letras minúsculas, quase imperceptíveis: “Válido até o dia 14” – e apertou os dedos nos olhos quando leu o mês.

Com vergonha, olhou ao seu redor e viu uma fila que serpenteava atrás dele, cheia de rostos apressados e olhos impacientes. A funcionária, com a mesma calma, apenas o encarava esperando a decisão. Ele pensou em recuar, deixar a garrafa e sair de lá às pressas, mas algo no peso daquela fila, naquele silêncio constrangedor, o impediu.

— Tá bom... passa no crédito mesmo.

A senhora assentiu, finalizando a compra sem comentários.

Com a sacola na mão, Francisco saiu do mercado resmungando em voz baixa:

— Meia hora de fila pra tomar uma dessa... Quase quinhentos e cinquenta conto! Meu Deus!

A cada passo sua mente calculava os ajustes que precisaria fazer para equilibrar o mês. Uma refeição a menos no dia, um presente adiado, talvez cancelar aquele serviço de streaming que ninguém usava em casa. Tudo para compensar o que agora era apenas uma garrafa cara, balançando dentro de uma sacola plástica fina.

Mas ainda assim, pensava, talvez o sorriso dela valesse o preço...

Eram 15h45 quando Francisco subiu os degraus do prédio onde morava. Sentia o peso do dia nos ombros. A luz da tarde, filtrada pelas janelas do corredor, desenhava sombras compridas no chão. Diante da porta de seu apartamento, respirou fundo.

Sabia que não era o seu horário habitual. Preparava-se para entrar sem fazer muito alarde, pois não queria assustar a sua esposa. Como ela não visualizara a mensagem que ele deixara no Whosapp, calculou que provavelmente estivesse tirando um cochilo, como costumava fazer à tarde.

Com cuidado, retirou os sapatos e girou a chave lentamente, empurrando a porta com a ponta dos dedos. O ambiente estava silencioso, acolhedor. Sem grandes ruídos, caminhou até a cozinha, abriu a geladeira e acomodou a garrafa de vinho na prateleira inferior. Sentia-se exausto, como se o dia tivesse durado uma semana inteira. Decidiu que um banho quente cairia bem antes de qualquer conversa difícil.

Rumo à suíte, empurrou a porta entreaberta do quarto e confirmou sua suspeita: sua esposa repousava na cama, o corpo sereno sob a penumbra que atravessava as persianas. Estava vestida com uma lingerie leve e dormia de lado, como sempre fazia, em uma pose sensual. Por um instante, Francisco hesitou. Pensou em deitar-se ali ao lado dela e deixar o tempo correr. Mas o suor e o peso do dia exigiam outra escolha.

Com delicadeza, sem ruído, abriu a porta do banheiro da suíte, revelando a cena em um flash instantâneo, inesperada e perturbadora.

Sentado bem à sua frente, em seu vaso sanitário, um homem nu se contorcia. Havia em sua face uma máscara de sofrimento agudo. Os ombros estavam tensos, a testa franzida em uma careta de dor. Da sua barriga vinham uns ruídos estranhos, e seus braços a agarravam como se tentassem conter uma força avassaladora. Era óbvio que ele estava no meio de uma batalha visceral.

O homem soltou um gemido baixo, apertando ainda mais a barriga. Em meio à sua aflição, seus olhos encontraram os de Francisco. Havia um misto de vergonha e desespero naquele olhar.

— Ah, droga… — ele conseguiu articular, com a voz tensa e entrecortada. — Me desculpa… não consigo segurar…

Uma onda invisível, densa e ácida explodiu do banheiro, atingindo as narinas de Francisco, que levou a mão entre a boca e o nariz, tentando filtrar a realidade. Seus olhos lacrimejaram instantaneamente, dando dois passos cegos para longe da porta, buscando ar puro onde não havia. Seu calcanhar bateu na estrutura da cama, e seu corpo, já sem comando, desabou para o lado, caindo com todo o peso sobre a forma adormecida de sua esposa. O impacto a despertou com um grito agudo, misto de susto e dor.

* Continua amanhã, dia 09/12.

** Leia a parte 1.


Gustavo Coelho, natural do Rio de Janeiro (RJ), reside em Uberlândia/MG. Formado em Comunicação Social e especialista em Marketing, assim como todo bom nerd, é um apaixonado pela cultura Geek. Empresário com 45 anos, tem como hobby a contínua busca do anime perfeito. Casado, pai de uma linda filhota, entra neste mundo mágico da Literatura buscando expandir, cada vez mais, sua criatividade e imaginação.